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A apoteose do Criolo

“A pirataria é  a nova rádio”. Prova das recentes palavras de Neil Young foi o Circo Voador superlotado (não “suuuper lotado”, de legal, lotado além da conta mesmo), com mais de 3 mil pessoas se espremendo para ver o Criolo em sua segunda passagem pelo Rio com “Nó na Orelha”, um dos melhores discos de 2011, distribuído gratuitamente em sua página. Quando o trabalho é bem feito, o grátis vai longe.

O carnaval ainda não chegou e Criolo já teve sua apoteose. O que se viu no Circo no sábado foi único. Não apenas por se tratar de um artista de São Paulo sendo aclamado no Rio, tendo seu nome urrado (é notório o quanto carioca implica muito mais com paulista do que vice-versa) ou todas as letras cantadas pelo público. Principalmente pela velocidade com que isso aconteceu.

Díficil dizer que a platéia era formada por amantes do rap, assim como não se pode dizer que era apenas a pleiboisada indo na onda. Estava lá a “atitude hip hop”, com a platéia batendo a mão no ar e cantando alto a citação a “Rap é Compromisso” (Sabotage). Estava lá também a atitude carioca, com muita gente alheia ao show e tomando uma cervejinha e batendo papo fora da lona. Tinha de tudo. É impossível determinar um perfil de público, o que ao mesmo tempo explica e torna mais difícil entender o fenômeno Criolo.

Tratado como um novo artista estreando, Criolo, há muito tempo na estrada, explodiu com seu segundo disco. Misturando rap, mpb, afrobeat e reggae, citações de Chico Buarque e uma penca de aparicões em listas de destaques do ano, “acusações” de ser gay (seja lá o que isso signifique…), o paulistano entrou em uma trajetória fulminante. É possível fazer um paralelo com a ascensão do Seu Jorge: as durezas do passado, a revelação tardia, a faceta crooner, um repertório que tanto pode ser visto como “eclético” quanto “atirando pra todo lado”.

Mesmo que o rap hoje seja mais uma influência do que uma constante no show, Criolo não se esconde . Político, disse que ninguém ali era burro e exibiu um cartaz onde se lia “os mortos de Pinheirinho nao me deixam comer”, em alusão ao protesto de greve de fome sendo feito por Pedro Rios em frente a sede da TV Globo.

Para alguém que estava há duas décadas tentando cavar seu espaço, não resta dúvida que o que o que catapultou Criolo para o sucesso foi a nova embalagem musical. Produzido por Ganjaman (que já havia chegado perto disso com Sabotage, morto precocemente), o disco acertou em cheio o público que mirou: suingueiro, pra cima, com uma banda de baile (herança das homenagens aos discos “Racional 1 &2″ feitas pelo Instituto) impecável. Só o naipe de metais já vale o show.

O fenômeno Criolo é uma soma de tantos fatores (qualidade discurso e musical, livre circulação de mp3, a grande imprensa ter abraçado – sim, ainda faz muita diferença quando se fala de um público do tamanho do que estava no Circo – o momento sócio-econômico brasileiro – a história de vida dele ajuda a vender o “produto”, etc) que tentar encontrar o motivo principal do sucesso é um exercício inútil. Muito melhor é  simplesmente aproveitar, já que poucas vezes esses sucessos vem aliados a um som de alto nível.

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Rapture + Breakbot no Circo Voador: O arrebatamento

tem muitas fotos no I Hate Flash

Mesmo com muita chuva, cerca de 1.200 pessoas foram até o Circo Voador conferir o The Rapture. Em tocar no Rio desde 2003, muita coisa aconteceu de lá pra cá: a banda gravou mais um disco, um dos integrantes saiu, o grupo quase acabou e ressurgiu ano passado com o ótimo “In The Grace of Your Love”.

O tempo passou e isso ficou claro; tanto na atitude mais contida dos integrantes no palco quanto na evolução sonora, menos punk e mais bem acabada. Ganha-se de um lado, perde-se do outro, menos explosão em troca de músicas mais elaboradas. Porém é sempre melhor ver uma banda que não se repete do que eternos pastiches dela mesma.

Fez falta um clique para o baterista, perdendo o tempo diversas vezes, pra trás, quase sempre nas mudanças de desenho, tornando as músicas mais lentas do que o normal. Num som como o do The Rapture, em que bumbo e caixa empurram todo o resto, isso faz bastante diferença. Não prejudicou nem ninguém ligou. O público abraçou o repertório e levou a banda no colo até o fim do show.

Foi curto, faltaram “Sister Saviour” e “It Takes Time To Be a Man”. Do lado de fora, a chuva apertou e pressionou a platéia pra dentro da lona, dando mais pressão e garantindo que ninguém iria embora tão cedo. A noite seguiu com uma discotecagem de duas horas do Breakbot.

O francês  segurou a onda e a pista pegou até quase 4 da manhã. No final, um aparição surpresa do Mayer Hawthorne, aproveitando para anunciar seu show na semana que vem ali mesmo no Circo. Você que é feito de açúcar e ficou em casa perdeu uma noitada e tanto.

Compra um guarda-chuva, só pra se garantir para as próximas.

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Disse o Cícero

Assim que entrou em cena, Cícero se deparou com problemas no seu violão elétrico. Sem graça, pediu desculpas, disse que tinha acabado de passar o som e que tudo ia dar certo.  O público do teatro Solar de Botafogo, abarrotado em pleno recesso não-oficial de final de ano, com gente sentada pelas escadas, nem ligou. Eram todos fãs e estavam na mão do compositor.

Quando comentou sobre o coro de uma música em que a plateia participou (após insistentes pedidos do cantor), disse que em Belo Horizonte não tinha sido atendido e tinha ficado até sem graça. Um rapaz gritou “é mentira! eu estava lá!”. Desde que lançou o clipe de “Tempo de Pipa” em junho, uma viagem neo-hippie pelo bondinho de Santa Teresa, Cícero vem conquistando seguidores – de verdade, não no Twitter.

Lançado de maneira independente e disponibilizado gratuitamente em sua página, o disco “Canções de Apartamento” foi se espalhando e levando Cícero a tocar pelo Brasil, entrando em listas de melhores do ano de blogues (“não que isso seja importante”, disse após contar para o público sobre esse fato), começando a construir uma carreira. Conferir o burburinho foi o motivo da ida ao show.

Cícero gosta do palco. Pode ser somente uma empolgação inicial, fato é que a quantidade de trejeitos e gracinhas para plateia (como roer as unhas ao microfone apenas para ser repreendido por uma fã mais entusiasmada) beiram a afetação. O que pode atrapalhar ou ajudar, depende do público que ele estiver mirando.

Em certo momento, Cícero brincou com participação da plateia, dizendo que estava se sentindo a Maria Gadu. No ponto em que está, a comparação faz sentido, mais até do que as apontadas similaridades com Los Hermanos e Rodrigo Amarante. As boas letras estão prontinhas para as massas; “Ensaio Sobre Ela” é só botar pra tocar na novela.

Musicalmente, no entanto, tudo ainda soa bastante derivativo (Radiohead, LH): toda música inicia bossa, explode indie e fecha bruscamente, num formato repetitivo. Faria bem um despreendimento estético, experimentar mais. Caminho tem e a interessante versão de “You Don’t Know Me”, feita em cima de “João e o Pé de Feijão”, (ah, se Caetano vê…) mostra isso.

Antes do final, Cícero agradeceu aos fãs pela divulgação no Facebook e na internet (nessa ordem) e num discurso altruísta, convocou o público a ajudar mais artistas a aparecer publicando músicas de novos nomes em seus perfis, dividindo a própria audiência sem nem saber com quem.

Entre as canções o compositor sentia-se obrigado a se comunicar com o público, repetindo o agradecimento por todos estarem ali, emcerrando o papo com um “não tenho mais o que dizer”. Engano dele.

Ainda no começo da jornada, Cícero já tem um número relevante de fãs dispostos a ouvi-lo. Só isso deveria ser motivo para sentir-se seguro para arriscar mais e explorar o próprio talento. Em tempos de carreiras relâmpago, em que artistas se descobrem e amadurecem na frente do público, não dá para esperar muito tempo pra isso.

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Pazes e Psilosamples e o Brasil no Novas Frequências

A noite de encerramento do Novas Frequências não estava programada para acontecer exatamente como aconteceu. A atração inicialmente divulgada era o guitarrista Mark McGuire (do Emeralds), que cancelou sua vinda, em cima do laço. Ainda que tenha feito bastante falta (era o que mais queria ver), a solução encontrada acabou por enriquecer o festival, adicionando atrações brasileiras – Pazes e Psilosamples – numa programação que antes só trazia nomes internacionais.

Infelizmente, atrações brasileiras não causam o mesmo frenesi no público (porque sempre dá pra ver depois? Vai saber…) e o domingo foi também a noite com menos procura por ingressos. Estava cheio, porém não houve a disputa por entradas que se viu nas outras datas. É uma pena. Quem não foi, perdeu a chance de conferir ao vivo dois caras que não, não dá pra ver depois tão facilmente assim, porque raramente passam por aqui.

O brasiliense Pazes, por exemplo, nunca tinha se apresentado no Rio. O moleque quebrou tudo. Seguindo a linha sonora da beat scene angelina, capitaneada por Flying Lotus (e seu hip hop instrumental e viajandaço), Pazes esgarça o espaço artificialmente através de reverbs e delays (como no pós-dubstep dos ingleses Burial e James Blake) e esquenta as coisas com uma estética lo-fi, com camadas de “sons naturais” criadas – atenção para o paradoxo – no computador.

Apresentando-se com um laptop, controladores e um microfone, Lucas Febraro reconstruiu ao vivo suas produções, como a versão de “Sétimo Andar”, do Los Hermanos. Bastante derivativo do que tem sido feito mundo afora, sim. Porém, hoje “o mundo” está (é?) em rede, e fronteiras geográficas fazem cada vez menos sentido. Pazes está alinhado com o que está sendo feito no exterior, sem deixar nada a dever.

O mineiro Psilosamples, por sua vez, faz música eletrônica sampleando elementos da música brasileira, drum n bass com tamborins, 2×4 com sanfona. Criativo e original, porém sem o apuro técnico demonstrado pelo Pazes. Agora que já se encontraram no palco, quem sabe um não influencia o outro.

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Com Truise, muito além do trocadilho

A primeira coisa que chama atenção no Com Truise é o nome familiar. A graça se desfaz quando se ouve os primeiros acordes do funk digital mid-fi produzido pelo designer Seth Haley (“um lo-fi que dá pra tocar no rádio”, explicou em entrevista para o doc-curta sobre lo-fi e chillwave “The Rise of Lo”, que estou fazendo com o Chico Dub – em breve nas melhores internetes do ramo),

O Com Truise consegue transformar timbres e possibilidades dos sintetizadores mais cafonas dos anos 80 em algo classudo. Não é pouca coisa. Música de videogame (lembro da trilha de “Castelvania IV” sempre que ouço) com pegada sci-fi, retro-futurismo oitentista noir, indicado no clipe de “Brokendate”.

Atração mais aguardada e a primeira a ter os ingressos esgotados no festival Novas Frequências, provavelmente por ter o som mais acessível ou próximo do pop, Com Truise fez por merecer a atenção recebida. Ao vivo, descosnstrói e reconstrói as músicas através de um sintetizador e dois controladores, substituindo as batidas programadas por um baterista ao vivo, utilizando algumas programações por cima.

Quem esteve no pequeno teatro teve uma grande chance de ver bem de perto. O Com Truise pode crescer bastante, basta saber até que ponto Seth Haley quer levar o projeto.

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Andy Stott é um caso grave

Poucas vezes o 4×4 do techno soa tão macio quanto na batucada afro filtrada pelo dub do inglês Andy Stott.  Citando Jeff Mills, o selo Basic Channel, Square Pusher, Autechre, garage como referência, é exatamente uma mistura disso tudo que ele apresenta.

O live apresentado poderia tranquilamente ter acontecido em algum clube londrino em uma festa de bass (como a Dublime), é feito para as pistas de dança – bom, ao menos para aquelasque curtem dançar em câmera lenta, amassada por graves.

Num caminho inverso do Sun Araw, que esconde a pulsação do grave, Andy Stott mantém as texturas, colagens, estalos, ruídos e fragmentos de vocais sampleados escondidos sob pancadas de baixa frequência, servindo como isca para o transe do ouvinte.

As cadeiras do teatro chacoalharam, literalmente, num ambiente soturno, melancólico e reflexivo. Meditação grave das melhores.

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Murcof e a performance na música eletrônica

Um apresentação memorável deve se destacar em dois quesitos (ao menos): o musical, óbvio, e a performance. Ontem, Murcof sobrou na primeira parte na sua apresentação no Novas Frequências. Construções ambiente com arranjos de cordas sinteizadas, cortes, batidas tortas, é um recital de um homem só.

É aí que vem o problema. Por se tratar de apenas uma pessoa sentada de frente para o computador, a performance simplesmente não existe. É um problema recorrente quando se fala em apresentações de música eletrônica, uma reclamação que vem desde quando se começou a colocar os DJs em cima do palco, amplificado na era da música de laptop.

É como se estivesse ouvindo um disco em grupo – o que em parte é o desejo de Murcof, que queria ter se apresentado totalmente no escuro, sem aparecer. A sensibilidade ao montar os arranjos ao vivo, controlando os efeitos, entrada e saídas de cada canal, num fluxo contínuo de sons é perceptível. O que faz falta mesmo para quem assiste é ter algo para acompanhar, uma vez que é um show, não uma audição.

Talvez um telão com uma câmera mostrando o que se passa na tela (quem nunca colou vendo guitarristas ao vivo?) e o uso dos periféricos talvez enriquecesse a experiência Talvez não, apenas tirasse o foco da música, dos sons. E era com isso, e somente com isso, que Murcof estava preocupado. Essa parte ele entregou, com louvor.

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Sun Araw no Rio

A sensação após o show do Sun Araw, ontem abrindo o festival Novas Frequências, foi atordoante. A chapação proporcionada por camadas e mais camadas de guitarras e sintetizadores, batidas programadas da MPC, ecos, delays e efeitos de pedal, fizeram alguns dormir. Outros, mais insistentes, mergulharam nessa maçaroca sonora, em busca do grave, lá no meio, pulsando calmamente, amassando o cérebro, como um prêmio pela aventura.

Liderado pro Cameron Stallones, sósia magrelo sósia do Anthony Kiedis (RHCP), o trio reconstrói as músicas gravadas solitariamente pelo texano em seu quarto em Los Angeles. Psicodelia e repetição são palavra de ordem, loops de linhas de teclado e de guitarra induzindo ao transe, linhas de baixo vindas do dub. A ligação coma  Jamaica é forte, recentemente Cameron foi a Jamaica gravar com o The Congos.

Perto do final do show, um dos cabos da shahi baaja ( instrumento indiano tocado por um dos músicos, googlei essa, óbvio) deu o famoso Maucon (mau contato) e saiu de cena. O acontecimento evidenciou que a dinâmica constante, deixando o som um tanto reto, poderia variar mais. Soou bem sem o instrumento, poderia variar mais.

O problema foi também responsável pelo “momento extintor de incêndio no museu” da noite. Ninguém teria percebido que se tratava de um defeito se o músico não tivesse apontado. O ruído causado pelo cabo era totalmente compatível com a sonoridade lo-fi do Sun Araw. Numa banda tão experimental, faltou incorporar o imprevisto.

Nada que tenha prejudicado a apresentação, uma das grandes surpresas do ano. Nem passava pela cabeça ver o Sun Araw ao vivo, muito menos no Rio.

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Apoteose do Pearl Jam

Seis anos depois, o Pearl Jam voltou a tocar no Rio. Em termos gerais, não foi muito diferente da última visita - e dessa vez tocou “State of Love and Trust”.

Passei o show ouvindo um doido gritando “VTNC São Paulo! Riôôô!” a cada intervalo entre as músicas. Não deu pra ter ideia o motivo da revolta. Nem isso atrapalhou a noite.

As músicas:

1. “Unthought Known”
2. “Last Exit”
3. “Blood”
4. “Corduroy”
5. “Given To Fly”
6. “Nothingman”
7. “Faithfull”
8. “Even Flow”
9. “Daughter” 
(“Blitzkrieg Bop”, Ramones)
10. “Habit”
11. “Immortality”
12. “The Fixer”
13. “Got Some”
14. “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town”
15. “Why Go”
16. “Rearviewmirror”

Bis

17. “Just Breathe”
18. “Come Back”
19. “I Believe In Miracles” 
(Ramones)
20. “State Of Love And Trust”
21. “Of The Earth”
22. “Do The Evolution”
23. “Jeremy”

Tris

24. “Mother” 
(Pink Floyd)
25. “Better Man”
26. “Black”
27. “Alive”
28. “Rockin’ in the Free World” 
(Neil Young)
29. “Indifference”
30. “Yellow Ledbetter”

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Reel Big Fish, Goldfinger e os 90 voltando no Circo Voador

O Daniel Ferro conferiu o show das duas bandas no Circo Voador e mandou seu relato:

“Lembra da febre Ska Californiano que bombou na MTV em 1998 com Rancid, Mighty Mighty Bosstones, Suicide Machines e companhia? Com quase 15 anos de atraso, Goldfinger e Reel Big Fish, dois representantes dessa onda, se apresentaram ontem no Circo Voador.

“Com a casa cheia (surpreendente para uma 4a feira de futebol ao vivo), público 90% masculino, o que se viu foram dois bons shows regado a muito ska com direito a naipe de metal, dancinha, pogo e até um stage dive por parte do vocalista do Goldfinger John Feldman, que escorregou no pulo e teve que tomar alguns pontos na perna antes de voltar pro bis.

“Os pontos altos, além dos hits de cada banda, foram os covers clássicos (The Cure, A-Ha, Specials e Van Morrison) em ritmo ska acelerado e uma mesma música do set do Reel Big Fish tocada em 4 versões diferentes – punk, disco, country hillbilly e metal – que valeu o ingresso.

“O ponto positivo é ver que o cenário “punk rock MTV” surgido no meio dos anos 90 continua firme e forte por aqui, já que em menos de um mês vimos o Bad Religion, MxPx, Goldfinger e Reel Big Fish em shows energéticos com boa resposta do público. Os contratantes agradecem.”

Os anos 90 estão voltando.

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Corta. Cola. Deleta.


foto: URBe Fotos

O título é só pra não perder a piada, um exagero – e as mais de 1.500 pessoas alucinadas com o show no Circo Voador ontem certamente discordam. Fui disposto a gostar, pra mim é que não dá, mesmo. Esse Cut Copy é chato pra dedéu. Timbragens bregas,  ”estilo Songify” como ouvi dizer por lá. Só gosto deles remixados. Por outra pessoa.

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Warpaint

Quem não foi, perdeu um showzão. Com pouco mais de 500 pessoas na casa, as meninas do Warpaint chaparam o Circo Voador com o som viajante, psicodélico, com influências dos anos 80 via The Cure e 90 via trip hop e timbragens do grunge. Como já é regra no Queremos, a banda saiu muito feliz do palco com a reação do público, uma das mais entusiasmadas vistas até aqui.

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Uma volta pelo Rock in Rio

Fui ao Rock in Rio mais pra ver a produção do que para conferir as atrações, praticamente uma obrigação profissional. Não entrei nesse mimimi de reclamar da escalação por um simples motivo: o evento não é feito para mim. É para outro público e, nesse ponto, os ingressos esgotados para todos os dias com meses de antecedência falam por si só.

Nesse sentido, impressiona a magnitude do evento, é uma produção gigantesca em que quase tudo funcionava perfeitamente. O clima de shopping center montado num estacionamento está longe do meu ideal, porém muita gente se esbaldou por ali, como se fosse domingo e as bandas fossem música de fundo.

Seja como for, o ponto principal é ver um evento fortemente voltado para classe B e C feito com cuidado. O alto preço dos ingressos demonstra o aumento do seu poder de compra e, ao realizar algo caprichado para esse público, o Rock in Rio ajuda a educar.

Filas minimante organizadas, pedidos de “licença” e desculpa” por esbarrões involuntários, espaço entre as pessoas para assistir o show, tudo isso parecia potencializado pelo ambiente, ainda que sujeirada no chão etivesse braba e tenha havido muitos assaltos dentro e fora do evento.

Como na contestada teoria das janelas partidas, ao ser tratado com respeito, o público se torna respeitoso. E não custa lembrar, vem Copa e Olímpiadas por aí e precisamos aprender a nos comportar nesses eventos.

Entre os shows, o do Stevie Wonder não foi nada diferente do que assisti em 2008, uma chuva de clássicos, um espetáculo calculado, excelente, mas um pouco engessado.

Janelle Monae não segura a onda, como já não havia segurado na abertura da Amy Winehouse, e a Kesha foi contrangedor de tão ruim. Surpresa foi o Jamiroquai. Com um bandão, fez praticamente um set de disco, com músicas emendadas e balançando. Por essa não esperava.

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Tudo rosa: Ariel Pink e Pains no Circo Voador


Ariel Pink
fotos: URBe Fotos (via Instagram)

“Esse Ariel Pink é maluco”. Essa deve ter sido a frase mais repetida na noite de sexta por quem viu o sujeito no palco do Circo Voador a frente da sua banda de apoio, o Haunted Graffiti. Líder da banda e tido com um dos precursores da onda lo-fi, Ariel vive no seu próprio mundo. Diz que não ouve música e que pouco se importa em ser referência.

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Metronomy avassalador no Rio, agora… partiu Warpaint!


fotos: URBe fotos via Instagram/@urbe

Showzão do Metronomy ontem no Circo Voador, e festa foi longe com os DJs Nepal, Camara e Dani. Os ingressos esgotados davam a deixa de que a noite seria boa. O público fez sua parte, o resto cabia a banda.

Com um som muito bem passado e bem ensaiados, os ingleses superaram as expectativas. A pressão do bumbo e boa técnica da baterista, as dedilhadas estaladas do baixista (uma versão masculina 2011 da Grace Jones) e o revezamento entre a guitarra e teclado nas interferência sonoras caíram como uma pedra de 700 kilos na cabeça da platéia, provocando uma desorientação, um estado de suspensão em que a única resposta era dançar. E como dançaram.


“The Bay” e a galera junto
+ vídeos

Baladas como “The Look” e “On Dancefloors” (a chorada do sintetizador dessa, o melhor da música, soando um pouco baixo) ou “She Wants” dão tempo de respirar dos momentos new wave de “My Heart Rate Rapid” e “On The Motorway”, “Corinne” e hits como “Heartbreaker”.

O som poderia facilmente ser classificado de synthpop ou indietronica, tem alguns elementos que o fazem ir além disso: o retrofuturismo, a ironia (até solo de sax tem), a sujeirada e ruídos no mix. Até iinfluência torta de bossa nova aparece em “Some Written” – os integrantes comemoraram o fato de no Brasil a referência ter sido tão percebida.

O Metronomy é daquelas bandas que parecem muito simples, derivativa, até se prestar maior atenção de fone ou bater de frente com eles ao vivo. “Love Underlined” catalisa um pouco de tudo que a banda bebe, o crescente do sintetizador, o timbre de cravo, a pulsação da bateria, a linha de baixo pipocando lentamente, o vocal indo e vindo… Mesmo com andamentos baixos, as músicas cozinham a pista, como um set.

Faltaram “Not Made For Love” e “Everything Goes My Way” (e como pedi…). Extasiados com o show, eles disseram que voltam. Vou cobrar.

Os próximos shows confirmados do Queremos são: Ariel Pink’s Haunted Graffiti + Pains of Being Pure At Heart + Dorgas (16/set), Primal Scream tocando “Screamadelica”, Eu Quero Festival com Broken Social Scene, Toro Y Moi e Beady Eye (07 e 08).

Pra completar, ontem foi anunciada a campanha Queremos Warpaint. Se confirmado, o show será 07 de outubro, mais uma vez no Circo Voador. E ainda tem MAIS coisa por vir!

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Tinariwen e Aloe Blacc no Back2Black

Mais uma edição do Back2Black, mais uma vez na Leopoldina, mais uma vez um bom cenário, mais uma vez boas atrações, mais uma vez a música sofre com a acústica daquele lugar. Poucas novidades em relação ao ano passado, para o bem e para o mal.

A cenografia dos Gêmeos, palestras e atrações alternadas em dois palcos e uma tenda não foram capazes de superar a decepção da maioria pelo cancelamento do Prince. Uma pena, pois havia muitos outros artistas interessantes para se ouvir.

Na primeira noite os beduínos do Tinariwen hipnotizaram com seus sons do deserto aqueles que chegaram cedo, misturando instrumentos ocidentais com a percussão e roupas típicas de Mali e induzindo ao transe. Sorte de quem viu, porque o show da Macy Gray na sequência foi constrangedor, chegando ao cúmulo de passar para sua vocalista de apoio, com um vozeirão, a tarefa de cantar seu hit.

Na terceira noite (não fui na segunda e perdi a Chaka Khan que falaram que foi massa), todas as fichas estavam em Aloe Blacc. Um dos novos nomes do soul, catapultado pelo sucesso de “I Need a Dollar” e com boas músicas como “Green Lights” no repertório, Aloe Blacc fez… tudo errado.

Mostrando uma inesperada faceta presepeira, o cantor torrou a paciência desde o início com bordões como “bota a mão pra cima”, fazendo coraçãozinhos S2 com as mãos, acompanhado por uma boa banda e duas fracas vocalistas de apoio com figurinos destoando totalmente do resto do grupo.

Nada disso, lógico, foi o pior. Ruim mesmo foi ver arranjos de baile (sem que isso seja elogio) para todas as músicas, desprezando o que elas tem de melhor em nome de um suposto “frescor” em relação ao disco. E tome batidas de reggae cachoeira, com direito a “No Woman, No Cry” e um rap constrangedor de uma das vocalistas. Tá ruim? Piora. Rolou sambadinha.

Com a escalação que costuma ter e conseguindo atrair público (mesmo que não tenha lotado, até porque é “longe”) o festival continua prometendo, ainda sem cumprir totalmente a proposta. Embora tenha acertos, o formato ainda não encaixou. Ano que vem deve ter mais.

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Sharon Jones (se) sacode (n)o Rio

Por conta do meu desconhecimento da carreira da Sharon Jones além das músicas mais óbvias, passei quase uma hora tentando encontrar o título da que filmei no show de ontem, no Casa Grande, parte do BMW Jazz Festival. Googlei vários pedaços da letra + “Sharon Jones” e nada. Desisti e upei sem nome mesmo.

A música parece mesmo inédita, até agora ninguém cravou o nome. O exercício serviu pra comprovar uma constatação óbvia durante a apresentação: conhecer previamente o repertório de Sharon Jones é indiferente para aproveitar o show. Honrando a tradição do soul, é um hit atrás do outro. Não tem música ruim.

Acompanhada pelo Dap-Kings e pelas Dap-ettes, a mulher é um foguete no palco. Um James Brown de saias (faço ideia de quantas vezes essa comparação já deve ter sido feita), tira a galera pra dançar, olha no olho do público, dança, se sacode, conta histórias e canta demais.

Tradicionalistas, os Dap-Kings restringem os instrumentos e métodos de gravação aqueles disponíveis até a metade dos anos 70. Não por acaso, a sonoridade é retrô da banda é a favorita do produtor Mark Ronson, que utilizou o grupo em diversas faixas do disco “Back To Black” Amy Winehouse.

O som tradicionalmente muito baixo do teatro Casa Grande atrapalhou, mas não chegou a comprometer. Principalmente porque logo no início a marcação dos assentos foi para o espaço e quem quisesse podia sentar nas escadas, bem próximo do palco, ouvindo os sopros e a voz da Sharon Jones praticamente sem microfonação.

No bis, uma justa homenagem a James Brown, tocando “It’s A Man’s World”. Sempre bom relembrar o Godfather. Pra quem viu os dois shows, fica a certeza de que Amy tem muito chão pela frente ainda.

Antes da cantora, o baixista Marcus Miller comandou uma formação de teclado, bateria, clarinete e sax na execução de temas de “Tutu”, disco de Miles Davis que compôs e produziu.

Tenho uma certa preguiça para virutoses inacabáveis. É como assistir um cara bom de embaixadinha, é legal mas aquilo não é jogar bola. Mesmo moendo o instrumento, os melhores momentos é quando Marcus joga pro time. Ainda que a timbragem Seinfeld do baixo e oitentistas do sintetizador ameaçassem botar tudo a perder.

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Camelomania no Circo Voador

Cercado de samambaias no palco, com um som impecável e muito bem acompanhado pelo Hurtmold e por um naipe de metais, Marcelo Camelo subiu ao palco do Circo Voador para o lançamento do seu segundo disco, “Toque Dela”. A noite prometia.

O show começou pouco depois da meia-noite e pouca gente estava no Circo para a abertura do Me & The Plant (também perdi…). Surpreendentemente, ao menos para mim, os ingressos não estavam esgotados.

Em seu novo disco, Camelo também está mais solto, dando mais espaço para guitarra, escancarando mais suas próprias influências, um disco mais pra cima que o anterior “Sou”.

Com algum tempo de estrada juntos, Hurtmold e Camelo construíram uma sonoridade juntos, mesmo que no segundo disco o compositor tenha decidido tocar todos os instrumentos em algumas faixas. É muito bacana ver o encontro dos dois artistas de escolas diferentes, a mistura dos estilos. A escolha do septeto paulistano como banda de apoio é das coisas mais interessantes da carreira solo do Camelo. Com um time desses, metade do show está garantido.

Casa cheia sem estar abarrotada, bandão, som tinindo pro lançamento de um bom disco. Tudo certo para uma noite e tanto. Faltava saber a reação do público.

Sem fugir do clichê, a reação foi hermânica. Não chegou a histeria de outros tempos, embora tenha passado perto em alguns momentos. Marcelo chegou a presentear a plateia com as plantas do cenário. Roberto Carlos distribui rosas, Camelo distribui samambaias.

É muito legal a reação calorosa do público, sem dúvida. Para o artista deve ser ainda mais especial. Em “Doce Solidão”, sozinho, Camelo sequer abriu a boca até mais da metade da música, quando o Hurtmold voltou ao palco.

Ele gosta, incentiva, se diverte com a gritaria. É muito legal mesmo. Agora… Em todas as músicas, sinceramente, enche o saco. Você sai de casa, quer ouvir o show e só dá coro desafinado no ouvido. Por mais que a catarse seja divertida e sincera, aos poucos vai cansando

Paritcularmente, preferiria não ouvir nenhuma música do Los Hermanos no show do Camelo. A quantidade que é tocada, três, quatro, é um exagero. Tira o foco do show. Virou regra. As músicas são dele, claro, mas se é carreira solo, é carreira solo. Podia deixar isso pra depois.

O artista no palco, vivo, aos 30 e poucos anos e uma estranha nostalgia do presente toma conta. É um troço doido, o público impaciente, querendo ouvir as músicas nem tão antigas, quase como que aturando o disco novo para chegar até elas. Essa preguiça de encarar o novo que estrangula a cena no Brasil.

Isso tudo no show de lançamento de um disco novo. Um showzaço, diga-se. Teria sido bem melhor se tivesse dado pra ouvir a interpretação do artista. A do público eu mesmo faço em casa.

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Jamie Lidell encontra seu público no Circo Voador

Baladas R&B, levadas soul e experimentações eletrônicas. Apresentando seu amplo repertório de possibilidades sonoras, Jamie Lidell foi a forra do show para 50 pessoas no Tim Fest 2005, quando foi escalado de última hora na vaga do Autechre. Com cerca de 900 pessoas na platéia, responsáveis pela realização do show via Queremos, dessa vez Lidell fez a festa.

Ao contrário da primeira vez, quanto tocou sozinho com suas traquitanas eletrônicas e capa dourada, Lidell veio acompanhado por uma banda enxuta: um baterista e um tecladista (fazendo também as linhas de baixo no sintetizador).

Sem camisa, dançando e fazendo duetos com Lidell, o tecladista ajudou a quebrar o protocolo, divertindo o público. Abrindo com músicas menos convencionais, o cantor anunciou a virada do show logo após a fantástica versão ao vivo de “Completely Exposed”, partindo para o hit “Another Day”, cantado em coro pela plateia.

Boa praça, super tranquilo, viajando com uma equipe reduzida e sua namorada, antes do show Jamie explicou que não tinha muito interesse em releituras papel carbono do soul, preferia incluir suas influências, de Prince e música eletrônica a J-Dilla. Os muitos momentos que essas muitas referências se cruzam são de fato os melhores.

O show oscilou um pouco nos momentos solo de Jamie, que não foi ajudado pelo tamanho do lugar, e o público aproveitou pra conversar. As atenções voltaram para o palco perto do encerramento, com “Multiply”. A noite terminou alto astral e mais uma vez, quem apostou tanto na vinda do artista quanto em conferir o som ao vivo, viu um ótimo show. Pena que tanta gente ainda espere tanto antes de experimentar (nem tão) novos sons.

O público está sendo construído e, por outro lado, é muito legal perceber a quantidade de pessoas que já se dispõe a sair de cada pra ver um show totalmente no escuro. Se você foi uma delas, sorte sua.

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Coachella 2011, acertando o passo (completo)

Sunset
fotos: URBe (Instagram)
+ no flickr.com/URBeFotos e urbemicro.tumblr.com

O caos do ano passado foi uma visão triste. Filas por toda parte, dificuldade para assistir os shows, gente demais no lugar. Em uma de suas edições de atracões mais quentes (todo mundo estava tocando), o Coachella aparentava ter ficado grande demais. Ficou no ar a questão: valeria a pena voltar em 2011?

Mas… que outro festival do mundo tem esse sol, essa escalação e esse clima tranquilo (mesmo no ano do tumulto)? A praticidade conta e, chegada a hora (e “a hora” é meses antes da data), a esperança de melhora, confiando no histórico do evento, transportaram a mente até o deserto. Como se sabe, a mente decide, o corpo só obedece. Em abril, o destino era Indio.

Checkpoint

Com a proximidade do festival, as notícias eram boas. A organização arrochou a segurança para evitar invasões, aumentou muito a área do evento e redistribui as praças de alimentação, vendeu menos ingressos, diminui os convites, o credenciamento de imprensa e instituiu um controle mais rigoroso na entrada, com pulseiras com chips. Com a importância que tem hoje, o Coachella não poderia mais mesmo liberar entrada com ingresssos impressos em casa.

vista aérea / airview

A grande diferença em relação a 2010 foi a própria escalação. Num consciente passo atrás, o Coachella deu uma segurada no tamanho das atrações, ou na quantidade de nomes muito grandes. O que foi visto por alguns como enfraquecimento, provou-se uma decisão acertada. Era necessário esfriar as coisas um pouco.

ants / formigas

Quem já foi sabe, não adianta ler a lista de mais de 100 atrações e achar que conseguirá assistir tudo. frustração certa. No Coachella existem diversos caminhos e, uma vez escolhido o seu, é melhor esquecer todo o resto.

Como uma das coisas mais legais é a oportunidade de assistir justamente os shows menores, mais difíceis de se ver em outros lugares ou mesmo em casa, os medalhões não fizeram tanta falta. E olha que tinha bastante gente grande.

Foi muito bom ver o festival retomar o seu espírito inicial. Muita gente atrás de música boa, bem menos pessoas na badalação e a oportunidade de se poder assistir tranquilamente tudo que se escolhesse. Abaixo, um remix da cobertura por twiter, agora com bem mais do que 140 caracteres, que fiz das minhas escolhas (sem revisão, depois faço adendos, links e acerto os eventuais erros).

Dia 01
Black Joe Lewis & The Honeybears, Brant Brauer Frick, The Drums, Odd Future, Warpaint, Tame Impala, Lauryn Hill, Sleigh Bells, Black Keys, Kings of Leon, Emicida

A saga de três dias começou com o Black Joe Lewis & The Honeybears, pegando bem mais pesado do que o groove de sua música mais conhecida, “I’m Broke”. Com uma metaleira funk, o que se destacava mesmo eram os riffs de guitarra, fugindo das expectativas. Saindo de lá, ainda deu tempo de conferir o finalzinho do Brant Brauer Frick, filhotes de Kraftwerk tocando eletrônica.

The Drums
The Drums

Primeira atração mais conhecida do dia, o The Drums confirmou a fama de ruim de palco, com um show bem morno, apesar da força que o vocalista faz para emular Ian Curtis. O som brilha demais ao vivo, perdendo um pouco da introspecção. Ruim não é, só não empolga.

O que prometia empolgar era a polêmica molecada do Odd Future. Nomes da vez do hip hop (ao menos o undergrond), estava numa marra sem tamanho antes antes mesmo do show começar. Com 10 minutos de atraso (gigantesco para pontualidade do Coachella), xingando o técnico de som, entraram com um sub-grave chacoalhando a tenda aos gritos de “Wolf Gang! Wolf Gang!”.

O cenário estava promissor, não fosse o fato de não haver uma banda no palco (não que se esperasse uma) e a correria para pegar o Warpaint do começo. Quem também atrasou foi o Cee-lo Green, tendo tempo de cantar apenas quatro músicas antes do som ser cortado e sair sob reclamações do público.

Warpaint
Warpaint

O do Warpaint arrastou bastante gente para o palco aberto menor e fez valer a pena, com o primeiro bom show do Coachella. As harmonias vocais, com camadas de guitarras ao fundo, fazem delas um Fleet Foxes  indie, com momentos delicados, hora lembrando The xx,  hora o Explosions In The Sky.

Fez muito sentido uma banda só de mulheres no festival com um público de maioria feminina. É praticamente um desfile. Falando na mulherada, ia fazer vários vídeos com elas resenhando os show, chamaria “Hot Chicks Review Coachella”, com grande potenciarl viral. A preguiça não deixou.

Tame Impala. Showzão!
Tame Impala

O pôr-do-sol é o momento mágico do Coachella e o shows escolhidos para essa hora nos palcos ao ar livre são sempre especiais. Os do palco menor, mais aconchegante e melhor posicionado para o visual, costumam ser os melhores.

Não por acaso, foi justamente nessa hora e local que o Tame Impala fez o melhor show do festival.  Falar em mistura de rock setentistas (Led Zeppellin, Floyd, Beatles, Cream, King Crimson) faz soar pouco inspirado, quase óbvio. O diferencial é o que os australianos adicionam.

Como se todas as influências passassem obrigatoriamente por um filtro pós-stoner (não esqueçamos que os garotos tem 20 e poucos anos, os anos 70 estão lá atrás), as guitarras se arrastam, enquanto o baixista olha para a bateria com um faminto para um prato de comida, mantendo o encaixe perfeito, e o vocal voando em efeitos pelo ar seco.

A chapação psicodélica debaixo do sol desértico foi uma experiência e tanto. Não poderia haver lugar melhor.

Duck Sauce
Sleigh Bells

Pausa para o almoço ao som da Lauryn Hill, bem disposta e com um bandão, mandando “Ready Or Not” e outros sucessos dos Fugees, antes de conferir o Sleigh Bells.

Ao vivo, a podridão da dupla faz muito mais sentido do que em disco. Com apenas a vocalista e um guitarrista em frente a uma parede de amplificadores Marshall, não sei qual dos dois soltando as bases eletrônicas, o Sleigh Bells abriu logo entregando as referências, ao som de “Iron Man” (Black Sabbath).

A blusa da cantora era uma réplica da 23 do Jordan no Chicago Bulls, com o nome da banda no lugar do jogador, dava mais senhas. Os anos 90 se (re)aproximam e o Sleigh Bells consegue ser ao mesmo tempo metal, hip hop e Miami bass, lembrando em vários momentos o NIN ou um Prodigy  mais lento.

Prontinha pra estourar, até um hit mais calminho eles tem, uma fofurinha na onda de “Paper Planes” (M.I.A.) que não encontrei ainda pra escutar outra vez. Esse troço no Brasil ia ser bom demais.

No palco principal, o Black Keys fez um show correto, bastante prejudicado pelo som, baixo e falhando. O problema se repetiu em outros shows por ali, algo fora do normal para o Coachella.

KoL
KoL

De banda que mal sabia passar de uma música pra outra, a banda grande (com “super” telão, horrorendo, com todos os efeitos que o operador pudesse encontrar), fechando uma noite do Coachella, foi um longo caminho, no qual o Kings of Leon perdeu bastante do que a fazia interessante.

“Vamos tocar coisa antigas, estamos cansados das novas”, disse Caleb Followill, para melhorar as coisas. Assim, o show foi bem mais legal do que poderia ter sido e ainda acendeu a esperança de que o caminho poser atual possa estar com os dias contados. Quem sabe, com os bolsos cheios, talvez eles mesmos queiram retomar o caminho anterior.

Emicida
Emicida

Depois dos problemas com o visto, Emicida teve dor de cabeça na imigração, perdeu a conexão para Los Angeles em Atlanta, se atrasou e perdeu o horário do próprio show. Na hora marcada, a tarde, um DJ botava som na tenda Oasis.

Remarcado para as 23h30, a apresentação foi para uma dezena de testemunhas. Fora do horário – na realidade tocando num horário em que a tenda já deveria estar fechada – visivelmente incomodado com a situação, Emicida tocou para quase ninguém. Uma pena.

Fechando a noite, o Chemical Brothers atrasou mais de meia-hora (muitos atrasos, como se vê) e não deu pra esperar. Tinha mais dois dias da maratona pela frente e era preciso descansar. No caminho para o carro deu pra ouvir “Star Guitar”, alto pra cacete, uma belezura que só.

penas / feathers

Dia 02
The Twelves, Bomba Estereo, Here We Go Magic, Foals, Radio Dept, Two Door Cinema Club, Erykah Badu, Broken Social Scene, The Kills, One Day As A Lion, Big Audio Dynamite, Animal Collective, Arcade Fire

Dormiu, acordou, começou o Coachella de novo. Sol a pino no dia mais quente do festival. Zooey Deschanel deu uma volta pelo gramado e até Paul McCartney passeou pelas tendas – vi o tumulto na área de imprensa e quando disseram que era ele, pensei que era pilha.

Aproveitando que o trânsito estava colaborando, foi dia de chegar cedo, a tempo de pegar o The Twelves na Sahara, a maior das tendas, 13h30.

The Twelves
12s

No dia anterior, João e Luciano estavam preocupados. Tiveram o laptop roubado na Colômbia e por isso, além de ter que usar com um computador reserva, inferior ao original, teriam que tocar a partir de uma versão mais antiga dos arquivos do seu show.

Fora isso, havia outra nóia: de que tocando tão cedo, não haveria ninguém para assisti-los. Nenhum dos receios se confirmou. O set rolou perfeito no computador substituto e a tenda estava muito cheia, até o fundo. Melhor do que isso, o público embarcou bonito no repertório de remixes de M.I.A., Daft Punk e Black Kids.

Não é fácil sacudir o povo debaixo de um calor insano e de dia. Os niteroienses do The Twelves não apenas conseguiram, como saíram ovacionados, aos gritos de “olê olê, olê olê” (gringolês para “viva sulamericanos”) e gente levantando a bandeira do Brasil. Tarefa cumprida, com louvor.

Sombra

No palco principal, o Bomba Estereo tocava o zaralho para os que estavam aguentando o sol na moleira. No palco menor, o Here We Go Magic fez um show correto e xoxo. A banda embarca num lance sub-Yo La Tengo, sub-su- Wilco, longe do folk com efeitos da ótima “Tunnelvision”, última música do show, em versão mais carregada nas guitarras e esporros.

Logo depois, o líder do Gogol Bordello protagonizou uma das cenas mais feias da história do Coachella. Claramente sabotado, foi obrigado a subir ao palco com uma blusa do Fluminense, para horror do público, sem entender a bizarra combinação de cores, mesmo num show do Gogol.

Do they really?
We Put Out

Foals
Foals

A aposta no Here We Go Magic custou metade do show do Foals, que com apenas metade da apresentação botou muitas outras atrações no bolso. Com suas melodias, bateria quebrada e guitarras fraseadas, o Foals poderia se tornar uma banda de estádio se tivesse mais exposição. O público cantava tudo, fazia coro e batia palma.

Vendo esse tipo de resposta do público ao Foals é a certeza de que todos ali baixam músicas e só conhecem a banda por isso. É uma constatação besta e lógica, porém não se pode perder de vista que ainda há bastante gente que não baixa (por medo, por não saber, por culpa).

O Foals ainda não foi mastigado e digerido pelo grande público talvez por conta disso, por não ter chegado a eles ainda. Se chegasse a mais gente, o sucesso poderia ser proporcional. A questão é: isso é desejado/desejável? No ano passado, com a escalação repleta de bandas do indiestream, foi o pandemônio que foi.

Na tenda menor, Gobi, o Radio Dept. fez um show sonolento, baixo e sem sal. O som estava uma desgraça, como se os integrantes tivessem esquecido cobertores sobre os amplificadores.

Two Door Cinema Club: saudades do @queremos
2DCC

De volta a tenda Mojave, o Two Door Cinema Club teve público e recepção de bandas que tem bem mais estrada com eles. Sem economia,  ”Something Good Can Work” apareceu como terceira música, levantando de vez a plateia. Mesmo sem a mesma pressão do show no Circo Voador, até por conta do tamanho do espaço, deu saudades do verão Queremos.

Eryka Badu
Erykah Badu

Pausa para o almoço, ao som de Erykah Badu. A diva escolheu um repertório um tanto irregular e, ao estourar o tempo, teve o seu som cortado no meio de uma música. Bandão, tudo no lugar, só o horário atrapalhou, e também o palco. Como era dia ainda, em uma das tendas poderia ter dado mais liga.

BSS, "7/4 Shoreline"
Broken Social Scene

A hora mágica, dessa vez no palco grande, foi reservada para o lindo show do Broken Social Scene. Mesmo pra quem não é fã da banda, daqueles de saber todas as músicas, o show foi uma beleza. Difícil era decidir entre assitir ao show ou simplesmente escutá-lo, observando o por do sol e curtindo a tranquilidade do gramado, relaxando e pensando na vida. A segunda opção é um dos grande diferencias do Coachella, um festival que se basta, independente das atrações.

The Kills
The Kills

Já de noite, quase pulei o The Kills, que fazia um show bem bom, até dar a hora de conferir o One Day As A Lion e ser deixado no meio.

One Day As A Lion
One Day As A Lion

Projeto de Zack De La Rocha, vocalista do Rage Against the Machine, o One Day As A Lion é feroz. Acompanhado de um baterista (Jon Theodore, ex-Mars Volta) e dois sintetizadores fazendo os riffs linhas de baixo e porradas de graves, com Zack tocando um deles algumas vezes.

A estrutura das músicas do combo de synth metal lembram as do RATM muito mais nas versões gravadas do que tocadas ao vivo, quando ficaram bem mais barulhentas e pesadas. A frente da tenda virou uma roda de pogo de 45 minutos, com a pancadaria comendo solta e bastante fair play, com os nocauteados sendo levantados pelos participantes.

Em meio as cotoveladas e ombradas, um casal destoava. Ele de blusa branca e calça jeans, ela de vestidão azul meio hippie, curtiam o show da primeira fila, enquanto eram lançados de uma lado para o outro. Deu gosto ver.

Animal Collective
Animal Collective

Embicando para a reta final, o Big Audio Dynamite, com Don Letts pulando e cantando animadaço, divertiu na mesma proporção que o Animal Collective constrangeu. Com iluminação especial da estrutura do palco e telão feito pelo Black Dice, a sequência de ruídos que nunca formavam uma música era de uma pretensão e chatice tão grande que faziam até desejar que o Arcade Fire começasse logo.

Nada contra os canadenses, questão de gosto mesmo. Fora “The Suburbs” e “Ready To Start” – dois musicaços – aquele clima Iron Maiden de “ôôô” que não acabam não é pra mim. A afetação de alguns integrantes, um excesso de uma “garra” forçada, cansam. Ainda assim, o show é inegavelmente bom e vale a pena se assistido nem que apenas pelo espetáculo.

Nesse quesito, o Arcade Fire não decepcionou. Começou com um filme, projeto abaixo de um letreiro de cinema com o nome da banda. Durante o show a briga entre as imagens do telão do palco (do festival, sempre classe) e do telão no palco (do Arcade Fire) foi bem boa.

Perto do final, uma caixa enorme foi içada por um guindaste acima do palco e ficou claro que a prometida surpresa estava próxima. Quando começou a cair bolas e mais bolas brancas lá de cima, pensei que o Arcade Fire fosse conseguir se superar no nível chatice, ao multiplicar por dezenas a pentelhice daquelas bolas que só atrapalham quem quer ver o show.

Que nada. Quando as bolas começaram a piscar e mudar de cor, coordenamente, revelando um sistema remoto de controle dos LEDs embutidos em cada uma delas, a coisa literalmente mudou de figura. Fato que atrapalhou um bocado a visão do palco, porém para quem estava atrás apenas do espetáculo, foi um lindo encerramento.

Assim, o show do Arcade Fire, contra todos os prognósticos URBísticos, entrou no top 5 do Coachella 2011. Isso quer dizer muito de um festival que, mesmo com uma escalação supostamente mais fraca que a do ano anterior, conseguiu superá-lo. O Coachella é mais do que os shows.

Zzzzz...
Cansou? Levanta que ainda tem mais!

Dia 03
Menomena, Delorean, Nas & Damian Marley, Wiz Khalifa, Best Coast, Foster The People, Duck Sauce, The National, The Strokes, Kanye West, Leftfield, The Presets

O terceiro e derradeiro dia foi também o mais devagar em termos de atração, o que caiu bem para as costas e pernas chumbadas. O clima era de sábado, com o maior público dessa edição, culpa do Kanye West.

Hipsterdom is safe, next generation is

Nova geração: os hipsters estão salvos

Delorean
Delorean

O dia começou logo com duas decepções, a mesmice do Menomena e o aguardado Delorean. Com baixo, dois sintetizadores e batera com pad no lugar dos tons, o Delorean focou no “som dançante” e conforme o show foi caminhando, passou a atirar cada vez para mais lados. Falta alguma coisa, a banda ainda é bem crua e falha na unidade.

Nas & Damian Marley
Nas & Damian Marley

Iniciando os trabalhos do hip hop, Wiz Khalifa tentou demais agradar a platéia bem cheia da área principal, mas o pessoal não entrou na dele não. Show de hip hop sem banda é um negócio complicado pra funcionar num festival. MCs e DJs num palcão daqueles fica muito magrinho, some na imensidão.

Pra comprovar a teoria, Nas & Damian Marley vieram logo na sequência, com um bandão e provocaram uma catarse com o projeto que une rap e reggae. Além das músicas originais da dupla, Nas levantou o gramado primeiro, com a sua ”If I ruled the world”, antes de Damian lançar “Welcome To Jamrock” e juntos mandarem “Could You Be Loved” (Bob Marley). Clichê, sem dúvidas, só que funcionou que só vendo.

A despedida do por do sol foi com o Best Coast, num show chato. A vocalista tem uma falsa modéstia irritante para falar de si própria, atestada pela quantidade exagerada de vezes que fez isso, ainda mais no curto tempo do show. O som vira uma espécie de Hole mais lento, o que pode ter certeza, não é um elogio.

O Foster The People fez mais um show chato (escrevendo agora não há duvidas, domingo foi o pior dia), um troço meio brega, querendo ser arena ou sei lá o que. A essa altura, o festival já migrava para Sahara para conferir o Duck Sauce, cuja “Barbara Streisand” foi ouvida cantarolada o dia todo.

Se existe um atalho rumo ao sucesso eletrônico no Coachella ele é o 4×4 com toques de farofa. O Duck Sauce não fugiu a receita, ainda que tenha surpreendentemente regulado a farofinha.

Na hora do jantar, The National de trilha. Hora mais tarde, no aeroporto, o guitarrista Bryce Dessner falou que o show do Rio dificilmente será superado e que havia falado do Queremos para diversas bandas, entre elas o Sufjan Stevens, que gostou muito da ideia. Veja só.

The Strokes
The Strokes

O show do Strokes foi um caso a parte. O cenário simples, seis setas de tecido iluminadas por cores alternadas era simbólico. Com três setas apontando para um lado e três para o outro, era como se representassem forças opostas, puxassem a banda em diferentes direções, tal e qual os recentes relatos da convivência do grupo.

Se isso é o Strokes brigado, está ótimo. Mesmo com as músicas novas funcionando meio mal e a banda meio desconectada e burocrática, o show foi divertido. Julian Casablancas perdeu a linha nos papos com o público (pensamentos em voz alta define melhor) entre as músicas.

Numa viagem “artista artomentado”, zoou o público, Kanye West, Duran Duran, os integrantes e técnicos da própria banda… Não sobrou nada de pé. Lá pelas tantas mandou ”Aê, Kanye depois, hein!”, ao que a galera responde aos gritos de “Ééé!” até ser interrompidos com um “vocês estão de sacanagem? Como ousam?”, de Julian, rindo de si mesmo.

Sentindo-se obrigado a fazer o papel de estrela do rock e atração principal do festival, fazia perguntas idiotas ao público, como “vocês acreditam no amor?”. O deboche parecia mais voltado a própria banda, como se estivessem ali cumprindo uma obrigação. O que, sendo esse o caso, fizeram com qualidade.

Se o Julian chegar no Planeta Terra com metade das piadas do show no Coachella, esse show do Strokes já esta valendo.

Finito
Acabou

Na saideira, deu pra pegar a parte final do Leftfield, de volta e meio fora de prumo, utilizando Theremin e batidas quase techhouse. Quando as músicas antigas tiveram vez, como “Phat Planet”, as coisas iam bem. Fechando a tampa, duas músicas do Presets foram o suficiente.

Um último dia bem morno em termos musicais, porém feliz ao se constatar que o Coachella atual ainda pode ser o Coachella de alguns anos atrás. Agora que o caldo deu uma esfriada, é esperar para ver o que acontece no ano que vem. Abril de 2012 já está pré-reservado para a ida ao deserto.

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Coachella 2011, acertando o passo (parte 3/3)

Zzzzz...
Cansou? Levanta que ainda tem mais!
fotos: URBe (Instagram)
+ no flickr.com/URBeFotos e urbemicro.tumblr.com

O terceiro e derradeiro dia foi também o mais devagar em termos de atração, o que caiu bem para as costas e pernas chumbadas. O clima era de sábado, com o maior público dessa edição, culpa do Kanye West.

Dia 03
Menomena, Delorean, Nas & Damian Marley, Wiz Khalifa, Best Coast, Foster The People, Duck Sauce, The National, The Strokes, Kanye West, Leftfield, The Presets

Hipsterdom is safe, next generation is

Nova geração: os hipsters estão salvos

Delorean
Delorean

O dia começou logo com duas decepções, a mesmice do Menomena e o aguardado Delorean. Com baixo, dois sintetizadores e batera com pad no lugar dos tons, o Delorean focou no “som dançante” e conforme o show foi caminhando, passou a atirar cada vez para mais lados. Falta alguma coisa, a banda ainda é bem crua e falha na unidade.

Nas & Damian Marley
Nas & Damian Marley

Iniciando os trabalhos do hip hop, Wiz Khalifa tentou demais agradar a platéia bem cheia da área principal, mas o pessoal não entrou na dele não. Show de hip hop sem banda é um negócio complicado pra funcionar num festival. MCs e DJs num palcão daqueles fica muito magrinho, some na imensidão.

Pra comprovar a teoria, Nas & Damian Marley vieram logo na sequência, com um bandão e provocaram uma catarse com o projeto que une rap e reggae. Além das músicas originais da dupla, Nas levantou o gramado primeiro, com a sua ”If I ruled the world”, antes de Damian lançar “Welcome To Jamrock” e juntos mandarem “Could You Be Loved” (Bob Marley). Clichê, sem dúvidas, só que funcionou que só vendo.

A despedida do por do sol foi com o Best Coast, num show chato. A vocalista tem uma falsa modéstia irritante para falar de si própria, atestada pela quantidade exagerada de vezes que fez isso, ainda mais no curto tempo do show. O som vira uma espécie de Hole mais lento, o que pode ter certeza, não é um elogio.

O Foster The People fez mais um show chato (escrevendo agora não há duvidas, domingo foi o pior dia), um troço meio brega, querendo ser arena ou sei lá o que. A essa altura, o festival já migrava para Sahara para conferir o Duck Sauce, cuja “Barbara Streisand” foi ouvida cantarolada o dia todo.

Se existe um atalho rumo ao sucesso eletrônico no Coachella ele é o 4×4 com toques de farofa. O Duck Sauce não fugiu a receita, ainda que tenha surpreendentemente regulado a farofinha.

Na hora do jantar, The National de trilha. Hora mais tarde, no aeroporto, o guitarrista Bryce Dessner falou que o show do Rio dificilmente será superado e que havia falado do Queremos para diversas bandas, entre elas o Sufjan Stevens, que gostou muito da ideia. Veja só.

The Strokes
The Strokes

O show do Strokes foi um caso a parte. O cenário simples, seis setas de tecido iluminadas por cores alternadas era simbólico. Com três setas apontando para um lado e três para o outro, era como se representassem forças opostas, puxassem a banda em diferentes direções, tal e qual os recentes relatos da convivência do grupo.

Se isso é o Strokes brigado, está ótimo. Mesmo com as músicas novas funcionando meio mal e a banda meio desconectada e burocrática, o show foi divertido. Julian Casablancas perdeu a linha nos papos com o público (pensamentos em voz alta define melhor) entre as músicas.

Numa viagem “artista artomentado”, zoou o público, Kanye West, Duran Duran, os integrantes e técnicos da própria banda… Não sobrou nada de pé. Lá pelas tantas mandou ”Aê, Kanye depois, hein!”, ao que a galera responde aos gritos de “Ééé!” até ser interrompidos com um “vocês estão de sacanagem? Como ousam?”, de Julian, rindo de si mesmo.

Sentindo-se obrigado a fazer o papel de estrela do rock e atração principal do festival, fazia perguntas idiotas ao público, como “vocês acreditam no amor?”. O deboche parecia mais voltado a própria banda, como se estivessem ali cumprindo uma obrigação. O que, sendo esse o caso, fizeram com qualidade.

Se o Julian chegar no Planeta Terra com metade das piadas do show no Coachella, esse show do Strokes já esta valendo.

Finito
Acabou

Na saideira, deu pra pegar a parte final do Leftfield, de volta e meio fora de prumo, utilizando Theremin e batidas quase techhouse. Quando as músicas antigas tiveram vez, como “Phat Planet”, as coisas iam bem. Fechando a tampa, duas músicas do Presets foram o suficiente.

Um último dia bem morno em termos musicais, porém feliz ao se constatar que o Coachella atual ainda pode ser o Coachella de alguns anos atrás. Agora que o caldo deu uma esfriada, é esperar para ver o que acontece no ano que vem. Abril de 2012 já está pré-reservado para a ida ao deserto.

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Coachella 2011, acertando o passo (parte 2/3)

penas / feathers
fotos: URBe (Instagram)
+ no flickr.com/URBeFotos e urbemicro.tumblr.com

Dormiu, acordou, começou o Coachella de novo. Sol a pino no dia mais quente do festival. Zooey Deschanel deu uma volta pelo gramado e até Paul McCartney passeou pelas tendas – vi o tumulto na área de imprensa e quando disseram que era ele, pensei que era pilha.

Aproveitando que o trânsito estava colaborando, foi dia de chegar cedo, a tempo de pegar o The Twelves na Sahara, a maior das tendas, 13h30.

Dia 02
The Twelves, Bomba Estereo, Here We Go Magic, Foals, Radio Dept, Two Door Cinema Club, Erykah Badu, Broken Social Scene, The Kills, One Day As A Lion, Big Audio Dynamite, Animal Collective, Arcade Fire

The Twelves
12s

No dia anterior, João e Luciano estavam preocupados. Tiveram o laptop roubado na Colômbia e por isso, além de ter que usar com um computador reserva, inferior ao original, teriam que tocar a partir de uma versão mais antiga dos arquivos do seu show.

Fora isso, havia outra nóia: de que tocando tão cedo, não haveria ninguém para assisti-los. Nenhum dos receios se confirmou. O set rolou perfeito no computador substituto e a tenda estava muito cheia, até o fundo. Melhor do que isso, o público embarcou bonito no repertório de remixes de M.I.A., Daft Punk e Black Kids.

Não é fácil sacudir o povo debaixo de um calor insano e de dia. Os niteroienses do The Twelves não apenas conseguiram, como saíram ovacionados, aos gritos de “olê olê, olê olê” (gringolês para “viva sulamericanos”) e gente levantando a bandeira do Brasil. Tarefa cumprida, com louvor.

Sombra

No palco principal, o Bomba Estereo tocava o zaralho para os que estavam aguentando o sol na moleira. No palco menor, o Here We Go Magic fez um show correto e xoxo. A banda embarca num lance sub-Yo La Tengo, sub-su- Wilco, longe do folk com efeitos da ótima “Tunnelvision”, última música do show, em versão mais carregada nas guitarras e esporros.

Logo depois, o líder do Gogol Bordello protagonizou uma das cenas mais feias da história do Coachella. Claramente sabotado, foi obrigado a subir ao palco com uma blusa do Fluminense, para horror do público, sem entender a bizarra combinação de cores, mesmo num show do Gogol.

Do they really?
We Put Out

Foals
Foals

A aposta no Here We Go Magic custou metade do show do Foals, que com apenas metade da apresentação botou muitas outras atrações no bolso. Com suas melodias, bateria quebrada e guitarras fraseadas, o Foals poderia se tornar uma banda de estádio se tivesse mais exposição. O público cantava tudo, fazia coro e batia palma.

Vendo esse tipo de resposta do público ao Foals é a certeza de que todos ali baixam músicas e só conhecem a banda por isso. É uma constatação besta e lógica, porém não se pode perder de vista que ainda há bastante gente que não baixa (por medo, por não saber, por culpa).

O Foals ainda não foi mastigado e digerido pelo grande público talvez por conta disso, por não ter chegado a eles ainda. Se chegasse a mais gente, o sucesso poderia ser proporcional. A questão é: isso é desejado/desejável? No ano passado, com a escalação repleta de bandas do indiestream, foi o pandemônio que foi.

Na tenda menor, Gobi, o Radio Dept. fez um show sonolento, baixo e sem sal. O som estava uma desgraça, como se os integrantes tivessem esquecido cobertores sobre os amplificadores.

Two Door Cinema Club: saudades do @queremos
2DCC

De volta a tenda Mojave, o Two Door Cinema Club teve público e recepção de bandas que tem bem mais estrada com eles. Sem economia,  ”Something Good Can Work” apareceu como terceira música, levantando de vez a plateia. Mesmo sem a mesma pressão do show no Circo Voador, até por conta do tamanho do espaço, deu saudades do verão Queremos.

Eryka Badu
Erykah Badu

Pausa para o almoço, ao som de Erykah Badu. A diva escolheu um repertório um tanto irregular e, ao estourar o tempo, teve o seu som cortado no meio de uma música. Bandão, tudo no lugar, só o horário atrapalhou, e também o palco. Como era dia ainda, em uma das tendas poderia ter dado mais liga.

BSS, "7/4 Shoreline"
Broken Social Scene

A hora mágica, dessa vez no palco grande, foi reservada para o lindo show do Broken Social Scene. Mesmo pra quem não é fã da banda, daqueles de saber todas as músicas, o show foi uma beleza. Difícil era decidir entre assitir ao show ou simplesmente escutá-lo, observando o por do sol e curtindo a tranquilidade do gramado, relaxando e pensando na vida. A segunda opção é um dos grande diferencias do Coachella, um festival que se basta, independente das atrações.

The Kills
The Kills

Já de noite, quase pulei o The Kills, que fazia um show bem bom, até dar a hora de conferir o One Day As A Lion e ser deixado no meio.

One Day As A Lion
One Day As A Lion

Projeto de Zack De La Rocha, vocalista do Rage Against the Machine, o One Day As A Lion é feroz. Acompanhado de um baterista (Jon Theodore, ex-Mars Volta) e dois sintetizadores fazendo os riffs linhas de baixo e porradas de graves, com Zack tocando um deles algumas vezes.

A estrutura das músicas do combo de synth metal lembram as do RATM muito mais nas versões gravadas do que tocadas ao vivo, quando ficaram bem mais barulhentas e pesadas. A frente da tenda virou uma roda de pogo de 45 minutos, com a pancadaria comendo solta e bastante fair play, com os nocauteados sendo levantados pelos participantes.

Em meio as cotoveladas e ombradas, um casal destoava. Ele de blusa branca e calça jeans, ela de vestidão azul meio hippie, curtiam o show da primeira fila, enquanto eram lançados de uma lado para o outro. Deu gosto ver.

Animal Collective
Animal Collective

Embicando para a reta final, o Big Audio Dynamite, com Don Letts pulando e cantando animadaço, divertiu na mesma proporção que o Animal Collective constrangeu. Com iluminação especial da estrutura do palco e telão feito pelo Black Dice, a sequência de ruídos que nunca formavam uma música era de uma pretensão e chatice tão grande que faziam até desejar que o Arcade Fire começasse logo.

Nada contra os canadenses, questão de gosto mesmo. Fora “The Suburbs” e “Ready To Start” – dois musicaços – aquele clima Iron Maiden de “ôôô” que não acabam não é pra mim. A afetação de alguns integrantes, um excesso de uma “garra” forçada, cansam. Ainda assim, o show é inegavelmente bom e vale a pena se assistido nem que apenas pelo espetáculo.

Nesse quesito, o Arcade Fire não decepcionou. Começou com um filme, projeto abaixo de um letreiro de cinema com o nome da banda. Durante o show a briga entre as imagens do telão do palco (do festival, sempre classe) e do telão no palco (do Arcade Fire) foi bem boa.

Perto do final, uma caixa enorme foi içada por um guindaste acima do palco e ficou claro que a prometida surpresa estava próxima. Quando começou a cair bolas e mais bolas brancas lá de cima, pensei que o Arcade Fire fosse conseguir se superar no nível chatice, ao multiplicar por dezenas a pentelhice daquelas bolas que só atrapalham quem quer ver o show.

Que nada. Quando as bolas começaram a piscar e mudar de cor, coordenamente, revelando um sistema remoto de controle dos LEDs embutidos em cada uma delas, a coisa literalmente mudou de figura. Fato que atrapalhou um bocado a visão do palco, porém para quem estava atrás apenas do espetáculo, foi um lindo encerramento.

Assim, o show do Arcade Fire, contra todos os prognósticos URBísticos, entrou no top 5 do Coachella 2011. Isso quer dizer muito de um festival que, mesmo com uma escalação supostamente mais fraca que a do ano anterior, conseguiu superá-lo. O Coachella é mais do que os shows.

A terceira e última parte da resenha pinta logo mais por aqui (a primeira parte está aqui).

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Coachella 2011, acertando o passo (parte 1/3)

Sunset
fotos: URBe (Instagram)
+ no flickr.com/URBeFotos e urbemicro.tumblr.com

O caos do ano passado foi uma visão triste. Filas por toda parte, dificuldade para assistir os shows, gente demais no lugar. Em uma de suas edições de atracões mais quentes (todo mundo estava tocando), o Coachella aparentava ter ficado grande demais. Ficou no ar a questão: valeria a pena voltar em 2011?

Mas… que outro festival do mundo tem esse sol, essa escalação e esse clima tranquilo (mesmo no ano do tumulto)? A praticidade conta e, chegada a hora (e “a hora” é meses antes da data), a esperança de melhora, confiando no histórico do evento, transportaram a mente até o deserto. Como se sabe, a mente decide, o corpo só obedece. Em abril, o destino era Indio.

Checkpoint

Com a proximidade do festival, as notícias eram boas. A organização arrochou a segurança para evitar invasões, aumentou muito a área do evento e redistribui as praças de alimentação, vendeu menos ingressos, diminui os convites, o credenciamento de imprensa e instituiu um controle mais rigoroso na entrada, com pulseiras com chips. Com a importância que tem hoje, o Coachella não poderia mais mesmo liberar entrada com ingresssos impressos em casa.

vista aérea / airview

A grande diferença em relação a 2010 foi a própria escalação. Num consciente passo atrás, o Coachella deu uma segurada no tamanho das atrações, ou na quantidade de nomes muito grandes. O que foi visto por alguns como enfraquecimento, provou-se uma decisão acertada. Era necessário esfriar as coisas um pouco.

ants / formigas

Quem já foi sabe, não adianta ler a lista de mais de 100 atrações e achar que conseguirá assistir tudo. frustração certa. No Coachella existem diversos caminhos e, uma vez escolhido o seu, é melhor esquecer todo o resto.

Como uma das coisas mais legais é a oportunidade de assistir justamente os shows menores, mais difíceis de se ver em outros lugares ou mesmo em casa, os medalhões não fizeram tanta falta. E olha que tinha bastante gente grande.

Foi muito bom ver o festival retomar o seu espírito inicial. Muita gente atrás de música boa, bem menos pessoas na badalação e a oportunidade de se poder assistir tranquilamente tudo que se escolhesse. Abaixo, um remix da cobertura por twiter, agora com bem mais do que 140 caracteres, que fiz das minhas escolhas (sem revisão, depois faço adendos, links e acerto os eventuais erros).

Dia 01
Black Joe Lewis & The Honeybears, Brant Brauer Frick, The Drums, Odd Future, Warpaint, Tame Impala, Lauryn Hill, Sleigh Bells, Black Keys, Kings of Leon, Emicida

A saga de três dias começou com o Black Joe Lewis & The Honeybears, pegando bem mais pesado do que o groove de sua música mais conhecida, “I’m Broke”. Com uma metaleira funk, o que se destacava mesmo eram os riffs de guitarra, fugindo das expectativas. Saindo de lá, ainda deu tempo de conferir o finalzinho do Brant Brauer Frick, filhotes de Kraftwerk tocando eletrônica.

The Drums
The Drums

Primeira atração mais conhecida do dia, o The Drums confirmou a fama de ruim de palco, com um show bem morno, apesar da força que o vocalista faz para emular Ian Curtis. O som brilha demais ao vivo, perdendo um pouco da introspecção. Ruim não é, só não empolga.

O que prometia empolgar era a polêmica molecada do Odd Future. Nomes da vez do hip hop (ao menos o undergrond), estava numa marra sem tamanho antes antes mesmo do show começar. Com 10 minutos de atraso (gigantesco para pontualidade do Coachella), xingando o técnico de som, entraram com um sub-grave chacoalhando a tenda aos gritos de “Wolf Gang! Wolf Gang!”.

O cenário estava promissor, não fosse o fato de não haver uma banda no palco (não que se esperasse uma) e a correria para pegar o Warpaint do começo. Quem também atrasou foi o Cee-lo Green, tendo tempo de cantar apenas quatro músicas antes do som ser cortado e sair sob reclamações do público.

Warpaint
Warpaint

O do Warpaint arrastou bastante gente para o palco aberto menor e fez valer a pena, com o primeiro bom show do Coachella. As harmonias vocais, com camadas de guitarras ao fundo, fazem delas um Fleet Foxes  indie, com momentos delicados, hora lembrando The xx,  hora o Explosions In The Sky.

Fez muito sentido uma banda só de mulheres no festival com um público de maioria feminina. É praticamente um desfile. Falando na mulherada, ia fazer vários vídeos com elas resenhando os show, chamaria “Hot Chicks Review Coachella”, com grande potenciarl viral. A preguiça não deixou.

Tame Impala. Showzão!
Tame Impala

O pôr-do-sol é o momento mágico do Coachella e o shows escolhidos para essa hora nos palcos ao ar livre são sempre especiais. Os do palco menor, mais aconchegante e melhor posicionado para o visual, costumam ser os melhores.

Não por acaso, foi justamente nessa hora e local que o Tame Impala fez o melhor show do festival.  Falar em mistura de rock setentistas (Led Zeppellin, Floyd, Beatles, Cream, King Crimson) faz soar pouco inspirado, quase óbvio. O diferencial é o que os australianos adicionam.

Como se todas as influências passassem obrigatoriamente por um filtro pós-stoner (não esqueçamos que os garotos tem 20 e poucos anos, os anos 70 estão lá atrás), as guitarras se arrastas, enquanto o baixista olha para a bateria com um faminto para um prato de comida, mantendo o encaixe perfeito, e o vocal voando em efeitos pelo ar seco.

A chapação psicodélica debaixo do sol desértico foi uma experiência e tanto. Não poderia haver lugar melhor.

Duck Sauce
Sleigh Bells

Pausa para o almoço ao som da Lauryn Hill, bem disposta e com um bandão, mandando “Ready Or Not” e outros sucessos dos Fugees, antes de conferir o Sleigh Bells.

Ao vivo, a podridão da dupla faz muito mais sentido do que em disco. Com apenas a vocalista e um guitarrista em frente a uma parede de amplificadores Marshall, não sei qual dos dois soltando as bases eletrônicas, o Sleigh Bells abriu logo entregando as referências, ao som de “Iron Man” (Black Sabbath).

A blusa da cantora era uma réplica da 23 do Jordan no Chicago Bulls, com o nome da banda no lugar do jogador, dava mais senhas. Os anos 90 se (re)aproximam e o Sleigh Bells consegue ser ao mesmo tempo metal, hip hop e Miami bass, lembrando em vários momentos o NIN ou um Prodigy  mais lento.

Prontinha pra estourar, até um hit mais calminho eles tem, uma fofurinha na onda de “Paper Planes” (M.I.A.) que não encontrei ainda pra escutar outra vez. Esse troço no Brasil ia ser bom demais.

No palco principal, o Black Keys fez um show correto, bastante prejudicado pelo som, baixo e falhando. O problema se repetiu em outros shows por ali, algo fora do normal para o Coachella.

KoL
KoL

De banda que mal sabia passar de uma música pra outra, a banda grande (com “super” telão, horrorendo, com todos os efeitos que o operador pudesse encontrar), fechando uma noite do Coachella, foi um longo caminho, no qual o Kings of Leon perdeu bastante do que a fazia interessante.

“Vamos tocar coisa antigas, estamos cansados das novas”, disse Caleb Followill, para melhorar as coisas. Assim, o show foi bem mais legal do que poderia ter sido e ainda acendeu a esperança de que o caminho poser atual possa estar com os dias contados. Quem sabe, com os bolsos cheios, talvez eles mesmos queiram retomar o caminho anterior.

Emicida
Emicida

Depois dos problemas com o visto, Emicida teve dor de cabeça na imigração, perdeu a conexão para Los Angeles em Atlanta, se atrasou e perdeu o horário do próprio show. Na hora marcada, a tarde, um DJ botava som na tenda Oasis.

Remarcado para as 23h30, a apresentação foi para uma dezena de testemunhas. Fora do horário – na realidade tocando num horário em que a tenda já deveria estar fechada – visivelmente incomodado com a situação, Emicida tocou para quase ninguém. Uma pena.

Fechando a noite, o Chemical Brothers atrasou mais de meia-hora (muitos atrasos, como se vê) e não deu pra esperar. Tinha mais dois dias da maratona pela frente e era preciso descansar. No caminho para o carro deu pra ouvir “Star Guitar”, alto pra cacete, uma belezura que só.

Daqui a pouco, a parte 2.

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Seu Jorge sem Jorge, as Almaz da Nação e o pop

Bater pênalti parece mole, mas além de também ser gol, precisa de técnica. Com o projeto de versões Almaz, Seu Jorge dá mostras (mais uma vez) do quanto ele domina o que faz, não apenas nos aspectos artísticos. Sabe identificar os desejos do seu público antes mesmo dele próprio e não tem pudor nenhum em entregar o que a galera quer. O Circo Voador com 3 mil pessoas no sábado comprova.

Ruim seria um resultado impossível. Além da presença do próprio Seu Jorge, ao se fazer acompanhar por Lucio Maia, Dengue, Pupillo e Da Lua – a Nação Zumbi quase inteira, com direito a um salve a Du Peixe pelo empréstimo – até “Atirei O Pau No Gato” soaria sensacional. Ao vivo, a banda dá um banho no disco.

Como um Mark Ronson da Zona Sul carioca, o repertório cuidadosamente escolhido equilibra o cool e o popular, canções manjadas ou alternativas, dependendo a quem se pergunta: Kraftwerk (“The Model”), Tim Maia (“Cristina”), Michael Jackson (“Rock With You”), Roy Ayers (“Everybody Loves The Sunshine”), Jorge Ben (“Errare Humanus Est”), etc.

A grande sacada é justamente oferecer sons que fazem a “massa” se sentir “por dentro” ao reconhecê-las, ao mesmo tempo que são aprovadas pelos “entendidos”. O sucesso da Orquestra Imperial ou do Los Sebosos Postizos passa pelo mesmo caminho. A tal “cultura do DJ” também é isso aí.

A seleção eclética do Almaz é espelho de um artista que fagocita tudo que o interessa – a pose do Fela, a pegada do Gil, o apelo do Michael, o suinge do Ben – e devolve um resultado essencialmente pop. O objetivo é tão claro, desde os tempos do Farofa Carioca, que espanta a patrulha em cima do Seu Jorge.

A constante cobrança para que tome caminhos mais “cabeça” (e tomes aspas hoje, hein) muitas vezes vem de pessoas que reverenciam os mesmos ídolos pop de quem Seu Jorge pega emprestado. Esperar qualquer outra coisa é ignorar a trajetória do artista que promete lançar um disco de “Músicas Para Churrasco Vol. 1″ ao mesmo tempo que diz que vai tocar com Roy Ayers no próximo festival Back2Black, ficou conhecido mundialmente no cinema, põe o Akon pra sambar no Jools Holland, o Alexandre Pires para sambalançar ou arrasa, com Ana Carolina, a música de Damien Rice (essa também não era difícil).

As críticas vem mesmo quando Seu Jorge busca o tal cabecismo, a sua maneira, tentando “educar” o “grande público” com um projeto como Almaz. Perto do final do show, após introduzir a banda e antes de emendar em “Mas Que Nada” (Jorge Ben), ele se apresenta: “eu sou Jorge Mario da Silva, de Belford Roxo para todo o planeta, geral!”.

Seu Jorge está pouco se importando com quem o critica. Faz bem ele. Ninguém é obrigado a ouvir o que ele toca.

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LCD no Rio: O início do fim


vídeo: Daniel Ferro
fotos: Esper, Schlaepfer (I Hate Flash) Ramon Moreira

Abrindo a útlima turnê brasileira do LCD Soundsystem, o show do Rio foi também o primeiro desde que James Murphy anunciou que a banda vai acabar em abril, com um show de despedida no Madison Square Garden. O início do fim.

Quando soube os detalhes da mobilização que trouxe a banda ao Rio, via Queremos, pouco antes do show, James Murphy pirou. Fez questão de agradecer o público no palco, topou gravar o vídeo, liberou a filmagem de algumas músicas e todo o resto que só acontece quando o artista está muito a vontade.

Mesmo com a importância da banda e da noite, vai saber porque o Vivo Rio encheu, mas não abarrotou, para assistir o adeus do LCD. Foram quase 2 mil pessoas, mas ainda assim deveria ter tido muito mais gente.

Quem foi viu um show pra lá de especial. Enxuto, sim, foram 14 músicas e nenhum bis, sem cumprir as prometidas 2h15 de duração, porém ainda assim, muito especial. Até o som, sempre um problema por conta da acústica da casa, estava bom, embora estivesse baixo para evitar as conhecidas reverberações assassinas do local.

O show começou com as mais calmas e foi crescendo, de “Dance Yrself Clean” a “Home”, replicando o que acontece individualmente nas próprias músicas do LCD, sempre ladeira acima, até terminar numa guinada para baixo, com a balada deprê “NY I Love You”.

A banda saiu do palco e não voltou mais, mesmo com a gritaria do público. Ninguém entendeu nada e, quando a banda foi tentar voltar pra atender os pedidos, o palco já estava  desmontado.

Com o show terminado, o simpático James Murphy explicou o “não bis”, dizendo que realmente não tinha mais nada ensaiado pra tocar (se a volta tivesse dado certo, teria sido pra um improviso), porque para ele, esse tipo de bis armado, em que se guarda algumas músicas pra tocar depois de sair do palco, não fazia sentido.

Enquanto preparava um café expresso na sua máquina portátil, continuou a explicação, falando que o bis era um bom exemplo pra ilustrar a decisão pelo fim do LCD. Segundo ele, o objetivo nunca foi se tornar uma banda grande e, nesse momento, o LCD estaria a um passo inevitável disso se continuasse. A obrigação de um bis falso é o que acontece quando se fica grande demais.

Murphy ainda falou da matemática por trás da decisão, explicando que da decisão de fazer um novo disco até o final da respectiva turnê, estamos falando de dois ou três anos. Aos 41 anos, Murphy disse que quer fazer planos a curto prazo, de 3 ou 4 meses, e de que precisa de tempo para, entre outras coisas, poder ser pai.

Difícil contra-argumentar. Se antes mesmo de um hipotético quarto disco o pensamento já é esse, melhor mesmo nem começar. Além do que, banda boa termina, preferencialmente no auge. E depois volta. O que não vale é ficar se arrastando no palco, repetindo velhas formas. Uma banda influente como LCD não mereceria isso.

Focando no seu selo, o DFA Records, Murphy falou sobre uma festa fixa anual por essas bandas. Não seria nada mal. Como se pode ver, até falando em descansar, o líder do LCD pensa em novos projetos. O LCD pode parar, porém ele dificilmente vai conseguir ficar quieto. Pode esperar.


Dois set lists diferentes, o que valeu foi o fora de foco, acima na foto

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