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Arquivo: 2008 trabalho sujo

As 50 melhores músicas de 2008: 38) Vítor Araújo – “Paranoid Android”

Ele começou o ano ainda menor de idade, pautado ao lado de Mallu Magalhães, como um dos “adolescentes prodígio da geração internet”, mas logo saiu do foco porque o pernambucano Vítor Araújo pode ser pop, mas sua música não assobia-se. Musicista com formação erudita, ele chamou atenção a princípio por seu virtuosimo precoce e logo depois por dessacralizar composições clássicas martelando o piano ou tocando-o de pé, entre outras travessuras – que ainda ainda incluíam desconstruir harmonicamente canções inteiras, seja Villa-Lobos, Luiz Gonzaga ou Radiohead (e escolher “Paranoid Android” diz um pouco sobre sua própria geração). Uma de suas subversões causou polêmica no Recife, pois o autor de um frevo desconstruído, o maestro Marlos Nobre, não gostou de ver Vítor martelando sua obra, chamando seu piano de estabanado e acusando-o de deslumbrar-se com o sucesso. Ao atravessar a “Bohemian Rhapsody” dos anos 90, Vítor adiciona cores e tempos que escondiam-se nos detalhes da canção, tornando o vocal de Thom Yorke, tão característico de qualquer música da banda, dispensável, e a música cresce ainda mais.


38) Vítor Araújo – “Paranoid Android

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Os 50 melhores discos de 2008: 38) Wado – Terceiro Mundo Festivo

Lembro quando Wado começou a flertar com a música eletrônica e ele me falava empolgado da descoberta de um novo instrumento (a groovebox) e de letras que tinham um pé na pornografia como se pudesse zerar a própria carreira e cair – literalmente – de boca em uma nova versão de si mesmo. Ficava pensando no que poderia vir. Era 2006 e a época marcava o auge do Cansei de Ser Sexy no exterior, o começo do hype ao redor do Bonde do Rolê e mais uma época de vacas gordas (sem trocadilho, plis) para o funk carioca. Imaginava a possibilidade esdrúxula do compositor catarinense-alagoano voltar electro, celebrando o hedonismo e o fake, temperado com batidas secas, putaria e zero melodia – algo como uma “versão noite” para sua obra praiana. Qual o qUê. Terceiro Mundo Festivo, o quarto disco de Wado, é justo o contrário – é seu disco mais diurno e em vez de deixar o ar noturno contagiar seu trabalho, usou de sua latinidade para fazer o litoral nascer no bailão. Assim, o suor que pinga não é só o do movimento da dança, mas também o da preguiça de deitar-se ao sol. O truque foi usar riffs e baladas ao piano como contrapeso dos beats eletrônicos – quase todos criados a partir de timbres acústicos. Mesmo quando uma possível mundanidade lírica surge, ela é modesta, se comparada, por exemplo, com a putaria de Caetano Veloso no experimental – e chato – e Cê: uma “buceta” que rimaria com o título da faixa “Teta” é deixada no ar pelo cantor, enquanto o refrão de “Recado” (“escuta amor/ O som do bate-estaca / No coração no meu coração empaca / Eu vou te fazer puta”) é apenas bonito – Wado segue fino, embora cutuque algumas feridas, como o rádio (“Reforma Agrária do Ar”) e a imprensa (o protesto de “Fita Bruta” me lembra o de “Look Inside America”, do Blur). E assim segue o disco: o groove latino lo-fi de “Faz-me Rir” contrapondo-se à a levada de baile de “Lucrécia” ao som de gaivotas que ecoam no horizonte, sob um mar com textura de teclado jovem guarda. Wado espreguiça-se, alheio ao fato do Brasil sequer conhecer um de seus principais compositores.

38) Wado – Terceiro Mundo Festivo

Wado – “Reforma Agrária do Ar

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As 50 melhores músicas de 2008: 39) Cicada – “Falling Rockets (Just a Band Remix)”

“Falling Rockets” é tão boa que parece sobra da coletânea do Blondie, mas quando os franceses do Just a Band deram um trato na música dos ingleses, o que tinha cara de hit new wave ganha ares de século 21, graças a timbres de sintetizador que ricocheteiam e deslizam pela música, por cima de uma base em que cowbell e uma sinuosa linha de baixo constróem o groove. Lá na frente, a vocalista islandesa Heidrun Bjornsdottir (que era do Gus Gus, lembra?) se esparrama pelo refrão, irresistível – “again and again and again and again…”.


39) Cicada – “Falling Rockets (Just a Band Remix)

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Os 50 melhores discos de 2008: 39) Jamie Lidell – Jim

Jamie Lidell passou por uma situação mais ou menos parecida com a dos Gnarls Barkley, a diferença é que sua “Multiply” não chegou sequer perto do sucesso de “Crazy” (que pena). Mas isso, por outro lado o liberou para fazer um disco essencialmente pop e mergulhado na soul music sessentista, sem as incursões pela música eletrônica e pelo multiinstrumentalismo do disco que levava o nome de seu principal hit. Como o barulho feito por “Multiply” foi modesto, Jamie não teve ressalvas na hora de mirar nos hits e isso torna seu segundo disco em um rosário de faixas ensolaradas (“Wait for Me”, “Figure Me Out”, “Little Bit of Feel Good”, “Another Day”, “Hurricane”, “Out of My System”), com instrumentação mínima (solinhos de guitarra nos detalhes, teclado vintage temperando tudo, percussão milimétrica, baixo derretendo) e altíssimo astral soul music. Até nas músicas mais bucólicas (“Rope of Sand”, “All I Wanna Do”) , mesmo cutucando a tristeza, Jim desperta um sorriso. Um ás da soul music moderna, fico pensando o estrago que ele faria caso produzisse o próximo disco de Amy Winehouse…

39) Jamie Lidell – Jim

Jamie Lidell – “A Little Bit of Feel Good

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As 50 melhores músicas de 2008: 40) Justice – “Planisphere”

Martelando sua cruz onipresente e assinando a opção por um estilo de vida mais agressivo e violento, o Justice atravessou 2008 como se fosse uma banda de rock. Jaquetas de couro, camisetas de bandas de metal anos 80, shows terminados com Metallica clássico, o clipe xenófobo de “Stress” e o hedonismo barra pesada (e fake) do documentário A Cross the Universe – tudo isso fez com que o ano do Justice soasse distante da cena eletrônica, jogando a dupla francesa para uma dolce vida de decadência glamourosa, excessos deprimentes e surtos psicóticos que já foram o sentido da vida do rock’n'roll e da indústria fonográfica. Mas eles só (?!?) precisaram de 17 minutos para informar-nos que ainda pertenciam à dance music e fizeram isso com um épico eletrônico progressivo feito para o desfile da Dior Homme. Apesar de trechos remixáveis e do ritmo bordoada, “Planisphere” não pertence à pista de dança e funciona como uma paleta de estilos que o grupo usa como arena temática em que vôos solitários, beats maximalistas, clima bíblico, electro exagerado, vocais indecifráveis e até um insuportável (mas contextualizável) solo de guitarra podem conviver numa boa. E ao mesmo tempo acenam para um inevitável revival progressivo na próxima década.

40) Justice – “Planisphere

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Os 50 melhores discos de 2008: 40) Lykke Li – Youth Novels

Uma artista com senso de consumação. A sueca Lykke Li foi criada em Portugal, o que deu a seu pop descarado uma característica melancólica e triste, unindo o horizonte limpo e desolador de ambos países em uma mesma linha musical que mistura melodias fáceis, vocais açucarados (às vezes, demais) e texturas polares. É pop eletrônico mas ao mesmo tempo é folk nórdico, como se Cat Power e Kylie Minogue fossem a mesma pessoa e tivessem nascido em uma aldeia esquimó e os poucos recursos que tivesse para fazer música fossem um violão, um teclado simples, uma bateria eletrônica e as palmas de alguns amigos ao redor de uma fogueira. Youth Models, seu primeiro disco, equilibra canconetas descartáveis (“Breaking it Up”, “Let it Fall”, “Complaint Department”) com baladas densas e contemplativas (“This Trumpet in My Head”, “Window Blues”, “Time Flies”). Às vezes ela acerta nos dois pontos ao mesmo tempo, em faixas que beiram a perfeição, (não fosse a timidez), como “Little Bit” e “I’m Good, I’m Gone”. E é aí que ela se revela promissora.

40) Lykke Li – Youth Novels (senha: WhereThe)

Lykke Li – “Little Bit

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As 50 melhores músicas de 2008: 41) Bag Raiders – “Turbo Love”

A cena australiana foi uma das principais protagonistas de 2008: nomes como Midnight Juggernauts, Cut Copy, Presets, Pnau, G.L.O.V.E.S., Knightlife e Empire of the Sun aos poucos estão voltando a colocar o país de volta à trilha sonora do planeta (não é a primeira vez, lembre-se dos anos 80…), mas desta vez não é mais a guitarra o principal instrumento e sim timbres de sintetizadores retrô, divididos em grupos que burilam as texturas oitentistas com melodias e alguma pegada de banda de rock e produtores que descem bordoadas de ritmo sintético na orelha. Os Bag Raiders – que vieram ao Brasil esse ano – lançaram um EP que apontam para ambas direções, mas se “Shooting Stars” hipnotiza com sua repetição lisérgica, é a faixa que batiza o disco, “Turbo Love”, que colide MSTRKRFT com Giorgio Moroder em quase cinco minutos memoráveis. Se posta ao lado de seu primeiro hit, “Fun Punch”, e de uma estratégica lista de remixados, dá pra antecipar que a dupla formada por Chris Brave e Jack Sabbath pode estar saindo do terceiro escalão do pop atual muito rápido – e quem sobe assim pode, de repente, chegar ao primeiro…


41) Bag Raiders – “Turbo Love

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Os 50 melhores discos de 2008: 41) Gnarls Barkley – The Odd Couple

Dangermouse deu um tempo em sua escalada ao topo do pop para se preocupar essencialmente com música. Vocês conhecem a carreira do cara e sabem como cada canção, remix ou mashup, além de preciosamente cuidado, vinha com uma sacada estratégica para se posicionar no mercado pop: seja fundir Beatles com Jay Z no infame Grey Album, produzir o segundo disco dos Gorillaz, lançar “Crazy” antes em MP3 (fazendo a faixa ser a primeira canção digital a chegar no topo de uma parada), as apresentações de cosplay na TV. Para driblar a inevitável síndrome do segundo disco, o produtor e seu parceiro Cee-lo resolveram concentrar-se essencialmente em música e, como se comemorassem o fato de pertencerem à Atlantic (a mesma casa por onde já passaram Ray Charles, John Coltrane, Aretha Franklin e o Led Zeppelin), gravaram um disco de soul music para o século 21. Sim, é um pacote de canções apaixonadas, timbres vintage, refrões memoráveis e vocais deliciosos, mas o clima passa longe dos vôos de coração ou odes à dor de cotovelo do gênero em sua fase áurea, nos anos 60. Como pede a tensão instaurada em nosso século, Odd Couple é um disco sobre confusão, sensação de perda espiritual, apatia, medos que se avizinham e um cheiro de algo podre no ar ao mesmo tempo em que chama para a pista de dança, para o balcão do bar, para o escuro da noite, para o canto do banheiro. Os dois responderam à espera por uma nova “Crazy” com um disco que, embora não tenha uma “Crazy” (abertamente de propósito), soa como se a faixa fosse um disco – sua ansiedade, fobia, paranóia e claustrofobia espalhadas por treze canções, com começo, meio e fim, em que melodias (empolgantes ou tristes) se fundem perfeitamente com o ritmo. E se Dangermouse mostra que seu instinto musical vai além dos sons pré-gravados (seria a presença da sombra de Mark Ronson no pop mundial?), Cee-lo flutua por todo o disco. E se sua voz fosse o único motivo para argumentar a favor da sobrevivência do formato álbum, bastaria. (E, mesmo assim, os dois conseguiram criar factóides online – seja ao “vazar” a faixa “Run” antes da hora, chamar o ?uestlove do Roots para apresentar “Who’s Gonna Save My Soul?” ao público – além do próprio clipe, megadramático -, antecipar o lançamento do disco logo que ele vazou inteiro online e usar uma maneira bizarra – liberar o download do disco inteiro de trás pra frente [?!] – para criar um mailing online).

41) Gnarls Barkley – The Odd Couple

Gnarls Barkley – “Going On

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Os 50 melhores discos de 2008: 42) Nick Cave & the Bad Seeds – Dig Lazarus Dig!

Nick Cave melhora à medida em que envelhece – isso é fato. Mas diferente do estereótipo (raro) do roqueiro velho que, aos poucos, vai deixando o barulho de lado e tornando-se um intérprete respeitável, ele não nega seu passado – o projeto Grinderman, do ano passado, já mostrava que ele não estava disposto a envelhecer como um baladeiro no piano (não que isso fosse ruim, afinal, Nick Cave baladeiro é melhor do que 90% do povo que compõe baladas hoje em dia). Mas se Grinderman era cru e, de certa forma, quase adolescente, como envelhecer com uma banda de rock – ainda mais se a banda em questão é o Bad Seeds? Dig Lazarus Dig responde à essa pergunta com convicção e força bruta, mas sem nem cair no ruído reminiscente do Birthday Party nem forçar a barra para parecer maduro. Afinal, nem precisa: maduro, Cave já é há umas duas décadas, pelo menos. A solução para o dilema veio com a sombra da influência do velho bardo americano. Dig Lazarus Dig é dylanesco do começo ao fim: relatos apocalípticos sobre paisagens desoladas, discursos bradados do alto do púlpito, viagens intermináveis pelo interior dos EUA, personagens bíblicos perdidos num cotidiano em colapso em canções que, embora tenham em sua maioria menos de cinco minutos, poderiam ser estendidas por horas ao vivo. Mas antes que você comece a imaginar que Cave esteja resmungando ao microfone, vai com calma: ele, ao contrário de Dylan (que nunca se considerou cantor), conhece a força e o alcance de sua voz, elevando composições terrenas para vôos à força. Com o dedo em riste enquanto a outra mão busca o coldre, Nick Cave pode estar velho, mas está longe de se aposentar. Sorte nossa.

42) Nick Cave & the Bad Seeds – Dig Lazarus Dig!

42) Nick Cave & the Bad Seeds – “Dig Lazarus Dig!

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As 50 melhores músicas de 2008: 42) We Are Scientists – “Chick Lit (Danger TV Remix Edit)”

Lá vem o remix salvar geral. A música original dos We Are Scientists é normalzinha, devagar quase parando, a algum centímetros de ser considerada boa. Mas quando o Danger – o mesmo que fez um set insuportável no Tim Festival desse ano – meteu a mão para remixá-lo, rolou um toque de Midas. Assim, os impactos dos riffs da versão original foram substituídos por bordoadas emborrachadas, o timbre do vocal foi distorcido para lembrar um falsete e o refrão, sem groove na primeira versão, tornou-se cavalar. Com essa nova roupagem, até a letra da música ganhou novo sentido – se antes parecia misógina e grosseira com frases como “I asked you nicely once but I won’t do that again” e “I wanna see you all buried alive”, com o dedo de Danger tornou-se um chamado para a pista.


42) We Are Scientists – “Chick Lit (Danger TV Remix Edit)

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