Zé Gonzalez já vive a ponte aérea entre a América do Sul e a América do Norte há mais de dez anos, mas só agora efetiva seu primeiro lançamento intercontinental, chamando o produtor Sam Spiegel, irmão de Spike Jonze, que também assina como Squeak E. Clean, para lançar o projeto N.A.S.A. Mas o primeiro disco da dupla, The Spirit of Apollo, sofre da síndrome da festa V.I.P., em que o número de celebridades parece exceder o próprio conhecimento dos convivas. Pra que tanto convidado assim? Contando apenas os facilmente reconhecíveis, temos uma lista que inclui Seu Jorge, quase todo Wu-Tang Clan, Santogold, Lovefoxxx, George Clinton, Del Tha Funkee Homosapien, Tom Waits, John Frusciante, David Byrne, Chuck D, Spank Rock, M.I.A., Kanye West, Sizzla, KRS-One e a Karen O do Yeah Yeah Yeahs, fora outra lista com nomes que inclui boa parte do escalão do hip hop americano atual. E o que esse povo todo acrescenta ao disco? Ou são samples humanos? Sendo assim, esse monte de artista acaba travando as possibilidades em vez de amplia-las, comprometendo o fluxo do disco com obviedades e pura encheção de lingüiça.
Mesmo com suíngue calibrado, o refrão de “Money” (“money is the root of all evil”) não consegue ser mais clichê, enquanto “Way Down”, com John Frusciante, soa como genérico de trip hop. A dobradinha Tom Waits/Kool Keith em “Spacious Thoughts” é totalmente dispensável e até a participação de George Clinton é trivial. Ainda mais quando se compara esse lado de The Spirit of Apollo com o em que ele acerta. São poucos hits, mas que, quando batem, pegam muito bem. A primeira faixa a ser revelada, “Gifted” (que reúne Santogold, Lykke Li e Kanye West) continua sendo a faixa mais bem resolvida do disco, que ainda tem outros bons momentos. “Watchadoin?”, que junta M.I.A., Santogold e Spank Rock (este último põe quase tudo a perder, soando tão vazio quanto a Fergie), cogita a possibilidade do Clash ter descoberto o funk carioca na época de Sandinista!, “Strange Enough” transforma Karen O num Mick Jagger (mas precisava do Ol’ Dirty Bastard e do Fatlip? Não precisava) e “A Volta” mostra que Lovefoxxx funciona até no ragga.
E quando sai do mundo de celebridades pop, a música do N.A.S.A. torna-se verdadeiramente inspirada, talvez por serem justamente quando Zé se sente mais em casa – seja ao lado do Babão dos Inumanos, quando deixam o samba comer bonito na vitrola em “O Pato”, que no caso, não é o de João Gilberto, mas o Donald, e em alguns momentos isolados (“N.A.S.A. Music” seria tão melhor se fosse instrumental ou a aparição de Miguel de Deus e da metaleira de Lincoln Olivetti no meio de “The Mayor”). Talvez a solução fosse deixar Zé Gonzalez ter mais peso no disco e na dupla – boa parte dos convidados apareceram graças aos contatos de Sam no meio publicitário, onde também bate cartão. Mas só o fato do fato da dupla chamar-se N.A.S.A. (que, apesar de vir da junção de North America com South America, ainda é a agência espacial estadunidense) diz muito sobre o resultado. Quem sabe, Zé está só esperando o momento certo para seu próprio disco.
N.A.S.A. - The Spirit of Apollo
N.A.S.A. - “O Pato“
Acompanhando a retrospectiva que venho fazendo no Trabalho Sujo, vamos dar nomes aos bois e ouvir o que de melhor rolou no ano que termina. Essa é a parte 1, que vai do número 50 ao 43, tanto na categoria melhores músicas quanto melhores discos. Simbora!
Black Angels - “Never Ever”
Wale - “The Kramer”
Katy Perry - “I Kissed a Girl”
Weezer - “Pork & Beans”
Copacabana Club - “Just Do It”
La Pupuña - “Speak to Me/Breathe”
Lil Mama (feat. Chris Brown & T-Pain) - “Shawty Get Loose (Don Zee Remix)”
Robyn - “Cobrastyle”
David Byrne e Brian Eno - “Strange Overtones”
Santogold - “Creator”
A-Trak - “Say Whoa (Megamix)”
Hercules & Love Affair - “True False, Fake Real”
SNJ - “Se Tu Lutas, Tu Conquistas”
Racionais MCs - “Vida Loka”
Pipodélica - “Hora H”
Mallu Magalhães - “Tchubaruba”
Quando David Byrne e Brian Eno anunciaram que voltariam a colaborar juntos, o fizeram de sopetão - e, junto com o anúncio do disco, entregavam, de graça, o MP3 de “Strange Overtones”. Byrne e Eno juntos, você sabe, é o equivalente de Gil e Caetano voltando a gravar, por isso, todas as expectativas vinham junto com ressalvas. Mas ao contrário de Tropicália 2 - o primeiro reencontro oficial de Gil com Caetano em disco depois dos dois voltarem da Inglaterra nos anos 70 -, a primeira música divulgada animava: “Strange Overtones” respondia porque os discos solo do ex-Talking Heads pareciam ser bons, mas não eram. Um mínimo cuidado de produção - e em termos de Brian Eno, mínimo é mínimo mesmo - devolvia à uma canção que poderia passar batida todo o suíngue e corpo que fizeram a fama da dupla de colaboradores. O disco, no entanto, não chegou aos pés dessa única faixa, uma pena.
46) David Byrne & Brian Eno - “Strange Overtones“
Tá explicado porque o Vida Fodona da semana passada não saiu na quarta-feira: na linha do #110, em que dei uma geral no primeiro semestre de 2008, esse #135 faz a rapa na produção e lançamentos da segunda metade do ano (tem coisa lançada no primeiro semestre, mas que só fui ouvir depois). E sem apresentação, falatório ou comentários sobre as faixas - agora é só música. Vai fundo:
Last Shadow Puppets - “The Time Has Come Again”
Lambchop - “National Talk Like a Pirate Day”
Silver Jews - “Suffering Jukebox”
Peter Bjorn & John - “Needles and Pills”
3 na Massa & Pitty - “Lágrimas Pretas”
Panda Riot - “Paper Planes”
Van She - “Kelly”
Copacabana Club - “Just Do It”
Mickey Gang - “I Was Born in the 90s”
Friendly Fires - “Paris”
Metronomy - “A Thing for Me”
Santogold - “Say Aha”
Killers - “Losing Touch”
Rubies - “A Room Without A Key (Studio Version)”
David Byrne & Brian Eno - “Strange Overtones”
Xis & KL Jay - “Bem Pior”
Justice - “Stress”
Bomb the Bass (feat. Fujiya & Miyagi) - “Butterfingers”
Ruído/mm - “Sanfona”
Guizado - “Der Golem”
Teenagers - “Streets of Paris”
TV on the Radio - “Golden Age”
Britney Spears - “Phonography”
Primary 5 - “Lost and Confused”
Cure - “Scream”
Nomo - “Three Shades”
Deerhunter - “Never Stops”
Little Joy - “Keep Me in Mind”
Benji Hughes - “The Mummy”
Cat Power - “I’ve Been Loving You Too Long (To Stop Now)”
Nancy - “Keep Cooler (Born Rufians Remix)”
Fleet Foxes - “Tiger Mountain Peasant Song”
David Byrne e Brian Eno, a dupla que tomava conta do leme de três dos meus discos favoritos (Fear of Light e Remain in Light, do Taking Heads, e o My Life in the Bush of Ghosts, dos dois - o famigerado disco que deu origem ao termo “world music”), voltaram a trabalhar juntos e lançam o disco Everything That Happens Will Happen Today no próximo dia 18. Por enquanto, dá pra ouvir a faixa “Strange Overtones”, que está para download gratuito no site do projeto. E em se tratando de uma dupla que já flertou com o lado chato de ficar velho, a música não ficou ruim, não - mas a base de Eno é melhor que a letra e o vocal de Byrne.
Mas falando nisso, não cairia mal uma volta do Talking Heads, hein… Dizaê.
Valeu, rapá.
Neutral Milk Hotel - “Oh Comely”
Serge Gainsbourg - “Ah! Melody”
Fleet Foxes - “Blue Ridge Mountains”
Zombies - “Changes”
Justice - “D.A.N.C.E. (Alan Braxe & Fred Falke Remix)
Jorge Ben - “Jazz Potatoes”
Dr. Lonnie Smith - “Devil’s Haircut”
Stereolab - “Three Women”
Buguinha - “Liberate”
Mombojó - “Desencanto”
David Byrne & Brian Eno - “Strange Overtones”
Talking Heads - “Electric Guitar”
Vanguart - “Spanish Woman”
Beatles - “Too Much Monkey Business”
Cansei de Ser sexy - “Move (Cut Copy Remix)”
Kills - “Cheap and Cheerful (Sebastian Remix)”
Stevie Wonder - “Supersticious (Justice Remix)”
Sebadoh - “It’s So Hard to Fall in Love”
João Gilberto - “É Luxo Só”
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