OEsquema

Arquivo: rashida jones

Fight For Your Right – Revisited comentado

Todo mundo já ouviu falar, mas quem se dignou a assistir à meia hora de autoesculhambação a que os Beastie Boys se submeteram ao lançar seu novo disco? Comento o clipe a seguir, por isso assista-o para não reclamar de spoilers.

O filme começa no final do clipe de “Fight for Your Right (to Party)“, de 1986, quando, depois que os Beastie Boys destroem o apartamento de um casal de velhos ao convidar um monte de maus elementos para jogar tortas nas caras uns dos outros (sim, tortas, muitas tortas), entre outras coisas não tão finas – como destruir uma TV com uma marreta. Galopando escadas abaixo após a destruição, os Beastie Boys já não são tão boys assim – Danny McBride é um MCA quase caminhoneiro, Seth Rogen é um Mike D sedentário e só Elijah Wood aparenta ter o físico e a disposição de Ad Rock daqueles dias de glória, numa de suas interpretações mais cativantes.

O trio central, no entanto, não deixa sua idade nem deformidades físicas atrapalhar suas performances como beasties adolescentes.

Após descerem as escadas, encontram com o mesmo casal que abre o vídeo de 25 anos atrás, vivido desta vez por Stanley Tucci e Susan Saradon. Depois de uma discussão aparentemente sem roteiro – “no pie, no sledgehammer team” é a cara dos improvisos de Seth Rogen – saem à rua para continuar a festa. Aos 4:20 Ad Rock convida Rashida Jones (a filha do Quincy, vestida com a mesma roupa que usa em A Rede Social) para uma pizza, pouco antes do MCA de McBride estourar a porta de vidro de uma loja de conveniência que estava fechada para pegar cerveja. É quando a parte “clipe” do vídeo começa e os três atores simplesmente encarnam os Beastie Boys de vez, dublando-os impecavelmente (Wood, de longe, o melhor deles, em poucos instantes em que sua atuação é tão importante quanto o resto de sua carreira). E enquanto rimam, jogam cerveja nos outros – como no Will Arnett do Arrested Development, que passa tranquilamente lendo um jornal, num táxi dirigido pelo Adam Scott do Parks & Recreation (que carrega um velho conhecido dos beastie boys como passageiro – Sir Stewart Wallace, o personagem de MCA no clipe de Sabotage, desta vez vivido pelo diretor de clipes Mike Mills) e num casal de religiosos (Rainn “Dwight” Wilson e Arabella Field).

O clipe diminui sua velocidade em uma das muitas variações de pitch desta meia hora – mas o rap se metamorfoseia numa composição eletrônica de Wendy Carlos, nos levando para território hostilmente kubrickeano. Os Beasties invadem um restaurante fino (o “Château de Ted et Michel Dée”, empreendimento citado nominalmente na letra de “Make Some Noise”) como a gangue de Alex de Large adentrou na leiteria Korova, arruaceiros num ambiente de fino trato – e lotado de participações especiais, pisque e perca alguém: Ted Danson é o mâitre, Steve Buscemi o garçom e entre os comensais estão Laura Dern, o diretor de clipes Roman Coppola, Amy Poehler (do Saturday Night Live e Parks & Recreations), Alicia Silverstone, Milo Ventimiglia (o Peter Petrelli de Heroes), Shannyn Sossamon (a Gingy Wu do How to Make it in America), Mary Steenburgen (do Curb Your Enthusiasm, mulher do Doc Brown no De Volta Para o Futuro) e Jason Schwartzman (que é creditado como… o Van Gogh do clipe de “Hey Ladies“!).

Mais uma vitrine quebrada e o grupo volta a rappear “Make Some Noise”, até que McBride rouba o skate de uma adolescente vivida por Losel Yauch (filha do MCA original), cruza a pista e é atropelado por uma limusine, que leva umas groupies para alguma banda de metal – interpretadas por Maya Rudolph, Kirsten Dunst e Chlöe Sevigny.

Esta última esfaqueia Ad Rock quase casualmente, enquanto a banda finge que é a banda de apoio do Bon Jovi e toma ácido como se fosse refrigerante.

E aí o Will Ferrell aparece tocando cowbell (“more cowbell!“) enquanto logo depois ele surger fantasiado de mariachi sobe no topo da limo (mais referência ao clipe de “Hey Ladies“). O jeito que essa cena é filmada pode ser considerado uma referência ao clipe de “Shake Your Rump“, da mesma época de “Hey Ladies”.

Imagina a quantidade de piadas internas que um vídeo desses deve enfileirar e a gente mal fica sabendo…

Viajado bonito, o clipe começa a alternar a velocidade da música, criando “ecos visuais” para a paisagem e o passeio dos beasties, e citando personagens que transitam entre a realidade e a ficção – como o vendedor de cachorro quente, vivido por Clint Caluory, que é creditado como se fosse o comediante Zach Galifianakis (de Se Beber, Não Case) fazendo o papel de George Drakoulias (o produtor dos Black Crowes, do Dust do Screaming Trees e do disco southern rock do Primal Scream, que foi homenageado nominalmente no Dead Man, no Paul’s Boutique, no Steve Zissou e no Jornada nas Estrelas do JJ Abrams). Mais adiante, Ad Rock/Elijah Wood segura a “câmera” do caricato diretor suíço Nathaniel Hörnblowér, o personagem tirolês vivido por Adam Yauch para dirigir todos os clipes dos Beastie Boys desde 1990. Em Fight…, Hörnblowér é vivido pelo comediante David Cross, do já clássico Mr. Show. Logo depois o Mike D de Seth Rogen encontra ninguém menos que Johnny Ryall, personagem-título de uma das faixas mais pitorescas do Paul’s Boutique, mendigo que se dizia rockstar do rockabilly, lavando o vidro de um carro e vivido por… Orlando Bloom, hahaha.

Até que a música para, o vento assovia (como no início de “Johnny Ryall“, veja só), passa uma bola de feno e os beasties encontram um velho Delorean com um tubo amarrado em seu capô. De dentro saem, fantasiados com as mesmas roupas que os três, Will Ferrell, John C. Riley e Jack Black, que logo se apresentam como os Beastie Boys do futuro e os desafiam para um concurso de break. Arrogantes e escrotos, os Beastie Boys do futuro discutem entre si e mal conseguem tirar o piso enrolado no capô de seu carro, enquanto o Mike D de Seth Rogen cogita que eles estão sendo apresentados a uma das versões possíveis do futuro da banda, “o fantasma de Licensed to Ill”, diz o MCA de Danny McBride, antes de constatar que “nós no futuro somos uns completos idiotas”.

Tem início a parte mais besta do filme, quando começa o campeonato de dança e nenhum dos dois trios é formado por atores propriamente dançarinos, e o tal concurso vira uma exibição de passinhos bestas e requebros preguiçosos cuja monotonia só é quebrada quando Elijah Wood começa a fazer o clássico passinho da “minhoca” no chão e o Mike D de John C. Riley começa a MIJAR EM CIMA DELE. O WTF não para por aí e só piora na medida em que todos os beasties revidam igualmente, tirando os paus pra fora e mijando uns nos outros. Só piora: vemos os rostos de cada um deles em closes fechados, tomando mijadas de todos os lados diretamente na boca. Nojento, grosseiro, inesperado e engraçadaço – como os beastie boys dos anos 80. O clipe termina de forma abrupta, com a chegada da polícia, cujos principais tiras são apenas os próprios Beastie Boys da vida real, dando bordoadas e borrachadas em seus clones hollywoodianos. Dá para ver melhor o logotipo de uma das lojas da rola, o CAFÉ MIJANO, antes do camburão carregar os mijões pra delega e um letreiro nos prometer uma terceira parte daqui a 25 anos.

Mas isso não é uma análise do vídeo, é apenas uma longa descrição em que tagueei as principais referências que pularam pelo clipe, uma versão audiovisual daquele infográfico da capa do Sgt. Pepper’s em que apenas os contornos das personalidades são realçados para que, através de uma lista de números, descubramos quem é quem. Não me admira o caráter enciclopédico dos beasties – a lista de vastas referências já é um formato escolhido pelo grupo tanto em clipes quanto em discos (é memorável a avalanche de samples em Paul’s Boutique e Hello Nasty ou de referênciais visuais nos clipes de “Sabotage” ou “Intergalactic”) e o grupo não parece ter escolhido seu nome por algum outro motivo além de posicioná-los entre os Beach Boys e os Beatles em qualquer ordem alfabética. Neste sentido, Fight For Your Right – Revisited mais do que um clipe, algo que mistura tanto cinema quanto videogame. A caça por referências a cada esbarrão é um convite ao espectador para ativar sua memória em relação a “quem é mesmo essa pessoa/esse disco/esse livro/esse filme?”, uma brincadeira exercitada pelos gênios do showbusiness atual, como JJ Abrams, os irmãos Coen ou Lady Gaga (esta última, depois eu falo melhor disso, em franca decadência). Os Beasties aceitam o convite feito por Michael Jackson em “Thriller” e resolvem entrar para um escalão de videoclipes que almeja o reconhecimento cinematográfico, clipes com cara de filme. 25 anos depois de terem dado a cara pela primeira vez, eles ainda se dispõem a desafios. E chamam sua turma de Hollywood para não fazer feio nesse novo nível. O resultado é o clipe acima.

Fight For Your Right – Revisited é, no entanto, um mea culpa e a consagração de uma assinatura. Mea culpa pois consagra o lapso de consciência que os Beastie Boys tiveram no final dos anos 80, algo parecido ao surto de lucidez que John Lennon teve logo após conhecer Yoko Ono, dizendo que se não tivesse encontrado sua mulher, terminaria sua carreira cantando “Blue Suede Shoes” em Las Vegas. Assim os Beastie Boys de Wood, Rogen e McBride se reconhecem nos beasties de Ferrel, Riley e Black. Se eles continuassem agindo daquela forma que agiam em 1986, seriam idiotas para o resto da vida. Daí a importância do questionamento consciente do Conto de Natal de Charles Dickens: se aqueles são os Beastie Boys do futuro, é melhor mudar o futuro.

O que, aparentemente é o que aconteceu, parece sublinhar o final do clipe. Mesmo que nada tenha dado certo, só o fato dos Beastie Boys terem encontrado eles mesmos mais velhos foi determinante para que eles seguissem outro curso, e mudassem de Nova York para a Califórnia, trocando Rick Rubin pelos Dust Brothers e o hard rock pelo groove setentista que passou a dar o tom de sua nova carreira. Não é difícil saber que o grupo olha para seu passado arruaceiro com uma dose de arrependimento, o próprio MCA (Adam Yauch) já deu várias entrevistas lamentando ter arruinado a vida de muita gente e seu fascínio temporário por armas. Não custa lembrar que Yauch é um personagem central nessa história: não é só ele o beastie boy que virou budista e organizou os concertos pró-Tibet nos anos 90 como teve câncer no ano passado, adiando o lançamento do novo disco do grupo para esse ano.

Mais do que isso: Yauch é o diretor e roteirista de Fight For Your Right – Revisited. E antes que se assustem com o súbito talento do MC, não custa lembrar que Yauch se escondia atrás do pseudônimo Nathaniel Hörnblowér para dirigir a grande maioria dos clipes dos Beastie Boys. Foi ele que, fantasiado de tirolês, invadiu a premiação da MTV norte-americana em 1994 para protestar contra “a farsa” que era o clipe vencedor (“Everybody Hurts” do R.E.M.) e dizendo que ele havia sido o criador da idéia original de Guerra nas Estrelas. Quase vinte anos depois de criar este personagem (que “dirigiu” o longa Awesome I Fucking Shot That, além dos clipes), Yauch dá adeus ao europeu e assume seu nome na direção do clipe, encerrando o média metragem com pelo menos mais uma promessa de vídeo, daqui a 25 anos.

É o momento de amadurecimento que reconhece a importância da adolescência descerebrada. A idade pode até estragar o título da banda, mas, na cabeça, os três ainda são boys.

6 Comentários

The real Beastie Boys

“Beastie who?”

O trailer abaixo é mais um degrau na história do oitavo (ou nono) álbum dos Beastie Boys, Hot Sauce Committee, que iria ser lançado no ano passado, mas teve de ser adiado devido ao fato de 1/3 do grupo, Adam Yauch, ter pedido licença para tratar de um câncer, que, felizmente, foi curado. O disco foi adiado para o início deste ano e a banda – que já havia sido anunciado como um projeto em pelo menos duas partes – deu um um cavalo de pau nas expectativas ao dizer que o volume 2 viria antes do 1. E agora eles me soltam esse vídeo…

É só um teaser do filme de meia hora Fight for Your Right to Party Revisited, que além de ter duas versões dos Beastie Boys – uma com Will Ferrell, John C. Reilly e Jack Black, a outra com Danny McBride, Elijah Woods e Seth Rogen (também prefiro a segunda, só o Elijah rimando e andando num trechinho já valeu ter assistido) – ainda conta com Rainn Wilson, Maya Rudolph, Rashida Jones, Jason Schwartzman, Alicia Silverstone, Susan Sarandon, Laura Dern, Chloë Sevigny, Zach Galifianakis, Amy Poehler, Ted Danson, Steve Buscemi e Kirsten Dunst.

Demais.

8 Comentários

Rashida Jones + Rocky

Devido ao ritmo lento do jogo, Vinícius gasta duas cartas na seqüência. A primeira é a bela Rashida, ex-The Office e adEvogada no A Rede Social., vestindo uma camiseta do Rocky Balboa. Curti.

1 Comentário

Eleição à americana

“That’s entertainment!”

É engraçado ver o que os EUA estão fazendo com a política. Tá certo que a mudança do discurso para a cosmética não é nem um pouco nova – e remonta a um Nixon mal encarado e suando no primeiro debate televisionado da história, em que Kennedy parecia um galã de Hollywood. Mas o que estamos assistindo em 2008 é a transformação definitiva da política, ao menos da campanha, em showbusiness. Perto da eleição McCain x Obama, a imagem de Bush sendo maquiado pouco antes de entrar em cadeia nacional para falar da Guerra do Iraque – que, uma vez vazada, foi usada originalmente por seus adversários para mostrar um suposto desdém para com o que o presidente americano iria dizer -, parece normal, um mínimo de preocupação estética, em 2008.

O show em que se transformou a campanha eleitoral dos EUA teve um capítulo especial no meio do mês passado, quando os dois candidatos baixaram a guarda para participar do jantar oferecido pelo Alfrend E. Smith Memorial, um evento tradicional das eleições americanas em que os protagonistas podem ficar mais à vontade. Eis os discursos dos dois candidatos, com algumas aspas traduzidas do discurso (a transcrição dos dois discursos na íntegra pode ser lida aqui). Primeiro, McCain:

“Essa campanha precisava do toque comum de um trabalhador. Afinal, começou há muito tempo com a celebrada chegada de um homem conhecido por Oprah Winfrey como ‘The One’. Como sou colega e amigo de Barack, posso chamá-lo de ‘That one’. E eles, meus amigos, ele não liga nem um pouco. Na verdade, ele tem até um apelido para mim – George Bush”

“Eu sou o vira-latas nestas últimas semanas. Mas se você souber onde procurar, vai encontrar esperança. Há sinais de esperança nos lugares mais improváveis – até mesmo nesta sala cheia de democratas de Manhattan. Eu não consigo deixar de acreditar que há pessoas que estão torcendo para mim. Que bom te ver aqui hoje à noite, Hillary!”

“Onde está Bill, falando nisso? Ele não consegue descansar uma noite sequer para tornar o homem que venceu sua esposa o próximo presidente? Quando um repórter perguntou a ele se o senador Obama era qualificado para ser presidente, ele respondeu, ‘claro, ele tem mais de 35 anos e é um cidadão americano’”

“Em todo caso, sabemos que o senador Obama está pronto para qualquer contingência – mesmo na possibilidade de uma crise de mercado dramática e repentina. Ouvi dizer que, aos primeiros sinais de recuperação, ele irá suspender sua campanha e voará imediatamente para Washington para cuidar desta crise”

Depois, Obama:

“Estou emocionado por ter sido convidado e me sinto em casa aqui porque sempre disseram que eu caso a política de Alfred E. Smith com as orelhas de Alfred E. Newman”

“É uma honra estar aqui com Al Smith. Eu obviamente não conheci seu tataravô, mas depois de tudo que o senador McCain me contou, sobre o ótimo tempo que eles tiveram juntos antes da Lei Seca… Belas histórias”

“Recentemente, um dos principais conselheiros de John McCain disse ao Daily News que se nós continuássemos falando sobre a economia, McCain iria perder. Então aqui estou para falar sobre a economia”

“Olhando ao redor, toda essa comida fina e champanhe, é claro que nenhum gasto foi contido. É como um encontro de executivos da AIG”

“Vocês sabem, estivemos debatendo muitas destas questões econômicas durante a campanha, mas ultimamente as coisas se tornaram mais duras. Nas últimas semanas, John continuou sua campanha perguntando ‘Quem é Barack Obama?’. Tenho de admitir que eu fiquei surpreso com essa pergunta, já que a resposta está bem ali na minha página do Facebook”

“‘Quem é Barack Obama?’ Diferente dos rumores que vocês devem ter ouvido, eu não nasci em uma manjedoura. Na verdade, nasci em Krypton e fui mandado para cá pelo meu pai Jor-El para salvar a Terra. Muitos de vocês – muitos sabem que eu herdei o nome Barack do meu pai. O que vocês não sabem é que Barack é o termo swahilli para ‘aquele ali’. E meu nome do meio foi tirado de alguém que obviamente nunca havia pensado que eu poderia concorrer à presidência”

“Se tivesse que dizer qual é a minha maior força, eu diria que é minha humildade. Minha maior fraqueza é que eu sou bom demais”

“Eis outra revelação, John McCain tem um bom ponto. Houve realmente um ponto em minha vida quando eu comecei a circular com uma turma da pesada. Tenho que ser honesto, esses caras eram casos perdidos, baixos, ignóbeis, inúteis. É verdade: eu fui integrante do senado americano. Pensando nisso, John, eu juro que te vi em um de nossos encontros”

“Por falar nisso, tem uma coisa que me deixa curioso: a FoxNews pode ser considerada uma mídia?”

Isso é entretenimento. É um dos grandes legados da cultura americana para o resto do planeta – frases de efeito, tiradas rápidas, piadas que exigem uma certa descontextualização momentânea para fazer sentido, ironia fingindo não ser ironia, diálogos ágeis e um sorriso no rosto. Não interessa qual é a mensagem, é esse espírito que une o Pernalonga, Marlon Brando, Eazy E, Elvis Presley, Michael Moore, John Kennedy, Tony Soprano, Martha Stewart, John Wayne, Martin Luther King, os Beastie Boys, Jerry Seinfeld, Eddie Murphy, Charlton Heston, Homer Simpson ou Marilyn Monroe. É dos motivos de gostarmos tanto da cultura deles.

Mas nestas eleições, mais do que nas passadas, o entretenimento e a política caminharam tão próximos que, em alguns momentos (como os vídeos acima), pareciam ser um só. É a tal da política pop, em que plano de governo, argumentos racionais e aliados políticos ficam em segundo plano se comparados ao carisma televisivo.

E mesmo se ascensão de Obama parecia inevitável, graças a este elemento televisivo (ou à ausência dele) que sua vitória começou a ser dada como certa. O ponto principal: a nomeação da vice de John McCain, Sarah Palin, e sua subseqüente demolição feita por Tina Fey que, devido à sua semelhança com a candidata, voltou ao Saturday Night Live várias vezes para viver o papel de Palin.

Políticos e humoristas sempre andaram de mãos dadas (mesmo a contragosto), mas faltava à Sarah Palin as qualidades que tornaram a cultura americana tão central em nossa era. Sem um pingo de desenvoltura, carisma próximo de zero e um estreito conhecimento sobre cultura geral, ela tornou-se um alvo perfeito. E se os republicanos achavam que colocar uma mulher como vice ia contar pontos a favor de McCain, o desempenho de Palin foi crucial para enterrar as esperanças finais de McCain.

(Isso não quer dizer que ele não possa ganhar. Lembre-se que a eleição do ano 2000 foi fraudada com os republicanos FORA da Casa Branca. Não duvide que agora que eles têm a máquina na mão, não vão tentar algo. Fora essas urnas de tupperware… E neste link há outros motivos que mostram como McCain pode ganhar, mesmo com a Obamania)

Mas há quem queira dizer que a culpa pelo tombo chamado Sarah Palin é de Tina Fey, o que é uma bobagem. Nem o Alec Baldwin acha isso, embora tenha participado topar do quadro que o Saturday Night Live fez com a candidata a vice para tentar acalmar ânimos rednecks:

O problema não é a falta de preparo para a política – mas a falta de preparo para o showbusiness. Sarah Palin não pertence a este universo, apenas ao da política no Alaska, que ainda sobrevive longe dos holofotes e dos olhares do mundo. Por isso, falta-lhe estofo para concorrer uma eleição que, na verdade, é um espetáculo. Veja o que diz um bom exemplar deste universo sobre a possibilidade de Palin estar pronta para este novo ambiente:

É isso aí, nem Schwarzenegger acha que ela está pronta – o que não quer dizer que ela não possa, um dia, ser presidenta dos EUA. Ela acaba de entrar num jogo de tubarões – e sua carreira política pode passar por uma plástica moral e, em quatro anos, poderemos ver Sarah Palin esperta e ágil em suas respostas, pronta para o público.

McCain e Obama já estão. Num país em que é possível ter aulas de oratória e discurso ainda no primeiro grau e que todos os estudantes são incentivados a, quem sabe um dia, concorrer à presidência dos EUA (afinal, eles são a “terra das oportunidades”), a política sempre esteve incutida no dia-a-dia de cada cidadão americano, mesmo que ele não perceba.

O que mudou dos tempos de George Washington para cá e que não basta o político ser sério, íntegro, dedicado e pronto para debater qualquer assunto. Ele deve ter boa aparência, fotografar bem, falar sem gaguejar, ser simpático, agradável, divertido, cool.

Fora toda a mudança que a internet está trazendo para o sistema político como um todo (demos uma bela geral na capa do Link desta semana, as matérias podem ser lidas aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), estamos vendo o entretenimento entrar de vez na política. McCain e Obama é quase um confronto entre Bob Hope e Chris Rock – duas faces do American way of entertaining.

Mas, no fundo, é a velha política americana em ação, apenas assumindo que os tempos mudaram e que é preciso ganhar um eleitorado que é cada vez mais global. Mas não se engane, a mudança é estética. Na prática, eles ainda se vêem desta forma:

Afinal, como diz a Natalie Portman e a Rashida Jones (aquela primeira namorada do Jim no The Office), “no dia 4 de novembro, faremos a decisão mais importante da nossa geração”. E a escolha delas é uma só:

Bem-vindos à política do século 21.

5 Comentários