Arquivo: dodo azevedo ’
18 de janeiro de 2011 às 18h33
Nirvana, por Steve Albini
Dodô desenterrou o histórico registro que Steve Albini fez do Nirvana no estúdio, a versão do disco que foi “polida” pela gravadora (e por Scott Litt), pois o original estava “sujo” demais. Ele conta melhor a história e dá o link para o download do vazamento.
14 de janeiro de 2011 às 14h01
On the run 80: Gente Bonita, 40 graus
Começar o ano com uma Gente Bonita no Rio de Janeiro é sinal de boa sorte! Invadimos o verão carioca dentro de uma festa que é… Segredo. Nova onda do compadre Dodô, a Segredo, como o nome diz, é segredo: não divulga-se onde acontece a festa, nem quem toca, mas abrimos uma exceção aqui e já antecipamos que quem vai cuidar do som da festa, à noite inteira, é a Gente Bonita – trazendo hits da nova temporada prontinhos pra aquecer ainda mais o verão do Rii (mas já abro aqui outro dos segredos – o ar condicionado é power). Quem quiser descobrir o segredo, basta entrar na página da festa, enviar seu nome para o email que está lá até as 15h deste sábado para saber todas as coordenadas da noite. E se você quer ter uma idéia de qual será o clima, fizemos esse setzinho novo cheio de pérolas ensolaradas para uma noite incrível. Vamo lá?
Gente Bonita Mixtape Rio Verão 2011 (MP3)
Strange Talk – “Climbing Walls”
Terry Poison – “Comme Ci Comme Ça (The Twelves Remix)”
Get Stellar – “The Moment”
Apples in Stereo – “Dance Floor”
Aloe Blacc – “I Need a Dollar”
Darwin Deez – “Up in the Clouds”
Housse de Racket- “Oh Yeah!”
Two Door Cinema Club – “What You Want (Redlight Remix)”
11 de janeiro de 2011 às 0h57
Gente Bonita no Rio de Janeiro pra começar 2011
E por falar em discotecar no Rio de Janeiro em 2011, comemoro meu aniversário junto aos cariocas no próximo sábado na festa nova do Dodô. Onde? Ele mesmo faz Segredo…
25 de novembro de 2010 às 13h01
Pavement ao vivo no Playcenter 2010
O Dodô teve a manha de pegar o áudio do melhor show do Terra desse ano (que pode ser visto na íntegra no site do festival) e colocar num sitezinho feito apenas para o download do show. Baixe aqui.
19 de novembro de 2010 às 13h24
Os perdedores
Proto-indie-estatal: Propaganda do Banco do Brasil com trilha sonora da PELVs.
O Custódio aproveitou o fim de semana de shows em São Paulo para trazer a banda indie carioca PELVs para apresentar-se na cidade, na sexta. E eu aproveitei a vinda da banda para pedir para um texto sobre a PELVs em 2010 para o Dodô, baterista da banda, e ele aproveitou para contar uma das muitas histórias da mais importante banda indie carioca:
“Derrota, minha derrota; mais valiosa que mil triunfos” – escrevi esse verso pensando na PELVs, banda que ajudei fundar em 1992 para acabar com uma dissidência que havia no grupo Verve, que antecedeu toda essa história, e que envolvia uma vontade de cantar em inglês. Tivesse a Verve sobrevivido, com os integrantes da PELVs, seria a maior banda do rock brasileiro hoje. Não foi. Que bom. Pudemos desfrutar da liberdade dos perdedores, dos que não tem fãs a desapontar, dos que não tem criticos a adular, nem gravadora a orientar.
Como músicos, somos, todos, surfistas frustrados.
Criamos, em 1994, um esporte chamado Loud Surf, em que a condição para pratica-lo era estar bêbado, ser um dia de chuva e ondas grandes. Os piores tombos levavam as melhores pontuações. A revista Fluir, pra nosso desconcerto, levou a sério e fez uma matéria. Como trilha sonora, sugerimos nossos heróis Pixies, Lloyd Cole e Dinosaur Jr. que fazem surf music para dias de chuva. No Loud Surf, quem tomava mais tombo vencia a competição. Quem perdia,ganhava.
PELVs é a única banda ainda viva de uma geração de perdedores consagrados – as bandas que cantavam em inglês, no Brasil, na década de 90. Para mim, a maior e melhor geração do rock brasileiro até hoje. Para mim, chato de galochas, rigoroso pra caramba com isso de ser uma banda brasileira, nós, da PELVs, ganhamos nisso também.
E ganhamos dinheiro quando o Banco do Brasil, em 2008, encasquetou que uma canção que compus para a banda (“Baby of Macon” – depois de minha saida, em 1999, uma composição ou outra minha saía da gaveta e era grava pelos caras) e criou sua campanha nacional de sustentabilidade. Mais uma vez, ouvimos: caras, se vocês cantarem em português vocês serão a maior banda do Brasil. Muito obrigado, mas não.
Ontem liguei para o Gustavo Seabra, único da formação original, único a insistir em trazer novos músicos e nao terminar com a banda, pra saber porque afinal, continuar com ela, fazer mais um show pra 25 pessoas. Ele riu e respondeu: porque eu to pouco me fudendo para a quantidade de pessoas que curte a banda. Nessa hora eu entendi. Perdedores sao os outros.
29 de maio de 2010 às 9h00
O fim de Lost por Dodô Azevedo
O que tem em comum, Stanley Kubrick, Woody Allen, Joel Coen, Larry David, Claude Lelouch, Billy Wilder, Steven Spielberg, Doroty Parker, e Roman Polanski? Contar histórias é a vocação primeira do povo judeu. Da milenar misná a trilogia Star Wars, judeu tem a manha:
Ficção é o caminho mais curto para se chegar a Verdade.
A frase é minha. Tenho outra:
Se voce quer que as pessoas acreditem em você, conte uma mentira.
JJ Abrams é judeu. Ele também tem uma frase:
Antes de entedermos LOST, as montanhas são montanhas e os rios sãos os rios; Ao nos esforçarmos para entender LOST, as montanhas deixam de ser montanhas e os rios deixam de ser rios; Quando finalmente entendemos LOST, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser rios.
Não. Essa frase não é de JJ Abrams. É um famoso Koan budista que adaptei para a ocasião. 2001 – Uma Odisséia no Espaço, o Torá: sim, os judeus sabem elaborar histórias que só se realizam enquanto estamos à procura de seus significados.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde toda pergunta tem resposta, onde tudo o que é misterioso nos irrita, onde qualquer diálogo reticente nos faz mudar de canal. O sucesso de LOST foi apostar que tinha gente que achava este cenário um saco.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde tecla pelo nome da série e encontra fóruns, blogs, vídeos e ficção adicional. Qualquer um podia ser monge beneditino e colocar sua glosa nos evangelhos. “A terra é oca”, “A ilha é atlântida”, “Estão todos mortos”. Eu disse evangelho?
Disse.
Ou voce acha que evangelho, ou qualquer texto-fundamento de qualquer religião, não surgiu da cabeça de gente muito criativa, muito boa de invenção e que foi, em seu tempo, tratado como ficção popular?
Dizer que LOST é um evangelho não é coisa de fã. Todo mundo segue escrituras. Até você, que não acredita em nada. Sim, você, que não acredita em nada, um dia leu os escritos de um filósofo que não acredita em nada e… reforçou sua fé em nada. A garotada não lê Bíblia, mas segue a ética do Homem Aranha, a Moral dos Trapalhões, a lógica do Grand Theft Auto.
As mocinhas tristes seguem as escrituras de Clarice Lispector. Os inseguros a música de Glenn Gould. Os operários as palavras do José Luiz Datena. Os cachaceiros os livros do Bukowski. Os diletantes, Seinfeld. Letras do Bob Dylan, pinceladas do Matisse, arranjos de Mahler. Todo mundo segue algum texto. A gente segue a Ficção.
Então tá liberado eu chamar LOST de evangelho, né? Beleza.
Evangelho de personagens. Uns tão ricos quanto Efraim, filho de José e Asenet. Outros tão pobres quanto Jar Jar Binks. LOST, como diz a página 108 o manual do evangelho, contou, nas três primeiras temporadas, a história de seus personagens. do 4o ao 6o episódio, dedicou-se à tarefa de apresentar os salmos, textos que garantem que uma obra é feita para consumo contínuo.
Aí veio o episódio final. De um lado, a rapaziada que não acompanhou a série e, humana demasiadamente humana, por sentimento de exclusão pela posição de 3o excluído, aguardava um motivo para criticar não a série, mas quem consome a série. Do outro lado, os fás das referências modernas, dos wormholes, da equação valenzetti, das descobertas da física contemporânea.
Veio o episódio final falar do Mr. Eko.
Do padre. De igreja.
Do Salmo 23. Declamado, inteiro, lá no episisódio… 23 Psalm.
Mr. Eko construiu uma igreja na ilha. Era sua obsessão.
Não deveria causar supressa que os personagens se encontrassem num lugar: “Que os próprios criaram para se encontrar, para se reconhecer, para relembrar”, como diz o Pastor Cristão, pai de Pastor José, no fim da história.
Evangelho?
Em “Buscando Vida no Multiverso”, publicado recentemente na Scientific American, Jenkins e Gilad Pérez, teórico do Instituto de Weizmann de Ciência em… *SPOILER* Israel, discutem a hipótese conhecida como o Princípio Antrópico, a qual afirma que a existência de vida inteligente (capaz de estudar processos físicos) impõe restrições sobre a possível forma das leis da física.
“As nossas vidas na Terra – tudo o que vemos e sabemos agora sobre o universo que nos rodeia – dependem de um conjunto preciso de condições que nos fazem possíveis”, diz Jenkins. “Por exemplo, se as forças fundamentais que dão forma à matéria no nosso universo se alterassem ainda que muito ligeiramente, seria concebível que os átomos nunca se formassem, ou que o elemento carbono, considerado um bloco básico para a vida tal como a conhecemos, não existisse. Então, como é que existe este equilíbrio tão perfeito? Alguns o atribuirão a Deus a sua criação, ideia esta que obviamente se encontra fora do domínio da física”.
Fora dos domínios da Física?
LAX, a igreja ecumênica, era só uma explicação científica up to date para o que se chama de além.
Já está arrependido das reclamações que você fez, né? Até lembrou de Jacob’s Ladder, do roteirista *SPOILER* judeu Bruce Joel Rubin que trata o assunto da ascensão de forma idêntica. Ótimo, sabe por quê?
Porque a tua opinião sobre o desfecho da série define que tipo de pessoa você é.
E não adianta procurar no Google atrás do significado da frase acima. Vai ter que pensar no assunto.
Outro judeu filmou o portão para o o que a gente chama além, como o aberto por Cristo Pastor para os personagens entrarem, usando viés científico e dele nasceu um “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça”.
Na época, reclamaram também.
Só com o tempo, Stanley Kubrick teve reconhecido seu 2001 – uma odisséia no Espaço.
LOST já tem o reconhecimento, até dos detratores, de que não tem jeito: é assim que vamos passar a consumir entretenimento daqui pra frente.
Foi assim também com a bíblia glosada.
Foi assim também em 1895, quando Outcault inventou os quadrinhos.
Syd Field, judeu, na página 108 de seu manual de roteiro, ensinou a receita para o roteiro perfeito: “O roteiro perfeito não é um mito. Seria necessário que a 1a linha começasse com o início do conflito e a última linha encerrasse o fim do conflito. Como é necessária apresentação de personagens, desenvolvimento de trama, esqueça, o roteiro perfeito não existe.
A 1a linha do esposódio piloto de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard abre os olhos”. Técnicamente, o conflito começa. A última linha de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard fecha os olhos. Tecnicamente, o conflito acaba.
Evangelho.
Uma vez, o teólogo Alexander (não lembro o sobrenome, só lembro que em Hebraico quer dizer “Homem de Deus”) escreveu sobre o escritor latino Fernando A.
“Fernand A. criou uma ilha com palavras. Mas só depois de dar uma volta pela praia é que dá pra perceber que ele cercou o oceano com a ilha.”
Excelente definição para a ilha de LOST.
Excelente definição pro que a gente chama de desfecho.
* Dodô produz palavras e produziu essas pra cá.
24 de março de 2010 às 17h54
Dodô e Kubrick
É, o último dândi da Guanabara arrumou tempo para teorizar sobre o nosso cineasta favorito:
Se eu tivesse tempo, iria.
27 de janeiro de 2010 às 23h45
Teenage Beatles
Os menores G.H., 14 anos, J.L., 16 e P.M., 15, com um amigo não identificado, flagrados na cena do crime. Daqui. Dica do Dodô.
10 de abril de 2009 às 16h20
Alguma Coisinha – Dodô
Pra muitos, o Dodô é só o baterista da PELVs, que tinha um programa de rádio com o Lariú, o College Radio, no início dos anos 90. Mas essa é a lenda que ele deixou construírem ao seu redor e não se esforçou nem um pouco para mudar. Dodô, no entanto, finge-se de coadjuvante para optar pela cada vez mais importante função de autobiógrafo – esse agente híbrido de narrador e protagonista que, graças à autopublicação, à velocidade da troca de dados e à facilidade de se transitar por diferentes esferas e estilos permitida pela vida moderna, vem tomando o espaço que já foi do diretor de cinema, do cronista, do rockstar e do fotógrafo, registrando a vida e seu tempo do jeito que consegue.
E assim, em vez de lançar produtos, é protagonistas de processos, o que inclui sua própria preguiçosa banda, que lança um disco a cada cinco anos, o bloco de carnaval Monobloco, a festa Pessoas do Século Passado, que lhe permitiu alguns luxos fúteis, como selecionar músicas nas primeiras temporadas do Big Brother (você não ouviu errado: era Second Come mesmo), botar algumas beldades célebres para dançar, falar mais que o Jô Soares, passar uma tarde com Kurt Cobain no Brasil e tornar-se personal iPodder. Discotecando, fez suas festas ganharem novas dimensões – o que poderia ser apenas uma festa de hits do passado se desdobrou num livro, site e disco e sua habilidade em escolher músicas para os outros ouvirem deram origem a um segundo livro.
Mas o Pessoas do Século Passado começou como uma brincadeira em estúdio que fez com que Dodô começasse a pensar no que a virada de século faz com a cabeça das pessoas. Compôs um disco inteirinho à base de samples, cantou suas letras pela primeira vez e, em vez de tentar lançar, receoso de algum problema legal decorrente do uso de músicas alheias, diagramou as letras num encarte recortado à mão, queimou alguns CD-Rs e mandou para os amigos. Batizou o projeto de Alguma Coisinha e nunca mais tocou no assunto.
Até que outro dia ele veio me perguntar se eu tinha o disco. Ter eu tenho, mas estava encaixotado junto com vários outros CDs esperando a hora de mudar de um apartamento para o outro. Perguntei por que ele estava procurando a gravação e ele respondeu que queria publicá-la, mais de dez anos depois. Me prontifiquei a ser o veículo de divulgação: meu entusiasmo com a gravação original já tinha me provocado a reproduzir os discos e até regravar para alguns poucos compadres.
Eis que finalmente Alguma Coisinha vem a público. Dodô até fez um MySpace para torná-lo público, mas deu exclusividade para OEsquema, tornando-se este então o segundo lançamento do nosso título (o primeiro, por coincidência, também é de um carioca se esbaldando em trechos de músicas alheias, o Big Forbidden Dance, do mítico João Brasil). e meu presente para vocês antes de sair de férias.
Apesar de Dodô rotular seu disco como um Paul’s Boutique punk (como assim? Os Beastie Boys eram punks!), arquivo Alguma Coisinha como uma versão do segundo disco dos B-boys sim, mas uma versão indie. E indie no sentido de indie-brasil, esta cena inclassificável que reúne os rejeitados por gravadoras com os que não estão se preocupando com elas, soando brasileiro, roqueiro, hardcore, eletrônico, pop, indie e até com lampejos de hip hop na mistura. Alguma Coisinha depois fez com que Dodô levasse adiante seu projeto de definir a própria geração, mas também fotografa um momento especial do rock independente brasileiro – que já se deliciava com as possibilidades abertas pelo computador, mas ainda não havia experimentado a novidade da velocidade da internet.
Para baixar o disco, é só clicar aqui.
Abaixo, um papo que tive com ele sobre o disco.
Lembro quando você me mandou o Alguma Coisinha… Conta a história.
Quando, em 95, chegou ao estúdio Freezer, uma versão programa SoundForge, a gente pirou. Começei a fazer loops como quem jogava Nintendo. O Simplício Neto levou pra mim uns CDs que iriam dar uns loops fodões. E deram. Batizamos o projeto de os Homens Verdes. De brincadeira. Em 97, pós gravação do Members to Sunna, da PELVs, nosso melhor disco tecnicamente até hoje, eu estava afim de dar uma pirada sozinho no estúdio. Encontrei os loops perdidos numa pasta. Criei melodias, compus canções em português, uma heresia naquela época. Era proibido entrar no estúdio onde eu gravava porque eu morria de vergonha. Tinha que beber, e muito, pra tomar coragem e cantar. Quando ficou pronto, não mostrei pra quase ninguém: apenas pra jornalistas porra loucas como você e pedi segredo, pela vergonha do resultado e por causa do uso radicalísssimo e indiscriminado de loops. Era um Paul’s Boutique Punk, o Alguma Coisinha.
Essas músicas depois reapareceram quando o Pessoas do Século Passado virou disco, não?
Sim! Sempre compus metade das músicas pra PELVs pro Gustavo Seabra cantar. Uma vez que o Pessoas, o CD de 2003 e inclusive o livro, de 2001, foi baseado na letra de Alguma Coisinha, de 97, achei que devíamos gravar essas canções do modo clássico, comportado. Assinávamos todos os integrantes. Como faz o R.E.M. e o Radiohead
O Alguma Coisinha que você recebeu foi a semente de tudo. A malaise do personagem da música título é transcrita para o livro letra por letra e, por sua vez, de volta para o CD Pessoas do Seculo Passado letra por letra. Você pode ver que as outras letras do Alguma Coisinha vêm com os mesmos temas que viriam a ser abordado pelo livro. Vide a “Fax” e a “Versus”, que é a malaise de fim de século.
Alguma Coisinha – “Alguma Coisinha“
Você citou o Paul’s Boutique, mas não era só ele, né? No final dos anos 80, quando o sampler apareceu, vários discos surgiram aproveitando essa brecha dos direitos autorais. Hoje, estamos vendo uma coisa mais ou menos parecida, só que mais instantânea e massificada. Queria que você comentasse esse momento atual – e como ele influiu no seu interesse em relançar o Coisinha.
Hoje, Matias. Tudo é loop de tudo. ESSA é a Vertigem do século 21. A perda da vergonha em loopar, mashupar e botar na rede assumindo que é loop e mashup deixou a Arte, com A maiúsculo mesmo, mais honesta. Antes, os artistas copiavam os outros contando que “ninguém iria descobrir”. Quadros inteiros do Thomas Gainsborough, pintor do século 17, contém LOOPS da obra do Anthony Van Dyk. E o que não eram as colunas do Paulo Francis senão MASHUPS bacanas dos escritos do Menken e das falas dos personagens do romance Contraponto, do Huxley?
Foi ao perceber isso que pensei no Alguma Coisinha. Não tinha nenhuma cópia mais em casa. Não o escutava a uns 9 anos. Mas tinha a impressão que ele já trazia uma reflexão radical do que esta acontecendo hoje. Aí corri atrás de alguma cópia.
E sabe como estamos lidando com essa Vertigem da arte sincera? MUITO BEM. Essa é a beleza da coisa. Não estamos tontos. Estamos sabendo muito bem processar tudo e produzir arte.
Mas tem gente – os artistas que ainda ficam melindrados com o uso de samples nao autorizados – que não tem lidado tão bem com essa Vertigem da Arte Sincera… Ou não?
Claro que existem. O Metallica não gostaria. Já o Tom Zé, o Beck, o Stereolab, o Caetano, não. E isso é pessoal e psicológico. Já ouvi escritores me dizerem que sou maluco de ficar falando sobre uma idéia que tive prum livro porque poderiam roubar a idéia. Essas pessoas têm uma constituição psicológica específica, comum até. Tô querendo dizer que é humano demasiadamente humano não lidar bem com liberar samplers e loops gratuitamente. Já pensou se Deus fosse cobrar os direitos autorais sobre o som de um tambor? Do osso no couro esticado?
Mas você acha que estamos vivendo uma época tão rica quanto o final dos anos 80? Ou mais rica até?
Não dá pra dizer até a gente descobrir quantas demos foram engavetadas nos anos 80 pela galera que sampleou com medo de processo.
Tem esse outro aspecto também, né… Hoje em dia, neguinho nem espera, já publica. Assim, a vida acaba tendo um quê de reality show… Fico pensando em artistas que têm toda sua carreira registrada e o que poderia acontecer com os Beatles (ou qualquer um) se eles aparecessem antes de estarem prontos…
Fascinante isso. Pra citar um exemplo recente. As demos dos Los Hemanos, que o fantástico Alex Werner sempre levava para o estúdio Freezer, eram terríveis. Não daria nem um MySpace decente. As demos da Mallu no MySpace sao melhores que as demos que tenho dos Hermanos. A pergunta que fica é: será que a proteção que os Hermanos tiveram, de só ir pra campo quando prontos, não os potencializou até o Bloco do Eu Sozinho? Será que o reality show da Mallu não vai esgotá-la e lhe dar uma vida curta? Olha, pensa bem, TODAS as bandas da geração internet, que já tem sete anos, tiveram vida CURTA. CSS, Bonde do Rolê e Klaxons são excelentes exemplos disso.
Exato – e estão gravando o terceiro disco no mesmo tempo em que as bandas “clássicas” estavam entrando no estúdio pela primeira vez.
E sabe qual vai ser a conseqüência disso? Depois que morrerem os integrantes de Stones, U2, R.E.M., Radiohead, assim que falecerem Madonna, Paul McCartney e Michael Jackson, acabou essa historia de maior banda do mundo, de maior artista do mundo. As carreiras vão ser curtas. Qualidade vai haver. Vão ser todos cometas. E não vai ser o fim do mundo: vamos saber lidar bem com isso.
Alguma Coisinha – “Toda Glória do Mundo“
Vou além: talvez não são as carreiras que vão ficar curtas, mas os artistas que vão se especializar em outras áreas – mesmo porque “disco”, “livro” e “filme” são conceitos que tendem a morrer com essa safra de artistas – ou não?
O Peter Greenaway vem falando isso desde o século passado. É tachado como fanfarrão pela galerinha do cinema de sandálias. Porém o mercado insiste. DVD da Roberta Sá, livro novo do Chuck Palahniuk, a nova peça do Felipe Hirsh estão aí, conceituadas como DVD, livro e peça de teatro. Estão reeditando tudo em vinil. E sabe o que eu escuto em casa? Meu gramofone. Tenho um tesão pelo objeto, pelo vinil 78, pelo som crepitado, pela acústica sem eletricidade. Comprei outro dia um livro de cinco quilos chamado “The Kubrick Arquives” e estou de olho numa edição de 1900 Portuguesa do Tratado de Arquitetura do Vitrúvio. Meu carro, até ontem, era um Karmann Ghia 1968 conversível vermelho com estofado branco de couro. Acho que o século 20 passou tão rápido que só agora a gente está parando pra degustar seus melhores produtos. Acredito na sobrevida dessas mídias do século passado por conta disso.
É muito comum ver quem não entende o que está acontecendo menosprezar a situação atual como transitória ou, pior, vir com aqueles papos de “o fim da arte”, etc. Na verdade, o que estamos vendo não é o fim da arte – mas o fim da autoria, pelo menos, como a conhecemos.
Autoria não só ainda existe como ainda mais identificável. Vik Muniz é um autor e sampleia geral embora seja decepcionante saber que o próprio proíba que tirem fotos de suas sobras. Godard sampleava e mashupava o cinema americano e por isso foi o grande autor dos anos 60. E Godard creditava seus samplers sem a menor cerimônia. Pelo contrário, demonstrava que se tratava antes de tudo de um erudito. Inventou o punk antes dos punks. A invenção do jump cut por ele equivale a invenção do cut/paste em música nos anos 80. Então a arte prossegue e a autoria prossegue. O CD experimento Alguma Coisinha é meu trabalho mais autoral e punk, por exemplo.
A internet, por outro lado, torna tudo rápido demais – tanto a descoberta quanto o desencanto. Como lidar com isso?
Devemos lidar com isso da mesma forma que os europeus alfabetizados na idade média passaram a ter, depois da invenção da imprensa, 20 livros para ler por ano ao invés de um, acessível apenas se você tivesse a manha de entrar numa biblioteca da igreja. Na história da humanidade mudanças de paradigmas muito mais dramáticas aconteceram. Você imagina que antes de inventarem um gravador e um vinil NUNCA um ser humano tinha ouvido uma opera ou um adágio, que não fosse executado ao vivo? O terror das pessoas era tanto ao ver o gramofone reproduzindo sozinho todo o som de uma orquestra que as primeiras exibições de gravações de vinil tinham que ser acompanhadas de imagens em cinema de músicos tocando. Mais ainda: até época da invenção do gravador e reprodutor de música o homem estava a 40 MIL ANOS condicionado a só entender a música tocada ao vivo, por um outro homem, ali, na frente dele. Imagina a emoção louca que era naquela época levar debaixo do braço toda a Filarmônica de Berlim para ser executada dentro de casa? Ou seja, a mudança de paradigma que estamos vivendo é fichinha. Não é necessário lidar com isso conscientemente. Naturalmente tudo tem se ajeitado.
Alguma Coisinha – “Fax“
O que você tem feito atualmente?
Meu dayjob hoje é: Gerente de Comunicação e Educacional e professor de Literatura. Meu nitejob é ser DJ, daqueles caros, marrentos, que um dia já foi humilde hoje se acha o melhor do mundo. No intervalo, estou compondo as músicas pro segundo disco do Pessoas do Século Passado, e escrevendo três livros: dois por encomenda e o interminável livro sobre minha viagem pelas rotas que o Jack Kerouac fez para escrever o On The Road, pra descobrir o que de Beatnik e contracultural ainda há na américa do século 21. O livro está ficando tão bom que eu escrevo três páginas e fico prostrado, apaixonado por aquelas três páginas durante seis meses. Não dá vontade de terminar. Outro dia tive um sonho onde eu continuaria escrevendo esse livro só pra mim até morrer, só pra não perder o prazer de lidar com essa história tão incrível que tive a sorte de acontecer comigo.
O lançamento de Alguma Coisinha pode dar origem a um Alguma Coisinha 2?
Seria um belo projeto pra 2010, junto com um segundo livro Pessoas do Século Passado. Refletir sobre uma década que passou tão rápido, em que os ingênuos vão se apressar a dizer que nada aconteceu de relevante salvo 11 de setembro, pode dar um grande barato. O mundo mudou nos últimos 10 anos mais do que nos últimos 30. É missão dos que perceberam isso explicar tim-tim por tim-tim pra moçada que sofre de vertigem.
1 de abril de 2009 às 14h33
E ainda falando em Radiohead…
O bom e velho Dodô reativou seu podcast em versão enxuta – e na reestréia do Dodomundi, ele descolou a seguinte pérola:
Radiohead – “How Disapear Completely (ao vivo no Rio de Janeiro)“















Profissão: autobiógrafo.


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