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The ’69 Los Angeles Sessions – Fela Kuti

Aproveitando a onda da ressurreição dos textos velhos, eis outro que foi republicado no dia 13 de junho de 2007, mas cujo link original no falecido Geocities datava de 13 de dezembro de 2002. Eniuei, eis o primeiro grande disco de Fela Kuti.

Fela Anikulapo Kuti é o equivalente africano de Che Guevara e Bob Marley ao mesmo tempo, gênio da raça, líder pacifista e voz do povo. Papa do afrobeat, trouxe os milenares ritmos africanos para a era elétrica, fundindo-os com a força bruta do jazz, funk e rhythm’n'blues. Com seu front musical, entrava em transes percussivos acompanhados de cavalgadas de baixos elétricos, guitarras em profusão, um coro feminino em primeiro plano e uma enxurrada de instrumentos de sopro, com o sax de Kuti em primeiríssimo plano. Com mais de uma centena de discos com sua participação (álbuns costumeiramente divididos em quatro blocos de quinze minutos, que tornavam-se horas ao vivo), Fela criou uma obra tão vasta quanto densa, de valor inestimável e de fácil aceitação. Mas como a África, Fela Kuti é deixado de lado da história mundial, como um gigante incompreensível, uma floresta fechada onde nenhum homem jamais esteve.

Puro preconceito. A obra do filho mais controverso da nação nigeriana não é apenas de fácil aceitação como perfila-se muito bem ao lado de senhores do ritmo como James Brown, George Clinton, Miles Davis, Afrika Bambaataa e o supracitado Marley – todos conduzindo seu público a um êxtase coletivo baseado na fusão de ritmo e eletricidade, sempre num redemoinho de instrumentos tocados de forma radical, ao extremo. Teclados, bateria, percussão, trombones, guitarras, backing vocals, bailarinas, trumpetistas, baixista, saxofonistas – todos seguinto o fluxo ininterrupto de som, uma avalanche sônica que corre com a força da correnteza de um rio. Como seus pares de pulso, Fela aproveitava a deixa do balanço para falar de política, sempre de forma abstrata e direta, como os discursos monossilábicos de Marley e de Brown.

Nascido em 15 de outubro de 1938 (na cidade de Abeokuta, no sul da Nigéria, conhecida como a capital do Estado de Ogum), Fela Ransome Kuti aprendeu noções de política no berço, graças à mãe (que freqüentava o círculo de amizades da feminista Nnamdi Azikiwe, nos anos 40), o avô (pastor anglicano, era conhecido como “o padre cantor” devido à forma que catequizava seus fiéis) e o pai (autoritário e repressor, se tornou uma metáfora usada por Fela para descrever a situação do seu povo e de seu país). Mas Kuti não se limitava a falar e conduzia a revolução em seu país na prática, pegando em armas e desafiando autoridades sempre que preciso. Seu nome estava nas páginas dos jornais tanto na sessão de artes e espetáculos como nas de política – e muitas vezes nas de polícia. Notório canábico (fazia questão de ostentar baseados gigantescos, que esfumaçavam a cara de suas visitas), também era conhecido por sua disposição sexual, que o fez desposar 27 mulheres num mesmo casamento, remetendo às tradições iorubás. Um artista completo, morreu em conseqüência da Aids, em 1997, deixando uma obra irrepreensível.

Mas por onde começar? Kuti é desses artistas como John Zorn, Sun Ra, Neil Young ou Frank Zappa, cuja extensão e importância da obra só é compatível à de cada um dos discos. Difícil eleger “o melhor” disco de Fela, pois sua música é sua própria vida, e cada momento específico traz revelações próprias dele mesmo. E se é possível demarcar um período importante em sua carreira, este acontece de 1968 a 1997, nos seus últimos trinta anos de vida. É neste intervalo de tempo que ele cria, amadurece e consagra sua convulsão de ritmos e instrumentos batizada de afrobeat.

O conceito de afrobeat surgiu quando Kuti fez sua primeira excursão para os EUA. Sua vida se tornou oficialmente dedicada à música quando sua família o mandou estudar Medicina em Londres, mas ele transferiu o curso para Música. Dentro da cena universitária conheceu o jazz e o rhythm’n'blues norte-americano e em 1961 fundou seu primeiro grupo, o Cool Cats. Pouco depois, o grupo se transformava no Koola Lobitos e era formado apenas por nigerianos que faziam intercâmbio na Inglaterra. O grupo volta à Nigéria e é um pequeno sucesso nacional, passando a se tornar o nome mais popular e jovem do gênero highlife, a fusão de ritmos africanos e jazz tradicional. A próxima escala seria nos Estados Unidos, onde Fela tanto sonhara em encontrar seus ídolos musicais.

Mas mais do que música, Fela foi exposto a idéias. Em contato com os movimentos de intelectuais e líderes negros como Eldrigde Cleaver, Malcolm X e os Panteras Negras, ele resolve radicalizar suas posições políticas e se engajar na luta pelo seu povo. Ao mesmo tempo, mira-se na evolução da black music nos EUA, que deixava aos poucos o lado suave e sentimental do soul para abraçar a tensão e força do funk e do jazz rock. Coletivos elétricos expeliam milhares de decibéis elétricos na orelha de seu público e o doutrinava de forma direta e indolor. A adição do baterista Tony Allen na formação do grupo deu ao som a força rítmica e precisa que as bandas de James Brown e Curtis Mayfield tinham e Fela entrou numa catarse espiritual que resultou na atordoante colisão sonora do afrobeat.

Neste The 69 Los Angeles Sessions, a gravadora inglesa Stern reuniu o antes e o depois do choque cultural norte-americano ter sido assimilado por Kuti e é uma versão simplificada da transformação musical e ideológica proposta pelo cantor. Por isso mesmo, o primeiro disco que você deve ouvir do autor. Aqui as músicas ainda não são quilométricas, embora sua força esteja condensada e à mostra. As seis primeiras faixas trazem a versão original do grupo, os Koola Lobitos; as restantes sua nova versão, Fela Kuti & Africa 70, como rebatizou seu coletivo. Na primeira parte, ouvimos mais o trumpete de Kuti do que seu famoso sax, que toma conta da segunda parte. E logo no começo desta, somos apresentados ao hino-manifesto do afrobeat, lançado em meio às revoltas sociais de 1969 que resultariam na Guerra de Biafra. O tom de “Viva Nigeria” pode ser sentido em várias outras manifestações “glôbal” pelo mundo, da Nação Zumbi ao Bob Marley. Mas Fela foi o primeiro. Sente só:

This is brother Fela Ransome Kuti,
This is one time I would like to say a few things,
Men are born, kings are made, tributes are sang, wars are fought,
Every country has its own problems,
So has Nigeria. So has Africa,
Let us bind our wounds and live together in peace,
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria. Viva Africa.

The history of mankind is full of obvious turning points,
And significant events,
Though tongue and tribe may differ,
We are all Nigerians, we are all Africans,
War is not the answer, it has never been the answer,
And it will never be the answer,
Fight amongst each other. Lets live together in peace!
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria, Viva Africa

Lets eat together like we used to eat,
Lets plan together like we used to plan,
Sing together like we used to sing,
Dance together like we used to dance,
United we stand. Divided we fall,
You know what I mean,
Let us bind our wounds,
And live together in peace,
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria, Viva Africa.

Brothers and sisters in Africa,
Never should we learn to wage war against each other,
Let Nigeria be a lesson to all,
We have more to learn building than destroying,
Our people cant afford anymore suffering,
Lets join hands, Africa,
We have nothing to lose, but a lot to gain,
War is not the answer, War has never been the answer
And it will never be the answer,
Fighting amongst each other,
One nation. Indivisible.

Long live Nigeria, Viva Africa.

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por: Alexandre Matias postado em: Dance, Loki, Musica, Pop, Texto tags:

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