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Cícero e o amadurecimento (O Globo, Janeiro/2012)

A íntegra do texto da matéria que publiquei no Segundo Caderno, do jornal O Globo hoje.

Amadurecimento forçado pelo sucesso na internet e no palco
Objeto da paixão por fãs de todo o Brasil, o jovem Cícero canta hoje no Rio

por Bruno Natal

No final do ano passado, a porta do centro cultural Solar de Botafogo estava lotada de jovens disputando ingressos para a atração da noite. Muita gente ficou de fora, algumas choraram. Do lado de dentro, mais de 200 pessoas se espremiam pelos corredores do pequeno teatro, aguardando com ansiedade o início de um show em que cantariam todas as músicas.

Seria uma cena comum de idolatria, não fosse um detalhe: tratava-se apenas da quinta apresentação da carreira solo de Cícero, 25 anos, tocado as músicas de um disco lançado há apenas seis meses. O disco “Canções de Apartamento” é um fenômeno online, baixado mais de 50 mil vezes (segundo o artista) e gradativamente ganhando o mundo real.

- Essa rápida identificação veio do fato de eu ter me desarmado e falado de mim – diz Cícero, que toca hoje no Teatro Odisséia, às 21h, com as banda Mohandas e as festas Mambembe e This Is Indie, numa noite produzida por ele próprio. – Todos andam muito combativos, perfumados, maquiados, o tempo todo. A gente anda precisando de ar, de sair de si mesmo. De se ver nos outros. A solidão já deu no saco. Tenho recebido muito mais carinho do que jamais pensei. As pessoas se identificaram mesmo com as músicas e querem deixar isso claro pra mim. Se desarmaram porque eu me desarmei. Estou adorando ver isso acontecendo – explica Cícero.

Solidão é o tema central das composições, misturando bossa nova e rock independente. A foto da capa, uma imagem das estantes do apartamento onde o disco foi gravado, entregam algumas das referências: o livro “Noites Tropicais”, de Nelson Motta; um compacto de uma faixa do disco “In Rainbows”; um submarino amarelo; um tamborim. Nas músicas, citações verbais a Tom Jobim e musicais a Caetano (“You Don’t Know Me” em “João e o Pé de Feijão”), porém o ponto alto são as letras intimistas, sobre relacionamentos amorosos e conflitos comuns à idade.

Em alguns momentos, a sonoridade ainda soa derivativa de nomes como Radiohead e Los Hermanos (“essa comparação é constante, mas não me incomoda. Fico feliz, admiro a banda, fico envaidecido”, diz) e ao vivo a banda recém-formada está se encontrando, fatos admitidos abertamente pelo compositor. Parte da uma geração que opera constantemente em modo beta, Cícero está se formando como artista diante de seu público, atendendo demandas por vezes precoces, com tudo que isso traz de bom e de ruim. Leva-se tempo até amadurecer, mesmo que muitos já estejam assistindo.

- Aconteceu tudo rápido demais. A velocidade das coisas com a internet é outra. O primeiro show com a banda foi no final de outubro do ano passado. Dois meses pra uma banda amadurecer não é nada se você não puder se enfurnar em um lugar e ensaiar. Mas mesmo assim lá vamos nós tocar pelo Brasil todo. As pessoas querem o show agora, elas têm o direito, fizeram tudo chegar até aqui.

Gravado e tocado inteiramente por ele próprio (à excessão das sanfonas) no quitinete que morava em Botafogo, “Canções de Apartamento” foi disponibilizado gratuitamente na página cicero.net.br e rapidamente encontrou seu público. Com mais de 5 mil fãs no Facebook e mil seguidores no Twitter, suas músicas tem sido tocadas em algumas rádios e o disco entrou em diversas listas de melhores de 2011, da MTV a blogues como Rock N Beats, Miojo Indie, Rock In Press e Trabalho Sujo [N.E. e também na daqui do URBe], quase sempre no topo ou perto disso. Com isso ampliou a base de fãs, rendendo convites para participar das coletâneas “Is This Indie” (em homenagem aos 10 anos do disco de estréia do The Strokes) e “Re-Trato” (celebrando os 15 anos do Los Hermanos).

Cícero aconteceu no novo modelo, totalmente alheio a indústria do disco e da grande mídia, escolado pela experiência com outros projetos.

- Com 16 anos montei uma banda chamada Alice e fui com ela até os 22, quando fui pra Nova York trabalhar e comprar os equipamentos para gravar o terceiro disco do grupo. Quando voltei, o tempo passou e o pessoal dispersou. Fiquei com os equipamentos e solo, no sentido literal da palavra. Larguei o diploma de Direito, comecei a produzir umas festas e comecei a gravar o “Canções” no apartamento pra onde me mudei em Botafogo, vindo de Santa Cruz. Os meses foram passando e eu compondo, gravando, mixando, regravando… O disco é mais o retrato de um processo do que um projeto propriamente dito.

A intensidade da relação com o público também foi acelerada, com fãs vindo de Belém, Belo Horizonte e Goiânia vindo ao Rio ou de Tocantins para São Paulo somente para conferir um show.

- Está sendo bem doido, choradeira, gritaria, uma coisa bem inesperada pra mim, em todos os lugares a comoção vem sendo bem grande e bonita. Estou lidando como posso, conversando com quem acho que pode me ajudar a ver melhor as coisas, procurando manter o foco nos meus valores, tentando viver tudo que está vindo. Estou um pouco assustado com isso, mas tento ver tudo como carinho. Essas fichas não caíram pra mim até agora. Nem sei se vão cair tão cedo.

Vindo de uma temporada de shows esgotados em São Paulo essa semana, em casas de mil pessoas, o compositor planeja os próximos passos.

- Escutar minha música e artistas que admiro muito, como o Moska, falando bem na rádio, dar entrevista em programas de televisão que assisto, agora dando entrevista para o jornal que assino… Fico feliz com tudo que tá rolando, mas principalmente porque a música chegou nas pessoas. Começo, meio e fim de tarefa comprida. Agora é retribuir, ir onde as pessoas querem que eu vá, tocar pra elas, mostrar as músicas. Fazer essa “coisa” ganhar o mundo real. Não foram computadores, servidores ou sites que fizeram o disco explodir, foram pessoas.

O sucesso tem atraído gravadoras e selos. Por enquanto, nenhuma proposta seduziu Cícero.

- Ainda não topei nada porque quero saber o que vou estar topando. Seja lá o que for, quero ir consciente. No geral, as propostas são mais de gente querendo sugar o momento do que contribuir efetivamente para uma carreira. Faço questão do disco de graça, para ser baixado. O mundo tem muita pressa, eu nem tanto.

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Transcultura #068: Daniel Ferro // Frank Ocean

A íntegra do perfil do Daniel Ferro que escrevi para “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Olho na câmera e pé na estrada
por Bruno Natal

Seguir sua banda favorita em turnê é um dos maiores desejos de qualquer grande fã. Músico, Daniel Ferro inverteu os papéis, pegou uma câmera e transformou as viagens em trabalho e hoje já registrou os bastidores de algumas dos maiores nomes do rock brasileiro, grande parte dirigindo e filmando o programa Rock Estrada, exibido pelo canal Multishow.

- O mais legal é ver o quadro geral e entender o que é ter uma banda na estrada no Brasil. Essa semana o produtor de uma banda grande tuitou pra mim que “viver de música é legal, o melhor emprego do mundo, mas a correria e os percalços são iguais pra todos, legal você mostrar isso”. Fiquei contente de ler isso, afinal o assunto é universal, por mais diferente que sejam, todas bandas passam sempre pelos mesmos problemas com empresários, rádios, gravadoras, brigas entre integrantes… No final, sempre vale a pena – explica Daniel.

O começo – como todo bom começo – foi por acaso. Baterista do Emoponto entre 1998 e 2006, começou filmando a própria banda.

- Fizemos uma turnê de 100 shows pelo Brasil e comprei uma câmera pra registrar esse giro. Aprendi a editar e fiz um video-diário da turnê, que foi uma faixa interativa do disco. Quando a banda decidiu dar um tempo, decidi trabalhar definitivamente com direção e edição de vídeo, fazendo trabalhos para as bandas que tinha mais contato, como Fresno e NxZero.

Em 2009 Daniel teve a chance de filmar e dirigir o piloto do Rock Estrada e acabou se especializando no assunto por afinidade. Em três temporadas, já acompanhou mais de 30 bandas (Titãs, RPM, Pitty, Ratos de Porão, Raimundos, Autoramas, Strike), em mais de 98 cidades do Brasil e do exterior, além de DVDs de artistas tão diversos quanto Luan Santana, Jota Quest e Dead Fish.

- Tem uma frase bastante usada que diz “uma vez que você passa perrengue na estrada, vira brother pra sempre”. Pra ter essa abertura, é preciso que a banda confie em você e vice-versa. Por ter sido músico também e já ter passado por várias situações parecidas, talvez entenda também um pouco do que é estar na estrada e tentar viver de música nesse país. Pra viver assim tem que gostar mesmo do que faz, porque não é fácil. Você se alimenta mal, dorme pouco, não tem finais de semana e ganha pouco – analisa Daniel.

Mais do que a fama, carisma, sinceridade e espontaneidade são os principais critério de escolha de quem participa do programa. Afinal, não adianta nada filmar uma banda por horas se eles não tiverem o que mostrar. Nessas andanças, Daniel viu muita coisa e passou por situações inusitadas, como ter que andar curvado por dias no ônibus de turnê do Sepultura, cujo teto era bem baixo. O encontro com o ídolo Rodolfo Abrantes, ex-vocalista do Raimundos, hoje evangélico, foi marcante.

- Depois de passar três dias filmando o Rodolfo, me despedi e prometi que tentaria editar o programa sem distorcer a verdade e as palavras dele, afinal muita coisa que vi sobre ele na mídia parecia tendencioso. Ele agradeceu, me abraçou e ainda abraçado começou a orar por mim, pedindo que meus caminhos se iluminassem para essa “missão”. No meio disso me peguei pensando que ali, na minha frente, estava meu ídolo de adolescência, de quem tinha visto mais de 25 shows nos anos 90, passado perrengue, tomado porrada, cantado mil palavrões e me espelhado para ter uma banda também, estava ali, orando por mim. Passou muita coisa pela minha cabeça e vi que a vida é uma coisa muito doida. Mas pelo lado positivo.

Na lista de desejos de Daniel, ainda falta uma banda.

- Por ter estudado na faculdade com eles, ter acompanhado bem do início, ter visto, entre dezenas de outros, o primeiro show no Empório, no Rio, e conhecer bem a banda, gostaria muito de filmar o Los Hermanos Quem sabe?

Os barbudos estão de volta e muita gente gostaria de assistir um registro íntimista deles. No Twitter, tem muita gente pedindo pra conferir o rolé do Michel Teló pela Europa. Pode não ser rock, mas é estrada.

Tchequirau

A mixtape “Nostalgia, Ultra” do integrante R&B do Odd Future, Frank Ocean, continua rodando macia. As músicas são na verdade o disco que a gravadora botou na geladeira e “caiu” na rede.

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Transcultura #067: Novas Frequências // Grooveshark, Rdio

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Em outras frequências
por Bruno Natal

O festival Novas Frequências já acabou e continua ecoando por aqui. Com uma proposta bastante ousada, o evento reuniu alguns dos principais nomes da nova música eletrônica experimental em cinco noites: Com Truise, Sun Araw, Murcof, Andy Stott e os brasileiros Pazes e Psilosamples, uma escalação difícil de se ver até em festivais no exterior, como o próprio Com Truise comentou.

A entortada nos ouvidos foi tamanha que não tem como torcer para o repeteco ano que vem. E metendo o bedelho onde não foi chamado, ficam cinco dicas de nomes que fariam bonito no festival. Bom, isso hoje, né. Até lá aparece muito mais coisa.

Ducktails

Lançado pelo comentado selo Not Not Fun, Ducktails é o projeto solo do guitarrista do Real Estate, Matt Mondanile. Nele, se afasta um pouco do chillwave e envereda por canções assobiáveis, mantendo os aspectos que caracterizam o pop hipnagógico, como sons filtrados, gastos, sugerindo o passado não muito distante das fitas demo.

Peaking Lights

Também afiliado ao selo Not Not Fun, os californianos do Peaking Lights descrevem seu som como “dub pop psicodélico”. Então já sabe o que vem: graves pesados, efeitos e chapação filtrada pelo lo-fi. O disco “936″ tem pintado em listas de melhores do ano e a versão com remixes traz reconstruções de nomes como Adrian Sherwood, DaM-FunK, patten e outros.

Washed Out

Uma das grandes estrelas do chillwave, ao lado do Toro Y Moi, Ernest Greene foi surpreendido pelo sucesso das próprias canções, feitas no quarto de casa e disponiblizadas online. “Feel It All Around” é a trilha de abertura do seriado “Portlandia”, aumentando ainda mais o alcance de suas músicas contemplativas, para ouvir esticado na praia ou olhando pras árvores.

Emeralds

Um dos integrantes da banda, o guitarrista Mark McGuire, estava originalmente escalado para o Nova Frequências com o seu projeto solo, mas acabou cancelando sua vinda. O Emeralds não tem planos para lançar um segundo disco, mas se viessem seria uma boa oportunidade para McGuire também se apresentar.

Chet Faker

Só pra manter uma atração com trocadilho no nome, sai Com Truise, entra Chet Faker (já falamos dele aqui na coluna, assim como do Eltron John). O australiano classifica sua música como “future beat, downtempo, post-dusbstep, sex”. Pra entender, tem o atalho dos remixes: ele já produziu versões estranhíssimas de “Nude” (Radiohead) e “No Diggity” (Blackstreet).

Tchequirau

Enquanto o Spotify, melhor serviço de assinatura de música por streaming, não desembarca por aqui, temos os gratuitos Grooveshark, seguindo forte (com visual melhorado) e a versão brasileira do Rdio.

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Transcultura # 066: Anna-Anna // “Adress Is Approximate”

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”,que publico todas as sextas no jornal O Globo:

As muitas faces de Anna-Anna
Artista plástica e designer, a brasileira Manuela Leal investe em projeto musical que já foi notícia no Guardian e na i-D
por Bruno Natal

De volta ao Rio após alguns anos em Nova York, a artista plástica e designer Manuela Leal, 32, não tem vergonha. Pra divulgar o seu projeto musical Anna-Anna, ela não pensa duas vezes antes de contactar os veículos de imprensa que ela lê e acredita estarem alinhados com a sua sonoridade. Foi assim que ela conseguiu espaço na badalada coluna “New band of the day” (Banda nova do dia), do jornal inglês Guardian, e na cultuada revista de cultura pop i-D. Foi assim que ela chegou até a Transcultura também. O resultado de suas práticas atestam velocidade com que conteúdo trafega hoje em dia.

- Hoje qualquer um é uma gravadora independente. Amava capas de discos e achei uma boa idéia realmente fazer música para a entidade e  identidade visual que estava criando, tinha um sonho de “gravar um disco”. Coloquei na rede e uma semana depois mandei pros blogues da vida e recebi a resposta do Guardian.  Os ingleses realmente são abertos e procuram músicas mais experimentais. Depois recebi um email da BBC, e um email da i-D. É claro que eu não fui mandando cegamente, já lia as colunas obsessivamente e conhecia o perfil – explica Manuela, detalhando um processo muitas vezes ignorado por quem quer divulgar algo.

Os sons fantasmagóricos, espaciais e sem batidas do Anna-Anna surpreendem, principalmente por se tratar do seu primeiro projeto musical. Atuando como artista plástica e designer no mundo corporativo, Manuela estudou moda e belas artes na Parsons e fez mestrado em Yale, antes de decidir voltar ao Brasil para conhecer melhor o país onde nasceu, já que não havia morado por aqui depois de adulta – e para retomar a música, que estudou na adolescência.

- Usar o seu próprio nome tem um ar assim de verdade naturalesca que é o oposto do que procuro.  Prefiro a ideia da ficção, onde tudo é possível, onde se pode construir um mundo a parte.  A ideia de que a gente é o que a gente escolhe, não o que se nasce.  Sabia que escreveria em inglês e sabia que com o nome que tenho seria enquadrada no ângulo “cantora latina”, com a  expectativa de uma sonoridade específica. Anna-Anna é um nome comum  e neutro que funciona em qualquer idioma.  É o nome duplo, o nome da Anna Magnani, é qualquer uma e todas ao mesmo tempo – fala Manuela.

As influências citadas  vão de pós-punk, Nick Cave, Scott Walker, Lee Hazlewood a Serge Gainsbourg e Nico. As produções abusam de efeitos como eco e delay. Instrumentos tradicionais não tem vez e Manuela produz no computador, utilizando sintetizadores e o programa Ableton Live. Tudo a serviço das letras.

- Comecei obcecada por letras.  Queria escrever sobre esses eventos sobrenaturais, um mundo onde tudo é possível, super-poderes, viagem ao tempo, coisas assim. Gravei os vocais e fui fazendo o resto em volta disso.  Batidas não foram a prioridade, mas no momento estou incorporando-as.  Com tudo isso, me apaixonei pelo Clams Casino e essa coisa mais psicodélica que está rolando com as produções de hip-hop, tipo ASAP Rocky.

O Anna-Anna é tão novo que ainda não se apresentou ao vivo. Antes disso, Manuela pretende gravar mais coisas e elaborar uma maneira de integrar seus trabalhos de arte visual e suas virtudes poliglotas com o resto do projeto.

- Estou gravando, em inglês,  o equivalente a um LP e vou lançar no primeiro trimestre de 2012; Vou escrever também em português, um disco sobre o país que me alimentou no “exílio”, um oásis de ficção, o “Brasil” de um passado congelado que carreguei comigo enquanto morei fora.  E, finalmente, um faixa em francês, uma carta a Paul Valéry e Baudelaire sobre o estado da vida de espírito, hoje.

Ao que parece, a volta ao Brasil foi inspiradora. Manuela concorda.

- Sempre quis voltar, mas é recomeçar quase do zero, retomando antigos sonhos. Voltei em março de 2010, não sei  dimensionar ainda exatamente o campo de trabalho aqui (risos). Acho que tenho campo maior para esse tipo de  trabalho no exterior, onde tenho tido mais respostas e onde estou planejando fazer shows em 2012.

Tchequirau

Projeto pessoal do diretor Tom Jenkins (não é publicidade, segundo a produtora), o curta “Adress Is Approximate” mostra um robô de brinquedo fazendo uma viagem de carro a partir da mesa de escritório através do Google Street View. Belezura.

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Transcultura # 065: Pipo Perogaro, Bixiga 70 // Julio Bashmore


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Retomando a coluna depois de uma breve pausa, meu texto da sexta passada da “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Intercessões:  Pipo Pegoraro e Bixiga 70
por Bruno Natal

Envolvido com música desde cedo, trabalhando em estúdios e compondo, Pipo Perogaro fez tudo sozinho em seu primeiro disco, gravando todos os instrumentos. Trabalho solo levado ao pé da letra,”Intro” teve pouca repercussão. No segundo disco, optou por outra estética, buscando uma sonoridade coletiva, tendo como referência Gilberto Gil, Itamar Assumpção e – muito importante, você já saberá porque – Fela Kuti. Co-produzido por Bruno Morais (músico paulista do bom “A Vontade Superstar”), o segundo disco, “Taxi Imã” teve o efeito que o primeiro disco não teve: colocou o groove-bossa-afro-dub do Pipo no mapa.

Para além das composições e da produção, muito do apelo do disco está nos instrumentais. Sem saber, Pipo montou um grupo tão bom que pouco depois das gravações esse músicos formaram uma das bandas mais comentadas de 2011, o Bixiga 70, dedicado ao afrobeat (olha a presença do Fela Kuti aí).

- Eu já tocava com Marcelo Dworecki, Décio7, Cris Scabello (baixo, bateria e guitarra, respectivamente) e Daniel a mais ou menos um ano e meio antes das gravações. Quando começamos a pré-produzir o disco, eu e Bruno começamos a pensar nas pessoas que poderiam expressar o som que gostaríamos para as canções. Então, foi espontâneo que a banda “matriz” continuasse e outros músicos que admirávamos, como o Maurício Fleury, Cuca Teixeira, entre outros que hoje formam o Bixiga 70, chegassem para fazer o disco – explica Pipo.

O tecladista do Bixiga 70, Mauricio Fleury, complementa.

- A partir das composições do Pipo, começamos a conversar sobre as influências que transpareciam no trabalho, música latina, africana, brasileira, psicodelia anos 70. O diálogo seguiu após o fim das gravações. Foi quando surgiu o primeiro tema que fiz inspirado nessas conversas, “Grito de Paz”, que já apontava pra essas influências. Convidei o Décio 7 pra gravar baterias e percussão na gravação dessa faixa e ele teve o estalo: “temos que montar uma banda pra tocar esses sons”

A intercessão entre músicos de uma mesma cidade ou circuito em diferentes projetos dá a ideia de uma cena em andamento. Para Pipo, isso é mera consequência das trocas entre os artistas.

- Todos precisamos muito uns dos outros para estabelecer nossas movimentações, aprimorar idéias e para haver um amadurecimento dos trabalhos. Creio ser a troca a grande “moeda” que possuímos. Na maioria das vezes faço a mesa de som dos shows do Bixiga e o Cris, guitarrista, deles, também faz nos meus shows.

Mauricio complementa, destacando que o que importa é criar um contexto para um som instrumental, dançante para o qual ainda não tem referências diretas.

- Estamos num momento muito bom de troca entre os músicos de São Paulo e de fora e é muito legal ver como estamos conectando diferentes estilos. A cada combinação diferente de músicos, uma nova situação vai surgir. É um processo caleidoscópico, que se transforma a cada movimento.

O afrobeat tem surgido como influência forte em algumas novas bandas, tendo inspirado a criação inclusive de projetos dedicados exclusivamente ao som nigeriano, como a Abayomy Afrobeat Orquestra e o Afrika Gumbe, no Rio.

- O nosso interesse não é tocar só afrobeat, menos ainda de maneira ‘tradicional’, o que nós fazemos é seguir o hibridismo inerente ao afrobeat, a fusão de ritmos tradicionais com instrumentos elétricos e a linguagem ocidental do jazz, da música latina, etc. O afrobeat já vem sendo trabalhado de forma subliminar na música brasileira há muitos e muitos anos, no disco Refavela de Gilberto Gil ou no movimento pernambucano manguebit dos anos 90. Nos útimos anos aparece também no trabalho de artistas como Céu, Kiko Dinucci e Criolo. A poliritmia africana está muito presente no Brasil, acaba sendo natural para os artistas aliar essas influências às que nós já temos por aqui – avalia Mauricio.

Pipo concorda e amplia a zona de influência.

- Nessa caldeira musical trasbordante que nosso país possui, grandes mestres, maestros da composição que nos mostram caminhos lindos de percurso e paisagem para desfrutar a atenção à música, não consigo ficar pacato ao ouvir uma música de Gilberto Gil, Pedro Luís, Dorival Caymmi ou Luiz Gonzaga. É nessas pinturas musicais multi dimensionais que humildemente tento caminhar e apreciar a paisagem.

Tchequirau

Nascido e criado em Bristol, na Inglaterra, terra do Massive Attack e de uma cena de graves pesadíssima, o produtor Julio Bashmore faz house filtrado por influências de 2step e UK garage e funky.

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Transcultura # 063: SILVA // Wado

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O doce embalo do SILVA
por Bruno Natal

Esses dias, um EP surgiu na rede e logo chamou atenção. Entitulado apenas “SILVA”, assim mesmo, com tudo em maiúsculas, o link se espalhou pelas redes sociais e a notícia estava dada: tem um artista novo na praça. O nome por trás das faixas é o capixaba Lúcio Souza, 23, terminando a faculdade de violino. As referências eruditas param por aí. As sonoridade mais próximas do lo-fi feito por bandas como Youth Lagoon, Toro Y Moi e El Guincho, música contemplativa, de batidas eletrônicas discretas, pra espreguiçar, e letras em português remetendo a Los Hermanos e Moreno Veloso.

Latest tracks by SILVΑ

- Inicialmente queria um som seco e orgânico, mas aos poucos fui descobrindo um movimento eletrônico com vocal que me agradou bastante. Estava ouvindo o que está rolando na música de vários lugares e quis contextualizar minha música, fazer um som que escapasse um pouco do que eu estava acostumado a ouvir em português. Nessa era da internet não é muito fácil citar todas as influências. Ultimamente tenho ouvido muito os lançamentos da Hemlock, sou fã do Kanye West, gosto de El Guincho, Andrew Bird, gosto da Céu. Gosto de ouvir tantas coisas que não conseguiria apontar uma raíz – explica o Lúcio.

Produzido pelo amigo Lucas Paiva, o disco levou 5 meses pra ficar pronto e todos os instrumentos foram gravados pelo próprio Lúcio, tirando algumas participações. A masterização foi feita por Matt Colton, responsável pelo disco do James Blake.

- Gravei com os instrumentos que tinha em casa: violino, piano, piano elétrico, guitarra, surdo, caixa, sintetizador. O Paiva criou um dos riffs de “Cansei” e em “Acidental”, criou vários elementos e aquele clima embaçado da música. Também convidei um trompetista para gravar as linhas de sopro de “12 de maio”. O EP foi gravado em três lugares diferentes, no Visom, na minha casa e no Costa Brava (casa do Paiva, que co-produziu e mixou o trabalho). Eu toquei o que podia, o Paiva tocou uns synths e só. Eu e o Paiva já gostávamos do trabalho do Matt Colton com o Sandwell District, Frozen Border, Horizontal Ground e alguns trabalhos da cena eletrônica da Europa. O Matt trabalha muito bem com o grave e a intenção era fazer o disco soar assim – lista.

Antes desse projeto, Lúcio já havia tido outras bandas, claro. A experiência mais marcante foi como músico nas ruas da Irlanda, em 2009.

- Cheguei em Dublin no auge da crise econômica e aquele foi o trabalho que apareceu e me sustentou. As pessoas de lá conheciam a banda que tocava na Grafton Street todos os dias. Depois vieram os pubs e os festivais de música independente que acontecem por lá. Acho que isso mudou bastante a minha cabeça musical, antes eu nem pensava em usar meu violino no meu som. A banda tocava uma mistura de blues, r&b, disco e cada um era de um país diferente.

A experiência de gravar sozinho foi produtiva, porém Lúcio está montando uma banda para poder levar o SILVA para os palcos e finalmente interagir com parceiros musicais.

- Fazer sozinho é bem solitário, mas foi a forma que arrumei de fazer o som que me vinha à cabeça. Não consegui achar pessoas próximas a mim que estivessem dispostas a gastar tempo com as músicas. Meus amigos da faculdade são daqueles que lêem partituras como ninguém, mas não conseguem criar um riff de guitarra sequer. Também tenho amigos que tocam muito bem seus instrumentos, mas não têm paciência de investir na idéia. Para fazer todos os arranjos do disco no palco, teria que chamar pelo menos umas seis pessoas. Quero fechar com quatro, mudar alguma coisa ou outra e deixar tudo bem verdadeiro. Estou tentando preencher os vazios com pessoas que tenho conhecido ao longo do caminho.

Tchequirau

Nasceu o disco do Wado. “Samba 808″ passa muito bem, tem dez músicas e participações de Marcelo Camelo, Curumin, entre outros, e pode ser visitado (e adotado) em wado.com.br

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Transcultura # 062: Pazes // PressPausePlay

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Paz da música eletrônica
Estudante Lucas Febraro mistura influências variadas para fazer colagens etéreas e espaciais
por Bruno Natal

Estudante da Universidade de Brasília, Lucas Febraro é um cara da paz. Gostava de tocar guitarra e MPB, era fã de Martinho da Vila e Paulinho da Viola, até conhecer a música eletrônica, interessar-se por hip-hop e compor com sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas e no computador. Depois disso o sujeito nunca mais foi o mesmo. Tudo mudou. Ou quase tudo. Mesmo chafurdado no temido mundo da música eletrônica, Lucas continuou na paz.

Limbo by Pazes

Tanto é que seu projeto se chama simplesmente “Pazes”. As colagens são etéreas e espaciais, soando como um Flying Lotus dopado. Bom exemplo é a releitura que fez de “Do sétimo andar”, do Los Hermanos. Da original, apenas o vocal de Rodrigo Amarante resistiu, envolto em camadas de teclado, empurradas por um bumbo pulsando de maneira irregular, sem batidas, apenas um contratempo aparecendo aqui e ali. A melancolia da música saltou uns sete andares.

Sétimo Andar by Pazes

- Os vocais em “Do sétimo andar” tiveram algo de Toro Y Moi como inspiração, mas qualquer semelhança fora isso não é intencional. Minhas influências mais fortes são a beat scene de Los Angeles, do Flying Lotus, Teebs, Jeremiah Jae e Matthewdavid, e o dubstep do Burial, James Blake e Blue Daisy – diz ele. – Ando ouvindo também discos muito interessantes de percussão de umbanda e de órgão dos anos 1950 e 60, tipo André Penazzi.

Lucas jogou “Do sétimo andar” e outras faixas on-line e acabou lançando um EP pela Exponential Records, gravadora fundada e gerida pelo Ernest Gonzales, do Mexican With Guns. Após entrar em contato com eles em 2010, em fevereiro deste ano saiu “Pazes, The Southpaw EP”. No mesmo mês da estreia, Lucas se inscreveu na disputada Red Bull Music Academy – evento itinerante que reúne, a cada ano, 30 instrumentistas, DJ, produtores e outros profissionais da música, para oficinas, palestras e apresentações – e foi selecionado para o encontro deste ano, em Madri, de 23 de outubro a 25 de novembro.

- Pretendo lançar outro EP ou LP em breve, antes ou logo após a academia, acho que já amadureci muito musicalmente desde o EP na Exponential e que ele não serve mais de base pra mostrar onde estou. Estou prestes a começar a me apresentar ao vivo, estou me preparando pra tocar en Madri, onde, além das oficinas e atividades, vou me apresentar à noite – fala o produtor.

Com tantas referências estrangeiras, Lucas diz não encontrar muitos pares na cena brasileira, embora admire alguns artistas.

- Nunca ouvi nada muito parecido com o que eu faço no Brasil, os artistas de música eletrônica aqui tendem a ser muito influenciados por gêneros como house, jungle, drum’n'bass, coisas que eu nem sei distinguir muito bem em sonoridade. Ou então fazem coisas tipo electrobossa, principalmente os mais >ita

Tchequirau

“Press pause play”, documentário sobre a revolução digital, o consequente impulso criativo e os efeitos dessa democratização da cultura, cujos trechos pipocaram na rede ao longo do ano, já pode ser visto na íntegra na página do filme.

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Transcultura # 061: Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina, Labrador, Boss in Drama

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O rock numa batida diferente
Uma nova geração de bandas começa a surgir no Rio, fazendo sons pouco convencionais
por Bruno Natal

Depois de uma longa seca e de muitas bandas no mesmo formato “rock”, novos nomes começam a surgir no Rio. Fazendo sons pouco convencionais, grupos como Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina e Labrador vão dando uma clareada no horizonte, trazendo referências pouco presentes por aqui e, principalmente, experimentando. Em comum entre elas, mesmo com as diferenças de sonoridade, está a busca por um novo caminho. Tem sons diferentes vindos do Rio.


doo doo doo

Citando como influência tUnE-YarDs, Toro y Moi, Sany Pitbull, Radiohead e Youssou N’Dour, o doo doo doo ecoa trip hop, White Stripes, Nirvana, Zero, chillwave e pagode numa mesma faixa, caso da boa “Maré Exquizita”. Por volta dos 30 anos, os integrantes vem de outras bandas (Cabaret Cru, Bloco Cru, Aquaria, Sala do Sino).

- O Alberto Kury é maestro, com formação academica da pesada e escolado no heavy metal, o Pablo Lisboa puxa pro popular e progressivo, até que o Marcelo Renovato, também guitarrista e geek, descolou uma MPC e completou o grupo. Começamos a ensaiar em meados de 2010. Piramos no pedal de loop da Merril Garbus, compramos um, rearranjamos algumas musicas que o Dudu estava compondo numa vibe meio fim de festa – explica o Eduardo Guedes.


Dorgas

Com amplo acesso a rede, e mais recentemente também a equipamentos, as referências se ampliaram. É o caso da molecada do Dorgas, próxims do oitentismo lo-fi do chillwave. Formada em 2009 depois de todos fracassarem em bandas de rock (“nenhum de nós teve potencial pra isso”, diz um dos integrantes) e com integrantes na faixa dos 20 anos. Soar diferente não é a preocupação principal.

- Nossa “proposta” é ser uma banda de “garotos jovens com instrumentação simples” com um som que não soe que nem um soco na cara, nem como uma versão cartunesca de algo lá de fora e nem como alguma espécie de regionalismo barato. Gosto mais de Smokey Robinson e Marvin Gaye, além de clássicos da house como DJ Sprinkles e Theo Parrish. Eduardo Verdeja curte John Scofield e Steely Dan, o Cassius prefire Joni Mitchell e Lucas Lacs fica feliz ouvindo Tony Allen. Mas todos nós podemos considerar Stevie Wonder como deus supremo – fala Gabriel Guerra.

Para Eduardo Guedes, do doo doo doo, a influência estrangeira é determinante. Com mais gente fazendo música, aumenta também a busca por sons diferentes, o que pode explicar as preferências estéticsa de parte da atual safra de bandas.

- Pode ser uma tentativa de expansão de timbres e climas sonoros, uma tentativa de fugir de uma onda retrô e olhar mais pra frente. A canção nunca vai morrer, esse elemento “voz acompanhada”, isso é recorrente, mesmo nos sons mais malucos. Os anseios mudam, a música também. Vem novos instrumentos, novas possibilidades, novos afetos – diz ele.

O ponto sobre o fim da canção e a continuidade da “voz acompanhada”, assunto recorrente nas discussões sobre o futuro da música, é relevante quando se fala dessas bandas. Em português, inglês ou línguas inventadas, os vocais soam sempre saturados, filtrados, tornando difícil a compreensão das letras. Isso quando não são totalmente nonsense. Os vocais servem mais como um elemento sonoro do que como mensagem.

- Vocais em segundo plano faz com que a pessoa que escuta a música preste atenção na dimensão dela. Quando estão no primeiro plano, acaba ofuscando outros elementos, porque a música trabalha em função da voz. Queríamos que a voz esteja em função da música, até porque nós geralmente compomos o instrumental antes da linha melódica. Pra mim, faz muito mais sentido um garoto de 18 anos escrever uma letra como a nossa do que dizer “quero transar com você” ou “eu te amo” direto, de uma vez – explica Guerra, do Dorgas.

O doo doo doo pensa de maneira semelhante:

- Damos muita importância para as letras, mesmo embaladas nos reverbs e nos delays, elas são a própria musica, estão em total sintonia com os timbres e as levadas. Talvez seja uma coisa mais fragmentada, irracional, de sentidos e sensações. A coerência aprisiona em algum sentido os sentidos. Mas isso não quer dizer uma ausência de discurso. E nem tudo é tão abstrato. Tem baião, tem funk carioca. Tem paisagem também. Nebulosas, mas tem – diz Guedes.


Labrador

Formado por uma turma entre 17 e 19 anos e juntos desde 2006, o Labrador segue por um caminho viajante, dizendo-se influenciados por Gilberto Gil, Beach Boys, The Strokes, Animal Collective e Beatles, além de fãs dos cariocas Marcelo Camelo e R. Sigma.

- Começamos a fazer letras ou poesia porque fazíamos música, e não o contrário. Então, o propósito fonético das palavras acaba sendo mais importante do que o significado, na maioria das vezes. É uma idéia absurda se pensar que tudo d interessante e criativo já foi (ou será) feito no mundo da musica. As possibilidades crescem a cada momento. Hoje retro é a psicodelia – Antonio Pedro Ferraz, ex-integrante aqui da Transcultura.

Internet, equipamentos, influências… Parece fácil fazer um som doidão nos tempos atuais, principalmente agora que eles vão se tornando regra. Certo? Gabriel, do Dorgas, discorda.

- É muito facil ser “esquisito e viajante” com os recursos oferecidos atualmente, mas eu não creio que as pessoas que tenham sido influenciadas por bandas precursoras desses dois adjetivos tenha um pingo de talento que elas tem. O que é fazer som esquisito e viajante, botar reverb, delay e outros efeitos no máximo, esquecer a dinâmica de uma canção e se achar o novo Animal Collective? Pra isso não precisa ter talento, basta o sujeito baixar alguns plug-ins ou comprar alguns pedalzinhos de efeitos mixuruca. Nunca esquecemos de que estamos escrevendo uma canção, com uma boa melodia, um bom gancho e um balanço legal, e não uma parede de efeitos etérea e inócua.


Sobre a Máquina

Esses artistas não estão sozinhos na cena do Rio. Os integrantes do doo doo doo citam Mary Fê e João Brasil, os do Dorgas falam do Chinese Cookie Poets e Sobre a Máquina, que por sua vez cita Terrorims in Tundra. Formado em 2009 com integrantes entre 23 e 26 anos, o Sobre a Máquina se inspira no caos urbano para criar paisagens instrumentais incorporando elementos sonoros como obras, freadas de carro, buzinas, multidões, barcos e todo tipo de ruído que é abafado pelos fones de ouvido.

- Ainda em 1975, Miles Davis disse que o jazz morreu. O rock também morreu e não sabemos porque ver problemas nisso. Na nossa concepção tudo possui um ciclo e o que era chamado de rock hoje em dia é outra coisa. Ver bandas como Radiohead e Nine Inch Nails quebrando certos paradigmas e ainda assim atingindo o “grande público” certamente contribui para o surgimento dessas bandas com propostas diferentes – define Cadu T, do Sobre a Máquina.

Como em qualquer outro caso, encontrar público é uma questão central. Com propostas radicais, esse trabalho pode ficar mais complicado, algo que não chega a incomodar ou balizar as decisões criativas das bandas.

- Quisemos experimentar e nos expressar, só isso. É sentimento. Como usamos uma MPC e não temos bateria, somos quase portáteis. Acho que encontraremos um público, as respostas tem sido boas – Eduardo Guedes, do doo doo doo.

Para Cadu T, a falta de espaço para divulgar, tanto na mídia quando nas casas de show, dificulta o trabalho. – A impressão é de que as pessoas criam barreiras ao que é novo e preferem o caminho mais fácil – diz. Cassius, do Dorgas, contemporiza.

- Como ninguém ganha um centavo pra fazer música hoje em dia, abre-se espaço para as pessoas fazerem o que querem. Com a quantidade de música solta por aí, acaba abrindo a mente das pessoas e acaba facilitando uma banda com um som realmente esquisito conseguir público. Por outro lado, toda semana surgem milhões de novos artistas, gerando preguiça e desatenção com o novo. Caminho tem e sempre terá, mas não sei se tem folêgo para andar muito tempo nele.

São tempos confusos. Natural que a música reflita isso.

Tchequirau

Primeiro disco do Boss In Drama, “Pure Gold” está disponível na página do curitibano. Para escutar o lado A basta um “curtir” no Facebook, para o Lado B uma tuitada garante a audição.

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Transcultura # 060: Moluscontos, “Crave You”

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O estranho universo de Molusconto
por Bruno Natal

Nas palavras do próprio criador, a definição é a seguinte: “contos mirabolantes, surreais e ilógicos, um grande apanhado de situações bizarras transferidas para um micro cosmos de sexo, drogas e diversão. O universo dos vinte e poucos anos”. Inicialmente um blog feito para aliviar o estresse do dia a dia do ex-publicitário Ulisses Oliveira, as histórias absurdas do Moluscontos ganharam visibilidade quando passaram a ser contadas em formato áudio visual.

- Fui desanimando do blog escrito porque me sentia meio solitário ali, com aquelas histórias. Percebi uma certa “preguiça” na maioria das pessoas para leitura. Foi quando resolvi gravar os vídeos. Entrei em contato com uma galera para me ajudar, queria fazer dramaturgia com os contos. Como ninguém retornou, vesti a máscara e resolvi contar histórias para uma câmera – conta Ulisses. – Audiovisual seduz, a pessoa se projeta com mais facilidade nas situações através desse formato. Não é mais fácil produzir vídeo. Tenho muito trabalho de edição, toma um tempo danado.

A produção é simples, focada no Molusco, um sujeito vestindo uma máscara de lucha libre, que conta os causos mais insólitos direto para câmera, num carioquês repleto de gírias e tiradas engraçadas, embalado por uma trilha sonora caprichada. Títulos como “Ninfetaminas”, “Malditos arquitetos” e “A dura” dão ideia do conteúdo.

Somados, os 15 contos gravados até hoje totalizam 700 mil visualizações. É um número alto, especialmente considerando-se que alguns deles chegam a ter 24 minutos, não é fácil segurar alguém na rede por tanto tempo.

- Produzo tudo sozinho. Convido amigos pra participar, mas eles nunca tem tempo. Tento manter o ritmo de um vídeo a cada 20 dias, mas como Moluscontos ainda é no amor, acabo priorizando que me dá retorno, por isso, às vezes demora um mês, 40 dias para sair um conto novo. Tenho muita história ainda pra gravar. Gostaria de lançar um Moluscontos por semana. Mas para isso, seria necessário viver disso – explica Ulisses.

Apesar de focado em histórias de jovens, o autor tem 38 anos.

- Meu público vai de 18 a 40 anos, recebo emails do mundo todo, de brasileiros que se divertem com os vídeos. Achei que fosse esbarrar com alguns conservadores xiitas, mas nem rolou. Fico feliz, pois vejo que agrada à maioria que assiste. Os contos são retalhos do que vivo e vejo no mundo, adaptado ao meu micromundo, sem amarras ou censuras. São doses de descaralhamento com uma pitada de bom senso.

Fica a dúvida: se a identidade não é secreta, pra quê a máscara?

- Porque sou tímido – explica ele. – A máscara é uma forma de me preservar. É comum as pessoas confundirem autor e personagem. Vira e mexe estou em reuniões importantes. Achei prudente a máscara, que acabou virando uma marca. Futuramente terei uma exclusiva do Molusco.

Tchequirau

Esses dias “Crave You” do Flight Facilities ressurgiu aleatoriamente no iPod, depois num blogue e no aplicativo do Hype Machine, do nada. Como é boa essa música: (e ainda tem o mashup do Aeroplane dessa música com com Friendly Fires)

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Transcultura # 059: The Rapture, George Harrison doc

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

As novas ondas surfadas pelo Rapture
Após cinco anos sem gravar, o grupo The Rapture está de volta com o disco “In the grace of your love”
por Bruno Natal

“Navegar, navegar pra longe, sem nunca olhar pra trás”. O verso da música que abre “In The Grace Of Your Love”, terceiro disco do The Rapture, “Sail Away”, descreve o que aconteceu com a banda fez nos últimos anos: sumiu, sem olhar pra trás. Durante o sumiço, o baixista e vocalista Mattie Safer saiu e houve rumores de que seria o fim.

Cinco anos após o lançamento de “Pieces of the People We Love”, no mesmo ano que James Murphy decidiu tirar o LCD Soundsystem de cena, um das principais bandas lançadas pelo seu selo DFA, o The Rapture está de volta – e de volta também ao selo, com o qual rompeu após o primeiro disco, “Echoes”.

Muita coisa mudou de lá pra cá, foi bastante tempo. Agora um trio, com Luke Jenner assumindo os vocais sozinho, o The Rapture mudou também. O disco-punk sujo do primeiro disco e o groove do segundo dão lugar a uma sonoridade mais orgânica, menos editada, mais espacial. Aos 36 anos, Jenner está mais contemplativo, tanto nas letras quanto na sonoridade.

Produzido por Philippe Zdar (integrante do Cassius e também produtor de discos do Phoenix) e com lançamento marcado para 6 de setembro,  “In The Grace Of Your Love”  já está na rede, em diversos formatos. O lançamento do disco num show no último dia 16 no Brooklyn, casa da banda, foi seguida de uma transmissão de vídeo direto dos escritórios da DFA, conhecida como White Out Sessions, em que as músicas foram tocadas a partir do vinil teste do disco, impossibilitando a extração de MP3 de qualidade. Mesmo assim, logo eles surgiram.

Pode ser difícil identificar traços do The Rapture de 2006 em “Roller Coaster” e “Blue Bird”, porém o balanço conhecido da banda dá as caras na primeira música a ser lançada, “How Deep Is Your Love” e também “Never Die Again”. Na faixa título, com o vocal enxarcado de reverb enquanto Jenner repete a frase “In The Grace Of Your Love” tal qual um pastor, nota-se o que ele se esforça para cantar mais e gritar menos. Numa banda que se tornou conhecida muito mais pela atitude do que pelo refinamento técnico (basta ouvir “House of Jealous Lover”), é uma grande mudança.

Fugindo a qualquer parâmetro proposto pela banda, até mesmo nesse disco, a excelente balada “It Takes Time To Be a Man” encerra o disco. Recado dado: para virar homem, leva tempo. Adaptando-se a passagem dos anos, é por esses mares que o The Rapture andou navegando.

Tchequirau

Caçula dos Beatles, George Harrison foi retratado em um documentário por Martin Scorcese. Essa semana surgiu o trailer de “George Harrison: Living In The Material World”.

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Transcultura # 058: Strausz, La Bombación, Windoodles

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O toque leve de uma geração
Novos nas pistas, Diogo Strausz e Bruno Queiroz debatem a cena
por Bruno Natal

Faz algum tempo que a cena de DJs do Rio está se renovando. Novos nomes surgindo e alguns já se estabelecendo. Diferente das gerações anteriores, a turma que está chegando cresceu com a facilidade de ter as ferramenta de produção a mão. O trabalho de produtor vai surgindo com naturalidade, como conseqüência e também necessidade de tocar exatamente o que querem. Parece pouca coisa e até óbvio, porém esse diferencial pode ser o elemento que faltava para renovação da produção da música eletrônica, há um tempo andando em círculos.

Dois desses nomes bateram um papo por email sobre seus respectivos trabalhos. Diogo Strausz, produtor da ópera rock “Zombies Are Making Love” e guitarrasta da banda R. Sigma e Bruno Queiroz, do La Bombación, focado na mistura de referências latinas, africanas e grooves com elementos eletrônicos, trocaram uma idéia sobre a cena, com toda leveza de quem está chegando. Que venha mais gente nova mostrando trabalho.

Diogo Strausz entrevista Bruno Queiroz, do La Bombación:


Bruno Queiroz

DIOGO – Você produz pensando na pista, em casa, no ipod, ou não pensa em nada disso?

BRUNO - Não penso, mas depois eu acabo reparando onde cada música funciona melhor. Tem algumas que não uso no meu set, mas vi outros DJs tocando e até as que se revelam ótimas para caminhar.

Quais recursos e elementos você insere na sua produção para que o ouvinte “viaje” para o lugar desejado?

Samples de mensagens de chat e celular (risos). Quando começo a produzir, já estou inspirado por esse lugar, eu deixo acontecer naturalmente.

Como produtor, você acredita que referências em excesso ajudam ou atrapalham?

Prefiro quando as músicas têm vida própria. Trabalho em duas etapas, começo várias idéias, depois busco uma dessas e desenvolvo.

Como você se posiciona em relação à guerra dos direitos autorais na internet?

Essa briga vêm de empresas que visam o lucro de uma forma antiquada. É necessário rever radicalmente essas leis e modelos de negócio.

O que acha de movimentos como No Wack DJs, de valorização dos DJs “de verdade”?

Para alguns o foco é a técnica, para outros é a misancene ou até o descompromisso. Vejo mérito criar uma identidade, e a partir dela encontrar o seu público.

O que te motivou começar e qual é a que te mantém?

Comecei a gravar ideias cedo, com 15 anos. Me inspirava ouvindo Aphex Twin e imaginando uma música eletrônica menos 4×4. Ser DJ e produtor não é uma ciência exata, estou sempre aprendendo algo novo e isto me motiva.

Aonde foi o lugar com o melhor equipamento de som em que você tocou no Rio?

Dos clubes alternativos, lembro que a Boate 69 tinha o equipamento de som que mais gostava.

Bruno Queiroz, do La Bombación, entrevista Diogo Strausz:


Diogo Strausz

BRUNO – O que veio primeiro, ser DJ ou produtor?

DIOGO – Me levo a sério como DJ desde que comecei a produzir, por dificilmente achar faixas que consigam imprimir o clima que quero nas pistas. As vezes fico imaginando uma música durante a discotecagem que não existe, então a solução é produzi-la.

Nas produções você busca uma linha ou se inspira no momento?

Quando a produção é um remix, tento fazer com que o direcionamento seja o mais oposto da original possível, para que a música saia da sua zona de conforto. Nas faixas originais tento apenas transpor alguma ideia que passou o dia cutucando a minha cabeça.

Qual a diferença entre discotecar e apresentar faixas suas ao vivo?

No live é como se eu pudesse falar com as minhas palavras, como DJ, com as palavra de outras pessoas.

Como você via a cena no Rio de Janeiro quando começou e como vê agora?

Quando comecei a atuar como produtor de festas, achava a cena sem apelo nenhum, agora acho a cena apelativa demais.

Além de DJ, produtor, você também produz festas e faz parte uma banda, tem mais alguma coisa?

Além dessas atividades, gosto de me aventurar de vez enquando no mercado financeiro. É inclusive um ótimo momento para pesquisar músicas, fiz minha última mixtape quase inteira com faixas que achei enquanto aplicava na bolsa.

Pretende focar em algum desse interesses?

A multiplicidade é fundamental, todas as atividades se complementam e geram benefícios umas para as outras.

Tchequirau

O Windoodles reúne desenhos feitos sobre vidros de janelas, integrando as criações com a vista do lado de fora. Viagem total.

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Transcultura # 057: Totoma, Neon Indian

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O funk da fotógrafa
Exposição de Daniela Dacorso, que começa hoje, revela um mergulho no universo dos bailes
por Bruno Natal


M.I.A. e Deize Tigrona na Cidade de Deus
foto: Dani Dacorso

Há mais de dez anos a fotógrafa Daniela Dacorso vem documentando a cena funk no Rio. O marco zero dos registros foi uma reportagem para uma revista alemã no final dos anos 1990, acompanhando Mr. Catra num baile na Rocinha. Com a lente embaçada de suor, sacudida pelo batidão e seduzida pela dança, ela decidiu que queria continuar.

- O universo das favelas e dos subúrbios cariocas já me atrai por si só. A construção do espaço, da imagem e do corpo. O baile é uma explosão, várias cenas que acontecem ao mesmo tempo, em um milésimo de segundo – conta a fotógrafa.

Algumas dessas imagens coletadas na última década estão na exposição “Totoma! – Imagens do funk carioca”, em cartaz no Sesc Tijuca de hoje até 30 de setembro. Não é a primeira vez que as fotos de Daniela enfeitam as paredes de uma galeria.

- Minha exposição anterior, em 2009, no Ateliê da Imagem, era mais focada no corpo, no tesão. Agora, o olhar é mais amplo. Tem menos sexualidade e mais cultura – explica Daniela. – Tem retratos de vários personagens do funk e uma homenagem a Lacraia. Tem fotos da década de 1990, em uma incursão que fiz no baile do Chapéu Mangueira, na época da “Dança da bundinha”. A montagem dos soundsystems virou uma montagem visual, cujas células são fotos desse processo. E tem um políptico do “Passinho do menor da favela”, formado por vários frames de vídeos caseiros que a molecada posta no YouTube, o palco da grande batalha virtual do passinho.

Apesar da recente aceitação (“A hora em que a Deize Tigrona pisou no palco do Tim Festival e a plateia foi abaixo foi um momento de virada”, diz Daniela – N.E. a virada começou três anos antes, em 2003, com o set do DJ Marlboro no mesmo festival), falar em funk continua arrepiando os cabelos de muita gente.

- O preconceito diminuiu, mas as pessoas ainda são cautelosas sobre o assunto. O funk era mais underground, mais restrito às comunidades e aos subúrbios. Não frequentava festa de classe média, não era hypado. Era música de marginal – diz.

Mais para a frente, Daniela tem planos de organizar um livro com as fotos desses mais de dez anos de funk.

- Essa exposição está sendo uma ótima oportunidade de mexer no meu acervo, resgatar fotos que estavam esperando por um segundo olhar – afirma a fotógrafa. – E vejo várias épocas ali representadas, como numa linha do tempo.

Tchequirau

Vender disco não é tarefa fácil. Por isso, o novo do Neon Indian vem com um mimo e tanto: quem fizer a pré-compra do pacote especial de “Era Extraña”, por 50 dólares, leva além do CD, um vinil, um pôster autografado, uma camiseta e um mini-sintetizador analógico.

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Transcultura # 056: Little Roy, Best Coast

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Little Roy faz pequena homenagem ao Nirvana
por Bruno Natal

Se existe uma certeza no universo da música, é que a Jamaica nunca decepciona. No aniversário de 20 anos de lançamento de “Nevermind”, o veterano do rock steady Little Roy (não confundir com U-Roy) preparou uma homenagem: um disco com dez clássicos do Nirvana em versão reggae. O resultado é similar ao obtido em projetos da gravadora Easy Star, como “Dub side of the moon”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Dub Band” e “Radiodread”, releituras que respeitam as duas frentes, o rock e o reggae.

Além dos vocais do Little Roy – figurinha fácil no Studio One nos anos 1960 e 70, tendo trabalhado também com Lee Perry – o disco conta com o guitarrista Junior Marvin, dos Wailers. As músicas escolhidas foram “Dive”, “Come as you are”, “Sliver”, ”Heart-shaped box”, “Very ape”, ”Polly”, “On a plain”, “About a girl”, “Son of a gun” e “Lithium”.

Gravado com equipamentos analógicos, em fita, “Battle For Seattle”, ideia do produtor Prince Fatty, será lançado em setembro pela Ark Recordings, selo de um ex-agente do Nirvana, Russel Warby. A foto da capa foi feita por Charles Peterson, mesmo fotógrafo do primeiro disco do Nirvana, “Bleach”.

Já existem duas apresentações ao vivo marcadas, nos festivais de Reading e Leeds, este mês, na Inglaterra. No texto de divulgação do projeto, Little Roy fala sobre as dificuldades com as letras.
“As letras ficavam muito escondidas no meio da música. Para mim soava como se ele estivesse se lamentando. Você tem que ouvir profundamente para sacar. A melodia sempre estava lá. Então enxerguei a chance de trazer as letras para o primeiro plano para as pessoas realmente escutarem o que Kurt falava.”

Tchequirau

A atriz Drew Barrymore dirigiu o clipe novo do Best Coast. Com a participação da Chloë Moretz, do filme “Kick Ass”, narra a triste história de um amor entre integrantes de gangues rivais.

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Transcultura # 055: Dorgas, Faria & Mori, Pélico, indie deals

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Três artistas, três novas histórias pra contar
Conheça as bandas Pélico, Dorgas e Faria & Mori
por Bruno Natal

A indústria do disco pode definhar, a disputa por atenção pode ficar mais difícil na infinita discoteca on-line, e ainda assim haverá gente querendo montar uma banda. Com o sonho de riqueza e fama cada vez menos provável, abrem-se as portas da criatividade e da experimentação. Assim, todo dia pinta um artista novo que vale a atenção, entortando o samba, o rock ou o que seja. Sem a preocupação de falar com muita gente, os papos ficam mais interessantes. Não por acaso, Pélico e Faria & Mori, de São Paulo, e Dorgas, do Rio, citam suas cidades como influência. Todo mundo tem uma história para contar.

Dorgas:

O que são Dorgas?

Dorgas - É a gente. Somos quatro garotos do Rio que se juntam para fazer música, e o que sai é o esforço coletivo de nossas cabeças.

Defina como quiser, pra quem nunca ouviu o som ficar curioso.

Trilha sonora de filme pornô, música para fazer amor sem camisinha, e acima de tudo, É CLIMA.

Quem são os pares do Dorgas?

Não pensamos em pares, pensamos em amigos. O pessoal do Inverness e do Holger, de São Paulo, são os nossos mais próximos. E tem toda essa galera boa aqui do Rio e do resto do Brasil, e todas aquelas bandas que já se foram e que nos inspiram. Acho que é aí que nos encaixamos, no meio de nossos amigos.

Vocês pretendem viver de música?

Comercial é um conceito variável. Cada época tem a sua noção de comercialidade, e não é tão simples e direto dizer qual é. Acho que cada banda tem o seu público. Não pretendemos viver de música, mas com certeza gostaríamos.

Se qualquer coisa fosse possível, qual seria o projeto mais ambicioso do Dorgas?

Tocar no Madison Square Garden junto com o Stevie Wonder.

Pélico:

Pélico por Pélico.

Pélico – Paulistano da Zona Leste, filho de uma costureira e um contador. Mas fiquem tranquilos, não vou levantar aquela bandeira da origem pobre, infância cheia de privações, adolescência incompreendida e um suposto futuro de glória.

Onde você estava, porque só agora um disco?

Estava por aí me divertindo, ouvindo causos, discutindo filosofia de balcão e cantando uns versos. Então resolvi parar e gravar um disco. Em 2008 “O Último Dia De Um Homem Sem Juízo” saiu, quem quiser pode baixar. Agora um novo disco, “Que Isso Fique Entre Nós”. Novas quadras, novas melodias e um pouco mais de amores mal resolvidos.

Qual a novidade?

Nunca pensei que pudesse me expor de tal forma como faço nesse novo disco. Confesso, perdi o medo do ridículo e fiz 16 confissões em cinquenta e dois minutos.

Quem é sua banda e de que maneira eles participam e influenciam o resultado final do disco?

Minha banda é: no baixo Jesus Sanchez (Los Pirata), na guitarra Régis Damasceno (Cidadão Instigado), na bateria Richard Ribeiro (SP Underground) e na sanfona e piano elétrico Tony Berchmans. Quando posso, tenho o auxílio luxuoso de uma tuba, fagote, clarinete, trombone e trompete. A influencia é total. Meus discos seriam bem sem graça sem a contribuição deles. Especificamente neste novo disco, o maestro Bruno Bonaventure foi primoroso nos arranjos de sopros e violino.

No texto de divulgação escrito pela Tulipa, a cantora define sua amplitude de vozes como uma esquizofrenia. Que papo é esse?

A Tulipa entendeu minha história. Não dá pra cantar o amor de salto alto.

Onde o Pélico se encaixa?

Eu me encaixo onde há canção. Divido meus passos com Rafael Castro & Os Monumentais, Bazar Pamplona, Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Lulina, Apanhador Só, Marcelo Jeneci, Juliano Gauche, Trupe Chá de Boldo e o poeta Paulo César de Carvalho.

Faria & Mori:

O que é o Faria & Mori?

Faria& Mori – É um projeto independente de rock alternativo cantado em português, liderado por mim, André Faria.

Onde você estava esse tempo todo, porque só agora um disco?

Numa sala de reunião, tentando me convencer que conseguiria viver sem tocar. Fiquei 10 anos sem compor, fazendo apenas participações/gravações em bandas de amigos, tipo Tchucbandionis (Recohead), Labo e Burt (projeto punk junto com o baterista Daniel Setti). Mas a música foi mais forte do que eu. Uma quarta-feira, larguei tudo, parcelei uma passagem, fui até Nova York, na Rivington Guitars, comprei um violão Martin 76, voltei na sexta-feira já escrevendo no avião. Compus e toquei o disco em 6 meses, junto com alguns amigos.

Qual foi o resultado?

Faria & Mori são de São Paulo, sua maior influência, e acreditam na língua portuguesa. Acreditam que é sim possível fazer rock nacional sem soar brega, morno ou datado. Acreditam em uma música orgânica e autoral, acreditam e investem em distorção, texturas e pegada. Faria & Mori adoram Yo La Tengo, Sonic Youth, Sebadoh e Tom Jobim. Acreditam que a beleza está nos olhos de quem vê, e nos ouvidos de quem ouve. E amam São Paulo.

Qual sua ocupação e como a música se encaixa nisso?

Eu não sou músico profissional, mas toco desde os 12 anos de idade. Toquei com muita gente em São Paulo. Atualmente trabalho em uma agência de propaganda. E muito dos filmes publicitários que eu crio, eu mesmo faço a trilha.

Quem são os contemporâneos do Faria & Mori?

Gosto e acredito no som do Fábio Goes. É um dos poucos caras que dão a cara para bater, com coragem, talento, postura e sensibilidade. Hoje existe uma invasão de fofura nas bandas/projetos de rock-pop nacional. Aqui no Faria & Mori a gente tenta fazer algo diferente, um pouco mais coerente com a nossa realidade. Aqui em São Paulo não vejo ninguém feliz, fofo ou de bem com a vida. Vejo as pessoas mais introspectivas, reclusas, ou simplesmente conformadas. Outro dia um cara puxou uma arma e ameaçou me matar no trânsito. Não tem como ser muito fofo.

Tchequirau

Sob o nome “Indie Music Deals”, está rolando uma promoção violenta de discos na Amazon. O melhor é que pra divulgar os descontos, tem várias coletâneas pra baixar de graça, com músicas do Yeasayer, Beady Eye, TV on The Radio, Nortec Collective, Ariel Pink, El Perro Del Mar, Memory Tapes, Light Pollution, Toro Y Moi, Dan Deacon… Puro garimpo digital.

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Transcultura # 054: Instamission, Beastie Boys

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Com a missão de fotografar
Projeto criado no aplicativo Instagram vira mania e ganha destaque em festival em SP
por Bruno Natal

Totalmente viciadas no Instagram, aplicativo de fotografia que roda exclusivamente no iPhone e funciona como rede social (um Twitter de fotos que através de filtros pré-estabelecidos transforma cliques desastrosos em belas imagens), as amigas Daniela Arrais e Luiza Voll transformaram a brincadeira numa missão, literalmente.

- Começamos a usar muito a ferramenta e a acompanhar o dia dos amigos através de fotos, em vez de textos. Passamos a seguir outras pessoas interessantes e pensamos se não daria pra juntar toda essa empolgação e criar um projeto para que as pessoas fotografassem coisas legais – explica Daniela. – Criamos missões que ajudam a exercitar a criatividade a cada semana, para que todo mundo se inspire cada vez mais. Assim surgiu o Instamission.

Semanalmente uma missão é publicada no @instamission, anunciada com uma imagem no próprio Instagram. “Fotografe um sorriso”, “fotografe a coisa mais gostosa do seu dia”, “fotografe um bigode”, “fotografe um ‘planking’ (ser retratado de bruços, com os braços rentes ao corpo e o rosto virado para superfície).

A partir disso, basta você tirar uma foto dentro do tema e postá-la no Instagram, no Facebook ou no Twitter usando a hashtag #instamission com o número da missão. Lançado em janeiro, o projeto está na 26 missão e recebeu mais de cinco mil fotos, de toda parte: São Paulo, Recife, Nova York, Paris, Londres, Israel…

- No início, espalhamos a novidade para os amigos e contatos nas redes sociais. Logo nas primeiras missões percebemos que uma galera que não conhecíamos começou a participar. E essa é uma das coisas mais legais da internet, né? O projeto se espalha, fica maior do que a gente imagina – comemora Daniela.

O Instamission tem 2.400 seguidores no Instagram, 1.520 fãs no Facebook e 680 no Twitter. Até aqui, a missão de maior sucesso foi a #instamission14: “fotografe a vista da sua janela”, com mais de 500 colaborações. A repercussão do projeto foi ainda maior e mais rápida do que Daniela esperava.

- Tivemos duas grandes surpresas ao longo dessa trajetória. Um dia postei uma foto do meu pai, que faleceu no ano passado. Encontrei uma foto dele, nos anos 1970, cheio de estilo, postei e recebi um comentário de uma pessoa que tinha trabalhado com ele, dizia que ele era um excelente profissional, que era muito divertido e que fazia falta. Fiquei tão emocionada. Jamais poderia imaginar que uma foto iria desencadear um encontro assim – conta.

Boa surpresa foi saber que duas pessoas se conheceram por causa do Instamission. A missão era “fotografe objetos que contem uma história”. A @mawa postou uma foto da avó dela. O @olhosvestidos delunetas reconheceu a senhorinha, que era amiga da avó dele. Os dois começaram a se falar e acabaram se conhecendo fora da rede, em um jantar recheado de lembranças e de histórias.

Agora, o Instamission virou a instalação “Invente um sorriso” no File, Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, que acontece até agosto, no Centro Cultural Ruth Cardoso, em São Paulo, levando a experiência on-line para um espaço público, por onde passam milhares de pessoas por dia.

Quem passa pelo evento é convidado a inventar um sorriso (uns ficam tímidos, outros se posicionam diante da câmera na mesma hora, alguns desenham, outros fazem coraçãozinho etc.), os fotógrafos registram, e a as imagens aparecem na vitrine da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Um sorriso, só pra deixar o dia mais alegre e feliz, segundo a dupla.

- Já ouvimos coisas como “quero ter um iPhone só para poder participar das missões” – conta Daniela. – Pensamos em fazer outras exposições também. Algumas pessoas que participam das missões já nos perguntaram se haverá “Invente um sorriso” em Recife, em Manaus etc. Adoraríamos viajar, inventando missões e buscando a colaboração de pessoas que amam fotografia como a gente.

Tchequirau

O Beastie Boys anda animado com as filmagens. Depois do curta “Fight For Your Right To Party (revisited)”, essa semana pintou um clipe de 11 minutos de “Don’t Play No Game I Can’t Win”, produção de ação lo-fi com bonecos, dirigida por Spike Jonze. Belezura tosca.

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Transcultura # 053: Baleia, Pessoas e computadores

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Baleia na onda do jazz
Em busca da sua praia, banda Baleia une Justin Timberlake a Chet Baker

por Bruno Natal

Junte um monte de filhos de peixe e forme um cardume. Misture todos e tenha uma Baleia. Trazendo música no DNA, Luiza Jobim (voz e, sim, filha do maestro), David Rosenblit (piano, filho do também pianista Alberto Rosenblit), Cairê Rego (baixo, filho do saxofonista Paulo Rego), os irmãos Gabriel e Sofia Vaz (voz), Felipe Pacheco (violino e guitarra) e João Pessanha (bateria) montaram um grupo para enveredar por um caminho pouco escolhido pelas novas bandas: o jazz.

- Não sabemos como isso aconteceu. Surgiu provavelmente do interesse de tocar velhas canções de jazz, lá no início da Baleia, o que acabou se refletindo na nossa maneira de compor e tocar. Hoje, definitivamente, não estamos presos ao jazz – diz Cairê.

- As pessoas acham estranho a gente, tão novo, tocando jazz. É uma grande mistura com pop também – completa Luiza.

Apresentando standards e versões de música contemporânea, o repertório da Baleia não deixa dúvidas das pretensões pop da banda. Eles são amigos desde os tempos de escola e de outros projetos musicais. E se encontraram para tocar músicas de que gostam.

- O repertório é bastante amplo, vai desde Louis Armstrong a Justin Timberlake, passando por Chet Baker, Nina Simone e Radiohead. Gostamos de fazer versões, o que acaba caracterizando o grupo. Trazemos essas canções para o nosso estilo, e o resultado é algo diferente do esperado. Tocamos “Toxic” (Britney Spears) e “Blue angel” (Squirrel Nut Zippers) – lista Sofia.

- As versões normalmente são aquelas músicas que gostaríamos de ter feito, mas não deu, fizeram primeiro – explica Cairê.

Sem enxergar uma cena para se encaixar, a Baleia nada sozinha. Para Luiza, a relação com as outras bandas se dá mais pela admiração, uns frequentando os shows dos outros, esse hábito que anda meio perdido nos palcos cariocas.

- Tem uma grande leva de bandas novas de que a gente gosta muito. Adoro o Letuce. Alice Caymmi é uma grande amiga. A gente tocou com os Ganeshas no Espaço Sérgio Porto. O Felipe tem uma outra banda de rock, chamada Los Bife, e o David, uma de samba chamada Novíssimos – diz a cantora.

Com algumas poucas músicas gravadas, a banda está no processo de produção do seu primeiro EP. Enquanto isso, vai disponibilizando algumas faixas na rede, esquentando para o próximo show, no dia 28, no Teatro Café Pequeno.

- Acabamos de gravar uma versão para uma música do Justin Timberlake, “What goes around comes around”, para a divulgação da festa Cover Flow. O primeiro clipe de uma música nossa, “Killing cupids”, dirigido por Nicolas Bro, está quase pronto.

Tchequirau

Intrigado com o tempo que passmos encarando a tela do computador, o artista digital Kyle McDonald instalou um aplicativo nas máquinas de livre uso de uma loja da Apple, disparando fotos dos usuários a cada minuto. Ele reuniu as fotos no peoplestaringatcomputers.tumblr.com e agora enfrente problemas legais por invasão de privacidade. Questão espinhosa, só fez fortalecer o projeto.

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Transcultura # 052: SBTRKT, WDYL

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Conheça o DJ e produtor inglês SBTRKT
por Bruno Natal

A trajetória é aquela de sempre: produtor remixa uma penca de artistas conhecidos – Radiohead, M.I.A., Darwin Deez, Goldie, Underworld, Modeselektor, Mark Ronson – antes de lançar um disco com material próprio. O inglês SBTRKT (pronuncia-se Subtract) não fugiu a essa regra, porém as obviedades param por aí.

Como Mount Kimbie, Jamie Xx ou James Blake, ele é mais um a dar o passo adiante e se distanciar da parcela modorrenta do dubstep que domina a cena inglesa, formatando o tal post-dubstep com seu disco homônimo. Saem os pooooowonnn towonnnn intermináveis, entram batidas quebradas herdadas do drum’n’ bass (cada vez mais perto de voltar à tona), graves macios com uma influência de Miami bass, vocais de R&B e uma certa melancolia.

A prévia do disco no Hype Machine deveria ter se encerrado na segunda, mas até quarta continuava funcionando. Camas de sintetizadores, vocais, efeitos – é som pra ouvir de fone, menos pista, mais viagem. Mesmo assim, tem música fazendo sucesso. “Wildfire” deixou de ser um hit da internet depois de ser remixado por Drake – o rapper usou a base pra cantar em cima, substituindo o vocal original de Yukimi Nagano.

Nas apresentações ao vivo, pegando emprestado o retro-futurismo do Daft Punk e o anonimato do Burial, SBTRKT costuma tocar com uma máscara africana escondendo o rosto. De vergonha é que não pode ser.

Tchequirau

O que você ama? É essa pergunta que faz o novo serviço de buscas do Google, What Do You love, apresentando os resultados numa página com vídeos, estatísticas, imagens e outros dados relacionados ao tema escolhido. Um tanto frio ainda, mas deve melhorar, a proposta é boa.

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Transcultura # 051: Turntable.FM, Nicolas Jaar

Meu texto da semana retrasada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Uma festa cheia de social
por Bruno Natal

Está para surgir uma proposta com mais pinta de fracasso do que a do Turntable.fm: uma página em que os usuários podem realizar uma festa virtual. Soa como uma desgraça até você entrar e entender o funcionamento dos mecanismos que estão fazendo o serviço ser apontado nos meios digitais como potencial novo sucesso das redes sociais.

Uma vez cadastrado, o usuário pode entrar numa das salas disponíveis, onde vai encontrar uma mesa com cinco toca-discos e muitas pessoas ouvindo a mesma música. Os DJs tocam alternadamente, cada um escolhendo uma música, e todos ouvem a mesma, ao mesmo tempo. Se todos os espaços para tocar estiverem tomados, o usuário ouve o som e conversa no chat com as outras pessoas presentes na festa. Sim, chat. Os anos 1990 estão voltando mesmo.

As músicas podem ser escolhidas numa busca pelo arquivo do Turntable.fm ou, se não encontrar o que queria, há a opção de subir suas faixas, aumentando o acervo da página. As questões de direitos autorais, se já não estiverem resolvidas, certamente serão o principal entrave ao crescimento do serviço.
Ainda em lançamento, por enquanto o acesso é limitado via Facebook Connect, e, mesmo assim, você precisa ter ao menos um amigo já cadastrado no Turntable.fm (com o volume de gente falando sobre o serviço, provavelmente você tem algum amigo bancando o DJ).

O motivo do sucesso é a facilidade oferecida para compartilhar uma música com um grande número de pessoas, em tempo real e de forma interativa, como um Instagram de músicas. Por mais simplório que pareça, não havia ainda um serviço assim. Qualquer usuário pode também criar sua própria sala e convidar os amigos. Fiz exatamente isso no domingo passado, quando soube do serviço. Divulguei pelo Twitter e rapidamente havia cerca de 30 pessoas na festa, que foi até as 4h. Todo dia têm surgido salas de blogues, festas conhecidas, funcionando como uma prévia do que se pode encontrar no ambiente real.

Há muitas possibilidades à vista, como um aplicativo de celular que permita a uma festa caseira ter o som alimentado pelos convidados, sem ninguém precisar ficar na função de tomar conta da seleção (é, em plena era do “todo mundo é DJ”, ainda existem momentos assim). O receio de que a maior parte das pessoas vá estar simplesmente aguardando sua vez de colocar sua música – muita gente querendo tocar, poucas querendo ouvir – não se confirmou. O fato é que a música pode nem ser o foco principal do usuário. A graça está no rodízio, e a maior atração é o bate-papo.

ATUALIZAÇÃO: Agora o serviço está disponível apenas nos EUA, tendo sido bloqueado no resto do mundo.

Tchequirau

CSP04 ∆ NICOLAS JAAR for XLR8R by Clown and Sunset

O set que o Nicolas Jaar preparou para revista XLR8R, parte da sua série de podcasts do seu selo Clown & Sunset, é ótima trilha pra descansar no feriado. Uma atualização do downtempo, principalmente através dos remixes do próprio Jaar.

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Transcultura # 050: Avec Silenzi,

Meu texto da semana re-retrasada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O silêncio do Avec Silenzi
por Bruno Natal

Mal começou e o promissor Avec Silenzi (www.avecsilenzi.com) honrou o nome e silenciou. Deixa para trás dois discos, lançados pela Manifesto Discos. O último show da banda instrumental foi na segunda-feira, no festival Aúdio Plural. Tocando com na Audio Rebel, em Botafogo. Sem alarde, na maciota, num dos palcos que mais honram o espírito alternativo no Rio. O tamanho reduzido do lugar, por onde já passaram Hurtmold e o Burro Morto tocou na mesma noite, obriga a um intimismo.

Formada por ex-integrantes de bandas de som pesado – Eduardo Souza, Rafael Ferreira (do Itsari) e Renan Vasconcelos (do Cyuss) – o motivo não foram as “diferenças musicais” de sempre. Foi diferença de endereço mesmo.

- Um dos integrantes vai mudar da cidade e começar um trabalho que ocupará todo final de semana. Para ter uma banda que não faz shows e não produz, resolvemos terminar – explica Eduardo.

Em tempos em qualquer bandeca utiliza todas as ferramentas para parecer profissional (soar profissional fica em segundo plano, muitas vezes), parece não haver mais espaço para simplesmente tocar por diversão com os amigos.

- Será que somos mais uma dessas bandecas? – brinca Eduardo. – Espaço sempre tem, espaço você cria. Foram mais de 10 anos tocando só em buraco, 90% furada. Amávamos isso. Num certo momento resolvemos montar o Avec Silenzi para vivenciar a música de uma outra maneira, para tocarmos em outros ambientes. E conseguimos. Tocamos em livrarias, boates, bares… Nossa listinha de afazeres para 2011 incluia agitar uma turnê européia. Acabou ficando só nos planos mesmo.

Vai-se a banda, ficam as páginas online.

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Transcultura # 049: A Banda Mais Bonita Da Cidade, Código Florestal

Meu texto da semana retrasada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A banda mais falada da cidade
Vídeo “fofinho” de grupo de Curitiba qu explodiu na internet gera homenagens e paródias
por Bruno Natal

Muito provavelmente, na última semana você deve ter recebido um link por e-mail, Facebook ou Twitter para o clipe de “Oração”. Em menos de uma semana, A Banda Mais Bonita da Cidade passou de um grupo desconhecido de Curitiba para um dos nomes mais comentados do Brasil. O principal motivo do sucesso foi o clipe: um plano-sequência de seis minutos, em que a banda e seus amigos repetem a letra simples em uma festa particular numa casa, lembrando bastante o clipe de “Nantes”, do Beirut, feito por Vincent Moon.

Em uma semana, o vídeo ultrapassou, com folga, a barreira de dois milhões de visualizações no YouTube (a banda sonhava com três mil) e foi motivo de textos inflamados – defendido pela alegria, atacado pela felicidade de comercial de manteiga e, claro, parodiado. Para Leo Fressato – que não é integrante do grupo, mas compôs a música e dirigiu o clipe -, as pessoas estavam carentes de amor.

- As pessoas queriam assistir a um vídeo que não fosse trash e que também não fosse violento. Quando se depararam com essa explosão de alegria, seus corações foram tomados, e aí repercutiu – acredita ele.

- Alguns não gostaram porque acharam muito fofo. É direito deles ir contra essa ideia de “comercial de margarina”. Tem pessoas que não querem essa fantasia sobre a vida, que tanto o clipe quanto esses comerciais transmitem.

Bem-humorado, Leo comenta para a Transcultura as principais homenagens feitas ao vídeo que estão circulando pela internet, como A Banda Mais Repetitiva da Cidade, A Banda Mais Bonita da InternetA Segunda Banda Mais Bonita da CidadeI, uma versão Chaves (assista também o original) e até A Bunda Mais Bonita da Cidade.

- Não só adoro as paródias, como acho que elas refletem a dimensão do que está acontecendo. As pessoas não se contentam em assistir. Elas querem fazer parte daquilo, mesmo que criticando, o que é o caso de algumas delas – diz ele.

- Ri muito das paródias, em especial a da repetição, pela substituição da letra, mantendo métrica e rima. A pessoa que fez isso merecia um abraço. Outras como as do Chaves não precisa nem comentar, todos assistimos na infância. Não tem como não ser uma bela homenagem.

Tchequirau

Semana triste par as florestas com o assassinato do casal de ambientalistas no Pará e a aprovação do Código Florestal e da emenda que anistia os desmatadores pelo Congresso. Plante uma árvore. Vamos precisar.

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Transcultura #047 (O Globo): Eltron John, Chet Faker, Com Truise, Trabalhe 4 horas por semana

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo (vou publicar também a íntegra das entrevistas com Chet Faker e Eltron John):

A diferença está nas letras
De Tom Cruise a Michael Jackson, artistas famosos se embaralham com homônimos bizarros
por Bruno Natal

Não dá pra contabilizar quantas vezes escreveu-se ou falou-se Obama no lugar de Osama (e vice-versa) nas últimas semanas. Uma letrinha faz toda diferença. Falando de nomes de banda a coisa também não anda fácil pra ninguém. No witch house a situação é crítica. Prince na fase o-artista-antes-conhecido-como-Prince, quando trocou o nome por um símbolo, fez escola e nomes impronunciáveis (e ingoogláveis) pipocam: oOoOO, pyr▲mids of ▲▲, Gr†ll Gr†ll, ℑ⊇◊⊆ℜ ou †33†H. E tinha gente achando complicado os títulos dos discos do Justice e da M.I.A., respectivamente “†” e  “/\/\/\Y/\”.

No universo chillwave (e do jeito que o termo vem sendo colado em tudo, bota universo nisso) as coisas não são tão radicais. O que impera é a sensação de dislexia ao ler o nome dos artistas: Com Truise, Jichael Mackson e Hype Williams são alguns deles.

Responsável pelo Chet Faker, cuja versão do hit dos anos 90 “No Diggity” (Blackstreet) ocupou o topo da parada do Hype Machine essa semana, o australiano Nick (pra completar assina os emails com James Murphy), se inspirou no cinema para escolher seu nome artístico:

- Chet Baker é o James Dean do jazz, muito talentoso, porém mais interessado em manter a fama de bad boy do que em tocar trumpete. O nome é para me lembrar de fazer uma música  que atenda uma imagem, o que é uma piada para mim mesmo. Sou fã de música orgânica e sem amarras, iniciar um projeto com o objetivo oposto soa um pouco falso pra mim, por isso o “faker” (fingidor).

O polonês Marek, mais conhecido como Eltron John, tirou seu nome de antigos amplificadores onipresentes em praças e escolas nos tempos do comunismo, o Eltron 100. Abandonados em depósitos após o fim do regime, eram utilizados por jovens para embalar suas festas, mesmo com a qualidade duvidosa do som. Fã de dub, adotou o nome Eltron John Soundsystem antes de simplificar e se tornar um quase homônimo do artista inglês.

- Sou fã do Elton John e se tivesse que fazer comparações, seria a pegada soul e funk. Ele criou algo próprio, sem tentar soar como os artistas negros, gostaria de criar uma sonoridade pessoal também. Ao contrário dele, não sou inglês, não sei tocar piano ou cantar muito (apesar de que gostaria) e não tenho um marido.

Para Marek, a chuva de nomes estranhos não passa de coincidência:

- Quando adotei esse nome, não era ligado em internet, acessava muito pouco, não pensei nisso como nenhum tipo de estratégia para ser notado ou encontrado facilmente online. Quando descobri outros artistas com nomes parecidos com outros mais famosos não dei muita atenção a isso. Os nomes remetem a outros artistas, mas não necessariamente a música. Não vejo um comportamento interligando esses artistas.

Com a quantidade de bandas que surgem todo dia, os bons nomes vão rareando. Nick oferece uma explicação para a escolha de nomes tão estranhos pela safra de artistas atuais, baseada no excesso de informação de hoje em dia:

- A música pop tem uma conotação tão negativa atualmente que é uma progressão natural as pessoas evitarem a acessibilidade, dificultando ser encontrado. No entanto, acho que é uma onda que vai passar rápido.

Tchequirau

O comentado livro “Trabalhe 4 Horas Por Semana”, do Timothy Ferris, promete ensinar a organizar o seu fluxo de trabalho nesses dispersivos tempos digitais, de maneira a restar tempo de sobra para todo resto. Resta saber se dá pra ler em 4 horas.

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Transcultura #046 (O Globo): The Weeknd, Rome, Mayer Hawthorne & Friendly Fires, Google Music Beta

Meu texto da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo (e completou um ano essa semana!):

Trailer musical completo
Três Quatro artistas permitem audição na íntegra dos seus novos discos
por Bruno Natal

O tempo em que o lançamento de um disco era um evento exclusivo vai, ainda bem, ficando para trás. Também comem poeira o pinga-pinga de faixas avulsas e a bisonha “sacação” de liberar alguns segundos de determinada canção – algo que pode funcionar no cinema, na literatura, porém totalmente sem sentido na música. Cientes de que a audição prévia tem o poder de alavancar as vendas, cada vez mais artistas oferecem uma audição completa do disco antes do lançamento para os fãs decidirem se gostam o suficiente antes de comprar, sem a necessidade de baixar as músicas ilegalmente.

Esta semana, os novos trabalhos do Friendly Fires e do produtor Danger Mouse foram disponibilizados no Hype Machine (onde também foi lançado o segundo disco de Lykke Li) e na NRP Music, respectivamente. Além deles, há um mês o estreante The Weeknd fez o mesmo no Soundcloud, além de permitir baixar o disco todo. Também de presente para os fãs, Mayer Hawthorne lançou um EP de versões pra baixar de graça na página de sua gravadora, Stones Throw Records.

“Rome”, Danger Mouse & Danielle Luppi (participação especial de Jack White e Norah Jones): Numa época em que todo ser humano parece ter um trabalho artístico, observar o tamanho e a quantidade de projetos do Danger Mouse nos últimos anos (um produtor que chamou a atenção inicialmente com um disco de mashups de Beatles com Jay Z, montou o Gnarls Barkley e produziu o Gorillaz), é ter certeza que da quantidade pode vir qualidade. E viva as facilidades digitais. Seu mais recente projeto é uma parceria com Daniele Luppi e conta com a participação de Jack White e Norah Jones nos vocais. Produzido ao longo de cinco anos e inspirado nas trilhas de Ennio Morricone, “Rome” foi gravado em… Roma, em formato analógico, com músicos originais das trilhas de Morricone, incluindo Edda Dell’Orso, uma das cantoras prediletas do compositor, presente também nas trilhas dos três principais filmes de Sergio Leone, mestre do western spaghetti. O resultado serviria perfeitamente para uma trilha de Tarantino. Bem contemplativo, “Rome” lembra em alguns momentos “Dark night of the soul”, outro projeto de Danger Mouse, sempre em boa companhia, com David Lynch e Sparklehorse. Os músicos disseram em entrevista que uma turnê está nos planos. É aguardar pra ver se conseguem juntar tanta gente num mesmo palco.

“House of balloons”, The Weeknd: A influência da estética do dubstep, mais do que o próprio estilo surgido na Inglaterra, vai cada vez mais longe, se distorcendo e se transformando, como mostram os recentes discos de James Blake ou Mount Kimbie. No caso do novato The Weeknd, que é formado pelo cantor Abel Tesfaye e os produtores Doc McKinney and Illangelo, as pancadas graves no vazio e os reverbs secos do dubstep encontram o r&b, resultando num melado trip hop de derreter a orelha e dançar devagarinho, como sugere a psicodelia soft porn da capa.

“Pala”, Friendly Fires: O trio inglês chegou de mansinho com “Paris”, acelerou com “Skeleton boy” e explodiu com “Jump in the pool”, rapidamente passando de aposta da semana para banda da vez, título que o Friendly Fires pretende consolidar com o segundo disco. O mais próximo do que se conhecia do Friendly Fires é “True love”, dançante, com bateria “disco” e baixo pulsando. “Pull me back to earth” e “Show me lights” também não passam tão longe. De resto, “Pala” (nome da ilha utópica do livro “A ilha”, de Aldous Huxley) é muito diferente, o que é ótimo. Muito influenciado pelos anos 80, às vezes de forma direta, outras perto da releitura da década proposta pelo hypnagogic/ chill wave e seus vocais filtrados e camadas de teclado, o trio pula a furada nu-rave e vai direto de rave, acid-house e tudo mais. O clipe da música que abre o disco, “Live those days tonight”, ganhou uma versão editada pela banda só com imagens de festas na virada dos anos 1980 para os 1990 encontradas no YouTube. Como todo bom disco, cresce a cada audição.

“Impressions”, Mayer Hawthorne: Com apenas um disco, Mayer Hawthorne conseguiu uma boa base de fãs para o seu soul retrô, com uma leve atualizada via hip hop. Bom de palco, um dos seus trunfos são as versões – a interpretação de “Gangsta Love”, do Snoop Dogg, faz frente a original. Por isso, enquanto o segundo disco não vem, Mayer dá uma acalmada oferecendo de graça um EP só de covers. São seis músicas: “Work To Do” (Isley Brothers), “Don’t Turn The Lights On” (Chromeo), “You’ve Got The Makings Of A Lover” (The Festivals), “Fantasy Girl” (Jon Brion), “Little Person” (Steve Salazar) e “Mr. Blue Sky” (Electric Light Orchestra). Fino.

Tchequirau

O Google lançou seu serviço de música, no qual o usuário hospeda sua discoteca de graça e pode acessá-lo de qualquer lugar, incluindo celulares rodando o sistema Android. É basicamente um Spotify gratuito com pontencial pirata, já que aparentemente não questiona a procedência das músicas.

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Transcultura #045 (O Globo): Kids & Explosions, Combo Percussivo

Texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Mashup Psicodélico
Cineasta indicado ao Oscar troca os filmes por projeto musical

por Bruno Natal

Na página do Kids & Explosions, o artista descreve a si próprio como “um garoto que faz música roubando música dos outros e tornando-as piores”. Sobre a parte visual do projeto, feita pelo colega de apartamento Justin Broadbent, diz que é formada “basicamente por gatos e pornografias, assim como o disco”, estimulando a audição das faixas “enquanto se navega por uma grande variedade de imagens ofensivas”.

A auto-ironia encaixa bem no projeto de mashups com pegada glitch e seus ruídos digitais. O disco de estreia, “Shit Computer”, lançado em novembro passado e baixado no esquema “pague quanto quiser”, popularizado pelo Radiohead em “In Rainbows”.

- O disco foi baixado mais de 10 mil vezes diretamente da minha página. Um terço das pessoas pagou, uma média de 3 dólares. A variação foi muito grande, alguns pagaram 20 dólares, outros um centavo. Fico lisonjeado e encantado quando alguém pagar a quantia que seja – explica o canadense Josh Raskin, canadense, indicado ao oscar pelo curta de animação “I Met The Walrus”, feita em cima do áudio de uma entrevista de John Lennon.

Se num mashup usual identificar as músicas sampleadas por vezes é complicado, nas composições do Kids & Explosions a tarefa é dificultada pelo método de desconstrução e reconstrução dos trechos, criando uma charada dentro da charada. Em vez de “simplesmente” contrapor dois ou mais hits, Josh picota as músicas, em muitos casos rearranjando as notas, evitando modificar o andamento ou o ritmo para facilitar os encaixes.

A primeira audição não é macia, o cérebro frita com a quantidade de referências embaralhadas. Em “Everything”, as letras de “Lose Yourself” (Eminem) encontram as de Biggie, ambas totalmente alteradas, com palavras fora de lugar, a base montada com trechos da introdução de “Sweet Child O’Mine” (Guns N Roses) com as notas da guitarra em outra ordem, mas ainda assim facilmente reconhecíveis. “Swear Words” é construída utilizando apenas palavrões ditos em diversas músicas, numa base feita em cima de samples de “Such Great Heights” do Iron & Wine. Como o nome do projeto sugere, a abordagem lembra uma criança brincando de explodir coisas: mais preocupada com o resultado plástico do que com as consequências.

- Começo cortando as melhores partes de músicas que amo. Depois ataco esses pedaços num teclado MIDI até encontrar algo que funcione. Você sabe que está funcionando quando sente vontade de chorar ao mesmo tempo que quer engravar as coisas – explica Josh.

Os sons que fazem Josh querer “engravidar coisas”, o que quer que isso signifique, são encontrados nos pianos do Radiohead, riffs The Strokes, Cindy Lauper, Feist, 2Pac, Iron & Wine, M.I.A., Sigur Rós, Destiny’s Child, MGMT, Massive Attack, entre outros. Com tanta coisa junta, dançar fica meio difícil.

- As pessoas dão um jeito de dançar qualquer coisa. Dependendo da música, as vezes parece mais que estão se segurando para não mijar do que dançando mas quando as pessoas gostam de uma música, elas tendem a se mover pelo espaço. Ainda não toquei essas músicas ao vivo, então vou saber em algumas semanas.

A sonoridade do Kids & Explosions está mais para Kid Koala do que Girl Talk, comparação insistente e da qual Josh não foge, embora não veja o que faz exatamente como mashups:

- Penso em mashups como juntar duas músicas sem afetar muito nenhuma das duas. Não é exatamente o que eu faço. Acho que meu som está mais próxmo de gente como DJ Shadow e Prefuse 73 do que do 2ManyDJs ou Girl Talk. O Girl Talk é demais, é como um DJ de festa com mil braços. Perfeito para levar uma pista de dança ao orgasmo. Mas o que fazemos é bem diferente. Ele sampleia músicsa para fazer as pessoas se acabarem nas festa. Eu sampleio porque não sei cantar.

Já prometendo um novo disco, Josh não abandonou os filmes. As necessidades de cada ideia determinam o caminho a seguir.

- Ainda quero fazer filmes, mas não animações especificamente. Gosto de usar o formato que melhor servir a ideia. Por agora tem sido roubar música dos outros e fazer algo novo a partir delas. A indicação ao Oscar provavelmente vai ajudar muito algum projeto de filme quando a hora certa chegar. Não quero me apressar a fazer algo até encontrar algo que realmente me excite. Só sou bom em alguma coisa quando fico obcecado por elas. Senão, só faço besteira.

O fato de vender o disco, transformando a atividade artística em atividade comercial com ganho financeiro, pode complicar o cenário numa eventual ação de um dos detentores dos direitos autorias. Josh não se preocupa.

- As pessoas sempre criaram roubando coisas dos outros e as combinando para criar algo novo. Eventualmente as leis de direito autoral vão aceitar esse fato como parte essencial da criação de qualquer coisa. Não acho que ninguém se importe de ter suas coisas roubadas, a não ser que você esteja faturando milhões de dólares com isso. E se isso um dia acontecer, estarei ocupado demais substituindo partes do meu corpo por diamantes para me preocupar com processos.

Enquanto os mashups evoluem no universo musical, no áudio-visual o formato ainda engatinha, tendo ido muito pouco além das colagens rítmicas vistas no trabalho de VJs como o AddictiveTV ou as apresentações áudio visuais do Coldcut, DJ Yoda ou Mike Relm, em que o som é mais importante do que as imagens. A tarefa não é fácil. Um dos expoentes da não-linearidade, o beatnik William S. Burroughs tentou aplicar a técnica dadaísta de cut-ups utilizada em seus textos (literalmente cortando e colando trechos aleatórios) ao vídeo, sem o mesmo sucesso. Vindo do cinema, Josh enxerga alguns diretores buscando novos caminhos.

- Filmes são feito de coisas que as pessoas conseguem se relacionar: lugares, relações, histórias… No momento que você retira essas coisas, as pessoas perdem o interesse. Música, pra começar, é algo totalmente abstrato, é mais fácil forçar os limites sem assustar as pessoas. Não importa o quanto você bagunçar, ainda vai ser apenas ar se movendo. Nomes como Charlie Kaufmann e Paul Thomas Anderson estão empurrando o cinema numa direção boa. Eles estão fazendo coisas que nunca haviam sido feitas, mas dentro do contexto narrativo, então as pessoas não querem esfaquear os próprios olhos quando assistem seus filmes. Essa é a direção que gostaria de seguir.

Tchequirau

Acostumado a fazer intervenções vocais no show das sua Nação Zumbi, o percussionista Gilmar Bola 8 assume o microfone de vez no seu novo projeto, Combo Percussivo.

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Transcultura #044 (O Globo): apostas Coachella 2011, Wado

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo (vou publicar também a íntegra das entrevistas com Chet Faker e Eltron John):

O futuro no Coachella
Listamos dez emergentes nomes do festival que começa hoje nos EUA

por Bruno Natal

Não é fácil conseguir tocar em um dos mais influentes festivais de música do mundo. Ser escalado para o Coachella aumenta a visibilidade de muitos artistas; porém, essa é apenas metade da tarefa. Uma vez lá, uma banda precisa despertar a atenção do público, entre mais de cem atrações.

Na edição 2011, que acontece de hoje a domingo, no deserto da Califórnia, os brasileiros Emicida (com problemas com visto, não está confirmado), The Twelves e DJ Marky disputarão espaço com os arrasta-multidões The Strokes, Arcade Fire, Chemical Brothers, Kings of Leon, Kanye West e outros. Segue, então, uma seleção com dez nomes menos comentados do festival – e que podem fazer os melhores shows do evento. Afinal, quanto menos testemunhas, mais histórico.

1) Tame Impala: Sendo justo, os australianos também não estão exatamente escondidos no mapa, mesmo que ainda faltem muitos e muitos degraus até o topo. Psicodelia setentista de interferências oitentistas. Ouça: “Alter ego”

2) Menomena: Indie rock experimental (pode falar isso?), os integrantes trocam de instrumentos e funções em cada música, feitas num programa de computador desenvolvido por um dos integrantes. Soa mais complicado do que de fato é. Ouça: “Taos”

3) Brandt Brauer Frick – O Kratwerk ressucita após uma noitada disco. Ouça: “Bop”

4) Foster The People: Os vocais do MGMT, as bases do Passion Pit, ainda engatinhando, rock dançante e fofo, para agradar aos meninos e às meninas. Ouça: “Pumped Up Kicks”

5) TOKiMONSTA: Em tempos de hits comerciais, o hip-hop ainda pode ser instrumental. Na chapação do Flying Lotus, só que feito por uma mulher. Ouça: tudo!

6) Here We Go Magic: Mais uma do Brooklyn, mais uma banda dando o passinho à frente do chatoide nu-folk, adicionando sintetizadores e programação eletrônica. Ouça: “Tunnelvision”

7) OFWGKTA: É injusto dizer que o Odd Future Wolf Gang Kill Them All, muitas vezes chamado apenas de Odd Future, está sendo pouco comentado. O polêmico coletivo de hip-hop, formado por uma molecada californiana, vem sendo apontado como o que de mais diferente surgiu no gênero recentemente. Ouça: “Yonkers”

8) Mount Kimbie: Pós-dubstep, se é que existe algo assim. A dupla inglesa sai na frente, sem o apelo pop de James Blake. Ouça: “Before I move off”

9) Ramadanman: Com o iminente resgate dos anos 1990, a volta do drum ‘n’ bass é certa. A presença dos DJs Marky, Andy C e Hype na escalação do Coachella aponta que o retorno das batidas quebradas começou. Parte da nova geração, Joy Orbison também toca, assim como os primos do dubstep Kode9, Roska e Caspa. Destaque para o Ramadanman misturando as duas coisas. Ouça: “Don’t Change For Me”

10) Black Joe Lewis & The Honey Bears: O soul e o funk parecem mesmo eternos. Mais uma banda surge fazendo o dever de casa do mestre James Brown direitinho. Ouça: “Sugarfoot”

Tchequirau

Catarinense radicado em Alagoas e agora morando no Rio, Wado comemora os dez anos do seu disco de estreia tocando “O Manifesto da Arte Periférica”na íntegra, no Oi Futuro Ipanema, com participações do Momo (hoje), Domenico (sábado) e Kassin (domingo).

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Transcultura #043 (O Globo): LCD Soundsystem // Friday


Eles não estavam lá sozinhos
foto: Alexander Stein (Pitchfork)

Texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Show de despedida do LCD Soundsystem transmitido pela rede reduz a fronteira entre online e offline
por Bruno Natal

Sábado passado, o LCD Soundsystem fez seu último show, em Nova York, num Madison Square Garden lotado. Os ingressos se esgotaram em minutos, muitos indo parar na mão de cambistas, o que desagradou o líder da banda, James Murphy. Decidido a dividir o momento com os muitos fãs espalhados pelo mundo que ficaram de fora, Murphy topou a transmissão on-line ao vivo e gratuita proposta pelo site Pitchfork.

O resultado foi histórico, tanto em termos musicais quanto tecnológicos. Principalmente porque a transmissão desafiou a constante diferenciação entre a vida real (das ruas) e a vida conectada (“dentro” do computador). Apesar dos números da audiência não terem sido revelados, o comentário foi intenso nas redes sociais antes, durante e depois das 3h40m da apresentação, levando, por exemplo, o nome da banda à lista de assuntos mais comentados no Twitter.

O LCD é a primeira banda da geração 00 cujo fim teve tanta repercussão, e a comoção provocada pela dissolução do grupo foi comprovada na madrugada do show. Os relatos em texto e fotos de fãs se reunindo para conferir a apresentação em bares ou em casa, ligando o computador em televisores e aparelhos de som para melhorar a experiência, mostraram que “assistir na internet” não é mais uma experiência menor, muito menos solitária.

As imagens pixeladas e as pequenas travadas, em vez de atrapalhar, contribuíram para a sensação de imediatismo do momento. Cerca de 12 horas depois, arquivos com o áudio e o vídeo do show apareceram na rede. Não é a mesma coisa, mas a sensação de “eu estava lá” já estava impregnada no evento. Mesmo para quem assistiu a milhares de quilômetros de Nova York.

Conhecido pelos vídeos da série “Take away shows”, divulgados na rede, o diretor Vincent Moon fez um caminho aparentemente inverso com seu filme “An island”. Em vez de buscar salas para exibir o registro sobre a banda dinamarquesa Efterklang para o público em sessões para 300 pessoas, Vincent descentralizou o processo ao oferecer a possibilidade de qualquer pessoa baixar o filme em alta definição e produzir uma sessão, desde que fosse gratuita, aberta ao público e para ao menos cinco pessoas (mesmo que isso significasse apenas os seus amigos). Ao pulverizar as sessões, o projeto, encerrado no dia 31 de março, contabilizou 1.178 desses encontros, em diversos países.

A relação entre o mundo on-line e off-line nem sempre é tão fácil. O documentário “Catfish” retrata um jovem que resolve desmascarar uma família quando descobre que o perfil de uma menina com quem estava se relacionando no Facebook não era real. O filme fala mais sobre as relações digitais do que “A rede social” jamais conseguirá, ao revelar quão delicadas e frágeis são essas redes. Mesmo quando os encontros se dão prioritariamente on-line, o “mundo real” está sempre rondando, cercando, derrubando a barreira invisível que separa os dois planos.

Nos três casos vemos o mundo on-line e off-line se fundindo, gerando histórias que não poderiam existir há alguns anos, discutindo, cada um a seu modo, a importância e necessidade de se estar presente para vivenciar algo. Inegavelmente, a realidade mudou. Vidas on e off-line não estão em conflito, são complementares. Nada vai substituir o olho no olho, porém cada vez mais o que importa são os encontros, aconteçam onde acontecerem.

Tchequirau

Interpretada pelo apresentador Stephen Colbert, acompanhado pelo The Roots, no programa do Jimmy Fallon, o hit  mais grudento do ano,”Friday”, da Rebecca Black, ganha sua versão definitiva.

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