• A “era iPod” (2001-2009) • Calma, o iPod só morreu como símbolo • Com a ‘cloud music’, streaming já é, hoje, o rádio do futuro • Depois da música, é a vez dos filmes e livros • Porque a indústria prefere o streaming ao download • Dá para usar Hulu, iTunes e Netflix no Brasil? • Ter ou não ter? Eis a questão que o digital propõe • Do YouTube para Hollywood • As ameças à hegemonia do Google, o cão de um truque só • Futuro do livro já é uma página virada • Brasileiro, Yahoo Meme será lançado em todo o mundo • Redes sociais podem salvar aqueles noites que parecem perdidas • Localização guia criação de aplicativo para celular • Dicionário Google já reúne 27 línguas • Nova PontoCom agita o mercado • Lei quer proibir games violentos • Google quer deixar a internet mais rápida • Guloseimas em rede social • Ativistas protestam por liberdade na web • E-mails de um idiota • Editar pode ser fácil • Caia na noite via rede social • Escreva tudo que quiser jogar no Nintendo DS • Convenção de humor no MIT? • Vida Digital: Ben Huh, do I Can Haz a Cheezburger•
Escuta essa:
“Um dia apareceu lá no morro o Mário Reis, querendo comprar uma música. Estava com outro rapaz, que veio falar comigo. ‘O Mário Reis está aí e quer comprar um samba teu’. Fiquei surpreso: ‘O quê? Querendo comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma’.
No dia seguinte ele voltou e me levou até o Mário Reis. Ele confirmou. ‘É, Cartola, quero gravar um samba seu. Fique tranqüilo, seu nome vai aparecer direitinho. Quanto você quer por ele?’ Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: ‘Pede uns 500 mil’. Eu disse: ‘Você está louco, o homem não vai dar tudo isso’.
Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: ‘Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?’.
Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves.”
O Juliano pinçou a declaração acima, do Cartola, para falar um pouco sobre as transformações que aconteceram no mercado da música durante o século vinte e que agora parecem retomar seu curso original. Ele continua:
O Mário Reis, que se oferece para comprar o samba, aparentemente já está vivendo dentro da lógica das emissoras de rádio e da indústria nascente do disco. Para ele, faz sentido o processo artificial que tornou escasso um produto informacional e portanto naturalmente abundante.
Mário Reis inclusive menciona indiretamente o princípio que justifica o comércio de bens informacionais. Ele diz: “fique tranquilo, seu nome vai aparecer direitinho” e o que está por trás motivando essa preocupação é o direito de autor, a solução jurídica que dá a base para que esse modelo de indústria criativa cresça, permitindo que criativos profissionais vivam de sua produção.
A cabeça do Mário Reis é a que olha para o compartilhamento de músicas na rede e enxerga a contravenção, a pirataria, mas a do Cartola mostra como a coisa não é definitiva, como não existe uma verdade absoluta no posicionamento das gravadoras, que a motivação tem a ver não com a Justiça, mas com regras e hábitos que durante muitos anos sustentaram uma determinada indústria.

Foto: Info
Logo que postei a entrevista que o Zero Quatro deu à Ilustrada na semana passada, o Dafne veio me avisar que a Nação Zumbi estava se alinhando ao pensamento do líder do Mundo Livre, que declarou estar com saudades dos tempos em que as gravadoras davam as cartas no mercado de música (o que tem lhe rendido o apelido online de “Lily Allen brasileira”, devido aos recentes pitis da ex-musa do MySpace em relação à troca de arquivos na internet). No show de 15 anos do Da Lama ao Caos, que aconteceu sexta passada em São Paulo, Jorge du Peixe foi ao microfone reclamar do uso da internet para baixar gratuitamente músicas que, noutros tempos, eram pagas (e não era a primeira vez - o Bruno lembrou que o guitarrista da Nação, Lucio Maia, já tinha bradado esse discurso em outra situação). “Tem o virtual, mas precisa do real e o real está aqui”. Mas antes que venhamos tachar o mangue beat de reacionário, vale ler a entrevista que a Info fez com o Dengue, baixista da Nação, que jogou panos quentes na polêmica antes de ela descer a ladeira, afirmando que o que foi dito no show tinha muito do calor da hora:
Não se sente prejudicado por pessoas que baixaram seu último disco?
Não, de forma alguma. Nunca ligamos muito para isso. Antes baixem e divulguem do que nada. Não vão comprar mesmo (risos). É legal baixar. Estava aqui em casa agora e minha esposa disse que queria ouvir uma música do Smashing Pumpkins, ‘1979’. Fui no YouTube, vi o clipe e depois baixei o disco. Esse disco é ótimo, uma hora vou comprá-lo.E as pessoas que só baixam e não compram?
Hoje, acho que as pessoas não baixam tantas músicas quanto um ou dois anos atrás. Teve esse boom, essa euforia do “pode tudo”, do “eu posso baixar tudo não vou pagar nada”, e depois veio a consciência, a ressaca da internet. Hoje, acho que estamos vivendo a ressaca da internet. Todo mundo baixou tanta coisa, vulgarizou tanto, que agora a galera está voltando a comprar discos. O vinil está sendo endeusado de novo. As pessoas estão comprando. É claro que tem a galera que não está nem aí para nada, acha vinil “massa”, mas não compra nenhum. A internet é uma ferramenta, não pode ser usada como um estilo de vida. Tem que ser usada para facilitar a vida. À medida que ela complica, sua consciência volta ao estado normal.
A íntegra da entrevista está aqui.
…e parece que o líder do Mundo Livre S/A tá com saudade das gravadoras. É isso?
“Percebo que, a despeito de toda a questão do acesso democrático e da maior visibilidade que chegaram com a internet, um fato inegável é que a web tem desestruturado quase todas as cadeias que se envolvem com a digitalização, do jornalismo à música. Hoje é moda celebrar a web, dizendo que finalmente nos livramos dos malas da indústria fonográfica. Tudo bem, a indústria até tinha um aspecto predatório, mas uma coisa é você defender a ausência da indústria, a ausência da cadeia produtiva. Se o mangue beat tivesse surgido num ambiente parecido com o que rola hoje, com gravadoras em crise, talvez o mangue beat tivesse se limitado a uma ou duas comunidades de Orkut, uma coisa de gueto. (No início dos anos 90) A Sony foi a Recife, contratou o Chico Science e bancou o primeiro clipe da banda, que rodou direto na MTV. Finalmente a indústria olhava para nós. E teve um efeito multiplicador forte. As pessoas esquecem isso. Hoje há uma situação sem indústria, sem cadeia produtiva. Está se instalando uma religião da tecnologia, um fundamentalismo tecnológico. Fala-se muito em economia sustentável, mas na cultura não existe consumo sustentável.”
Será que não? Lembre-se que estamos em fase de transição… A íntegra da entrevista tá aqui e é fechada pra assinantes do UOL.
Não custa voltar no Zappa, que já pensava nessas questões no começo dos anos 80. O texto abaixo é um trecho de uma matéria que escrevi pra capa da Bizz, quando ela ainda existia em 2006, sobre música digital. A íntegra da matéria tá aqui.
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“CONSUMIDORES DE MÚSICA GOSTAM DE CONSUMIR MÚSICA, NÃO DISCOS DE VINIL EMBALADOS CAPAS EM PAPELÃO”. O negrito e o caps lock são tirados direto do original, que não é de nenhum consultor trend-setter descolado fazedor de cabeça de executivos da indústria da tecnologia e do entretenimento, e sim de ninguém menos que Frank Zappa. Logo que a música se despregou de seu suporte tradicional - na época, o disco de vinil - transformando-se em pedacinhos de zeros e uns transferíveis por redes de computadores, o principal iconoclasta musical do século vinte fez uma pergunta que até muita gente boa não fez: por que, se a música podia ser digitalizada - ou seja, livre de um suporte físico palpável (como o disco de vinil, a fita cassete, o cilindro do fonógrafo…) - por que raios a indústria fonográfica lançou um novo suporte?
Aí entramos no terreno da especulação, mas alguns fatos falam por si. O compact disc, apresentado ao público em 1982, é quase tão barato para fabricar quanto um disco de vinil, mas é mais prático para ser estocado e transportado - mais leve, menor, menos suscetível a atritos. Para tocá-lo, no entanto, os consumidores deveriam ter que comprar um novo equipamento, o CD-player - mais caro que qualquer outro player médio da época. E devido à sua suposta melhoria na qualidade do áudio (subjetiva, o tempo mostrou - vide os audiófilos de hoje em dia que ainda veneram o velho vinil), o disco passou a custar, em média, ao menos o dobro do antigo LP.
Alie a isso uma enorme campanha de marketing de todas as grandes empresas de tecnologia, que pegavam carona na novidade “CD” para lançar aparelhos que, além de alardear o compact disc como o futuro do áudio, rebaixava o vinil como suporte datado, mídia morta. Aos poucos, vitrolas e coleções inteiras de discos eram vendidas ou jogadas fora para abrir espaço para os pequenos discos prateados embalados em plástico. Sem querer - porque, por mais maquiavélicas que fossem as multinacionais na época, elas não teriam capacidade para pensar nisso (basta ver o zelo administrativo que fez com que o negócio praticamente falisse durante os anos 90) -, as pessoas estavam comprando um mesmo disco que já tinham pela segunda vez.
Entra Frank Zappa, crítico insistente de tudo que pode ser criticado - inclusive dele mesmo. De ascendência ítalo-americana, o compositor começou sua carreira com um pequeno estúdio em Cucamonga, gravando grupos de doo-wop, surf music e até se envolvendo com filmes pornô, até que entrou no imaginário mundial com discos que ridicularizavam o movimento hippie quando este era mais popular do que o YouTube em 2006. Desde os anos 60, mirou sua metralhadora musical em qualquer coisa que pudesse se mover, mas tinha como alvos favoritos o establishment norte-americano (inteiro, do governo às divas da indústria do entretenimento) e a estupidez humana. Engajado em causas espinhosas e delicadas, ele se pronunciou prontamente ao advento da música digital e em 1983, no mesmo ano em que o CD chegava ao mercado americano, escreveu sua “Proposta para a Substituição da Mercadoria Disco”, de onde saiu a citação em negrito do início. E finalizava a primeira parte de seu texto com mais negrito e letras maiúsculas: “As pessoas hoje em dia gostam mais de música do que nunca e eles gostam de levá-la onde quer que elas vão. ELAS PODEM OUVIR A DIFERENÇA ENTRE ÁUDIO DE BOA QUALIDADE E ÁUDIO DE MÁ QUALIDADE… ELAS SE IMPORTAM COM ESSA DIFERENÇA E ESTÃO DISPOSTAS A PAGAR PARA TER ‘ÁUDIO PORTÁTIL’ DE ALTA QUALIDADE PARA USAR COMO ‘PAPEL DE PAREDE PARA SEU ESTILO DE VIDA’”. Isso, lembrando, DEZ anos antes de a web atingir o grande público, DEZESSEIS anos antes do Napster e DEZOITO anos antes do iPod.
Zappa tinha até a resposta para problemas que ainda nem haviam começado a existir e aí que seu texto fica mais incisivo. Na segunda parte (chamada apropriadamente de “Respostas para Perguntas Intrigantes”), ele nos apresenta ao “Q.C.I.”. “Propomos adquirir o direito de duplicar digitalmente e estocar O MELHOR de cada um dos difíceis de transportar Q.C.I. (Quality Catalog Itens, Itens de Catálogo de Qualidade) de todas as gravadoras, reuni-los em um lugar de processamento central e torná-los disponíveis via fone ou cabo de TV paga, diretamente acessível através dos dispositivos caseiros de áudio do consumidor, com a opção de transferência de um ambiente digital para outro através da F-1 (o gravador de áudio digital da Sony, disponível para o público), Beta Hi-Fi ou cassete análogo simples (que precisa apenas da instalação de um conversor no próprio fone, cujo chip principal custa US$ 12)”.
“Todas as contas de pagamentos de royalties, cobranças do consumidor, etc., seriam automáticas e estariam no próprio programa básico do sistema”, Zappa continua. “O consumidor tem a opção de se inscrever em uma ou mais categorias de interesse, cobradas mensalmente, sem se preocupar com a quantidade de música que ele ou ela decidam gravar. Prover material em tal quantidade a um custo reduzido realmente diminuiria o desejo de duplicação e armazenamento, já que este estaria disponível a qualquer hora do dia ou da noite”.
Zappa simplesmente bolou um sistema de pagamentos, acesso e distribuição de música que parece atender às necessidades de todos (com a exceção daqueles que cita no início do texto - “Muitas pessoas estão empregadas no campo de promoção de discos. Estes salários são, na maior parte, desperdício de dinheiro”). Sem a internet. Sem o MP3. Sem P2P.
E conclui: “Queremos uma quantidade GRANDE de dinheiro e os serviços de uma equipe de mega-hackers para escrever o software deste sistema. A maior parte dos equipamentos, mesmo quando você ler isto, já estão disponíveis como itens existentes no mercado, apenas esperando para serem plugados uns nos outros de forma que eles possam por fim na “INDÚSTRIA DO DISCO” como a conhecemos.
Isso, repito, em 1983.

Foto: Rafael Neddermeyer
Comece a reparar: primeiro Beatles, depois os Stones… Vem aí uma nova safra de caixas de CD, todas aspirando o caráter definitivo, épico, completista. É o último e longo suspiro da indústria fonográfica como a conhecemos, que exalará todo seu catálogo em diferentes formatos tácteis antes da distribuição digital, antes uma ameaça, tornar-se regra. E não é só na música, não; filmes e séries já estão nessa há até mais tempo.
Se passamos esses primeiros dez anos do século assistindo à briga entre indústria e público, a próxima década consolidará o consumo de arquivos digitais pela internet como principal forma de vender produtos, principalmente no setor de entretenimento. A discussão vai deixar de ser pirataria para cair para o preço - e se hoje já descobrimos que o download é a forma de consumo de música que menos agride o ambiente (como se precisasse de um estudo pra descobrir isso, mas enfim), já já essa discussão deixa de ser apenas de tom ecológico para recair sobre aspectos trabalhistas. Afinal, se não é preciso uma série de etapas que incluem a fabricação, o transporte e a distribuição de um pedaço de plástico fabricado em escala massiva, quando o CD sair de cena, é inevitável que essas fases deixem de existir e, pelo menos em tese, isso deveria se refletir no preço.
Fora que as lojas - sejam de conveniência ou megastores - ainda têm uma sobrevida maior, mas vão ter que se reinventar como espaço de interação social mais do que simples supermercados. E eu isso eu já falo há um tempo - em alguns anos vão aparecer lojas de amostras grátis de produtos, que podem ser tanto aplicativos para o celular e todo tipo de conteúdo digital gratuito, bocas-livres com marca em tudo (até na banda que fará o show) e uma mistura de loja de R$ 0,99 (lembra delas?) com self-service daqueles que você só paga um valor e come à vontade, só que em vez de “all you can eat”, “all you can carry” - e sem carrinho nem cesta, eis o truque. Imagino esse último tipo de loja como uma versão moderna da pesquisa de mercado. Todos clientes são betatesters e, em vez de pagar, tem de falar de seus hábitos de consumo. E isso não quer dizer ser entrevistado por um adolescente com uma prancheta, mas simplesmente preencher o cartão-fidelidade da loja que lhe dá acesso aos produtos gratuitos.
Me perguntaram e eu respondi.
Materinha no Link de hoje.
Era do disco morre com Michael Jackson
É impossível quantificar downloads envolvendo o rei do pop - que em vida vendeu 750 milhões de discos - após sua morte
Logo após o anúncio da morte de Michael Jackson, na última quinta-feira, o torrent com toda discografia do cantor contava com 117 usuários ativos, compartilhando um arquivo com quase dois gigas de músicas. Em menos de 24 horas, o número subiu inacreditáveis 16.184. A sexta-feira ainda viu surgir outros quatro novos arquivos com toda discografia do cantor - um deles, ‘DeLuxe Edition’ tinha quase sete gigas de MP3.
E isso diz respeito a apenas um arquivo, em um único site, o PirateBay. Fora as outras dezenas de sites de compartilhamento, milhares de links em sites de armazenamento online (do tipo Rapidshare) e milhões de MP3 trocados entre fãs conectados, que também assistiam vídeos no YouTube e compravam seus discos de forma legal.
Em menos de seis horas, seu nome apareceu no topo das buscas de agregadores de blogs de MP3 (como o Hype Machine), de redes sociais (como a Last.fm) e de lojas online (como a Amazon e iTunes). Na Amazon, o rei do pop conseguiu mais um feito espetacular, mesmo depois de morto. Nada menos do que 18 discos entre os mais vendidos da loja eram ou do cantor ou de sua banda com seus irmãos, o Jackson 5.
A notícia mexeu com a internet de forma ainda mais brusca: não bastasse ter derrubado os servidores do Twitter no breve intervalo entre o anúncio de que Michael estava sendo transportado para um hospital em uma ambulância e a confirmação de sua morte, a rede social tornou-se o principal canal para saber o que estava acontecendo com o cantor. Todos linkavam todos e logo que sua morte foi confirmada, Michael Jackson dominou nove dos 10 tópicos de discussão do dia - na décima posição, a pantera Farrah Fawcett, que também morreu no mesmo dia. Foi o suficiente para que o Twitter não suportasse a quantidade de acessos.
Não foi só o Twitter. Segundo Shawn White, diretor de operações da Keynote System, empresa que monitora o tráfego na web, “a velocidade média de download em sites de notícias dobrou de menos de quatro segundo para quase nove segundos”, disse em entrevista à BBC.
Por mais que as versões digitais ou mesmo os discos em si - sejam CDs ou vinis - possam dar uma ideia do impacto da notícia da última quinta-feira, ela é certamente infinitamente menor do que os milhões de MP3 trocados e baixados de forma ilegal.
Artista com 750 milhões de discos vendidos em seus 45 anos de carreira, Michael Jackson foi, durante pelo menos dez anos, o rei do pop. Como Elvis Presley antes dele, fez parte de um movimento que alavancou não apenas gerações de novos artistas, mas também vendas de discos. Com sua morte, muitos levantaram a inevitável dúvida que sucede a morte de qualquer astro: e quem será o próximo rei?
Ninguém. Do mesmo jeito que é impossível rastrear a quantidade downloads envolvendo o artista, não há mais cenário que propicie o nascimento de um mito desta proporção.
A música, da mesma forma que aconteceu com tudo depois da internet, saiu da mão de algumas dezenas de artistas e centenas de executivos para alimentar gratuitamente nichos infinitos. Michael Jackson é sinônimo de uma época em que o sucesso de um artista era medido em discos vendidos - uma era que metaforicamente morre junto com ele.
Números
2 vezes mais tweets por segundo. Assim que a morte de Michael Jackson foi anunciada, o número de mensagens no serviço dobrou, segundo Biz Stone, co-fundador do site
22,61% de todas as mensagens trocadas no serviço, na hora que a morte foi confirmada, eram sobre o astro
40.000 vezes a cada hora. Foi o número de vezes que foram reproduzidas, na Last.fm, músicas de Michael Jackson, na manhã da sexta, dia seguinte à morte
11% foi o aumento de acessos à internet nos EUA para saber informações sobre a morte

Todos de fone de ouvido em festa silenciosa na Virada Cultural de 2008 (foto: Mônica Bento/AE - 26/04/2008)
Nunca se fez tanta música quanto hoje. As possibilidades abertas a quem não tinha recursos ou técnica para fazer música permitiram que gerações inteiras finalmente pudessem produzir sua própria trilha sonora.
Seja criando música nova, remixando hits do passado ou regravando velhas canções, pessoas de diferentes faixas etárias se descobriram artistas e puderam finalmente reconhecer-se como músicos, independentemente de profissionais ou amadores. Mais: com a internet, essa produção passou a ser ouvida por gente que não tinha outros canais senão o rádio, o show e a loja de discos para descobrir e curtir música nova.
Ao mesmo tempo, nunca se ouviu tanta música quanto atualmente. A mesma rede que permitiu que músicos finalmente tivessem acesso direto a seu público fez que cada vez mais pessoas ouvissem cada vez mais música.
Hábitos como garimpar raridades, gravar fitas cassetes (ou CD-R) com músicas escolhidas a dedo e até mesmo manter uma coleção de discos foram acelerados pela rede de tal forma que praticamente foram reinventados.
Em vez de prateleiras, falamos em gigabytes; disco raro é aquele que nunca saiu da casa - ou da cabeça - de seu autor.
Assim, aos poucos, um termo técnico que designa a forma de adquirir um arquivo digital da rede tornou-se praticamente sinônimo de música nesta década: o download. Graças à popularização do MP3, iniciada há exatos dez anos, baixar música virou uma atividade rotineira e um hábito típico de nossos tempos.
Mas esse monte de gente produzindo e ouvindo música não está isolada em seus computadores ou em seus fones de ouvido, mesmo porque isso não é novidade - o marco zero deste isolamento musical, a invenção do walkman, completa trinta anos este mês.
E o mesmo ponto de partida para a música digital como a conhecemos hoje - a criação do Napster, o primeiro software de compartilhamento de arquivos sonoros digitais - também deu origem a uma nova forma de se ouvir música.
Se o rádio, a loja de disco e a gravadora aos poucos se tornam obsoletos, a internet oferece opções que vêm sendo abraçadas por milhões de pessoas, que estão descobrindo músicas que nunca ouviram e mostrando-as umas às outras.
O download ilegal ainda é um problema no que tange os direitos autorais e várias iniciativas têm insistido em punir uma prática que já é corriqueira.
Numa época em que ouvir música torna-se uma atividade cada vez mais social, resta achar uma solução que recompense quem produz mas que não puna quem ouve.
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Há 10 anos, Napster tornava a web social
Shawn Fenning só queria ouvir as músicas que seus amigos guardavam em seus PCs - e também permitir que eles ouvissem as suas. Entediado com a faculdade que fazia, começou a escrever um software que permitisse essa troca de arquivos em janeiro de 1999. Ele tinha acabado de completar 18 anos e, poucos meses depois, no início daquele junho, há dez anos, terminou o programa, que batizou com seu próprio apelido (”Napster” quer dizer algo como “dorminhoco”). Distribuiu para uns amigos e, como quem não quer nada, mudou a história da música - ao mesmo tempo em que resgatou um dos cernes da rede - seu aspecto social.
Voltando mais no tempo, quando o criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee, tornou público seu projeto, o fez postando uma mensagem num fórum de notícias, no dia 6 de agosto de 1991. Nela, anunciava que “estamos muito interessados em espalhar a web para outras áreas (…). Colaboradores são bem-vindos!”
Sem querer, Shawn Fenning repercutiu a mensagem do criador da web para o planeta. E se no início dos anos 90 a rede apareceu como uma forma de facilitar a troca de dados e informações, no final da década esta troca seria acelerada graças à popularização do MP3.
Mas trocar músicas era só o começo. Logo o mundo compreendeu que a música poderia funcionar longe do disco, coisa que a indústria fonográfica não quis entender - o que a levou a processar seus próprios clientes e abrir espaço para a Apple, uma empresa sem tradição no mercado de música, tornar-se líder em comercialização de música digital.
Fenning não inventou apenas um software. Com o Napster, ele sublinhou que a rede não é compostas de máquinas que se conectam a grandes servidores - mas também de computadores que podem se conectar entre si sem precisar passar por um computador central. E que esses computadores são pilotados por seres humanos que querem conhecer não só mais músicas, mas outros seres humanos. Não é exagero: ao liberar a possibilidade das pessoas trocarem MP3 entre si, o Napster foi o embrião daquilo a que chamamos de “rede social” - que, na verdade, é uma metáfora para a própria web.
Afinal, a internet é social. E Fenning nos lembrou disso há dez anos, quando resgatou um verbo que estava um tanto em desuso e que tem sido vilanizado pelos motivos errados: compartilhar.
• Música social • Brasil pode ter sua própria ‘lei Sarkozy’ • ‘Pirataria’ cresce como causa • Provedores de acesso também reagem contra o projeto de lei • Cada vez mais sozinhos ou mais conectados?• Há 30 anos, walkman fazia a música andar • ‘O universo musical é mais rico hoje que antes da web’ • Há 10 anos, Napster tornava a web social • The Sims 3: Eles precisam de você para viver, se relacionar - e até se vestir • Clássico dos games de boxe volta em versão de tirar o fôlego - mesmo! • Twittermania! • Vida Digital: Matheus Souza (Apenas o Fim) •
Aê, que boa notícia. E como o Miguel explica, o Muxtape é um MySpace sóbrio:
Conforme o seu fundador Justin Ouellette tinha anunciado há alguns meses, já não se trata agora de permitir que os utilizadores façam o upload indiscriminado de MP3s de modo a criarem playlists temáticas e a dá-las a conhecer ao mundo mas sim de oferecer aos artistas e bandas uma plataforma para promoverem as suas músicas, tendo ainda a possibilidade de incluírem fotos e vídeos.
Em contrapartida, os utilizadores podem agora apenas fazer streaming das faixas e agrupá-las em playlists. O resultado final não fica muito longe do MySpace, com a diferença de não termos que aturar com imagens folclóricas com cores aguerridas e gifs animados e saltitantes.
E aos poucos, vamos saindo dos tempos em que quem baixa MP3 é considerado bandido. Ainda tem tempo e chão pela frente, mas a mudança já aconteceu - a volta do Muxtape é só reflexo disso.
Destacando um das notícias do Leitura Aleatória anterior, a entrevista que o Globo fez com o consultor jurídico da ABPD vem cheia de pérolas como essa:
Existe uma cultura de compartilhamento e há quem jogue arquivos na internet com o propósito de ajudar aos outros, tendo até trabalho para converter arquivos, mas com um espírito de comunidade, com a ideia de estar ajudando o próximo. Como acabar com a ideia de que se está ajudando alguém e não cometendo um crime?
É uma cultura meio Robin Hood. Você pode assaltar o meu armazém, tem uns caras querendo comer um cachorro-quente e então vamos assaltar o McDonalds. O cara que receber o cachorro-quente vai ficar feliz da vida, o dono não vai ficar nem um pouco. Não é assim que a sociedade funciona. Ou então, se é assim, vale para tudo. Atenção! Se vale para isso vale para tudo. Pô, tô sem dinheiro, você tem cartão de banco? Poxa, não tenho, então vamos quebrar um caixa-forte.
Vale ser lida na íntegra - e o Nogueira sublinha os pontos mais interessantes do papo.
1) E a Capitol segue ganhando grana com o Radiohead - vai lançar versões esticadas dos três primeiros discos da banda
2) Disco novo do Sonic Youth à vista
3) Consultor jurídico da ABPD diz que P2P é a desgraça do direito autoral e que falta boa-fé ao Creative Commons
4) Samuel L. Jackson pode não ser mais Nick Fury
5) Seth Rogen vai escrever um episódio dos Simpsons
6) Manu Chao no Brasil
7) Revistas americanas sentem no bolso a diminuição de anunciantes
8) Porque Alan Moore devia deixar de frescura e assistir Watchmen
9) Fox cancela Prison Break
10) 95% dos downloads de música são ilegais, diz indústria

Foto: Pink Lemonade <3
1) Feliz natal, Luciano e Bia (comercial de agência de publicidade)
2) Feliz natal, Babee e Danilo (top 45 discos de 2008)
3) Feliz natal, Flávia (Madonna no Brasil), Hec (projeto novo de HQ) e povo da Goma (especial Roberto Carlos especial de natal)
4) Feliz natal, Nogueira (RIAA não vai mais processar as pessoas por download ilegal)
5) Feliz natal, Fab e Mutli (um bate papo com Rogério Flausino)
6) Feliz natal, Pablo (quais os melhores games de 2008?)
7) Feliz natal, Nana Neri (Dezembrite)
8) Feliz natal, Bernardo e Bruno (Sobremúsica no Multishow)
9) Feliz natal, Luciano (novidades sobre o Vanguart e Ronei Jorge)
10) Feliz natal, Cardoso (a diferença entre um gênio e um pulha)
É o tema do primeiro Think Tank, brainstorm coletivo sobre música conduzido pelo Ronaldo, André Bourgeois do Urban Jungle, Juliano Polimeno da Phonobase, o Mauricio Tagliari da YB e o Pena Schmidt. O próximo já foi gravado e tem o Miranda no papo.
• O Vale quer cérebros! • Monty Python libera e vendas sobem • Enchentes de Santa Catarina e o papel da web • Um ano de TV digital no Brasil • Gravadora vende mais itens digitais do que físicos• Vida Digital: Claudia Leitte • Need for Speed •

Foto: Ana Luiza
E o primeiro disco de Mallu, a exemplo do primeiro solo de Camelo, sai primeiro em plataforma digital do que física e com as faixas sendo liberadas aos poucos - a diferença é que como as faixas são para celular, elas só podem ser compradas - o download não é liberado, como era no caso do disco de 10 das 14 faixas de Camelo. Por enquanto, saíram quatro: “Tchubaruba”, “Angelina”, “You Know You’ve Got It” e “J1″. Já escutei o disco todo, mas quero pegar o pedaço de plástico com encarte na mão pra falar destes 10 meses de Mallu Magalhães.
Mallu Magalhães - “J1“
Materinha minha que saiu na capa do Link, cuja edição de hoje foi especial sobre música digital.
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Mudou tudo na música (menos a vontade de ouvir cada vez mais)
Por uma taxa fixa, será possível baixar ‘todas as músicas do mundo’; novo modelo pode ser uma saída para a crise da indústria fonográfica
Num mundo em que qualquer música pode ser baixada fácil e gratuitamente – ainda que de forma ilegal –, como a indústria pode convencer o público a voltar a pagar por música? E numa realidade na qual quem baixa MP3 de graça é rotulado de pirata, como legalizar o download? Que tal, em vez de comprar MP3 por MP3, pagar uma assinatura e poder baixar “todas as músicas do mundo”?
Essa é a proposta feita por dois fabricantes de celular que podem mudar o modelo de negócios da indústria fonográfica. O flerte entre telefonia móvel e música online era tendência que o Link já havia apontado no começo do ano (http://tinyurl.com/link-musica-no-celular). A novidade é que SonyEricsson e Nokia inverteram a lógica atual do comércio de música digital e inauguraram serviços em que você paga uma taxa fixa e tem direito a baixar quantos arquivos quiser.
Os dois serviços já estão funcionando em países da Europa e anunciados para chegar por aqui em 2009. Marcam uma mudança que pode ser a saída para a confusão em que o mercado de discos se meteu depois que a internet e o MP3 entraram em cena.
Há quem aponte para a rede mundial de computadores como a grande vilã da crise na indústria, mas o detonador desta foi a reação inútil das gravadoras à troca gratuita de MP3 via rede. Em vez de perceber que tinha uma ferramenta perfeita para levar a música direto ao ouvinte – sem intermediários –, as grandes gravadoras chegaram a processar seus próprios clientes. A reação do público fez com que a reputação da indústria do disco desabasse, abrindo espaço para a entrada de empresas sem tradição no mercado de música na história.
E, como o que é crise para uns é oportunidade para outros, assistimos à entrada de fabricantes de computadores e softwares, sites e redes sociais, operadoras de telefonia celular e empresas de videogame num meio que, durante décadas, sobreviveu do casamento entre rádios e gravadoras.
Mas, num mundo em que rádio e disco não são dominantes, agora é cada um por si. E as caixas de som abriram espaço para o fone de ouvido, novo símbolo da experiência musical. Graças a MP3-players portáteis e músicas baixadas no computador, ouvir música passou a ser um processo pessoal e intransferível – e cada um se torna, aos poucos, editor da trilha sonora da própria vida.
Cabe à indústria facilitar a vida do público. Em vez de dizer o que ele deve ouvir, os novos players do mercado de música oferecem mais e mais alternativas para o ouvinte ter acesso a cada vez mais música.
Baixar música online é fácil, o mais difícil é encontrar uma música em especial. Com esse novo modelo que toma forma no final de 2008, não é exagero imaginar que, ao fim desta década, o mercado tenha entendido algo que o público já sabe: música deixou de ser um produto (o disco) para se tornar um serviço.
• Wario Land: Shake It • Vida Digital: Eduardo Kac • Students for a Free Culture • Crianças criando software • Coloque música em seu blog • Quando a música deixa de ser um produto e torna-se um serviço • Download por assinatura começa via celular • MySpace Music •
No programa de hoje, falamos sobre novidades na forma de vender música pela internet, Wario Land: Shake It, como colocar música em seu blog, Eduardo Kac, MySpace Music e cultura livre e mudanças nos direitos autorais. No som, Radiohead com Dave Brubeck Quartet, Ry Cooder com Manoel Galban, Elis Regina com Tim Maia, Sparklehorse, Klaxons e Julie London. O Link vai ao ar todo domingo, às 21h, na rádio Eldorado de São Paulo.
Eis o trailer do documentário do Vlad e do Gustavo sobre a cena brega em Belém. O Ronaldo Lemos também lançou um livro sobre o assunto, que pode ser baixado aqui.
O Cure apresentou, pela primeira vez, a íntegra de seu próximo disco, 4:13 Dream - o décimo terceiro da carreira da banda - em um concerto ao ar livre na Piazza San Giovanni, em Roma. Eis um bom jeito de evitar que as músicas vazem online. A banda vem transformando o lançamento de seu próximo disco num acontecimento online, postando músicas novas em seu site uma vez por mês, numa espécie de contagem regressiva para o lançamento do disco, que só vai sair no final do mês. Para o resto do planeta, talvez o Cure nunca tenha tido um grande impacto no cenário pop como o autor de um punhado de hits. Mas para seu público fiel, este evento de lançamento deste ano está sendo um grande veículo para o novo disco (pena que as músicas estejam aquém da qualidade que Robert Smith pode atingir). Olhando pelo ponto de vista de produção, é um show de graça, bancado pela Coca-Cola com transmissão da MTV e upload quase simultâneo no YouTube. Olhando pelo ponto de vista do fã, é uma banda lançando um disco de músicas inéditas para todo o planeta, ao mesmo tempo. O disco - seja o pedaço de plástico ou o arquivo zipado com as músicas gravadas - é só um acessório para este acontecimento, que saiu das lojas de discos e ganhou o ciberespaço. Para quem não está nem aí, não há sequer um disco novo do Cure. Para quem gosta, há o autor se entregando inteiro, não apenas num disco prateado.
Eis o disco:
“Underneath The Stars”
“The Only One”
“The Reasons Why”
“Freakshow”
“Sirensong”
“The Real Snow White”
“The Hungry Ghost”
“Switch”
“The Perfect Boy”
“This. Here and Now. With You”
“Sleep When I’m Dead”
“The Scream”
“It’s Over”

Foto: Hexagonn
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