OEsquema

Arquivo: neon neon

OEsquema no Timfa

Pra quem não acompanhou durante o fim de semana, aí vai a cobertura dOEsquema para o Tim Festival deste ano. Nosso primeiro trabalho em conjunto, sem ter nenhuma reunião de pauta ou definição de funções. Por isso, ficou assim:

- Falei da possível importância do show do Kanye West no Brasil horas antes de assistir a uma fuleiragem sub-escola de samba que se passava por “grande espetáculo da Terra” (que ainda contou com um estranhamento entre os Racionais e D2, no público). The Great Hip Hop Swindle, isso sim. No segundo dia teve o show dos Klaxons, no terceiro Gogol Bordello e DJ Yoda salvaram a pátria enquanto o último dia foi bem equilibrado com um showzaço do National e um show mediano do MGMT. Fiz um monte de vídeos do festival.
- No Rio, o Bruno falou que o Camelo funciona melhor em show do que em disco, curtiu o Gogol Bordello, achou o Klaxons mais ou menos, linkou uma mixtape nova do Sany Pitbull (que só tocou no Rio), entrevistou o MGMT e comentou, ao assistir ao show de Sonny Rollins, sobre a carência de eventos como o festival da Tim podem fazer com uma cidade com o Rio. Ele também fez uns videozinhos;
- Também no Rio, o Mini assistiu ao Yoda, Gogol Bordello, Klaxons e Neon Neon e fez algumas considerações sobre sua ida ao evento;
- Arnaldo não foi a show nenhum e também não perdeu grande coisa, mas faz uma pergunta pertinente: você compraria um cinzeiro do Capitão Presença?

Eu compraria.

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Leitura Aleatória 179


Foto: Ultimate Articulate Lord

1) Público carente transforma festival em marco
2) Klaxons no Uol: “Se alguém quis ficar parado, não conseguiu”
3) Dan Deacon faz público dançar quadrilha
4) Rraurl sobre o Yoda: “Melhor set do ano?”
5) Folha sobre o Camelo: “Interessante”
6) National no Rio: “Obrigado, internet!”
7) MGMT: “Parte do público pareceu decepcionado”
8) Estadão: “Bons shows não salvaram falta de organização em evento no RJ”
9) Har Mar Superstar no show do Neon Neon
10) Nave da egotrip de Kanye West passa por São Paulo

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O que está embaixo é como o que está no alto

Os Klaxons são só uma banda de rock


“From Atlantis to Interzone”

O que eu mais gosto nos Klaxons é que eles não se parecem com nada. Apesar da insistência em chamá-los pelo rótulo “new rave” e pelos vários remixes que os colocam na pista de dança, eles são uma banda de rock. Mas ao contrário das milhares de bandas que aparecem hoje em dia, fazem um hit e depois somem, eles não têm um grupo ou um gênero musical de onde tiram suas referências sonoras principais – não lembram os Stones, o Joy Division, o Sonic Youth ou uma banda de britpop, por exemplo. Além de não ficarem presos ao cânone do rock tradicional: o falsete bizarro que conduz parte das músicas tem sua origem no R&B amanteigados dos anos 80 e o uso dos samples – da escolha à forma como eles são encaixados na música – é abertamente cafona (a alternância do sussurro com a sirene em “Atlantis…”, por exemplo, é quase citação de italo house).


“Golden Skans”

Mas isso é a crosta na superfície, é a cobertura do bolo. É só ouvir. Por baixo de samples, gritos e falsetes há o zumbido que sai da guitarra, um baixo duro e marcado, teclados caricatos e uma bateria que galopa. Ora, ora, é o bom e velho pós-punk – só que o Klaxons em vez de o revisitá-lo pela via britânica do Wire, Gang of Four, U2, Joy Division ou Public Image (como seus companheiros de geração), vai pela trilha dos Estados Unidos da esquisitice do Pere Ubu, Talking Heads e Devo. E nesta esquisitice também incluem a lenta confirmação que aconteceu durante os anos 80, de que música eletrônica podia ser tão pop quanto o rock, numa linha do tempo que começa entre o Duran Duran e o Human League passa pelo New Order e Pet Shop Boys e deságua no segundo verão do amor, com o nascimento das raves. Eis a fórmula do Klaxons enquanto banda: new wave americana e eletrônico não-gótico. Só isso já contaria muitos pontos a favor dos caras.


“As Above So Below”

Mas eles soam como o Devo, o Pere Ubu, o New Order ou o Duran Duran? Não. Esse parentesco é mais estético do que sonoro, embora os elementos que unam essas diferentes bandas ainda estejam lá – baixo em primeiro plano, ritmo quadrado, vocais que não cantam, guitarra que faz mais barulho do que música. Acrescente aí duas décadas de experiências musicais que estas bandas não puderam antecipar e o Klaxons é facilmente entendido como herdeiro deste art rock do começo dos anos 80.


“Gravity’s Rainbow”

A discrepância maior é justamente no conteúdo. Enquanto essa safra de bandas cantava sobre o tédio do cotidiano, os Klaxons são épicos numa escala pouco vista em música pop. Enquanto o máximo de grandiosidade associada às letras de música sejam adaptações de clássicos da literatura por bandas de metal ou de passagens históricas por bandas de rock progressivo, os Klaxons miram no misticismo pesado e cantam sobre a terceira via na busca pelo sentido da vida: nem ciência, nem religião, o papo deles é magia pesada, ciências ocultas, misticismo cabeça, mágicka com K. E no meio daqueles sussurros e falsetes, gritos e vocais falados estão letras que falam sobre mudanças de eras arqueológicas, escritos de civilizações perdidas, a tábua de esmeraldas e literatura freak. Os poucos autores que incluem, numa mesma tacada, William Burroughs, Thomas Pynchon e Atlântida estão no campo das letras – seja em livros ou quadrinhos – não em áreas como cinema ou música pop.


“Magick”

Sem medo do ridículo (olha as roupas que eles tavam vestindo!), transformam tudo isso na construção da lenda de si mesmo. A própria banda se define como uma espécie de quatro cavaleiros do apocalipse de seu universo, “mitos de um futruro próximo” e datam para o dia 12 de dezembro de 2012 seu dia D (12.12.12!). Nisso, delimitam sua validade e criam sua própria realidade alternativa para brincar, alinhando-se com outros grandes do mundo pop atual – e geram uma expectativa sobre o que pode acontecer no fatídico dia (duas vezes o 06.06.06!). Um show histórico, o lançamento de seu próprio Sgt. Pepper’s ou uma melancólica nota à imprensa informando o fim da banda – embora os Klaxons digam, rindo, que este vai ser o dia do fim do mundo.


“It’s Not Over Yet”

No circo do rock dos anos 00, os Klaxons se situam em algum lugar entre o experimentalismo punheta do Animal Collective e o foda-se total dos Black Lips, com um pequeno detalhe: boas músicas. Passada a estranheza da primeira audição, é fácil ficar com elas na memória e mesmo seus vocais ridículos passam a fazer sentido. Refrões, riffs, melodias, timbres: com uma formação tradicional de baixo, guitarra, teclado e bateria, eles reinventam mais uma vez a roda e criam uma nova forma de fazer música boa. Todas as músicas que eu coloquei neste post são memoráveis e pertencem a um mesmo disco, seu único até agora, numa média muito acima da atual produção de rock. Dê tempo ao tempo: os Klaxons só estão começando.

Um pouco antes teve o show do Neon Neon, que não me incomodou como acabou rolando com uns amigos, mas também não me acrescentou nada. O Gossip certamente fez uma enorme falta ao dia, mas bem que podiam ter colocado alguma banda (brasileira, que seja) pra tocar no lugar da banda da gorda. E como tem gente melhor que o Neon Neon por aqui. Não precisa nem sair de São Paulo…

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Tim x Terra

É o embate dos festivais, versão 2008. Se no ano passado o Timfa teve uma edição morna (suas principais atrações tinham mais de uma década de existência) e uma edição caótica em São Paulo, o novato Terra ousou no formato, preço e escalação, embora tenha errado no nome para fechar a noite. Agora que as edições deste ano estão aos poucos chegando aos finalmentes, dá pra botar frente a frente as principais atrações anunciadas pro Tim e as especulações mais ou menos confirmadas pro Terra.

Vamo lá?

Jesus & Mary Chain x Paul Weller

Terra 1 x 0 Tim

Animal Collective x Gogol Bordello

Terra 1 x 1 Tim

Bloc Party x Gossip

Terra 1 x 2 Tim

Kaiser Chiefs x The National

Terra 1 x 3 Tim

Spoon x MGMT

Terra 2 x 3 Tim

Foals x Klaxons

Terra 2 x 4 Tim

Descartando, claro, todo o palco de jazz do Timfa, que não tem nada a ver com o corte do Terra. Mesmo assim, o Timfa ainda aumenta sua vantagem ao não encontrar nenhum rival pop à altura de Kanye West, além dos queridinhos da crítica Neon Neon (o projeto eletrônico do carinha do Super Furry Animals) e o Dan Deacon. Mas lembre-se que o Terra não oficializou seu elenco, por isso seus astros são fruto de especulação e algum nome pode aparecer – ou desaparecer – do elenco quando o anúncio vier de verdade (as vendas, ao que parece, começam amanhã). E ao mesmo tempo não custa lembrar que ano passado o Terra também teve uma tenda de música eletrônica – até então, sem nomes sequer especulados.

Por outro lado, o embate entre estrutura de festival favorece o Terra – ainda mais depois do mico da edição paulista do Tim Festival do ano passado (no Rio, tudo nos conformes). O único ponto negativo que consigo lembrar desta parte no Terra do ano passado foi a distância do lugar dos shows, mas até aí, isso é o de menos. O Timfa vai ter que rebolar pra fazer uma edição decente esse ano. Isso sem mencionar os preços e traduzir isso em relação custo/benefício…

Mas se for pra ser apenas passional, não tinha nem ter que começado essa conversa: a vinda do Jesus & Mary Chain é um trunfo histórico do Terra, que o Timfa sequer conseguiu arranhar. Nada no Tim Festival desse ano é propriamente imperdível (vá lá, tem o Sonny Rollins), enquanto a oportunidade de ver uma das bandas que configurou o rock atual só poderia ser ofuscada por um monstro sagrado do rock clássico (Neil Young, Van Morrison, Leonard Cohen) ou um de seus compadres de geração (Cure, R.E.M., Sonic Youth, a volta dos Smiths).

Quem sabe, 2009.

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