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O fim de Lost por Bruno Natal

Lost terminou e deixou perguntas e mais perguntas sem resposta. E poderia ser diferente? O programa se baseou no mistério e no realismo fantástico, sempre oferecendo questões, nunca soluções. Não seria nem coerente mudar agora.

A compilação de questionamentos em aberto feita pelo College Humor faz piada com a ânsia por resultados de boa parte dos fãs da série. Taí um ponto positivo de ter acompanhado Lost sem tanto fervor: fica mais fácil aceitar a trama proposta pelos criadores, em vez de se frustrar por não ver suas próprias teorias confirmadas.

Não daria nem tempo de explicar tudo que se esperava (e olha que se apelassem pra esse expediente ao longo da temporada, certamente a decrescente audiência na TV dispararia outra vez) e a verdade é que não precisava mesmo. Todo maníaco por Lost, conhecendo os caminhos e descaminhos de cada personagem, pode deduzir sozinho o que aconteceu com eles após Jack fechar os olhos pela última vez.

Foi o melhor final possível. Aberto, possibilitando que a série possa ser reassistida sem perdas na segunda volta, como acontece, por exemplo, nos filmes de mistério-pipoca de M. Night Shyamalan.

Vivemos a era da internet, em que programas de TV não tem mais horários fixos, discos não tem data de lançamento, em que a informação está fragmentada em diversos lugares, sendo processada de acordo com a buscas e os interesses de cada um. As pessoas se conectam e criam suas próprias verdades e realidades. Não existe mais lugar para nada pronto e embrulhado. Lost estaria totalmente na contramão se entregasse respostas prontas. E o seriado nunca esteve a favor do fluxo de obviedades.

2001 não é tido como um dos melhores filmes da história por conta da sua objetividade, pode ter certeza. Num mundo cada vez mais sedento por respostas curtas, o final de “Lost” foi uma ode as metáforas, a imaginação, as livres interepretações.

* Bruno escreveu este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Raphael Salimena

Salve! SPOILER ALERT!

Revelado o sergredo final de Lost, que é mais digno que os MAN BOOBS do Locke, estão pipocando fãs escandalosos reclamando que foram TRAÍDOS pelos roteiristas (só posso comparar com torcedores que vão ao estádio cobrar AMOR de jogador de futebol).

Senhores, antes de tudo, isso é uma atração de ENTRETENIMENTO. Parem de passar vergonha.

E graças ao Zico o seriado não terminou com uma EQUAÇÃO na tela, que provocaria ereções nos Faradayzinhos de plantão.

Agora, pensem bem em como a coisa fechou, e vejam como foi coerente com tudo que foi mostrado ao longo desses seis anos. Lost é uma série de DUALIDADES. O preto e o branco não são apenas o BEM e o MAL, são a RAZÃO e a FÉ, a CIÊNCIA e a ESPIRITUALIDADE, o EXPLICÁVEL e o INEXPLICÁVEL. Por isso o condutor da trama é Jack, um sujeito que abandonou sua racionalidade e aprendeu a aceitar que certas coisas estão fora do seu alcance.

E o fim da história dá essa opção a quem acompanhou a série. Existem duas vertentes de compreensão, que não se contradizem ou se excluem. Está tudo em aberto, assim como a trajetória dos personagens. Muito pouco foi respondido (quase nada mastigado), e exatamente por isso o final foi tão bacana. Sempre que tentavam dar respostas a série perdia o brilho.

Estão dizendo por aí que Lost foi uma série sobre pessoas. Acrescento algo aí, foi sobre pessoas e como elas se comportam diante do desconhecido.

Diz aí, você é um Jack ou um Locke?

* Raphael escreveu este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Leco Leite

Estou de volta e quero, preciso, escrever um pouco mais sobre Lost e seu épico Finale. Sim, épico. Lost encerrou a jornada de seus personagens nos mostrando exatamente tudo aquilo que era relevante e fazia parte da história da Ilha. E digo a jornada de seus personagens porque seria impossível contar a estória se não tivesse ninguém na Ilha, certo!?

Nos últimos três dias li vários artigos, de vários sites, sobre o Final. Todos excelentes e com análises bem parecidas com a minha sobre o que vimos no dia 23 de Maio de 2010 e também sobre o que vivemos desde 22 de Setembro de 2004. Percebi que não estava sozinho na forma como percebi o Final. Assim como os nossos losties, alguns fãs se uniram para finalmente “seguir em frente”, enquanto outros ainda precisam de um tempo para “encontrar suas próprias respostas” antes de continuar.

Mas preste atenção, a questão aqui não é ter “entendido” o Final, apenas uma observação minha sobre essa relação que percebi entre os eventos do Sideway com a divisão entre os fãs.

Essa divisão surgiu do tal “final aberto”, da resposta para o Sideway e das pontas soltas que ficaram para trás. Primeiro que, honestamente, não achei assim tão aberto o Final, já que a grande maioria dos fãs (gostando ou não do Finale) entenderam da mesma forma. Segundo, é preciso encarar a resposta para o Sideway como uma resposta da temporada e não o encerramento da série. O Finale aconteceu na Ilha! E terceiro, é preciso pensar em quais questões deixadas para trás são relevantes e poderiam alterar o rumo da série até a sua conclusão.

A parte mais importante da vida de cada personagem foi a estória que nos foi mostrada. Nela vimos os losties envolvidos em algo muito além deles e que não tinham qualquer responsabilidade, mas era preciso sobreviver. Era necessário saber como eles conseguiriam passar por esse momento e seguir com suas vidas. Pelo caminho, vários morreram. Quem ficou, continuou buscando a fuga. Mas fugir não significava exatamente sair da Ilha. Precisavam encerrar o ciclo no qual foram envolvidos e para isso cada um teria sua função e, em conjunto, estariam livres.

Hurley, que sempre foi de certa forma uma “representação” dos fãs entre os losties, agora assumia a posição de “Novo Jacob”, herdando de Jack que se sacrificou para ficar e deixar todos livre. Se Hurley representava os fãs, podemos considerar que todos nós, fãs de Lost, assumimos a posição de defender a Ilha pelo tempo que for possível.

Se o Sideway não teve a resposta que muitos esperavam, e aqui me coloco na lista, fez sentido com o que vimos na temporada e com aquilo que os losties buscavam: a Paz!

Paz que todos nós buscamos e também enfrentamos um caminho cheio de desafios, escolhas, vitórias e derrotas, para alcançar o objetivo. Para mim, a Paz não é como Lost nos mostrou, mas essa é minha visão.

Para mim, Lost é eterno e nos mostrou que, durante a vida, coincidências acontecem e que sempre acreditaremos ter certeza sobre uma resposta, mas as perguntas sempre existirão para nos ajudar a “seguir em frente”…

* Leco escreveu este texto em seu blog.

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O fim de Lost por André Toso

Transmitido no último domingo, o capítulo final de Lost foi um dos maiores acontecimentos da história da televisão. Primeiro, pelos motivos óbvios: foi o primeiro programa de televisão que não foi só um programa de televisão. Ao utilizar ferramentas da Internet e ser maciçamente assistido pela web, a série marca o início da transição natural de uma mídia ultrapassada para outra mais moderna. O segundo motivo é pelo frisson causado, que criou uma ansiedade que eu confesso nunca havia sentido antes. O terceiro motivo, ligado intimamente ao anterior, diz respeito ao roteiro monstruoso criado pelos roteiristas. Para quem gosta de uma boa ficção, Lost entra para a história ao lado das melhores produções de todos os tempos. Um enredo único e impossível de ser repetido. Os recursos narrativos, recortando presente, passado, futuro e até um tempo inexistente e atemporal, dificilmente poderão ser utilizados tão cedo por outra série, filme ou livro. Por isso, Lost é um marco da narrativa audiovisual. Quem assistiu a série inteira foi testemunha de uma revolução de contar histórias que só deve ser sentida daqui alguns anos.

Mesmo com todas essas qualidades, o final de Lost foi brutalmente criticado por boa parte do público. A principal reclamação: as questões não foram respondidas. E é verdade: muitas das perguntas e dos mistérios arquitetados pelos roteiristas ficaram no ar. O que as pessoas não entenderam, porém, foi que era exatamente esse o objetivo da série: fazer as pessoas pensarem, deduzirem coisas, imaginarem, viajarem na maionese mesmo. Enfim, deixar o telespectador perdido. O final de Lost teve por objetivo incitar as pessoas a pensarem além da realidade plana, chata, linear e reta. Isso, mais do que tudo, é entretenimento de qualidade. O telespectador assistia um episódio, ficava com 100 perguntas na cabeça. No próximo episódio, 80 dessas questões eram brilhantemente respondidas, mas outras 150 questões eram levantadas. E isso seguiu até a última cena da série. Lost não foi uma história de respostas. Foi uma série de perguntas que levam a boas respostas que levam a outras ótimas perguntas. Exatamente como as nossas vidas.

O sucesso da série se explica exatamente pela ânsia do ser humano por respostas. Lost utilizou todos os recursos que nos deixam perdidos em relação à própria existência: a força da natureza, os mistérios das religiões, das tradições, da física, da filosofia, da psicologia e, acima de tudo, as incríveis contradições do comportamento humano. A série, no fundo, é centrada nos personagens e em seus conflitos. A ilha só serve como metáfora da absurda condição humana e dos mistérios existenciais a que estamos submetidos. Uma metáfora, aliás, muito bem executada.

O mais interessante em Lost, sem dúvida, foi a descoberta gradual das características de cada personagem. Um avião cai em uma ilha, algumas pessoas sobrevivem e não sabemos nada sobre elas. Enquanto isso, os roteiristas voltam no tempo e contam como era a vida de cada uma daquelas pessoas antes do acidente. Aos poucos, as máscaras vão caindo e conhecemos o temperamento de cada um. Depois, os roteiristas nos mostram o futuro após alguns terem saído da ilha. Em seguida, voltam para um passado remoto para logo criarem uma realidade paralela àquela da ilha (em uma explicação rasa da total falta de temporalidade para quem não assistiu). Ou seja, uma narrativa totalmente retardada e de difícil execução e assimilação. Mas, mesmo assim, os roteiristas amarraram tudo de forma magistral. As pontas soltas foram inevitáveis para sustentar toda essa loucura hipnotizante.

O fim escolhido pelos produtores da série foi totalmente compatível com as seis temporadas e passou a perna em todo mundo. Se fizessem um bolão ninguém acertaria exatamente o que aconteceu no fim. Quem assistiu a todos os episódios da série provavelmente percebeu, após muito pensar, que não havia melhor forma de encerrar a história. Com esse final – que não conto para não estragar a graça daqueles que não assistiram ainda – um dos pontos mais interessantes da série foi denotado: Lost sempre oscilou na medida certa entre um drama humano e uma ficção cientifica com pitadas de misticismo. No início, pensamos que o que ocorre na ilha é real e não têm ligações espirituais ou de naturezas estranhas. Com o passar do tempo, alguns absurdos aparecem e começamos a pensar em coisas anormais naquela ilha. Os roteiristas a todo o momento jogam com a razão e a emoção do telespectador. Explica-se algo de forma racional, mas essa mesma explicação levanta uma possibilidade fantasiosa. O contrário também ocorre: algo fantástico parece que vai acontecer e aí trombamos com a frieza das coisas exatas. Realidade e fantasia se confundem. Exatamente como em nossas vidas.

E o mais legal é que vamos descobrindo tudo isso junto com os personagens, que também estão perdidos. Ou seja, eles estão perdidos, nós estamos perdidos, às vezes até os produtores parecem meio perdidos. Aquela realidade absurda deixa a todos desorientados e sedentos por explicações racionais que não existem. Os simbolismos, as citações e todo o universo da série colaboram para construir essa narrativa que nos tira do eixo. A série prova que apenas as explicações racionais não são suficientes para a sede humana por respostas. Precisamos criar e fantasiar para viver de forma suportável. Realidade e fantasia têm a mesma importância e o mesmo efeito sobre o homem ao longo dos anos. Na verdade, como hoje sabemos, a fantasia é ainda mais constituinte de nossa realidade do que a razão. Na maior parte das vezes, a razão é apenas uma máscara superficial que esconde uma loucura preocupante. A vida de um homem, por mais que ele disfarce, é toda orientada por suas emoções.

E, no final, para que respostas exatas? Existem essas respostas? Leia um livro de Stephen Hawking e você descobrirá que as respostas são absurdas e sempre nos levam a outras perguntas ainda mais absurdas. Como explicar, por exemplo, o motivo de uma onda do mar estourar nas areias da praia? Sei lá, o cara faz uma teoria sobre as fases da lua, sobre a gravidade e me responde com exatidão. Tudo bem. Mas porque ocorrem as fases da lua? E como funciona a gravidade? Depois de respondidos, esses questionamentos se desdobram infinitamente. Isso é Lost. Isso somos nós aos quatro anos de idade fazendo perguntas sobre tudo. E, convenhamos, não deveríamos mais ser crianças e admitir logo que nunca teremos todas as respostas. Um mistério respondido sem deixar questionamentos não é um mistério, é uma ficção das mais inverossímeis.

Resta refletir sobre os motivos de exercemos a fantasia de procurar respostas mastigadas e lineares, frias como uma realidade utópica que não existe. Será que é exatamente por ainda sermos aquela mesma criança de quatro anos de idade? Correr atrás de repostas é realmente o que nos leva para frente, nos faz querer criar e viver apaixonadamente. Mas precisamos entender que não podemos esperar nada dessas respostas. Quanto mais sabemos, mais ignorantes ficamos. Quanto mais respostas, mais perguntas. Essa é a graça da vida, essa foi toda a graça de Lost: correr atrás de perguntas sem respostas. É como a história do rapaz que encontra um papel em que está escrito: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. Vira o papel e lê: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. O que devemos levar em consideração? O real ou o fantasioso? Puxa, olha aí mais uma pergunta. Alguém tem uma boa resposta?

* André Toso publicou este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Tiago Superoito

Sempre vou lembrar de três professoras de português.

Uma delas dizia: “Tiago, não comece uma história sem saber como terminar”. Eu, sete anos de idade, já era craque em parágrafos desregrados. Fluxos e mais fluxos de consciência. E ela me alertando, em agonia: menino, se ampare em vírgulas!, pontos finais são salva-vidas muito úteis! Muito teimoso (antes e hoje, sempre), nunca aprendi nenhuma dessas lições. Escrevo sem cuidado ou itinerário.

Lost highway.

A outra professora, que era a própria Afrodite, tentou me ensinar tantas fórmulas, truques, tantas manhas de redação! Tantas dicas que me salvariam de tantas gafes! Não ficou quase nada. Só uns flashes: o rosto rosado, a franja sobre os aros redondos dos óculos, a voz agudíssima (um terror) e o conselho: ”na literatura, Tiago, tudo é possível”. E meu coração inflava: ah. Ela estava certa ou estava errada? Nunca nem refleti sobre o assunto. O que fiz foi acreditar, e acredito: no papel, tudo é possível.

A terceira e mais intrigante, cansada dos meus delírios imaturos, me orientou: “Termine o texto da forma como quiser, Tiago, mas com beleza“. Eu não entendi. A ideia sempre me pareceu um mistério e, no mais, eu terminaria os meus textos como eu bem entendesse. Tudo é possível, tudo é possível. Eu era (sou) um cabeça de pedra. Mas depois, anos e mais anos depois, entendi o que ela queria dizer: eu deveria terminar meus textos com graça e elegância, como quem se despede de alguém que se ama.

Também não me vejo cumprindo essas formalidades. Mas, desde que me entendo por leitor, sempre me assombro com os desfechos extraordinários. Os desfechos iluminados. Belos ou feios ou chocantes ou abruptos e antipáticos. Tanto faz. Dizem que os primeiros parágrafos são atestados de inteligência e bom senso. Sempre preferi as conclusões.

Quando passo das cem páginas de um livro, me apresso para saber como ele vai terminar. Não me interessa exatamente o destino dos personagens. Quero saber como o livro termina. Como. Com que frase, adjetivo, interjeição, pensamento ou provocação. Um ponto final nunca é igual a um outro.

Voltei a pensar nessa minha mania quando ouvi os comentários sobre último capítulo de Lost. Os comentários dos outros e os meus comentários. Todos apaixonados, agressivos, furiosos, já que séries duradouras de tevê são como bandas de rock ou times de futebol. Nos afeiçoamos a elas. Dê três temporadas, apenas três temporadas, e elas grudarão na nossa parede feito fotografia de infância.

Um parêntese que explica a minha relação com séries: comecei a ver Lost ainda na primeira temporada, a contragosto. Minha namorada gostou e eu fui atrás. No início, me pareceu um show oportunista, mix de Survivor com Arquivo X. Nada especial. Na segunda temporada, eu já associava as aventuras de Jack, Sawyer e Locke ao jeito como a minha namorada deitava a cabeça no meu colo enquanto assistíamos aos episódios. Ao perfume, ao sofá da casa, ao barulho do ar condicionado. Na sexta edição, cada um dos capítulos me trouxe saudades dela, que hoje mora em outra cidade. Em mim, o seriado se transformou em uma espécie de souvenir, polaroide de uma época que passou.

Meio forte. E você entende?

Escrevi esse parêntese só para ilustrar como às vezes nos conectamos a esses programas muito tolos de tevê. Lost não é irrelevante, eu sei: poucas séries souberam brincar tão graciosamente com o tempo. Pretérito, presente do indicativo, futuro imperfeito. Muito se falou sobre os mistérios da ilha onde o avião da Oceanic se espatifou, mas o que me deslumbrou foi o jogo narrativo. Os flashbacks, flashforwards e flashsideways, soltos no ar.

Os fãs têm uma relação extremamente passional com a série, a série é só deles, e entendo a origem desse fogo. Tem muito a ver com a cumplicidade que sentimos em relação aos nossos ídolos pop. Confiamos neles. Torcemos para que, em retribuição, eles nos sejam fiéis. Perdoamos tropeços. E, nas situações mais trágicas, reconhecemos que eles nos deixaram de coração partido.

Sem querer ser piegas, mas a season finale de Lost partiu o coração deste fã aqui.

E acho que por um motivo que me leva aos desfechos brilhantes de livros que amo: não há encanto, elegância, graça ou inteligência nessa conclusão. Pior: é uma conclusão translúcida, banal como um show barato de mágica. Deixo de me deslumbrar quando descubro por que o coelho sai da cartola.

Eu acreditava – mesmo com todos os indícios de erro – que os roteiristas-ilusionistas seriam capazes de me assombrar. Mas aí a culpa é de quem? Minha, que esperava muito? Ou da série, que me ofereceu tão pouco?

Ou ninguém é culpado e o divórcio é amigável?

Não me pergunte. O curioso é que reagi às patetadas do episódio como um fã de rock que, num belo dia, recebe a notícia de que o ídolo decidiu se despedir do showbusiness com um disco ultraóbvio de canções natalinas.

The end me parece, sob todos os aspectos, um disco ultraóbvio de canções natalinas. Um episódio que nos chantageia, nos maltrata, nos subestima. Uma tortura em dó maior. Compartilho, até instintivamente, da irritação de alguns fãs: seis anos e isso? É muito tempo. Conheço gente que mudou três vezes de emprego nesse período de tempo. E os enigmas que não se resolveram? E os números? E o projeto Dharma? E os monumentos de pedra? E o Walt, coitado? E o nosso futuro?

Séries de mistério são quase sempre uma armadilha. Veja o caso de Arquivo X. O vilão é o tempo, sempre ele. O suspense é prolongado excessivamente, a multiplicação de subtramas deixa inúmeras pontas soltas nos roteiros, a mitologia vira um fardo e toda tentativa de encontrar soluções para os enigmas da trama soam simplórias, apressadas. Estava escrito: Lost só agradaria à maior parte dos fãs se terminasse com um desfecho imprevisto e emocionante que nos fizesse repensar a nossa existência no planeta e os rumos da ficção.

Mas o que nos resta é um roteiro de Damon Lindelof e Carlton Cuse.

Entendo que, para a dupla, deve ter sido uma jornada ainda mais complicada que a nossa. Imagine isso, conviver com todos esses personagens, definir os destinos de cada um deles. E pensar em malabarismos formais para espantar o nosso tédio e alimentar a nossa fome de fantasia. Deve ter sido dose. E mais: escrever um episódio-evento, um arranha-céu para a noite de domingo, atração imperdível para todas as idades e crenças. Quase uma mini-final de superbowl. Imagino que até eu, na pele deles, sentiria a obrigação de simplificar um pouquinho as coisas.

O episódio final de Lost, talvez aprisionado nesse jogo de pressões, soa tão singelo e descomplicado quanto o episódio-piloto. Perto dele, a quinta temporada fica parecendo um supletivo de física quântica. Há duas linhas narrativas: uma delas, sobre a luta do bem (Jack) contra o mal (Locke) na ilha da fantasia; a outra, sobre antigos amigos que se reencontram numa realidade movediça, onde os desejos aparentemente se realizam. Para o “leigo”, soa como uma ficção científica sentimental com a assinatura do protagonista de Dawson’s creek.

Já para os “fiéis”, trata-se de uma big despedida. A realidade “alternativa” mostra-se uma desculpa para uma reunião de elenco. A cada trombada dos personagens, flashbacks velozes pipocam na tela e nos fazem lembrar de todo o tempo que gastamos com a série. Caiu uma lágrima, arrancada pela útima tecnologia em chantagem sentimental.

Na ilha, a arquitetura do roteiro revela-se ainda mais grosseira. Um hipopótamo. Personagens correm para salvar o mundo, matam uns aos outros, provocam terromotos e tempestades, mergulham numa caverna dourada, manipulam uma rolha gigante (!) e resumem todos os dramas da série a uma perseguição de Tom vs. Jerry. O mocinho mata o vilão, beija a mocinha e se sacrifica por uma causa que ninguém sabe dizer se é nobre ou não. Whatever. Está claro que os roteiristas querem encerrar logo a epopéia e ir ao que interessa: a realidade paralela, onde tudo termina bem.

O que me incomoda (e aí aparecem os fios da narrativa e a picaretagem do empreendimento) é que esse tempo paralelo que tanto interessa aos roteiristas é uma criação da sexta temporada. Um truque de última hora inventado para nos surpreeender. Me pergunto se Damon e Carlton não poderiam ter encontrado uma surpresa aterradora sem abandonar o Grande Esquema das Coisas – isto é: dentro da ilha.

Mas, novamente, saquei a estratégia. Os roteiristas tentaram usar uma das teorias mais difundidas entre os fãs (a de que todos os personagens estavam mortos) de uma forma que os enganassem (já que não é a ilha o purgatório, mas a “realidade alternativa”). Uma tentativa interessante. Mais curioso ainda é como, neste finale, os roteiristas invertem nossas expectativas: a ilha é o mundo real, enquanto que Los Angeles vira a cidade dos sonhos.

Fico muito satisfeito quando penso que os roteiristas realmente refletiram sobre tudo isso. Mas duvido muito que isso tenha acontecido, já que o episódio todo é desenvolvido com as fórmulas mais apelativas de dramalhões religiosos. Quando descobrimos que os personagens estão à caminho do céu – eles se reencontraram e, por isso, têm direito à liberação -, é inevitável pensar que a grande lição da série é algo como “a vida é uma aventura, mas o melhor está por vir.”

O que, para mim, é uma filosofia abominável. Eu é que não vou ficar esperando pelo dia em que a porta da minha igrejinha particular vai abrir. Não. Mas, ainda que eu tenha me decepcionado com a série também por conta disso (sério, Damon e Carlton, leiam qualquer textinho do Carl Sagan e entendam que a vida às vezes não faz sentido e é bonita mesmo assim!), não é, repito, o que mais me frustrou no desfecho. É que parece ter faltado aquele elemento misterioso que separa os livros inesquecíveis das bobagens de autoajuda, aquele toque sobrenatural que nos enche de entusiasmo, nem que por alguns minutos. Que renova a nossa fé na literatura.

Quando leio um bom livro ou vejo um bom filme, quero viver mais.

Com este episódio de Lost, meu único desejo: esmagar o televisor. Fulo e bronco feito um hooligan. Meus ídolos! Lembrei da minha professora: tudo é possível. E da outra: escreva desfechos com beleza. Depois, mais calmo, tentei me convencer de que o errado sou eu. Esta é a conclusão que soa bela para quem a escreveu. Eu é que não deveria ficar sonhando os sonhos dos outros.

End credits. Hora de acordar.

* Tiago publicou este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Bruno Knott

Lost sempre foi um dos meus seriados preferidos. Minhas expectativas para o episódio final eram enormes.

Boa notícia: fui correspondido de maneira exemplar. Eu esperava algo excelente, algo digno de todo o seriado e sua reputação. Foi isso o que tive e muito mais.

Não consigo entender a ânsia de boa parte do público em ter todos os mistérios resolvidos. Dêem um tempo, por favor. Que graça teria se tudo fosse explicado por A + B? É tão bom poder bolar teorias próprias e discutir com os outros a respeito delas.

O importante é que os criadores conseguiram juntar as pontas mais relevantes neste season finale. Tenho a convicção de que o plano era esse desde o começo.

SPOILERS à frente.

Então, os flashsideways nada mais eram que o próprio purgatório, o próprio limbo! Por essa eu não esperava, mas devia. Mais uma vez, Damon Lindelof e Carlton Cuse criam algo de impacto e que faz todo o sentido. Como não pensei nisso antes?

O que é Lost se não um seriado que mostra diversos personagens convivendo, brigando, amando, criando amizades profundas e evoluindo (ou não) como seres-humanos? Além disso, há uma ILHA, que na verdade é um personagem, cheia de seus mistérios e com uma mitologia particular.

Por 6 anos acompanhamos essa história brilhante, que nunca deixou de empolgar, seja pela complexidade dos personagens, pelos mistérios intrigantes e pelas mudanças estruturais pela qual a narrativa passou. Que outro seriado nos ofereceu flashbacks, flashforwards e flashsideways?

Flashsideways? Não.

Este final veio nos mostrar a inexorabilidade do tempo. Não importa como, onde ou quando. Todos estamos fadados ao mesmo destino. A morte. E infelizmente, nossos queridos Losties não fogem a esta implacável regra.

Foi extramamente emocionante acompanhar Desmond ajudando os outros a se lembrarem de suas vidas antes da morte. Cada uma destas cenas é carregada de muito sentimento, nos fazendo pensar durante alguns segundos sobre tudo o que vimos durante esses 6 anos.

O diálogo entre Jack e o pai se revela como um dos melhores momentos de todo o Lost.

Assim como a cena final.

Caramba.

Havia melhor maneira de fechar o arco?

Jack, cambaleando, deita-se na floresta para morrer. Vincent aparece e permance ao seu lado. Seus olhos se fecham.

Uma rima absurdamente inteligente e comovente. Impossível não sentir alguns calafrios com isso tudo.

Alguém esperava mais?

Nota 10.

* Bruno publicou este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Marcio Padrão

Há seis anos um canal de TV norte-americano estreou mais uma série. As primeiras cenas mostravam os primeiros instantes após a queda de um avião em uma ilha aparentemente deserta. Há poucos dias, as cenas finais deste mesmo seriado apresentaram seus personagens principais se reencontrando amigavelmente, longe da ilha. Um final feliz, não há dúvidas. Mas o quanto os fins justificaram os meios neste caso?

Entre 22 de setembro de 2004 e 23 de maio de 2010, a indústria de entretenimento foi tomada de assalto por um dos universos ficcionais mais audaciosos de todos os tempos. Dentro e fora da ilha, J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse não tiveram a menor timidez em entupir o programa com mistérios, dúvidas, detalhes e referências das mais diversas naturezas, além de misturar gêneros e montar-desmontar-remontar enredos e estruturas narrativas. Se a pretensão foi muita e o sucesso também, seria evidente que as expectativas seriam imensas e as frustrações idem.

Este texto não pretende se alongar nessa “fase 2″ da discussão, que teve início assim que a tela preta com o logo “L O S T” surgiu pela última vez na ABC. Os significados e interpretações trazidos pelos fãs após o final merecem um cuidado próprio. Por enquanto, vamos nos ater às impressões mais imediatas deixadas pelo episódio duplo em questão.

Mistérios, dúvidas e expectativas à parte, todos os espectadores entraram na viagem de 104 minutos do desfecho querendo saber como o vilão-mor, o Homem de Preto, seria derrotado. A série teve início com o abrir e encerrou com o fechar dos olhos de Jack Shephard. E no penúltimo episódio, foi ele quem – pela enésima e última vez – chamou a responsabilidade, assumindo o cargo de Jacob. Portanto, nada mais natural que o “doc” fosse o artilheiro do gol decisivo, embora como Romário, não teria conseguido sem o passe irretocável do seu Bebeto, o bom escocês Desmond.

Daí em uma sucessão de cenas pouco claras – é “Lost”, lembre-se – Jack não se importou de ver o MIB-Locke executar seu plano de usar Desmond para “tirar o ralo” da ilha, façanha que só ele supostamente seria capaz por ser imune às grandes doses de eletromagnetismo emanadas daquele lugar. Jack sabia/sentia que isso faria a ilha começar a ruir, como o MIB planejara, mas também “desligaria” a mesma energia que transformou aquele homem em uma entidade sobrenatural o tempo suficiente para ele retornar à mortalidade. Era a última e única chance.

Vamos combinar: o quebra-pau entre Jack e o MIB foi arrepiante. Direção, montagem e atuações de primeira. E a conclusão com o tiro de Kate e o chute final de Jack à beira do precipício foi impecável. Um dos grandes momentos da série. A morte do monstro não poderia ter ocorrido melhor.

Uma das justificativas que mais ali a favor do polêmico episódio final é que, “no fim de tudo, a série era sobre aqueles personagens”. Não concordo inteiramente com essa afirmação, que pode ser interpretada como desculpa para negar sua própria insatisfação sobre o que não “deu certo” no programa, mas admito que os personagens foram um dos grandes ativos de “Lost”.

Dito isso, o final acertou em fazer o que a série sempre fez muito bem: dar atenção a quase todos os personagens minimamente cativantes. O “ex-flashsideway” teve seus pontos altos no despertar de memória de todos que ainda não se lembravam da ilha, com destaque para os cinco casais: Jack e Kate; Sun e Jin; Sawyer e Juliet; Charlie e Claire; e Sayid e Shannon. O amor foi fundamental. Nesse processo, os poucos personagens que ainda se sentiam na pior, como Sayid, Locke e o casal coreano, perceberam que o insight não era apenas um retorno de memórias: era em si a chave para sua própria redenção.

Novelesco? Não tenha dúvida. Vai de cada um acatar. Como a direção e as atuações estavam muito boas, pelo menos a mim conseguiram comover.

O complicado, porém, é que esse desfecho, culminando no reencontro na igreja, era falho diante das circunstâncias de produção. Afinal, por que alguns personagens mereciam estar naquele “lugar”, naquele “momento” e tantos outras pessoas que também “caminharam juntas” ficaram de fora? O papo do “eles ainda não estavam prontos” porque tinham “coisas a resolver” é aceitável até certo ponto, pois serve para o cheio de pecados Ben ou para o traíra Michael, mas por que não para Mr. Eko, por exemplo? Apesar da marra e de ter sido um assassino antes da ilha, ele sempre ajudou a todos por lá. Sem teorias aqui, meus caros: Eko “não estava pronto” simplesmente porque o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje não aceitou voltar à série. Isso sem falar de Miles, que conviveu com Juliet e Sawyer por anos…

Apesar de triste, achei adequado Jack morrer na ilha. Ele foi o herói trágico do início ao fim. Foi o cara que se sacrificou por todos, mesmo por quem questionava e desprezava sua liderança em todos esses anos. E a companhia de Vincent naquele último instante não foi menos que poética. O doutor descansou em paz porque seu lema – viver junto para não morrer sozinho – foi recompensado.

Não gostei, porém, de Hurley, Desmond e Ben ficarem por lá. Ben até entendo, pois a ilha sempre foi o seu lar mesmo. Mas no penúltimo episódio, Hugo falou claramente que estava aliviado de não ter sido ele o guardião. Daí porque Jack decidiu ficar, ele não só ficou também, como virou o novo Jacob? Não me convenceu. O diálogo dele com Ben ainda deu a entender que eles conseguiriam/conseguiram tirar Desmond da ilha, mas como e em quanto tempo, vai saber…

Aqui é terreno delicado e caro a muita gente. Até porque a própria definição de mistério é muito sutil em uma série como “Lost”, onde o mistério não era um gênero em si, mas uma ferramenta importante e usada à exaustão na série toda.

Todos divergem entre o que foi totalmente, parcialmente ou não explicado, sobre as possíveis interpretações das “respostas” ou mesmo o quão importante tais resoluções eram para curtir o programa. Por enquanto, vou me ater ao que considerei mais crucial na condição de fã.

Acredito, portanto, que os “mistérios” mais importantes foram “resolvidos” – as aspas existem porque, como falei acima, tudo é questão de interpretação e ponto de vista. No “Lostverso”, o planeta Terra concentra uma forte energia eletromagnética com benefícios e malefícios inúmeros. A ilha é o ponto de maior concentração desta energia, que precisa ser guardada por alguém que aceite a responsabilidade e o esforço de protegê-la da cobiça da Humanidade. Um mito moderno, enfim.

Talvez o eletromagnetismo seja o maior motivo da ilha ser tão difícil de ser encontrada. Como o físico Daniel Farady comprovou, essa energia, liberada sob certas condições, permite viagens no tempo. Mas apesar de difícil, não é impossível encontrar a ilha, e diversas gerações de visitantes passaram por lá. A mãe adotiva de Jacob e MIB, depois a mãe natural deles, o Black Rock, a Dharma, o barco Elizabeth, o voo Oceanic e o voo Ajira conseguiram, pois cada um teve a “sorte” de cruzar com as condições certas. Sim, o termo “Triângulo das Bermudas” acende em neon neste momento.

A explicação maior para os números foi mesmo o grau do ângulo de cada nome de candidato no observatório de Jacob. Além disso, no ARG de “Lost” falava-se que os números eram variáveis de uma equação matématica sobre o fim do mundo. Não explica inteiramente todas as coincidências envolvendo tais números, claro. Atribuo isso a traquinagem dos produtores mesmo.

Agora quem era a mãe adotiva de Jacob, por que a fonte emanava aquela luz, como a mesma fonte transformou MIB em um monstro, como Desmond não fritou o juízo com tanto eletromagnetismo, porque Walt tinha poderes, porque Richard pôde envelhecer de novo, que diabo era aquele cavalo de Kate, bla bla bla… enfim, tudo isso vai ficar em aberto mesmo. Se isso resulta na grande farsa dos produtores incompetentes ou em uma obra propositadamente aberta para que os espectadores a preeencham com suas versões, você decide. Mas voltarei a esse ponto crucial do debate em outro texto, como falei acima.

Para resumir muito bem resumido: gostei bastante do episódio final, mas não o considerei um desfecho satisfatório para a série como um todo. Não apenas por todos os pontos negativos já citados aqui, mas também porque não comprei muito terem transformado o flashsideway em um – na falta de um nome melhor – “purgatório”. Nem se trata da sensação de ser “enganado”. Mas acredito que, mais que resolver ou não mistérios, a grande falha de “Lost” foi se afogar nas águas navegadas por suas pretensões.

É, os produtores juraram por anos que a tese do purgatório era infundada. Só aí já dá pano pra muita manga. Mas a minha decepção vai por outro viés. Será que usar um recurso relativamente batido – “Ghost”, “O Sexto Sentido” e “Os Outros” só de relance – é mesmo digno para uma trama tão ambiciosa? E será que foi certo Lindelof e Cuse chegarem no começo da sexta temporada e mudarem o discurso de “as respostas virão no final” para “nem tudo será respondido“?

Apesar de meio “lei da compensação”, há tempos aprecio a ideia que muita gente também vem seguindo: de que o grande barato de “Lost” foi a viagem, não o destino. Não era importante para mim que a série acabasse com todos juntos felizes de volta à civilização – e antecipar esse momento no flashforward foi uma jogada de gênio. Também não era um maníaco por respostas de mistérios. Daí vejo que, assim como “Arquivo X” nos anos 90, “Lost” foi uma série que definitivamente marcou seu lugar no panteão dos grandes conceitos pop por diversos méritos, por mais falhas que tenham apresentado no processo.

Já falei um pouco os motivos disso aqui, mas falando especificamente da história, acho que o programa criou personagens incríveis e de fácil identificação, apesar de complexos nos detalhes. A sensação de estar sempre “perdido” a todo início de episódio, mesmo acompanhando toda semana, era semelhante a pular de 100 metros de altura no bungee-jump: por mais que se repetisse, era sempre um prazer inédito. A estrutura narrativa mutante desafiava positivamente nosso interesse pela trama.

E os detalhes? As frases impagáveis de Hurley, os apelidos de Sawyer, a fé insistente de John Locke, o heroísmo de Jack, a coragem de Kate, o medo de cada aparição do monstro, o (des)agradável cinismo de Ben, os dramas particulares, os romances, as cenas engraçadas… será que todas essas coisas boas não compensaram desastres como “Across the Sea”, os flashbacks chatos de Kate, a dupla Paulo e Nikki, o desfecho meia boca e todas as outras coisas ruins?

Não sei você, mas para mim compensou. No fechar de olhos de Jack Shepherd, é hora de manter os meus abertos. Que venha outro “Lost” em nossas vidas.

* Marcio escreveu este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Camila Saccomori

Eu me lembro quando a série começou, em 2004, e as primeiras teorias sobre Lost começaram a pipocar nas publicações gringas. Assim que começou a fazer sucesso e merecer teorias mirabolantes, uma das primeiras hipóteses era a do “purgatório” (junto a outras que diziam que a humanidade foi extinta ou que era tudo uma alucinação ou que era um projeto científico). Venceu a primeira alternativa, o “purgatório adaptado” ou uma espécie de limbo necessário antes de se atingir a redenção. No eterno dilema entre fé x razão, a primeira levou a melhor.

A quem pensava (como eu) que a ciência explicaria tudo resta um grande “só lamento”. Mas não é difícil compreender esta explicação do final e fazê-la encaixar com todas as seis temporadas anteriores. Pensando bem, quem acreditou nessa hipótese durante toda a duração da série deve estar com um grande sorriso no rosto até agora. E, ah, como eu queria nunca ter desistido desta ideia! Ok, os produtores sempre negavam a teoria (e caso eles admitissem, vamos combinar que seria chatíssimo ter um “spoiler oficial”).

Também não é difícil aprovar esta escolha para solucionar a série. É claro que uma solução narrativa considerada “fácil” – tão fácil quanto dizer “era tudo um sonho”, justamente o final proposto por Stephen King quando questionado sobre como ele terminaria Lost se fosse o autor. No entanto, o “fácil” mesmo é criticar sem dar uma segunda chance para a compreensão total da série. Lost não seria Lost se não precisasse de textos intermináveis para ser explicada. Tampouco há certo ou errado em se tratando de Lost, pois o fã faz o seu próprio sentido (gostando ou não da série).

Nada nunca foi mastigado na série. Não seria no momento final que isso mudaria.

***

Desde o primeiro episódio da primeiríssima temporada, quando fomos apresentados à estrutura narrativa principal de LOST – os tais “flashbacks” – estávamos conhecendo o passado de cada um dos personagens. Seus erros e seus fantasmas que os perseguiam no momento da queda do avião da Oceanic, voo 815, tudo estava lá. Na ilha, de um jeito ou de outro, cada um dos personagens conseguiu “expurgar” os esqueletos no armário ou trabalhar seus problemas. Essa seria uma das interpretações.

A quem já chegou neste parágrafo pensando “que bobagem”, tomo como exemplo o próprio Sayid, uma recente “redenção” que ficou marcada na memória dos lostmaníacos. Mesmo após ter morrido, voltado à vida de forma misteriosa no templo e ficado meio zumbi, o iraquiano conseguiu salvar muitas pessoas. No passado, havia tirado muitas vidas. Seria, pela lógica do purgatório/limbo, uma maneira de “compensação”.

A cada minuto que penso na solução do purgatório as coisas começam a fazer sentido. O avião caiu, os personagens ficaram vagando pela ilha (como alguns até hoje estão lá sem conseguirem “se libertar”, conforme as explicações do que são os “sussurros”) e cumpriram sua pena para terem direito á passagem para outro lugar/outro mundo/outra dimensão. Os flashsideways representariam isso, então: um limbo antes da redenção final. Não gosto de classificar como “céu ou inferno”, ainda que estas serão expressões muito citadas nos próximos dias. Quando os losties estão reunidos naquela espécie de igreja, fica claro que a cruz que cada um carregava já não importa – e eles estão prontos para o próximo passo.

Nesta simbologia identificamos ainda a presença de certos personagens como “seres especiais” que ajudaram os losties a cumprirem essa jornada. Citaria Desmond como o principal – coube a ele resgatar um a um os “passageiros” e guiá-los para a tomada de consciência (com cenas emocionantes de cada um lembrando de sua história na ilha). Também outros como Charlotte, Faraday e Miles (que não tiveram essas “visões” no flashsideways e que foram parar na ilha para ajudar os losties) se encaixariam nessa teoria de ajudantes. Perdoem-me se parece que eu vejo Supernatural em excesso, mas neste caso caberia chamá-los de “anjos”, na minha opinião. E que dizer, então, de Hurley, que ficou de guardião da ilha e que teve papel central nos últimos episódios, demonstrando o poder de se comunicar “com o lado de lá”?

Enquanto tentávamos explicar os flashsideways pelo mundo da física, os produtores estavam escrevendo uma história inteiramente baseada na fé.

No entanto mesmo a “parte da ciência” pode ser explicada com a premissa do purgatório. Um exemplo corriqueiro entre os chamados “mistérios da ilha”: por que as mulheres que engravidavam na ilha morriam? Uma resposta é que elas já estariam mortas, portanto não poderia gerar novas vidas. Sendo assim, como que Claire e Sun tiveram seus filhos? É que elas já estavam grávidas quando caíram e morreram na ilha. Pensando sob a ótica do “eles estavam todos mortos”, faz sentido. A filha de Sun e Jin, portanto, nunca existiu.

* Camila publicou este texto em seu blog.

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O fim de Lost por Daniel Araújo

Lost foi legal pra caralho.

Deve ter um monte de série melhor por aí, mas acompanhar Lost na época em que foi transmitido pela primeira vez foi, como dissemos, legal pra caralho.

Baixar episódio e ficar esperando a filha dormir para poder assistir sem distrações, ficar discutindo teorias com amigos do trabalho, com a Pri (minha mulher e principal companheira de Lost), até com desavisados em bares e restaurantes não era legal? Orra se era! Descobrir detalhes “importantes”, logos Dharma escondidos, números disfarçados, respostas camufladas: muito bom. Essa parte “social”, do esforço coletivo para entender a série, com certeza foi exclusivo de Lost, e eu curti bastante. O ponto alto desse aspecto coletivo foi a heróica rede de amigos gravando a segunda temporada na TV paga para mim, que não tinha cabo, não queria esperar a Globo e ainda não sabia dos torrents. Aê, amigos, valeu! Mas sei que fizeram isso por interesse próprio: se eu não assistisse Lost, eles iriam ter que falar de outra coisa na hora do almoço.

Teve mais coisa legal: a incrível cena inicial nos destroços do avião, a luz da escotilha acendendo pro Locke, o mr. Eko, o “botão”, “NOT PENNY’S BOAT”, o Michael traidor, a volta do Michael na 4a. temporada, the constant, Daniel Faraday, a bomba de hidrogênio, “we have to go back!”, Locke no caixão (duas vezes!), a morte da Alex, Benjamim Linus!, Desmond, o começo da segunda temporada, o cara de tênis vermelho morrendo esmagado, Locke na cadeira de rodas e depois mexendo o pé na praia, “Dude…”, o começo da terceira temporada na vila Dharma, Oceanic 6, deserto da Tunísia, Jacob tocando os personagens, Jacob tecendo uma tapeçaria, o reencontro de Sawyer e Juliet, o monstro de fumaça no templo, o pai do Jack falando “To remember… and to let go”, porra, sei lá, um monte de cenas e seqüências fabulosas.

O último episódio também foi espetacular. Não tem essa de mistérios não-resolvidos. Essa choradeira que o finale não esclareceu nada é ridícula. O finale não era prá explicar nada, era prá servir de despedida. Prá mim, o episódio mais esclarecedor (e o melhor da série), foi o final da 5a. temporada. O que o Jacob fazia ali era a explicação para o que é Lost. Ele pegava o fio da história de cada um daqueles personagens e trançava todas essas histórias entre si numa grande tapeçaria. Aquele tapete que ele aparecia tecendo era a série, era Lost! As “regras”, as imortalidades estranhas, as listas, tudo isso era arbitrário, assim era porque Jacob assim queria, era o desenho que ele queria no tapete.

Aqui nesse ponto entra a minha teoria mirabolante pro fim da série. Jacob teceu a tapeçaria até ser morto, e passou a tarefa pro Jack, que por sua vez passou pro Hurley. E o Hurley, o cara mais gente-boa ever, fez outra tapeçaria, outro desenho no tapete com as mesmas linhas. Na tapeçaria do Hurley, o Jack tinha um filho, Sun e Jin não morriam, Sawyer era decente, Ben era inofensivo, Locke era confiante, todos eram felizes, não tinham problemas com os pais nem com os filhos e ninguém nunca ia para a Ilha. Ora vejam se não era isso mesmo: Hurley se fez o cara mais rico e poderoso e gente boa e sortudo dos flash-sideways, e não é à toa que ele foi o primeiro a ser “despertado” pelo Desmond, não é à toa que o Ben lhe diz que agora ele deve “cuidar das pessoas” e lhe dá a dica que as coisas só eram cheias de regras porque o Jacob queria, não é à toa que ele e Ben se congratulam pelo trabalho bem feito no jardim da Igreja e certamente não será à toa que o epílogo inédito a ser incluído na caixa com o Lost completo vai ser sobre Hurley e Ben na Ilha – como o Michael Emerson já falou numa entrevista. O flash-sideway não era um purgatório, era o final que o Hurley queria para a série, já que aquele fim com Jack e mais um monte de gente mortos, Ji-yeon órfã, Ilha semi-destruída e tudo mais era muito triste. Olha só, o Hurley já tinha dito que não queria a função de Jacob, ele só mudou de ideia porque viu que era a chance dele de reverter tudo!

Não sei se é isso mesmo, mas que ia ser legal pra caralho se fosse, ah ia.

* Daniel Araújo escreveu este texto pra cá.

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O fim de Lost por Diego Souza

de todas as teorias mais sinistras, mais engenhosamente brilhantes concebidas por fãs apaixonados por lost, nenhum final poderia ser melhor do que o final feito por cuse e lindelof. dificilmente alguma outra coisa poderia significar uma reviravolta tão drástica do que aquela ocorrida no “flashsideways”, e tão surpreendente também.

novamente vejo um series finale intenso que lida tão bem com o assunto mais delicado para o ser humano: a morte. digo isso porque assisti six feet under e o abalo que senti nos minutos finais de lost quase se compara ao estado de choque em que fiquei ao final da série da hbo. lembro que quando assisti “everyone’s waiting”, o final de sfu, não consegui me mexer. ou melhor, eu não queria me mexer, não queria me levantar. tive que esperar alguns minutos para recobrar a coragem e seguir com a vida (além de tudo, ainda tinha uma vida pra viver!). tive que me recompor. tive que chorar tudo antes. e então a gente percebe a importância de tanta dor: nos tornamos mais fortes. vale a pena estar vivo. aliás, é um momento extremamente tocante quando richard confessa ao ver um cabelo branco: “só agora me dei conta de que eu quero viver”.

nesse último episódio de lost nem sei quantas vezes eu chorei. chorei primeiro quando hurley encontrou charlie no “flashsideways”, a felicidade contida dele, dava para ver nos olhos o quanto hurley queria abraçar o velho amigo, e depois voltei a me emocionar no final quando descobrimos o real e inestimável valor daquele encontro. aliás, a cada encontro que devolvia as lembranças dos personagens era difícil conter as lágrimas, e finalmente o desfecho de jack naquela realidade foi arrasador.

foi realmente gratificante que o final tenha sido “humano”, antes de objetivo ou científico. se a primeira temporada eu detestei justamente porque eu achava perda de tempo as histórias pessoais em vez do foco nos mistérios da ilha, esse episódio só veio para constatar minha estupidez daquela época. nada em lost é tão importante quanto as pessoas individualmente. não fosse a humanidade com que os criadores desenvolveram seus personagens no início (e durante toda a série também, é claro, mas com especial cuidado no início), jamais seria satisfatório o desfecho da história.

por causa disso, somos parte da história. somos parte da redenção dos personagens, somos parte da felicidade dos personagens, somos parte da tragédia dos…

tsc… “personagens”. dessas pessoas, eu quero dizer. pessoas.

de repente me sinto como o rodrigo de clarice lispector. só agora lembrei que as pessoas morrem.

enfim…

não encontro modo de expressar minha enorme gratidão a todos os responsáveis pela série. é realmente gratificante poder ser levado dessa forma por uma história.

e ser mudado por ela.

* Diego publicou este texto em seu blog.

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