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Arquivo: tim festival 2008

Atlantis/Interzone

Minha aposta para hoje – e para todo o Tim Festival – é o Klaxons. Apesar de muita gente associar os caras à pista de dança, eles são uma banda de rock. Por baixo dos vocais metidos a esquisito há um certo indie rock, ao mesmo tempo torto e atravessado, que, por mais esquisito que possa parecer, faz sentido. Esqueça a música pra dançar, ouça-os como uma banda de rock – e capaz de você ter a melhor surpresa de todo o Tim Festival. É onde estão minhas fichas. Veremos.

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Perdido no Espaço

Monotonia à enésima potência

Já postei aqui que o Bono e o Edge estão fazendo um musical na Broadway sobre o Homem-Aranha que vai custar 40 milhões de dólares. É sério, vou repetir: musical na Broadway, Homem-Aranha da Marvel, Bono e Edge do U2. Óbvio que dá pra duvidar da qualidade artística de uma empreitada dessas, mas, por outro lado, é uma fonte inegável de renda – junte estes três elementos e, por mais insossa e sem graça que a mistura se torne, ainda haverá incautos e curiosos pra pegar filas pra assistir a uma joça dessas. Por anos, até.

O show de Kanye West, que abriu a parte pop do Tim Festival deste ano, conseguia ser uma mistura mais esdrúxula do que a descrita acima. Numa vergonhosa tentativa de criar um grande fio condutor de ficção científica para quase duas horas de show, um dos principais popstars de 2008 criou uma ópera rap arrastada e megalomaníaca, executada de forma chinfrim e com tantas camadas de vernizes de breguice que era quase impossível distinguir o artista por baixo de tudo.

Quando se fala em topo do pop, ainda mais quando o assunto é apresentação ao vivo, o jogo de cena vai para muito além do que foi visto na quarta passada. E nem precisa sair do Brasil. É lembrar da cobra cuspindo fogo no show dos Stones, no palco do Macca girando em “Fool on the Hill”, Madonna descendo dependurada num globo de discotaca, o arco dourado do U2 ou o N Sync voando no palco do Rock in Rio. Há tempos a música pop nos oferece a possibilidade de freqüentar o parque temático de si mesma e não importa se é a volta dos Pixies, Brian Wilson tocando Pet Sounds, a versão robô do Kraftwerk ou Roger Waters cantando o Dark Side of the Moon, a previsibilidade tornou-se uma das principais moedas da música pop do século 21 e shows seguem à risca a lógica pré-riscada no disco.

Kanye West passeia neste território mas… e essa tal Glow in the Dark, sua turnê-espetáculo? É só isso? Um dinossauro surgindo no meio do gelo seco? Crateras cobertas com carpete? Um telão falante? Peraê, peraê, tem algo de errado nessa história…

Por mais estranho que possa parecer, há uma corrente histórica de cultura popular que traça os paralelos entre a música negra e a ficção científica. É uma linha de pensamento que diz que os negros que foram capturados na África para trabalhar à força no novo continente foram submetidos a dois estereótipos típicos da ficção científica: a abdução extraterrestre (afinal, vem uma nova cultura e te seqüestra de seu habitat natural) e a consciência robô (em que empregadores não cogitam a possibilidade de você ser algo a mais do que uma simples máquina de trabalhar). Esta corrente, chamada afrofuturismo, encontra eco em diferentes manifestações da música pop do final do século passado, seja no jazz fora de órbita de Sun Ra, na conexão com a nave-mãe do P-Funk de George Clinton, o Planet Rock de Afrika Bambaataa, o techno de Detroit ou as teorias em movimento de DJ Spooky ou do Deltron 3030.

Kanye pega toda essa tradição e transforma numa comida de avião. Tudo é mastigado ao máximo, de sua presença no palco – sozinho (diziam que a banda estava atrás do palco, mas ninguém sabe, ninguém viu) – aos clichês tanto de ficção científica quanto de megalomania popstar. E assistimos a uma jornada em que Kanye, “a maior estrela do universo”, precisa voltar para Terra. Sozinho – tanto no palco quanto na história – conversa com uma nave personificada num olho eletrônico centrado num telão, que fica em frente a uma tela ainda maior, no fundo, em que durante praticamente todo o show, vemos o espaço sideral.

E o show não acaba. Se a produção ao menos fosse digna do tipo de história que o rapper se propõe, até dava-se um desconto. Mas até o Eddie no terceiro ou quarto show do Iron Maiden parece mais crível do que a tal superprodução do show de Kanye. Canhestro, o espetáculo não sai do casulo e suas referências oitentistas sem querer resvalam em outro lado – ver Kanye sozinho, no canto do palco enquanto o telão exibe um por do sol daqueles power point que a sua tia te manda por email, ouvindo “Don’t Stop Believing”, do Journey (a única referência explícita à bandidagem de todo o show, já que a música toca em uma cena-chave do seriado Os Sopranos), pouco antes de cantar Stronger convence tanto quanto assistir a um clipe de banda brasileira no Fantástico nos anos 80. A previsibilidade só era superada pela monotonia. “Cromaqui” e “playback” eram palavras que inventavam a atmosfera do palco.

Mesmo em seus parcos hits (um do Daft Punk, outro de Ray Charles, um terceiro de Curtis Mayfield), o rapper megalomaníaco insistia na soberba e segurava os hits por dez longos minutos, transformando cada passagem em uma cena de seu musical particular. Que era algo tão consistente quanto uma mistura de Eu Sou a Lenda com Wall-E. E não faltaram adjetivos para descrever a breguice: a Ligelena sintetizou o show como se o Tracy Jordan, personagem do 30 Rock, fizesse um espetáculo no Holiday on Ice; não foi só o Terron que achou que estava assistindo a uma gravação do Xou da Xuxa e o Marquinhos tinha certeza que era uma ópera-rap sobre O Pequeno Príncipe.

Ao final do show, o sujeito ainda emendou uma ladainha interminável sobre como ele era um cara legal e como foi difícil trazer “esse espetáculo” para o Brasil, que os produtores não tinham a grana que ele havia pedido mas que depois arrumaram, e como ele era legal e uma pessoa boa e linda e maravilhosa. Nem o ego do Bono é tão grande: nessa hora, o vocalista do U2 começa a falar em direitos humanos, em paz entre os povos e outros lennonismos. Mas Kanye, não, precisava falar dele. Por um instante, pensei que fosse aparecer um divã com rodinhas, onde, deitado, o MC, falaria de seus problemas – mas não rolou.

Em vez disso, rolou “Love Lockdown”, uma música que me dá vergonha toda vez que eu escuto. E não é só ela. Todas as músicas do disco novo de Kanye West vão atrás de um vintage oitentista que faz tempo que não é mais vanguarda – seja nos timbres do Justice, na cafonice da Ladyhawke, no technopop do Cut Copy ou nos hits farofa do Chromeo. A diferença das músicas do disco novo de Kanye e das desses outros artistas, é simples: todos eles sabem a importância de um refrão, Kanye ignora a existência disso.

Indiesmo. Hitmaker do bom sabe o poder de um bom refrão e nenhuma música de Kanye West tem um refrão memorável. Todas se ancoram em hits do passado para embalar um rap genérico e umas quatro ou cinco palavras de ordem superposta sobre a base sampleada. Essa é a fórmula de Kanye. No disco, engana bonito. Ao vivo, dá sono.

Mas engraçado foi ver como o show dividiu opiniões – e quem gostou demais do show quase sempre tem um interesse maior no hip hop. Foi como se o Radiohead viesse fazer um show e o show não fosse grande coisa, mas como é o Radiohead, ninguém pode falar mal. Ouvi neguinho falando em “show do ano” e “inesquecível”. Tenho pena de quem vive assim…

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Kanye-stro…

E já já falo do que achei do show do Kanye ontem. Por enquanto, sente o nível:

Tem mais videozinhos que eu fiz aqui, ó.

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O estado do pop em 2008

Kanye West brilha no escuro – ou seria o contrário?

Antes de comprar os ingressos para o Tim Festival, já vinha matutando árdua escolha que teria pela frente (daquelas de cinco segundos de reflexão antes de apertar a senha do cartão): com os preços fora da realidade do festival e a minha recusa em apelar para a carteira de estudante “amiga” que, dizem produtores de show em geral, ajuda a salgar os preços dos ingressos, tinha de optar entre dois shows: Kanye West ou Sonny Rollins. Sei que a maioria dos meus leitores e amigos sequer pestanejaria ante o assunto e marcaria o “x” na opção do velho jazzista, mas eu curto música pop. Eu gosto do aspecto grandioso e adolescente, plástico e descartável que transforma anônimos em deuses – e como o máximo de espetáculo desse naipe que temos em nosso país é alguma visita dos RBD e High School Musical ou alguma propaganda com Ivete Sangalo que consegue ganhar palco (nem vem com madonnismos – Madonna é só uma máquina de fazer dinheiro que vive do passado, um parque temático sobre si mesmo, como os Stones ou o U2). Fiz minha escolha pouco antes de saber que ela já tinha sido feita: os ingressos para Sonny Rollins haviam se esgotado e só me restava o Kanye West.

Ou “Cã-nhê”, que é a forma afrescalhada que ele diz que seu nome é pronunciado, é um dos sujeitos mais descolados do resto de jet set que sobrou à indústria fonográfica. Com seu glamour corroído pela crise de administração que culminou com a vilanização da internet, restou à velha indústria do disco buscar conexões em outras paragens para conseguir manter seu estilo de vida – daí recentes associações com empresas de natureza tão diferentes quanto a indústria de telefones celulares e de computadores, o mundo dos esportes ou o universo da moda. Uma seara aberta no hip hop depois que Puff Daddy assumiu o gênero após as mortes de Tupac e Biggie. Se antes o barato do rap ao tirar onda com grifes era mostrar que, mesmo com a origem pobre, era possível subir na vida, quando o gangsta rap morreu de vez, liberou geral (a Renata conta um pouco da decadência do gênero em um especial que ela fez pro Rraurl aqui).

De 1996 em diante, desfilar com ternos Armani não era mais o topo da pirâmide do hip hop e sim conviver com Giorgio Armani e chamá-lo pelo primeiro nome. Logo, essa bolha de status inflou e transformou não só o rap em um gigante milionário (e musicalmente vazio) como funcionou como tábua de salvação pra indústria do disco que, com o golpe dado com a chegada do Napster, aprendeu na pele que sua máquina de fazer sucesso que transformou várias gravadoras em quatro multinacionais só funcionava a curto prazo. Quando o MP3 popularizou-se, a indústria viu-se refém do modelo de negócios que havia inventado, de criar artistas que desapareciam com a mesma velocidade que surgiam, e, literalmente, quebrou.

Daí recorrer para outras esferas do entretenimento, como televisão, cinema, game, moda, design, e, só há pouco tempo, internet. Pode reparar: quase todas as tentativas da antiga indústria do disco de emplacar novos (ou velhos, tanto faz) artistas neste século vinham atreladas a acessórios que não necessariamente eram musicais. E assim músicos, compositores e intérpretes tornaram-se celebridades – e tanto fazia de onde eles vinham, se fazem rap, música eletrônica, rock e dance music, se apareceram numa garagem, num site ou num reality show: o importante é que eles vendem trilhas sonoras, celulares, perfumes, roupas finas, carros, comida congelada, tele-sena e papa-tudo.

Kanye West talvez seja quem melhor personifica esse novo status quo. Na cabeça deste reformulado hip hop, a malandragem não é mais simplesmente sair da vida dura e ganhar uma grana pagando de playboy. O golpe agora pressupõe ser playboy e acontece em escala planetária, numa pernada que derruba a tchurma do design, o novo eletrônico francês, o mondo fashion, animação em computação gráfica e, olha só, até mesmo gente de música. Indo além, seus principais hits são um espelho disso: “Gold Digger” é “I Got a Woman” de Ray Charles através da cinebiografia com Jamie Foxx (que participa da música e do clipe) e “Stronger” é o Daft Punk relido (de forma trivial). Mais um motivo para apontar Kanye como posterboy do pop 2008 – sua onipresença seja equivalente à assombrosa ausência de hits. Suas músicas fazem sucesso nos EUA, mas não são hits globais do escalão de “Everyone Nose” e “Umbrella” (do N*E*R*D e da Rihanna, artistas que, por acaso, fizeram parte da abertura de sua antiga turnê, Glow in the Dark, que se despede com os shows na América Latina). Mas West é maior que os dois pelo simples motivo de que ele não é um artista só de música.

OK, mas isso é bom ou ruim? Pro showbusiness, é ótimo. Assim, gastam-se adjetivos e efeitos especiais, gastos são justificados, capas de revista ganham o tom épico do tempo em que as gravadoras ainda mandavam no mundo da música, o glamour, o jet set, a hi-life – tudo aquilo que emperrou a criatividade da música pop a partir dos anos 80 ganha uma sobrevida que pode garantir a aposentadoria do executivo que até outro dia processava moleques baixando MP3. Pra música vista longe do bizness, também pode ser. Afinal, ao criar uma bolha de realismo fantástico ao redor de artistas como Kanye West, os titãs do mercado musical podem estar, sem querer, promovendo um Baile da Ilha Fiscal (ou da Enron ou AIG, pra ficarmos em termos mais atuais). Sem perceber que o fim está próximo, torram dinheiro como se não houvesse amanhã. Só que dessa vez, talvez não tenha.

E pelas prévias do disco novo do sujeito, que deve tocar algumas pérolas no show de hoje em São Paulo, o fim de Kanye também talvez esteja. Porque nunca ouvi tanta música ruim saindo de um disco tão esperado (nem o novo do Oasis é tão vergonhoso). Por enquanto, vamos lá ver se o sujeito brilha no escuro mesmo – ou se é o lado negro da força que brilha de dentro dele…

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Como se fosse o Sesc Pompéia…


E, trocando Paul Weller por Roberta Sá e Arnaldo Antunes, o antigo palco Bossa Mod do Tim Festival torna-se uma espécie de noite de gala no Sesc Pompéia – que, de gala, só tem o preço.

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Em defesa do Spiritualized no Timfa

Dando idéia pro Tim Festival se refazer do fiasco da não-vinda do Paul Weller:

1) Os próximos shows na agenda deles acontecem na América do Sul, dias 29 e 31 de outubro
2) Acabaram de realizar um show secreto do MySpace na Califórnia, parceiro que a Tim podia chamar pra viabilizar a vinda da banda
3) Velharia por velharia, boto mais fé num show do Spiritualized do que do Paul Weller

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Mais uma baixa no Timfa

Desta vez, Paul Weller não vem mais. Detalhe: o problema não é com o Weller e sim com um integrante da banda (insubstituível, pelo jeito), que é brasileiro (?) e não conseguiu visto para entrar no Brasil (?!??!). Que historinha mal contada hein (mais tosca que o “conflito de agendas” do Gossip). Põe o Paul Weller pra tocar tudo sozinho ou com uma banda mais básica (ele era do Jam, lembram?), certeza que os fãs não vão ligar. Ou aproveitem que eu citei o Spiritualized e negociem a vinda deles, já que eles tão vindo pra América do Sul. Mas tou achando que vão é cancelar o show, viu… Depois da piada de não colocar banda pra substituir o Gossip (e dessa do Paul Weller), o Timfa caminha pra sua edição mais chocha de todos os tempos (e olha que haja concorrência…). Sem contar que você fala com as pessoas no Rio de Janeiro e eles sequer sabem que vai acontecer um festival semana que vem na cidade (convenhamos, o elenco da edição deste ano é muito mais paulistano do que carioca…) e ouvi dizer que nenhuma noite tá vendendo… É, pelo jeito o Timfa vai tomar uma naba bonita do Terra.

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Falando em Gossip…

Pegou mal essa história de “conflito de agendas” que fez o Gossip cancelar sua vinda ao Timfa deste ano – bem na hora que o dólar disparou? Que estranho… Pior é anunciar que não vão colocar nenhuma banda para substituir – e como se o Neon Neon pudesse agradar o mesmo público da banda da gordola. Tomara que nenhum outro “conflito de agenda” afete o Terra ou os show do R.E.M….

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Leitura Aleatória 161


Foto: FirefoxLucifer

1) Quem foi Robert Johnson?
2) Doze motivos para legalizar as drogas
3) Show do Arctic Monkeys será exibido em cinema do Rio
4) Blogueiro da Trip comeu a empregada à força e ainda acha bonito vir a público se desculpar (trocentos anos depois e com um caô mimimista de que tem “ódio do Brasil”. VSF)
5) 10 plantações decoradas
6) Que tal pegar 150 meninas numa mesma noite? É mentira ou auto-afirmação?
7) Um software que “embeleza” fotos de gente
8) Gossip não vem mais para o Timfa
9) Paulo Coelho não gostou do bolo que o Ministro da Cultura lhe deu (ow, coitado…)
10) Bono e The Edge vão transformar o Homem-Aranha num musical. Custo? US$ 40 milhões (crise financeira? Como assim?)

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Caetano blogueiro

“Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet)”

O blog do Caetano tem sido uma de suas melhores experiências dele desde… hmm… Hmmmm… Deixa eu refazer a frase: faz muito tempo que Caetano não faz nada realmente tão legal quanto esse blog. Talvez seja a melhor fase dele desde as brigas com o Paulo Francis, no começo dos anos 80.

E já já o Timfa tá aí: quero ver ele comentando o festival (quem já ouviu sabe que ele faz as melhores resenhas sobre os shows).

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