OEsquema

Arquivo: Brasil

Lost por Alexandre Versignassi

Tá meio frustrado com esse final? Ainda bem. Estranho seria se não estivesse. Só tem uma coisa: isso é mérito do Lost. Nunca um produto da cultura pop (ou da não-pop) atiçou tanto a imaginação de tanta gente. Tudo bem que exista uma quantidade surpreendente de donos de sabres de luz ou de pessoas fluentes em Klingon por aí (eu conheço um cara que fala Klingon e a língua dos elfos do Senhor dos Anéis, além de grego clássico, mas não posso dizer quem é). Só que beleza: são coisas de nicho. E nicho tem pra tudo. Lost é diferente. É para a massa. Dá para puxar conversa no metrô sobre o que está acontecendo na ilha. Alguém vai ter uma teoria.

E esse é o ponto. Se cada um tivesse a sua teoria e ficasse em casa com ela não haveria tanta frustração com os últimos episódios. O problema é que a troca global de teorias, principalmente via Lostpedia, criou algo inédito: uma seleção natural de teses em que só as melhores sobreviveram. Darwin puro: as ideias mais redondas se juntaram com outras tão boas quanto e deixando descendentes ainda mais brilhantes. Tão bem-adaptadas ao ambiente da série que, em alguns casos, a teoria chegou a superar a prática (a história que estava na cabeça dos roteiristas).

A minha favorita dizia que o Jacob era um Aaron do futuro, que teria voltado ao passado mais remoto da ilha e começado a parada toda. O Homem de Preto? Fácil: era o Aaron da realidade alternativa. O bebê ainda não tinha nascido no universo paralelo e, como todo mundo teve uma vida pregressa ao vôo 815 um pouquinho diferente (Jack teve um filho, por exemplo, provavelmente com a Juliet), o pai da criança seria outro. E ele nasceria moreno. Seria um Jacob Bizarro… O Homem de Preto, enfim. E um não poderia matar o outro porque, poxa, eles seriam a mesma pessoa.

Aí veio o episódio da semana passada, o Across the Sea, e matou a teoria que eu gostava. Tive de me contentar como o fato de que eles não são filhos da Claire, mas de uma romana xis, e que não podem matar um ao outro por causa de uma porcaria de um passe de mágica. Pô…

Mas ok. Importa mais saber que o desfecho não é um Frankenstein roteirístico criado a partir do que os fãs acham. Está claro que pelo menos a essência do que imaginam pro fim já estava na cabeça dos caras. Olha aqui que você vai ver. Nesta cena do 1º episódio da 1ª temporada fica óbvio que o personagem ali jogando gamão com o Walt não é o Locke, mas o Homem de Preto mesmo. Os produtores tinham medo de a série ser cancelada depois de 12 episódios. Então era natural, então, que já pusessem o irmão do Jacob no corpo do Locke de uma vez. Até por isso tinha aquele mistério de o John ser um paralítico que voltou a andar. Voltou a andar porque quem estava no controle do corpo dele era a entidade. Mais para o final da temporada, com contrato renovado com a ABC e tudo ok para produzir mais dezenas de episódios, a coisa muda de figura. Terry O´Quinn, o ator que faz o Locke, muda o jeito de interpretar seu personagem. O Locke da ilha vira um homem frágil, igual o Locke dos flashbacks. Perde o olhar de onisciência que fazia nas primeiras cenas. E o homem de preto só toma mesmo o corpo do Locke lááá na frente, na 5ª temporada.

Bom, os produtores nunca disseram isso. Nem desdisseram, porque ninguém perguntou. É só uma teoria. Mas isso é o que interessa no Lost: ele bota as nossas cabeças para funcionar o tempo todo, não só enquanto um episódio está passando. Teorizar o passado e no futuro da trama é tão bom quanto assistir capítulo novo. Até melhor, às vezes. Pena que, agora, é só até domingo :-(

* Alexandre Versignassi é editor da Superinteressante, onde ele está fazendo um especial sobre a série, saca só.

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Lost por Wagner & Beethoven

* Wagner & Beethoven é criação do Mauro A.

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Lost por Camilo Rocha

Não, nunca assisti sequer UM capítulo de Lost. Mas fiz um top ten que acho que tem a ver (importante ouvir na ordem!)


MFSB – “Mysteries of the World”


Whitest Boy Alive – “Island”


Fare Soldi – “Survivor”


Goldfrapp – “Alive (Tensnake Remix)”


808 State – “Pacific”


Lloyd Cole & The Commotions – “Lost Weekend”


Titãs – “Sonífera Ilha”


Nação Zumbi – “A Ilha”


Kool & The Gang – “Jungle Boogie”


Régine – “Je Survivrai”

* Camilo Rocha é um dos três principais jornalistas brasileiros que escrevem sobre música dos últimos 50 anos. Os outros dois eu nunca consigo decidir quem são.

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Lost por Fred Leal

Eu nunca lembro o que acontece em Lost. Esse é um dos principais motivos para eu gostar tanto da série. Todo dia de episódio, fico esperando até tarde da noite para o torrent aparecer e o download chegar ao fim. Mesmo em época de horário de verão, quando esse processo todo costuma acabar pra lá das quatro da manhã – e acho que isso ajuda na fugacidade da memória.

E antes que comecem as piadinhas dizendo que “é melhor esquecer, mesmo”, explico: todo episódio fica ainda mais surpreendente. E não é que eu não faço ideia do que acontece nos episódios, eu só me guio mais facilmente pelas emoções que pelos detalhes factuais. Eu não sei, por exemplo, em que momento aquela galera das tochas no meio do mato virou uma cohab dos anos 70, mas lembro que odeio o Locke desde que ele explodiu a porra do submarino só porque achava que estavam todos lá “por um motivo”. Em uma nota paralela: quer ficar, fica, mas não mela o bonde dos outros, porra.

Também confesso que até hoje não entendi porque, ao serem resgatados, os Oceanic Six não avisaram ao mundo da existência do resto da ilha. Mesmo que fosse pra proteger a parada toda, custava pelo menos fretar a porra de um barco pra resgatar o resto da galera? Enfim, sei que quase todo mundo que assinou um post sobre Lost nesse blog nos últimos dias é capaz de me oferecer uma explicação razoável para cada um desses questionamentos. Ou eu poderia simplesmente procurar na Lostpedia. Mas voltando ao que eu queria dizer, a série fica muito mais surpreendente. Nunca fui capaz de desenvolver uma teoria sobre o que é a ilha e porque estavam todos ali por sempre esbarrar em detalhes que me passavam completamente despercebidos.

É uma experiência quase psicodélica, e a montanha-russa de acontecimentos estupefacientes faz com que eu nunca ache um episódio de Lost ruim. Eu mal consigo isolar os acontecimentos sob um único título, como posso querer apontar dedos para os diretores e roteiristas e acusá-los de enrolação? O que me importa são os personagens e a mitologia que os envolve. Iniciativa Dharma. Números mágicos. Viagem no tempo. A sensação é de que a cada episódio surge uma nova loucura que em nada explica a anterior, mas que me deixa desesperadamente ansioso pela próxima.

* Fred Leal é um dos caras. Melhoraê, compadre!

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Lost por Vladimir Cunha

Lost é um filho direto da Grande Conspiração Americana. O maior erro, no entanto, é superestimar a sua contribuição para a cultura de massas, tentando achar na história e em seus desdobramentos algo mais inteligente do que uma luta mitológica entre o Bem e o Mal. Situada em um ponto imaginário entre o desbunde paranormal de Twin Peaks e o suspense de tablóide de Arquivo-X, a série tentou por vários momentos levantar questões mais interessantes do que o seu enredo inicial poderia prever, mas se perdeu em seus próprios truques e em sua narrativa circular e auto-indulgente. E ao final, ficamos todos com a sensação que, entre as pretensões iniciais dos seus criadores e o resultado final, alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Uma boa conspiração nasce de duas maneiras: ou através da paranóia ou do exercício mental de cogitar diversas possibilidades. E por isso mesmo, quase nunca precisa de fundamento científico ou histórico para ser levada adiante. Ela precisa, sim, guardar relações profundas com a realidade, com os aspectos mais aparentes do nosso processo cognitivo, justamente aqueles que irão lhe dar subsídios para ser apreendida por nossa percepção como algo possível de ter acontecido. Quanto mais forte essa relação, mais enraizada no inconsciente coletivo e na cultura de massas uma conspiração irá se tornar.

Por exemplo: ninguém acreditaria na notícia de que um disco voador pousou em frente à Casa Branca. É fantástico demais, irreal demais, uma iconografia barata ligada aos filmes trash e às histórias em quadrinhos, entendida como clichê de ficção científica através de quase um século de cultura pop. Por outro lado, um disco voador capturado nos desertos do Novo México e mantido em segredo pelo Exército norte-americano, junto com seus tripulantes ETs, nos parece mais real, justamente por lidar tanto com aspectos que compreendemos como parte da nossa realidade -bases secretas, manobras militares clandestinas e ufologia barata – quanto por nos levar a todo o tipo de indagação supostamente inteligente (“hmm, se os militares não têm nada a esconder, porque não liberam a Área 51 para visitação pública, hein?”). Foi a partir da sua capacidade de suscitar mais dúvidas do que de responder perguntas, ao usar uma realidade possível para criar todo o tipo de possibilidades teóricas, que se desenvolveram as grandes conspirações da história recente da Humanidade.

No cinema, David Cronenberg talvez tenha sido o diretor que mais soube trabalhar essa questão. Em Scanners, The Brood e Videodrome, o horror acontece de maneira banal: nos centros comunitários, no parquinho da escola, na loja da esquina. Ele está tão entranhado nos aspectos mais corriqueiros do cotidiano que imaginar a sua existência torna-se quase natural. Assim como a elite sexualmente corrupta de De Olhos Bem Fechados, antes de serem personagens da ficção fantástica, Brian O’Blivion e Barry Convex, os dois arquétipos centrais de Videodrome, são também figuras comuns, baseados tanto no clichê do intelectual intransigente e aburguesado quanto do zé ninguém invisível, que com seu terno de loja de departamentos se integra passivamente à paisagem da América Corporativa. São essas pessoas comuns, sem poderes sobrenaturais ou visual extravagante, que nos suscitam o impulso paranóico de acreditar que, se o horror existe, ele está entre nós. Não na figura de um monstro do espaço sideral ou de um demônio cenobita, e sim na assepsia de um centro de pesquisas clandestino, no underground dos snuff movies, nos complexos industriais fortemente vigiados, nos círculos de pornografia ilegal, nas redes secretas de comunicação e vigilância, na indústria aeroespacial e nas salas de reunião das sociedades secretas. Um imenso lugar-nenhum criado a partir de fragmentos distintos da paisagem urbana ocidental pós-Segunda Guerra Mundial.

Por outro lado, Lost falha quando não estabelece esse tipo de conexão com o cotidiano e reduz a suas seis temporadas a uma luta do Bem contra o Mal, o confronto entre Luz e Trevas recriado de maneira pós-moderna a partir de memes e clichês pilhados da herança deixada por cinco mil anos de história das religiões. O estranhamento cotidiano e o terror possível até existem, nos filmes de 16 milímetros usados nos treinamentos da Iniciativa Dharma, nos centros de operações low-tech da Ilha, na corporação de Charles Widmore, nos experimentos paracientíficos de Daniel Faraday nos porões da universidade onde estuda e nos números 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Diferente de Arquivo-X -que ganhou corações e mentes nos anos 90 justamente por transformar em histórias de terror o imaginário ufologista e a nascente comunidade da conspiração na internet com as manchetes do jornal sensacionalista National Enquirer, filho direto da indústria do entretenimento e da paranóia da Guerra Fria – Lost optou pelo isolamento, confinando no ambiente fantástico da Ilha todas as suas possibilidades de narração e desenvolvimento dos personagens, uma dimensão paralela aos moldes de O Senhor dos Anéis que não conseguimos assimilar como algo possível. As situações cotidianas existem, mas sem a força necessária para beslicar o nervo certo e provocar a pergunta: “e se isso estiver acontecendo de verdade?”.

Isso fica claro quando a série não consegue criar o estranhamento necessário para ir em frente, limitando-se a prender o espectador com o “continua na próxima semana” das histórias em quadrinhos ou as reviravoltas com jeito de pegadinha dos gibis da Cripta. A curiosidade se reduz apenas a saber como a história vai terminar e não em intuir como os seus aspectos mais aparentes, e possíveis desdobramentos, se relacionam a realidade, como é o caso de Kolchack – The Night Stalker, Millenium e Arquivo-X, todos produtos diretos da cultura da conspiração que usaram a paranóia de maneira muito mais inteligente e instigante. Lost chega ao fim e todas as possibilidades narrativas e intuitivas propostas inicialmente se diluíram na trama em torno da Ilha e seus habitantes. Ao contrário do que todo mundo imaginava, a série não teve fôlego suficiente para criar uma mitologia interessante e consistente. Valeu a tentativa. Infelizmente não foi dessa vez.

* Essa cara de mau do Vlad é tipo.

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Lost por Arnaldo Branco – II

* Já apresentei o Arnaldo, que também é dOEsquema.

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Lost por Guilherme Werneck

Fico pensando por que diabos não comecei a ver Lost simplesmente para contar as lindas sardinhas da Evangeline Lilly. Kate continua o melhor motivo para ver a série. Mas a verdade é que passei os últimos anos acompanhando Lost de forma bastante irregular, interessado mais pelo que o criador da série J.J. Abrams faria com o universo que imaginou.

Apenas uma constante nestes últimos anos: nunca consegui assistir à série transmitida pela TV. Sempre esperei chegar ao final para baixar tudo de uma vez e fazer maratonas no sofá, laptop plugado na TV. Não tenho estrutura psicológica para esperar uma semana entre um episódio, muito menos para vencer a abstinência durante os breaks de meio de temporada.

Lost foi a segunda série a causar esse tipo de aflição, um efeito colateral até que esperado depois dos primeiros anos 24 horas – a maior celebração da cultura da anfetamina na TV. Mas com a série de J.J. Abrams era um pouco diferente. Nesse contínuo que criei para assistir ao Lost, a sensação era a de ter ido a uma rave e pego um doce no lugar de uma bala. Ursos polares em ilha tropical, fumacê matador, ondas de rádio fantasma, magnetismo esotérico. Hobbes e metafísca, Paraíso perdido de John Milton versus o paraíso reencontrado de John Locke. No começo era um quebra-cabeças divertido, instigante. Uma boa metáfora para o conhecimento. E repleta de citações – o melhor do J.J. Abrams é sempre a habilidade de fazer boas conexões com a nerdice da cultura pop.

O que me pegou em Lost no começo foi justamente essa oposição de país das maravilhas com uma dramaturgia absolutamente contida, em certos momentos no limite do melodrama. A ilha era David Lynch, a vida pregressa dos personagens, quase Fassbinder. Uma ousadia televisiva maior ainda do que a injeção de adrenalina de 24 horas.

E, por trás, J.J. Abrams, o criador de Alias, uma série simpática, com seu misto de futurismo e teoria da conspiração. Me empolgava ver um geek tomando de assalto a porção mais mainstream de Hollywood, mudando o sistema por dentro, com suas próprias armas. Transformando a disfunção narcotizante da TV com narcóticos mais poderosos que os do American Idol. Uma vitória canhestra da revolução contracultural americana que inicia com os beats nos anos 1940.

Mantive esse nível de felicidade com Lost nas duas primeiras temporadas. O budismo de biscoito da sorte da Dharma Initiative e a fraqueza dos roteiros nas fases em que Abrams se afastava da série fizeram com que a terceira e a quarta temporadas fossem as mais difíceis de assistir. Mas aí já estava viciado, ficava lá meio inerte esperando um bagulho melhor. Mas parecia que todas as boas ideias já tinham sido usadas e os flashbacks ocasionais eram apenas motivo para lembrar com um que de saudade do deslumbramento inicial.

Isso mudou com a quinta temporada e a demolição do tempo. Finalmente uma ideia digna de Lost. Universos paralelos e duplos injeteram graça até nos enfadonhos rebeldes messiânicos liderados por Benjamin Linus. O final me deu vontade de cair de cabeça na sexta temporada que ternmina hoje. Claro, seguindo meus preceitos, tenho os 16 episódios anteriores devidamente baixados. Mas não assisti nenhum ainda.

Passei boa parte da última semana tentando evitar a enxurrada de spoilers. Consegui. Não foi tão difícil. Enquanto Lost ficava em compasso de espera, caí de cabeça em Fringe, a série mais bacana dos últimos anos. Aquela em que J.J. Abrams conseguiu colocar para fora todas as suas obsessões com o futuro, conspirações, ciência de ponta, drogas para alterar a percepção e universos paralelos. Num certo sentido, Lost é um belo balão de ensaio para Fringe. Quem ainda não entrou neste universo, pode usar o espaço vago a partir de amanhã.

* Guilherme Werneck podia voltar com seu podcast, o Discofonia.

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Lost por Babee

“Think of the island as a record, spinning on a turntable, only now, that record is skipping.”

Viagem no tempo é um dos assuntos que mais me interessam, mesmo quando as histórias não fazem muito sentido. Seja em filmes, em séries, nas teorias científicas mais mirabolantes ou em um simples sonho. Quem nunca imaginou ver um show histórico da sua banda preferida? Rever um querido que morreu? As possibilidades são infinitas.

Em Lost, conhecemos pelo menos três tipos de viagem no tempo: os flashes mentais de Desmond, os personagens viajando pelo passado dentro da própria Ilha e os flashbacks/flashfowards, que funcionam como narrativa de viagem no tempo e nos mostra que uma nova linha-do-tempo não é criada – os personagens só visitam um ponto diferente nessa linha que sempre vai existir.

A série não assassina a principal lei dos time-travellers: de que o passado não deve ser alterado. Vai além, todas as situações do passado parecem ser perfeitamente coerentes. Em um dos vídeos da Dharma, quando Dr. Chang diz que os eventos da Ilha são resultado da “matéria exótica“, ele se utiliza da única maneira que um físico real explicaria estas experiências surreais. Portanto, fica claro que os realizadores da série tiveram muito cuidado ao abordar o assunto.

Citações feitas ao longo da série mostram que o passado é sagrado. “O que aconteceu, aconteceu” (Faraday), “O que foi feito, foi feito” (Sawyer), “Não seja louco! Existem regras”(Dr. Chang) são bons exemplos de que não se pode mudar o que está no lá atrás. E se o desejo de alterar o passado está bombando nas veias, sabe-se que fazê-lo “simplesmente” criaria uma realidade paralela e o passado permaneceria intacto. É como se duas agulhas tocassem um só disco ao mesmo tempo, em rotações diferentes.

Lost usa viagem no tempo como metáfora para a luta entre livre arbítrio vs. destino. Como humanos, temos a necessidade de fazer nossas próprias escolhas, trilhar os nossos caminhos. Mas o pensamento de que algumas coisas acontecem porque simplesmente devem acontecer não nos deixa em paz. Em que devemos acreditar, Razão ou Coração? Sempre o velho dilema.

Os Losties escolheram o vôo 815 ou já estavam destinados a embarcar no mesmo avião? Jack escolheu ser guardião da Ilha ou estava escrito que seria ele? A única certeza que temos é que nem sempre nossas escolhas trazem o resultado – ou a realidade – que queremos.

Todos os personagens são variáveis e cada um vive seu presente, independente do tempo ou lugar. A pergunta é: onde estarão no último episódio?

* Babee é a DJ do Boo Monster Bop e faz o melhor podcast do Brasil, o Boombop Shuffle.

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Lost por Alexandre Maron

A gente fica falando e falando sobre o quanto Lost é relevante, revolucionário, multiplataforma, transmedia, enigmatico e tudo mais. Mas o que importa, o que sempre fez toda a diferença do mundo, é que Lost é bom demais. Simples assim.

Agora, jogar adjetivos ao vento é simplificar demais. Por que “bom demais”? Poucas vezes eu vi um equlíbrio tão preciso entre história (o episódio da semana e a grande trama que serve de pano de fundo) e caracterização (as personalidades complexas dos personagens que movem a história). Os escritores se deram a chance de explorar sem pressa cada item que julgavam importante para a história que queriam contar. Convenhamos que isso não é comum para um programa exibido na TV aberta Americana, a mais impiedosa do mundo quanto ao resultado de sua programação.

Durante essa jornada, a trama inicialmente nebulosa foi tomando forma e os segredos sendo revelados. Os escritores habilmente manobraram as expectativas das tribos de fãs oferecendo, lá e cá, fé e ciência, mas quem ia vendo sua teoria de estimação descartada, muitas vezes se desinteressava pelo programa. Era o choque dos homens de fé (as teses místicas) e os de ciência (os ratos do sci-fi). Quem achava que eles estavam mortos, ou que eles eram avatares, ou que habitavam um limbo espiritual, ou ou ou…

Nessa jornada, aprendemos a jogar de uma maneira nova. Muita gente nunca se tocou que um romance de mistério, um “whodunit” clássico, é um jogo entre o leitor e o escritor. Estão brincando uma mistura de Esconde-esconde e, sei lá o nome daquela brincadeira de “tá quente-tá frio”. Lost trouxe isso pro terreno da multimedia-multiplataforma e explodiu as cabeças de uma geração que achava que só havia um jeito de acompanhar uma trama. Quando alguém tenta explicar o que é esse negócio de narrativa transmedia, Lost é o exemplo perfeito, o estudo de caso. Pense nisso: uma geração de espectadores do mundo todo aprendendo a jogar com sua série. Uau.

Mas chamar uma audiência de milhões de pessoas para… jogar? Era óbvio que a coisa ia filtrar seu público. Sobramos nós, que ouvimos o chamado de Darlton (o nome ridículo dado à entidade formada por DAmon Lindelof e CARLTON Cuse) materializado no refrão da música “Make Your Own Kind Of Music”, cantada por Mama Cass Elliot, tocada na primeira cena do primeiro episódio do segundo ano:

“You gotta make your own kind of music
Sing your own special song
Make your own kind music
Even if nobody else sings along”

Esperamos semanas entre episódios que entregavam uma gota de informação, meses entre temporadas. Minha mulher, irritada com as doses homeopáticas de informação no segundo ano da série, cunhou a frase: “é muito pouco pela minha fidelidade” (Hummm, penso sempre nessa frase em outros contextos e fico bem espertinho, sabe. Mais uma informação importante que Darlton me deu).

E, caramba, como somos globais, somos muitos. Dezenas de milhões em todo o mundo. Gente que aprendeu a fazer downloads e catar legendas, operar gravadores digitais, ressuscitar videocassetes, ficou de olho na tela do AXN, acompanhou a exibição diária na Globo no início do ano ou esperou pelos lançamentos anuais das caixas de DVDs. Tudo para saber o que estava por trás daquele fatídico acidente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Ou da escotilha, ou o que acontecia na outra ilha, ou porque os Oceanic Six tinham que voltar ou agora: o que diabos é aquela luz no coração da Ilha? Agora queremos saber como vai ser nossa vida depois de, bem, do fim.

Somos talvez menos do que quando Lost podia ser qualquer coisa, naqueles primeiros e nebulosos dias. Mas agora estamos em todo lugar, conectados por um programa revolucionário, genial e que, na essência, pode ser definido, depois de tantos rodeios, como smplesmente bom demais.

* Alexandre Maron é do tempo em que se orgulhar de ser nerd era motivo de vergonha.

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Lost por Daniel Araújo

Assisti a primeira temporada de LOST na TV aberta. Sem paciência de esperar a Globo exibir a segunda e sem TV a cabo em casa, organizei um tráfico de fitas VHS gravadas por amigos para poder continuar acompanhando a série. Quando os amigos não puderam gravar o season finale da segunda temporada, peguei um DVD pirata comprado no centro por um colega de trabalho. Na terceira temporada, comecei emprestando episódios baixados por um amigo hacker e no final, no famoso “we have to go back!”, eu já estava um expert em torrent. E a partir da 4a. temporada, pelo menos para mim, já não fazia o menor sentido chamar LOST de “programa de TV”. Acredito que não foi só para mim que a série foi se desincorporando da TV.

A única maneira, hoje em dia, de ter a genuína “experiência LOST” – assistir um episódio sem saber de nada – é assistir pela internet. Quando a TV brasileira exibe o episódio, uma semana depois, já é praticamente reprise, todo mundo já leu na Internet tudo que aconteceu. Pô, quando a TV americana exibe o episódio inédito já é quase reprise, menos de uma hora depois de passar no Canada!

O mais legal de LOST sempre foi extra-TV. Acompanhar e tentar entender LOST sempre foi um esforço coletivo. A série não tem a menor graça para quem não corre pra internet depois de assistir, não debate com uns amigos, não vai atrás das referências espalhadas nos episódios, nunca jogou os joguinhos de realidade alternativa (nome interessante, levando em conta a ultima temporada) ou nunca acessou o site da Oceanic ou da banda do Charlie. Ou se nunca jogou os “números” na mega-sena esperando que algo mirabolante acontecesse. O legal da série era te deixar em “modo LOST” por muito tempo depois do fim do episódio. E para mim o que media a qualidade de um episódio não era o episódio em si – direção, roteiro, fotografia – mas a capacidade do episódio de me deixar encafifado depois que ele terminasse. LOST sempre foi legal pelo que gerava além da TV, e agora chega ao final dispensando totalmente a TV. Talvez ainda não haja um nome para que tipo de obra é LOST, mas certamente já não é mais um “programa de televisão”.

O que eu espero do season finale é isso. Não quero explicações, quero ficar encafifado, pensando durante muito tempo sobre o que foi que eu assisti. Quero o velho “nó LOST” na cabeça. Se o final for
mastigadinho, vai ser muito frustrante.

Até porque, se LOST se espalha para além da TV como o monstro de fumaça, o último episódio não vai ser o fim, vai ser no máximo o começo do fim. Enquanto estiverem discutindo e destrinchando o season finale e a série como um todo, ela não vai ter terminado. Se a série já dispensou a TV para existir, por quê o mero fim dos episódios inéditos iria acabar com ela?

* Daniel Araújo é o ouvinte número 1 do Comentando Lost. Sempre comentou todos os episódios – fiz questão de chamá-lo para escrever. E a ilustra é dele.

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