8 de abril de 2010 às 9h41
De volta ao vinil
Materinha que fiz pro C2 Música, a edição semanal do Caderno 2 do Estadão dedicada ao tema, sobre a visita que fiz há menos de um mês à Polysom, a tão falada única fábrica de vinis da América Latina, que finalmente lançou seus primeiros discos. Ela conversa com o Personal Nerd que fiz pro Link há duas semanas.

Sulcos do acetato, primeira etapa na fabricação do vinil, vistos no microscópio da sala de corte
Fotos: Tasso Marcelo/AE

Fazendo disco: o pó de PVC é posto na extrusora…

…que depois sai pelo cilindro à direita, como uma massa mole…

…as matrizes do disco são postas na prensa, que é calibrada a cada prensagem…

…a massa de vinil é posta entre os dois rótulos do futuro LP e depois posta na prensa…

…que, uma vez fechada, é aberta para revelar o disco idêntico ao que você vai pegar na loja, ainda quente…
O que ele está fazendo aí?
Passar um dia na Polysom, única indústria de vinil da América Latina, é como viver nos tempos em que CDs e música digital não eram mais do que ficção
Uma massa mole e preta sai quente de uma máquina chamada extrusora. Moldada numa pequena bola que cabe na palma da mão, ela é disposta sobre um dos rótulos de papel do futuro disco ? o outro é aplicado por cima, formando uma espécie de sanduíche de massa de pó de PVC e papel, que é colocado em uma enorme prensa hidráulica. A máquina faz seu trabalho em poucos segundos: espreme o bolinho engraçado entre duas chapas horizontais que, ao se afastarem uma da outra, revelam um disco de vinil recém-prensado.
Esta operação simples e quase artesanal é a etapa final de um processo que chega ao fim após quase um ano. “A gente achava que em um mês dava para colocar isso para funcionar e já estamos há oito meses, sempre fazendo testes para ficar direito”, explica João Augusto, dono da gravadora Deckdisc e agora proprietário da Polysom, a única fábrica de discos de vinil da América Latina.
A fábrica fica em Belford Roxo, região metropolitana do Rio, e a ida do Aeroporto Santos Dumont ao portão da Polysom dura quase o mesmo tempo que o do voo Rio-São Paulo. Ao volante, Rafael Ramos, filho de João Augusto e diretor artístico da gravadora ? um dos principais entusiastas da reativação da Polysom -, recorda o feito, com o sorriso largo. “Nem parece que até outro dia isso era só uma provocação que eu fazia com o meu pai”, revela enquanto atravessamos a Linha Vermelha saindo do Rio.
É importante entender o papel de Rafael nesse processo, uma vez que ele faz parte de uma geração que viu os vinis nas coleções dos pais, assistiu à ascensão e posterior queda do CD, viveu os primeiros dias da música digital, sem suporte e sem disco, e redescobriu o velho disco preto quase no fim da primeira década do século.

“As pessoas compram pelo fetiche”, diz João Augusto, um dos donos da Polysom
E Rafael está longe de ser o único. Só nos EUA, no ano passado, foram vendidos 2 milhões e meio de vinis, um número a que João Augusto acrescenta um dado interessante: “47% desses compradores sequer tem toca-discos”, enfatiza citando uma pesquisa feita pelo instituto Nielsen Soundscan. “As pessoas compram pelo fetiche.”
As megastores brasileiras não demoraram a perceber isso, tanto que algumas já exibem prateleiras com vinis recém-fabricados – todos importados. “Mas a maioria das lojas não tem nem espaço para receber os discos”, conta João. E ele traduz esse novo interesse pelo vinil ao contar como foi que a cantora Pitty reagiu ao ver seu disco na versão vinil: “Agora, sim, somos uma banda de rock.”
Pitty faz parte da primeira safra de discos saída da gravadora, todos da Deckdisc. Além do relançamento de Chiaroscuro, a primeira leva ainda inclui outros discos da gravadora carioca: o solo da vocalista do Pato Fu Fernanda Takai e os discos mais recentes dos grupos Cachorro Grande e Nação Zumbi. Mas João é enfático ao dizer que a Polysom não é a fábrica da Deckdisc. “É dos sócios da Deckdisc, cobramos da Deck o mesmo que cobramos de qualquer um.”
Ele acredita que a primeira etapa do processo está terminando agora, com a fabricação dos primeiros discos. “Só agora é que as pessoas vão ver que é verdade”, festeja. E não está falando apenas dos consumidores, mas também das gravadoras e dos artistas. “Acredito que os artistas vão motivar muito este movimento”, diz João, contando que alguns deles – Jorge Ben Jor e Lenine – já abraçaram a ideia.
Resta saber como o mercado brasileiro reagirá aos lançamentos. A gravadora EMI é uma das que estão em conversações com a Polysom para o relançamento da discografia do grupo Legião Urbana. Se ainda é cedo para saber se o velho LP volta para valer às lojas, ao menos podemos comemorar que a única fábrica de vinil da América Latina fica no Brasil ? e já está funcionando.
Na linha de produção

Pré-análise do áudio. O operador mede a qualidade do som usando instrumentos específicos e sua experiência técnica, antes do áudio começar a se transformar num vinil.

Cabeça de corte. Esta máquina funciona como um toca-discos. A diferença é que, em vez de reproduzir o som, ela grava os sulcos no acetato.


Galvanoplastia. É a fase química do processo, em que o acetato original é colocado em tanques com nitrato de níquel. As partículas de níquel “grudam” no acetato, formando uma “capa”, que é retirada e funciona como um vinil em negativo.
Prensagem. A capa de níquel é colocada nas prensas, que depois recebem uma massa mole feita a partir de pó de PVC que, prensada, vira um disco.
9 Comentários




Profissão: autobiógrafo.


9 de abril de 2010 às 8h22
A unica vantagem do retorno da Polysom é que artistas nacionais terão seus álbuns em LP , discos clássicos como A Opera do Malandro e Acabou o Chorarê ganharão reedições.
E o resto acabou sendo decepcionante pois parece que para bandas estrangeiras não haverá diferença de preço entre um vinil importado e outro feito aqui.
Se o disco da Pitty tá 85 conto , imagina um do Sonic Youth ou do Nine Inch Nails !
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9 de abril de 2010 às 12h06
Na verdade eu tambem tenho curiosidade sobre essa composição de preço: pelo que sei os discos importados na Livraria Cultura, por exemplo, custam em media R$ 90/100 fortemente em função dos impostos, o que leva o disco da Pitty, por exemplo, produzido na Polysom, custar 90? É uma pergunta de quem está feliz em ver o retorno da Polysom mas não acha que o disco de vinil deveria ser tratado como produto de luxo :(
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9 de abril de 2010 às 12h09
Menos impostos,menos imposto,corruptos filhos da puta,Menos impostos,menos imposto,Menos impostos,menos imposto
Quero pagar apenas 400 dólares no meu Turntable.
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19 de abril de 2010 às 8h21
Complexidade e sofisticação necessariamente não significam progresso e evolução. Por isso, nada contra o processo de fabricação do Vinil-LP, simples, porém, perfeito, pois não é feito com braços robóticos como as outras mídias onde há erros, já que robôs falham e não detectam fungos (Microscópicos). Vemos tantas coisas surgirem a pretexto de evolução e caírem na descartabilidade e na pouca durabilidade e serem substituídas novamente em pouco tempo. É preciso rever o que é importante no tal de “progresso”, pois ele nem sempre significa avanço. Vejam os carros, cada vez mais confortáveis e cada vez dando mais dor de cabeça, pois cada vez mecânicos com no máximo segundo grau não entendem e não tem raciocínio para informática ou “nano-sofisticações” e eletrônicas embarcadas.
Com o CD e parentes, o mesmo se deu. Proclamado forte na boca do cachorro na propaganda de lançamento, não resiste a uma manipulação descuidada e nem ao implacável oxigênio que o oxida. E nem as fábricas piratas. Repare, o simples pode ser perfeito. A vida está recheada desses exemplos – O vidro, a lâmina de barbear, a vela, o lápis que escreve de cabeça para baixo até na estação lunar a vácuo… A humilde caixa de fósforos, que vence a pilha finda e a companhia de eletricidade que não cuida dos isoladores e lavagem de cabos e falha na primeira chuva forte.
O que quero dizer com isso? Que o homem tenta passar uma idéia de progresso e avanço em produtos onde ainda não o tem. O CD, com suas 44.1 amostragens por segundo (a.s) e limite de 20,05 kilohertz no espectro sonoro, aliado isso a ter apenas a metade dos registros no seu interior e a outra metade na leitora (No CDA) (É assim mesmo – A leitora inventa o que falta na hora de tocar o CD e a isto se chama interpolação ou o anglicismo (“sampleamento”). O SACD, DVD-A, Blue-Ray – Nenhum desses produtos superou em sonoridade, tonalidade, o Vinil-LP ou Vinil-compacto em temos de sonoridade, e a explicação é fácil: A leitura do registro do LP é contínua e é uma imagem a mais aproximada possível do som real, um espelho do som real, sem angariar com o prejuízo de acréscimos de algum eventual estalinho, que do som nada retira, apenas acrescenta, mesmo que seja som indesejável (Mas até charmoso para outros – Vide sujeira do cinema imitada pelos sistemas digitais), mas inaudível quando o LP está tocando, com seus –96dB SPL, em média, pois –50dB SPL só abaixo de freqüências inferiores a 500hz. Fisicamente, o som do Vinil, digamos, se levarmos para uma linguagem de informática, tem um “sampleamento” infinito, coisa que DVD’s-A, SACD’s, HD AAC’s nunca atingirão, pois tem limite de número de amostras, pois é sabido que muitas amostras criam problemas terríveis para o som, (Dither, Quantizações imperfeitas, aproximadas, que interferirão na naturalidade dos harmônicos e formantes dos instrumentos de madeira) com a palavra, os físicos especializados em informática e os Doutores em ciência da computação. Toda essa digressão fiz, para mostrar que é difícil superar o “simples que deu certo” (Leia-se, o LP, o Vinil). A afirmação de José Augusto no texto merece contraponto: É precipitado dizer que “As pessoas compram Vinil por fetiche”. É uma afirmação um tanto precipitada que pode informar mal. Faltou o complemento “também”. Recebo vários e-mails desde que criei meu blog e o que vejo o que é o desespero dos meus leitores em apressarem-se para comprar um vinil que temem “sair” logo de catálogo, desaparecer da prateleira e depois ficarem-me a consultar sobre este e aquele toca-discos; esta e aquela cápsula. Duvido que alguém compre um vinil só para ficar enfeitando a casa ou um lugar de destaque, apesar de eu ser o maior divulgador em meu próprio blog que capas de Vinil podem ser arte, desde que feitas por bons fotógrafos artistas ou boa gente artista da área gráfica, isto sem contar que o Vinil tipo capa dupla é tal qual um livro de fotos bonitas e texto legível, que convida qualquer um a leva-lo para casa. Então não é só Fetiche. É um produto composto de arte fotográfica, textos, assinatura dos cantores (autógrafos) e outras coisas mais, como por ex., o “picture disc” (Disco colorido, temático). E o mais importante item: Todo consumidor que compra uma obra de arte, vale dizer, uma música fisicamente registrada – Falo dos que valorizam a música e pretendem guarda-la para sempre ouvi-la – Deseja que o item adquirido tenha durabilidade! Sim, vinis já provaram serem extremamente duráveis – Desde que não relapsamente cuidados – Afirmando os químicos ser a duração do material PVC estimada em 500 anos. Nenhum ser humano dura isso, mas a humanidade está durando muito mais, pelo menos até agora e as gerações do futuro merecem conhecer em tamanho quase natural a foto dos cantores e a sua música, (Lembrando que o som do vinil já completa 63 anos), mostrando assim quem foi Lupcínio Rodrigues ou Herivelton Martins, apenas a título de exemplo. Com tudo isso, quero dizer que – Abaixe-se a “cultura da substituição” neste jovem e inexperiente país de 500 anos, inculcadora de idéia de obsolência, (Olha o vidro, que não é obsoleto e tem mais de 5.000 anos) pois, o “velho mundo” não caiu nessa do “digital” (Numerização do som) e sempre, sempre, teve toca-discos e discos de vinil nas suas prateleiras, pois democracia de consumo é isso – Não é imposição de consumo, mas liberdade de escolha daquilo que se tem capacidade de consumir, não só financeiramente, mas principalmente mentalmente, (Audição, sensibilidade), pois nem todos são capazes de distinguir um som não tão bom de outro melhor e nem tem sensibilidade para guardar, recordar. E nem todos gostam de construir a própria história pessoal, com suas escolhas, seus objetos. Abaixo a cultura da substituição compulsiva e obrigatória, mal-informada e difamatória.
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19 de abril de 2010 às 8h25
Preço é algo subjetivo para o quanto valor se dá a algo.
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25 de abril de 2010 às 12h57
gostaria de saber ser voces anda grava vinil? porque sou um colecionador,esporo pela sua resposta
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Pingback por A Tábua de Esmeraldas e África Brasil em vinil - Trabalho Sujo - OESQUEMA
17 de maio de 2010 às 8h44
[...] Polysom volta para o passado da música brasileira cravando os dois melhores Jorge Bens. Visitei a única fábrica de vinil da América Latina no início do ano, em uma materinha pro Cadern…. « Acordando com a Rachel Weisz | » Por Alexandre Matias às 8:44 | | Permalink [...]
Pingback por Seresteros » Vinil de novo
6 de junho de 2010 às 2h01
[...] é uma matéria que o Matias fez pro Estadão : a visita a uma fábrica de vinís em Belford Roxo – RJ. [...]
31 de março de 2011 às 18h08
gostaria de saber se vcs ainda estão gravando vinil? moro em belém do pará aguardo resposta ok um abraço.
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