A introdução composta por um zunido repetitivo abre a música como se o Daft Punk da fase “Robot Rock” estivesse experimentando uma áudio-hipnose gerada por uma furadeira. E quando Britney começa a cantar - monocórdica, monótona, robótica, mecânica - a faixa ganha ainda mais contornos artificiais, mesmo que sua sensualidade de plástico atice algum vestígio de humanidade. Quando ela entra no refrão - “Womanizer” quer dizer “Mulherengo”, imagina um refrão que repete essa palavra nove vezes seguidas -, Britney já extrapolou as fronteiras entre jingle e o single, o hit e o repeat. Termos como “comercial” e “pop” ganham novas dimensões à medida em que a diva fake dispensa outro jovem popstar que vem bater em sua porta com uma música incrivelmente grudenta, bubblegum para a era eletrônica. “Womanizer” não chega nem aos calcanhares das melhores faixas de Britney (”Toxic”, “Baby One More Time”, “Slave 4 U”, “Gimme More”), mas é boa o suficiente para figurar entre as melhores do ano. E sedimentar a carreira cada vez mais sólida de Britney Spears.
18) Britney Spears - “Womanizer“
Vamos aos fatos: o que salva o Ting Tings é o refrão de “Great DJ”. Sem ele, os hits da banda (”DJ”, “Shut Up and Let Me Go” e “That’s Not My Name”) seriam só a repetição de uma fórmula que o Ting Tings descobriu, que transforma o White Stripes em pomponetes de torcida de futebol americano. Graças a uma vocalista loira e magra que funciona no vídeo, a fórmula vem sendo repetida com tanta insistência que, não fosse o tal refrão, a dupla inglesa conseguiria ser mais chata do que a Peaches. Mas há o refrão de “Great DJ”: “Imagine all the boys/ And the girls/ And the strings/ And the drums, the drums, the drums” com todos seus “a-a-a-a” e “i-i-i-i” que tornam a música memorável. Aí vem o Calvin Harris e sacrifica uma das melhores partes da música (o trecho guitar), distorcendo-o e entortando-o de um jeito que a música ganha um par de quadris até então não utilizados. O remix chacoalha a dupla inglesa formada por Katie White e Jules De Martino de tal forma que se eles insistirem no formato riff-e-bateria por mais um disco, não vão muito longe. Calvin deu a dica - rebolem.
19) Ting Tings - “Great DJ (Calvin Harris Remix)“
Por mais desleixado e relaxado que os dois MGMT pareçam, eles são um projeto - algo entre um minucioso relatório nerd sobre a era psicodélica e suas relações com as ciências ocultas e um estudo fashion sobre o resgate das cores e do despojo durante os anos 60. Usam toda a mitologia sessentista como os góticos se referem aos poetas românticos, os metaleiros do mal se debruçam sobre o satanismo e algumas bandas de música eletrônica deixam-se levar por clássicos da ficção científica. Assim, vêem a década que deu ao mundo o flower power, os mods, o arcadismo hippie, a transgressão política, a esquerda rebelde e o rock como estilo de vida como uma coisa só - e traduzem hinos pop que poderiam ser gravados pelo Cure, pelo Kiss ou pelo Abba sob arranjos descaradamente retrô. “Electric Feel” é sua ode à selva, ao paganismo naturista, de sacrifícios a deuses-animais e confins do planeta. Mas, no fundo, no fundo, é só uma canção de amor. E das boas.
20) MGMT - “Electric Feel“
Dono de um dos melhores discos nacionais de 2006 (só ficou atrás do Kassin, na minha votação), os Supercordas adiaram seu terceiro disco para 2009, mas não passaram por 2008 sem antes deixá-lo com um doce na boca. “Mágica” afasta o mofo celebrado em Seres Verdes ao Redor em uma canção tanto ensolarada quanto mística, usando guitarras e efeitos sonoros para levar o ouvinte a uma utopia primaveril, de psicodelia brasileira setentista, que mescla, sem preconceito, o Clube da Esquina com os Secos & Molhados, os Mutantes menos engraçadinhos com o Raul Seixas mais sério, reverberando melodia, acordes e solos que poderiam ter saído do Magical Mystery Tour, do Pet Sounds, do Odissey & Oracle ou de qualquer banda da Elephant Six. E o que dizer de uma letra que enfileira o rio São Francisco, a Califórnia, o Peloponeso, igarapés espaciais, cápsulas de sonho, formigas e dragões para culminar em “toda a mágica deriva dos elefantes” e desembocar em uma coda que poderia ser tanto da fase de transição do Pink Floyd quanto do final dos Beatles. Nota 10.
Supercordas - “Mágica“
Não é senso de composição que falta aos Black Kids. O grupo americano tem noção do que faz uma música tornar-se memorável e realmente trabalha nesse sentido - seu disco de estréia, Partie Traumatic, é um esforço louvável de se fazer música pop pura e simples no século 21 e seu vocalista Reggie Youngblood tenha a voz com mais personalidade entre as bandas que não têm mais de dois discos de carreira. Mas a banda ainda não chegou lá - “I’ve Underestimated My Charm (Again)” e “Hurricane Jane” tem refrões irresistíveis, mas instrumentação frouxa, preguiçosa, desleixada - o que pra muitos é estilo. Mas a dupla carioca Twelves mata a charada ao costurar as pontas que sobram, subir um pouquinho o tempo e o pitch da faixa original e finalmente envernizá-la com um brilho oitentista, que, se sozinho reflete e brilha, sobre os Black Kids dá a textura ideal para que a banda aspire para além da própria vizinhança. Questão de postura - tem gente que prefere andar encurvado, tem gente que prefere esticar os ombros e estufar o peito. Os Twelves fazem os Black Kids andarem nos trilhos.
22) Black Kids - “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How to Dance with You (Twelves Remix)“
O que acontece quando um dos gangstas da velha guarda resolve dar seu pitaco nessa conversa de revival dos anos 80? Pois Daft Punk e Chromeo bebem da mesma fonte de vocoders, sintetizadores e suíngue quadrado que o próprio gangsta reinventa há vinte anos - e que foi justamente o ponto de atrito entre aquele novo rap e a soul music dos anos 90, dando origem a esse cenário R&B de Beyoncés, John Legends e Chris Browns. Por isso quando Snoop Dogg surge no horizonte, antes de perguntar-se se aquilo tudo é fumaça branca ou gelo seco, preste atenção. Preguiçoso e cantando (rá!), o velho Snoop espreguiça-se em uma rede de cordas sintetizadas, deixando seu vocal modular-se pelo Autotune tendo como espelho mais a dupla Roger & Zapp do que Cher (chupa, Kanye West!). Fora o clipe, retrô no talo, que também é - fácil, fácil - um dos melhores do ano passado.
23) Snoop Dogg - “Sensual Seduction“
Se o MGMT pode ser encarado como o filho improvável do LCD Soundsystem com os Flaming Lips, “Kids” é o desenho colorido que ele vem mostrar feliz. Construída ao redor de uma única frase musical, um mantra repetido num teclado cafona, ela é uma espécie de busca ao tempo perdido da infância através da dança, encontrando paralelos no quase autismo de qualquer criança no pequeno universo de seu quarto e a dança de olhos fechados na pista de dança indie. Synthpop disfarçado de psicodelia dance, “Kids” existe desde 2003 (quando o grupo ainda se chamava The Management) e funcionou como a base dos três pilares que tornaram a dupla nova-iorquina em um dos principais nomes de 2008.
Qual é o melhor exemplo do maximalismo que toma conta da música de pista hoje em dia? Os riffs metal do Justice? O pânico desenfreado do Goose? O quase-rock do Digitalism? O brutalismo ritmico do MSTRFKRFT? Embora surja em diferentes praias (as bandas listadas vêm da França, Bélgica, Alemanha e Canadá), a música que talvez melhor sintetize essa tendência, que começou a desenrolar a partir do raivoso Robot Rock do Daft Punk, seja o hit do quarteto inglês Does it Offend You Yeah?, que, no meio de bordoadas sintetizadas, sirenes, efeitos, vocoders, cowbell e levada de rock ainda resume, bem ou mal, o que anda acontecendo com a música em tempos de redes sociais:
You’re all rock stars now in a network town
theres no place to go,
to be on your own
making friends and foes
watch the network grow,Will you find a time
when you’re not online
standing all alone,Where’s your real friends now?
you have let them down
you’re a download pal.
Yeah.
25) Does it Offend You Yeah? - “We Are Rockstars“
Um novo redesenho na geopolítica da música pop vem lentamente valorizando a canção tradicional - e ele vem, improvavelmente, da mesma música eletrônica que ajudou a demolir o formato introdução-estrofe-refrão-estrofe-refrão-instrumental-refrão-fim. E à medida em que duas cenas tradicionalmente coadjuvantes à história da música pop, a França e a Austrália, vão se movendo para o centro do palco principal graças às suas recentes safras de dance music, juntos trazem na bagagem o apreço pela canção perfeitinha, com começo, meio e fim. Os sabores utilizados para esse resgate, no entanto, passam longe do pop clássico dos anos 60, preferindo buscar, como base, o power pop dos anos 70 e o pop sintético dos 80. É essa melodia que faz bandas tão diferentes entre si soarem como uma cena - o que une, na França, Daft Punk, Air, Phoenix, Justice, Yelle e Stardust e, na Austrália, Cut Copy, Van She, Midnight Juggernauts, Ladyhawke e Presets. A dupla Empire of the Sun, formada por integrantes de outras bandas australianas (Luke Steele, líder do Sleepy Jackson, e Nick Littlemore, que toca no Pnau e no Teenager), batizou seu disco de estréia com o nome de sua melhor canção, que resume rapidamente o tipo de resgate que essa cena vem provocando. E à medida em que Sydney e Paris se aproximam, ecos desta nova canção aos poucos surgem em diferentes partes do planeta, seja na Nova York do MGMT e do Yeasayer ou na Inglaterra que viu sugir o Friendly Fires e o Late to the Pier.
26) Empire of the Sun - “Walking on a Dream“
A percussão começa levinha, devagar, e em menos de dez segundos, o baixo e os efeitos nos jogam em um trecho dos anos 70 em que a disco music ainda não tinha sido efetivada como gênero musical e caminhava à espreita por inferninhos nova-iorquinos que nunca imaginariam que aquele som poderia atingir um público massivo. Mas o aspecto retrô de “Blind” começa a se desfazer assim que Anthony começa a cantar - com seu timbre operístico e tom sóbrio avançam anos à frente, ultrapassando tanto o techno de Detroit quanto a house de Chicago, descambando em samples de metais que se misturam e pulsam à medida em que chegamos aos “feeling…” cantandos no refrão. Com melodia discreta, letra indie e produção precisa, A faixa resume a tensão de 2008 sem cair apenas na melancolia pessimista ou no desespero vazio característicos do ano. Uma canção introspectiva construída sobre uma base igualmente militar e funky, “Blind” é um clássico instantâneo.
27) Hercules & Love Affair - “Blind“
Dá pra sentir o fardo que o Los Hermanos vinha sendo nos ombros de Rodrigo Amarante no jeito que ele canta na primeira música que o Little Joy revelou ao mundo - ao mesmo tempo em que se inclina para trás, sua voz parece sair com um sorriso escancarado, acompanhado de uma guitarra posicionada entre o Havaí e alguma praia do sul da Bahia. De férias com uma banda californiana, ele parece está devolvendo para o mundo ensinamentos que aprendeu com Lulu Santos no Brasil: da tranqüilidade atmosférica ao calor tropical, passando pela métrica conversada, um refrão pra ser cantado em grupo ou a dois e melodias que grudam no cérebro como se viessem de fábrica.
28) Little Joy - “Brand New Start“
Estamos em um puteiro, num escritório gigantesco, no quarto de uma adolescente enfurecida com os pais ou num delírio melancólico de uma menina de 10 anos? “I’m Good I’m Gone” é tudo isso e mais. É uma espécie de “Like a Virgin” indie, engolindo as referências do pop feminino escapista do século e as transformando em suor febril, como se houvesse doses pesadas de ironia consciente em cada hit de Britney Spears ou Christina Aguillera. É também uma descida tão íngreme quanto o furacão que leva Dorothy a Oz ou o buraco em que Alice cai para sair no País das Maravilhas - com palmas, ecos, backing vocals, um piano fantasmagórico e a certeza que sai diretamente da inocência: “E se você diz que eu não estou OK, então devemos ir/ Se você diz que não tem jeito que eu possa saber/ Se você diz que eu miro muito alto daqui de baixo/ Bem, diga que não, porque quando eu for/ Você vai me chamar, mas eu não atenderei o telefone”. Lykke Li vai longe.
29) Lykke Li - “I’m Good I’m Gone“
O sample enganchado do começo e uma introdução à Dave Fridmann não nos preparam para as palmas que marcam o ritmo muito menos para os vocais esganiçados de Michael Angelakos. E pelo meio de “Sleepyhead”, percebe-se que o Passion Pit se encaixa perfeitamente na nova categoria criada pelo MGMT no ano passado - em que a psicodelia da pista de dança é traduzida para o século 21 sem perder seus ares essencialmente hippies. Mas o elemento bicho-grilo no caso não é o ripongo dos anos 60, mas o indie-kid fã de Scritti Pollitti e Prefab Sprout que, em algum momento dos anos 90, descobriu que, com uma guitarra e um sample, podia ser tão psicodélico quanto os Beatles ou o Pink Floyd de Syd Barrett. Primeiro single de uma banda ainda sem disco, “Sleepyhead” sofre do mesmo distúrbio bipolar que acomete a década - e é tão pueril e melancólica quanto assobiável e divertida. Uma jóia.
30) Passion Pit - “Sleepyhead“
Inevitável que o revival dos anos 80 saísse das bandas da trilha sonora da Sessão da Tarde e do Globo de Ouro para avançar para outros territórios - e 2008 viu o cenário pop revisitar seu apreço pelo continente negro, com todo aquela culpa pós-colonialista disfarçado de pena (seja em filmes, discos-tributo, gêneros musicais redescobertos ou na ascensão de Nollywood para o olho mundial). Revisitando os mesmos anos 80 habitados pelo “We Are the World”, pela world music do Sting, Paul Simon e Peter Gabriel e pelo Live Aid, essa (nova) pilhagem ocorreu mais no plano das idéias do que na vida real, embora juju music, highlife, kwaito e afrobeat ainda sejam o mesmo tipo de som (”música africana”) para a maioria das pessoas (como se a África fosse um só país… Alou Sarah Palin!), que também não se importam com o que acontece por lá. Um dos expoentes desta nova tendência, o grupo nova-iorquino Vampire Weekend seria só mais uma bandinha indie nova-iorquina tentando soar inglesa se não fosse essa queda pela música do Congo, daquela vaibe praieira que deu ao Caribe a essência de sua musicalidade e ritmo (a influência espanhola veio por cima, como cobertura e, em alguns casos, recheio). O hit “The Kids Don’t Stand a Chance” (pô, Bruno, achei o remix bonzão) funcionaria em qualquer época, mas tem tanto de apelo popular quanto não tem de criatividade ou originalidade. Se lançado nos anos 90, o disco homônimo de estréia do grupo cairia na vala comum da terceira onda do ska - mas provavelmente com um prefixo “alt.” na frente, pois eles não jogam pelo pop descarado, optando pelo indiesmo. Mas no meio da pasmaceira há uma pérola. “Cape Cod Kwassa Kwassa” é toda certinha: do suíngue à economia dos instrumentos, do baixo recolhido aos vibrafones, do riff curto e preciso aos acordes que desenham uma linha de baixo, da percussão que fica atravessada no refrão aos “uuuuuuuuuu” que o vocalista Ezra Koenig puxa lá pelo final. “Parece tão inatural/Peter Gabriel também”, canta a canção, auto-referente. Mas é o Peter Gabriel que parece tão não-natural ou o sentimento da música que soa tanto inatural quanto Peter Gabriel, transformando o ex-vocalista do Genesis num adjetivo. Aposto na segunda opcão, que torna a faixa ainda mais eficaz - e preciosa. Esqueça o resto do disco, você só precisa desses três minutos e meio.
31) Vampire Weekend - “Cape Cod Kwassa Kwassa“
Num ano em que uma das principais protagonista foi uma menina de 15/16 anos, quatro moleques um pouco mais velhos que isso (mas com menos de 20 anos) surgiam de Colatina, no interior do Espírito Santo, cantando a seguinte canção:
“I was born in the 90s and asked my mom
“Why did i came so late?”
Cause all my friends born in 80s
And i’m still lost in 90s
Oh my god, something isn’t OKWhen i go to the club
Waiting DJ play J-Lo
The only thing i hear is another Devo song
I wish Spice Girls were younger
So they could save the worldI was born in the 90s
(91 or 92 or 93 or 94)
We were all born silly guys
Now all we think is about fuck(I’d say I love Prince if you stay
Come and wash my “Purple Rain”)I still love my walkman
Cause these ipods are only trendsCome to my house
Spend the afternoon watching friends
Then we could go my room
Do the “Macarena” dance
Can’t touch this?
Can’t touch this?
Don’t go on baby cause it’s not working
I’m horny but I’m not a slut
I was born in the 90sSave my posters of Backstreet Boys
My Nintendo and Lion King box
Hold on mother I’m coming home tonight”
Toda “I Was Born in the 90s” é noventista: irônica, cospe referências como se precisasse delas para parar em pé, transformando pós-punk inglês em hit de rádio, enquanto finge apatia e casa riffs secos com bateria crua e camas de teclado que resvalam no gótico. E a música é uma demo. Forma e conteúdo não se distinguem e faz com que a Gangue do Mickey soe moderna e retrô ao mesmo tempo - algo como se o tema dos anos 00 fossem a volta dos anos 00.
32) Mickey Gang - “I Was Born in the 90s (Demo)“
Não se deixe enganar pelo visual street e pela voz gemida: Santogold tem tanto a ver com a M.I.A. ou Missy Elliott, quanto com os Strokes ou os Yeah Yeah Yeahs. E onde melhor que “L.E.S. Artistes” para perceber a indie chorona que se esconde por trás de seus bonés, perucas e óculos escuros? Da guitarrinha cata-milho da introdução ao refrão pop anos 80 (new wave de arena anyone?) passando por uma letra que poderia ser assinada por Kurt Cobain, o hit de Santogold é mais uma prova de que o melhor rock de hoje é encontrado onde menos se espera.
33) Santogold - “L.E.S. Artistes“
“Baunilha, morango…”, parece ser um jeito estranho de assumir uma guinada, mas é assim que o Fujiya & Miyagi caminham aos poucos rumo à uma popularidade maior - para frustração dos indies e felicidade da pista de dança. Mas sem delírio eletrônico - a pegada aqui ainda é o bom e velho krautrock em que o F&M construiu sua casa - a tensão rítmica e repetitiva sussurrando riffs, deslizes de baixo e uma letra que mistura a maçã bíblica com o fantasma de uma modelo infantil. E não é um movimento isolado, como talvez tenha sido seu primeiro espasmo rumo ao pop, a deliciosa “Collarbone” - afinal, além de “Knickerbocker” funcionar como introdução para um disco estável (Lightbulbs, também deste ano), o quarteto ainda desequilibrou o melhor momento do disco do Bomb the Bass desse ano, em “Butterfingers”. Preste atenção que, em um próximo disco, com mais um hit redondo desses, eles saem de seu gueto.
34) Fujiya & Miyagi - “Knickerbocker“
2008 reacendeu a disco music como um estilo de música sofisticado, suave, cool e emotivo, sem a felicidade histérica ou groove pesado de suas origens. A recente nu-disco toma para si o rótulo que um dia já abrangeu Jamiroquai e Brand New Heavies separando a musicalidade refinada com o tom robótico e europeu continental ao chamar para si a finesse da pista de dança, que um dia era exclusiva da house music. É aí que se encaixa o hit de Sam Sparro - “Black & Gold” é, ao mesmo tempo tempo, chique e escorregadia, posuda e quente, séria e sexy - como poucos tentaram durante o ano.
35) Sam Sparro - “Black & Gold“
A música-chave do novo disco dos Kills, Midnight Boom, já vale por toda sua carreira. “Cheap and Cheerful” é um chega pra lá no roquinho fuleiro que se passa por punk nos anos 00, que transforma a guitarra em elemento de percussão, enfatizando a divisão de forças entre o ritmo primitivo e o escárnio primitivista que a vocalista americana VV resmunga sobre a chatice que é ser normal. “Tudo bem ser mal”, resume o espírito de uma música que é tão perigosa quanto divertida - elementos básicos para isso que chamamos de rock’n'roll. Fora o fato de servir para remixes fodaços.
36) Kills - “Cheap and Cheerful“
2008 foi um ano fraco para o chamado “novo rock” que surgiu no início do século: um dos Arctic Monkeys foi pro violão, os Strokes andam cada vez em marcha mais lenta, Jack White tem deixado o White Stripes cada vez mais como sua segunda banda, o Killers deixou as guitarras em segundo plano, enquanto Walkmen, We Are Scientists, Bloc Party e Kaiser Chiefs lançaram discos sem uma música que chamasse atenção em suas versões originais - o último não conseguiu nada que chegasse aos pés dos hits fugazes “I Predict a Riot” ou “Everyday I Love You Less and Less” ou pelo menos ao refrão populista de “Ruby”. Coube aos australianos do Cut Copy passar um verniz de disco music na faixa, polindo guitarras, vocais e reestruturando a música com detalhe e precisão - até parece uma música boa do Franz Ferdinand. Coisa linda.
37) Kaiser Chiefs - “Never Miss a Beat (Cut Copy Remix)“
Ele começou o ano ainda menor de idade, pautado ao lado de Mallu Magalhães, como um dos “adolescentes prodígio da geração internet”, mas logo saiu do foco porque o pernambucano Vítor Araújo pode ser pop, mas sua música não assobia-se. Musicista com formação erudita, ele chamou atenção a princípio por seu virtuosimo precoce e logo depois por dessacralizar composições clássicas martelando o piano ou tocando-o de pé, entre outras travessuras - que ainda ainda incluíam desconstruir harmonicamente canções inteiras, seja Villa-Lobos, Luiz Gonzaga ou Radiohead (e escolher “Paranoid Android” diz um pouco sobre sua própria geração). Uma de suas subversões causou polêmica no Recife, pois o autor de um frevo desconstruído, o maestro Marlos Nobre, não gostou de ver Vítor martelando sua obra, chamando seu piano de estabanado e acusando-o de deslumbrar-se com o sucesso. Ao atravessar a “Bohemian Rhapsody” dos anos 90, Vítor adiciona cores e tempos que escondiam-se nos detalhes da canção, tornando o vocal de Thom Yorke, tão característico de qualquer música da banda, dispensável, e a música cresce ainda mais.
38) Vítor Araújo - “Paranoid Android“
“Falling Rockets” é tão boa que parece sobra da coletânea do Blondie, mas quando os franceses do Just a Band deram um trato na música dos ingleses, o que tinha cara de hit new wave ganha ares de século 21, graças a timbres de sintetizador que ricocheteiam e deslizam pela música, por cima de uma base em que cowbell e uma sinuosa linha de baixo constróem o groove. Lá na frente, a vocalista islandesa Heidrun Bjornsdottir (que era do Gus Gus, lembra?) se esparrama pelo refrão, irresistível - “again and again and again and again…”.
39) Cicada - “Falling Rockets (Just a Band Remix)“
Martelando sua cruz onipresente e assinando a opção por um estilo de vida mais agressivo e violento, o Justice atravessou 2008 como se fosse uma banda de rock. Jaquetas de couro, camisetas de bandas de metal anos 80, shows terminados com Metallica clássico, o clipe xenófobo de “Stress” e o hedonismo barra pesada (e fake) do documentário A Cross the Universe - tudo isso fez com que o ano do Justice soasse distante da cena eletrônica, jogando a dupla francesa para uma dolce vida de decadência glamourosa, excessos deprimentes e surtos psicóticos que já foram o sentido da vida do rock’n'roll e da indústria fonográfica. Mas eles só (?!?) precisaram de 17 minutos para informar-nos que ainda pertenciam à dance music e fizeram isso com um épico eletrônico progressivo feito para o desfile da Dior Homme. Apesar de trechos remixáveis e do ritmo bordoada, “Planisphere” não pertence à pista de dança e funciona como uma paleta de estilos que o grupo usa como arena temática em que vôos solitários, beats maximalistas, clima bíblico, electro exagerado, vocais indecifráveis e até um insuportável (mas contextualizável) solo de guitarra podem conviver numa boa. E ao mesmo tempo acenam para um inevitável revival progressivo na próxima década.
40) Justice - “Planisphere“
A cena australiana foi uma das principais protagonistas de 2008: nomes como Midnight Juggernauts, Cut Copy, Presets, Pnau, G.L.O.V.E.S., Knightlife e Empire of the Sun aos poucos estão voltando a colocar o país de volta à trilha sonora do planeta (não é a primeira vez, lembre-se dos anos 80…), mas desta vez não é mais a guitarra o principal instrumento e sim timbres de sintetizadores retrô, divididos em grupos que burilam as texturas oitentistas com melodias e alguma pegada de banda de rock e produtores que descem bordoadas de ritmo sintético na orelha. Os Bag Raiders - que vieram ao Brasil esse ano - lançaram um EP que apontam para ambas direções, mas se “Shooting Stars” hipnotiza com sua repetição lisérgica, é a faixa que batiza o disco, “Turbo Love”, que colide MSTRKRFT com Giorgio Moroder em quase cinco minutos memoráveis. Se posta ao lado de seu primeiro hit, “Fun Punch”, e de uma estratégica lista de remixados, dá pra antecipar que a dupla formada por Chris Brave e Jack Sabbath pode estar saindo do terceiro escalão do pop atual muito rápido - e quem sobe assim pode, de repente, chegar ao primeiro…
41) Bag Raiders - “Turbo Love“
Lá vem o remix salvar geral. A música original dos We Are Scientists é normalzinha, devagar quase parando, a algum centímetros de ser considerada boa. Mas quando o Danger - o mesmo que fez um set insuportável no Tim Festival desse ano - meteu a mão para remixá-lo, rolou um toque de Midas. Assim, os impactos dos riffs da versão original foram substituídos por bordoadas emborrachadas, o timbre do vocal foi distorcido para lembrar um falsete e o refrão, sem groove na primeira versão, tornou-se cavalar. Com essa nova roupagem, até a letra da música ganhou novo sentido - se antes parecia misógina e grosseira com frases como “I asked you nicely once but I won’t do that again” e “I wanna see you all buried alive”, com o dedo de Danger tornou-se um chamado para a pista.
42) We Are Scientists - “Chick Lit (Danger TV Remix Edit)“
© OESQUEMA/ 2008 | Reprodução permitida após consulta |
Créditos