OEsquema

Arquivo: ilustrada

Seu Jorge, o Romero Britto brasileiro

Não acho Seu Jorge grandes coisas, mas respeito um cara que começa uma entrevista assim:

“Eu senti que existia uma demanda reprimida por um gênero específico, e esse gênero era eu”

Na Folha.

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O marco-zero do pop atual: o dia em que os Beatles conheceram Bob Dylan

Lembrei de uma matéria que fiz para a Ilustrada anos atrás, quando o primeiro encontro dos Beatles e de Bob Dylan completou 40 anos – reunião de cúpula que mudou o curso das carreiras dos dois artistas e, com elas, a história da cultura do século 20. Segue o texto abaixo:

Encontro entre Bob Dylan e os Beatles faz 40 anos

“Olhando em retrospecto, eu ainda vejo aquela noite como um dos grandes momentos da minha vida. Na verdade, eu tinha a consciência de que estava dando início ao encontro mais frutífero na história da música pop, pelo menos até então. Meu objetivo foi fazer acontecer o que aconteceu, que foi a melhor música de nossa época. Eu fico feliz com a idéia de que eu fui o arquiteto, um participante e o cronista de um momento-chave da história.”

Assim o jornalista norte-americano Al Aronowitz se refere ao clássico encontro que, exatamente há 40 anos, mudou a cara da música pop e da cultura popular, quando, no dia 28 de agosto de 1964, os Beatles foram apresentados a Bob Dylan e este os apresentou à maconha. O encontro, ocorrido no Delmonico Hotel, em Nova York, fez com que ambos artistas começassem a se enxergar como partes de um mesmo universo, cedendo atrativos musicais entre si –não havia mais consumismo infanto-juvenil de um lado e cabecismo adulto do outro, tudo era a mesma coisa. Nascia a música pop moderna.

O que a princípio parecia se tornar um breve alô entre jovens ícones se tornou um acelerador para novas certezas que ambas as carreiras vinham desenvolvendo. Fenômeno de mercado, os Beatles eram uma banda elétrica adolescente, cantando baladas de amor e petardos dançantes com maestria inigualável. Já o acústico Dylan nascera na mesma cena folk pacifista que habitava o bairro boêmio do Village e glorificava autores beat e músicos do povo.

Mas logo a seguir as coisas mudariam de figura. Dylan abraçaria a guitarra como um violão de maior alcance, ferindo seus próprios fãs puristas com decibéis de eletricidade distorcida, ao mesmo tempo em que deformava a própria lírica das canções de protesto para um panteão bíblico-pop que buscava a pureza da alma americana ao mesmo tempo em que se perdia em seus próprios pecados. Já os Beatles deixariam de lado o iê-iê-iê para mergulhar fundo em si mesmos, emergindo de seu experimentalismo intuitivo –parte nostálgico, parte ingênuo– com o melhor legado que o formato canção conheceu.

Aronowitz havia entrevistado John Lennon e descobriu que ele considerava Bob Dylan um “ego igual” e, amigo de Dylan, passou a pensar em como aproximar os dois artistas. Até que, naquele 28 de agosto, Al recebe um telefonema –era Lennon, de passagem com os Beatles por Nova York:

“Cadê ele?”.

“Quem?”

“Dylan!”

“Ah, ele está em Woodstock, mas eu posso trazê-lo!”

“Do it!” (Faça!), mandou John do outro lado da linha, e o jornalista percebeu que podia dar ignição na própria história. Aronowitz combinou com Dylan, que veio acompanhado do roadie Victor Maimudes, ao volante. Com Al no carro, foram em direção a Manhattan, chegando logo ao hotel na Park Avenue. Lá, os três alcançaram o andar em que os Beatles estavam, sendo recebidos por um amontoado de artistas, radialistas, policiais e jornalistas, bebendo cerveja e conversando, que esperavam a vez de entrar na suíte para conversar com os Beatles, que estavam na capa da revista “Life” daquela semana.

Dylan entrou rapidamente, e a recepção foi feita pelo empresário do grupo, Brian Epstein, que, ao perguntar, entre champanhe e vinhos franceses, o que Dylan gostaria de beber, ouviu o pedido por “vinho barato” –para despachar o roadie dos Beatles, Mal Evans, em busca da tal garrafa. O encontro vinha frio, e os Beatles ofereceram pílulas para Bob, que sugeriu que eles fumassem maconha. Os ingleses responderam que nunca haviam fumado –consideravam a maconha uma droga pesada como a heroína, restrita a músicos de jazz e escritores malditos.

Pasmo, Dylan perguntou sobre aquela música que eles compuseram sobre estar chapado. Sem entender o que ele queria dizer, o cantor folk citou uma passagem em que os Beatles cantavam “I get high! I get high! I get high!” (“Eu fico chapado”), e Lennon esclareceu que era “I Want to Hold Your Hand”, cuja letra, na verdade, dizia “I can’t hide! I can’t hide! I can’t hide!” (“Eu não posso esconder!”). Desfeito o mal-entendido, Dylan sugeriu que todos fumassem um baseado.

Os Beatles, Dylan, Mal, Victor, Brian, Al e o assessor de imprensa Derek Taylor se dirigiram ao fundo da suíte do hotel, onde se trancaram e fecharam as cortinas. Bob Dylan começou a enrolar o cigarro, mas deixou o fumo cair por duas vezes, deixando que seu roadie terminasse o serviço. Aceso, o cigarro foi passado para Lennon, que passou a vez para o baterista Ringo Starr, que, por desconhecer os rituais canábicos, fumou-o inteiro, sem passá-lo adiante. Isso fez com que Al incentivasse a produção de mais cigarros –e logo cada um tinha o seu.

“Foi muito engraçado!”, lembra Paul McCartney em suas memórias, “Many Years from Now”, “o negócio dos Beatles eram humor, tínhamos muito humor. Havia um lado do humor que usávamos como proteção e, com aquilo ainda por cima, as coisas ficaram mesmo hilárias”.

“Virou uma espécie de festinha”, continua Paul, “voltamos todos para a sala, bebemos e coisa e tal, mas não acho que alguém precisasse de mais fumo depois daquilo. Passei a noite toda correndo para lá e para cá, tentando achar papel e caneta porque, quando voltei para o quarto, descobri o sentido da vida. Queria contar ao meu pessoal como era aquilo. Eu era o grande descobridor, naquele mar de maconha, em Nova York”.

“Até a vinda do rap, a música pop era largamente derivada daquela noite no Delmonico. Aquele encontro não mudou apenas a música pop, mudou nosso tempo”, lembra Al Aronowitz, em sua coluna on-line “The Blacklisted Journalist”. Logo depois, Dylan lançaria, em seqüência, os discos “Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”, enquanto os Beatles trariam “Rubber Soul”, “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Pura história.

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Renato Russo, 50 anos

Como bom brasiliense, fica aqui a minha lembrança e meu salve ao João de Santo Cristo original, o retirante carioca que legitimou a cultura da minha cidade-natal em forma de canção. Aproveitei a data para desenterrar uma entrevista que fiz com o Renato Russo em 1994 e que foi capa da Ilustrada em 2001, quando completaram cinco anos da morte do cara. Segue:

Em entrevista inédita, Renato Russo fala de drogas e da Legião

Há exatos cinco anos o pop brasileiro perdia o pouco de senso crítico que tinha, acelerando a escavação do atual abismo cultural em que se encontra. Com a morte de Renato Russo, acabava a Legião Urbana, uma das duas bandas de rock mais importantes do Brasil, funcionando no imaginário nacional -ao lado do experimentalismo dos Mutantes- como os Beatles para o do planeta.

O fim do grupo coincidiu com a aceleração da idiotização do pop brasileiro, hoje composto por discos de regravações, muitos deles subprodutos da própria Legião.

No dia 21 de maio de 1994, Renato Russo e a banda viajavam pelo interior de São Paulo com a turnê do disco O Descobrimento do Brasil. O show daquela noite havia sido no ginásio municipal de Valinhos (a 88 quilômetros da capital) e problemas com a acústica do lugar fizeram o grupo convocar uma reunião de emergência na beira da piscina do hotel Royal Palm Plaza, em Campinas. Leia trechos da entrevista concedida por Renato Russo, após a reunião.

Qual seu disco favorito da Legião Urbana?
O V, que eu acho o disco mais difícil. Gosto muito de O Descobrimento do Brasil. Agora, que encontrei a programação dos 12 passos -parei de beber e de me drogar-, tudo está mais tranquilo. Esse show de hoje, por exemplo: o som estava um caos, tudo estava um horror, e o público, superlegal. O lugar tinha uma reverberação brutal. O público berrava muito, e o engenheiro de som teve de aumentar tudo, desequilibrou. No começo era só “bum-bum-bum” e eu berrando, não dava para ouvir os detalhes. Mas, se fosse em outra época, eu teria ficado tão preocupado que ia beber, tomar um porre, falar: “Nunca mais vou fazer show”, nhem-nhem-nhem… Isso agora não existe mais. Há uma tranquilidade, uma serenidade que esse disco trouxe, e acho que as músicas refletem isso.

Como foi sair dessa fase?
Eu estava me destruindo e, em vez de me matar com um tiro na cabeça, preferi procurar ajuda. Isso vem desde os 17 anos, mas no V foi a primeira vez que coloquei na música essas questões. “Montanha Mágica” é sobre isso. Eu era jovem e acabei entrando num beco sem saída.
Isso foi me consumindo, eu ficava deprimido e não sabia o porquê. Achava que o mundo era horrível, igualzinho ao Kurt Cobain, nada mais valia a pena. E isso é estranho porque, se eu achar um dia que as coisas não valham a pena, quero estar com a cabeça no lugar, e não com o corpo cheio de toxinas. Parei com todo tipo de droga e vi que as coisas não eram tão ruins.

Isso se refletia na sonoridade da banda?
Isso a gente decide. Todo disco a gente tenta fazer uma coisa diferente, até porque é mais divertido. E para não ficar na obrigação de repetir o mesmo trabalho. Não achávamos que o Quatro Estações fosse estourar, porque é um disco bem difícil, mas todo mundo gostou. As letras são complicadíssimas e não é tão pra cima quanto acham. É tão depressivo quanto o V.
Tentamos fazer músicas mais pra cima porque era natural, mas não ficava bom. O Descobrimento do Brasil não é um disco pra cima, é como o Power, Corruption and Lies, do New Order. É a coisa mais gloriosa do mundo, mas, se prestar atenção, é pesado.

Como o Quatro Estações…
No geral, as pessoas acharam que aquilo foi a coisa mais alegre que já foi feita. Enquanto o V, não. A gente tentou fazer uma música alegre pelo menos, de tudo quanto foi jeito, e não saía. “Vento no Litoral” só tocou porque tem uma melodia bonita. Acho “Metal contra as Nuvens” uma música superacessível. O problema é que o disco falava de coisas que as pessoas não estavam querendo ouvir na hora. Foi quando estourou a axé music, a gente veio na contramão. Mas o disco tem as melhores letras, de longe. Consegui falar tudo o que eu queria. Mas as pessoas não queriam ouvir aquilo. Por exemplo, “Metal contra as Nuvens” é uma música sobre o Collor, mas nunca ninguém falou sobre isso.

Como você vê a crítica?
Eles usam os motivos errados. Eu não sou o dono da verdade, mas, para mim, o que motiva esses caras é um rancor e uma incompreensão do que é o nosso país e de como as coisas funcionam. Existem iniciativas maravilhosas no Brasil e a gente não sabe. Aí a gente fica oprimido, achando que tudo não presta, que tudo é horrível. Gostaria de poder apresentar um bom trabalho para as pessoas que gostam da gente. Acho sacanagem, na posição que a gente está, não tentar se esforçar o máximo para apresentar o melhor que a gente pode fazer.

E o futuro do Legião?
Não tenho idéia. Eu não vejo como a gente vai seguir o que está fazendo sem se repetir. Depois de “Perfeição”, eu vou escrever o quê? Depois que você fala “vamos celebrar a estupidez humana”, o que você vai falar? Então talvez a gente faça uma coisa parecida com o que o The Cure faz, para depois, com o tempo, a gente fazer uma mescla. Ou virar uma banda de trabalho, como o New Order. Eu não quero ficar falando como eu acho tudo horrível como está. Se a gente cansar, a gente pára. Se a gente achar que ainda vale a pena fazer alguma coisa, a gente continua.

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E essa entrevista com o Zero Quatro?

…e parece que o líder do Mundo Livre S/A tá com saudade das gravadoras. É isso?

“Percebo que, a despeito de toda a questão do acesso democrático e da maior visibilidade que chegaram com a internet, um fato inegável é que a web tem desestruturado quase todas as cadeias que se envolvem com a digitalização, do jornalismo à música. Hoje é moda celebrar a web, dizendo que finalmente nos livramos dos malas da indústria fonográfica. Tudo bem, a indústria até tinha um aspecto predatório, mas uma coisa é você defender a ausência da indústria, a ausência da cadeia produtiva. Se o mangue beat tivesse surgido num ambiente parecido com o que rola hoje, com gravadoras em crise, talvez o mangue beat tivesse se limitado a uma ou duas comunidades de Orkut, uma coisa de gueto. (No início dos anos 90) A Sony foi a Recife, contratou o Chico Science e bancou o primeiro clipe da banda, que rodou direto na MTV. Finalmente a indústria olhava para nós. E teve um efeito multiplicador forte. As pessoas esquecem isso. Hoje há uma situação sem indústria, sem cadeia produtiva. Está se instalando uma religião da tecnologia, um fundamentalismo tecnológico. Fala-se muito em economia sustentável, mas na cultura não existe consumo sustentável.”

Será que não? Lembre-se que estamos em fase de transição… A íntegra da entrevista tá aqui e é fechada pra assinantes do UOL.

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E falando em Angeli…

Ressuscito aqui uma entrevista que fiz com o sujeito pra Ilustrada em 2006.

Angeli sem crise

“Wood & Stock”, filme com seus personagens, é atração no festival Anima Mundi

Angeli talvez seja um dos pais do rock brasileiro. Tudo bem que Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas vieram antes, mas para uma geração crescida sob a sombra da ditadura militar – quando ou você cantava as canções de exaltação à pátria ou cantava as canções da resistência, e se ouvisse música estrangeira era tachado de alienado político – foi o cartunista paulistano, que completa 50 anos no próximo dia 31 de agosto, quem melhor traduziu o que era o rock para um país submerso na MPB.

Com os personagens criados nas páginas da extinta revista “Chiclete com Banana”, que editava por conta própria nos anos 80, ele foi criando personagens para traduzir a fauna revelada com a queda da ditadura. Enquanto a Blitz e o rock carioca revelava o prazer de ser jovem depois da abertura política, Angeli descortinava uma São Paulo pós-industrial cheia de defeitos de fabricação em forma de gente. O punk Bob Cuspe, a gótica boêmia Rê Bordosa, o paranormal Rampal e o gay Nanico. Cada figura urbana criada pelo desenhista também encerrava uma tribo quase sempre ligada a um gênero musical, a uma série de hábitos desenhados pela própria história do rock. Sequer precisava citar preferências musicais para saber que o Meiaoito é viúva da MPB e que os Skrotinhos ouvem new wave.

Duas de suas criações saem das páginas do jornal para ganhar outros rumos. A dupla de velhos hippies Wood e Stock estrelam o primeiro longa baseado na obra de Angeli, que será exibido amanhã no Anima Mundi. “Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n'Roll”, do gaúcho Otto Guerra, reúne não apenas o núcleo bicho-grilo do título (a esposa Lady Jane, o filho Overall), mas quase todos os personagens criados pelo paulistano.

O outro lançamento são os livros que compilam as histórias do pré-adolescente Ozzy, filho da geração Nirvana que era publicado pela Folhinha durante os anos 90. São quatro volumes ao todo, dois deles saem agora e os outros dois em novembro.

Qual foi o seu envolvimento com o filme “Wood & Stock”?
Bom, eu cedi todo o meu material desde, hm, 84 para o Otto fazer o que quisesse, como referência gráfica e de roteiro. E fiquei meio como consultor. Detalhes, coisas do personagem que eu conheço porque eu os criei: tem uma cena em que o Wood, o Stock e a Rê Bordosa tomam um treco, piram e saem às gargalhadas. Epa: a Rê Bordosa não dá gargalhada. Detalhes assim, mas não interferi tanto. Eles me mandavam trechos e eu via.
Mas eu sou jornalista, eu trabalho num dia e no dia seguinte tá no jornal – e agora, com internet, tá na rua em cinco minutos. Então esse ritmo de cinema pra mim é muito moroso, muito lento, aí chegava algo pra mim, um trecho, e eu lembrava que o filme estava sendo feito (risos).
Depositei toda minha confiança no Otto porque ele é um cara como eu, da minha geração, a gente ouviu as mesmas coisas, tomamos as mesmas coisas, eu conhecia o trabalho dele e foi uma boa. Se eu fizesse o filme, ele seria completamente diferente, porque eu sou virginiano meticuloso e fico completamente obcecado com detalhes. Mesmo no filme pronto, reparo que o dedo mindinho do personagem tá uma nesga fora do lugar que deveria ser o certo. Mas eu já vi o filme umas cinco vezes e sei que é coisa minha, ninguém percebe.

O filme tem o andamento que você imaginava para os personagens?
Sim, acho que ele conseguiu pegar o ritmo dos hippies velhos, lentos, cansados…

É uma boa adaptação de uma história em quadrinhos para a animação?
Eu acho, me senti confortável com ele.

Você já havia cedido personagens para animação em um comercial de cerveja…
Sim, os Skrotinhos. E também usei o Moska, que é um coadjuvante do Luke & Tantra, para umas vinhetas curtas para o Cartoon Network. O trabalho do animador, Daniel Messias, foi muito bom. Já o comercial de cerveja eu tive que bater o pé em uma série de aspectos – era uma empresa (risos) – para fazer do jeito que eu quis. Neste, eu fiz os desenhos e os animadores do comercial, muito bons também, deram movimento. Gostei das duas, têm uma animação fluente, e os Skrotinhos tinham as vozes perfeitas, feitas pelo José Rubens Chachá, que eu recomendei…

E as vozes do longa?
Gostei . A primeira versão da voz do Stock era ainda mais paulistana – “orra, meo” – e eu gostava mais, mas preferiram deixar mais brando, pro filme ficar sem um sotaque específico. E a Rita Lee é perfeita, ela mesmo fala que as tiras da Rê Bordosa são a biografia não-autorizada dela (risos).

Você não acha que a relação em comum entre seus personagens, sejam os velhos Wood e Stock ou o garoto Ozzy, é o fato de eles representarem uma determinada tribo urbana quase sempre ligada ao rock’n’roll?
Com certeza. Mesmo no meu trabalho com charge, eu tenho essa pegada rock, essa pegada punk.

Você também tem consciência de que você apresentou a história do rock para pelo menos duas gerações…
Tenho. Sempre tive. Desde a época da Chiclete com Banana (revista que Angeli editava nos anos 80), eu sabia desse aspecto didático. Mas eu nunca me preocupei com isso. Eu nem acompanho quadrinho, quase nem sou desse ramo (risos). Minha literatura é toda de crítica de comportamento e uma visão política sobre o ser humano, que é muito pouco quadrinho… Talvez o Wolinski, que tem essa coisa de se colocar como personagem, para emitir opiniões.
Mas a Chiclete tinha uma linha editorial séria e eu não queria aviltá-la. Percebia cada vez mais o discurso da revista e chamava colaboradores que tivessem a ver com ele. Eu recebia cartas de pessoas que tinham montado banda porque liam a Chiclete, me mandavam discos independentes. Mesmo cartunistas, um monte de caras que eu gosto até hoje, como o Adão (Iturrusgarai) e o Allan (Sieber) foram na onda da Chiclete, o primeiro desenho do Adão saiu na seção de cartas da revista (risos)!
Mas sou contra esse papo que eu sou um mito, “Angeli, o Herói da Contracultura”. Odeio esse papo de herói…

Você não tem essa preocupação com o leitor nem quando escreve para crianças?
Não. Foi um desafio que eu me propus, porque eu sempre me achei pesado, imagina pra criança. Eu fiz o Ozzy depois de um convite da Folha, na época em que meu filho tinha a idade do Ozzy. Foi quando comecei a absorver informação através dele, sobre internet, da geração Seattle, skate, grunge, essas coisas e o Ozzy se tornou um laboratório de um humor feito para outra geração.

Um humor que acaba evolui no Luke & Tantra.
É. Ali eu tou mais à vontade. Com o Ozzy, eu não posso ir fundo, mas Ozzy, Luke e Tantra são da mesma geração. Eu só os fotografo em momentos diferentes.

Você disse que considera seu humor pesado para crianças, mas a geração Ozzy tem muita informação sobre coisas bem mais pesadas…
É, eu sei. É uma geração que não se assusta com assuntos, pode ser serial killer ou sexo anal, pra eles é tudo normal e tudo meio sem graça. É uma geração sem tabus. Mas só falar disso não dá em nada, tem que ter alguém pra explicar, alguém do lado…E eu não sei se sou esse alguém.

E em relação à música, você baixa música na internet?
Não, nunca. Eu não sei se vem música mesmo (risos). Escuto música no aparelho de som, compro CDs. Já fui mais atuante nesse departamento, mas eu tento me atualizar. E escuto de tudo. No carrossel de CDs do meu som, por exemplo, agora tem um violinista dos anos 20, o disco do Kills e um Jimi Hendrix.

Que mais você tem ouvido de banda nova?
Pouca coisa, tento me atualizar, mas como eu disse, já fui melhor. Gosto do Kills que eu falei, do Franz Ferdinand, do Arctic Monkeys… Eu gosto do Lou Reed, que tem essa coisa de fazer uma música séria e adulta, mas rock mesmo é coisa de moleque, barulhenta, senão não tem graça.

E quais são os próximos projetos?
Eu estou numa história longa meio autobiográfica que vai falar um pouco da minha geração, não só de mim. Falar de coisas que as pessoas quem têm a minha idade possam lembrar, ver o comportamento da minha geração. É meio que o início de um livro de memórias, que eu ainda não batizei. Mas tem lá as primeiras vezes todas, meu primeiro disco…

Qual foi?
O compacto de “Satisfaction” dos Rolling Stones.

E que mais você tem em andamento?
Tem coisas que não são minhas, são baseadas em obras minhas, como o filme da Cristiane Ticerri sobre a Mara Tara, que é uma personagem quase bissexta, saiu em umas três histórias, mas que tem um público feminino muito grande. E como ela é baseada nesses filmes de terror B do tipo “O Médico e o Monstro”, eu acho que ela vai funcionar bem como cinema, em vez de animação. E a Grace Gianoukas, da Terça Insana, pegou minhas coisas para adaptar para o teatro, que deve sair ainda esse ano…

Alguma chance de ver Angeli em Crise no palco?
Comigo? De jeito nenhum! Isso eu não faço! Evito fazer certas coisas, nos anos 80 eu apareci demais, até em tampa de privada! Só sou um desenhista, eu não sei fazer outra coisa, me deixem (risos)…

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Leitura Aleatória 216


Foto: chemicalhalf

1) Com meio milhão de discos vendidos, Britney está de volta ao topo das paradas americanas
2) Chicago Tribune na merda… O próximo é o New York Times?
3) Google Chrome não é mais beta
4) Simply Red confirma shows no Brasil em março de 2009
5) Como os Illuminati influenciaram Beethoven
6) Sigourney Weaver no Caça-Fantasmas 3? Hmmm, tá começando a ficar interessante…
7) Um moleque de 9 anos escreveu um livro chamado “Como Falar com Garotas” – que vai virar filme!
8) Matinas Suzuki Jr. diz que “ignorância” fez a Ilustrada dos anos 80
9) Wall-E: filme do ano?
10) Shopping 25 de Março é fechado pela Justiça a mando de empresas multinacionais

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Tim Maia Racional 3: fala Kassin

Dessa vez foi o Kassin quem deu o trocado de conversa dele sobre o assunto, na Folha:

O chamado terceiro volume de “Racional” terá que percorrer um longo caminho até chegar ao grande público. Pelo menos por vias legais, já que as faixas estão circulando na internet desde o fim de fevereiro, impulsionadas por uma discussão na blogosfera.

“Essas músicas estavam há oito anos em meu poder, mas não fui eu quem as colocou na internet. Nem sei quem foi”, diz o produtor Dudu Marote.

Em 2000, Marote produziu um disco do Afro Reggae com o engenheiro de som William Jr. Fã de Tim, Marote mostrou os dois volumes de “Racional” a William, filho de William Luna, dono do estúdio Somil, onde Tim teria feito as gravações ainda inéditas.

“O William me disse que tinha algo parecido com os discos em casa”, conta Marote.
Surpreendido com o material, ele recuperou as fitas e as digitalizou para sessões de Pro Tools. Depois de mixá-las, mostrou a gravadoras. “Umas ouviram, outras não”, diz Marote.

No fim de fevereiro, soube do vazamento. “Como passei para poucas pessoas, creio que essas passaram para poucas pessoas também, e assim por diante, até alguém postar na internet”, registrou Marote em seu blog.

Há dois anos, William Jr. entregou as faixas a Kassin -três a mais do que Marote possui.
“A gente chegou a comentar sobre o Dudu”, diz Kassin. “O William falou que tinha tentado levar esse projeto adiante e perguntou se não conseguiríamos fazer isso.”

Ciente da biografia que Nelson Motta preparava, Kassin foi conversar com o escritor. Por sugestão de Motta, o músico entrou em contato com a EMI. “Falei com o Paulo Junqueiro [diretor artístico da gravadora]“, diz Kassin. “Estava começando haver um acordo entre a EMI e a família do Tim. Estávamos esperando porque é complexa essa situação jurídica do Tim.”

Procurada pela Folha, a EMI apresenta outra versão: diz não ter relação com o projeto e, portanto, não confirma o lançamento do disco.

Carmelo Maia, filho de Tim e detentor do seu espólio, diz não haver acordo com nenhuma gravadora sobre o lançamento do disco. “Temos um carinho para fechar com a Sony, que lançou recentemente “Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova’”, acrescenta.

A Trama, que lançou o volume 1 de “Racional” em 2006, também diz não ter o intuito de lançar o segundo nem o terceiro volumes do disco.

“Fiquei bastante triste por as faixas terem caído na internet com uma qualidade muito inferior ao que estava aqui”, conta Kassin. “Estava fazendo as coisas da maneira correta, correndo atrás das pessoas que participaram daquilo. Isso foi um tiro no pé.”

O músico não acredita que o vazamento chegue a anular o projeto. “Mas, como ele perdeu o ineditismo, tira muito do seu frescor”, avalia Kassin.

“Me dá uma certa tristeza ver um negócio que estava em um caminho direito de repente sofrer esse golpe”, diz o produtor.

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Nação Zumbi

Materinha na Folha de hoy…

Crítica/Humor: Filho de Mel Brooks alerta sobre o perigo dos zumbis

De repente, quem você pensava que havia morrido aparece na sua frente, olhos vidrados, andar cambaleante. Ao perceber você, o cadáver lança os braços para a frente e passa a emitir um som gutural -que aos poucos se transforma num grito grotesco. Por mais bizarra que a cena possa parecer, suponha que ela aconteça. Nesta situação, a primeira e única pergunta depois de alguma exclamação de cunho religioso ou de um palavrão é: o que fazer?

Foi pensando nisso que o humorista Max Brooks, ex-roteirista do programa de TV norte-americano “Saturday Night Live”, escreveu “O Guia de Sobrevivência a Zumbis”, em que tenta responder à tal pergunta em mais de 300 páginas de um detalhismo nerd deliciosamente meticuloso e divertido. Escrito sempre a sério, sem nenhum traço de ironia ou distorções caricatas no texto, o guia não apenas cogita a possibilidade destes seres poderem um dia realmente andar entre nós como afirma que eles existem desde o início da raça humana, como uma espécie de doença que, depois de matar seu hospedeiro, o transforma em uma máquina de comer qualquer ser vivo -de preferência gente.

Brooks, filho do comediante Mel Brooks e da atriz Ann Bancroft, escreve que os zumbis são acobertados pelos governos e pela mídia. O livro, escrito originalmente em 2004, prefere não fingir que a ameaça não existe e explica, com minúcia e pluralidade, tudo o que se sabe sobre estes seres também conhecidos como necrófilos. Até mesmo este texto poderia ser encarado como um tentativa de acobertar a existência dos zumbis, ao tratar o tema como mera ficção e não como realidade inevitável, como martela o autor, constantemente.

O segredo do texto é nunca se transformar numa paródia e sempre se levar a sério. Ele examina o comportamento dos mortos-vivos desde seus sentidos básicos (se eles têm paladar ou olfato) até suas relações sociais (caso você não saiba, mortos-vivos não comem outros mortos-vivos) e explica como se deve utilizar cada uma das armas disponíveis contra as criaturas. De armas medievais e espadas de samurai a ferramentas e armas brancas e de fogo, além de listar dicas para transformar sua casa num forte antizumbi auto-sustentável.
Brooks também detalha formas de evitar o contágio, lista os melhores veículos para uma fuga e enumera aparecimentos e registros históricos a respeito desta epidemia que acompanha a evolução do ser humano.

Chega até a cogitar uma possibilidade final e extrema da praga se espalhar de tal forma que o planeta se torne habitado por mortos-vivos. Quando isso acontecer, a pergunta do início torna-se ainda mais pertinente e desesperada. Em torno desta premissa, Brooks escreveu um segundo livro sobre o tema, “World War Z” (guerra mundial z), lançado neste ano nos EUA e já comprado pela produtora do ator Brad Pitt, Plan B, para virar filme.

O GUIA DE SOBREVIVÊNCIA A ZUMBIS ***
Autor: Max Brooks
Tradução: Amanda Orlando e Gabriela Fróes
Editora: Rocco
Quanto: R$ 36 (336 págs.)

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Sunday Wonderland

Exibição de clássicos Disney encerra festival Anima Mundi

“Você Já Foi à Bahia?”, de 1945, é um dos destaques de hoje no Memorial

O último dia do Anima Mundi 2006 será encerrado com a exibição de dois clássicos dos estúdios Disney: “Você Já Foi à Bahia”, de 1945, e “Alice no País das Maravilhas”, de 1951. Os dois filmes são uma amostra do trabalho da animadora Mary Blair, tema das palestras de um dos convidados internacionais do festival, o vencedor do Oscar John Canemaker.

Preferida de Walt Disney, Blair diferia do estilo hiper-realista do estúdio na época, que era influenciado pelo americano Norman Rockwell e pelas ilustrações européias para contos de fada. Ela usava uma paleta de cores quase surreal, de cores vivas e intensas, que são melhor demonstradas em “Você Já Foi à Bahia”, que apresentou o papagaio brasileiro Zé Carioca ao grande público, na adaptação do clássico de Lewis Carroll, além de “Cinderela”, de 1950, e “Peter Pan”, de 1953, e curtas .

Além dos dois filmes da Disney, o festival ainda tem outros dois longas como atrações de seu último dia: o brasileiro “Brichos”, de Paulo Munhoz e Tadao Miaqui, e o hilário musical politicamente incorreto “Terkel in Trouble”, dirigido pelos dinamarqueses Stefan Fjeldmark, Kresten Vestbjerg Andersen e Thorbjørn Christoffersen.

Hoje também acontecem as últimas sessões das mostras de alguns dos convidados desta edição do Anima Mundi, como a produtora brasileira TV Pingüim, os animadores britânicos MacKinnon and Saunders, do israelense Gil Alkabetz e do norte-americano John Canemaker, vencedor do Oscar de animação deste ano.

Anima Mundi, último dia

Alice no País das Maravilhas – Às 13h, na Sala II
Você Já Foi a Bahia – Às 15h, na Sala II
Mostra TV Pingüim – Às 15h, na Sala III
Brichos – Às 16h, na Sala I
Terkel in Trouble – Às 18h, na Sala I
Mostra MacKinnon and Saunders – Às 19h, na Sala II
Mostra Gil Alkabetz – Às 21h, na Sala II
Mostra John Canemaker – Às 22h, na Sala III

Anima Mundi 2006 – Último dia do festival, que acontece no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade 664. Barra Funda. (11) 3823-4600). Ingressos a R$ 6,00 (Salas I e II) e R$ 3,00 (Sala III).

Alice às 13h de um domingo frio como esse me parece um ótimo programa, que acham? Mas se você acordou tarde (normal, ó o frio), vê se pega o Terkel, que é engraçadaço. Essa matéria saiu na Folha de hoje.

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O bom e velho rock’n'roll

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Angeli sem crise

“Wood & Stock”, filme com seus personagens, é atração no festival Anima Mundi

Angeli talvez seja um dos pais do rock brasileiro. Tudo bem que Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas vieram antes, mas para uma geração crescida sob a sombra da ditadura militar – quando ou você cantava as canções de exaltação à pátria ou cantava as canções da resistência, e se ouvisse música estrangeira era tachado de alienado político – foi o cartunista paulistano, que completa 50 anos no próximo dia 31 de agosto, quem melhor traduziu o que era o rock para um país submerso na MPB.

Com os personagens criados nas páginas da extinta revista “Chiclete com Banana”, que editava por conta própria nos anos 80, ele foi criando personagens para traduzir a fauna revelada com a queda da ditadura. Enquanto a Blitz e o rock carioca revelava o prazer de ser jovem depois da abertura política, Angeli descortinava uma São Paulo pós-industrial cheia de defeitos de fabricação em forma de gente. O punk Bob Cuspe, a gótica boêmia Rê Bordosa, o paranormal Rampal e o gay Nanico. Cada figura urbana criada pelo desenhista também encerrava uma tribo quase sempre ligada a um gênero musical, a uma série de hábitos desenhados pela própria história do rock. Sequer precisava citar preferências musicais para saber que o Meiaoito é viúva da MPB e que os Skrotinhos ouvem new wave.

Duas de suas criações saem das páginas do jornal para ganhar outros rumos. A dupla de velhos hippies Wood e Stock estrelam o primeiro longa baseado na obra de Angeli, que será exibido amanhã no Anima Mundi. “Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n'Roll”, do gaúcho Otto Guerra, reúne não apenas o núcleo bicho-grilo do título (a esposa Lady Jane, o filho Overall), mas quase todos os personagens criados pelo paulistano.

O outro lançamento são os livros que compilam as histórias do pré-adolescente Ozzy, filho da geração Nirvana que era publicado pela Folhinha durante os anos 90. São quatro volumes ao todo, dois deles saem agora e os outros dois em novembro.

Qual foi o seu envolvimento com o filme “Wood & Stock”?
Bom, eu cedi todo o meu material desde, hm, 84 para o Otto fazer o que quisesse, como referência gráfica e de roteiro. E fiquei meio como consultor. Detalhes, coisas do personagem que eu conheço porque eu os criei: tem uma cena em que o Wood, o Stock e a Rê Bordosa tomam um treco, piram e saem às gargalhadas. Epa: a Rê Bordosa não dá gargalhada. Detalhes assim, mas não interferi tanto. Eles me mandavam trechos e eu via.
Mas eu sou jornalista, eu trabalho num dia e no dia seguinte tá no jornal – e agora, com internet, tá na rua em cinco minutos. Então esse ritmo de cinema pra mim é muito moroso, muito lento, aí chegava algo pra mim, um trecho, e eu lembrava que o filme estava sendo feito (risos).
Depositei toda minha confiança no Otto porque ele é um cara como eu, da minha geração, a gente ouviu as mesmas coisas, tomamos as mesmas coisas, eu conhecia o trabalho dele e foi uma boa. Se eu fizesse o filme, ele seria completamente diferente, porque eu sou virginiano meticuloso e fico completamente obcecado com detalhes. Mesmo no filme pronto, reparo que o dedo mindinho do personagem tá uma nesga fora do lugar que deveria ser o certo. Mas eu já vi o filme umas cinco vezes e sei que é coisa minha, ninguém percebe.

O filme tem o andamento que você imaginava para os personagens?
Sim, acho que ele conseguiu pegar o ritmo dos hippies velhos, lentos, cansados…

É uma boa adaptação de uma história em quadrinhos para a animação?
Eu acho, me senti confortável com ele.

Você já havia cedido personagens para animação em um comercial de cerveja…
Sim, os Skrotinhos. E também usei o Moska, que é um coadjuvante do Luke & Tantra, para umas vinhetas curtas para o Cartoon Network. O trabalho do animador, Daniel Messias, foi muito bom. Já o comercial de cerveja eu tive que bater o pé em uma série de aspectos – era uma empresa (risos) – para fazer do jeito que eu quis. Neste, eu fiz os desenhos e os animadores do comercial, muito bons também, deram movimento. Gostei das duas, têm uma animação fluente, e os Skrotinhos tinham as vozes perfeitas, feitas pelo José Rubens Chachá, que eu recomendei…

E as vozes do longa?
Gostei . A primeira versão da voz do Stock era ainda mais paulistana – “orra, meo” – e eu gostava mais, mas preferiram deixar mais brando, pro filme ficar sem um sotaque específico. E a Rita Lee é perfeita, ela mesmo fala que as tiras da Rê Bordosa são a biografia não-autorizada dela (risos).

Você não acha que a relação em comum entre seus personagens, sejam os velhos Wood e Stock ou o garoto Ozzy, é o fato de eles representarem uma determinada tribo urbana quase sempre ligada ao rock’n’roll?
Com certeza. Mesmo no meu trabalho com charge, eu tenho essa pegada rock, essa pegada punk.

Você também tem consciência de que você apresentou a história do rock para pelo menos duas gerações…
Tenho. Sempre tive. Desde a época da Chiclete com Banana (revista que Angeli editava nos anos 80), eu sabia desse aspecto didático. Mas eu nunca me preocupei com isso. Eu nem acompanho quadrinho, quase nem sou desse ramo (risos). Minha literatura é toda de crítica de comportamento e uma visão política sobre o ser humano, que é muito pouco quadrinho… Talvez o Wolinski, que tem essa coisa de se colocar como personagem, para emitir opiniões.
Mas a Chiclete tinha uma linha editorial séria e eu não queria aviltá-la. Percebia cada vez mais o discurso da revista e chamava colaboradores que tivessem a ver com ele. Eu recebia cartas de pessoas que tinham montado banda porque liam a Chiclete, me mandavam discos independentes. Mesmo cartunistas, um monte de caras que eu gosto até hoje, como o Adão (Iturrusgarai) e o Allan (Sieber) foram na onda da Chiclete, o primeiro desenho do Adão saiu na seção de cartas da revista (risos)!
Mas sou contra esse papo que eu sou um mito, “Angeli, o Herói da Contracultura”. Odeio esse papo de herói…

Você não tem essa preocupação com o leitor nem quando escreve para crianças?
Não. Foi um desafio que eu me propus, porque eu sempre me achei pesado, imagina pra criança. Eu fiz o Ozzy depois de um convite da Folha, na época em que meu filho tinha a idade do Ozzy. Foi quando comecei a absorver informação através dele, sobre internet, da geração Seattle, skate, grunge, essas coisas e o Ozzy se tornou um laboratório de um humor feito para outra geração.

Um humor que acaba evolui no Luke & Tantra.
É. Ali eu tou mais à vontade. Com o Ozzy, eu não posso ir fundo, mas Ozzy, Luke e Tantra são da mesma geração. Eu só os fotografo em momentos diferentes.

Você disse que considera seu humor pesado para crianças, mas a geração Ozzy tem muita informação sobre coisas bem mais pesadas…
É, eu sei. É uma geração que não se assusta com assuntos, pode ser serial killer ou sexo anal, pra eles é tudo normal e tudo meio sem graça. É uma geração sem tabus. Mas só falar disso não dá em nada, tem que ter alguém pra explicar, alguém do lado…E eu não sei se sou esse alguém.

E em relação à música, você baixa música na internet?
Não, nunca. Eu não sei se vem música mesmo (risos). Escuto música no aparelho de som, compro CDs. Já fui mais atuante nesse departamento, mas eu tento me atualizar. E escuto de tudo. No carrossel de CDs do meu som, por exemplo, agora tem um violinista dos anos 20, o disco do Kills e um Jimi Hendrix.

Que mais você tem ouvido de banda nova?
Pouca coisa, tento me atualizar, mas como eu disse, já fui melhor. Gosto do Kills que eu falei, do Franz Ferdinand, do Arctic Monkeys… Eu gosto do Lou Reed, que tem essa coisa de fazer uma música séria e adulta, mas rock mesmo é coisa de moleque, barulhenta, senão não tem graça.

E quais são os próximos projetos?
Eu estou numa história longa meio autobiográfica que vai falar um pouco da minha geração, não só de mim. Falar de coisas que as pessoas quem têm a minha idade possam lembrar, ver o comportamento da minha geração. É meio que o início de um livro de memórias, que eu ainda não batizei. Mas tem lá as primeiras vezes todas, meu primeiro disco…

Qual foi?
O compacto de “Satisfaction” dos Rolling Stones.

E que mais você tem em andamento?
Tem coisas que não são minhas, são baseadas em obras minhas, como o filme da Cristiane Ticerri sobre a Mara Tara, que é uma personagem quase bissexta, saiu em umas três histórias, mas que tem um público feminino muito grande. E como ela é baseada nesses filmes de terror B do tipo “O Médico e o Monstro”, eu acho que ela vai funcionar bem como cinema, em vez de animação. E a Grace Gianoukas, da Terça Insana, pegou minhas coisas para adaptar para o teatro, que deve sair ainda esse ano…

Alguma chance de ver Angeli em Crise no palco?
Comigo? De jeito nenhum! Isso eu não faço! Evito fazer certas coisas, nos anos 80 eu apareci demais, até em tampa de privada! Só sou um desenhista, eu não sei fazer outra coisa, me deixem (risos)…

Lisérgico, filme tem voz de Rita Lee

Rita Lee dubla Rê Bordosa, a voz de Tom Zé cita trechos de letras saídos de um Raul Seixas de alucinação, músicas de Júpiter Maçã e Arnaldo Baptista intercaladas por baseados feitos de orégano. Enquanto desfilam nomes como Rhalah Ricota e Mara Tara, às vezes como figurantes. O filme de Otto Guerra parece uma viagem lisérgica em marcha lenta com a cara enfiada em uma velha edição da “Chiclete com Banana”.

Mais do que um bom filme, “Wood & Stock” é uma senhora homenagem, não apenas aos personagens, mas ao traço de Angeli. Diferentes de adaptações que não fazem jus ao traço do desenhista original (em que o “Fritz the Cat” de Crumb, adaptado por Ralph Bakshi, é o melhor exemplo), o filme parece ter sido feito pessoalmente pelo desenhista – cenários, personagens, tudo. O barulho do rock traduzido como a sujeira visual que tanto caracteriza os anos 80 de Angeli.

Porque os anos 90, representados por Ozzy, são sujos mas não visualmente – e sim de informação. Às vezes os quadrinhos não têm história: são apenas listas e descrições de uma imagem relacionada ao garoto (o quarto, a mochila, um museu particular). Mas, como no filme, a sujeira quase sempre evoca o barulho – e quase dá pra ouvir a distorção da guitarra soando no fundo – tanto do filme quanto dos livros.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N'ROLL
Direção: Otto Guerra
Quando: sáb., às 21h
Onde: sala 2 do Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, SP, 0/xx/11/3823-4600)
Quanto: R$ 6

OZZY 1: CARAMBA! MAS QUE GAROTO RABUGENTO!
Autor: Angeli
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 24 (56 págs.)

Essas saíram na Ilustrada de hoje.

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Tá nervosa, ‘Santa’?

Sieber lança “Santa de Casa”, curta-celebração da carioquice

Filme está na programação de hoje do festival Anima Mundi, no Memorial

“Quando eu me mudei pro Rio em 99, fiquei dois meses sem sair do apartamento – sério! –, odiando tudo…”, ri o gaúcho Allan Sieber, cujo curta “Santa de Casa” será exibido hoje, no Anima Mundi (dentro da seção Curtas 6, que acontece às 20h na Sala I do Memorial). “Mas depois fui sacando a cidade e realmente gostando daqui. Tem outro acordo entre as pessoas, bem diferente do Sul. Hoje me sinto mil vezes mais em casa aqui do que em Porto Alegre”.

Tudo isso para concluir que o curta baseado no conto “Santinha Milagrosa”, de Aldir Blanc, é “uma homenagem mesmo à cidade e seus habitantes. Tem coisas hediondas como os governantes e essa miséria epidêmica, mas enfim…”.

Ilustrado ao lado do chargista Léo (seu parceiro de “F.”, a revista de humor que agora é distribuída pela editora Conrad), o curta se passa durante diferentes carnavais cariocas e conta a história de uma promessa feita por uma menina que sempre se cumpre durante a festa momina. Tudo desculpa para desfilar a fauna da Cidade Maravilhosa pelos blocos e bares de desenho animado.

“A idéia era homenagear a geração do Pasquim, caras como Jaguar, Fausto Wolff, Fortuna, Ivan Lessa, Aldir, Millor, caras que realmente quebraram a banca na época deles e o mais importante de tudo – continuam destruindo ainda, gênios absolutos. Esses caras na minha cabeça de gaúcho tapado sempre estiveram atrelados ao Carnaval – blocos, bebedeiras, Banda de Ipanema – , então além de colocá-los como personagem no curta resolvemos caprichar na bizarrice do bloco”, explica Sieber, que publica a tira “Preto no Branco” aos domingos na Folha. “Eu queria que o filme tivesse um clima de cruzamento entre ‘Vai trabalhar Vagabundo’ e ‘A Lira do Delírio’, uma coisa bem anos 70, inclusive nos diálogos, se você for ver não tem as óbvias piadas grosseiras que eu sempre uso, é mais uma tentativa de emular aqule clima e o humor da época”.

Outra materinha que saiu na Folha da sexta.

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Germanimation


“First Flight”, da DreamWorks

Animações alemãs têm humor e leveza

Um grupo de bichos reúne-se na mesa da cozinha para decidir qual deles deve deixar o apartamento. Um senhor tem sua rotina de varrer folhas caídas quando pessoas começam a cair do céu. Um vizinho incomodado chama a polícia e engata uma série de acontecimentos em cadeia que viram o triunvirato sexo, drogas e dance music do avesso.

“Kein Platz Fur Gerold”, “Fallen” e “Mr. Schwartz. Mr. Hazen & Mr. Horlocker” são amostras diferentes da nova animação alemã, uma mais cética do que a outra, outra mais lírica e a terceira mais escrachada, mas todas as três – além de outras em exibição na 14ª edição do Anima Mundi, que abre hoje suas portas para o público paulistano – mostram que o humor voltou ao país.

“É uma espécie de luz no fim do túnel”, explica uma das organizadoras do evento, Aída Queiroz, “antes a animação deles era mais existencialista, niilista. Os temas continuam densos, eles não perderam essa característica alemã, mas a forma de contar ficou mais leve”.

Tanto que dois destes curtas, “Mr. Schwartz…” e “Bow Tie Duty for Squareheads”, receberam respectivamente, os prêmios de Melhor Primeira Obra segundo o Juri Popular da etapa carioca, ficando em primeiro e terceiro lugar na categoria, respectivamente.

A premiação, que foi revelada ontem, ainda valeu o título de Melhor Curta Metragem para “First Flight” da DreamWorks (que passa na sessão Curtas 12 nesta quinta e sábado), e o de Melhor Animação Brasileira para “Pax” de Paulo Munhoz (que passa na sessão Curtas 4 hoje, às 18h, e sexta, às 15h)

Bow Tie Duty for Squareheads, de Stephan-Flint Müller
Curtas 1: Quinta às 17h (Sala II) e sábado às 12h (Sala I)

My Date from Hell, de Tim Weimann e Tom Bracht
Curtas 2: Hoje às 14h (Sala I) e quinta às 19h (Sala II)

Apple on a Tree, de Astrid Rieger e Zeljko Vidovic
Curtas 3: Hoje às 16h (Sala I) e quinta às 21h (Sala II)

Kein Platz Fur Gerold, de Daniel Nocke
Curtas 15: Quinta às 14h (Sala I) e sexta às 19h (Sala II)

Fallen, de Peter Kaboth
Curtas 11: Quinta às 13h (Sala II) e sábado às 18h (Sala I)

Mr. Schwartz. Mr. Hazen e Mr. Horlocker, de Stefan Mueller
Curtas 17: Quinta às 22h (Sala I) ee sexta às 21h (Sala II)

Anima Mundi 2006 – Abertura para o público hoje, a partir do meio-dia com sessões de hora em hora até as 22h, no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664. (11) 3823-4600. Barra Funda). Ingressos a R$ 6,00 (Salas I e II) e R$ 3,00 (Sala III – vídeo). O festival acontece até domingo. Maiores informações no www.animamundi.com.br

Esse saiu na Folha de hoje.

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Cultura livre encerra evento com pedido de isenção de taxas


O Ministro Gilberto Gil prova a Free Beer, feita em código aberto (foto: Henrik Moltke)

Acesso aberto e ampliação dos direitos digitais foram conclusões da segunda edição do iSummit, no Rio, que teve participação até da poderosa Microsoft

Em menos de uma hora depois de ter anunciado as duas declarações que resumiram os trabalhos de três dias de discussão e execução de projetos e iniciativas ligadas à cultura livre do segundo iSummit, encontro que aconteceu durante o fim de semana passado no Rio de Janeiro, o advogado norte-americano Lawrence Lessig, idealizador da grife legal Creative Commons, era arremessado para dentro da piscina na cobertura do hotel que sediou o evento, enquanto os participantes e palestrantes do evento bebericavam taças de uma certa “cerveja de código aberto”, chamada Free Beer.

Foram três dias de apresentações e painéis de discussão a respeito de iniciativas e interesses que dizem respeito a certas crises do conhecimento moderno e a modelos econômicos para superá-las de forma sustentável para o futuro. Representantes de instituições como Access to Knowledge, Open Society Institute, Wikipedia e Google estavam presentes e apresentaram exibições ou assistiram-nas, contribuindo para o debate sobre compartilhamento de conhecimento e propriedade intelectual, que teve momentos de frisson, como nas duas declarações que encerraram o evento.

“The Rio 2006 Declaration on Open Access” (“A Declaração Rio 2006 sobre Acesso Aberto”) inicia um movimento para isentar de taxas e cobranças quaisquer reproduções de obras que tenha caráter acadêmico e “The Rio 2006 Declaration on Digital Rights Management” (“A Declaração Rio 2006 sobre Gestão de Direitos Digitais”) propõe a substituição do atual modelo de indexação de obras digitais pelas licenças Creative Commons. Anunciadas na última sessão do domingo, as declarações tiveram efeito catártico sobre os participantes, mas não foram seus pontos mais intensos.

Estes aconteceram nos dois primeiros dias. O primeiro quando, de surpresa, a Microsoft, empresa-símbolo das causas contrárias dos intelectuais ali reunidos, foi convidada para a cerimônia de abertura para anunciar um plug-in para seu software Word, que embute uma licença Creative Commons em qualquer documento produzido no programa. A presença da empresa e sua estranha parceria com a marca – mais cessão do que invasão territorial – fez com que ativistas presentes sacassem narizes de palhaço e distribuindo para os participantes. O segundo aconteceu quando a Radiobrás, a empresa estatal de radiodifusão, a nunciou que todo seu conteúdo seria disponibilizado através das licenças CC, inclusive para uso comercial de terceiros, e foi saudada com aplausos entusiasmados.

Pelos corredores, um verdadeiro quem é quem da cultura livre, do ministro da cultura Gilberto Gil, que também participou da abertura do evento, ao escritor Cory Doctorow, de Jimmy Wales, criador da enciclopédia editável Wikipedia, ao fundador da Electronic Frontier Foundation, John Perry Barlow.

Ao mesmo tempo, aconteciam palestras sobre ciência aberta, digitalização de conteúdo em domínio público, educação, jornalismo e licenciamento de conhecimento indígena, exibições da comunidade em 3D SecondLife e workshops do grupo brasileiro Estúdio Livre, que maravilhava os estrangeiros ao compor, gravar, editar e remixar músicas usando apenas softwares livres.

O evento terminou com uma festa no Teatro Odisséia com os VJs-ativistas do Media Sana, o rapper BNegão e sua banda Seletores de Freqüência e o músico Lucas Santtana atuando de DJ. Em comum, o fato de disponibilizarem todo seu conteúdo gratuitamente online – a saber, www.mediasana.org, www.bnegao.com.br e www.diginois.com.br.

* Matéria publicada na Folha dessa terça.

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Capitão Presença se lança à criação coletiva

Enquanto as luxuosas instalações do Marriott Hotel recebem, em Copacabana, no Rio de Janeiro, a cúpula mundial do conhecimento compartilhado ao redor de sua grife mais reluzente – a marca Creative Commons –, um informal baixo clero deste mesmo setor reúne-se em Ipanema, numa pequena loja de quadrinhos, roupas e assessórios alternativos, para celebrar a entrada no mainstream de seu produto mais bem recebido pelo mercado – o super-herói Capitão Presença.

“As Aventuras do Capitão Presença” (Conrad) não apenas consagra a inspiração coletiva instigada em toda uma geração de cartunistas como oficializa a carreira de Arnaldo Branco, o criador do personagem, que criou-se na internet e aos poucos come pelas beiradas do sistema: tornou-se colaborador fixo da revista “Bizz” e tranpôs a revista independente “F.” para a mesma Conrad que agora o publica em livro.

Natural que este lançamento acontecesse sob o manto de seu personagem mais popular, o herbífumo voador que reacende a questão das drogas no imaginário coletivo brasileiro – em seu caso, especificamente, a maconha. Enquanto nomes que se tornaram referências canábicas tupiniquins, como Gil, D2 ou Gabeira, hoje pigarreiam antes de começar a falar do assunto (sem contar as pára-quedistas Soninha e Luana Piovanni, que, sem querer, levantaram e deram bandeira ao mesmo tempo), o Capitão Presença esfrega na cara a familiaridade não apenas com a maconha, mas com o submundo da droga que o Brasil alimenta e finge não alimentar.

E não apenas do ponto de vista legal, mas também social, medicinal, artístico ou rotineiro. Afinal, não custa lembrar que o único super-poder do personagem é ter maconha na hora em que as pessoas precisam de maconha. Olha como o malandro carioca foi se reinventar…

Não é mero humor feito para quem usa drogas, como o excesso de obviedade parece supor. Este, tal como seus em pares de outras eras (Freak Brothers, Cheech & Chong e Wood & Stock), é só mais um elemento de crítica a este suposto público-alvo.

Isso, claro, sem o mínimo pudor ou formalismo intelectual, no humor sempre amargo de Arnaldo, que logo criou toda uma fauna ao redor do personagem, com nomes que falam por si, como o pidão Super Aba, o cachorro Malhado e o vacilão Mané Bandeira. Não bastasse seu universo, Presença ainda foi lançado para presidente da república neste ano, numa campanha em que o personagem promete “acabar com a seca não apenas no nordeste, mas em todo o Brasil”.

Mas o que une o encontro de Copacabana com o happy hour em Ipanema é o fato do personagem ser, na prática, um exemplo de conhecimento compartilhado e produção coletiva. Criado em duas tiras por Arnaldo, Presença ganhou vôo próprio e passou a ser redesenhado por cartunistas e ilustradores de sua geração que, a despeito (ou justamente por causa) das drogas, passaram a criar o personagem de forma coletiva – e assim Arnaldo publicou o personagem (como todo o livro) na licença Creative Commons. E enquanto no iCommons discute-se generosidade intelectual em palestras e workshops, esta mesma generosidade é celebrada, à brasileira, sem tanta teoria e com mais diversão – e longe, embora menos de um bairro de distância, dos gringos.

AS AVENTURAS DO CAPITÃO PRESENÇA
Editora: Conrad
Quanto: R$ 25 (144 págs)
Lançamento: hoje, às 19h, no La Cucaracha (r. Teixeira de Melo, 31-H, Ipanema, Rio, tel. 0/xx/21/2522-0103)

Esse texto saiu na Folha dessa sexta

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