O começo e o final do segundo disco grupo inglês Metronomy (a dobradinha “Nights Intro/Nights Outro”) pode induzir o ouvinte à entrada num universo de melancolia indie que aproxima a psicodelia rústica do Neutral Milk Hotel ao leste europeu espiritual do Beirut de Zach Condon. Mas logo que “The End of You Too” engata - pouco antes de enganchar nos últimos vinte segundos de seu primeiro minuto - percebemos que estamos em uma pista de dança. Mas acompanhe o balanço quadrado, os timbres bregas de teclado, as guitarras-base meio frouxas e o caminhar torto do ritmo em si - o receituário de indie rock está nos detalhes que tornam o Metronomy uma banda pelo menos inusitada. O susto inicial é só a isca, pois o trio inventado por Joseph Mount (que oficializou a dupla Oscar Cash e Gabriel Stebbing como parte da banda - antes, os dois assinavam como The Food Group e funcionavam como banda de apoio quando Mount tocava ao vivo) pisa firme seus próprios preceitos rítmicos e estéticos, com um aparente orgulho nerd que se torna puro e inocente a cada audição. Compostas sempre sobre um ritmo matriz em que detalhes de produção e samples aleatórios vão sendo sincronizadas, as faixas de Nights Out podem ser entendidas como um enorme videogame sonoro de lógica, uma mistura de Sudoku com Guitar Hero que só pode ser jogado com os ouvidos - quanto mais você se envolver com a música, mais pontos você ganha. Para isso, o grupo propõe uma série de fases, que vão desde o pop fácil (”Heartbreaker”, que sampleia uma porta abrindo) à dance torta (”A Thing for Me”), de uma mistura de krautrock com new wave (”On the Motorway”) a um ritmo caribenho robotizado (”Radio Ladio”) de uma balada composta ao redor de gemido eletrônico (”On Dancefloors”) a uma versão japonesa para o pós-punk (”Back on the Motorway”). E distorcendo vocais em falsete e timbres mecânicos e sintéticos, vão superpondo riffs, refrões, linhas de baixo, viradas de bateria e frases de efeito como se cada faixa fosse um minijogo, o Metronomy faz indie dance para tempos minimalistas, engrossando uma cena que surge debaixo dos confetes da new rave e logo vem assumindo um papel importante na música atual, que são as bandas de rock que tocam música para dançar. Essa nova cena inclui a safra de 2006 - de nomes como Rapture, Klaxons, Digitalism, Crystal Castles, Hot Chip, New Young Pony Club, Friendly Fires, Cansei de Ser Sexy - e a proximidade das cenas australiana e parisiense, além de poder agregar nomes da cena de novo rock do início da década, que começou com os Strokes e terminou com o Franz Ferdinand. Com Nights Out, o Metronomy coloca-se entre este panteão de bandas de médio porte que podem, em pouco tempo, mudar a cara da música ouvida no mundo inteiro. E daí que “My Heart Rate Rapid” lembra Gang 90?
18) Metronomy - Nights Out
Metronomy - “A Thing for Me“
Marcelo Frota é o contraponto perfeito para os Supercordas. Juntos, ambos fecham todo o espectro de emoções necessário para chamarmos de nova psicodelia carioca. À frente de seu projeto solitário Momo, ele tem as mesmas características do quinteto liderado por Bonifrate e Valentino: carioca, vintage, lisérgico, denso, retrô, chapado, ensolarado e muito sério. Mas enquanto os Supercordas se divertem com os Mutantes e Syd Barrett num chá da tarde no Sítio do Picapau Amarelo, o Momo nos carrega para as profundezas da alma, abismos sentimentais existencialistas em que a solidão é a única opção. E por mais que beba no folk deprê de bardos filhotes de Nick Drake, como Elliott Smith, Bill Calaham e Will Oldham (papas da mesma cena folk que deita-se sobre São Paulo), é no Brasil dos anos 70 que se encontra sua matriz musical. Apesar da primeira referência musical ser o soberbo disco de estréia do Clube da Esquina e os primeiros trabalhos de Lô Borges e Flávio Venturini, o som do Momo bebe tanto do Pessoal do Ceará (Ednardo, Fagner, Belchior) quanto dos momentos mais hippies dos Novos Baianos e de Raul Seixas e dos discos ingleses de Gil e Caetano. E em oposto à festa sorridente dos Supercordas, Marcelo é sempre triste, taciturno, melancólico, mas seu segundo disco consegue erguer a cabeça e, mesmo com um onipresente clima de fim de festa, parece que estamos vendo o fim dos Beatles. É um big bang em câmera lenta, um espelho se espatifando em pedaços musicais tão diferentes quanto Pink Floyd ou Geraldo Azevedo, Love ou Marcos Valle, James Taylor ou Chico Buarque. Buscador em vez de cair na espiral depressiva da Estética do Rabisco (seu primeiro disco) propõe-se deixar a melancolia para trás, nem que, para isso, tenha de fazer canções tristes mas otimistas - o que pode melhor resumir o disco do que uma música chamada “Tristeza” cujo refrão abre a canção sobre o canto de passarinhos, afirmando, firme “e o Sol nascerá”? O Momo já é um dos novos trabalhos mais promissores da música brasileira atual - com disposição para tornar-se um dos nomes mais importantes da próxima década.
19) Momo - Buscador
Você gosta de Rush? E de heavy metal? Gosta de Helmet? Jazz fusion? E de Journey? E Pat Metheny? Dire Straits? Existem algumas escolas na música pop que tornaram-se malditas por alguns excessos, quase todos vinculado ao uso de desenfreado de timbres e maneirismos na guitarra elétrica. O trio matogrossense Macaco Bong faz desta sonoridade seu parque de diversões e é possível ouvir cada um destes virtuoses malditos em pequenos detalhes do épico instrumental Artista Igual a Pedreiro - mas não só. Cuidadosamente lapidado, o disco de estréia da banda de Cuiabá contém milhares de facetas diferentes e é tanto possível situá-la entre a safra sem vocal que inclui o Hurtmold, o Pata de Elefante, o Mamma Cadela e os Seychelles como entre filhotes setentistas brasileiros de Jimi Hendrix (Robertinho do Recife e os baianos Armandinho e Pepeu Gomes, por que não?) ou entre grupos de hardcore que descobriram o free jazz, inventando o pós-rock, como Slint e Tortoise. Mas se é pra definir o som dos três, este fica entre a técnica de músicos da banda de Frank Zappa com o senso pop do Thin Lizzy, a dinâmica de hits do Built to Spill, o senso melancólico do Arthur Lee (do Love) e a velocidade de Alvin Lee (do Ten Years After). Uma banda que aparenta ser deliciosamente retrô para enganar o ouvinte e catapultar seu senso estético para alguns anos no futuro, num disco virtuose e progressivo (as faixas têm em média sete minutos) que vai de encontro a todos os achismos cogitados sobre como fazer sucesso para deixar isso em segundo plano e aspirar a História.
20) Macaco Bong - Artista Igual a Pedreiro
Macaco Bong - “Black’s Fuck“
“A era dos milagres/ A era do som/ Há uma era de ouro/ Vindo aí”. Quem diria que, ao descobrir a pista de dança, o TV on the Radio se tornaria uma banda relevante? Ao contrário de outros que abraçam a dance music e batidas eletrônicas como último recurso para fazer sucesso, os nova-iorquinos usaram o ritmo como opção estética, que era exatamente o que faltava para que seu belo trabalho de guitarras pudesse ir além do mimimi indie, que deixava a banda sempre com uma sensação de incompletitude. Pisando na mesma disco music que se espatifou para dar origem tanto ao hip hop quanto à carreira de titãs dos anos 80 como Prince, Madonna e Michael Jackson, o grupo, felizmente, não abandonou a melancolia e a solidão - apenas as adicionou à inconseqüência hedonista dos dias de hoje, limpando-a dos excessos felizes e jogando uma luz sóbria e sombria sobre um universo que parece formado apenas de deleite e transição. E mesmo com metais animados e baixos funky, ainda encontram momento para cordas lânguidas criar uma atmosfera de introspecção. E, mesmo assim, soa otimista e feliz com o futuro próximo - mesmo que isso signifique remar contra a maré.
21) TV on the Radio - Dear Science,
TV on the Radio - “Golden Age“
A inspiração original é Serge Gainsbourg, com seu pop de aparente baixa periculosidade feito para ser sussurrado por vozes sensuais de mulheres com personalidade. Mas em vez de simplesmente homenagear o bardo francês, o 3 na Massa alinha-se a projetos que, por linhas diferentes, também vieram buscar inspiração no bon vivant original - como o Stereolab, o Portishead, os projetos paralelos de Dan the Automator (o Lovage com Mike Patton ou o Handsome Boy Modelling School com Prince Paul), os Beastie Boys instrumentais e o projeto Vampyros Lesbos, pairando entre instrumentais viajandões (a tal “Massa” do nome do grupo), letras por vezes decorativas (mas sempre pingando duplo sentido), suíngue lo-fi e clima cinematográfico. Este último vem graças à presença de cantoras que também são atrizes e atrizes que poderiam ser cantoras - Cyz, Alice Braga, Pitty, Thalma de Freitas, Céu, Simone Spoladore, Nina Becker, Karina Falcão, Leadra Leal e Nina Becker. O trio, formado por Rica Amabis (do Instituto) e pela cozinha da Nação Zumbi (o baixista Dengue e o baterista Pupilo), ainda chamou outros cúmplices para cuidar do que essas meninas cantariam - e assim veio esse pelotão de canalhas românticos da ponte aérea Vila Madalena-Recife, com escala no Rio de Janeiro (como Amarante, Lirinha, China, Du Peixe, Alex Antunes, Catatau e dois Mombojós), escrevendo na primeira pessoa feminina, deixando o ar teatral e voraz das vocalistas ainda mais terreno e mundano, ar que o trio deixa torna caseiro, familiar, aconchegante. Tudo em casa.
22) 3 na Massa - Na Confraria das Sedutoras
3 na Massa e Cyz - “Quente Como Asfalto“
Com a possibilidade de estourar da noite pro dia se tornando cada vez mais regra do que exceção no jogo da música pop atual, vão-se aos poucos indo embora os tempos em que artistas podiam calibrar técnica, carisma e suas próprias músicas longe das multidões e das pressões do sucesso. Só por isso já seria suficiente para comemorar a existência do Little Joy, formado quando Rodrigo Amarante e Fabrízio Moretti deixam suas bandas principais de lado para tocarem em botecos de beira de estrada nos EUA e em eventos indies de médio porte no Brasil. Longe dos holofotes, podem tocar e compor sem stress nem cobranças, curtindo seu sonho de fazer parte de uma espécie de Velvet Underground californiano, uma parceria entre Lulu Santos clássico e Jack Johnson, tão metido à cabeça quanto bicho-grilo e assim compõem um conjunto de canções que ganha justamente pelo desprendimento e descontração, como uma banda new wave de férias na Jamaica. Porém, por mais que eles tentem fugir de seus ambientes originais, Little Joy soa essencialmente como se a latidindade de PUC do Rio do Los Hermanos (um elemento mais Amarante do que Camelo) contagiasse os hits mais Funhouse/Casa da Matriz dos Strokes. Um disco sem vergonha de assumir que rock e pop podem ser a mesma coisa sem que isso não necessariamente aponte para a adolescência ou para a caixa registradora. Nos shows no Brasil, não tocaram “Eat at Home”, do segundo disco solo de Paul McCartney, Ram, parente das mesmas condições de temperatura, umidade e pressão do Little Joy. Mas o recado parece dado - e aos poucos vamos separamos quem é o Paul e quem é o John nessa brincadeira…
23) Little Joy
Little Joy - “Keep Me in My Mind“
Gravado no começo da década e lançado originalmente em 2006 pela gravadora espanhola Elefant, o quarto disco de Júpiter Maçã finalmente foi lançado em seu próprio país - e como os três anteriores, é uma viagem. Depois de derreter-se na psicodelia sessentista (A Sétima Efervescência), no lounge de brechó pra turista (Plastic Soda) e no futurismo cabeça (Hiss-Civilization), dessa vez a trip do velho Júpiter é rumo ao início dos anos 70, de Beatles solo, folk sentimental, cinema marginal paulistano e pós-tropicalismo. E por mais que a paisagem ecoe seus dois primeiros discos, Uma Tarde na Fruteira é uma coleção de canções maduras e sentimentais, em que o cinismo pop art e o ruído do rock’n'roll surgem em momentos específicos (o primeiro na “Marcinha Psicótica do Doutor Stu”, o segundo na garageira “Síndrome de Pânico”). O resto é domado pela consciência de Basso em construir um cenário sonoro adulto e moderno - o interlúdio instrumental de “Little Raver” ecoa Pet Sounds e Sgt. Pepper’s ao mesmo tempo, “O Retirante” alinha Sérgio Mendes e a bossa nova política do Teatro de Arena e do Opinião de Nara Leão, “Um Sorvete Pra Você” poderia estar no Panis et Circensis, “Violão de Aço” clona, em partes diferentes, Walter Franco e Bob Dylan e “A Menina Super Brasil” requenta Marcos Valle e Mutantes via Stereolab. Isso quer dizer que Júpiter Maçã cresceu? Só ele pode dizer.
24) Júpiter Maçã - Uma Tarde na Fruteira
Júpiter Maçã- “A Marchinha Psicótica do Doutor Stu“
Aos poucos, Britney Spears vem construindo uma discografia considerável - e se afirmando como uma das artistas mais importantes da atualidade. Ponha as aspas no “artista” caso se o seu escárnio queira, mas mesmo que ela não mova um centímetro na concepção estética de sua carreira (o que é mentira), ela tem uma qualidade que funciona sob quaisquer condições, uma espécie de fotogenia tridimensional, que faz com que ela se encaixe em toda paisagem em que é posta, no topo do pop adolescente ou no fundo do poço sensacionalista. Enumere todas as cantoras da recente safra de “novas musas” desta década e só com muita boa vontade todas elas, juntas, podem chegar perto do impacto de Britney - talvez apenas Amy a peite de igual para igual, o que aumenta ainda mais a importância de Ms. Winehouse (dado que, primeiro, ela é uma artista no sentido tradicional do termo e, depois, poir possuir apenas dois discos na carreira e três anos de exposição), mas essa é outra história. Mesmo completamente produzida pelos powers-that-be de uma indústria que insiste em negar a própria derrocada, Britney reúne méritos que vão além de sua futilidade pessoal ou de sua voz de pato - e funciona seja produzida pelo N*E*R*D ou James Murphy, seja num filme adolescente qualquer, mostrando a calcinha, participando de um seriado ou regravando Bobby Brown. Circus, aclamado como “grande volta” por quem só foi ouvir “Gimme More” do começo de 2008, na verdade é a continuação de uma reinvenção iniciada em Blackout, em que Britney sacode a poeira de dois fantasmas do passado - o ícone teen e a biatch pé-na-jaca - e se reveste com a cobertura que provavelmente a acompanhará por toda a carreira, a de diva pop, equiparando-se a Madonna e Kylie Minogue, enquanto deixa para trás Rihannas, Aguilleras, Katy Perrys, Feists, Duffys e Adeles. O único porém é sua insistência em baladas horrorosas - e em Circus elas são “Out from Under” e “My Baby”. O resto, no entanto, desce redondíssimo e funciona em qualquer situação e não apenas na pista de dança.
25) Britney Spears - Circus
Britney Spears - “Circus“
Se analisarmos as carreiras de Dangermouse e Beck ao mesmo tempo, é possível traçar diversos paralelos, de diferentes naturezas, sejam estéticas ou temáticas, que levariam ambos a, inevitavelmente, trabalharem juntos em algum momento de suas vidas. Mas ao mesmo tempo em que seus marcos e clássicos (“Loser”, o Gray Album, Odelay, “Feel Good Inc.” e “Dare”, The Information, “Crazy”, Midnite Vultures) tendem a rotulá-los como artesãos do pop descartável irônico, como se fossem artistas plásticos que descobriram o toque de Midas do hit e o usassem sempre tendendo à brincadeira e ao humor, existe um lado negro intrínseco aos dois. E longe do soul ensolarado e da psicodelia pseudo-californiana (olhando direito, o Beck é pai do MGMT) existe uma tristeza de blues que ambos não escondem em sua música, embora deixem propositalmente em segundo plano, como um segredo que só os amigos mais próximos podem saber. Sob este ponto de vista, toda carreira do produtor que é metade do Gnarls Barkley torna-se subitamente melancólica – da cor escolhida para sua estréia no showbusiness (o cinza do mashup de Beatles com Jay-Z) à dor recolhida tanto em “Crazy” quanto em qualquer outra música de sua dupla com Cee-lo – sem contar o tom noturno que sua produção deu a discos tão diferentes quanto à estréia do The Good, The Bad & The Queen quanto o último do Black Keys. Beck, por sua vez, destila sua tristeza quase sempre sozinho, caminhando por pântanos e praias à noite, ao violão (Mutations) ou ao piano (Sea Change), sempre sublinhando sua necessidade por mudança. Em Modern Guilt, o azul da paisagem é composto por samples e colagens sonoras, mas nunca com as cores quentes do humor infantil, dos trocadilhos espertinhos ou da nostalgia retrô. Não que isso queira dizer que o disco é horizontal e sem solavancos – pelo contrário, o groove e o ritmo tomam conta de quase todas as músicas, embora na maioria das vezes tenha uma função meramente contemplativa, de balançar a cabeça concordando enquanto se dirige. É isso: em vez de outro passeio apreciando a natureza, Beck se propõe à introspecção na estrada, pegando carona com motoristas que são diferentes personalidades de Dangermouse.
26) Beck - Modern Guilt
Beck - “Youthless“
O quarteto paraibano Burro Morto pode ser encarado como mais uma das bandas a engrossar o coro da cena instrumental que cada dia se torna mais forte à medida em que a primeira década do século termina. Mas há pouco pós-rock e noise na equação do grupo, aproximando-o muito mais de um cânone que, apesar de não ser propriamente nordestino, tem raízes fortes naquela região. É uma geração cuja criatividade foi desperta e liberada pela Nação Zumbi ainda com Chico Science e que encontra ecos no Instituto, no Cidadão Instigado, no dub de Lucas Santtana ou na psicodelia do Guizado. O som é um híbrido de gêneros setentões afeitos á jam session, como o funk, o jazz-funk e o jazz-rock, mas temperado com psicodelia africana, timbres elétricos, dub e efeitos hipnóticos. Em quatro músicas, eles mostram que não estão pra brincadeira.
27) Burro Morto - Varadouro
Burro Morto - “Navalha Cega“
De quando é esse disco mesmo? Os Black Keys sempre caminharam para trás, enquanto toda dupla guitarra-bateria queria fugir de qualquer sonoridade retrô, Dan Auerbach e Patrick Carney apontavam cada vez mais para o passado - como se lamentassem que toda geração alt.country e pós-folk ignorasse a influência da eletricidade no espírito da música americana do século 20. Com a produção assinada por ninguém menos que Danger Mouse (que, a princípio, tinha convencido a dupla a compor um disco para o Ike Turner - e que depois da sua morte acabou se transformando no Attack & Release - valeu Danilo!), o quinto disco dos dois é de uma ignorância selvagem sequer referida pelo século 20. E assim o disco nos leva para ensaios do Experience de Jimi Hendrix, para jam sessions contínuas do Crazy Horse, para a Band com Dylan castigando seus ex-fãs ortodoxos, para a épica ausência de sutileza do Led Zeppelin ou um fim de tarde interminável com os Derek & the Dominos. Não deixe se enganar pelo hit “Strange Times” - a única concessão do disco para o mundo moderno (funciona tanto na pista quanto no GTA IV) -, Attack & Release é um disco de blues rock com cheiro de poeira e certa fumaça psicodélica no ar, o suficiente para embriagar o ambiente já tomado pela rispidez hipnótica da guitarra e pela selvageria lenta da bateria.
28) Black Keys - Attack & Release
Black Keys - “Strange Times”
Ok, a fórmula é a mesma do Girl Talk, mas, começando pelo fato de João ser do Brasil, as coisas são bem diferentes. Pra começar, Big Forbidden Dance não é só uma reinvenção de uma carreira - e sim mais uma camada na obra de um artista que tem músicas batizadas de “Cobrinha Fanfarrona” ou “Mônica Waldvogel”, autor de um hit preciso (a indefectível “Baranga”, cujo clipe homenageia “Sultans of Swing” do Dire Straits) e parceiro de cariocas tão diferentes quanto Mr. Catra (”Pau Molão”) e De Leve (”Mamãe Virei Capitalista”). João Brasil chama-se João Brasil (não é nome artístico) e leva às últimas conseqüências o dúbio gosto que assola nossa nacionalidade. O que é brega e o que é fino para o brasileiro? Big Forbidden Dance, portanto, pode ser visto como um manifesto sobre o que é considerado de mau gosto pelo brasileiro (e inclusive nesse ponto não deixa de ser um disco essencialmente tropicalista) ao mesmo tempo em que uma apropriação carioca da metralhadora de mashups bolada por Greg Gills - a diferença aqui está, basicamente, na referência de bom/mau gosto. Boa parte do hip hop que toma conta dos dois discos do Girl Talk são o equivalente americano do pagode - que João substitui pelo funk carioca. E usando loops e loops de tambozão e atabaques eletrônicos, ele vai costurando hit atrás de hit, cutucando a nossa memória ao mesmo tempo em que força a dança. E tome “Feira de Acari” com “Ghostbusters”, Farofa Carioca com Faith No More, “Besame Mucho” com Grandmaster Flash, Lenny Kravitz com Iron Maiden, Digitalism com “Gimme More”, “Big in Japan” com Avril Lavigne, “Som de Preto” com Mallu Magalhães, RPM com LCD Soundsystem, Soup Dragons com “How We Do” (que mais na frente encontra o tema de Indiana Jones),”D.A.N.C.E.” com “Don’t Stop til You Get Enough” (ou melhor dizendo, o tema do Video Show). É como se perguntasse, entre dezenas de hits estrangeiros, o que diabo tem nesse país que consegue produzir Roberto Carlos, João Gilberto, Mutantes, Raul Seixas, Sepultura, Racionais, Cansei de Ser Sexy, Belo e o “Créu”?
29) João Brasil - Big Forbidden Dance
O disco de 2008 sela a reabilitação de Chan Marshall depois de começar a década com o pé na jaca. Deixando a marvada pinga de lado, ela refaz seu Covers Records, do ano 2000, à luz da nova sobriedade. Assim, se seu outro disco de versões começava impaciente com uma releitura quase exausta para “Satisfaction” dos Rolling Stones, Jukebox abre sorridente e relaxad e Chan recria o hino “New York” como se ele tivesse sido composto para a Band gravar. E com isso sai o fantasma do rock’n'roll para dar lugar ao espírito de gêneros musicais anteriores. E no lugar do rock surgem a soul music, o country, o blue e até o gospel (via Bob Dylan), que são hipnotizados pela deliciosa voz áspera e preguiçosa da senhorita. A temperatura é tão quente e confortável quanto o anterior The Greatest, mas Chan está tão à vontade ao microfone, que é possível ouvi-la esticar-se e reclinar-se (como na capa) a cada vogal esticada ou vocal solto no ar. Jukebox ainda conta com um irmão caçula - o EP Dark End of the Street - que, além da faixa-título, traz versões para Creedence Clearwater Revival, Otis Redding, Sandy Denny e Aretha Franklin, e complementa o disco lançado bem no começo de 2008 (e, por isso, esquecido por muitos) como um bis perfeito.
30) Cat Power - Jukebox
Cat Power - “New York“
Do you listen to your classical records any more?
Or do you let them sleep in their sleeves, where they be?
Do you suffer through those records that you turned around?
Or do you make them sleep in their sleeves where they weep?
Department of Eagles - “Classical Records”
Gigas de MP3 soltos, enchendo pastas e diretórios virtuais. Algum deles até formam discos, têm capas e seus autores são conhecidos por mais de 100 mil pessoas. Mas a vasta paisagem sonora de músicas produzidas em 2008 é composta por dezenas de milhares de artistas anônimos que não são conhecidos por mais que dez mil ouvintes - e a tendência é que isso se agrave e, em pouco tempo, estaremos, todos os seis bilhões de pessoas do mundo, fazendo música para dois ou três gatos pingados ouvirem. Isso é ruim? Não para mim - não é exagero pensar que mais música foi produzida na primeira década do século 21 do que em todo século 20 e não vejo como isso pode ser ruim. Existe, sim, outro problema com essa maçaroca de músicas mendigando três ou quatro megas de espaço no seu HD - a falta de ambição, de aspiração à grandiosidade, de disposição rumo a algo que vá ficar na história sem precisar, necessariamente, reinventar a roda ou criar um gênero tipo melancia-pendurada-no-pescoço-rock. A brusca mudança que aconteceu com o Department of Eagles pode dar um rumo para esse pop oba-oba dos anos 00. O projeto paralelo do carinha do Grizzly Bear (Daniel Rossen) era um laboratório de colagens de beats e samples quando foi criado, há cinco anos. Mas depois de tanto tempo marinando à espera, Rossen e seu compadre Fred Nicolaus transformaram o DoE em outra história. Em In Ear Park, sai o experimentalismo DIY eletrônico e em seu lugar entra a precisão para compor canções que pertencem a um cânone do século passado - quando a música feita para adolescentes começou a aspirar a eternidade. Estou falando de um material de composição que une autores como os Wings de Paul McCartney, Brian Wilson, Burt Bacharach, John Lennon, Randy Newman, Todd Rundgren, Harry Nilsson, Arnaldo Baptista, Alex Chilton, Andy Patridge, Steely Dan, Roxy Music, Joni Mitchell, Scott Walker, Raspberries e Traffic. Sim, músicas escritas ao piano, quase sempre cantando a infância e a inocência (o disco é dedicado ao pai de Rossen, que morreu no ano passado), que se alongam para além dos três minutos de duração e ultrapassam a estrutura estrofe-refrão-estrofe, sem cair no experimentalismo porraloca, em busca de uma narrativa (tanto lírica quanto musical) que equivalha a de um livro. Em alguns momentos (”Waves of Rye”, “Teenagers”, “Phantom Other”) o volume das guitarras aumenta para além do clima setentão, alinhando a dupla com o Mercury Rev e o Flaming Lips da virada do século, mas por quase todo In Ear Park o clima - cheio de violões dedilhados, banjos, teclados, cordas e percussão de orquestra (são tocadas ou sampleadas? Realmente não sei) e muito, muito piano - é bucólico e introspectivo, mesmo quando soa épico e se leva muito a sério. É, de longe, a melhor coisa que Rossen já fez na vida.
31) Department of Eagles - In Ear Park
Department of Eagles - “Teenagers“
“Essa lição você tem que aprender: você só ganha o que você merece”, diz a voz em português no início do tão aguardado terceiro disco do Portishead, anunciando uma desoladora paisagem sonora: ribombo de percussão, cordas sintéticas, ruídos de guitarra - tudo cessa quando entra a voz de Beth Gibbons, dramática e chorosa. A atmosfera pós-punk, o ritmo tenso, a temperatura fria e a voz épica confirmam que estamos tanto em 2008 quanto no meio de um disco do Portishead. Mas onde estão as canções? Por mais que as texturas e camadas de som superpostas pela base instrumental da banda seja afiadíssima, a melodia se desfaz entre grunhidos elétricos, teclados “colocados”, ecos e efeitos barulhentos. Fora a belíssima “The Rip” (que lá pela metade perde toda sua beleza rumo a um arranjo minimalista e industrial sem vontade), todo o resto do disco subiria algumas posições caso fosse uma digressão instrumental, uma sinfonia de ambiências que teria parentesco tanto na música eletrônica erudita quanto no hip hop sem MC ou no pop com aspirações à seriedade. Mas sem a voz da banda para defender dramas e tragédias como se chorar fosse sinônimo de cantar e canções estruturadas tradicionalmente (estrofe, refrão, estrofe, etc.), o novo do Portishead soa como um tiro no escuro: plasticamente é lindo, mas tanto quem atira quanto quem ouviu o disparo não conseguem saber se algo foi atingido.
32) Portishead - Third
Portishead - “The Rip“
Se o mashup é o gênero musical que melhor reflete a década (remixada, esquizofrênica, rock e dance ao mesmo tempo, infame e divertida), Girl Talk é o espelho que os 2ManyDJs haviam imaginado no ano 2000. Mas se o Night Ripper tinha sido um dos discos cruciais para entender 2006, neste ano Gregg Gills simplesmente fez um upgrade básico, sem propor nada propriamente novo. A impressionante montanha russa de samples ainda causa espanto e delírio ao mesmo tempo em que é impossível acompanhá-la de forma racional - esqueça quem está cantando o que, deixe-se levar pelo convite de ouvir boa parte da produção pop do final do século 20 num flashback no liquificador, que não tritura as diferentes partes dos singles usados transformando-os em uma maçaroca de som - e sim os derrete com gosto e pulso firme, deixando todos os temperos usados facilmente reconhecível. Feed the Animals ainda se deu ao luxo de desafiar abertamente os detentores dos direitos autorais usados - se o primeiro disco teve uma prensagem mínima e foi mais distribuído em formas não tradicionais de divulgação oficial (como sites de compartilhamento e redes P2P), o Girl Talk em 2008 tinha endereço virtual para ser encontrado e quem quisesse ainda podia pagar por sua obra, como o Radiohead havia cogitado em 2007. Mas mesmo repetindo a própria fórmula, Gills ainda conseguiu fazer um discaço - tão bom quanto importante. Agora é torcer para ele se reinventar - porque ele sabe que essa é a regra.
33) Girl Talk - Feed the Animals
Girl Talk - “Give Me a Beat“
Diplo pode ser o picareta que conhecemos, mas seu faro para perceber quando algo está esquentando é invejável - e logo que Santogold começou a aparecer no sismógrafo da música pop mundial, ele já deu um jeito de chamá-la para seu lado e, como fez com a M.I.A. em 2004, apresentá-la como estrela de uma mixtape. E, usando a compilação como uma tela, fez questão de exibir tons que tivessem a ver com as faixas da cantora que ele queria usar - assim, “L.E.S. Artistes” emenda com o Cutty Ranks, seu remix para “Lights Out” do Panda Bear (com Santogold no vocal) é seguido por Aretha Franklin, Devo e B-52’s, a versão para “Guns of Brixton” do Clash (que vira “Guns of Brooklyn” com novo vocal) fica entre uma instrumental do trombonista Desmond Dekker e uma versão para “Iko Iko”. Mais um passeio pelo terceiro mundo, desta vez com a cabeça na Jamaica. É só acender.
34) Diplo & Santogold - Top Ranking
Diplo & Santogold - “Guns of Brooklyn”
“Meu respeito à graça e à virtude/ Minhas condolências ao bem/ Mande lembranças à alma e ao romance/ Eles sempre fizeram o melhor que puderam/ E adeus devoção/ Você me ensinou tudo que sei/ Despeça-se/ Deseje-me bem/ Você tem que me deixar”. Tá ali, no meio de “Human”, a declaração de que os Killers são outra banda. Day & Age é praticamente um renascimento do grupo de Las Vegas, que deixa para trás a pompa e a circunstância do rock de arena para abraçar o pop radiofônico e a pista de dança (características já presentes na discografia da banda, mas levadas ao extremo). O olhar, no entanto, ainda é majestático e grandiloqüente, embora, como o próprio Brandon Flowers sublinha, toda fleuma e sensação de auto-importância tenha saído de cena. Agora o Killers é uma banda que contempla a vida mundana, olhando tudo de cima para baixo não mais com empáfia, mas com pena, como o alienígena de “Spaceman”. Alinhando-se a um cânone que é mais chegado à canção pop e ao piano do que ao refrão e o riff, de artistas como David Bowie, Pet Shop Boys, Spandau Ballet, Tears for Fears, Soft Cell, George Michael, Human League e Pulp. Ao trocar a estética do Queen pela do Duran Duran, o Killers fez seu disco mais consistente e divertido, ainda que melancólico e pensativo.
35) Killers - Day & Age
Killers - “Spaceman“
Uma das melhores coisas da nova cena sueca do início deste século, a dupla Studio, formada por Dan Lissvik e Rasmus Hägg, abriu mão de compor suas próprias músicas esse ano para retrabalhar obras alheias - e assim visitam Kylie Minogue, A Mountain of One, Shout Out Louds, Love is All, entre outros. E por cima de canções de naturezas diversas, vão carburando sua suave e densa mescla de dub, disco music suave, house sutil, muita percussão, instrumentos acústicos e som ambiente, deixando sua assinatura musical impregnada em toda atmosfera do disco. Coisa fina.
Love Is All - “Turn The Radio Off (Studio Remix)”
Por uma questão de acerto de contas com a minha adolescência, não pude deixar de assistir o finzinho do show do Jesus & Mary Chain para pegar o Foals no festival do Terra desse ano - mas quem foi garante que assistiu a um dos melhores shows do ano. Não é difícil imaginar: seu disco de estréia é como se o termômetro do primeiro disco do Rapture estivesse quase inteiro no Gang of Four e muito pouco no Cure, com a diferença que o Foals é energia em estado bruto. Antidotes é inteirinho bom, raridade nessa época de MP3, mas, ao mesmo tempo, é linear demais: se nenhuma faixa decepciona, nenhuma chega a se destacar demais em comparação com as outras. E não tem mal nenhum nisso, assim eles fazem um disco de estréia como deve ser feito: gastando todo o pique da adolescência em um disco sem gordura, sem enrolação. Se engatarem bem o segundo disco, vão longe.
37) Foals - Antidotes
Foals - “Cassius“
Lembro quando Wado começou a flertar com a música eletrônica e ele me falava empolgado da descoberta de um novo instrumento (a groovebox) e de letras que tinham um pé na pornografia como se pudesse zerar a própria carreira e cair - literalmente - de boca em uma nova versão de si mesmo. Ficava pensando no que poderia vir. Era 2006 e a época marcava o auge do Cansei de Ser Sexy no exterior, o começo do hype ao redor do Bonde do Rolê e mais uma época de vacas gordas (sem trocadilho, plis) para o funk carioca. Imaginava a possibilidade esdrúxula do compositor catarinense-alagoano voltar electro, celebrando o hedonismo e o fake, temperado com batidas secas, putaria e zero melodia - algo como uma “versão noite” para sua obra praiana. Qual o qUê. Terceiro Mundo Festivo, o quarto disco de Wado, é justo o contrário - é seu disco mais diurno e em vez de deixar o ar noturno contagiar seu trabalho, usou de sua latinidade para fazer o litoral nascer no bailão. Assim, o suor que pinga não é só o do movimento da dança, mas também o da preguiça de deitar-se ao sol. O truque foi usar riffs e baladas ao piano como contrapeso dos beats eletrônicos - quase todos criados a partir de timbres acústicos. Mesmo quando uma possível mundanidade lírica surge, ela é modesta, se comparada, por exemplo, com a putaria de Caetano Veloso no experimental - e chato - e Cê: uma “buceta” que rimaria com o título da faixa “Teta” é deixada no ar pelo cantor, enquanto o refrão de “Recado” (”escuta amor/ O som do bate-estaca / No coração no meu coração empaca / Eu vou te fazer puta”) é apenas bonito - Wado segue fino, embora cutuque algumas feridas, como o rádio (”Reforma Agrária do Ar”) e a imprensa (o protesto de “Fita Bruta” me lembra o de “Look Inside America”, do Blur). E assim segue o disco: o groove latino lo-fi de “Faz-me Rir” contrapondo-se à a levada de baile de “Lucrécia” ao som de gaivotas que ecoam no horizonte, sob um mar com textura de teclado jovem guarda. Wado espreguiça-se, alheio ao fato do Brasil sequer conhecer um de seus principais compositores.
38) Wado - Terceiro Mundo Festivo
Wado - “Reforma Agrária do Ar“
Jamie Lidell passou por uma situação mais ou menos parecida com a dos Gnarls Barkley, a diferença é que sua “Multiply” não chegou sequer perto do sucesso de “Crazy” (que pena). Mas isso, por outro lado o liberou para fazer um disco essencialmente pop e mergulhado na soul music sessentista, sem as incursões pela música eletrônica e pelo multiinstrumentalismo do disco que levava o nome de seu principal hit. Como o barulho feito por “Multiply” foi modesto, Jamie não teve ressalvas na hora de mirar nos hits e isso torna seu segundo disco em um rosário de faixas ensolaradas (”Wait for Me”, “Figure Me Out”, “Little Bit of Feel Good”, “Another Day”, “Hurricane”, “Out of My System”), com instrumentação mínima (solinhos de guitarra nos detalhes, teclado vintage temperando tudo, percussão milimétrica, baixo derretendo) e altíssimo astral soul music. Até nas músicas mais bucólicas (”Rope of Sand”, “All I Wanna Do”) , mesmo cutucando a tristeza, Jim desperta um sorriso. Um ás da soul music moderna, fico pensando o estrago que ele faria caso produzisse o próximo disco de Amy Winehouse…
39) Jamie Lidell - Jim
Jamie Lidell - “A Little Bit of Feel Good“
Uma artista com senso de consumação. A sueca Lykke Li foi criada em Portugal, o que deu a seu pop descarado uma característica melancólica e triste, unindo o horizonte limpo e desolador de ambos países em uma mesma linha musical que mistura melodias fáceis, vocais açucarados (às vezes, demais) e texturas polares. É pop eletrônico mas ao mesmo tempo é folk nórdico, como se Cat Power e Kylie Minogue fossem a mesma pessoa e tivessem nascido em uma aldeia esquimó e os poucos recursos que tivesse para fazer música fossem um violão, um teclado simples, uma bateria eletrônica e as palmas de alguns amigos ao redor de uma fogueira. Youth Models, seu primeiro disco, equilibra canconetas descartáveis (”Breaking it Up”, “Let it Fall”, “Complaint Department”) com baladas densas e contemplativas (”This Trumpet in My Head”, “Window Blues”, “Time Flies”). Às vezes ela acerta nos dois pontos ao mesmo tempo, em faixas que beiram a perfeição, (não fosse a timidez), como “Little Bit” e “I’m Good, I’m Gone”. E é aí que ela se revela promissora.
40) Lykke Li - Youth Novels (senha: WhereThe)
Lykke Li - “Little Bit“
Dangermouse deu um tempo em sua escalada ao topo do pop para se preocupar essencialmente com música. Vocês conhecem a carreira do cara e sabem como cada canção, remix ou mashup, além de preciosamente cuidado, vinha com uma sacada estratégica para se posicionar no mercado pop: seja fundir Beatles com Jay Z no infame Grey Album, produzir o segundo disco dos Gorillaz, lançar “Crazy” antes em MP3 (fazendo a faixa ser a primeira canção digital a chegar no topo de uma parada), as apresentações de cosplay na TV. Para driblar a inevitável síndrome do segundo disco, o produtor e seu parceiro Cee-lo resolveram concentrar-se essencialmente em música e, como se comemorassem o fato de pertencerem à Atlantic (a mesma casa por onde já passaram Ray Charles, John Coltrane, Aretha Franklin e o Led Zeppelin), gravaram um disco de soul music para o século 21. Sim, é um pacote de canções apaixonadas, timbres vintage, refrões memoráveis e vocais deliciosos, mas o clima passa longe dos vôos de coração ou odes à dor de cotovelo do gênero em sua fase áurea, nos anos 60. Como pede a tensão instaurada em nosso século, Odd Couple é um disco sobre confusão, sensação de perda espiritual, apatia, medos que se avizinham e um cheiro de algo podre no ar ao mesmo tempo em que chama para a pista de dança, para o balcão do bar, para o escuro da noite, para o canto do banheiro. Os dois responderam à espera por uma nova “Crazy” com um disco que, embora não tenha uma “Crazy” (abertamente de propósito), soa como se a faixa fosse um disco - sua ansiedade, fobia, paranóia e claustrofobia espalhadas por treze canções, com começo, meio e fim, em que melodias (empolgantes ou tristes) se fundem perfeitamente com o ritmo. E se Dangermouse mostra que seu instinto musical vai além dos sons pré-gravados (seria a presença da sombra de Mark Ronson no pop mundial?), Cee-lo flutua por todo o disco. E se sua voz fosse o único motivo para argumentar a favor da sobrevivência do formato álbum, bastaria. (E, mesmo assim, os dois conseguiram criar factóides online - seja ao “vazar” a faixa “Run” antes da hora, chamar o ?uestlove do Roots para apresentar “Who’s Gonna Save My Soul?” ao público - além do próprio clipe, megadramático -, antecipar o lançamento do disco logo que ele vazou inteiro online e usar uma maneira bizarra - liberar o download do disco inteiro de trás pra frente [?!] - para criar um mailing online).
41) Gnarls Barkley - The Odd Couple
Gnarls Barkley - “Going On“
Nick Cave melhora à medida em que envelhece - isso é fato. Mas diferente do estereótipo (raro) do roqueiro velho que, aos poucos, vai deixando o barulho de lado e tornando-se um intérprete respeitável, ele não nega seu passado - o projeto Grinderman, do ano passado, já mostrava que ele não estava disposto a envelhecer como um baladeiro no piano (não que isso fosse ruim, afinal, Nick Cave baladeiro é melhor do que 90% do povo que compõe baladas hoje em dia). Mas se Grinderman era cru e, de certa forma, quase adolescente, como envelhecer com uma banda de rock - ainda mais se a banda em questão é o Bad Seeds? Dig Lazarus Dig responde à essa pergunta com convicção e força bruta, mas sem nem cair no ruído reminiscente do Birthday Party nem forçar a barra para parecer maduro. Afinal, nem precisa: maduro, Cave já é há umas duas décadas, pelo menos. A solução para o dilema veio com a sombra da influência do velho bardo americano. Dig Lazarus Dig é dylanesco do começo ao fim: relatos apocalípticos sobre paisagens desoladas, discursos bradados do alto do púlpito, viagens intermináveis pelo interior dos EUA, personagens bíblicos perdidos num cotidiano em colapso em canções que, embora tenham em sua maioria menos de cinco minutos, poderiam ser estendidas por horas ao vivo. Mas antes que você comece a imaginar que Cave esteja resmungando ao microfone, vai com calma: ele, ao contrário de Dylan (que nunca se considerou cantor), conhece a força e o alcance de sua voz, elevando composições terrenas para vôos à força. Com o dedo em riste enquanto a outra mão busca o coldre, Nick Cave pode estar velho, mas está longe de se aposentar. Sorte nossa.
42) Nick Cave & the Bad Seeds - Dig Lazarus Dig!
42) Nick Cave & the Bad Seeds - “Dig Lazarus Dig!“
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