quinta-feira, 20 de agosto, 2009

Frank Zappa e a música sem disco

Não custa voltar no Zappa, que já pensava nessas questões no começo dos anos 80. O texto abaixo é um trecho de uma matéria que escrevi pra capa da Bizz, quando ela ainda existia em 2006, sobre música digital. A íntegra da matéria tá aqui.

***

“CONSUMIDORES DE MÚSICA GOSTAM DE CONSUMIR MÚSICA, NÃO DISCOS DE VINIL EMBALADOS CAPAS EM PAPELÃO”. O negrito e o caps lock são tirados direto do original, que não é de nenhum consultor trend-setter descolado fazedor de cabeça de executivos da indústria da tecnologia e do entretenimento, e sim de ninguém menos que Frank Zappa. Logo que a música se despregou de seu suporte tradicional - na época, o disco de vinil - transformando-se em pedacinhos de zeros e uns transferíveis por redes de computadores, o principal iconoclasta musical do século vinte fez uma pergunta que até muita gente boa não fez: por que, se a música podia ser digitalizada - ou seja, livre de um suporte físico palpável (como o disco de vinil, a fita cassete, o cilindro do fonógrafo…) - por que raios a indústria fonográfica lançou um novo suporte?

Aí entramos no terreno da especulação, mas alguns fatos falam por si. O compact disc, apresentado ao público em 1982, é quase tão barato para fabricar quanto um disco de vinil, mas é mais prático para ser estocado e transportado - mais leve, menor, menos suscetível a atritos. Para tocá-lo, no entanto, os consumidores deveriam ter que comprar um novo equipamento, o CD-player - mais caro que qualquer outro player médio da época. E devido à sua suposta melhoria na qualidade do áudio (subjetiva, o tempo mostrou - vide os audiófilos de hoje em dia que ainda veneram o velho vinil), o disco passou a custar, em média, ao menos o dobro do antigo LP.

Alie a isso uma enorme campanha de marketing de todas as grandes empresas de tecnologia, que pegavam carona na novidade “CD” para lançar aparelhos que, além de alardear o compact disc como o futuro do áudio, rebaixava o vinil como suporte datado, mídia morta. Aos poucos, vitrolas e coleções inteiras de discos eram vendidas ou jogadas fora para abrir espaço para os pequenos discos prateados embalados em plástico. Sem querer - porque, por mais maquiavélicas que fossem as multinacionais na época, elas não teriam capacidade para pensar nisso (basta ver o zelo administrativo que fez com que o negócio praticamente falisse durante os anos 90) -, as pessoas estavam comprando um mesmo disco que já tinham pela segunda vez.

Entra Frank Zappa, crítico insistente de tudo que pode ser criticado - inclusive dele mesmo. De ascendência ítalo-americana, o compositor começou sua carreira com um pequeno estúdio em Cucamonga, gravando grupos de doo-wop, surf music e até se envolvendo com filmes pornô, até que entrou no imaginário mundial com discos que ridicularizavam o movimento hippie quando este era mais popular do que o YouTube em 2006. Desde os anos 60, mirou sua metralhadora musical em qualquer coisa que pudesse se mover, mas tinha como alvos favoritos o establishment norte-americano (inteiro, do governo às divas da indústria do entretenimento) e a estupidez humana. Engajado em causas espinhosas e delicadas, ele se pronunciou prontamente ao advento da música digital e em 1983, no mesmo ano em que o CD chegava ao mercado americano, escreveu sua “Proposta para a Substituição da Mercadoria Disco”, de onde saiu a citação em negrito do início. E finalizava a primeira parte de seu texto com mais negrito e letras maiúsculas: “As pessoas hoje em dia gostam mais de música do que nunca e eles gostam de levá-la onde quer que elas vão. ELAS PODEM OUVIR A DIFERENÇA ENTRE ÁUDIO DE BOA QUALIDADE E ÁUDIO DE MÁ QUALIDADE… ELAS SE IMPORTAM COM ESSA DIFERENÇA E ESTÃO DISPOSTAS A PAGAR PARA TER ‘ÁUDIO PORTÁTIL’ DE ALTA QUALIDADE PARA USAR COMO ‘PAPEL DE PAREDE PARA SEU ESTILO DE VIDA’”. Isso, lembrando, DEZ anos antes de a web atingir o grande público, DEZESSEIS anos antes do Napster e DEZOITO anos antes do iPod.

Zappa tinha até a resposta para problemas que ainda nem haviam começado a existir e aí que seu texto fica mais incisivo. Na segunda parte (chamada apropriadamente de “Respostas para Perguntas Intrigantes”), ele nos apresenta ao “Q.C.I.”. “Propomos adquirir o direito de duplicar digitalmente e estocar O MELHOR de cada um dos difíceis de transportar Q.C.I. (Quality Catalog Itens, Itens de Catálogo de Qualidade) de todas as gravadoras, reuni-los em um lugar de processamento central e torná-los disponíveis via fone ou cabo de TV paga, diretamente acessível através dos dispositivos caseiros de áudio do consumidor, com a opção de transferência de um ambiente digital para outro através da F-1 (o gravador de áudio digital da Sony, disponível para o público), Beta Hi-Fi ou cassete análogo simples (que precisa apenas da instalação de um conversor no próprio fone, cujo chip principal custa US$ 12)”.

“Todas as contas de pagamentos de royalties, cobranças do consumidor, etc., seriam automáticas e estariam no próprio programa básico do sistema”, Zappa continua. “O consumidor tem a opção de se inscrever em uma ou mais categorias de interesse, cobradas mensalmente, sem se preocupar com a quantidade de música que ele ou ela decidam gravar. Prover material em tal quantidade a um custo reduzido realmente diminuiria o desejo de duplicação e armazenamento, já que este estaria disponível a qualquer hora do dia ou da noite”.

Zappa simplesmente bolou um sistema de pagamentos, acesso e distribuição de música que parece atender às necessidades de todos (com a exceção daqueles que cita no início do texto - “Muitas pessoas estão empregadas no campo de promoção de discos. Estes salários são, na maior parte, desperdício de dinheiro”). Sem a internet. Sem o MP3. Sem P2P.

E conclui: “Queremos uma quantidade GRANDE de dinheiro e os serviços de uma equipe de mega-hackers para escrever o software deste sistema. A maior parte dos equipamentos, mesmo quando você ler isto, já estão disponíveis como itens existentes no mercado, apenas esperando para serem plugados uns nos outros de forma que eles possam por fim na “INDÚSTRIA DO DISCO” como a conhecemos.

Isso, repito, em 1983.


Por Alexandre Matias às 13:37 | | Permalink
Categorias: Digital Loki Musica Pop Talagadas
Tags: , , ,

4 Comentários

bullet Bruno em 23 de agosto, 2009 às 2:46 pm

A Apple Store começa a fazer esse papel, né. Na de Londres, além de poder utilizar os computadores para acessar e-mail a vontade, os iPhones também ficam liberados pra ligações locais (mesmo para celulares), tranformando o lugar praticamente em um escritório gratuito.


bullet PRESTOR em 25 de agosto, 2009 às 6:00 pm

ótima matéria hein, muito foda.
Zappa é o mestre, realmente isso tudo que ele falava, tanto em músicas, shows e entrevistas está muito atual, a unica diferença é que temos essa comodidade de acervo musical toda de graça!
\m/ yeahh!


bullet Renata em 1 de setembro, 2009 às 12:54 pm

Você conhece a proposta que poderá isentar a música brasileira dos impostos?

A PEC da Música está para ser votada na Câmara e pretende dar à música nacional o mesmo tratamento que já é dado aos livros e revistas: isenção total de impostos, no caso para CD, DVD e, também, formatos digitais.
Contando com o apoio de artistas, músicos e muitos outros, a proposta, já aprovada em comissão especial, vai a plenário. É aí que você pode ajudar muito!
Sendo o responsável por um site que aborda o tema, é importantíssimo que você divulgue e informe os leitores, a fim de pressionar os deputados a votar a favor da proposta.
Qualquer dúvida, estamos à sua disposição pelo email: renata@otavioleite.com.br
Aproveito para parabenizá-lo pelo seu blog!
Assista ao debate promovido pela MTV na semana passada:
http://mtv.uol.com.br/debate/videos/mtv-debate-baixar-o-imposto-aumenta-venda-do-cd-clique-e-assista-na-%C3%ADntegra

O programa CQC também fala sobre a proposta aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=M_8FJEDdLD4

Acompanhe: http://twitter.com/otavioleite

O que saiu na imprensa sobre a proposta:
http://www.otavioleite.com.br/pesquisa.asp?q=pec+da+musica

A íntegra da proposta:
http://www.otavioleite.com.br/conteudo.asp?proposta-de-emenda-a-constituicao-no-98-de-2007-pec-da-musica-2303


bullet Luis em 2 de setembro, 2009 às 7:39 pm

O cara eh muito foda! E alem de tudo….Music is the best. FZ eh o meu guitarista favorito (junto com George Herison, Lou Reed e o Regis Damasceno).

To sempre lendo sobre os artista que curto aqui no Sujo. E melhor ainda, to sempre descobrindo novos sons por aqui tambem. Tem uma cara atual que eu curto bastante e que nao tenho visto muitos textos sobre ele nos blogs que eu costumo ler. Eh Daedelus Darling! Acho ele super criativo…Me lembra bastante FZ.


Envie seu comentário

calhamaço





leitura aleatória







































Comentários

RSS URBe

RSS Conector

RSS Mau Humor

tags

Arquivo

trabalhosujo
Alavanca
Allan
Arnaldo
Babee
Banksy
Bean
Bia
Bloody Pop
Bragatto
Bruna Beber
Bruno Natal
Bruno Nogueira
Bruno Orsini
Bruno Saito
Bruno Torturra
Caco Galhardo
Cardoso
Carla
Carlos Bela
Carol Bittencourt
Carneiro
Cearenses Internacionais
Chaka Hotnightz
Chico Barney
Chiquinha
Choque Cultural
Churrasco Grego
Cissa
Clarah
Clayton
Claudio Silvano
Concentrado
Coquetel Molotov
Cosko
Cristiano Bastos
Dafne
Dago
Dahmer
Dani
Dauro
De Leve
Delfin
Dominódromo
Eduf
Fabio Fernandes
Ferla
Fred
Flávia
Fuzz Noise
Gas
Gilberto Custódio
Goma
Grenade
Hector
Isabela & Thaís
Idelber
Ivan
Joca Reiners Terron
Jornalista de Merda
Kátia Lessa
Kátia Nogueira
Klaus
La Cumbuca
Laerte
Lalai
Lia
Liniers
Locutório
Loronix
Lucas Santtana
Luciano Matos
Lucio Ribeiro
Luís Carlos Azenha
Maldita
Marcelo Costa
Marcio K
Mario AV
Marquinhos
Matias Maxx
Mateus Potumati
Mateus Reis
Mini
Mormasso
Mundo 47
Nassif
Nix
Original Pinheiros Style
Pablo Casado
Pablo Miyazawa
Paulo Terron
Pedro Alexandre
Pedro Doria
Piangers
Rafa
Raios Triplos
Rango Tru
Renata
Ricardo Alexandre
Ricardo Lombardi
Rodolfo
Ronaldo Bressane
Ronaldo Evangelista
Senhor F
Serjão
Seth Godin
Só Pedrada
+Soma
Stephanie Gaspar
Talita
The Tarnished Angels
Tiago Dória
Tomate
Träsel
Ulisses
Wagner & Beethoven
Wax Poetics
Wilson
YB

OESQUEMA | Voltar a página principal © OESQUEMA/ 2008 | Reprodução permitida após consulta | Créditos