12 de fevereiro de 2010 às 14h53
David Lynch, mestre picareta
Aproveitando a deixa, aproveito para falar rapidamente de Lynch, um diretor que me desperta sentimentos dúbios. Nem chego perto de questionar seu valor cinematográfico – tanto técnica quanto esteticamente o cara é um mestre, isso sem contar a forma como ele está abraçando o cinema digital, que talvez seja o principal movimento de um bastião do cinema atual em abraçar o novo formato. Nem George Lucas – que, cinematograficamente falando, é uma nulidade – é tão empolgado com a mídia e o formato digital quanto David Lynch.
O que me incomoda é que toda sua mitologia, seu universo de estranheza e desconforto, sempre me pareceu uma tremenda ironia com todo o chamado cinema de arte. Uma ironia grosseira, beirando o ridículo, uma grande picaretagem em que, à medida em que ele vai deixando as coisas mais confusas, apenas vai conduzindo o espectador a uma espécie de estado de sonho que não deve ser racionalizado – mas que boa parte dos fãs de Lynch insiste em racionalizar. Não há explicação, não tente entender – mas tentam. E tentam.
Percebo David Lynch como um artista completo, além de apenas um diretor. Um sujeito que transformou-se em sua própria obra de arte – e nisso o sentido de sua filmografia é quase uma paródia do conceito de autoria cinematográfica. Tirando Eraserhead, um trunfo inicial que poucos diretores podem chegar perto, seu início de carreira é um jogo de tentativa e erro que só chega a um consenso no final dos anos 80, quando inventa seu noir-bizarro americano, entre Veludo Azul e Twin Peaks, e começa a curtir uma tensão surrealista misturada com uns Estados Unidos idealizados, à Norman Rockwell, pelos anos 50 imortalizados em áudio e vídeo em comerciais de eletrodomésticos, filmes de Billy Wilder e Alfred Hitchcock e comédias de Cary Grant e Doris Day. É quase uma caricatura, um quadro do Monty Python ou do Saturday Night Live sobre um diretor de cinema americano que acha que pode criar um senso de cinema europeu com as matizes dos EUA.
Mas como personagem de si mesmo, Lynch é impecável. E que cabelo.
14 Comentários



Profissão: autobiógrafo.


13 de fevereiro de 2010 às 14h11
Adoro o Lynch, adoro a obra dele, mas o que fica patente nos seus últimos filmes é a massiva auto-referência, principalmente no Inland Empire. Se isso é ruim, nunca saberei, pois não consigo apagar da lembrança todos os outros filmes dele que assisti. Apenas uma pessoa que está vendo o Inland Empire como primeiro filme do Lynch poderia ter uma opinião concreta sobre o assunto.
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13 de fevereiro de 2010 às 14h49
Eu gosto dos filmes dele. A forma como usa a câmera, trilha sonora, escolha dos atores, bizarrices, tudo se encaixa muito bem. Ele é um provocador, que brinca com os chamados filmes de arte e a produção mais comercial. Faz paródia de todos, inclusive de si mesmo. E nisso concordamos. Mas só acho o termo picaretagem forte. Picareta pra mim é quem faz filme comercial tentando parecer de arte. E não é o caso.
O último filme que vi dele foi Inland Empire. No começo chega a ser irritante. Mas depois o filme dá uma virada e passa misturar delírios, mistérios, metalinguagem que prendem a atenção e fazem você falar várias vezes em voz alta: wtf!? hehehehe
Para mim o bom dos filmes dele é justamente não ter que teorizar, não saber o que vem pela frente, e saber que o final pode ser de qualquer forma. Além disso, sempre há personagens que dão um medo danado. Acho que seus filmes têm muito material que poderiam ser utilizados pelos diretores de filme de terror.
Quantos aos seriados, Arquivo X e Lost, para citar dois, têm muito de Twin Peaks.
E pode-se até detestar o que ele faz, mas não dá pra não reconhecer que tem estilo próprio e é coerente.
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13 de fevereiro de 2010 às 16h31
eu acho ele fofo.
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14 de fevereiro de 2010 às 17h13
>Nem George Lucas – que, cinematograficamente falando, é uma nulidade
THX1138 e american graffiti são clássicos dos seus gêneros e revelam que george lucas pode ser um artista do cinema se quiser. só que ele escolheu ser empresário.
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14 de fevereiro de 2010 às 17h36
Oi Alexandre
Concordo com muitas coisas apontadas sobre o Lynch aqui, mas em “sempre me pareceu uma tremenda ironia com todo o chamado cinema de arte” talvez caiba uma mudança de perspectiva. Vejo isso mais como uma questão de visão de diretor, de autoria ou, pra usar um jargão intelectualóide, “poética”.
Tenho cá pra mim que isso é coisa da arte na América mesmo, a exemplo dos minimalistas na música como o Reich e o Glass que simplesmente começaram a compor, sem negar ou sobrepor nenhum cânone alemão ou francês eruditos e fizeram o que fizeram.
Quero dizer, acho que o Lynch não nega ou tenta avançar contra/com uma certa escola de cinema (de arte, européia, sei lá…) mas saca que através desse tensão surrealista minimalista um caminho mais genuíno pra sua expressão. E acho que não é pouca coisa: chegar nesse nível de linguagem me parece coisa muito bem acabada e refinada. Como você mesmo diz, um mestre mas não-tão-assim picareta.
Gde abraço
Thomas
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17 de fevereiro de 2010 às 2h02
O que importa é que o eraserhead é obra de arte. Ou não.
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17 de fevereiro de 2010 às 12h43
ótimas sacadas, bicho, mas ele não é irônico quando à obra. tu viu o documentário brasileiro sobre a vinda dele e meditação? tem todo um lado picareta nesse projeto dele [parceiro do maharishi, pedindo grana ao redor do mundo pra ensinar meditação] mas quanto à obra ele é extremamente sincero e isso transparece pelo seguinte:
antes de tudo ele é artista plástico, faz coisas pra serem sentidas e não racionalizadas. o INLAND EMPIRE é uma video-instalação de 3 horas. de cara achei um saco [e eu tava meio zoado no dia, fui banheiro vomitar depois da sessão] mas quando vc pensa nas coisas mais surreais que ele faz como sonhos, vai entender que, como sonhos, os filmes têm uma lógica própria, que vem do inconsciente como a escrita automática do Burroughs [o INLAND não tinha roteiro, só cenas soltas que ele foi juntando] e através de sentir vc chega a uma racionalização perfeitamente lógica. eu consigo entender os filmes dele como história linear [em alguns casos, cíclica] e recontar tudo sob uma lógica cartesiana se preciso.
ao contrário de outros caras, ele chega no documentário e diz que seus filmes podem ser entendidos por qualquer um, se estiverem em contato com o inconsciente pra poderem ser sentidos, que nem um quadro. e essa é a a arte do cara, e sua picaretagem. como eu acho q entendo, não considero ele tão picareta nesse sentido. acho mais picareta os diretores europeus [e mesmo alguns americanos] que acham que o espectador precisa de um curso de história da arte, outro de psicologia e pós em literatura pra entender seus filmes – que não seriam pra meros mortais. ele acha que sua arte é pra todos, e isso é foda. ele não é pretensioso no hermetismo.
e tal qual todo artista plástico, o Lynch faz esses comerciais extremamente pop e bisonhos. tem um recente de perfume com Blondie na trilha, lindão. que pega todos os maneirismos estilísticos do cara pra reverenciar o Belo [a Beleza da Arte, não o pagodeiro romântico] e isso é usar sua técnica e sensibilidade pra vender produto – isso é picaretagem sim, mas tem sua genialidade pq paga as contas. comerciais vários fodões do cinema fizeram, isso é o de menos. voltando pro cinema, caras contemporâneos que primam pelo estilo antes da pela história e o conteúdo: Cameron, Tarantino, Von Trier etc. AVATAR não tá sendo comparado a uma obra de arte pelo valor estético? então. não concordo, pra mim é abertura de videogame de 3h, mas se é por aí… o Tarantino destila seu amor pelo cinema B em peças de teatro filmadas – é um sampler\remixer de referências antigas. o Lynch é tão picareta e artista quanto esses caras.
então sim, ele é picareta em vários sentidos, mas não é consciente disso: posso estar me enganando mas acredito que ele faz coisas viscerais que vêm lá de dentro mesmo. pode ter esse pacote irônico na comédia bizarra, mas ele não é muito além de um caipira que foi pra escola de arte. tem o topete, as relações com mundinho das artes e tal, mas ele é um weirdo que não se auto-analisa freudianamente, ele abre o tampão e deixa vazar tudo reichianamente, por assim dizer.
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17 de fevereiro de 2010 às 15h55
David Lynch é a prova definitiva de que os americanos não sabem diferenciar non-sense de sem-sentido, e não fazem a menor idéia do que seja surrealismo.
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17 de fevereiro de 2010 às 20h06
Fui vê-lo na Travessa aqui no Rio… Fiquei tão impressionada, ele exagerou no topete, deve ter ficado um bom tempo no espelho… olhou bem fundo nos meus olhos, acho que olhou assim pra todo mundo, na hora de autografar… tudo bem. Ele é de-mais.
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18 de fevereiro de 2010 às 1h59
cuidado matias, se vossuncê mexer com o velho de topete, te pego lá fora! (imagine aqui que eu to te mostrando os dentes, assim, tipo com raiva)
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19 de fevereiro de 2010 às 14h30
Falar em David Lynch, cê já viu o Duna, adaptação dele pro livro do Frank Herbert? Pois esquece o filme e lê o livro. Acabei de reler, ainda tô na maior pilha, e o mundo de Arrakis e suas implicações (como a religião que construíram em torno da obra) merecem até um post por aqui. Ficadica.
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25 de fevereiro de 2010 às 2h06
Só não é mais picareta do que o pupilo J.J. Abrams e seu “Lost”, que nem esperou construir uma carreira antes de partir para bizarrices sem explicação.
Quer dizer, posso morder a língua com o final da série, mas por enquanto aposto que nada vai ser explicado. Hahaha!
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25 de fevereiro de 2010 às 4h59
Obvio q tu vai morder a lingua.
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12 de fevereiro de 2011 às 8h31
[...] leve em consideração que eu admiro David Lynch apenas como um picareta – um mestre picareta, já escrevi sobre isso (vale também ver os inacreditáveis comerciais que ele já dirigiu). E fico feliz de ter [...]
15 de fevereiro de 2011 às 2h26
E ai? Será que ele mordeu a língua mesmo? Hahaha!
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