OEsquema

Arquivo: TV

Fringe e o drama do duplo

E esse é o texto do Denis, da mesma edição do Matéria Obscura dedicada ao Fringe que eu citei há pouco.

A grama é mais verde do lado de Lá
Denis Pacheco
Spoilers: O artigo traz informações sobre a terceira temporada da série “Fringe”.
Desde pequeno aprendi com o misto de ditado popular e título de filme antigo que a felicidade não se compra. Ainda que a literatura de auto-ajuda, os tratamentos esotéricos e alguns romances de banca de jornal tentem argumentar o contrário, o conceito de felicidade imbuído em mim e, provavelmente, em você é o de uma busca indelével que se sustenta em si. Seja uma luz no fim do túnel, seja uma meta tangível traçada numa planilha eletrônica, a ideia de felicidade passa por todos nós como algo a se almejar.

Por mais intangível que seja, essa noção de contentamento com a vida, permeia absolutamente todas as minhas decisões. É em busca dela que escolho a roupa que vou usar para mais um dia de trabalho, o caminho que farei para voltar para casa, a comida que irei preparar no jantar desta noite ou o destino das minhas férias em agosto. Entretanto, as escolhas que faço para apaziguar a necessidade instintiva de me fazer constantemente feliz levam-me na direção oposta. É nessa hora que revejo meus atos e abuso do recurso literário “e se” para imaginar como seria minha vida se outras decisões tivessem sido tomadas. Seria eu mais feliz se tivesse cursado História e não Comunicação Social? Deveria ter feito aquele intercâmbio em 2001 ao invés de me apressar a entrar numa faculdade?

Enquanto fico aqui supondo o que meu eu-alternativo estaria vivendo num outro universo, em “Fringe” os personagens interpretados por Anna Torv (Olivia Dunham), Lance Reddick (Philip Broyles), Kirk Acevedo (Charlie Francis) e Seth Gabel (Lincoln Lee) têm a chance de saber exatamente como suas vidas seriam se as circunstâncias fossem outras. E, para nossa surpresa, suas vidas na Terra paralela são sim mais felizes, com uma notável exceção.

Antes de explicar em que bases assumi que os personagens da Terra-2 (1) são mais felizes ou menos infelizes do que os desse universo, faz-se necessário explicar em quais condições diferenciadas vivem esse conturbado conjunto de pessoas.

1985 – A ruptura entre Universos

Dentre os grandes eventos de “Fringe”, aquele ocorrido em 1985 é demarcadamente o mais importante para definir o que diferencia os universos. Acometido pela morte prematura do filho, Peter, o cientista Walter Bishop expande o conceito de janela dimensional – uma construção capaz de espionar a realidade de um mundo alternativo, mais avançado tecnologicamente, mas virtualmente idêntico ao nosso – e atravessa para o Outro Lado pretendendo salvar a versão alternada do filho. Trazendo-o para o nosso lado para curá-lo de uma doença misteriosa, Walter causa danos irreparáveis no tecido da realidade, cujos efeitos só podem, inicialmente, ser sentidos do lado de Lá.

A partir de então, para os habitantes da Terra-2, certas verdades sobre seu universo foram escancaradas assim como os buracos negros que invadiram seu cotidiano. Pelo mundo, anormalidades da física criaram instabilidade e forçaram governos a assumirem posturas radicais para garantir a segurança da população e o Bem Maior. Nomeado Secretário de Defesa, Walternate (a versão Terra-2 de Walter Bishop), revelou ao planeta que o sequestro de seu filho e a instabilidade física universal eram parte de uma mesma equação. A partir daquela declaração, Walternate ganhou poder para criar uma divisão especializada em combater tais anormalidades utilizando-se até mesmo de um recurso definitivo de quarentena conhecido como “amber”. (2)

Crescendo sobre a ameaça de que seu universo fosse eventualmente tragado por uma infinidade de buracos negros, os futuros agentes da Fringe Division da Terra-2 foram naturalmente apresentados a duas potenciais abordagens em relação a vida: a efemeridade ou o fatalismo.

Abraçando a noção de efemeridade, Fauxlivia, Scarlie, Coronel Broyles, Capitão Lee, amadureceram com uma perspectiva bastante distinta da vida, ao contrário de suas duplicatas do outro universo. É a partir dessa diferenciação circunstancial que irei trabalhar:

Olivia/Fauxlivia

Quando conhecemos a Olivia Dunham na primeira temporada de “Fringe” imediatamente percebemos o quão rígida e desconfiada a agente do FBI poderia ser. Vítima do abuso do padrasto durante sua infância, Olivia cresceu como uma vítima. Perdendo a mãe ainda jovem e se tornando responsável pela irmã mais nova, Dunham acumulou responsabilidades suficientes para esquecer os anos em que fora sujeita a experimentos contestáveis daquele que viria a ser seu colega no FBI, e o responsável pela ruína quântica da Terra-2. Solitária, a agente Dunham que encaramos como protagonista é segura de si, mas sente dificuldade de expressar qualquer outra emoção num amplo espectro de situações.

Já ao sermos apresentados a Fauxlivia, sua contra-parte alternada, pudemos enxergar quase que o oposto do que entendíamos como núcleo central da personagem. Fauxlia não perdeu a mãe que, supostamente, a criou sozinha, sem a possível influência ou companhia de um padrasto violento. Apesar de ter perdido a irmã e a sobrinha para uma complicação médica, Olivia não tem dificuldades em se aproximar dos colegas de trabalho ou de cultivar um estável relacionamento amoroso. Imune aos experimentos de Walternate, Fauxlivia possuiu – ao que sabemos – uma infância comum, afetada não particularmente pelo estado instável de seu universo. Como agente da Fringe Division, ela atua na linha de frente dos casos mais complexos do lado de lá, sendo responsável, inclusive, por ativar a quarentena de Amber 31422 em áreas atingidas por eventuais buracos negros, lacrando-se junto com centenas de cidadãos numa bolha estática que não representa nem morte, tampouco a vida.

Ainda assim, passando por situações que extrapolam o absurdo, Fauxlivia – assim como muitos de seus colegas – parece encarar os fatos surreais que a cercam como parte de uma rotina corriqueira. Armada com a certeza de que seu mundo pode desabar, a Dunham alternativa construiu para si uma vida saudável, com relacionamentos familiares e interpessoais que fazem dela uma personalidade suficientemente forte para dominar, por um tempo, a mente enfraquecida da Olivia.

Marcada pela possessão e posterior retorno para seu universo, Olivia contempla a felicidade de Fauxlivia numa conversa com Peter Bishop:

Olivia: Antes de você saber que não ela era eu. Ela era divertida, certo? Ela tinha um sorriso fácil, quero dizer, é o que você disse.
Peter: Olivia, eu queria que você soubesse que eu notei a diferença. Mas eu pensei que era por minha causa, por causa de nós. Eu pensei que eu estava trazendo um lado diferente em você. Mas nunca foi porque eu queria estar com ela mais, porque eu não queria. (3.12)

Ciente de que sua outra versão, cuja vida havia sido reorganizada por um conjunto de decisões diferentes, ainda que assombradas pelo fantasma de um iminente apocalipse, era mais satisfeita do que ela própria, resta a Olivia remediar suas futuras escolhas tendo Fauxlivia como parâmetro inatingível de bem-estar.

Charlie/Scarlie

Substituído por uma cópia transmorfa, o Charlie que conhecíamos como parceiro de Olivia Dunham morreu prematuramente no universo principal de “Fringe”. Com um casamento bem sucedido e alguns missões que quase lhe escaparam do controle, Charlie parecia, até certo ponto, satisfeito com sua vida até que em “Unleashed” (1.16), em uma de suas conversas finais com Walter Bishop após uma infestação interna de larvas geneticamente alteradas, o agente revelou brevemente suas inseguranças quanto a trazer uma criança para um mundo cheio de possibilidades assustadoras. Ocultando de sua esposa, na cena final, as complicações quase letais do dia de trabalho.

Scarlie surge ainda no finalmente da primeira temporada, em pequenos flashs motivados pelos saltos de Olivia por entre dimensões e a primeira coisa que nos marca sobre o personagem é sua cicatriz no rosto. Mais endurecido do que seu duplo, Scarlie aparenta não ser casado; ainda assim, não parece carecer de afeto recebendo flertes como o da cientista em “Immortality” (3.13). Intimo de seus colegas de trabalho, tanto quanto Charlie, Scarlie sobreviveu ao ataque do mesmo monstro geneticamente alterado, mas não sem consequências. Alegadamente vivendo sem a cura para as larvas que crescem em seu organismo, Scarlie não parece se deixar abater pela condição crítica, deixando-se levar pela extraordinária realidade com pitadas acentuadas de bom humor.

Broyles/Coronel Broyles

Pouco sabemos sobre Philip Broyles, o chefe da divisão do FBI responsável pelos casos que desafiam a compreensão humana. Divorciado, sem filhos e com uma mesa posicionada diante da janela de seu escritório, Philip é representado como alguém reservado. Seus relacionamentos fora da divisão não são expostos aos colegas que mal podem questioná-lo sobre seu recente divórcio durante a primeira temporada (1.18). Sua ligação com Nina Sharp, possivelmente romântica (2.1), é brevemente abordada, mas não chegamos a compreender realmente o peso desse relacionamento. Entre desconfianças e ordens racionais, Philip se faz presente na equipe da maneira que melhor lhe convém, sendo, na maioria das vezes distante.

Do Outro Lado, o Coronel Broyles, ainda que mantendo sua postura militarizada e analítica a frente de uma Fringe Division muito mais especializada, teve a chance de dividir elementos de sua vida privada com os colegas. Vitima de um caso da divisão ele próprio, o Coronel teve sua rotina familiar violentamente alterada por sequestrador que raptou seu único filho. Ainda casado, ele vive uma rotina familiar amorosa e completa. Suficientemente completa para que o coronel fosse capaz de estender a mão para Olivia, uma suposta inimiga infiltrada em sua equipe, dando sua própria vida, ainda que inadvertidamente, para ajudá-la em sua jornada de volta ao seu universo.

Lincoln/Capitão Lee

O único que conhecemos primeiro na versão da Terra-2, o Capitão Lee é tão ou mais destemido do que sua equipe. Com quase 90% do corpo severamente queimado (2.23), Lee passou parte de sua apresentação como uma vítima em recuperação. Graças a tecnologia do lado de Lá, sua cura completa aconteceu algumas semanas depois da visita de Walter, Olivia e Peter ao seu universo. Durante o processo de recuperação da pele, Lee não deixava de transpirar personalidade a frente dos casos da Fringe Division. Mesmo sem qualquer indicativo de passado ou de relacionamentos extra-profissionais, o agente mais dedicado da divisão não parece ter quaisquer dificuldades em fazer amizades, especialmente com Fauxlivia e seu namorado, que divide com ele o segredo de uma eventual proposta de casamento. (3.13).

Quando colocado em comparação com sua contra-parte, o agente do FBI Lincoln Lee, o Capitão destoa-se ainda mais. Confiante como todos os que vivem na Terra-2, Lee é o líder natural de sua equipe após o falecimento do Coronel Broyles, enquanto o agente Lincoln não parece desfrutar do mesmo sucesso profissional, estando preso a um caso misterioso que parece incapaz de resolver por um ano. Sem equipe aparente ou colegas mencionáveis, o agente Lincoln que se entrega a uma parceria acidental com Peter Bishop, não esboça nem a confiança tampouco a sagacidade de seu duplo de outra dimensão.

Walter/Walternate

Do manicômio para o cargo de Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Walter e Walternate trilharam diferentes rumos em suas vidas paralelas. Cruzando caminhos quando um deles decidiu atravessar dimensões, os dois Bishops podem ser facilmente considerados antagonistas na mitologia de “Fringe”; entretanto, a complexidade de seus papéis e a distinta noção de felicidade que apenas tangencia ambos os personagens merece ser analisada com maior detalhamento.

Ao perder seu filho para uma doença que não conseguiu curar a tempo, Walter Bishop – cujos princípios éticos já não encontravam limites mesmo antes de sua transgressão física – se tornou responsável por um desastre possivelmente apocalíptico. A condenação das duas realidades foi suficiente para sobrecarregar sua consciência e forçar seu melhor amigo, William Bell, a tomar medidas drásticas para afastá-lo de seu pleno potencial. Do Outro Lado, Walternate se utilizava de todo seu poder cerebral para descobrir o paradeiro de Peter, seu filho raptado. Por mais um descuido de seu duplo, o cientista-chefe da Bishop Dynamics se viu diante da mais extraordinária resposta.

Diferentes dos personagens citados até agora, ambas as versões de Walter encontram sérias dificuldades de se adaptar a rotina de seus universos de forma saudável. Enquanto Walter viu sua família se desintegrar após o suicídio de sua esposa e o afastamento de Peter, Walternate manteve seu casamento – e uma amante (3.15) –, sua empresa e foi capaz de ampliar seu poder político, já que permaneceu na linha de frente da defesa do próprio universo.

Infeliz e desacreditado, Walter se deixou entregar a própria loucura até ser resgatado pelo FBI em circunstâncias extremas. Passo a passo, o restaurado Walter Bishop reencontrou seu bom humor entre os casos que desafiavam a compreensão. Entretanto, ainda que reapossado de um simulacro de estrutura familiar, o peso da culpa por suas ações passadas – incluindo aí questionáveis experimentos com seres humanos e seus desdobramentos – tornam esse Walter incapaz de criar uma relação saudável com os que o cercam, e consequentemente, incapaz de interagir com outras pessoas abaixo de sua escala de inteligência.

Para Walternate, ocultar emoções, interagir com colegas e esboçar um aparente estado de satisfação com a própria vida é definitivamente parte de uma rotina casual. Preocupação com a estabilidade de seu universo a parte – se é que podemos colocar tal fato de lado –, Walternate parece ter tomado todas as decisões acertadas em seu universo, sendo inclusive incapaz de cruzar limites morais que Walter ignoraria em nome da Ciência. Portanto, podemos concluir que a ausência de Peter não faz de Walternate um personagem infeliz por definição, mas sim, um personagem figurativamente incompleto, buscando incessantemente o reestabelecimento de uma ligação paternal.

Se a miséria de um é sofrer pelas escolhas realizadas, a fonte do sofrimento do outro é padecer pelas decisões daquele que jamais deveria ter interferido com o andamento dos universos alternativos.

A questão verdadeiramente intrigante que cerca o erro de Walter Bishop e o cerne de toda essa especulação sobre os graus de felicidade dispersos entre as duas dimensões de “Fringe” é tão complexa quanto a explicação científica dos fenômenos ocorridos durante as três temporadas da série, assim como seus desdobramentos. Se Walter não tivesse cruzado as dimensões e alterado fundamentalmente a trama da realidade, especificamente a realidade do Outro Lado, teriam todos esses personagens tomado as mesmas decisões? Seriam eles destemidos diante da eventual destruição de seu mundo? Teriam todos o mesmo grau de apreciação pela vida que parece inferior a de suas contra-partes do lado de cá? Estaria essa alegada felicidade atrelada ao erro de um único homem?

(1) Vocabulário criado pelo fandom, tal como a denominação oficial ‘Lado de Lá’ ou ‘Outro Lado’ criadas a partir da tradução livre do título do episódio 2.22 “Over There, Part 1”
(2) A substância química chamada Amber 31422 foi desenvolvida pelo Secretário Bishop para conter micro-buracos negros que causavam danos devastadores ao tecido do seu universo. No Outro Lado, a Fringe Division utiliza esta tecnologia para colocar em quarentena as perigosas fendas no espaço assim que assinaturas de energia prejudiciais são detectadas.

Comente

Fringe e a função do humor no cientista louco

No prefácio que fiz à nova seção do Trabalho SujoErudito x Popular -, um comentário do Hector me apresentou à revista Matéria Obscura, criada pelo Denis e pela Luciana para se aprofundar em assuntos que por via de regra não são tão aprofundados como deveriam. Pedi aos dois (um casal? Não sei) a liberação de dois textos de sua quarta edição (especial Fringe!) para dar cotinuidade à discussão entre a academia e o pop.

O papel de Walter Bishop
Luciana Silveira
Spoilers: O artigo traz informações sobre a terceira temporada da série “Fringe”.

“Fringe” não é comédia – longe disso. O questionamento ético dos estudos de Walter Bishop e William Bell, os traumas sofridos pela agente Olivia Dunham desde a infância e o choque entre os universos não são piada. Mas, como tantas outras produções de ficção científica, a série precisa se preocupar em mostrar um pouco de humor para funcionar.

Em um breve apanhado sobre o humor no gênero, Wilkins (1) defende que ele serve como uma forma de amenizar o esforço do público de acreditar naquela ficção. Uma risada abaixa as resistências do espectador, tornando-o mais receptivo para a proposta mirabolante daquela trama. Assim, uma piada bem colocada faz com que o debate ético, os abusos e o apocalipse de “Fringe” tornem-se sérios.

Mas o humor também desempenha outra função em “Fringe”: ele intensifica nosso relacionamento com os personagens.

Um pouco de loucura, um pouco de canela
Em 1985, após a morte de seu filho Peter no universo de cá, o brilhante cientista Walter Bishop viajou para o Outro Lado e acabou sequestrando o outro Peter, que foi então criado por ele e sua esposa.

Deve-se mencionar que a intenção original de Walter era apenas levar o medicamento que curaria o filho do Walternate (2), mas seus planos foram modificados porque o frasco do medicamento se quebrou na travessia, quando Nina Sharp tentou impedi-lo. Mesmo assim, o fato é que Walter sequestrou o filho de seu duplo.

Também deve-se mencionar que Walter se esforçou bastante para tentar devolver Peter para o Outro Lado. O problema é que os esforços de Walter foram a intensificação de seus experimentos com crianças, afetando de forma irreversível as vidas de Olivia Dunham, Simon Phillips, James Heath, Nick Lane, Susan Pratt e tantas outras.

E, como Walternate bem sabe, a viagem de Walter entre os universos foi catastrófica para os dois lados, iniciando a acelerada deterioração da Terra-2, que agora começa a afetar também a Terra de cá.

Walter não é um herói. Com todas as suas boas intenções, ele talvez seja um vilão maior que o Walternate. E, mesmo assim, torcemos pelo Walter. Gostamos do Walter.

Não porque ele está lutando do “nosso” lado – nós gostávamos dele muito antes que a disputa entre os dois universos estivesse escancarada na trama de “Fringe”. Nós gostamos do Walter porque ele é engraçado. Simplista? Talvez. Mas todos nós queremos aquela pessoa para dividir aquela longa caminhada pela praia e, principalmente, para nos fazer rir – e isso também vale para aquela noite de sexta-feira que você passa na companhia de uma série de TV.

Um bom exemplo foi o reencontro de Walter com uma de suas cobaias, Simon Phillips, que desenvolveu a habilidade de ouvir os pensamentos de outras pessoas:

Simon Phillips: Bacon, unicórnios, o aniversário do Peter, pitada de canela… Z2 = Z12 + C… Lago Reiden. O que isso significa, hein? O que você está tentando fazer comigo?
Walter Bishop: Nada. Minha mente apenas faz isso às vezes. (3)

A cena, a princípio, é um momento de tensão. Por causa de sua habilidade, Simon tornou-se incapaz de conviver com outras pessoas e sofre efeitos físicos severos quando exposto a elas. Seja por suas lembranças, seja por ter lido os pensamentos de Walter, Simon reconhece no cientista o responsável por sua condição. Walter, apesar de sempre mostrar-se um pouco maravilhado com a ciência, sabe bem que deixou sua obsessão levar sua pesquisa além do que é eticamente aceitável, e sente algum tipo de culpa pelas vítimas que fez.

Mesmo assim, a descrição do fluxo de pensamentos de Walter – misturando ciência, unicórnios e, claro, comida – é tão walteriana que a situação torna-se engraçada. Rimos em meio à tensão, da mesma forma que rimos com situações envolvendo uma vaca ou milk shake ou lembranças de LSD durante uma autópsia. E, enquanto rimos, perdoamos a culpa de Walter e vemos nele alguém com quem dividiríamos uma mesa de bar.

Analisando outro seriado – “Firefly”, coincidentemente enquadrado no mesmo gênero –, Natalie Haynes defendeu a mesma facilidade em simpatizar com os personagens:

Nunca questionamos por que deveríamos segui-los, porque estávamos do seu lado desde o início, e isso porque gostávamos deles e pagaríamos uma bebida para eles. (4)

No caso de “Firefly”, o humor estava distribuído entre todos os personagens. Já em “Fringe”, a situação é bastante diferente. O humor de Peter Bishop existe, mas é o sarcarmo desenvolvido ao longo de anos sentindo-se deslocado, no universo errado. E os traumas da agente Olivia Dunham fazem dela uma personagem mais fechada e séria (5). No trio central, apenas Walter carrega a obrigação de despertar a simpatia do espectador – e o faz muito bem.

Existem três fatores essenciais na definição do comportamento de Walter – ou quatro, se considerarmos o abuso de substâncias químicas recreativas. O primeiro e mais óbvio é o retorno de Peter a sua vida, e de forma relativamente harmoniosa (6).

Além disso, a longa internação na clínica para pacientes mentais teve efeito positivo em seu humor. Após 17 anos confinado e improdutivo, Walter parece se revitalizar com o retorno ao laboratório. Finalmente, temos sua condição mental: Walter teve partes do cérebro removidas para que o conhecimento da viagem entre dimensões se tornasse inacessível (7), e também mostra sequelas da longa internação. Suas excentricidades estão mais fortes, e sua auto-censura é praticamente inexistente.

Walter não é simplesmente louco – ele é radiantemente alegre.

Duplos e disputas
A importância do humor de Walter para o funcionamento de “Fringe” tornou-se mais clara com a terceira temporada da série, que teve episódios ocorridos no Outro Lado, na Terra-2. Nesse universo, encontramos duplos dos personagens centrais e uma divisão Fringe oficial e mais importante, já que a deterioração da Terra-2 acontece de forma muito mais rápida do que a daqui.

A divisão Fringe da Terra-2, aliás, é extremamente carismática. Embora Fauxlivia tenha cometido seus “pecados” trocando de lugar com Olivia, ela é também confiante, divertida e talentosa. Scarlie pode não ser o Charlie de antes, mas está vivo. E Lincoln, a novidade, mostra-se extremamente dedicado ao trabalho – mas um trabalho que ele adora, e não um que lhe causa sofrimento. E os casos da Terra-2 também não ficavam devendo nada ao lado de cá, com a vantagem de apresentar aquelas pequenas (ou não tão pequenas assim) diferenças que prendem a atenção dos fãs.

Mas Walternate, ainda que menos presente em cena, coloca sua sombra em todos os episódios do Outro Lado – reforçando a falta do Walter Bishop que conhecemos e amamos. Sofrendo a dor da perda do filho e a crescente instabilidade de seu Universo, tragicamente danificado no processo, Walternate lidera a “guerra” contra nossa dimensão, na condição de Secretário de Defesa dos Estados Unidos.

Walternate está pronto para fazer sacrifícios para defender a existência de seu universo, mas possui limites morais mais claros que o Walter de cá. E ele tem motivos para seu comportamento, e motivos para suas jogadas. Mas, mesmo que possamos compreender seus motivos, temos dificuldades em simpatizarmos com ele.

Isso não ocorre porque Walternate é o inimigo da “nossa” dimensão, mas porque é o inimigo da dimensão de Walter. Não sentimos nossa existência ameaçada pela guerra entre as dimensões – a imersão na ficção ainda não chegou lá – e até temos interesse nos casos do Outro Lado e nos agentes mais confiantes da divisão Fringe. Mas rejeitamos que a dimensão remanescente (ou vitoriosa) seja aquela em que o divertido Walter é substituído pelo amargo Walternate.

(1) “Why science fiction movies need a little comic relief
(2) Nome dado ao “duplo” de Walter Bishop na outra dimensão, chamada de “Terra-2”.
(3) “Concentrate and Ask Again” (“Fringe”, 3–12)
(4) “Girls, Guns, Gags – why the future belongs to the funny”, p.33
(5) A própria Olivia se diferencia de sua versão da Terra-2 descrevendo-a como “divertida” e de “sorriso fácil” em “Concentrate and Ask Again” (“Fringe”, 3–12).
(6) Adulto, Peter reconhece a fragilidade de Walter e mostra-se mais gentil, perdoando dívidas novas e antigas. Quando descobriu sobre sua verdadeira origem, Peter compreensivamente se afastou de Walter, mas foi capaz de reconstruir o relacionamento mais tarde.
(7) No episódio “Grey Matters” (“Fringe”, 2–10), Walter mostrou-se mais lúcido e sério quando teve as porções do cérebro reimplantadas.

1 Comentário

Fight For Your Right – Revisited comentado

Todo mundo já ouviu falar, mas quem se dignou a assistir à meia hora de autoesculhambação a que os Beastie Boys se submeteram ao lançar seu novo disco? Comento o clipe a seguir, por isso assista-o para não reclamar de spoilers.

O filme começa no final do clipe de “Fight for Your Right (to Party)“, de 1986, quando, depois que os Beastie Boys destroem o apartamento de um casal de velhos ao convidar um monte de maus elementos para jogar tortas nas caras uns dos outros (sim, tortas, muitas tortas), entre outras coisas não tão finas – como destruir uma TV com uma marreta. Galopando escadas abaixo após a destruição, os Beastie Boys já não são tão boys assim – Danny McBride é um MCA quase caminhoneiro, Seth Rogen é um Mike D sedentário e só Elijah Wood aparenta ter o físico e a disposição de Ad Rock daqueles dias de glória, numa de suas interpretações mais cativantes.

O trio central, no entanto, não deixa sua idade nem deformidades físicas atrapalhar suas performances como beasties adolescentes.

Após descerem as escadas, encontram com o mesmo casal que abre o vídeo de 25 anos atrás, vivido desta vez por Stanley Tucci e Susan Saradon. Depois de uma discussão aparentemente sem roteiro – “no pie, no sledgehammer team” é a cara dos improvisos de Seth Rogen – saem à rua para continuar a festa. Aos 4:20 Ad Rock convida Rashida Jones (a filha do Quincy, vestida com a mesma roupa que usa em A Rede Social) para uma pizza, pouco antes do MCA de McBride estourar a porta de vidro de uma loja de conveniência que estava fechada para pegar cerveja. É quando a parte “clipe” do vídeo começa e os três atores simplesmente encarnam os Beastie Boys de vez, dublando-os impecavelmente (Wood, de longe, o melhor deles, em poucos instantes em que sua atuação é tão importante quanto o resto de sua carreira). E enquanto rimam, jogam cerveja nos outros – como no Will Arnett do Arrested Development, que passa tranquilamente lendo um jornal, num táxi dirigido pelo Adam Scott do Parks & Recreation (que carrega um velho conhecido dos beastie boys como passageiro – Sir Stewart Wallace, o personagem de MCA no clipe de Sabotage, desta vez vivido pelo diretor de clipes Mike Mills) e num casal de religiosos (Rainn “Dwight” Wilson e Arabella Field).

O clipe diminui sua velocidade em uma das muitas variações de pitch desta meia hora – mas o rap se metamorfoseia numa composição eletrônica de Wendy Carlos, nos levando para território hostilmente kubrickeano. Os Beasties invadem um restaurante fino (o “Château de Ted et Michel Dée”, empreendimento citado nominalmente na letra de “Make Some Noise”) como a gangue de Alex de Large adentrou na leiteria Korova, arruaceiros num ambiente de fino trato – e lotado de participações especiais, pisque e perca alguém: Ted Danson é o mâitre, Steve Buscemi o garçom e entre os comensais estão Laura Dern, o diretor de clipes Roman Coppola, Amy Poehler (do Saturday Night Live e Parks & Recreations), Alicia Silverstone, Milo Ventimiglia (o Peter Petrelli de Heroes), Shannyn Sossamon (a Gingy Wu do How to Make it in America), Mary Steenburgen (do Curb Your Enthusiasm, mulher do Doc Brown no De Volta Para o Futuro) e Jason Schwartzman (que é creditado como… o Van Gogh do clipe de “Hey Ladies“!).

Mais uma vitrine quebrada e o grupo volta a rappear “Make Some Noise”, até que McBride rouba o skate de uma adolescente vivida por Losel Yauch (filha do MCA original), cruza a pista e é atropelado por uma limusine, que leva umas groupies para alguma banda de metal – interpretadas por Maya Rudolph, Kirsten Dunst e Chlöe Sevigny.

Esta última esfaqueia Ad Rock quase casualmente, enquanto a banda finge que é a banda de apoio do Bon Jovi e toma ácido como se fosse refrigerante.

E aí o Will Ferrell aparece tocando cowbell (“more cowbell!“) enquanto logo depois ele surger fantasiado de mariachi sobe no topo da limo (mais referência ao clipe de “Hey Ladies“). O jeito que essa cena é filmada pode ser considerado uma referência ao clipe de “Shake Your Rump“, da mesma época de “Hey Ladies”.

Imagina a quantidade de piadas internas que um vídeo desses deve enfileirar e a gente mal fica sabendo…

Viajado bonito, o clipe começa a alternar a velocidade da música, criando “ecos visuais” para a paisagem e o passeio dos beasties, e citando personagens que transitam entre a realidade e a ficção – como o vendedor de cachorro quente, vivido por Clint Caluory, que é creditado como se fosse o comediante Zach Galifianakis (de Se Beber, Não Case) fazendo o papel de George Drakoulias (o produtor dos Black Crowes, do Dust do Screaming Trees e do disco southern rock do Primal Scream, que foi homenageado nominalmente no Dead Man, no Paul’s Boutique, no Steve Zissou e no Jornada nas Estrelas do JJ Abrams). Mais adiante, Ad Rock/Elijah Wood segura a “câmera” do caricato diretor suíço Nathaniel Hörnblowér, o personagem tirolês vivido por Adam Yauch para dirigir todos os clipes dos Beastie Boys desde 1990. Em Fight…, Hörnblowér é vivido pelo comediante David Cross, do já clássico Mr. Show. Logo depois o Mike D de Seth Rogen encontra ninguém menos que Johnny Ryall, personagem-título de uma das faixas mais pitorescas do Paul’s Boutique, mendigo que se dizia rockstar do rockabilly, lavando o vidro de um carro e vivido por… Orlando Bloom, hahaha.

Até que a música para, o vento assovia (como no início de “Johnny Ryall“, veja só), passa uma bola de feno e os beasties encontram um velho Delorean com um tubo amarrado em seu capô. De dentro saem, fantasiados com as mesmas roupas que os três, Will Ferrell, John C. Riley e Jack Black, que logo se apresentam como os Beastie Boys do futuro e os desafiam para um concurso de break. Arrogantes e escrotos, os Beastie Boys do futuro discutem entre si e mal conseguem tirar o piso enrolado no capô de seu carro, enquanto o Mike D de Seth Rogen cogita que eles estão sendo apresentados a uma das versões possíveis do futuro da banda, “o fantasma de Licensed to Ill”, diz o MCA de Danny McBride, antes de constatar que “nós no futuro somos uns completos idiotas”.

Tem início a parte mais besta do filme, quando começa o campeonato de dança e nenhum dos dois trios é formado por atores propriamente dançarinos, e o tal concurso vira uma exibição de passinhos bestas e requebros preguiçosos cuja monotonia só é quebrada quando Elijah Wood começa a fazer o clássico passinho da “minhoca” no chão e o Mike D de John C. Riley começa a MIJAR EM CIMA DELE. O WTF não para por aí e só piora na medida em que todos os beasties revidam igualmente, tirando os paus pra fora e mijando uns nos outros. Só piora: vemos os rostos de cada um deles em closes fechados, tomando mijadas de todos os lados diretamente na boca. Nojento, grosseiro, inesperado e engraçadaço – como os beastie boys dos anos 80. O clipe termina de forma abrupta, com a chegada da polícia, cujos principais tiras são apenas os próprios Beastie Boys da vida real, dando bordoadas e borrachadas em seus clones hollywoodianos. Dá para ver melhor o logotipo de uma das lojas da rola, o CAFÉ MIJANO, antes do camburão carregar os mijões pra delega e um letreiro nos prometer uma terceira parte daqui a 25 anos.

Mas isso não é uma análise do vídeo, é apenas uma longa descrição em que tagueei as principais referências que pularam pelo clipe, uma versão audiovisual daquele infográfico da capa do Sgt. Pepper’s em que apenas os contornos das personalidades são realçados para que, através de uma lista de números, descubramos quem é quem. Não me admira o caráter enciclopédico dos beasties – a lista de vastas referências já é um formato escolhido pelo grupo tanto em clipes quanto em discos (é memorável a avalanche de samples em Paul’s Boutique e Hello Nasty ou de referênciais visuais nos clipes de “Sabotage” ou “Intergalactic”) e o grupo não parece ter escolhido seu nome por algum outro motivo além de posicioná-los entre os Beach Boys e os Beatles em qualquer ordem alfabética. Neste sentido, Fight For Your Right – Revisited mais do que um clipe, algo que mistura tanto cinema quanto videogame. A caça por referências a cada esbarrão é um convite ao espectador para ativar sua memória em relação a “quem é mesmo essa pessoa/esse disco/esse livro/esse filme?”, uma brincadeira exercitada pelos gênios do showbusiness atual, como JJ Abrams, os irmãos Coen ou Lady Gaga (esta última, depois eu falo melhor disso, em franca decadência). Os Beasties aceitam o convite feito por Michael Jackson em “Thriller” e resolvem entrar para um escalão de videoclipes que almeja o reconhecimento cinematográfico, clipes com cara de filme. 25 anos depois de terem dado a cara pela primeira vez, eles ainda se dispõem a desafios. E chamam sua turma de Hollywood para não fazer feio nesse novo nível. O resultado é o clipe acima.

Fight For Your Right – Revisited é, no entanto, um mea culpa e a consagração de uma assinatura. Mea culpa pois consagra o lapso de consciência que os Beastie Boys tiveram no final dos anos 80, algo parecido ao surto de lucidez que John Lennon teve logo após conhecer Yoko Ono, dizendo que se não tivesse encontrado sua mulher, terminaria sua carreira cantando “Blue Suede Shoes” em Las Vegas. Assim os Beastie Boys de Wood, Rogen e McBride se reconhecem nos beasties de Ferrel, Riley e Black. Se eles continuassem agindo daquela forma que agiam em 1986, seriam idiotas para o resto da vida. Daí a importância do questionamento consciente do Conto de Natal de Charles Dickens: se aqueles são os Beastie Boys do futuro, é melhor mudar o futuro.

O que, aparentemente é o que aconteceu, parece sublinhar o final do clipe. Mesmo que nada tenha dado certo, só o fato dos Beastie Boys terem encontrado eles mesmos mais velhos foi determinante para que eles seguissem outro curso, e mudassem de Nova York para a Califórnia, trocando Rick Rubin pelos Dust Brothers e o hard rock pelo groove setentista que passou a dar o tom de sua nova carreira. Não é difícil saber que o grupo olha para seu passado arruaceiro com uma dose de arrependimento, o próprio MCA (Adam Yauch) já deu várias entrevistas lamentando ter arruinado a vida de muita gente e seu fascínio temporário por armas. Não custa lembrar que Yauch é um personagem central nessa história: não é só ele o beastie boy que virou budista e organizou os concertos pró-Tibet nos anos 90 como teve câncer no ano passado, adiando o lançamento do novo disco do grupo para esse ano.

Mais do que isso: Yauch é o diretor e roteirista de Fight For Your Right – Revisited. E antes que se assustem com o súbito talento do MC, não custa lembrar que Yauch se escondia atrás do pseudônimo Nathaniel Hörnblowér para dirigir a grande maioria dos clipes dos Beastie Boys. Foi ele que, fantasiado de tirolês, invadiu a premiação da MTV norte-americana em 1994 para protestar contra “a farsa” que era o clipe vencedor (“Everybody Hurts” do R.E.M.) e dizendo que ele havia sido o criador da idéia original de Guerra nas Estrelas. Quase vinte anos depois de criar este personagem (que “dirigiu” o longa Awesome I Fucking Shot That, além dos clipes), Yauch dá adeus ao europeu e assume seu nome na direção do clipe, encerrando o média metragem com pelo menos mais uma promessa de vídeo, daqui a 25 anos.

É o momento de amadurecimento que reconhece a importância da adolescência descerebrada. A idade pode até estragar o título da banda, mas, na cabeça, os três ainda são boys.

8 Comentários

Neusinha Brizola (1954-2011)

New wave brasileira de luto. Não é mentira.

2 Comentários

Françoise Hardy e a primeira felicidade da manhã

Porque esse frio aí… Nada a ver.

Comente

4:20

5 Comentários

Segunda-feira Beastie Boys

E que tal comemorarmos o novo disco dos Beastie Boys com um dia dedicado ao grupo?

Comente

“O fuscão é o tipo do carro ideal para as pessoas que estão sempre apressadinhas”

1 Comentário

O fusca do Iron Maiden

E por falar em Fusca

Comente

“Yeah, baby she’s got it”

Vamo acordar?

2 Comentários
Página 100 de 284« Primeira...50...96979899100101102103104...150200...Última »