2 de março de 2012 às 8h13
Drive: cool até dizer chega
Vintage 80s
A história do filme é ridiculamente simples – galã-durão trabalha como dublê em filmes de ação (capotando carros) e faz bicos como motorista em assaltos conhece vizinha gatinha que tem um filho com um sujeito que está preso. O que vem a seguir é aquela velha história de amor e vingança que habita todos os telefilmes que passam no Super Cine, aquele sábado à noite sem graça e dublado, “um crime que abalou a opinião pública norte-americana”, gangsters, carros e reviravoltas dignas de um filme de Steven Segal.
A diferença é que Drive não é um filme com Steven Segal – mas com Ryan Gosling, queridinho da cinefilia indie há uns cinco anos por um algum motivo inexplicável. E em vez do herói ter um rabo de cavalo e usar uma jaqueta de couro com franjas, ele traja uma jaqueta prateada fuleiraça com um escorpião estampado nas costas, uma versão 1983 de James Dean (canastrice inclusa no upgrade). E que a história pouco importa num filme essencialmente preocupado com estilo – estilo específico e perigoso de ser manuseado: o vintage 80s, a versão que não vê graça nenhuma no deboche trash dos anos 80. Assim que o filme começa, com sua tipologia pink cursiva-cool, sabemos que estamos no mesmo universo paralelo fundado pelo cinema cyberpunk daquela década, o futuro mundano e presente de filmes como Mad Max, Robocop, Blade Runner, Fuga de Nova York e Warriors. Tire o futurismo megalomaníaco e apocalíptico e perceba que já estamos em 2012. Não há carros voadores, nem andróides indistinguíveis de seres humanos nem ciborgues conversando com ETs. Mas as metrópoles estão implodindo, a violência está nas ruas e o máximo de tecnologia que realmente entrou nesse submundo é o fato de usarmos telefones portáteis minúsculos.
Pois o celular é um dos poucos elementos que nos lembra que Drive se passa depois de 1989. Todo o resto do filme é um exercício de estilo anos 80 – o neon superposto ao reflexo da poça d’água sobre o asfalto no escuro sobreposto à câmera lenta exageradamente lenta por sobre alguns litros de gel e outros tantos de vodca barata. O dinamarquês Nicolas Winding Refn faz jus ao prêmio de melhor direção que ganhou em Cannes no ano passado e faz um filme todo baseado numa estética que começa a ser reconsiderada (Drive é o Chromeo do cinema) – e não é por ter um coração de plástico que Drive não tem alma. A caricatura do “strong silent type” que Tony Soprano sentia falta torna o personagem de Gosling robótico como Clint Eastwood nos anos 70, mas o verniz fluorescente da direção torna a história trivial essencialmente secundária – o que é bom para a estética do filme. Um bom roteiro tornaria todo o estilo coadjuvante.
Drive é mais que trunfo da forma sobre o conteúdo, é pós-moderno na medula e cheira a mochila da Company. “2011 foi um grande ano para o cinema, vimos que dá para fazer um filme sem nenhum diálogo e ainda torná-lo divertido…”, Seth Rogen parecia se referir a filme mudo O Artista em seu discurso de abertura do Spirits Awards, mas falava de Drive. E, realmente, é um dos melhores filmes desse 2011 com cara de 1981.
O poster que abre o post não é oficial, e sim feito pelo designer canadense James White.
17 Comentários




Profissão: autobiógrafo.


2 de março de 2012 às 10h26
E eis que cheiro da mochila da Company vem a memoria.
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2 de março de 2012 às 10h32
legal esse paralelo com os anos 80. mas pra mim drive é um filme de estética chill wave principalmente. acho q o nicolas ouviu muitas bandas desse tipo pra conceber a atmosfera do filme.
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2 de março de 2012 às 10h55
Por isso é tão bom! Me lembrou de todos esses filmes que você citou, que eu vi com meu pai ou por indicação dele, adorando esse estilo.
Agora, vai, Matias – inexplicável por que Ryan Gosling é queridinho? Você não acha o cara bom?
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2 de março de 2012 às 14h27
e ainda tem uma trilha sonora carregada. Essa faixa da abertura, kavinsky com vocal da love foxxx, destoa do resto, mas mesmo assim não deixa de acertar.
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2 de março de 2012 às 15h01
vi no avião, concordo com cada linha q vc disse… e nem dá para perceber os celulares direito
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2 de março de 2012 às 23h06
Ótimo comentário. Mas eu também levanto outras duas bolas: desde Pulp Fiction eu não via um filme com uma verve assim tão autenticamente cool gangsta. E tem o fator estética de videogame, que tem sua presença aqui – GTA, Driver e outros.
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3 de março de 2012 às 11h26
você resumiu perfeitamente o que senti assistindo a esse filme. a trilha sonora é incrível, não sei ainda explicar como encaixaram tudo aquilo tão perfeitamente. mas encaixaram.
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5 de março de 2012 às 3h58
vi o ‘drive’ agora no domingo… e putz, puta filmaço mesmo. cheio de tempos mortos, silêncios, planos estilizados… e o que é a cena do elevador?! porra.
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5 de março de 2012 às 10h16
Meu problema com Drive é que ele é um filme flat. Parece um daqueles filmes do Wes Anderson. Todo mundo com aquele olhar blasê, sem emoção. Mesmo a luta final é simples, como seu o personagem principal já esperasse seu destino (seria ele uma espécie de “anjo” a la “Shane, os Brutos Também Amam”?). O final é quase sobrenatural, se você reparar. Mas carece de emoção, sem sentimento humano. Não vou na onda do povo, que tá gozando em cima desse filme. Achei a estética oitentista bacana. Mas é só isso. Nota 7.
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5 de março de 2012 às 13h04
concordo com essa tua sensação flat/blasê do filme, silvio. mas ao mesmo tempo acho que os filmes de hoje possuem “muita emoção”, tudo é muito falado e explicado, principalmente nos estados unidos. essa pra mim é uma das vantagens do filme. e vc tá certo nessa história aí do “anjo”, acho que ele já espera o destino (ele poderia morrer, também estaria preparado, não tem nada mesmo). é tanto ‘shane’ quanto ‘cavaleiro solitário’.
ô matias, vc viu que a trilha é desse cliff martinez, cara que foi baterista dos dois primeiros discos do red hot chilli peppers e virou trilheiro de todos os longas de steven soderbergh desde ‘sexo, mentiras e videoteipes’.
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11 de março de 2012 às 0h52
Não acho que é um filme flat. Se no início ele é um filme de emoções contidas, traduzindo o sangue frio e o estilo cool do personagem principal, num segundo momento, quando a situação se complica, o filme explode em tensão e a emoção vem num crescendo cada vez maior. Eu acho o personagem muito parecido com os personagens do Viggo Mortensen nos dois últimos Cronnenberg que passaram por aqui (“Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”), mais próximo do personagem do “Marcas” do que do “Senhores”, por ser um cara aparentemente normal que esconde um outro homem, violento e enlouquecido, como se coexistissem duas pessoas dentro de si. E como no “Marcas”, o personagem do Ryan Gosslin, quando testado, não consegue deixar esse outro ser aprisionado. A diferença é que o filme do Cronneberg tem um roteiro mais complexo, onde o personagem principal tenta à todo custo esconder esse Mister Hyde do passado, construir uma nova persona, mas percebe que isso é praticamente impossível. Já no “Drive” não temos muita noção se o personagem do motorista tem, ou teve esse desejo. Ele só está ali, na dele.
A cena do elevador é incrível, quase no mesmo nível da magistral cena da sauna do “Senhores do Crime”, pra continuar no paralelo com o Cronnenberg. Entre outras cenas fodas, a cena do camarim é total Kubrick, desde a iluminação estourada, até a atuação das atrizes, nuas, gostosas e impassíveis, como se as manequins da Leiteria Korova virassem carne e observassem um Alex interpretado pelo Matt Dilon.
“Do Fundo do Coração”, “O Selvagem da Motocicleta”, “Paris-Texas”, “Subway”, “Viver e Morrer em Los Angeles”, The Hidden”, são outros filmes que eu colocaria no mesmo universo do “Driven” (não estou dizendo mesmo nível e, sim, universo).
Se não é o melhor filme lançado em 2012, aqui no Brasil, (ainda não vi o “Hugo”), já tem garantido o posto de mais memorável do ano. Pode apostar que uns anos pra frente vai ser motivo de culto.
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11 de março de 2012 às 22h02
olha… pelo menos qdo eu assisti Drive, reconheci alguns filmes classicos do cinema alternativo, como Mad Max e Fuga de N.Y. Recomendo, achei fodao!
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Pingback por Kill for Love, dos Chromatics, é tudo isso mesmo | Trabalho Sujo
15 de abril de 2012 às 6h14
[...] já vem me adulando há um tempão sobre eles (culpa do Drive), Camilo linkou há pouco e agora há pouco o disco novo dos Chromatics bateu bonito, disparando [...]
14 de maio de 2012 às 19h29
nossa achei fodasso esse filme! pena que perdi de ver no cinema, esse valeria demais a pena!
Poutz, até entendo quem achou o filme meio blasê, mas eu fiquei vidrada do começo ao fim! fazia tempo que um filme não empolgava tanto.
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20 de maio de 2012 às 18h32
O fila da mae do diretor conseguiu atrair minha atençao com um filme com um ator caladao…e a trilha sonora meu Deus nunca vi algo tao bem excaixado numa cena ,me deu ate vontade de ter um carrao daquele e ser o ator principal.
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20 de maio de 2012 às 18h33
Outra: Tô louqinho pra comprar aquele jaqueta escorpiao..se pintar aqui pelo Brasil mando encomendar.
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20 de maio de 2012 às 18h37
Trilha otima!desde Ruas de Fogo nao sinto a mesma emoçao numa trilha sonora.
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