OEsquema

Arquivo: thomas pappon

Fellini, 1999

Aproveito a deixa pra ressuscitar uma entrevista que fiz com Cadão, Thomas e Jair na época da primeira volta do Fellini, em 1999. O grupo ainda voltaria de novo para lançar um disco, justamente Amanhâ é Tarde, e fazer outros shows anos depois.

***

Em plenos anos 80, quando as rádios mascavam chiclete, as gravadoras usavam óculos escuros e rock era sinônimo de pop no Brasil, um grupo apareceu para mostrar que existia algo além do clichê rock’n’roll. Compondo sambas quadrados sob guitarras pós-punk, o Fellini era uma banda improvável numa década previsível. Formado por Cadão Volpato, Thomas Pappon, Jair Marcos e Ricardo Savagni, o grupo teve uma carreira marcada por fins e retornos, lançando toda sua discografia apenas por gravadoras independentes – num tempo em que a diferença entre independente e improvisado era nebulosa. Mas o grupo ia contra a corrente e se estabeleceu como um marco no pop brasileiro – a banda mais alternativa do rock nacional (antes mesmo de alternativo ser moda). Lançaram quatro discos (O Adeus de Fellini, Fellini Só Vive Duas Vezes, 3 Lugares Diferentes e Amor Louco), entre 85 e 90, quando pediram as contas. O grupo voltou à ativa no fim do ano passado quando deu três shows (em São Paulo, no Rio e em Brasília) e o Trabalho Sujo aproveitou o gancho para recontar a história do grupo. Pra isso, pedi ajuda a três quartos do grupo (Cadão, Thomas e Jair) em entrevistas separadas via email.

Quem formou o Fellini? Como a banda começou? Houve algum marco inicial da banda?
Cadão –
Thomas Pappon e eu. Tocamos pela primeira vez em maio de 1984, acho, num lugar chamado Alpendre, no Bixiga, em São Paulo. Arnaldo Batista, dos Mutantes estava neste show.
Thomas – Num papo de boteco, eu e o Cadão decidimos formar um grupo. Eu queria “compor” e tocar baixo (estava com o saco de cheio de tocar bateria, ficar confinado ao fundão e não ter muitas chances de apresentar idéias para canções). O Cadão queria fazer letras. Depois chamamos o Jair para a guitarra – que tinha tocado com o Cadão num grupo anterior, do qual não lembro o nome. Finalmente, quando ja tínhamos composto umas três músicas, cruzamos com o Ricardo, que estava começando a tocar bateria. E, sim, há um “marco”: por coincidência, nosso primeiro ensaio com a banda completa, foi no dia 18 de maio de 84 na casa do Ricardo. Era o quarto aniversario da morte de Ian Curtis. Nada como nascer cult.
Jair – Eu e o Cadão, tocávamos no grupo Toque de Recolher, punk rock meio militante, em 83. Mas o Stefano, que tocava baixo, detinha 90% da aparelhagem e resolveu acabar com a banda. Tempos depois, o Cadão me ligou, dizendo que tinha encontrado com o Thomas e queria formar um novo grupo. É bom lembrar que anteriormente, em 81, eu (no baixo), o Minho K (na guitar) e o Thomas (bateria) tambem já havíamos formado o The Internationalists. O nome, inclusive, era uma alusão aa 4a. Internacional. Tocávamos de new wave (Talking Heads, B-52’s, Joe Jackson, Pretenders, XTC, etc.) até Rita Lee, Luís Melodia e King Crimson… Animávamos as festas universitárias da USP, PUC, etc.Bem, então em maio de 84 nós nos encontramos numa lanchonete próxima à PUC. Ali acertamos de começaruma nova banda. O Thomas logo se apressou em nos chamar ate a casa dele, no Morumbi, para iniciarmos o primeiro ensaio, na mesma noite. Fomos num fusca azul do Thomas, quando o mesmo sugeriu o nome: “Fellini”. Uau, eu e Cadão aceitamos de imediato. Neste primeiro ensaio saíram riffs de duas ou três músicas, jamais gravadas, pelo que me lembro… Aí, chamamos o Ricardo Salvagni para tocar bateria (nem lembro como ele surgiu, pois não fazia parte da rapaziada que sempre se encontrava). Comecei com a guitarra, o Thomas no baixo e o Cadão cantando e compondo as letras.

Por que Fellini?
Cadão –
Fellini foi a primeira sugestão do Thomas. As bandas, nesta época, usavam nomes seriíssimos, pós-punks, como Mercenárias, Número 2, Voluntários da Pátria etc.
Thomas – Nesse mesmo boteco, eu e o Cadão fizemos um rápido brainstorm. Fellini foi um dos primeiros nomes sugeridos. Talvez por causa do nosso amor pelo cinema e por um disco que ouviamos muito na epoca, o Feline dos Stranglers, o nome ficou.
Jair – Bem, quem não gosta do nome? Soa bem, em primeiro lugar. E também todos sempre fomos amantes do cinema. Podemos hoje até considerar como uma homenagem ao Federico Fellini. Também gostavamos de um disco dos Stranglers chamado Feline. O Thomas fez a “salada” e o nome saiu…

O primeiro disco chama-se O Adeus do Fellini, que iniciou uma pequena obsessão sobre o fim do grupo. O que o “fim do Fellini” evocava pra vocês?
Cadão –
É uma brincadeira. Havia um disco do Durutti Column chamado The Return of Durutti Column. Achamos engraçado começar pelo fim, mas sempre quisemos acabar mesmo.
Thomas – O Cadão vai dizer que a idéia veio do Return of The Durutti Column, o primeiro disco do Durutti Collumn, mas não me recordo disso. Que me lembre, o Adeus… foi uma especie de gimmick dadaísta, que ironizava a fragilidade e a brevidade das bandas alternativas da época. Como é que um grupo desses poderia vir a fazer mais de um álbum? Também acho que isso foi uma tomada de posição, uma atitude politica mesmo, para deixar claro, desde o comeco: o Fellini nunca seria igual as outras bandas de “rock”.
Jair – Pra mim, encarava o nome do disco como algo surrealista. Particularmente, eu nunca gostaria que o grupo tivesse terminado, especialmente nessa primeira fase. Sim, eu pensava em ganhar dinheiro como fizeram o RPM, os Titãs, etc. Mas a história tomou um outro rumo para a gente, uma espécie de sucesso num “universo paralelo”. O grupo terminou pelo menos umas três vezes pelo que me lembro. Engraçado, o nome do primeiro disco acabou se tornando uma sina pra gente. Porém, eu via o nome apenas como uma brincadeira.

Toda discografia do grupo saiu via independente. Como é olhar pra trás e ver que vcs conseguiram sobreviver num meio que mal existia nos anos 80?
Cadão –
Motivo de muito orgulho e sobressalto pela cara-de-pau. A gente era muito ousado.
Thomas – Me lembro bem de como era difícil lançar discos na época. Mas creio que nós soubemos nos aproveitar bem da maior lição do punk, a do faça-você-mesmo. Não tínhamos nada a perder, todos na banda sabiam que jamais poderiamos viver do Fellini. Cada um dos quatro álbuns que lançamos foi como o parto de um filho. Estão entre as melhores lembranças da minha vida.
Jair – Acho realmente incrível. A estranheza que o nosso som causava à primeira impressão acabou virando o mote para o nosso “sucesso”. Muitos até não gostavam do grupo numa primeira ouvida, depois se acostumavam, gostavam e passavam a adorar. Genericamente falando, deve ter acontecido muito disso por ai. Olha, nos 80 havia uma cena interessante, sim. Ouviu falar de um suposto movimento auto-intitulado “Rock Paulista”? Pois é, fazíamos parte disso. Havia muitos shows em Sampa. Existiu um lugar de pouca vida chamado Napalm, onde muita gente começou a se apresentar (diga-se Ira!, Capital, etc.). Ai teve o Madame Satã, o Carbono 14 e o Radar Tantã. No final da decada, surgiu o Espaço Retrô. Todos estes espaços foram palcos de muitos encontros e projetos… E todos sobreviviam de certo modo…

Que tipo de música vocês ouviam nos anos 80? Quem influenciou o Fellini musicalmente?
Cadão –
Ouvíamos Stranglers, The Fall, db’s, Velvet. Mas as influências mesmo são de uma certa bossa nova um pouco mais oculta que aquela praticada pelos tops da MPB. De alguma forma eu me deixei influenciar – modestamente, claro – pelos gogós de Lúcio Alves e Serge Gainsbourg e pelas valsinhas dos Stranglers.
Thomas – No começo, apenas bandas européias como as inglesas The Fall, Stranglers, Joy Division, New Order, Gang Of Four, Cure e as alemãs Palais Schaumburg e Fehlfarben “palácios e cores que falham”). De influencia nacional, apenas o Lóki? do Arnaldo Baptista.
Jair – Bem, como narrei acima, com certeza: ouvia tudo de new wave, que acredito ter sido uma das bases da influencia do Fellini. Mas os 80 foram bem longos. Bem no comecinho eu e outra roda de amigos não perdiamos um só show do Colégio Equipe, organizados pelo Serginho Groisman. Na época, cheguei a assistir Adoniran Barbosa & Clementina de Jesus, Raul Seixas, Jorge Mautner… Eu apreciava muito a MPB daqueles idos. Através do Thomas, conheci muita coisa mesmo. O pai dele sempre trazia um grande pacote de encomendas quando voltava de suas costumeiras viagens à Alemanha. Ai, já viu, né? No início, o Fellini teve influências sim, principalmente do rock inglês. Depois enveredamos para um trabalho mais experimental, mais MPB (os sambas eletrônicos…), que acabaram caracterizando bem o estilo do grupo…

Qual o maior legado do Fellini?
Cadão –
Independência e senso-de-humor.
Thomas – Duas coisas. Primeiro, a atitude, a postura de anti-banda, como forma de criar um contrapeso ao clichê “roqueiro”, ditado pelas grandes gravadoras e grande maioria das bandas. Nós assimilamos totalmente a imperfeção, o erro, a falta de técnica. Trocamos de instrumentos e quase nunca tocávamos as músicas que as pessoas esperavam ouvir. Com isso tentávamos privilegiar a ironia, a idéia, a leveza, a surpresa e a sensibilidade. Segundo: a nossa música, que era encantadora, sedutora e que revelou um letrista pós-moderno impressionista sem parâmetros no pop nacional. Um gênio.
Jair – Acredito que o reconhecimento de público e críitica seja o maior deles. não existe nada tão gratificante. Ouvi dizer que deixamos muitas pessoas felizes com nossa aparição no fim do ano. Este é o maior legado, na minha opinião, pode crer.

Um marco na carreira do grupo foi empatar com os Titãs como melhor disco do ano na votação da Bizz em 87. Como foi isso?
Cadão –
Um barato, pois eles ficaram putos.
Thomas – Um escândalo! Na verdade, era para o Fellini ter sido escolhido sozinho no primeiro lugar. A redação da Bizz alterou a votação para que isso não acontecesse, pois a fúria dos Titãs, das bandas e das gravadoras seria inevitável. O José Augusto Lemos e o Alex Antunes podem confirmar essa história. Repito: Um escândalo!
Jair – Creio que sim, com certeza. Eu, particularmente, não participei deste trabalho. Os caras podem narrar melhor a experiencia vivida.

Qual o melhor disco do Fellini? Por quê?
Cadão –
Talvez o terceiro, Três Lugares… Mas o que eu gosto mais, porque é fuleiro e atrevido, é o Fellini Só Vive Duas Vezes. Até um guarda-noturno fortuito aparece nele, pois gravávamos na sala de jantar do Thomas.
Thomas – Eu mesmo me pergunto isso várias vezes, cada dia acho uma coisa. Todos são imperfeitos, mas todos são tão legais… Erm, vejamos, talvez o Amor Louco.
Jair – Eu voto no primeiro e no terceiro. O Adeus de Fellini foi uma das melhores coisas que fiz na vida até aqui. Foi o meu primeiro disco também. O Thomas já tinha gravado com o Voluntários… Tivemos dificuldades técnicas, claro, mas o repertorio foi bem acertado, os efeitos (ruídos de helicóptero, máquina de escrever, sino, galo cantando…) e alguns arranjos (trumpete e cello) formaram a receita de um bolo que deu bastante certo e muita repercurssão. E 3 Lugares Diferentes considero o mais criativo em termos de musicalidade e letras. Mereceu o titulo de 87, com certeza. Mas gosto dos outros também (hoje também me considero um fã, re re).

Fale um pouco sobre a ida do Fellini aos EUA.
Cadão –
Tocamos (eu e Thomas, apenas) no Village, em Nova Iorque, num lugar chamado Kenny’s Castaway, onde havia cerca de 30 brasileiros saudosos. Mas o sujeito da Rolling Stone, escrevendo para a Bizz, adorou. Está registrado.
Thomas – Foi apenas um show no Kenny’s Castaways em Nova York, para umas 40 pessoas. Por problemas de visto, fomos apenas eu e o Cadão. Tocamos umas 7 músicas, abrindo para o Ira!. Foi legal. O cara da Rolling Stone adorou.
Jair – Bem, pra mim, foi muito ruim. Eu e outros convidados da banda não conseguimos visto. Muitos músicos de outras bandas também foram barrados no terrível consulado americano. Da banda, somente o Thomas e o Cadão viajaram e se apresentaram numa coisa bem intimista, que parece ter dado certo. Mas, segundo eles, o local não estava muito cheio e a maioria era de brasileiros. Não gosto muito de lembrar do episódio…

Quando, onde e por que o Fellini acabou?
Cadão –
A rigor, o Fellini acabou em 1991, quando extinguiu-se o último fôlego. Thomas foi morar na Europa, não tinha mais sentido continuar.
Thomas – O Fellini não acabou, apenas suspendeu suas atividades por causa da minha mudança para a Europa.
Jair – No início dos 90. O grupo apenas se dissolveu, sem traumas.

Quais suas melhores lembranças do tempo do Fellini?
Cadão –
A amizade dos camaradas, as letras malucas que ocupavam minha cabeça até durante o sono, as namoradas da época, a sensação (motivada pela boa fé do Thomas) de que seria uma coisa para a posteridade, as músicas ainda cruas, sem as letras (a sensação de tê-las ouvido pela primeira vez). Foi muito legal.
Thomas – Ah, são as lembranças das gravações dos 4 álbuns. Nós tinhamos controle total sobre tudo, o tempo inteiro, e os discos dependiam diretamente do nosso esforço. Quando as gravações estavam prontas, vinha a melhor parte. Passava tardes inteiras sentadas num boteco, imaginando a capa, a ordem das músicas, os créditos, as fotos, tudo. Como isso é legal. Quanto aos shows, minhas lembranças não são muito boas, exceto a do show de lançamento do Adeus de Fellini no Madame Satã em dezembro de 85. Mudei do baixo para a guitarra, toquei sentado, o Ricardo passou da bateria para o teclado e ritmo eletrônico. Foi um show sensacional, as pessoas não acreditaram. Não tocamos uma única música do Adeus de Fellini!
Jair – Várias: o primeiro ensaio na casa do Thomas, o primeiro show num lugar chamado Albergue, aqui em SP, os tempos “malditos” de Madame Satã, a gravação do Adeus…, a entrevista no Rio para a Per Lui italiana, as costumeiras sessões de fotos, um incrível show em Porto Alegre (89), as cervejadas com o Thomas… Enfim.

Você gostou dos shows de volta?
Cadão –
Provavelmente foram os melhores que nós já fizemos.
Thomas – Não hesito em dizer que os shows de Brasília e Rio de Janeiro estão entre os 3 melhores que já fizemos.
Jair – Sem comentários, simplesmente maravilhosos.

E o próximo disco? Sai?
Cadão –
Não. O Fellini não volta mais.
Thomas – Who knows? Sinceramente, não vejo muitas perspectivas.
Jair – É, meu amigo, pirigas, pirigas. Vamos esperar os ânimos das internas e das externas.

TODO FELLINI (até 99)


O ADEUS DO FELLINI (85)
Definição: Alto astral subliminar.
Uma Letra: “Toda vez que eu ouço falar em cultura/ Saco meu talão de cheques” (Cultura)
Gracinha no vinil: Lados “Ema” e “Siri”.
Instrumento esquisito: Máquina de escrever.
Hit: “Rock Europeu”


FELLINI SÓ VIVE DUAS VEZES (86)
Definição: Transição intransitável.
Uma Letra: “O amor é uma droga/ nem dá barato”(Todos os Dias da Semana)”
Gracinha no vinil: Desenho de um “burro” de escola
Instrumento esquisito: Trumpete vocal.
Hit: “Alguma Coisa Vai Dar”


3 LUGARES DIFERENTES (87)
Definição: Humores diferentes.
Uma Letra: “Mudar de lugar/ Ou mudar o lugar?” (Valsa de La Revolución)
Gracinha no vinil: Um enorme número 3 no rótulo do lado B
Instrumento esquisito: Zumbido.
Hit: “Teu Inglês”


AMOR BARATO (90)
Definição: Samba-eletrônico
Uma Letra: “Cidade perdida/ Joga as cascas pra lá” (Amor Louco)
Gracinha no vinil: Reprodução da capa no rótulo
Instrumento esquisito: Cavaquinho.
Hit: “Chico Buarque Song”

6 Comentários

“Não tenho nada com isso”

Uma bula para entender o mito Arnaldo Baptista

Lá fui eu em pleno domingo pós-Tim Festival assistir à última sessão da Mostra de São Paulo dedicada ao incensado Loki, o documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre o mutante Arnaldo Baptista. Sou de uma geração posterior à que consumiu Arnaldo in natura, em tempo real, cronologicamente. O conheci basicamente graças aos heróicos relançamentos que a Baratos Afins fez, ainda em vinil, de toda discografia do grupo, incluindo aí os dois primeiros discos solo de Rita Lee (Build Up, que contava com Mutantes espalhados por todo o disco, e Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, o “sexto disco” dos Mutantes, cronologicamente posicionado após o quinto – Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets – mas registrado como solo de Rita) quanto o mítico primeiro disco do cérebro do grupo, o denso e emotivo álbum que batiza o documentário.

(Vale um parêntese curto aqui para falar do paralelo entre o rock independente brasileiro como cena e a carreira do mutante, uma vez que a gravadora Baratos Afins, que era – e ainda é – uma loja de discos na Galeria do Rock de São Paulo, começou a existir graças à decisão, vista por muitos como kamikaze, de Luiz Calanca em lançar um segundo disco de Arnaldo. Perdido e isolado ao final dos anos 70, ele juntou seus cacos criativos – e brilhantes – para lançar outro disco igualmente denso e sentimental [embora menos emotivo] quanto Lóki, Singin’ Alone. Este lançamento também é o primeiro disco independente lançado por uma gravadora independente diretamente influenciada pelo punk inglês. Não foi à toa que o escolhi como o marco zero do rock independente brasileiro, nesta lista que fiz há tempos.)

E a história que ouvi a partir daqueles discos foi a de que o Brasil tinha um grupo tão disposto a experimentos no estúdio e tão afeito ao pop redondo quanto os Beatles. Batizados por Ronnie Von, como rezava a lenda, o grupo era de onde havia saído a Rita Lee, que surgia no rock brasileiro dos anos 80 do mesmo jeito que Iggy Pop apareceu no meio dos punks. Além dela, dois irmãos formavam o núcleo central de um grupo que ainda tinha em sua formação o mesmo Liminha que transformava bandas de moleques em novos popstars (o “nono Titã”) e o irmão do repórter de Fórmula 1 na Globo, o Reginaldo Leme. Era um grupo cujos personagens ainda habitavam o imaginário daquela década, mesmo que os Dias Baptista não produzissem mais nada que chamasse atenção dos jornais de então.

A lenda que a minha geração ouviu naqueles nove vinis (cinco dos Mutantes, dois de Rita e dois de Arnaldo) era a saga de uma amizade adolescente pirando na própria felicidade (em que a comparação com os Beatles realçava tanto o humor preto no branco de 1964 quanto as roupas coloridas de 1967) que continha a história de um casal que, graças ás drogas, deu ao filme dos Mutantes um desfecho sombrio. Em três discos perfeitos, a banda foi o melhor intérprete e compositor de um gênero fabricado, o tropicalismo, ao mesmo tempo em que assumiam o papel de principal banda de rock da história do Brasil – posto que, ainda nos anos 80, não era almejado por nenhum dos protagonistas daquela década. O contato com as drogas fez o grupo aos poucos se desintegrar em solos intermináveis e seriedade forçada – ainda mais para uma banda que era naturalmente divertida.

No centro da banda, o casamento de Arnaldo e Rita funcionava como principal ponto de equilíbrio artístico e musical da banda, mesmo que ele fosse o mais próximo de um líder que os Mutantes podiam ter – e à medida em que o rock progressivo contaminava a agenda do grupo, Rita aos poucos se via fora da brincadeira original. Partiu a banda e separou-se de Arnaldo – a ordem, na verdade, ninguém sabia dizer -, e isso fez com que os Mutantes deixassem de vez de ser uma banda pop, afundando-se no atoleiro do virtuosismo e composições épicas. E a separação de Rita foi definitiva para dar início à derrocada de Arnaldo, que ainda teve uma sobrevida entre o fim dos Mutantes e o começo dos anos 80, mas foi drasticamente abalada após a queda de quatro andares sofrida na noite do reveillon de 1981 para 1982. Meses em coma, Arnaldo foi salvo por uma fã que tornou-se namorada e parceira. Lucia Barbosa, a Lucinha, o faz mudar-se de São Paulo para um sítio em Juiz de Fora, onde as seqüelas de sua queda passavam a ser tratadas lentamente, usando a pintura como um talento descoberto, para tentar voltar a fazer música pouco a pouco.

Isso era o resumo do que, nos anos 80, sabíamos sobre a banda mais formidável da música pop brasileira, um grupo de músicos, compositores e intérpretes que pouquíssimas vezes encontraram par no século passado. Assim, longe do mainstream que um dia freqüentaram (e freqüentavam, vide Rita e Liminha), a história dos Mutantes e a saga de Arnaldo tornaram-se objeto de culto. E, lentamente, esta história começou a perder seu lado informal e lendário para dar início a um processo finalizado com o recente retorno da banda, fazendo os Mutantes finalmente assumir, com méritos, seu posto de lenda viva da cultura brasileira.

Do final dos anos 80 e durante os anos 90, a partir do relançamento dos discos pela Baratos Afins, vimos uma série de acontecimentos que, pouco a pouco, traziam à tona o mito dos Mutantes: entrevistas feitas por Sonia Maia, o fraco terceiro disco solo de Arnaldo (Disco Voador, raríssimo hoje em dia), uma primeiríssima e heróica tentativa de biografia do grupo feita por Thomas Pappon na Bizz, o disco-tributo Sanguinho Novo (com a nata do rock alternativo da época e que inaugurou a carreira de jornalistas que se tornaram produtores de universos bem diferentes durante os anos 90, Alex Antunes e Carlos Eduardo Miranda), a biografia udigrudi de Marcos Pacheco e a convencional de Carlos Calado, a chegada dos discos ao formato CD (que desenterraram o prog O A e o Z, primeiro disco dos Mutantes sem Rita, que não havia sido relançado nos anos 80), os relançamentos de discos de Arnaldo pela recém-chegada Virgin no Brasil (que republicaria Singin’ Alone e os discos da Patrulha do Espaço, ficando apenas no primeiro álbum), a descoberta de Mutantes por Kurt Cobain, outro disco-tributo (Triângulo Sem Bermudas, com artistas mais conhecidos do público em geral, como Gil, Lulu Santos, Planet Hemp, Pato Fu, Ney Matogrosso e Barão Vermelho), a coletânea lançada pela gravadora de David Byrne (Everything is Possible), uma capa (a primeira na história do grupo!) na penúltima encarnação da revista Bizz, a participação de Arnaldo no show de Sean Lennon no Free Jazz do ano 2000 e no festival Com:Tradição (também de Alex Antunes) em 2003 e, finalmente, a reformulação da banda com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee.

Graças a esta série de eventos – e outros que aconteceram no meio do caminho -, as atenções sobre a obra da banda cresceram e atingiram outras gerações, que, graças à sua indefectível qualidade, se deslumbravam com a história do grupo de amigos que, brincando, eletrificou a MPB e ampliou os horizontes da música pop no Brasil como nenhum outro artista depois dele – e também com a trágica história de seu fim, que vê uma banda ceder ao lado mais pomposo do rock ao mesmo tempo em que seu romance central desmorona, dando início à queda de uma das melhores cabeças da música brasileira.

E Fontenelle faz seu Lóki a partir disso. Reconta a história da banda e de Arnaldo a partir do show de volta em Londres, voltando para a infância de Arnaldo, entrevistando amigos pessoais, sua mãe Clarisse, seus colegas de banda (menos Rita, que não toca no assunto Arnaldo praticamente desde sua saída da banda) e outros músicos da época. A história é amparada por entrevistas recentes com o mutante e por imagens de arquivo que, verdade seja dita, são o que fazem o documentário merecer as notas 10 que tem recebido.

É um trunfo monumental. São imagens que valem ouro, ainda mais quando se cresceu à sombra de uma lenda cujo imaginário era estático. Os pouquíssimos registros em vídeo dos Mutantes – ou mesmo de Arnaldo solo, antes da queda – que haviam aparecido até os anos 90 eram vistos com solenidade e espanto. Afinal, a banda, diferentemente de seus colegas de geração, havia desaparecido do inconsciente coletivo nacional e seu registro em vídeo mais memorável era como coadjuvante de Gilberto Gil na apresentação de “Domingo no Parque” no festival da TV Record em 1968. Assim, à medida em que se desenterraram fitas de Super-8 ou velhos programas de TV, a imagem em movimento dos Mutantes era montada como se recuperasse um afresco da Idade Média: era um vídeo de “Fuga nº2″ aqui, uma aparição num filme nacional esquecido, comerciais feitos para a Shell, imagens caseiras sem som. Cada vez que se desenterrava um pequeno filme desses, o retrato dos Mutantes tornava-se menos sombrio e mais parecido com seu próprio som, alegre, ensolarado, jovem, divertido.

O filme de Fontenelle, nesse sentido, é praticamente uma revelação. Só a cena de Arnaldo Baptista tocando uma música de seu primeiro disco solo num piano posto na carroceria de um caminhão em movimento já vale todo o documentário. Mas Lóki vai muito além. Há entrevistas com a banda em seus primeiros dias de Mutantes e Arnaldo vem com uma inocência quase caipira quando fala em fazer rock no Brasil. Há vários trechos de apresentações ao vivo, além de uma série de fotos raras, trazendo imagens ainda mais diferentes da banda no palco (que levava seu nome ao pé da letra, ao apresentar-se cada vez fantasiada de uma forma). E várias entrevistas com Arnaldo depois dos Mutantes, cada vez mais avoado e mais sério, claramente sentindo a dor de carregar uma carreira que não parece fazer tanto sentido.

Da mesma forma, há fotos impressionantes – e a forma como o diretor as apresenta quando fala da relação entre Arnaldo e Rita sublinha um aspecto pouco lembrado quando se fala em Mutantes: como os dois formavam um belo casal.

(Como comentou o Pedro, é incrível que essas imagens existam, pois fomos educados sabendo que parte considerável da memória audiovisual brasileira havia se perdido naqueles famosos e mal contados incêndios em arquivos de canais de TV. Ou seja: tem gente escondendo o ouro aí… Quando é que isso vai vir a público? Será que ninguém se dispõe a lançar isso em DVD?)

Aliado às imagens, vêm os depoimentos. A princípio variados, eles, à medida que o documentário avança, vão sendo resumidos a uns poucos amigos recorrentes, como os mutantes Sérgio Dias, Liminha e Dinho, o artista plástico Antonio Peticov, o amigo de infância Rafael Vilardi e o produtor Roberto Menescal. Outros vêm e vão, sem muito acrescentar – o próprio Gilberto Gil é muito mais eficaz numa entrevista de arquivo (quando conta como conheceu os Mutantes, numa cena em que o cinegrafista está mais interessado em mostrar Caetano Veloso e Nara Leão ao fundo do que acompanhar a entrevista principal). Além destes, o grande depoimento é do maestro Rogério Duprat que, sem pestanejar, tasca que “Arnaldo é a figura mais importante da música brasileira desde que ele mesmo apareceu”.

Os depoimentos pouco acrescentam à história que já conhecíamos, funcionando basicamente como fio condutor do filme – à exceção dos momentos mais emotivos, como o mea culpa de Sérgio Dias, a parte em que Dinho fala sobre o fim dos Mutantes e a forma como Rafael se refere ao Arnaldo como um amigo, não como mito.

E é assim que Lóki funciona. O documentário, na verdade, não vai além da história que já conhecíamos nos anos 80, ele apenas põe imagens e vozes numa saga que segue no campo lendário. A certa altura do filme, Sérgio comenta um dos motivos da saída de Rita da banda, galvanizada pela lenda como sua pouca habilidade com instrumentos musicais, se comparada aos outros mutantes – e fala que a única garota do grupo prefere adotar a lenda ao fato, quando o fato em si é sem graça.

O documentário também. Cita por diversas vezes uma série de problemas que a banda teve por causa de Arnaldo, mas não vai além de comentar isso. Seu envolvimento com drogas o tornou uma pessoa difícil de lidar. Mesmo sabendo que Rita Lee não iria participar da produção, não há uma tentativa de ir além sobre o que Arnaldo teria feito de tão ruim para ela, a ponto de ela guardar essa mágoa até hoje. Em certa altura do filme, cita-se o único filho de Arnaldo e como era a relação dele com o garoto em sua infância, mas ele depois simplesmente some.

E nem é preciso ir nos pontos mais polêmicos ou críticos para mostrar os defeitos do documentário. Há uma contextualização histórica é mínima, não sabemos como os Mutantes se conheceram, onde ensaiavam, onde fizeram os primeiros shows, quem eram seus companheiros de geração e o que uns achavam sobre os outros (afinal, do mesmo jeito que trazer a guitarra para a MPB era considerado herético para os tradicionalistas da bossa nova, uma banda de rock tocar música brasileira era igualmente condenável pelos pares roqueiros). Onde gravaram seus discos, que instrumentos tocavam no estúdio, como Duprat trabalhava com a banda ou a própria questão das fantasias no palco. Não se toca no assunto das experimentações sonoras, o irmão Cláudio César Dias Baptista é citado de forma muito superficial e há depoimentos de artistas estrangeiros sobre a importância do grupo no exterior que são pesos pena na constelação mundial, como o filho de John Lennon ou Devendra Banhard. Lobão e John, do Pato Fu, que estiveram ao lado do Mutante em seu disco solo mais recente, Let it Bed, de 2004, também não acrescentam muito, como a entrevista de Zélia Duncan ou toda a parte sobre o show da banda em Londres.

Mas, há de se convir, Fontenelle pode não ter sido crítico, mas fez. Criou uma bula perfeita para entender a história dos Mutantes e a trajetória de Arnaldo, embora pouco tenha acrescentado à lenda que conhecíamos quando os discos do grupo começaram a reaparecer em vinil, nos anos 80. Neste sentido, seu filme é tão importante quanto a volta do grupo sem Rita Lee – é mais uma coroação de uma carreira, um feito construído sobre nostalgia e consagração do que algo que acrescente alguma novidade à história.

Mas talvez o documentário definitivo sobre Arnaldo não possa ser realizado ainda. Do mesmo jeito que Rita não dá entrevistas sobre Arnaldo, Arnaldo não falaria caso tivesse de cutucar feridas mais sérias. Mas, por outro lado, isso não quer dizer que Lóki seja falho ou genial – as emocionantes imagens resgatadas contrastam com detalhes imperdoáveis (como mostrar as edições em CD dos dois primeiros discos solo de Arnaldo em vez de exibir as capas dos vinis – sendo que Calanca, que tem várias cópias dos discos em vinil em sua própria loja, foi entrevistado).

Lóki, do jeito que está, funciona para explicar Arnaldo Baptista de uma forma linear e concisa para pessoas que sequer sabem de sua existência. A ênfase no impacto do grupo no exterior também sublinha um possível desdobramento do documentário: shows solo de Arnaldo Baptista no Brasil e fora dele. Não é nada má a idéia de assistir a discos como Lóki ou Singin’ Alone serem tocados ao vivo e na íntegra, como reza uma das regras de shows na primeira década desse século. Pelo contrário, pode render apresentações históricas.

Se servir só para isso, Lóki, o documentário, já tem uma razão para existir. E mesmo com todos seus defeitos, consegue, nem que por alguns minutos, tirar o manto de mito das costas do mutante para mostrá-lo como pessoa. O último depoimento de Rafael Vilardi é, neste sentido, o ponto central do documentário. Todos nós amamos Arnaldo – acredito que até mesmo Rita Lee.

Pra quem não conseguiu assistir, amanhã o documentário será reexibido na repescagem da Mostra. Vale ver, porque, até agora, não há previsão para que o filme volte tão cedo para as telas de cinema.

8 Comentários