Não custa voltar no Zappa, que já pensava nessas questões no começo dos anos 80. O texto abaixo é um trecho de uma matéria que escrevi pra capa da Bizz, quando ela ainda existia em 2006, sobre música digital. A íntegra da matéria tá aqui.
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“CONSUMIDORES DE MÚSICA GOSTAM DE CONSUMIR MÚSICA, NÃO DISCOS DE VINIL EMBALADOS CAPAS EM PAPELÃO”. O negrito e o caps lock são tirados direto do original, que não é de nenhum consultor trend-setter descolado fazedor de cabeça de executivos da indústria da tecnologia e do entretenimento, e sim de ninguém menos que Frank Zappa. Logo que a música se despregou de seu suporte tradicional - na época, o disco de vinil - transformando-se em pedacinhos de zeros e uns transferíveis por redes de computadores, o principal iconoclasta musical do século vinte fez uma pergunta que até muita gente boa não fez: por que, se a música podia ser digitalizada - ou seja, livre de um suporte físico palpável (como o disco de vinil, a fita cassete, o cilindro do fonógrafo…) - por que raios a indústria fonográfica lançou um novo suporte?
Aí entramos no terreno da especulação, mas alguns fatos falam por si. O compact disc, apresentado ao público em 1982, é quase tão barato para fabricar quanto um disco de vinil, mas é mais prático para ser estocado e transportado - mais leve, menor, menos suscetível a atritos. Para tocá-lo, no entanto, os consumidores deveriam ter que comprar um novo equipamento, o CD-player - mais caro que qualquer outro player médio da época. E devido à sua suposta melhoria na qualidade do áudio (subjetiva, o tempo mostrou - vide os audiófilos de hoje em dia que ainda veneram o velho vinil), o disco passou a custar, em média, ao menos o dobro do antigo LP.
Alie a isso uma enorme campanha de marketing de todas as grandes empresas de tecnologia, que pegavam carona na novidade “CD” para lançar aparelhos que, além de alardear o compact disc como o futuro do áudio, rebaixava o vinil como suporte datado, mídia morta. Aos poucos, vitrolas e coleções inteiras de discos eram vendidas ou jogadas fora para abrir espaço para os pequenos discos prateados embalados em plástico. Sem querer - porque, por mais maquiavélicas que fossem as multinacionais na época, elas não teriam capacidade para pensar nisso (basta ver o zelo administrativo que fez com que o negócio praticamente falisse durante os anos 90) -, as pessoas estavam comprando um mesmo disco que já tinham pela segunda vez.
Entra Frank Zappa, crítico insistente de tudo que pode ser criticado - inclusive dele mesmo. De ascendência ítalo-americana, o compositor começou sua carreira com um pequeno estúdio em Cucamonga, gravando grupos de doo-wop, surf music e até se envolvendo com filmes pornô, até que entrou no imaginário mundial com discos que ridicularizavam o movimento hippie quando este era mais popular do que o YouTube em 2006. Desde os anos 60, mirou sua metralhadora musical em qualquer coisa que pudesse se mover, mas tinha como alvos favoritos o establishment norte-americano (inteiro, do governo às divas da indústria do entretenimento) e a estupidez humana. Engajado em causas espinhosas e delicadas, ele se pronunciou prontamente ao advento da música digital e em 1983, no mesmo ano em que o CD chegava ao mercado americano, escreveu sua “Proposta para a Substituição da Mercadoria Disco”, de onde saiu a citação em negrito do início. E finalizava a primeira parte de seu texto com mais negrito e letras maiúsculas: “As pessoas hoje em dia gostam mais de música do que nunca e eles gostam de levá-la onde quer que elas vão. ELAS PODEM OUVIR A DIFERENÇA ENTRE ÁUDIO DE BOA QUALIDADE E ÁUDIO DE MÁ QUALIDADE… ELAS SE IMPORTAM COM ESSA DIFERENÇA E ESTÃO DISPOSTAS A PAGAR PARA TER ‘ÁUDIO PORTÁTIL’ DE ALTA QUALIDADE PARA USAR COMO ‘PAPEL DE PAREDE PARA SEU ESTILO DE VIDA’”. Isso, lembrando, DEZ anos antes de a web atingir o grande público, DEZESSEIS anos antes do Napster e DEZOITO anos antes do iPod.
Zappa tinha até a resposta para problemas que ainda nem haviam começado a existir e aí que seu texto fica mais incisivo. Na segunda parte (chamada apropriadamente de “Respostas para Perguntas Intrigantes”), ele nos apresenta ao “Q.C.I.”. “Propomos adquirir o direito de duplicar digitalmente e estocar O MELHOR de cada um dos difíceis de transportar Q.C.I. (Quality Catalog Itens, Itens de Catálogo de Qualidade) de todas as gravadoras, reuni-los em um lugar de processamento central e torná-los disponíveis via fone ou cabo de TV paga, diretamente acessível através dos dispositivos caseiros de áudio do consumidor, com a opção de transferência de um ambiente digital para outro através da F-1 (o gravador de áudio digital da Sony, disponível para o público), Beta Hi-Fi ou cassete análogo simples (que precisa apenas da instalação de um conversor no próprio fone, cujo chip principal custa US$ 12)”.
“Todas as contas de pagamentos de royalties, cobranças do consumidor, etc., seriam automáticas e estariam no próprio programa básico do sistema”, Zappa continua. “O consumidor tem a opção de se inscrever em uma ou mais categorias de interesse, cobradas mensalmente, sem se preocupar com a quantidade de música que ele ou ela decidam gravar. Prover material em tal quantidade a um custo reduzido realmente diminuiria o desejo de duplicação e armazenamento, já que este estaria disponível a qualquer hora do dia ou da noite”.
Zappa simplesmente bolou um sistema de pagamentos, acesso e distribuição de música que parece atender às necessidades de todos (com a exceção daqueles que cita no início do texto - “Muitas pessoas estão empregadas no campo de promoção de discos. Estes salários são, na maior parte, desperdício de dinheiro”). Sem a internet. Sem o MP3. Sem P2P.
E conclui: “Queremos uma quantidade GRANDE de dinheiro e os serviços de uma equipe de mega-hackers para escrever o software deste sistema. A maior parte dos equipamentos, mesmo quando você ler isto, já estão disponíveis como itens existentes no mercado, apenas esperando para serem plugados uns nos outros de forma que eles possam por fim na “INDÚSTRIA DO DISCO” como a conhecemos.
Isso, repito, em 1983.
Achei esse vídeo enquanto estava tagueando posts velhos do Sujo.
Foda demais.
WAT digo eu.
Belle & Sebastian - “If You Find Yourself Caught in Love”
George Harrison - “Got My Mind Set On You”
Jorge Du Peixe e Lucio Maia - “Kanibal”
Frank Zappa - “Florentine Pogen”
Olivia Tremor Control - “Jumping Fences”
Supercordas - “E o Sol Brilhou Sobre o Verde”
Syd Barrett - “Baby Lemonade”
Nick Cave & the Bad Seeds - “Get Ready for Love”
Walter Franco - “Cena Maravilhosa”
Serge Gainsbourg - “Cargo Culte”
Van Morrison - “Sweet Thing”
Phoenix - “Lisztomania”
Genesis - “Back in NYC”
Mopho - “O Amor é Feito de Plástico”
Elastica - “S.O.F.T.”
Pavement - “Old to Begin”
Herbert Vianna - “The Scientist Writes A Letter”
Stevie Wonder - “All Day Sucker”

Foto: petehud
1) Pornografia mainstream
2) Jimmy Carl Black, do Mothers of Invention (1938-2008)
3) Censura 18 anos irrita jovens que compraram ingressos para o festival Planeta Terra
4) Executivo da Def Jam se mata
5) Brasil tem a 5ª pior banda larga do mundo
6) Brasileiro morre ao completar maratona de NY
7) Outro remake do Planeta dos Macacos?
8) Mais novas sobre o filme do Tintim: Spielberg e Peter Jackson na parada
9) Paste entrevista Kevin Smith
10) Torre U2 (sério), em Dublin, é cancelada por falta de grana

Foto: fipi
1) Daniele Hypólito: “Eu sou virgem”
2) Tudo sobre o show do My Bloody Valentine no All Tomorrow’s Parties que rolou ontem
3) O fim do Total Request Live, da MTV gringa
4) Viúva de Frank Zappa é a herdeira de sua palavra final
5) Thurston Moore e Ian McKaye se estranham em debate em Nova York
6) Stephen Chow vai dirigir e atuar (como Kato) na adaptação para o cinema de O Besouro Verde
7) O trabalho do sujeito: ver se não existem erros de continuidade em Guerra nas Estrelas
8) Filme do Tintin? Em 3D? Dirigido pelo Peter Jackson e pelo Spielberg?
9) Quem não vai aparecer na próxima temporada de Lost (spoiler, hein)?
10) Entretenimento x política: Jon Stewart entrevista Bill Clinton nesta terça
- Bing Bong Brothers e o poder do bigode (são os mesmos caras do Just 2 Guys);
- Clipe classe do Mr. Catra (”Sem Mistério”);
- Erros de gravação do Chaves;
- Frank Zappa com John Belushi;
- Orson Welles breaco;
- Calotas picture (vai dizer que não era tudo que você queria?);
- “Crazy” kid.
Tem mais, claro que tem. E valeu quem me mandou essas coisas, eu não lembro quem mandou o que (Vlad, Kalatalo, Mini), mas valeu eniuei.
Antes do CD entrar no mercado. Quem tiver tempo pra traduzir, pode me mandar que eu posto aqui:
A PROPOSAL FOR A SYSTEM TO REPLACE PHONOGRAPH RECORD MERCHANDISING
Ordinary phonograph record merchandising as it exists today is a stupid process which concerns itself essentially with moving pieces of plastic, wrapped in pieces of cardboard, from one location to another.
These objects, in quantity, are heavy and expensive to ship. The manufacturing process is complicated and crude. Quality control for the stamping of the discs is an exercise in futility. Dissatisfied customers routinely return records because they are warped and will not play.
New digital technology may eventually solve the warpage problem and provide the consumer with better quality sound in the form of compact discs [CDs]. They are smaller, contain more music and would, presumably, cost less to ship … but they are much more expensive to buy and manufacture. To reproduce them, the consumer needs to purchase a digital device to replace his old hi-fi equipment (in the seven-hundred-dollar price range).
The bulk of the promotional effort at every record company today is expended on ‘NEW MATERIAL’ . . .the latest and the greatest of whatever the cocaine-tweezed rug-munchers decide to inflict on everybody this week.
More often than not, these ‘aesthetic decisions’ result in mountains of useless vinyl/cardboard artifacts which cannot be sold at any price, and are therefore returned for disposal and recycling. These mistakes are expensive.
Put aside momentarily the current method of operation and think what is being wasted in terms of GREAT CATALOG ITEMS, squeezed out of the marketplace because of limited rack space in retail outlets, and the insatiable desire of quota-conscious company reps to fill every available slot with this week’s new releases.
Every major record company has vaults full of (and perpetual rights to) great recordings by major artists in many categories which might still provide enjoyment to music consumers if they were made available in a convenient form.
MUSIC CONSUMERS LIKE TO CONSUME MUSIC … NOT SPECIFICALLY THE VINYL ARTIFACT WRAPPED IN CARDBOARD.
It is our proposal to take advantage of the positive aspects of a negative trend afflicting the record industry today: home taping of material released on vinyl.
First of all, we must realize that the taping of albums is not necessarily motivated by consumer ‘stinginess.’ If a consumer makes a home tape from a disc, that copy will probably sound better than a commercially manufactured high-speed duplication cassette legitimately released by the company.
We propose to acquire the rights to digitally duplicate THE BEST of every record company’s difficult-to-move Quality Catalog Items [Q.C.I.], store them in a central processing location, and have them accessible by phone or cable TV, directly patchable into the user’s home taping appliances, with the option of direct digital-to-digital transfer to the F-I (SONY consumer-level digital tape encoder), Beta Hi-Fi, or ordinary analog cassette (requiring the installation of a rentable D-A converter in the phone itself . . . the main chip is about twelve dollars).
All accounting for royalty payments, billing to the consumer, etc., would be automatic, built into the software for the system.
The consumer has the option of subscribing to one or more ’special interest category,’ charged at a monthly rate, WITHOUT REGARD FOR THE QUANTITY OF MUSIC THE CUSTOMER WISHES TO TAPE.
Providing material in such quantity at a reduced cost could actually diminish the desire to duplicate and store it, since it would be available any time day or night.
Monthly listings could be provided by catalog, reducing the on-line storage requirements of the computer. The entire service would be accessed by phone, even if the local reception is via TV cable.
One advantage of the TV cable is: on those channels where nothing ever seems to happen (there’s about seventy of them in L.A.), a visualization of the original cover art, including song lyrics, technical data, etc., could be displayed while the transmission is in progress, giving the project an electronic whiff of the original point-of-purchase merchandising built into the album when it was ‘an album,’ since there are many consumers who like to fondle & fetish the packaging while the music is being played.
In this situation, Fondlement & Fetishism Potential [F.F.P.] is supplied, without the cost of shipping tons of cardboard around.
Most of the hardware devices are, even as you read this, available as off-the-shelf items, just waiting to be plugged into each other in order to put an end to the record business as we now know it.
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