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Arquivo: Imprensa

O Globo, 16/07/04

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Matéria sobre o disco “Two Culture Clash” que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Rota de colisão

Imagine convidar alguns dos maiores nomes da música eletrônica mundial para passar alguns dias numa luxuosa mistura de estúdio e hotel na Jamaica, produzindo uma faixa com uma estrela local. Parece impossível? Pois foi exatamente assim que foi feito “Two Culture Clash” (Wall of Sound).
Entre os convidados para esses finais de semana musicais estavam Roni Size, Jon Carter, Soulchild, Cassius, Kid 606 e Jacques Lu Cont, todos muito bem recepcionados por Horace Andy, Big Youth, Barrington Levy, Patra, Ward 21, Tanya Stevens e outros.

No cardápio, uma combinação de estilos com uma receita bem simples: os produtores fazem a cama e os cantores deitam a falação. A escolha dos artistas jamaicanos ficou a cargo de Jon Baker, dono do estúdio Gee Jam, onde o disco foi gravado, enquanto Mark Jones ficou responsável pela seleção dos djs e produtores por Mark Jones. O resultado final desses encontros tanto pode ser considerado um dancehall mais pop do que o feito Jamaica, quanto uma dance music mais crua do que a feita na Europa. Tanto faz, o objetivo era esse mesmo, fundir as duas coisas e ressaltar a proximidade entre a música eletrônica e a musica jamaicana.

— A idéia era juntar duas culturas e músicas que, desde sempre, tem influenciado uma a outra. Desde os tempos do dub experimental e dos mestres do reggae às produções milionárias dos dias de hoje, dos sound systems à cultura do dj, música eletrônica e os sons da Jamaica sempre estiveram ligados. Esse era um disco que tinha que ser feito, pelo bem da história da música – explica Mark.

O queridinho da Madonna, Jacques Lu Cont é o único a assinar duas músicas, uma acompanhado apenas pelo General Degree (“… And dance”) e outra com Ce’Cile e o mesmo General Degree (“Na Na Na Na”). Mesmo assim, não é dele a melhor faixa do disco. Essa ficou por conta da parceria entre o cantor Barrington Levy e Soulchild, em “Backstabbing’”, um dancehall cheio de groove e com um refrão que não sai da cabeça. As quebradeiras “Knock Knock”, da dupla Spragga Benz/Roni Size, e “Enuff 4 you”, de Tanya Stevens/Prassay, também não ficam atrás e o encontro de Patra e Jon Carter também é bom. Decepção mesmo, só o resultado da parceria entre Horace Andy e Howie B, “Fly High”, que, apesar do nome, não alça vôo. Encerrando o disco, pra relaxar, um reggae solitário, “Save me”, produzido por Justin Robertson com vocais de Nadine Sutherland e Ernest Ranglin.

Com a arte do encarte feita pelo grafiteiro mais subversivo da Inglaterra, Bansky, o disquinho só sai em agosto. Enquanto isso, o site do projeto (www.twocultureclash.com), traz biografia atualizada de todos os participantes, além de vídeos e amostras de algumas músicas. Ah, você quer saber se tem previsão de lançamento no Brasil? Sim. Nenhuma.

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O Globo, 09/07/2004

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Matéria sobre viagem à Jamaica, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Improvisando na Jamaica

A Jamaica é um lugar imprevisível. A comunicação é dificultada pelo inglês de sotaque carregado e salpicado de patois . Qualquer tentativa de agendar compromissos é praticamente inútil. Negociar dinheiro, então, nem se fala: os táxis nem taxímetro têm. Ainda assim, essa confusa informalidade não significa que nada esteja acontecendo. Muito pelo contrário. A produção na ilha permanece tão grande e com tanto trabalho que ninguém consegue marcar nada com antecedência.

Dentro desse esquema caótico — na realidade, a essência do lugar — quando você menos espera é apresentado ao Lone Ranger numa loja de discos em downtown , esbarra com o Elephant Man no trânsito, troca uma idéia com o irmão do Tappa Zukie ou do Dennis Brown, descobre segredos como a reabertura do lendário estúdio Channel One (em novo endereço) ou passa a tarde na casa da viúva do King Tubby, vendo o álbum de fotos do funeral do homem que inventou o dub.

Os sound systems, apesar de poucos, ainda são as grandes atrações de Kingston. O Passa Passa, um dos melhores hoje em dia, transforma a Spanish Town Road (nas redondezas de Trenchtown e Tivoli Gardens, duas regiões barras-pesadas da cidade) num lugar aparentemente tranqüilo, com várias figuras sacolejando ao som da seleção musical caprichada de nu roots e dancehall.

O evento só começa a lotar às 3h e permanece cheio até depois do amanhecer. O segredo da rapaziada local pra agüentar tanto tempo são os seguintes combustíveis: cerveja quente, roots drink (bebida energética feita de raízes) e uns galhos verdes vendidos por ambulantes.

Engana-se quem pensa que a trilha dessas festas são clássicos do reggae dos anos 70. Quem vai pra Kingston esperando ouvir esse tipo de som tem grandes chances de voltar decepcionado. Até dá pra escutar um Bob Marley aqui e ali, principalmente quando eles percebem que tem gringo na parada, mas o som que toma conta da Jamaica ultimamente é outro.

Desde o começo dos anos 1990, o dancehall e o ragga dominam as rádios, lojas de disco e os sound systems da ilha. Os nomes mais falados são Bounty Killer, Vybz Kartel, Beenie Man e, claro, Sean Paul e Elephant Man. A exceção fica por conta do Sizzla. Eclético, o cantor lança tanto discos de dancehall quanto de roots, garantindo presença constante nas caixas de som em toda parte. Os selectors (na Jamaica, DJ é o que chamamos de MC) não tocam só uma música dele, tocam logo seis.

Pra experimentar um autêntico baile de dancehall, o Stone Love é a melhor pedida. A festa do principal sound system da cidade é repleta de jovens vestidos a caráter e dançando de maneira quase pornográfica. As músicas são notadamente mais comerciais e um tanto tensas, parte delas com uma sonoridade próxima demais do hip hop dos EUA. Um retrato fiel de boa parte da produção musical atual. Alguns selectors utilizam um Gameboy plugado na mesa em seus sets. Ligado no banco de sons de um cartucho como “Street fighter”, eles disparam sons de pistolas de raio laser, cabangs e outros ruídos. Só assim para disfarçar a troca frenética de discos; nenhum compacto chega a ficar dois minutos rodando.

Rae Town é outro sound system de rua que vale a visita. Focado nos clássicos das décadas de 60 e 70, atrai um público mais velho e sossegado que o Stone Love. É um dos poucos lugares onde dá pra escutar clássicos do Barrington Levy, Horace Andy e Delroy Wilson.

Na Jamaica, de acaso em acaso, de desencontro em desencontro, tudo vai fluindo. Resta fazer como os jamaicanos — submeter-se ao ritmo e dizer: “ no problem, man! ”

Box 1
Gorillaz
Até onde se sabe, o Gorillaz acabou depois do último show em Lisboa, em julho de 2002, certo? Só que não era isso o que estava se falando no estúdio Gee Jam, o preferido dos artistas internacionais que resolvem gravar na Jamaica e onde o Cidade Negra mixou seu novo disco. Situado em Port Antonio, no lado leste da ilha, e cercado de praias paradisíacas, o estúdio já serviu de palco para gravações do No Doubt e do próprio Gorillaz. Lá também foi produzido o ainda inédito “Two culture clash”, um encontro entre a dance music e o dancehall jamaicanos, com a participação de Roni Size, Howie B, Big Youth, Horace Andy e Junior Reid. O papo no Gee Jam era que Damon Albarn e sua trupe já têm datas reservadas no estúdio para gravar um novo disco.

Box 2
Surf Rastas
Seguindo a tradição jamaicana de produzir docudramas, como o clássico “Rockers”, o diretor Rick Elgood está fazendo “Surf rastas”. Elgood também dirigiu “One love” e “Dancehall queen”, este último um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema jamaicano.

Misturando realidade e ficção, “Surf rastas” pretende mostrar o desenvolvimento do esporte ainda incipiente no país, utilizando como cenário a viagem aos jogos mundiais no Equador dos três principais surfistas da equipe nacional: os irmãos Icah e Ini Wilmot e Luke Williams. Além disso, muitas cenas foram filmadas em Kingston e arredores.

Box 3

Não deixe de fazer na Jamaica:

- Comer ital food (o vegetariano rasta) e jerk chicken (um churrasco apimentado)

- Pirar vendo os locais dançando

- Tomar várias Red Stripe (a cerveja local)

- Entrar em qualquer birosca só pra ouvir o que está tocando

- Visitar pelo menos uma de suas praias

Evite fazer na Jamaica:

- Discutir preço (nem adianta tentar)

- Sair com alguém e não pagar as bebidas

- Dividir a bebida com alguém

- Sair à noite sem a companhia de um local

- Dirigir

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O Globo, 02/07/2004

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Resenha do show em homenagem a Coxsone Dodd, que escrevi direto da Jamaica para o Rio Fanzine (O Globo).

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Adeus a ‘Sir’ Coxsone

Bruno Natal – JAMAICA

Qualquer tentativa de resumir a carreira de Clement “Sir” Coxsone Dodd parecerá sempre incompleta. Falar que seu Studio One —- híbrido de estúdio, gravadora e distribuidora — foi um dos principais responsáveis por moldar a música jamaicana nas últimas décadas é pouco. Talvez, acrescentar que foi de lá que saiu “Simmer down” (primeira música do Bob Marley a atingir o topo das paradas de sucessos) e dizer que nomes como Lee Perry, Delroy Wilson e Dennis Brown também começaram por ali ajude a mostrar a dimensão do seu trabalho. Mas isso não é tudo.

A melhor maneira de contar sua trajetória é através da música. E foi exatamente isso que aconteceu no último sábado, no Mas Camp, em Kingston. Morto há menos de dois meses (quatro dias após uma cerimônia oficial que trocou o nome da Brentford Road, rua onde fica o estúdio, para Studio One Boulevard), Coxsone Dodd ganhou um tributo de respeito. Cerca de 30 artistas do seu elenco clássico — praticamente todos que ainda estão vivos, um verdadeiro dream team da velha-guarda jamaicana — reuniram-se para homenagear o saudoso produtor.

O show foi histórico, com as apresentações mostrando um pouco da evolução dos gêneros, indo do ska ao reggae, passeando pelo rocksteady, pelo r&b e pelo dub. O público era formado principalmente por gente que viveu a época, matando as saudades dos bons tempos. Isso porque os jovens na Jamaica só querem saber de uma coisa e de uma coisa apenas: dancehall.

Nem por isso a platéia era menos animada. Quando uma música agradava — e num show desses quase todas agradam — o pessoal apontava as mãos em forma de revólver para o alto, gritando “pou! pou! pou!”. Era a senha para o artista mandar a banda pull up e reiniciar a música, igualzinho ao que alguns DJs fazem hoje em dia.

Alguns dos culpados por esses rewinds acústicos foram Bunny Brown, Prince Jazzbo, Cornell Campbell e Errol Dunkley, com sua “You gonna need me”. As canções de Derrick Harriot tiveram os maiores coros e a dupla Roy & Enid, bem velhinhos, foi quem mais emocionou. Apesar de anunciado em alguns cartazes, Horace Andy não apareceu. No geral, uma noite antológica. Para deixar qualquer Buena Vista roxo de vergonha.

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O Globo, 14/05/2004

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Matéria sobre o primeiro livro do cartunista Allan Sieber que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Três vivas para a tosqueira

O que esperar de um cartunista que define o potencial público do seu primeiro grande lançamento da seguinte maneira:

— Acho que o livro é pra todas as pessoas de mau gosto que gostam do meu trabalho.

A idéia surgiu em 2003. Allan Sieber, que além de charges, produz animações como o clássico “Deus é pai” e mantém um site de cartuns (www.allansieber.com), percebeu que tinha um bom número de tiras. Então ele selecionou as melhores, montou um projeto e foi atrás de algumas editoras. A Conrad mordeu a isca e embarcou no projeto.

A edição de luxo vem numa caixa especial, acompanhada de comentários do cineasta Jorge Furtado, diretor e roteirista de “Houve uma vez dois verões” e “O homem que copiava”, de quem Allan é parceiro (são deles as animações em ambos os filmes).

O livro é uma compilação das melhores tiras “Preto no Branco”, originalmente publicadas online no site da Edições Tonto (www.tonto.com.br). Apesar de ser uma de suas principais características, o trabalho de Allan não é feito apenas de escatologias e outras perversões. Ele também traz reflexões e “Preto no branco” talvez seja sua criação onde isso é mais perceptível.

Auto-referencial ao extremo, a ponto de algumas vezes os quadrinhos contarem com a participação do alter-ego do autor, nada está ali gratuitamente. E voa farpa pra todo lado: religião, patrões, artistas, dificuldades financeiras, não sobra nada de pé. A acidez e o sarcasmo acabam servindo como uma forma de expressar seu inconformismo.

— O título se refere ao próprio visual da tira, preta e branca, além de passar uma idéia de colocar as coisas “às claras” — explica o autor.

Apesar de já ter lançado dois livros, “As piadas vagabundas do Steven” e “As últimas palavras”, ambos foram projetos mais modestos. — Desse tamanho, é o meu primeiro — admite Allan, para em seguida, bem ao seu estilo, falar de suas expectativas.

— Fico feliz que o livro tenha sido lançado por uma grande editora e tenha uma boa distribuição. Agora, se vai vender já é outro papo.

Calma, Allan, estamos do teu lado.

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Vizoo, Jan/2001

Umbigo do mundo

Reportagem sobre uma viagem de ônibus do Brasil ao Chile, passando por Bolívia e Peru, originalmente publicado na revista Vizoo, em janeiro/fevereiro 2001.

Encarar um ônibus até Machu Picchu vai muito além de somente chegar até lá, existe muito mais para aproveitar no caminho. Por mais que uma viagem assim possa parecer uma furada, não é. É sim uma grande aventura, além de ser uma maneira relativamente barata, de se conhecer um pouco do Brasil, Bolívia e Peru.

Estão no caminho, além do famoso centro energético da terra, o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo, a cidade de Cusco, no Peru, e o Vale de la Luna, em La Paz. Tudo que é necessário é ter a cabeça aberta para situações novas e inusitadas e um pouco de disposição para passar alguns apertos.

O melhor de uma viagem destas é chegar lá e aprender. Por isso neste texto você não encontrará a história dos Incas ou elucubrações sobre os costumes locais, vai encontrar uma sugestão de roteiro e algumas dicas de como fazer uma viagem pra lá de boa. E como toda viagem começa quando se decide viajar, é legal planejar tudo com antecedência (veja as informações básicas no box).

O começo de tudo é na rodoviária Novo Rio, de onde sai o ônibus rumo a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com a Bolívia. Depois de 28 horas sentado a melhor pedida é dormir por lá mesmo e partir no dia seguinte para Quijaro, já na Bolívia, de onde parte o “trem da morte”.

O famoso “trem da morte” faz o trajeto entre Quijaro e Santa Cruz de la Sierra e é exatamente como dizem: lotado de galinhas, porcos e traficantes. Traficantes de açúcar, é bem verdade, já que este pó branco é muito mais barato no Brasil. Mesmo assim, há várias buscas policiais no caminho, uma das razões que fazem o trajeto de 18 horas poder chegar a até três dias.

Para fugir dos animais, pode-se pagar um pouco mais para ir na classe Bracha ou na Pullman, que ao contrário do que sugere o nome, são superiores a Primeira classe. De Santa Cruz parte-se para La Paz na mesma tarde, chegando na manhã seguinte. E é aí que se enfrenta o maior dos problemas.

La Paz, capital da Bolívia, está a 3.600 metros acima do nível do mar. À noite, ainda no ônibus, já começam os efeitos da altitude: tonturas, ânsia de vômitos e uma pressão absurda na cabeça. Um dos melhores remédios para o mal das alturas, ou “soroche” como é chamado pelos locais, é a folha de coca. O cultivo e o comércio desta folha, planta sagrada dos Incas, é legal tanto na Bolívia quanto no Peru e não se trata de droga alguma. A cocaína é um derivado da folha, alterado quimicamente. Normalmente a folha é consumida em forma de chá ou simplesmente mascada.

Depois de um bom dia de descanso e de uma noite de sono a altitude já não incomoda tanto. Mesmo assim é bom ficar pelo menos mais dois dias em La Paz para se adaptar totalmente, pois todos os outros pontos da viagem estão a pelo menos 2.200 metros acima do nível do mar. Em La Paz não se pode deixar de visitar o Vale de la Luna, as ruínas de Tiwanako e, se sobrar um tempinho, o estádio onde o Brasil perdeu da Bolívia nas eliminatórias da Copa de 94, com aquele tremendo frango do Tafarel. Deve ter sido a altitude.

A próxima parada é a cidade de Copacabana, as margens do lago Titicaca. A melhor opção antes de seguir para Puno, no Peru, é dormir na Isla del Sol, que nem sempre tem água, mas com certeza terá uma das melhores trutas que você pode comer. Dois dias são o suficiente em Puno, o bastante para conhecer as ilhas flutuantes dos Uros, construídas no meio do Titicaca com uma raiz típica da região, e as imperdíveis ruínas de Sylustani.

A doze horas de Puno está Cusco, que em quechuá, língua original dos Incas e até hoje uma das línguas oficiais do Peru, quer dizer “umbigo do mundo”. Isto porque esta foi a capital do império incaico até ser dominada pelos espanhóis, quando adquiriu a atual aparência européia. A Plaza de Armas é onde tudo acontece. É lá que você vai encontrar desde agências de viagens que oferecem passeios às atrações turísticas da cidade até as boates que agitam a noite de Cusco e, o que é melhor, de graça. Nos arredores de Cusco estão às maiores e mais impressionantes construções Incas. Existem dois passeios que levam as mais importantes: o que vai ao Vale Sagrado, passando por Pisac e Olataytambo, e o que vai a Qorikancha (Templo do Sol) e Sacsaywaman, entre outros. Não se pode deixar de ir. Quanto as boates, as mais indicadas são a Mama Africa e a Xcess, cheias de turistas de toda parte, principalmente argentinos e chilenos.

Mas o que tornou Cusco conhecida mundialmente é que daqui se sai para o “Camino Inca”, ou o caminho real Inca até Machu Picchu. É possível fazer a trilha por conta própria, mas é melhor comprar um pacote em uma das agências de viagem da Plaza de Armas. É fundamental pesquisar bastante, pois os preços variam muito, indo de U$50 até U$435. Os pacotes normalmente incluem barraca de acampar, saco de dormir, comida para os quatros dias, um guia credenciado e carregadores. Os carregadores são os responsáveis pelo conforto durante a caminhada; são eles que levam toda a cozinha, comida e as barracas, além de cozinhar todas as agradáveis refeições.

Nos quatro dias de caminhada você vai ver de tudo; turistas de todo lugar do mundo, animais, plantas exóticas e muitas, muitas escadarias. A trilha de trekking mais famosa da américa do sul tem 42 quilômetros de extensão. No primeiro dia caminha-se bastante, com subidas leves, saindo dos 2.200 metros de Cusco até os 2.800 metros do local do primeiro acampamento. A empolgação ajuda muito durante todo o caminho, mas sem dúvida ela é mais necessária no segundo dia. É então que se parte rumo ao Pico da Mulher Morta, nome sintomático deste pedaço da trilha. Além das folhas de coca uma boa pedida para esta subida é uma pastilha chamada Coramina-Glucosa (laboratório Novartis), vendida em farmácias de Cusco. Em apenas sete quilômetros se vai dos 2.800 até os 4.300 metros deste pico. Falta ar, faltam pernas, falta tudo. Mas quando se chega ao topo a emoção é indescritível. Um misto de felicidade com uma sensação de superação que é inigualável.

O terceiro dia é o que mais se anda e também é o que mais tem coisas para se ver e fazer. Além da paisagem montanhosa dos Andes, atravessa-se um bom pedaço de floresta e visita-se algumas ruínas muito interessantes. Winay Wayna, enorme construção Inca com muitas fontes purificadoras de água está a apenas cinco minutos do local do último acampamento. Há também um alojamento perto onde se pode tomar banho e até aproveitar para tomar umas cervejas, já que o dia seguinte é curto, com três horas de caminhada. Mas é sem dúvida o mais esperado de todos.

No quarto dia o ideal é acordar de madrugada, aproximadamente as 5:00h, para poder chegar bem cedo às ruínas. A trilha Inca é a única forma de se chegar a Machu Picchu pela parte de cima, através de Intipunku (Portal do Sol), a entrada oficial do santuário utilizada pelos incas. Os turistas que vão de trem, ônibus ou até mesmo de helicóptero só chegam à partir das 9:30 h, e chegam pela parte debaixo da cidade. Por isso os que fizeram a trilha Inca madrugam neste dia, para merecidamente ter o privilégio de avistar Machu Picchu de cima e completamente vazia. Intipunku é onde começa a choradeira. Depois de quatro dias de muita expectativa caminhando, a alegria bate forte e quase todo mundo desaba num choro coletivo.

Têm-se algumas horas até os turistas começarem chegar e mais algumas para se conhecer a cidade. Machu Picchu é realmente muito mística e energética, mas esses tipos de comentários são inúteis e ineficazes porque não há adjetivos que realmente descrevam a sensação de andar descalço por aquele lugar. Tem que ir, tirar o tênis e experimentar para entender.

Se sobrou algum…

Se sobrar tempo e um pouco mais de grana, uma idéia muito boa é ir de Cusco até San Pedro de Atacama, no norte do Chile. San Pedro fica no meio do deserto de Atacama e é lá que fica o Vale de la Luna, mais famoso do que o de La Paz, por ser muito maior e mais bonito. Tem também o Vale de Marte, utilizado pela Nasa para testar veículos e sondas antes de serem mandadas ao planeta vermelho, e passeios pelas Lagunas Andinas. Isso sem contar a própria cidade de San Pedro, bem rústica, mas com muitos restaurantes e uma vida noturna bem agitada. Para chegar lá, vá de Cusco para Arequipa, de lá para Tacna e depois para Arica. Depois é só ir até Calama, no Chile, na fronteira com o Peru, a uma hora e meia de San Pedro e pegar mais um ônibus.

Voltando para o Brasil você terá que passar pela Bolívia de novo. Saindo de San Pedro tem um trem que vai até Uyuni, mas a melhor opção é fazer uma excursão de três dias em um jipe 4×4 pelo deserto. Os preços variam de U$60 à U$80 e o passeio inclui – além de transporte, comida e alojamento – o “desfile de las lagunas” de todas as cores, verde, azul, vermelha, lotadas de flamingos andinos. No último dia se chega à maior salina do mundo, o Salar de Uyune, um deserto de sal onde se enxerga o branco até perder de vista. Um visual meio futurista, lembra o Matrix do filme. A sensação é de que se está no céu, só se vê nuvens e uma ilha lotada de cactos solitária no meio da salina.

Essencial – o que levar e o que fazer

• Peru, Bolívia e Chile não exigem visto de entrada para turistas brasileiros, somente o passaporte, mas é bom dar uma conferida se a situação não mudou antes de ir.
• vacina contra febre amarela, OBRIGATÓRIO em todos os três países.
• comprar as passagens para Corumbá com antecedência, elas acabam rápido
• bota de trekking, impermeável e capa de chuva. Chove bastante durante a caminhada, principalmente no verão.
• repelente de mosquitos
• remédios que normalmente você usa no Brasil
• Seguro de saúde para viagens internacionais

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O Globo, 16/04/2004

Matéria sobre disco tributo ao Faith No More de bandas brasileiras que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Tributo de fé ao “Fenemê”

Bruno Natal
Especial para o RIO FANZINE

Pode até não parecer, mas Jason (RJ), Lavajato (RJ), Senador Medinha (do Diego Medina, ex-Vídeo Hits, RS) e a baiana Pitty têm algo em comum: a admiração pelo Faith No More, uma das bandas mais influentes dos anos 90. Além deles, outras bandas participam de uma lista de discussão chamada “Bungle Weird” (referência ao Mr. Bungle, outro grupo do vocalista Mike Patton), dedicada ao conjunto. Foi lá que surgiu a idéia de lançar um tributo brasileiro ao quinteto californiano.

Depois que os organizadores decidiram abrir a participação no projeto também para bandas de fora da lista, o interesse foi tanto que o tributo acabou se transformando num disco duplo. Mas, embora o baixista do FNM, Billy Gould, apóie o projeto, os produtores não têm autorização oficial para o lançar o disco comercialmente.

Para evitar problemas com direitos autorais a opção foi distribuir as músicas virtualmente e de graça. Isso é que é amor. Apesar de estar disponível somente online, “Brazilian sabor” obedece ao formato padrão de um CD, com 74 minutos de duração e um encarte disponível para download.

O tributo é uma produção interestadual. Richarley Menescal, de Fortaleza, cuida do design e divide a produção com o Pablo Fernandez, de Florianópolis, enquanto Élcio Cruz, tomou conta da masterização das faixas em São Paulo. A comunicação entre eles é feita, claro, pela internet.

- Mesmo com essa distância e de algumas limitações óbvias, nos comunicamos diariamente e não tem sido complicado tomar a maioria das decisões necessárias – diz Richarley. – De qualquer forma, o “Brazilian sabor” seria um fracasso sem o apoio que tivemos dos músicos envolvidos, eles merecem esse crédito.

Depois de ter o lançamento adiado algumas vezes por problemas técnicos, o tributo finalmente está inteiro disponível no site do projeto (www.underweb.com.br/brsabor). Mantenha a fé.

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O Globo, 02/04/2004

Entrevista com o diretor de filmes de surfe Taylor Steele que fiz para o Rio Fanzine (O Globo).

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5 minutos

Os filmes de surfe do diretor Taylor Steele, além de terem revolucionado o gênero no anos 90, têm outra característica marcante: quase todos serviram como base de lançamento de bandas que dominaram a cena nos anos seguintes. Foi em filmes como Focus e Momentum que muita gente descobriu bandas como Sublime, Nofx, No Fun at All, Blink 182 e Ben Harper, entre outros.

De passagem pelo Brasil, onde rodou o episódio latino-americano da série “Drive Thru”, Taylor falou com exclusividade ao Rio Fanzine sobre seu papel de divulgador de talentos.

Seus filmes sempre lançaram bandas que depois estouraram no mundo todo. Como acontece isso?

Cada caso é um caso. Tem vezes que vou a um show, gosto da banda e peço para usar suas músicas nos vídeos. Foi assim com Sublime, Pennywise e Ben Harper, por exemplo. De vez em quando, artistas que estão se lançando me mandam material. Blink 182 e Jack Johnson fizeram isso.

As bandas liberam as músicas numa boa?

Nem sempre. Algumas bandas não ligam para filmes de surfe e preferem ganhar mais dinheiro licenciando músicas para comerciais de carros e grandes marcas, enquanto outras entendem o valor de colocar seu trabalho num produto direcionado para seu público alvo e fazem questão de participar.

Quais bandas já te deixaram na mão?

O Tool vetou uma música falando que não queria se associar a nenhum esporte e tempos depois a mesma canção serviu de trilha num vídeo de uma gigante do surfwear. No filme “Loose Change” editei uma seqüência inteira do Bruce Irons em cima de “Guerrilla Radio”, do Rage Against the Machine, e eles não liberaram o uso e eu tive que alterar tudo.

E teve uma briga com o Offspring também, né?

Eles falaram numa entrevista para revista Surfing que ter aparecido nos meus vídeos não fez a menor diferença na carreira deles. Não tenho a pretensão de achar que sou responsável por explosão de banda nenhuma, mas fiquei chateado com essa declaração.

Qual a importância da trilha num filme de surfe?

Total. Uma música é metade de uma cena, melhora o surfe até. E vice-versa. Depois de ouvir uma música num filme, parece que ela fica associada as imagens daquela seqüência.

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Observatório da Imprensa,

A entrevista que fiz com o jornalista Pedro Dória, publicada aqui no URBe, pulou para o saite Observatório da Imprensa.

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Se Pedro Doria não tivesse trocado seu curso de Engenharia na UFRJ pelo de Comunicação, a imprensa teria perdido um ótimo jornalista. Com passagens pela Rede Globo e pelo jornal o Dia, aos 29 anos, Pedro assina uma coluna no No Mínimo.

Suas análises da política internacional, sempre na mosca (algo difícil nos tempos atuais), são uma das melhores fontes para entender o que se passa pelo mundo.

Nessa conversa com o URBe, Pedro explica seu modo de trabalhar, fala sobre escrever entre bambas e ainda avalia os possíveis resultados da eleição dos EUA.

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Como você começou a escrever na No Mínimo?

A NoMínimo nasceu de um grupo de jornalistas que trabalhava na NO., um site bem maior que fechou por conta da crise das

ponto-com. Lá, eu era editor de Internacional e assinava uma coluna diária, misto do que hoje são o Weblog e a minha coluna.

É muita responsabilidade estar no meio dessa turma toda?

Sou o caçula, faço 30 este ano. Olha, não tem universidade que ensine o que eu aprendo todo dia lá. Clichê, não é? Pois é, só que no caso é isso. É nas sutilezas que o processo acontece. Alguém mexe no seu texto, inclui uma vírgula e faz toda a diferença. E é mais que isso. São as conversas: uma troca de idéias constante, quando você para pra ver, não é numa ou noutra idéia que você está aprendendo: é na maneira que o raciocinio se organiza, ali onde as dúvidas surgem, na sacada que você não teve e alguém com várias décadas de experiência mais que você têm. É na maneira que voce vê as pessoas discutindo idéias e depois vê o texto delas pronto, escrito numa elegância, numa organização. Só então você percebe como o raciocínio se formou e como o trabalho final ficou. Esses caras eram meus ídolos quando pensei em ser jornalista. Vale cada segundo.

O que vc lê diariamente, quais são suas referências?

Sou mau leitor de jornal, passo os olhos na Folha e no Globo, principalmente na parte de internacional — para saber o que eles destacaram, consideraram importante, o que estão noticiando. Têm sempre aquelas figuras que, não importa sobre o que estão escrevendo, gosto de ler. Elio Gaspari, Clovis Rossi, isso para não falar da turma do site.

Não dirijo, em geral vou de ônibus para a redação, o que acaba tomando uns 40 minutos de ida e de volta. Gasto esse tempo com livros, principalmente, não-ficção, história contemporânea, escrita por jornalistas ou historiadores. Pode ser coisa muito específica — agora, estou lendo um chamado ‘The Bill Clinton Story’, de um veterano jornalista chamado John Hohenberg, que presidiu muitos anos o prêmio Pulitzer, e que conta a história da eleição presidencial de 1992, nos EUA.

Quando o dinheiro permite, gosto de ler algumas revistas também, principalmente The Economist, The New Yorker, Atlantic Monthly, Wired, para citar as mais usuais.

Quais são seus sites obrigatórios, aqueles que você não deixa de ler nenhum dia? Você lê sites e blogs pessoais, que não sejam de grandes veículos de comunicação?

Meu guia é minha Startpage. Ela está sempre aberta; não leio tudo ali todo dia, claro que não; nem a metade. Às vezes clico ao léu, às vezes vou à cata de algum jornal de um país específico. Mas claro que isso é limitado pelas línguas que você fala — meu francês é ruim, então acabo evitando os franceses. É limitador, principalmente neste caso, porque muito do escrito sobre o Oriente Médio de bom é em francês. Gosto um bocado do Blue Bus.

Leio muitos blogs, em alguns dou uma olhada quase diária: Daily Kos, Scripting News, Metafilter, Eros Blog, Romenesko’s Media News, InternETC… o critério é informação ou bom texto. Nos dois você lucra.

Acontece um fato grande, importante. Como você faz, da análise dos fatos até publicar o texto?

Complicado, vamos lá. No início de tudo você recebe a notícia. Explodiram trens em Madri. Alguém liga e avisa, você ouve no rádio, alguém comenta no bar. Nesse momento, ligo para algum amigo, meu pai, que é media junkie, algum colega de redação, para saber o que está acontecendo. Neste meio tempo, já estou a caminho ou da redação ou de casa. Aí, a primeira coisa que faço é ligar a televisão, ou GloboNews ou algum dos canais jornalísticos estrangeiros, CNN, BBC, FoxNews, no caso espanhol, TVE da Espanha. A tv me serve como ruído de fundo, cada nova informação relevante, conforme vai aparecendo, ouço ali.

Análise nao é opiniao, análise é informação cruzada. Para isso, você depende das perguntas que faz. Explodiram trens em Madri, a pergunta começa com foi a Al Qaeda, foi o ETA? Naquele dia, escrevi uma coluna sobre as duas possibilidades quando a tv veiculou que a Al Qaeda tinha assumido o atentado para um jornal árabe de Londres, o al-Quds al-Arabi — ficou claro que tinha sido a Al Qaeda, porque eles sempre se comunicam através de lá. Depois de um tempo cobrindo isso, você aprende esses macetes.

Tento ficar de olho no que comentaristas que respeito estão dizendo, mas muitas vezes só é possível no dia seguinte. Lendo comentário dos outros você aprende um bocado, principalmente em como, com as mesmas informações que você tinha, chegaram a outras conclusões. O trabalho, basicamente, é este: reunir informação. Enquanto a tv está ligada, você cai na web, monitorando sites como o GoogleNews para filtrar, pelos títulos, tudo o que esta sendo publicado sobre um assunto. Então você cruza informações com buscas pelo Google. O truque está em saber que perguntas você quer respondidas. Não se satisfazer com o que a maior parte das notícias te dão. Você vê, o exército paquistanes estava cercando um sujeito que parecia ser o Ayman al-Zawahiri, lugar-tenente do bin Laden. O noticiário vai te dizer isso: planejou o 11 de setembro, é braço direito de bin Laden, alguns se aprofundam um pouco mais. O que você quer saber?

Bem, o que você quer saber é como fica a al-Qaeda sem esse sujeito. Que tipo de pessoa ele é. E você começa a mergulhar na biografia dele a procura de respostas. No fim, resta seu feeling. A análise serve para ajudar o leitor a entender porque uma coisa é importante, dar uma idéia de o que pode acontecer. Você tem de contar com um leitor inteligente que saiba que você está abrindo uma porta, buscando caminhos, mas que de maneira alguma você é infalível. Você é apenas alguém pago para se preocupar exclusivamente com o que está acontecendo no mundo para ajudar o leitor, concentrando em pouco espaço o que você gastou o dia — ou a semana, o mês, o ano, a vida… — apurando.

Você tem feito uma boa cobertura da corrida presidencial nos EUA, contextualizando fatos e explicando muitas das confusões inerentes. Consegue prever o que vem por aí? Descreva brevemente (se é que dá…) os dois cenários possíveis.

É claro que não consigo prever nada — eu achava que o Howard Dean ia ser o candidato. A velocidade com que ele sumiu foi estonteante. Por outro lado, ele foi importante, tirou dos Democratas o medo de bater no Bush. É mais provável a eleição do Bush do que a do Kerry, mas nao é de forma alguma impossível a eleição do Kerry. Hoje, eu diria, 60/40.

Bush, dois cenários: ele percebe que os neo-conservadores prepararam várias armadilhas pra ele, tudo que prometeram que aconteceria não aconteceu e os demite no dia seguinte à posse; não pode fazer antes porque demonstra fraqueza. Se isso acontecer, ele chama de volta a turma que esteve com seu pai no governo, gente como James Baker. Teremos um governo menos belicista, mais pragmático, tentando remendar o estrago, aproximar-se da Europa para conseguir ajuda no Iraque. Outro cenário: Bush continua neo-conservador. Escolha o seu: Irã, Síria. Acho que vão pra Siria, Irã é complicado demais.

Kerry vence. Bem, será um governo parecido com o de Bush sem os neo-conservadores, aproxima-se da Europa, tenta remendar relações para conseguir ajuda no Iraque. Mas será diferente de qualquer Bush no sentido de que haverá o retorno do investimento em pesquisa científica, menos religioso em sua visão de mundo. Ambos serão mais protecionistas economicamente. É profundamente difícil imaginar um governo Kerry porque a última vez que este braço do Partido Democrata esteve no poder foi quando o Kennedy era presidente — vamos ver. Tudo é chute essas alturas… muito cedo para avaliar de fato.”

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O Globo, 19/03/2004

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Matéria sobre a invasão brasileira à MTV americana que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Pitty recebe um ‘green card’ da MTV

Bruno Natal – Especial para o Rio Fanzine

O NU METAL da cantora Pitty encontrou espaço, quem diria, no mercado mais disputado do mundo: os EUA. O clipe de “Máscara” está em boa rotação na MTV U. A baianinha também aparece com destaque no site do canal (www.mtvu.com), além de estar listada, com link para assistir ao clipe, junto dos principais artistas no site principal da MTV (www.mtv.com).

Equivalente visual das rádios universitárias, o MTV U é um canal distribuído exclusivamente em faculdades americanas. A programação musical é menos comercial que a das irmãs MTV (programas) e MTV 2 (somente clipes) e é recheada de programas direcionados para os estudantes. Atualmente, o canal está presente em 720 universidades, atingindo potencialmente 5,5 milhões de jovens.

Pitty não está sozinha nessa. A MTV internacional solicitou à filial brasileira alguns clipes de rock e hip hop daqui para serem exibidos no programa “Studying abroad” (“Estudando fora”), dedicado a artistas estrangeiros. Foram enviados vários, entre eles Marcelo D2, Sabotage, Los Hermanos, MV Bill, Forgotten Boys, mas além de Pitty, apenas outras duas bandas emplacaram: Nação Zumbi, com “Blunt of Judah”, e os paulistanos do Lava, com “Igloo”.

Os integrantes do Lava, que cantam em inglês, nem acreditaram quando ficaram sabendo.

—- O mais bacana é que o clipe foi todo feito pela Silvana, nossa vocalista — conta a baixista Alê Briganti, que também toca na banda Pin Ups.

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O Globo, 05/03/2004

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Matéria sobre música feita com Gameboy que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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No jogo da música

Bruno Natal ESPECIAL PARA O RIO FANZINE

Transformar um Game Boy em um sintetizador e seqüenciador, fazendo do brinquedo uma fábrica de beats, sons, ruídos e experiências sonoras em 8 bits. Essa era a proposta do duo Monoaural, formado por Berna Ceppas e Kassin, ontem, na apresentação na Casa da Gávea.

Na mesa dos produtores, em vez de toca-discos, samplers e i-books, havia um teclado Micro Korg, dois pedais de delay e dois Game Boys plugados numa mesa de quatro canais. Cada um dos aparelhos estava rodando um cartucho diferente: Berna “jogava” Nanoloop e Kassin “brincava” de Little Sound DJ.

Utilizar o Game Boy para fazer música faz todo o sentido, afinal, todos blips, clics e tóins já estão lá dentro. O cartucho funciona como um jogo normal, mas ao invés de desenharem personagem e obstáculos na tela, exploram as possibilidades sonoras do vídeo game. O Little Sound DJ vem com samples de bateria, como o pancadão 808, favorita dos bailes funk.

A dupla descobriu a novidade, por caminhos diferentes, há mais de um ano. Depois, conversando, descobriram que estavam pesquisando a mesma coisa paralelamente. Apesar de Berna ter utilizado o aparelho ano passado no Rio Sesc Experimental, esse provavelmente foi o primeiro show totalmente feito com Game Boy no Brasil.

A apresentação, improvisada em cima de alguma poucas bases pré-gravadas, começou ensurdecedora. As batidas quebradas predominaram, numa espécie de colisão eletro-Miami bass. Uma das bases esbarrarou no house, enquanto algumas outras poderiam ajudar o funk carioca a dar (mais) um passo a frente ou servir de cama para o hip hop.

O experimentalismo deu lugar ao (nem tão) pop quando Kassin utilizou um vocoder enquanto fazia interferências oitentistas no teclado. Surtiu efeito. Teve um lá que não agüentou e foi dançar na frente da mesa. A pedrada foi a única que não foi feita de véspera. Composta por Kassin durante uma viagem, deve fazer parte de um disco só de Game Boy, “Artificial”, a ser lançado ainda este semestre pelo selo da dupla, o Ping Pong.

Os programas utilizados pelo Monoaural foram feitos por alemães, mas antes disso a própria Nintendo já havia produzido um jogo sonoro para o Game Boy. Foi um fracasso. Saiu de linha e hoje é item de colecionador. Os próprios Nanoloop e Little Sound DJ já se tornaram cult. O primeiro foi descontinuado e o segundo teve a produção suspensa, talvez porque estejam trabalhando em uma nova versão. O fato é que seus cartuchos estão custando absurdos 799 euros, dez vezes mais caro do que na época do lançamento.

Na rede dá pra achar emuladores de Game Boy e seus respectivos roms (como são chamadas as cópias digitais dos jogos), inclusive os desses sintetizadores, que rodam em qualquer PC. Pra quem quer tocar no próprio aparelho, o caminho é mais difícil. É necessário adquirir um aparelho como o Emerger, espécie de gravador de cartuchos virgens.

O Micro Music é uma boa fonte para se aprofundar no assunto. Lá dá inclusive para ouvir algumas produções feitas utilizando a traquitana. Gostou? Tenta a sorte.

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Folha de S.Paulo Online, 15/02/2004

Matéria sobre concurso de vídeos anti-Bush que escrevi para Folha Online

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ONG promove concurso de vídeos anti-Bush e os divulga na internet
BRUNO NATAL
free-lance para a Folha Online

Ao se dizer preocupada com as conseqüências das ações do atual governo dentro do próprio Estados Unidos, a MoveOn (www.moveon.org), organização não-governamental dedicada a aproximar cidadãos comuns da política, realizou um concurso de vídeos anti-Bush e os divulgou na internet.

Para participar do “Bush in 30 Seconds” (Bush em 30 Segundos), bastava ser cidadão americano e fazer um vídeo cuja única instrução era falar “a verdade sobre o presidente e suas políticas”, remetendo-o ao site www.bushin30seconds.com.

Aproveitando o momento em que os EUA atravessaram sua pior recessão na história, é natural que a maior parte dos 26 finalistas, escolhidos entre mais de mil inscritos, demonstre inquietação quanto ao que vem pela frente.

Por isso, imagens de crianças e questionamentos sobre o futuro do país foram temas recorrentes.

O grande objetivo da MoveOn era exibir o vídeo vencedor no intervalo comercial do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano e o espaço publicitário mais valorizado do mundo, que teve como episódio mais marcante o incidente entre Janet Jackson e Justin Timberlake.

No entanto, a emissora CBS se recusou a colocar a peça no ar. Como solução alternativa, a ONG conseguiu veicular o anúncio na CNN, no mesmo horário.

Entre os jurados da competição estavam os atores Jack Black e Janeane Garofalo, os diretores de cinema Michael Moore, Michael Mann e Gus van Sant e os músicos Moby, Michael Stipe, líder do REM e Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam.

Os vídeos estão disponíveis on-line, no site oficial do concurso. Assista aos vídeos premiados no saite “Bush in 30 Seconds”.

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O Globo, 13/02/2004

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foto: Lucas Bori

Matéria sobre o Dibob que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Dibob pega uma onda diferente

Bruno Natal Especial para o Rio Fanzine

O Dibob tinha tudo para ser apenas mais uma bandinha de punk rock. Mas não é. O grupo se destaca das outras bandas porque foge completamente dos estereótipos do underground carioca. A atitude dos quatro moleques do Leblon está mais próxima dos surfistas da nova geração do que do perfil padrão dos músicos independentes. Por isso, fisgaram outro público e trouxeram para seus shows a turma da praia, normalmente ausente do circuito alternativo.

Em menos de dois anos, Dedeco (voz e guitarra), Gesta (baixo e voz), Miguel (guitarra) e Falcon (bateria) pularam dos saraus de colégio para apresentações lotadas no Ballroom e no Sérgio Porto.

— A banda é uma brincadeira que passou dos limites — explica, rindo, Miguel. — Nossa demo saiu do nosso círculo de amizade, caiu nas mãos de uma outra galera e, a partir daí, as coisas começaram a caminhar sozinhas.

No final de 2003, o Dibob foi abrir um show do Skank e do Titãs, em Aracaju. A banda chamou a atenção da BMG e acabou de gravar o disco de estréia, produzido por Marcelo Sussekind, que deve chegar às lojas em março.

A maior parte das letras é sobre relacionamentos, com uma pequena diferença: sai o tradicional “eu te amo e vou morrer se não tiver você” e entra “eram quatro da manhã, via duas de você / um é pouco, dois é bom, é assim que vai ser” (em “Se perde”). Os outros títulos dão uma boa idéia dos temas: “Pau mandado”, “1 x 0 eu” e “19 anos”.

Nos shows, é normal escutar 200, 300 pessoas gritando todas as letras. Guardadas as proporções, parece até uma banda grande.

— Falamos das coisas que nós vivemos. Noitadas, confusões com namoradas; todo mundo tem um pouco dessas coisas — diz Dedeco.

As influências vão dos ídolos Los Hermanos e NOFX, passando por Chico Buarque e Blink 182.

No entanto, eles não gostam de tocar música dos outros.

— A única que tocamos é uma versão do funk “Venha comigo”, do Nélio & Espiga, feita em cima da levada de “Girls just wanna have fun”, da Cindy Lauper — conta Gesta.

A banda vem tomando o tempo dos integrantes e tem ficado cada vez mais difícil para os quatro surfistas freqüentarem as direitas do Pontão ou a calçada em frente ao BB Lanches. A tendência é piorar, mas isso não importa, eles estão decididos a se dedicarem à banda.

Se até agora as coisas foram acontecendo meio sem querer, imagina querendo…

Bruno Natal é jornalista e faz o zine eletrônico URBe.

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Folha de S.Paulo Online, 07/02/2004

Matéria sobre a passagem pelo Brasil de Dennis Haysbert, ator que vive o presidente dos EUA, David Palmer, na série “24 horas”, que escrevi Folha Online.

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O Globo Online, Fev/2002

Minha primeira colaboração para o Rio Fanzine, publicado somente na versão online.

Muito sério

Moby está se levando a sério, com tudo que isso traz de bom e de ruim. Na passagem da turnê de seu disco mais recente, “18”, por Madri, no último dia 25, tanto o lado positivo quanto o negativo desta seriedade ficaram claros.

Embora a formação no palco, com Moby tocando guitarra e uma banda de apoio completinha, possa dar outra impressão, de maneira geral as pessoas vão numa apresentação do Moby para dançar. A expectativa é muito mais de um show de música eletrônica do que de rock. Exatamente por isso, as pausas entre quase todas as músicas acabam atrapalhando, funcionando como um anticlímax. Fica a impressão de que está querendo valorizar além da conta cada música, em outras palavras, se levando a sério demais.

Logo após tocar o que talvez seja seu maior sucesso, “Porcelain” — na Espanha serve até de trilha para a vinheta de um canal local — Moby resolveu falar sério, e dessa vez a seriedade era justificada. Pedindo desculpas, em nome do povo dos Estados Unidos, pelas recentes atitudes do seu presidente, chamou George W. Bush de “un hombre muy estúpido”. A julgar pelas palmas, o público parece ter gostado bastante do discurso, mas fica difícil saber ao certo, já que espanhol tem mania de bater palma para tudo. Olé!

O repertório é baseado quase somente nos discos “Play” e “18”, incluindo as músicas mais calminhas, como “Sleep alone”. O show só embala mesmo na segunda metade. Os graves, até então meio tímidos, resolvem dizer presente, junto com as músicas mais conhecidas: “Honey”, “We are all made of stars”, “In this world”, em versão mais lenta, “Find my baby” e “Natural Blues”. Moby apresenta “Bodyrock” como a fusão das duas coisas que mais gosta, “punk rock e hip-hop”, para logo em seguida deixar a influência punk ainda mais óbvia com uma versão crua para a clássica Blitzkreig Bop, do Ramones (Hey, Ho! Let’s go!). Outra banda que também dá as caras é o Radiohead, com “Creep”, do primeiro disco da banda.

A verdade é que depois de duas horas, a seriedade toda compensa na produção do show; bem cuidado, com som bom e repertório para satisfazer qualquer fã. Só não dá para achar que virou rock star.

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JB Online, 12/12/03

Rage Against the Machine – “Live at the Grand Olympic Auditorium”

12 de setembro será sempre lembrado como o dia seguinte dos atentados em Nova York, em 2001. O primeiro dia de uma nova ordem mundial. Para os fãs do Rage Against the Machine a data tem ainda outro significado. Praticamente um ano antes, nos dias 12 e 13 de setembro, a banda fez seus dois últimos shows em (onde mais…) Los Angeles.

Ambas apresentações foram devidamente registradas e saem agora, com três anos de atraso, em disco e DVD. A princípio, “Live at the Grand Olympic Auditorium” (importado) deveria ter saído em novembro de 2000. Nos dois meses entre a gravação e a data prevista para chegar as lojas, Zack de la Rocha abandonou a banda, o que acabou adiando o lançamento.

Em 2002 o disco ao vivo foi outra vez engavetado para não atrapalhar a estréia do Audioslave, banda formada pelos remanescentes do RATM – o guitarrista Tom Morello, o baterista Brad Wilk e o baixista Timmy C – mais o ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell.

O que era para ter sido um mero tapa buraco no calendário de gravações acabou se tornando um registro histórico. Equilibrando músicas do primeiro trabalho da banda, “Rage Against the Machine” (5), e do terceiro, “Battle of Los Angeles” (6), o disco ao vivo tem apenas duas faixas do segundo, “Evil Empire”, duas do disco de covers “Renegades of funk” e a excelente “No Shelter”, da trilha sonora do filme “Godzilla”.

A gravação é boa mas a mixagem deixa um pouco a desejar. Em alguns momentos a guitarra some e os gritos da platéia parecem ter recebido tratamento demais, aumentando e abaixando demais o volume, principalmente na primeira faixa, dando um ar meio falso.

Entre as 16 faixas estão “Bull on Parade”, “Freedom”, “Bomtrack”, “Testify” e a clássica “Killing in the name”. Estranhamente “Wake up”, trilha sonora dos créditos finais de “Matrix”, não entrou, mas “Calm like a bomb”, presente no mesmo momento de “Reloaded”, está lá. “Revolutions” não traz nenhuma música do Rage, mas bem podia trazer uma do Audioslave para ser condizente com o filme.

Indispensável para quem quer ter pelo menos noção de como a banda soava ao vivo. Apesar de não ter gerado muitos filhotes ou ter sido pedra fundamental de nenhum movimento da moda, o RATM foi um dos mais importantes atentados sonoros dos anos 90.

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OutraCoisa, Out/03

Adulto contemporâneo
(originalmente publicado no URBe)

Saca só a seqüência: Tina Turner com “Private dancer”, Michael Bolton e “When a man loves a woman” e pra finalizar Dan Hartman mandando ver no clássico “I can dream about you”. Não, não é uma lista de músicas para uma festinha anos 80. Isso é o que tem tocado ultimamente na Fluminense FM, a “rádio rock”.

Menos de um ano depois de ter voltado ao dial carioca, a Fluminense abandona o rock e deixa a turma na mão. Mais estranho que a falta de explicação – e de respeito – aos ouvintes é o novo filão e classificação da rádio. Agora a Fluminense toca “classic rock” para um público “adulto contemporâneo”, segundo os jargões da indústria.

Vamos analisar a bizarrice por partes. Primeiro, até agora não houve um anúncio oficial de todas essas mudanças. Segundo, a escolha do novo público-alvo parece um tanto equivocada. Atualmente existem “apenas” outras quatro grandes rádios focadas nesse mesmo público: JB, Globo, MPB FM e a recém-inaugurada Paradiso. Se estava difícil disputar mercado com apenas uma rádio, imagina agora com tantas outras no páreo. Para finalizar, acreditando que o que sustenta as rádios é o jabá, de onde virá o dinheiro se o lance vai ser tocar música véia?

O público de rock existe. Lota shows, compra discos, revistas e anda por aí, reclamando da falta de atenção com o segmento. Não é só o pessoal da camisa preta e do som pesado não, estou falando de rock como atitude, abrangendo os mais diversos gêneros, da música eletrônica ao indie. Acontece que até agora ainda não se encontrou no Brasil uma forma eficiente de explorar este mercado. Na Europa e nos Estados Unidos existe uma estrutura preparada. Gravadoras que investem em bandas que vendem 1.000 cópias, revistas de pequena e média circulação, programas de rádio e tv sem preocupação com audiências estratosféricas, etc. Como me disse um ex-chefe, lá fora a segmentação de mercado é pra valer. Você entra numa banca de jornal e encontra revistas sobre gatos, peixes ornamentais, periquitos belgas, o diabo. Aqui, com sorte, você vai achar uma chamada “Animais”.

Quando os homens de terno descobrirem um jeito de botar a mão em todo esse dinheiro solto por aí o que não vai faltar é investimento no rock. Esse que é o problema.

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OutraCoisa, Out/03

Por que não música?
(artigo originalmente publicado no saite Comunique-se)

Música, depois do futebol, é o principal produto cultural de exportação do Brasil. Lá fora, quando se fala que é brasileiro, mencionam um jogador ou um músico, não tem jeito. Porém, no jornalismo tupiniquim a música é tratada com desdém.

Tirando as reportagens dos cadernos culturais dos grandes jornais, seus (poucos) repórteres especializados e outras raras exceções, não existe espaço para o assunto.

Difícil acreditar que isso seja devido à falta de interesse dos brasileiros. Além do aspecto cultural, o consumo de música por aqui é alto. O Brasil é um dos dois únicos países onde se vendem mais discos de artistas nacionais do que internacionais. O outro é os Estados Unidos.

Os mesmos números que comprovam o interesse parecem querer desmentir quando se trata do mercado editorial. Enquanto as revistas Caras, Quem, Istoé Gente e Chiques e Famosos têm, somadas, uma tiragem semanal aproximada de 675 mil exemplares, praticamente não existem revistas de música por aqui. Pelo menos não em números tão expressivos.

Após o fim da Bizz, o que restou foram publicações em escala bem menores, geralmente locais e com pouca distribuição. As maiores hoje são a Revista da MTV, que conta com o poderoso apoio da irmã televisiva na divulgação, e a Zero, de São Paulo, difícil de ser encontrada mesmo no Rio. Imagina em outros estados.

A julgar por esses dados, a conclusão lógica é que o brasileiro só se interessa mesmo é por fofocas e detalhes da vida dos famosos. Mas o fim da Placar, que tratava do assunto preferido do país, mostra que a verdade por trás disso tudo não é bem essa.

Parte do problema deve-se à falta de investimentos no setor. No meio impresso, as partes interessadas na existência de um veículo que trate do assunto – leia-se rádios, gravadoras, etc. – preferem botar dinheiro em seus próprios departamentos de imprensa ou na criação de veículos próprios.

Por que? Simples, assim asseguram o conteúdo sempre elogioso no que se refere aos seus produtos. Coisa que nem sempre os assessores de imprensa conseguem arrancar dos jornais e revistas.

Enquanto o fim da Placar deve-se muito ao fato de os jornais fazerem uma cobertura diária à altura – uma covardia com uma revista quinzenal – no caso da música é o contrário. Não existe interesse das empresas em investir neste tipo de profissional porque podem pegar este material pronto das gravadoras.

Não é necessário uma editoria especial, basta um jornalista capaz de transformar releases em textos jornalísticos. Pro diabo com apuração e isenção, o que interessa é economizar.

Na televisão essa questão fica ainda mais clara. Esse tipo de especialização simplesmente não existe. É um tal de repórter de qualquer editoria, de terno, fazendo matérias em shows de rock, depoimentos de grandes artistas que se perdem por falta de conhecimento do entrevistador… É de doer.

Talvez porque eventuais mancadas acabem passando despercebidas. O repórter até pode chamar um artista de MPB de punk que a sonorização da matéria provavelmente vai desmentir. Como a questão é música, o som acaba falando mais alto.

O público leitor de música, além de grande, é especializado. Tanto quanto o de esportes. Estranho este dado continuar não sendo levado em conta.

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Folha de S.Paulo, 22/09/2003

Matéria sobre proibição de menores de idade em LAN Houses que escrevi para Folha de S.Paulo.

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LAN houses do Rio de Janeiro estão sob fogo cruzado
BRUNO NATAL
da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, sancionou no último dia 8 a polêmica lei número 3.634, proposta pela Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente. O texto proíbe menores de idade de frequentar as casas de jogos de computador interligados em rede, conhecidas como LAN houses. A medida visa dificultar o acesso dos menores de idade a games que, supostamente, estimulam a violência.

As penas serão destinadas aos donos das LAN houses ou fliperamas, e a fiscalização do cumprimento da lei caberá ao Juizado da Infância e da Juventude. As punições irão desde uma advertência administrativa, com multa, até a cassação do alvará de funcionamento.

O pivô da questão é o jogo “Counter Strike”. Nele, há uma simulação de uma luta entre policiais e bandidos no morro Santa Marta, no Rio. Por permitir ao jogador escolher ser tanto o policial quanto o bandido, o jogo havia sido anteriormente acusado de apologia do crime.

Os jogadores se defendem e dizem que, ao contrário do que tem sido noticiado, o jogo não mostra traficantes, mas, sim, terroristas que sequestraram um membro da ONU e se escondem no morro.

O proprietário de um desses estabelecimentos, que fica no bairro de Botafogo (zona sul), discorda da decisão. Por medo de represálias, ele pediu que não fosse revelada sua identidade, mas disse que, desde que a lei foi sancionada, o movimento caiu cerca de 80%.

“Se for para cumprir essa lei, é melhor fechar a loja. A maior parte dos clientes das LAN houses são adolescentes e querem jogar justamente esses jogos. A decisão de proibir o acesso a qualquer coisa deveria caber aos pais, não ao Estado.”

É também o que pensa Maria Isabel da Silva Leme, que pesquisa os supostos nexos entre a violência e os jogos eletrônicos no Instituto de Psicologia da USP. “Os pais é que têm de atentar para o que os filhos fazem. Não vai ser com uma proibição que os jovens vão parar de jogar. Isso até os estimula”, diz ela. “Sou contra o jovem lidar com a violência de alguns jogos, mas não é isso o que mostra se ele vai ser um cidadão melhor.”

O prefeito César Maia acredita que mais importante do que definir de quem é a responsabilidade por esse tipo de controle é o debate iniciado pela lei.

“Nenhuma dessas ações, isoladamente, vale nada. O importante é o conjunto e a sinergia delas. A imprensa está cobrindo o fato, e milhares de pais estão discutindo o problema e tomando suas decisões”, defende Maia. De acordo com o prefeito, a classificação do nível de violência dos jogos será feita por educadores, de acordo com denúncias feitas pelas famílias.

Para D.N., 14, jogos como o “Counter Strike” não estimulam a violência. “Eu gosto desse tipo de jogo pela ação, mas também gosto de jogos que não são violentos. O pessoal fica nervoso, xinga, como em qualquer outro jogo, até jogando futebol. Ninguém sai para a rua e quer fazer o mesmo que faz na tela.” Segundo ele, sua mãe deixa que ele participe desses jogos.

Rodrigo Almeida, 24, concorda que talvez os jogos o influenciem negativamente. “Pode até ser. Mas, e as novelas, cheias de brigas, de sexo e de tudo o mais?”, questiona. “Melhor estar aqui do que na rua, exposto à violência real.”

Acabou a brincadeira

Outra decisão legal, desta vez federal, foi sobre os jogos de cartas “Yu-Gi-Oh” e “Magic: the Gathering”. O Ministério da Justiça aceitou um pedido do MP (Ministério Público) para que haja classificação de idade dos jogos, que serão recomendados só para maiores de 12 anos. O documento do MP que diz respeito a esse problema argumenta que os jogos “trazem conflitos e tensões psicológicas”.

Colaborou Ricardo Lisbôa, da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro

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Folha de S.Paulo, 24/06/2003

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Matéria sobre a primeira viagem do DJ Marlboro para tocar em Nova York, que escrevi para Folha de S.Paulo.

Desorganização e som prejudicam DJ Marlboro em Nova York
BRUNO NATAL RIBEIRO
free-lance para a Folha de S.Paulo, de Nova York

O tempo cooperou e a chuva deu uma trégua na hora da apresentação do DJ Marlboro. Mas isso não bastou para fazer com que o show no Central Park, no domingo, correspondesse às expectativas. O som baixo e a falta de tato dos organizadores atrapalharam o DJ Marlboro em sua participação no festival SummerStage.

A maioria das cerca de 4.000 pessoas que compareceram ao evento não estava ali para ouvir “funk carioca” (como a programação distribuída ao público categorizava o som do DJ), e sim para assistir ao show de Daniela Mercury, que se apresentou no mesmo dia.

Marlboro tocou duas vezes, por aproximadamente uma hora em cada apresentação, antes e depois do show de Mercury. Na primeira entrada, às 15h, o carioca encarou um público receptivo, formado majoritariamente por brasileiros residentes em Nova York.

O set teve tanto músicas mais recentes, como as batidíssimas “Vai Lacraia”, “Eguinha Pocotó” (MC Serginho) e “Cerol na Mão” (Bonde do Tigrão), quanto antigas, como os raps da “Felicidade” (Cidinho e Doca), das “Armas” (Junior e Leonardo), do “Silva” (Bob Hum) e do “Pirão”.

Quem já conhecia –e quem estava lá para conhecer– aproveitou bastante, dançando e cantando, incluindo americanos que observavam e depois tentavam imitar o rebolado brasileiro.

Acontece que, no encerramento do set, o número de pessoas que estavam ali apenas aguardando Daniela Mercury aumentou e, ansiosas, começaram a apressar o DJ. Para completar, a organização ainda resolveu passar o som da banda da baiana durante o set de Marlboro, prejudicando sua apresentação.

Segundo os organizadores do SummerStage (evento que possui programação eclética, que inclui atrações como o indie rock do White Stripes e Sonic Youth e o hip hop do De la Soul), o convite a Marlboro foi baseado em uma pesquisa que o apontava como o mais conhecido DJ brasileiro. No entanto, acostumado a ser recebido calorosamente em todos os bailes por onde passa, Marlboro não conseguiu esconder o desapontamento.

Feliz

Após a apresentação, o DJ afirmou que estava feliz por ter tido a oportunidade de tocar no Central Park, mas não deixou de reclamar dos problemas.

“Não me deixaram aumentar o som e nem pegar o microfone para falar com a platéia. Além de tocar, sou também um comunicador. Tenho certeza de que, se tivesse tido a chance, teria conseguido quebrar o preconceito que existe contra o funk. Como, aliás, venho fazendo há 23 anos”, disse Marlboro.

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JB Online, 05/06/03

Rio 65 Trio – “Rio 65 Trio” e “A hora e vez da M.P.M.”

Quem perdeu a apresentação de Dom Salvador no Chivas Jazz Festival semana passada, ainda tem chance de escutar o pianista. Aproveitando a passagem do músico pelo Brasil, onde não se apresentava há 30 anos, a Universal relança dois discos do Rio 65 Trio, conjunto que contava ainda com o baixista Sergio Barroso e o baterista Édison Machado.

Logo após de ter integrado o Copa Trio, liderado pelo baterista Dom Um Romão, e antes de ter fundado o seu Salvador Trio, com o qual excursionou pelo exterior, Dom Salvador fez parte do Rio 65 Trio. O conjunto acompanhou diversos artistas, como Elis Regina e Jorge Ben.

O primeiro disco, homônimo, saiu no ano que inspirou o nome, 1965. No repertório, clássicos da bossa nova, três temas próprios e ainda Quincy Jones, com Mau, mau, e Sonny Rollins, com Sonnymoon for two.

O samba jazz do Beco das Garrafas mostra sua força em releituras de Tem dó (Baddena Powel / Vínicius de Moraes), Manhã de carnaval (Luiz Bonfá / Antonio Maria) e Preciso aprender a ser só (Marcos e Paulo Sérgio Valle). Entre os temas próprios, todos de autoria de Dom Salvador, destaca-se Meu fraco é café forte, que o tempo transformou em um clássico.

A edição original incluía ainda Aruanda, mas, segundo a gravadora, a reedição da música não foi autorizada pelo autor e, portanto, não foi incluída nesta reedição.

Em A Hora e vez da M.P.M., de 1966, a formação do trio foi mantida, assim como o nome, apesar da passagem de ano. O texto do encarte original do disco, reproduzido na íntegra neste relançamento, fala de como a Música Popular Moderna do título estava sendo ameaçada e vista como decadente na época em virtude da ascensão do “iê, iê, iê” e da música jovem em geral. Qualquer paralelo com a atual situação da indústria fonográfica é mera coincidência.

Algumas músicas desse disco são de autores também relidos no primeiro. Estão presentes os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, junto com Pingarillo, em Seu encanto, e a dupla Badden/Vínicius em Apelo. No entanto não há releituras de artistas estrangeiros e apenas um tema original, Rio 65 Trio tema, outra vez de Salvador. Tem também Zé Keti (Ponte aérea) Noel Rosa (Vem chegando a madrugada, parceria com Adil de Paula) e Jonhy Alf (Ilusão à toa).

A impressão geral dos dois discos é muito boa. A pergunta que encerra um dos textos de Ruy Castro, especiais para esta reedição, resume bem: “Dá para acreditar que foi feito a quase quarenta anos?”.

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JB Online, 29/05/03

Zémaria – “Zémaria”
(Lona Records)

A estréia dos capixabas do Zémaria (junção dos nomes de dois cachorros, Zé e Maria) chama a atenção desde os primeiros segundos pela qualidade da produção. É tão caprichado que não dá pra imaginar que o disco tenha sido produzido de forma independente e lançado através de um pequeno selo de Vitória.

A mistura de sintetizadores, samplers e breaks com guitarra, baixo e bateria, presentes no som da banda, é perfeita, na medida. O resultado final justifica o longo período que a banda passou produzindo o disco, de 1999 a 2002.

Não são simplesmente instrumentos acústicos misturados a bases eletrônicas, como tem aparecido aos montes ultimamente. Os elementos se fundem, se completam sem invadir o espaço do outro. A combinação é bem feita, fortalecendo a proposta do grupo.

O disco é predominantemente de drum ‘n’ bass, indo das batidas pesadas e aceleradas as mais calmas. Em Tá tudo esquematizado a influência de Roni Size é indisfarçável, já em Aço bio o clima é mais viajante, permeado pelo assobio disfarçado no título.

Tem big beat também, lembrando bastante o Crystal Method, como em Aê fazin o telefon!!, que tem direito até a um vocoder, aquele efeito que deixa a voz parecida com a de um robô. Falando em robôs, Corrido beira o electro, o gênero queridinho da vez do mundo eletrônico.

No meio de tudo isso, tem espaço ainda duas faixas lounge. São elas AM e Há de estar, todas devidamente amaciadas pela voz de Sanny Lys.

Talvez o Zémaria ainda lembre coisas demais, mas o som deles tem personalidade própria o suficiente para ultrapassar as influências. Como está escrito no próprio encarte do disco, “o Zémaria é isso, mais-do-mesmo, igual-diferente, essência-em-transformação”.

Boa notícia é que – pra quem ainda não sabia – também existe música eletrônica além da panelinha Rio – Minas – São Paulo. Agora já sabe.

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JB Online, 27/05/03

Berna Ceppas apresenta novidades do projeto com Yuka no Rio Sesc Experimental

A apresentação de Berna Ceppas no Sesc Rio Experimental, em Copacabana, foi marcada pelo improviso. O produtor e tecladista, membro-fundador da Orquestra Imperial e responsável por trabalhos de artistas como Bebel Gilberto e Caetano Veloso, deixou para preparar sua apresentação na véspera.

Isso não quer dizer que a apresentação tenha sido feita de qualquer jeito. Improvisação é uma das características de Berna. Sempre envolvido em diversos projetos, pra ele o normal é fazer tudo em cima da hora. Como ele mesmo tentou justificar, rindo, “música experimental ou improvisada no fundo é a mesma coisa”.

Baseando-se na música eletrônica, Berna utilizou desde teclados, lap-top e sampler a instrumentos acústicos, passando por bases programadas. Chamados em cima da hora, quem também estava no improviso era a turma da Apavoramento, responsável pelas imagens projetadas no telão atrás do palco.

A performance contou ainda com uma engenhoca, inventada por um alemão, que transforma qualquer Game Boy num sintetizador. Os sons produzidos pelo sintetizador portátil e outros ruídos eram então misturados às bases pré- programadas e samples de “Banana Boat Song (Day-O)”, da trilha do filme “Os fantasmas se divertem”.

Tudo isso ao vivo, possibilitando ao público acompanhar a adição de cada elemento e o processo de construção da música. O resultado, muitas vezes, era um pancadão, no melhor estilo Miami bass.

O clima ficou mais calmo na segunda metade do show. Foi quando, além dos apetrechos eletrônicos, Berna contou com a participação de Moreno Veloso e do baixista do Stereo Maracanã, Maurício Pacheco. Quem também apareceu foi Don Negrone, figura fácil das noites de hip-hop, improvisando até em cima das informações das carteiras de identidade, que pediu aos espectadores.

Berna aproveitou para testar uma música que está fazendo em parceria com o ex-Legião Urbana para o novo espetáculo de Débora Colker. Essa não foi a única novidade. Mostrou ainda uma das músicas do aguardado projeto de Marcelo Yuka, ex-O Rappa, do qual, além de Maurício Pacheco, também é membro e produtor.

Para quem perdeu, Berna adianta que o projeto caminha na direção do dub, numa linha parecida com o Asian Dub Foundation. Nada mais justo, afinal Yuka é fã de carteirinha de Adrian Sherwood, produtor do último álbum dos ingleses.

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JB Online, 22/05/03

Colorama – “Jungle jam acústico”

O Colorama é um projeto conjunto do trio de produtores do Bossacucanova, Marcelinho da Lua, Alexandre Moreira e Marcio Menescal, aliados ao arranjador e guitarrista Leonardo Tuch. A proposta é parecida com a do Bossacucanova, com uma diferença: ao invés de recriar clássicos da bossa nova, o Colorama faz versões de sucessos da música mundial. De Chico Buarque a Bobby Hebb, passando por Villa-Lobos e Sivuca.

Estréia na produção do DJ Marcelinho da Lua – figura fácil das noites cariocas de drum ‘n’ bass, downtempo e grooves em geral – Jungle jam acústico foi gravado ao vivo, deixando transparecer o clima de improvisação que o título sugere. São oito músicas no total, duas inéditas e seis versões, contando com as participações do saxofonista e flautista Rodrigo Sha, dos percussionistas Laudir de Oliveira e Leg, além do baterista Ali Z.

As inéditas são as melhores músicas do disco e é justamente uma delas que abre o disco, Le Blom, um db acústico, cheio de interferências de guitarra, muitos scratches e sax. Na seqüência vem a versão da classudona Moanin’, de Timmons e Hendricks. Não é aquele Hendrix, esse daqui é um jazzista.

Prelúdio No 4 para Violão, de Villa-Lobos, troca o violão por uma guitarra e o acompanhamento de outros instrumentos, mas não convence. A original é um dedilhado grosseiro, impossível de ser transposto para uma guitarra sem perder em qualidade. O maestro e arranjador Moacir Santos diz presente em Nanã, também tocada pelo Bossacucanova, aqui mais acelerada e pontuada pelo sax.

Destoando completamente da unidade sonora presente nas demais faixas – alegres e pra cima – Construção, de Chico Buarque aparece em versão chapada. Os vocais de Fábio Kalunga são tão sombrios quanto as bases e não remetem em nada ao original, a não ser, lógico, pela letra. Não que parecer com a matriz seja o objetivo de uma versão, mas a música de Chico tem um ritmo e melodia crescentes, que casam perfeitamente com a tensão do jogo de palavras da letra. Aqui isso se perde.

Em Canto de Mangaio a sanfona de Sivuca é substituída por uma bonita combinação entre guitarra, flauta e sax, na leitura mais cool já feita para esse clássico da música nordestina. A última releitura do disco, Sunny, de Bobby Hebb, já ganhou uma versão tarada/pornográfica de Léo Jaime nos anos 80, chamada Sônia. Com batidas mais aceleradas, a flauta de Rodrigo Sha substitui os vocais da versão original.

O disco fecha como abriu, com uma música de autoria do grupo, El Pancadon, na mesma linha das outras das músicas, com destaque para os teclados. Em seu primeiro trabalho o Colorama desperta duas vontades. A primeira é de ouvir mais composições originais da banda. A segunda é de conferir a jam como uma jam deve ser: ao vivo.

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Revista Zero, Maio/2003

Resenha do terceiro disco do Los Hermanos, “Ventura” (BMG), que escrevi para revista Zero.

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O Los Hermanos ainda é — e talvez sempre seja — lembrado pela maior parte das pessoas como a banda da “Anna Júlia”. Isso é praticamente irreversível. O que pode variar é a maneira de interpretar esse fato. Existem duas opções. A mais simplista é tomar a parte pelo todo, acreditar que não passaram de um efêmero sucesso radiofônico e esquecer o assunto. A outra opção é analisar como encararam este sucesso, suas reações e no que isso resultou.

Depois do passeio pelo o que há de mais pop na música, os Hermanos viveram o oposto disso. Programas de auditório e versões do hit (de artistas tão diferentes quanto Frank Aguiar e Jim Capaldi) ficaram para trás. Quem esperava que eles fossem voltar num disco grudento, tentando igualar as 350 mil cópias vendidas pelo primeiro, tomou uma porrada quando ouviu o “Bloco do Eu Sozinho”. Fugindo do caminho mais fácil, optaram por crescer musicalmente e partir em busca da própria identidade.

Considerado difícil de trabalhar por sua gravadora na época, a extinta Abril Music, o “Bloco” quase não saiu. Só que a mudança não foi apenas sonora, foi também de postura. Além de peitar a gravadora e conseguir lançar o disco, o Los Hermanos passou a recusar apresentações de TV que exigissem “Anna Julia”, baniu a música dos shows e não aceitou mais fazer playback. Com isso, trancaram-se do lado de fora do mundo da grande mídia. Mas ficaram com a chave.

O novo disco, “Ventura”, agora pela BMG, é um vôo à meia altura. Após o sucesso de público no primeiro e o de crítica no segundo, pode ser que agora atinjam ambos. Não que esse tenha sido o objetivo, as músicas não refletem este tipo de preocupação e continuam com tanta personalidade quanto a banda.

“Ventura” é o amadurecimento do formato que começou a surgir no segundo disco, como se desse o passo definitivo na direção apontada pelo “Bloco”. As músicas ganharam mais unidade entre si, sonora e esteticamente, o que acaba tornando o disco mais fácil de escutar. Sem perder a qualidade. Público e crítica, olha só.

Esse resultado deve-se muito à decisão de convidar o amigo Kassin (ex-Acabou la Tequila) para produzir e de gravar no clima caseiro de seu estúdio, o Monoaural. De maneira geral as músicas estão mais lentas que no anterior. Como os shows do Los Hermanos geralmente são bem agitados, dá curiosidade de saber como devem ficar ao vivo. As referências musicais, filtradas à maneira da banda, são perceptíveis.

“Samba a dois”, logicamente um samba, abre os trabalhos e Marcelo Camelo desafia: “quem se atreve a me dizer/do que é feito o samba”. Os metais de “O vencedor” emulam Beck em fase “Midnite Vultures”. Rodrigo Amarante dá as caras na quarta música, “Último romance”, uma das letras mais legais de “Ventura”.

Os teclados estão menos tímidos e Bruno Medina até sola. Além da sonoridade, hora lembrando João Donato, hora Weezer, tem piano também. Como em “Conversa de botas batidas”, responsável pelo momento Ivan Lins.

É difícil definir um tema para “Ventura”. No entanto alguns se fazem bastante presentes. Televisão aparece em cinco letras, paz em outras três e Deus é citado em seis das quinze músicas, quase sempre por Camelo. Ora duvidando, em “O pouco que sobrou” (Se existe Deus em agonia/manda essa cavalaria/que hoje a fé me abandonou) e “Conversa de botas batidas” (Deus parece às vezes se esquecer), ora acreditando, como em “De onde vem a calma”, que fecha o disco (Deus vai dar aval sim/o mal vai ter fim). Curioso, nada além disso.

Na levada surf music à la The Pop’s de “A outra”, Marcelo canta no feminino. A boa “Cara Estranho” é primeira música de trabalho e também a guitarra mais pesada do disco. Não tem refrão, mas cadê que sai da cabeça? Não mesmo. Amarante volta em “O Velho e o moço”, lembrando “Sentimental”, do “Bloco do Eu Sozinho”. A parte final de “Além do que se vê” traz o arranjo de metais mais bonito do disco e a guitarra de “Um par”, novamente com Amarante, não nega a influência Strokes.

O caminho traçado pelo Los Hermanos parece uma conseqüência lógica, uma evolução proporcionada pelo tempo de estrada e convivência. Num mercado em que músicos têm cada vez menos tempo e chance de evoluir, o fato do de chegar ao terceiro disco é uma vitória. O Los Hermanos não foi engolido pelo mercado fonográfico. Pelo contrário, está caminhando para fazer justamente o inverso. Questão de tempo.

A porta está trancada, mas lembre-se: a chave está com eles.

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JB Online, 15/05/03

Easy Star All-Stars – “Dub side of the moon”

No aniversário de 30 anos o clássico Dark side of the moon ganha esta versão inusitada. O título, Dub side of the moon, é auto-explicativo: trata-se da versão dub do mais importante disco do Pink Floyd. O pai da idéia é o coletivo nova-iorquino Easy Star All-Stars, liderados pelos produtores Michael G e Victor “Ticklah” Axelrod, um dos mais celebrados nomes do reggae contemporâneo.

O dub é o reggae em psicodelia máxima. Nascido na Jamaica dos anos 70, das mentes de gênios como Lee Perry e King Tubby, é caracterizado principalmente pela ênfase no baixo e bateria, aliado a muitos ecos e efeitos de estúdio. O dub foi primeiramente utilizado como recurso para produzir os lados “B” dos compactos, versões alternativas das músicas lançadas na época. Acabou crescendo e se tornou praticamente um gênero musical independente. Antes restrito a um clube de admiradores, como produtores e músicos, atualmente é a forma de música jamaicana mais difundida, seja na sua forma mais pura, seja através de experimentações, principalmente com a música eletrônica.

Portanto, não é de se estranhar que os caminhos do dub e do Pink Floyd tenham se cruzado. Ambos possuem elementos ultra-psicodélicos, desenvolvidos em estúdios cada vez mais modernos e cheios de recursos. No entanto, Dub side of the moon não se trata de um simples remix das versões originais em roupagem reggae. Todas as músicas foram regravadas em estúdio. A regravação foi autorizada pelos autores originais, incluindo Roger Watters, na época principal compositor da banda. Embora cada um deles tenha recebido uma cópia do disco, ainda não se tem notícia do que eles acharam do resultado final. Uma curiosidade é que o baixista do Easy Star All-Stars, Victor Rice, é figura fácil no Brasil e, além de arranhar um português, tem até um apartamento em São Paulo.

As participações especiais vão desde o tradicional trio The Meditations, em Eclipse, à Gary “Nesta” Pine, vocalista do The Wailers, em Money, passando por figuras menos conhecidas por aqui, como Dr. Israel e Sluggy Ranks. Money, aliás, é um dos melhores momentos do disco. Aqui, o conhecido ruído de caixa registradora que abre a música é substituído pelo borbulhar de um bong, o acender de um isqueiro e o som de alguém tossindo, após uma forte baforada adivinhem de quê.

Time também não fica atrás e é responsável pelo primeiro grande momento reggae do disco. É nessa música que você provavelmente vai dizer pela primeira vez: “mas o que esses caras estão fazendo?!”, frase que com certeza se repetirá ao longo do disco. Obedecendo a ordem original do disco, antes disso tem Speak to me e Breathe, que por serem curtas não permitem um mergulho mais pronfundo no ritmo jamaicano, e On the run, numa versão drum ‘n’ bass neurótica.

Ao longo das nove músicas, Dub Side of the Moon é fiel ao original. O cuidado foi tanto que se procurou manter idêntico o tempo e a levada das músicas, ainda que em outro ritmo. Mantiveram-se as primorosas passagens de uma faixa para outra, cuidadosamente elaboradas pelo engenheiro de som de Dark Side of the Moon, Alan Parsons. O disco flui ininterruptamente, exatamente como há 30 anos atrás. Uma prova desse grau de cuidado é o fato de ser possível fazer a falada sincronia entre o disco e o filme O Mágico de Oz, com instruções no encarte e tudo.

Para completar, mantendo a tradição do dub, o disco encerra com quatro músicas de bônus com títulos pra lá de interessantes. São versões das versões, feitas com mais liberdade e menor preocupação em seguir à risca os originais. Dub ao quadrado, portanto. Time version substitui os vocais por uma melódica, espécie de escaleta, celebrizada no mundo do reggae por Augustus Pablo, que faz valer o disco. Fechando o disco vêm, Great dub in the sky, versão para Great gig in the sky, Step it pon the rastaman scene e Any dub you like, versão de Any colour you like.

O disco saiu nos Estados Unidos em fevereiro e ainda não tem previsão de ser lançado no Brasil. Algumas lojas de discos importados têm cópias, se preço não for um problema. Enquanto Dub side of the moon não sai por aqui, dá para matar a curiosidade no site da gravadora, www.easystar.com, que disponibilizou quatro músicas: Money, Great gig in the sky, Us and them e o bônus Step it pon the rastaman scene. Tanto os fãs de reggae quanto os de rock podem escutar sem susto. É material de primeira.

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