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O fim do Rio Fanzine

O Rio Fanzine desmaterializou-se de vez nessa sexta-feira, deixando a galáxia de Gutemberg para tornar-se mero espectrograma no ciberespaço, como este que vos fala. Página central no caderno de cultura de domingo do jornal O Globo, o Rio Fanzine ocupou, desde sua criação, o pódio privilegiado de reunir todas as manifestações de cultura alternativa que cresciam ao redor do jovem pop brasileiro, que ainda usava bermudas nos anos 80. Pilotada pelos bróderes Tom Leão e Carlos Albuquerque, o Calbuque, a coluna era global e local em uma mesma tacada e a dupla trazia temperos diferentes para o jornalismo cultural da época, buscando novidades nas bandas locais e em tendências globais. Eles falam do ciclo que fecharam ao sair do papel depois de 24 anos no texto de despedida:

Quando o Rio Fanzine nasceu — sob as bênçãos da rainha Ana Maria Bahiana e os posteriores cuidados de dois dos seus súditos — a informação sobre cultura na chamada grande imprensa era reta e vinha do alto para baixo. Era natural que fosse assim. Cultura alternativa, então, nem se falava dela, salvo as pioneiras colunas de Big Boy e Nélson Motta, aqui no GLOBO.

Mas os tempos, eles já estavam mudando. O primeiro Rock in Rio tinha gerado euforia e inquietação. Os ecos punk também podiam ser ouvidos, apesar da distorção. Todo mundo queria fazer alguma coisa — formar uma banda, fazer uma festa, montar um festival, criar uma rádio de rock e até mesmo inserir um fanzine dentro das páginas de cultura de um grande jornal. A terra estava se movendo: era o underground em ebulição. Restava fazer a nossa parte, a nossa obrigação: divulgar isso.

O Rio Fanzine começou a servir, então, como duto de passagem para essa pressão. E que pressão! Tínhamos que falar de novas bandas, novas festas, novos festivais, novas rádios, novos sons e novas tendências, que nenhum assessor ou divulgador faria chegar à redação.

E assim foi. Descobrimos Planet Hemp, Skank, O Rappa, Ed Motta, Los Hermanos e Canastra, entre muitos, mas muuuitos outros. Falamos de discos, livros, filmes e quadrinhos que ninguém estava prestando atenção, numa época em que o “New Musical Express” só era encontrado em algumas poucas bancas da cidade. Detectamos (e condenamos) a presença dos pitboys na noite carioca. Abraçamos a eletrônica nos seus primórdios, mergulhamos na onda grunge, dançamos com os primeiros raps e viajamos com o dub. Falamos até que o futuro da música seria através de uma novidade chamada internet. E acreditávamos, piamente, que nosso dever, se havia algum, era tornar o underground maior.

Dito e feito. Hoje aquele underground do Rio Fanzine está por cima, está em toda a parte.

Particularmente, a coluna tem um significado especial para mim. O Trabalho Sujo, como já disse, não começou online e como o Rio Fanzine, também foi uma coluna de papel num jornal – no caso, o Diário do Povo, de Campinas, onde morei entre 1993 e 2000. Mas em 1995 eu não tinha idéia do que acontecia no jornalismo do Rio de Janeiro – O Globo raramente chegava à redação e quando isso ocorria ia para a mesa do editor-chefe. Criei o Sujo sem referência externa direta, embora tenha conseguido provar sua existência para meus superiores do jornal a partir dos cadernos Zap!, do Estadão, e do Folhateen, ambos voltados para o público adolescente. Mas o meu conceito de coluna não era etário e visava cobrir diferentes focos de uma cultura que eu via aparecendo por todos os lados.

E nessa época nem existia internet direito.

Qual foi a minha surpresa depois de alguns anos publicando o Trabalho Sujo na contracapa do caderno de cultura de segunda-feira em Campinas quando eu descubro que o Rio de Janeiro tem o seu próprio Trabalho Sujo – e que ele é dez anos mais velho que o meu. A empatia foi imediata e a conexão, literal. Na medida em que a internet se popularizava, estreitavam-se os contatos entre pessoas de mesma mentalidade e aos poucos estava trocando emails não apenas com Tom e Calbuque mas também com outros desbravadores do pop nos jornais de suas cidades (Thaís e Weaver no Pub em Fortaleza, o Abonico no Fun em Curitiba, o Ferla em Porto Alegre, Ricardo Alexandre e Tomate no Zap em São Paulo, entre outros), criando uma rede que funcionava como ponto de contato entre a cultura independente e a mainstream (o tal “trabalho sujo” que batizou este site). Logo logo eu não apenas estava publicando nas páginas do RF como passava na banca do Carmo, todo domingo, para garantir meu exemplar do Globo e acompanhar o trabalho dos caras. E, sem perceber, transformei o Trabalho Sujo numa página dupla do caderno de cultura de domingo – igualzinho ao Globo. Com algumas diferenças: eu mesmo diagramava tudo e o Sujo era preto e branco. Mas tínhamos alma de zineiro mesmo trabalhando em redações e eu inclusive fui creditado algumas vezes no RF como editor de um fanzine virtual (que era apenas a versão online da coluna no jornal).

Cabe até uma discussão sobre se o fim do Rio Fanzine tem a ver com o crescimento e popularização da internet, mas ela acaba descambando naquele velho caô sobre o futuro do jornalismo, o que vai acontecer com o jornal no papel, como os jovens se informam, quem é o público de cultura, o que é cultura, como é consumida a cultura hoje – tudo isso me dá uma enorme preguiça só de pensar… Queria só prestar minhas homenagens à dupla, um agradecimento público pelos serviços que os dois se dispuseram a fazer por todo esse tempo e um salve a todos que lamentam o fim da coluna, cariocas ou não: foi bom enquanto durou e que bom que os dois tiveram a consciência de fechar o próprio ciclo.

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Jornalismo para adultos

Um conselho do Onion, disfarçado de piada.

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Jornalismo frágil à brasileira

Fecho o ciclo do processo colaborativo: postei por aqui aqueles adesivos de Tom Scott e o Idelber se dispôs a traduzir no próprio post. O Tiagón pegou a tradução do Idelber e rediagramou os adesivos, uploadando-os num arquivo de PDF, que foi transformado num JPG graças a outro Thiago. E ei-los aqui, agora à brasileira. Imprima-os e saia pregando-os por aí.

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Cuidado: jornalismo frágil

Demais esses adesivos feitos pelo inglês Tom Scott. Alguém se dispõe a traduzir para o português?

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Um Toy Story 3 como você nunca viu

Jornalismo troll. Vi no Cris Dias.

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Entrevista com Steve Albini

E por falar em rock alternativo americano, vale ler a entrevista que o Elson fez com o Steve Albini pro Scream & Yell. Separo um trecho:

O que você acha de jornalismo musical? Eu estava lendo o fórum do Electrical Audio e vi um post seu com opiniões bem fortes sobre o tema.
Bem, o problema com jornalismo musical é que ele é publicado em um jornal como se fosse jornalismo de verdade, mas no qual os padrões profissionais do jornalismo não se aplicam. Em um artigo normal, se um repórter publica algo fundamentalmente incorreto, como o nome do prefeito ou de um esportista famoso, ele é demitido. Não é aceitável no jornalismo convencional encontrar fatos simples apresentados de maneira errada. No jornalismo musical, ninguém se importa. Você pode publicar um monte de coisas erradas e só rola um: “ok, não tem problema, não importa”. Não é levado a sério. Jornalismo musical não é levado a sério como jornalismo nem pelas pessoas que o praticam, nem pelas publicações que o usam. Então, um monte de informação errada é publicada e acaba virando registro histórico. Se alguém escreve algo incorreto em um jornal ou em um website e depois dez outros jornais ou websites fazem referência a essa informação errada, isso se transforma em algo inconcreto, e dali para frente vira história. E eu acho isso terrível, porque existe jornalismo de verdade que poderia ser feito. Tem um monte de assuntos que tem a ver com música. Por exemplo, o que você descreveu, de bandas pagarem para tocar em festivais, ou festivais aceitando dinheiro do governo e sendo tão ineficientes que não podem pagar as bandas, isso são pautas para jornalismo de verdade. Alguém deveria escrever sobre isso. O público de música se interessaria por isso. Poderia ser jornalismo de verdade. Mas ninguém está escrevendo esses artigos. Ao invés disso eles estão escrevendo coisas como o que essa pessoa está vestindo, ou que tipo de maquiagem esse outro está usando, quem está namorando com quem ou quem usa drogas, essas coisas. Isso é merda, pura merda. E mesmo nessa área limitada de merda, jornalistas musicais podem publicar erros fundamentais que ninguém se importa.

Eu tenho amigos jornalistas e o que eles dizem de publicar artigos estúpidos, como o que as pessoas vestem, acabam tendo mais leitura. Eles acompanham os links nos sites e portais e esses artigos são sempre os mais lidos. As pessoas realmente querem saber o que os outros estão vestindo.
Não existe nenhuma lei que diz que jornalismo deve ser feito para as pessoas mais estúpidas do mundo. Se o seu jornalismo é feito para atrair o máximo de pessoas de algum tipo para lerem o que você escreve, então não há razão para fazer algo específico em música. Porque se você escrever sobre outra coisa, então mais pessoas vão ler. Se você escrever sobre a Copa do Mundo, mais pessoas vão ler do que sobre música, então por que você está escrevendo sobre música? Se você decidiu que quer escrever sobre música, essa é uma decisão sua não baseada no que é mais popular. Então você tem uma obrigação de levar isso a sério, porque você escolheu escrever sobre música. O argumento de que isso é mais popular, “é isso que as pessoas gostam”, não significa nada para mim. Porque o que é popular, o que as pessoas gostam, é de McDonald’s, Coca-Cola. Isso é popular. Mas não é necessariamente a melhor coisa para comer ou beber. E se você escrever sobre comida, talvez você deva escrever sobre as melhores comidas que as pessoas podem comer ou beber, ou dizer que tipo de problema elas teriam se elas só comessem McDonald’s e tomassem Coca-Cola.

Vale a leitura.

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One more daime


A molécula da dimetiltriptamina, o princípio ativo do daime

Bruno levantou uns bons pontos sobre a questão do Daime à luz do assassinato do Glauco e de seu filho e a forma como a imprensa vem conduzindo a discussão. Vale passar lá.

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Pedro Alexandre Sanches mandando a real

Bravo, Pedro!

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Diploma de jornalismo

Eis a opinião do Mario AV sobre o tema, que, a meu ver, é uma discussão superestimada e umbilical num nível que nem os blogs da fase 1 da blogosfera eram. Pra mim, jornalismo tem mais a ver com o lado não-ficção de qualquer livraria do que uma técnica que pode ser aprendida em aulas – somos todos escritores, porra. A Ana também discorre bem sobre o tema (adoro como ela cita o Clark, o Tintim e o Zé Bob no meio da história, como quem não quer nada) e o Scotto levanta outra questão, de outra ordem (Multi quem deu a dica):

“Eu era a favor da formação profissional para exercer a atividade jornalística. Hoje sou decididamente contra o diploma. E me convenci disso agora, quando o Supremo decidiu pelo liberou geral. O rancor com que velhos jornalistas não diplomados escrevem sobre o assunto – a alegria e o gozo incontrolável com que saudaram a decisão – revela com que recalque viveram todos estes anos. Abaixo o diploma! Não podemos deixar estas pessoas mergulhadas eternamente no ressentimento, na amargura interminável da frustração. É uma questão de humanidade.”

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Profissão: Gonzo

Via Dani.

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