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Arquivo: helio flanders

Vote Vanguart

Sem entrar no mérito (discutível) de se fazer jingle (também discutível) político (ainda mais discutível), essa música que o Vanguart fez para um político do Mato Grosso é horrorosa.

Aproveitando o gancho, vale ler a entrevista com o Hélio Flanders, vocalista da banda, feita pelo Scream & Yell. Um trecho:

Em uma entrevista recente do Marcelo Camelo para a Trip ele diz que 1% do tempo dele é destinado à música…
Por isso que fumamos maconha, né? (risos) Passamos 1% do tempo com o violão na mão, mas 61% do tempo eu estou pensando na criação. Pelo menos eu penso nisso porque a minha criação vai muito além de estar com um violão e estar pensando música. Não quero que soe pretensioso, mas demos uma desacelerada porque estávamos pensando em um conceito e a cada seis meses eu mudo esse conceito. Então prefiro não lançar um disco que não diga nada pra mim. É meio burrice, porque estou perdendo grana, estou perdendo uma fórmula de folk bonitinho, de calça apertada, que podia estar dando dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, descobri uma forma de fazer dois shows por mês, pagar minhas contas, comprar meu fumo e não precisar ficar blefando, nem segurar placa de gênio pensando ou ficar fingindo que eu tenho culpa cristã. O protecionismo ao redor do artista… isso é um golpe.

E em tempo: não é o fato de fazer um jingle para político que vai tirar o trunfo do Vanguart de ser uma das melhores bandas nacionais da primeira década do século. Só pra constar e não ficar parecendo picuinha.

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Toda a genialidade de Júpiter Maçã

Sigo acompanhando o papo do Ronaldo e do Tatá com o Hélio e o Júpiter e não consigo deixar de me admirar com o gaúcho. A conversa, mais vaga possível (e assim que é bom), começa a falar sobre processos de composição e quando o cara começa a falar em inglês ou do “átomo de urânio”, putz… Gênio, gênio – fora que o papo termina com uma versão acústica da maldita “Talentoso”. E não pulei a segunda parte, não – é que nesta o foco é mais na atual fase da carreira do Vanguart e Flávio Basso apenas comenta em determinados trechos do papo (e, putz, olha o jeito que o Hélio conheceu o Spencer, hahaha).

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Jupiter Maçã, um gênio

Quis tentar escrever alguma coisa para acompanhar o papo do Tatá, do Ronaldo e do Hélio com o Júpiter, mas fiquei que nem os três – só vendo o bicho ser gênio, coisa que ele faz com a maior naturalidade do mundo. Não é pra qualquer um…

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Duas realidades

Boa idéia, essa da Trip. Em vez de repetir de novo a capa do Tropicália (talvez o maior clichê do jornalismo musical brasileiro), eles foram atrás de uma clássica capa de uma antiga Realidade com Milton Banana, Jairzão, Magro do MPB-4, Caetano, Nara, Paulinho da Viola, Toquinho, Chico Buarque e Gil…

…e a recriaram com Junio Barreto, Rômulo Fróes, Ganjaman, Tatá, Catatau, Hélio do Vanguart, Thalma, Kassin e Céu.

Mas em vez da matéria ser mais uma cantinela de viúva da MPB tentando enquadrar novos Caetanos ou as “novas divas” que alimentam cadernos de cultura pelos jornais do Brasil, o texto do Bressane concentra-se em um ponto específico desta geração anos 00 – o perfil colaboracionista, em que todo mundo já tocou com todo mundo. A pauta só peca por insistir nessas de MPB – o atual pop brasileiro (inclusive o que inclui os nove acima) vai muito além da canção e do violão, e inclui hip hop, indie rock, psicodelia, bocas desdentadas, groove latino, bateria eletrônica, guitarra elétrica e versos em inglês.

Mas eu sei como funcionam as revistas…

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Três

O Lívio sugeriu essas três estampas pra camiseta:

Eu não usaria nenhuma delas :P

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Meu primeiro show da Mallu

Mallu Magalhães @ Studio SP
São Paulo, 27 de agosto de 2008

Cheguei a tempo de assistir ao menor a um show de Mallu Magalhães ainda com 15 anos, que aconteceu na semana passada, no novo Studio SP. O enorme galpão na rua Augusta parecia ser o fim dos problemas que apareciam nos melhores shows do velho Studio, na Vila Madalena: nada de mormaço, ar sólido ou superlotação para se assistir ao show semanal do Eddie ou do Mombojó tocando Roberto Carlos com o China. Com o pé direito alto e a largura completa de um estabelecimento comercial médio (o anterior não dispunha de toda extensão pois contava com uma escada lateral para o segundo piso que deixava o espaço para o público ainda menor), a nova casa de Alexandre Youssef ainda tem um mezanino ao fundo com mesas e cadeiras para não quem quiser ficar de pé à noite inteira. O palco fica à esquerda de quem entra na casa, enquanto uma arquibancada de um degrau o encara na parede da direita.

Era minha primeira vez na nova casa noturna, que abriu no começo do ano com uma programação intensa – e sempre encontro alguém contando como ficou o novo Studio e de algum show que viu por lá. Era minha vez. De cara, encontro o Youssef e já me desculpo por não ter vindo antes: “Você sabe que eu só saio de casa quando tenho certeza que a noite vai ser boa”, disse, brincando, quando o assunto Gente Bonita veio à tona. Achei que o meu primeiro show da Mallu fosse uma boa oportunidade para inaugurar minhas visitas à casa.

Pois é, inaugurava o lugar e o show: nunca tinha visto Mallu ao vivo, apesar da torcida. E, logo depois que o Ecos Falsos, que abria a noite, encerrava sua apresentação com um cover-xerox do único hit do We Are Scientists, alguém arrebatou um microfone e mandou que a menina faria 16 anos em dois dias, portanto aquele seria a última oportunidade de assisti-la em sua idade-símbolo. “A menina de quinze anos que canta folk bonitinho” perderia um desses adjetivos em breve.

Meu entusiasmo pela idade de Mallu não diz respeito propriamente a ela, mas à geração nascida nos anos 90, que não está esperando muito tempo para mostrar o que sabe. Minha empolgação com esses adolescentes é diretamente proporcional à frustração que virou tédio pela geração posterior à minha. Nasci nos anos 70 e vi uma geração mais nova que a minha se render ao bundamolismo e à falta de rumo. Nascidos dos anos 80 (no Brasil, vamos colocar isso na perspectiva certa) invariavelmente se queixam de que não fazem o que querem, celebram qualquer possibilidade de celebrar (micareta, futebol, capítulo final de novela) e sonham com uma utopia de fama e dinheiro total, sem saber como conseguir isso.

Já a geração de Mallu é diferente. O fato de ela, com 15 anos, gostar de Bob Dylan e Johnny Cash não a torna superdotada ou genial, afinal a minha geração e as anteriores a ela tiveram algumas das pedras fundamentais de sua vida dispostas aos 15, 16 anos. A diferença é que Mallu nasceu na era do controle remoto infinito da internet – que qualquer criança pode ficar mudando de canal sem parar até descobrir um programa diferente e interessante, seja qual for, seja um programa infantil ou não. Dylan e Cash são tão acessíveis quanto o High School Musical. Não são mais objetos de culto de uma pseudo-intelligentsia e sim boas grifes.

Assim, a geração de Mallu está, aos poucos, se inventando a partir de grifes estabelecidas – e preparem-se para referências cada vez mais díspares no meio do caminho. A própria Mallu já fez o favor de confundir – misturou tropicalismo e Caetano no que parecia ter apenas temperos country e americanizados, participou do disco solo de Marcelo Camelo, flerta com o Vanguart – que, a bem da verdade, foi seu “descobridor”. Como a Dani dizia pra mim e pro Ronaldo antes do show começar, não faziam nem oito meses que ela havia aparecido abrindo pro Vanguart em janeiro, na Clash. Depois disso, retomemos: buxixo online, capas de cadernos de cultura, Sérgio Groissman, Jô Soares, comercial para operadora de celular, todas as majors sendo esnobadas, produção de Mario Caldato, cover de Legião no prêmio do Multishow, turnê com o MySpace. Na mesma idade em que a maioria dos astros do rock pós-Beatles projetava suas carreiras em fundos de caderno, Mallu vive à toda esse tal de “great rock’n'roll swindle”.

O público, dada a natureza do show, não era o da Mallu. Era um show do MySpace com patrocínio de um sanduba congelado, portanto dava pra encontrar representantes de diversas alas no meio da platéia: de fãzocas da rede social (sim, eles existem) a publicitários empolgados com evento enquanto happening de uma marca, passando por emos, patricinhas, clones da Mallu e moleques roqueiros. Na fila para pegar um sanduíche aquecido na hora num forno de microondas formada basicamente por adolescentes, o vocalista de uma proeminente banda de rock brasileira fingia não ser reconhecido. Não era o Helio Flanders, esse eu encontrei mais tarde. No telão, um festival de vergonha alheia patrocinado pelo sanduba congelado – o público na fila do show poderia lanchar o objeto da promoção ao lado da Mallu caso citasse o nome do produto num vídeo vergonhoso. Lamentável.

Começa o show, a banda entra antes de Mallu: baixista, baterista, tecladista e guitarrista. Ela vem logo em seguida e é bem recebida pelo público – e responde bem, tranqüilamente, com um sorriso. Conversa com as pessoas como se não tivesse um microfone, como se estivesse falando com cada um dos presentes, não com todos ao mesmo tempo. É tudo muito natural, espontâneo.

E o mesmo acontece quando ela começa a cantar. Sem querer fazer onda, ela já usa, de cara, o hit “Tchubaruba” e segue o show com algumas toadas folk e poucas músicas em português – a dobradinha “Girassóis” e “Leãozinho” (deu pra ouvir os “nhooon” vindo da platéia), que eu filmei acima, foram dos poucos momentos em que ela cantou em nosso idioma (apesar de, aparentemente, vir por aí um disco com menos músicas em inglês). Em duas ou três músicas cantou sem a banda, só com o violão e a gaita pendurada ao pescoço. Isso é, essencialmente, o gene do artista: o cara que não precisa de nada, além de si mesmo, para mostrar o que quer fazer. E ela está lá, sozinha, com quinze anos, em frente a uma pequena multidão. Podiam vir vaias, tomates, indiferença – mas estão todos olhando pra ela e ela age com naturalidade, sem gaguejar, sem errar o dedilhado ou a letra, sorrindo quando consegue – quase o tempo todo.

Citou Beatles duas vezes (“You Mother Should Know” e “I’ve Just Seen a Face”), mas entre as citações engatou uma seqüência de cinco ou seis músicas lentas e chatas que, se não estivessem tão próximas umas das outras, não incomodariam tanto. Encerrou o show com sua versão de catarse para “Folsom Prison Blues”, que já tornou sua, e finalmente todo o público se empolgou ao mesmo tempo. Ao final (quando fica escuro no vídeo), um segurança sobe ao palco e coloca um casaco nos ombros de Mallu, que desce em direção à porta logo depois que para de cantar. Sem sequer esperar a banda terminar de tocar, Mallu já estava em um carro que a esperava na porta da casa noturna. Sem tempo para autógrafos ou o natural contato com o público depois de um show.

Eis um problema: tratá-la como diva ou intocável pode tornar mais fácil a condução de sua carreira e até a própria vida pessoal da menina, mas ao mesmo tempo cria uma redoma de baba-ovos que faz qualquer gênio desandar – quase toda história do rock é exemplo disso. E Mallu Magalhães não é um gênio – ela tem muita vida para viver para começar a produzir material propriamente genial (vide Lily Allen). Isso não que dizer que o fenômeno Mallu Magalhães não seja genial – este sim é, por motivos que são alheios à construção da artista Mallu (e muito mais a ver com o contexto atual). Por outro lado, ela não é apenas uma promessa – e a segurança e naturalidade que existem de fato em sua interpretação e performance já provam que ela já é uma artista. Ela sabe quando está fingindo e quando está cantando pra valer – e isso é tão raro entre artistas, ainda mais hoje em dia.

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