OEsquema

Arquivo: Resenhas

Bem ranqueado

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fotos: Ines Laborim

Inteirão. Aos 47 anos, foi assim que o veterano toaster Ranking Joe se mostrou na apresentação no Teatro Odisséia, lotado mesmo com a forte chuva que despencou o dia inteiro.

Obviamente, como não podia deixar de ser, a atração principal pisou o palco tarde bagaralho, depois das 2h da matina. Ao menos, enquanto o Ranking Joe não entrava, a diversão estava boa. Black Alien cavalgou as bases colocadas por MPC, do Digitaldubs, totalmente a vontade no formato deejay + selectah.

“Police in helicopter”, de John Holt e outras pedradas foram enfileiradas pelo Mr. Niterói, o MC mais versátil de sua geração. Black Alien poderia (e deveria) ser um gigante nas rádios (e TVs) que tocam música — o que hoje em dia, infelizmente, não é um pleonasmo — se dependesse apenas de seu talento. Infelizmente, só isso não basta.

Rimando até quando falava com o público, Black Alien humildemente agradeceu aos elogios de Christiano Dubmaster, que o chamou de mestre, dizendo que ele é quem estava tendo uma aula, “pra não ficar em recuperação e poder ir pra Cabo Frio no verão”. A platéia estava quente para receber Ranking Joe.

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Vestindo uma camisa estampada com um tigre e uma calça de oncinha, o Bionic Deejay abriu a apresentação perguntando “People are you ready?”, respondido por um “pow! oh lord!”, como na música do Tappa Zukie.

Havia algo de “errado” com os graves do Teatro Odisséia. Ao contrário da magreza usual que se escuta nos shows de reggae na casa, as sub-frequências apertavam o peito e fazia tremer a garrafa de cerveja na mão. MPC, soltando as bases para o jamaicano, fazia a festa.

Hoje vivendo na Inglaterra (onde costuma cantar no Blood & Fire Sound System), Ranking Joe arrancou os primeiros gritos quando citou “Promised land”, do Aswad, seguida de “Marcus Garvey”, do Burning Spear. Nem “Trechtown rock”, de Bob Marley, empolgou tanto, o que deve ser um sinal de amadurecimento da cena local.

Apesar das muitas referência a músicas conhecidas, (“No, no, no”, Dawn Penn; “CB 200″, Dillinger; “The message”; Grandmaster Flash; “Ali baba”; John Holt), o discípulo de U-Roy improvisou a maior parte do tempo, acelerando a fala e usando seus característicos gritos de “woaaah!” para pontuar.

Dizendo estar se sentindo na Jamaica, Joe flutuou sobre riddims de rub-a-dub, típicos da virada dos anos 70 para os 80, chamado por Ranking Joe de “o verdadeiro dancehall”, como também é chamada a música jamaicana desse período, antes do termo se tornar sinônimo de reggae eletrônico.

Sem preconceitos, o deejay também versou sobre bases eletrônicas steppers inglês. Como curiosidade, poderia ter havido uma menção a sua bombástica versão de “Time”, do Pink Floyd, presente no discão “Dub Side of the Moon”.

Não fez falta. Ranking Joe sobrou.

colaborou: o enciclopédico Chicodub. consulte.

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TIM Fest 2006

Cobertura encerrada. Confira abaixo textos, fotos e vídeos dos três dias do festival.

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Dia 1 (27/10)

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DAFT PUNK: não teve pra ninguém
foto: Joca Vidal

A apreensão se provou desnecessária. A mudança de local, até agora, só fez bem para o TIM Fest. Ao contrário do MAM, onde o ambiente entre as tendas era espremido e um tanto claustrofóbico na área dos bares, a Marina da Glória é espaçosa e deu um ar realmente de festival para evento.

Como numa cidade do interior, tudo acontece ao redor de uma praça central, na verdade um pufe gigante. As tendas estão mais próximas uma das outras, facilitando o acesso. Dizem que o palco de jazz, finalmente, não sofreu com interferências de ruídos externos. Entretanto, a dificuldade para comprar bebidas e comidas, com filas gigantescas e confusão nos balcões, persiste.

Principal atração do festival, os franceses do Daft Punk arrastaram uma pequena multidão. A vontade era tanta que muita gente foi pra lá mesmo sem ingresso, na esperança de conseguir dar um jeito de entrar.

Com uma hora de atraso, a dupla iniciou o show e provou que toda a espera era justificada. Do momento em que Thomas Bangalter e Guy Manuel Homem-Christo, vestidos de robôs e ao som do tema de “Contatos imediatos do terceiro grau”, subiram na pirâmide e tocaram “Robot rock” até a hora que desceram, o que se viu foi uma catarse coletiva.

O repertório foi idêntico ao que tem sido tocado no resto da turnê, com as mesmas colagens e na mesma ordem. Músicas dos três discos são divididas de maneira igual pelo set, na maior parte das vezes aparecendo misturadas uma as outras, como mash ups (“One more time” + “Aerodynamic”, “Face to face” + “Harder, better, faster, stronger”) e indo e voltando ao longo da apresentação (“Too long”, “Technologic”).

Logicamente, sucessos como “One more time”, “Around the world” e “Da funk” tiveram recepção mais calorosa, mas o que chapou a tenda mesmo foi a psicodelia luminosa do cenário. Cada virada de luz, cada mudança de padrão ou pisco da pirâmide era saudada com urros. Pessoas gritando para luzes, presta atenção nisso.

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Bright side of the moon?
fotos: Sergio Valle

Depois de discos perfeitos, como “Homework”, o Daft Punk conseguiu atingir a perfeição também no quesito “música eletrônica ao vivo”. Apesar das justas comparações com o Kraftwerk, o que está sendo feito nessa turnê nunca foi visto antes. Daqui a muitos anos, esses shows serão lembrados como um marco. O “Dark side of the moon” dessa geração.

Teve gente desconfiando de playback, algo dito em relações a outros nomes da eletrônica ao longo do tempo. O que essa acusação pode ter de verdadeira, tem também de equivocada. Shows de música eletrônica geralmente são feitos utilizando bases pré-gravadas, não é nenhum segredo. O bacana é ouvir essas bases serem manipuladas ao vivo, criando algo novo. Interpretar um estilo (eletrônica) seguindo parâmetros de outro (rock) é que não faz o menor sentido.

A dupla passeia por todos os estilos, do house ao rock, passando pelo techno, breaks e electro. Na sequência de “Television rules the nation”, antes de emendar em “Too long”, rola uma dubzeira, no melhor estilo Leftfield, utilizando elementos desacelerados de “Harder, better, faster, stronger”. Classe.

Com a providencial utilização do “método resistro de invasão de camarins”, os robôs receberam uma carta-convite para participar do “Dub Echoes” e parece que, após dois anos tentando, agora vai. Mais um.

No encerramento, com “Human after all”, os telões que cobrem as faces da pirâmide exibiram, pela primeira vez na apresentação, imagens reais, de rostos humanos. Os robôs, derretidos, se despediram mandando beijos pra platéia.

Nas rodas de conversa pós-show, um consenso: uma hora e quinze minutos de Daft Punk é muito pouco. E é mesmo.

Perdeu? Só se foi pelo salgadíssimo preço do ingresso, não por falta de aviso. Contente-se com a íntegra do show do Coachella 2006, editado por um psicopata que catou trechos da apresentação pela internet até juntar os 75 minutos em um só vídeo.

Dia 2 (28/10)

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YYY
foto: Mariana Vitarelli

A segunda noite do TIM Fest começou pontualmente as 23h no palco principal. O Mombojó foi a primeira banda da noite, tocando para uma platéia ansiosa para assistir Patti Smith e Yeah Yeah Yeahs, o que não era exatamente uma tarefa simples.

Recifolia

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MOMBOJÓ
foto: Mariana Vitarelli

Nesse contexto, as quebras de andamento, balanço e sutilezas de músicas como “Merda”, “Fatalmente” ou “Pára-quedas” não despertava maiores reações, ainda que o público da tenda (que foi ficando mais cheia ao longo do show) estivesse acompanhando com atenção.

O tamanho do palco, grande, não foi obstáculo, mesmo que a formação de cena, com alguns integrantes permanecendo sentados o tempo todo, dê uma atravancada e isole o vocalista Felipe S no centro das atenções.

Demonstrando o amadurecimento que só a estrada traz, o Mombojó foi dominando a platéia aos poucos e, mais importante, sem afobação. Quando chegaram as guitarras pesadas de “Realismo convincente” e da infalível “Deixe-se acreditar”, no final do show, o trabalho estava feito.

TV no palco

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TVOTR
foto: resistro

No palco Lab, logo depois, o TV on the Radio induziu o público a um transe coletivo, com camadas de guitarra viajandonas e muita simpatia. Falando em português, o saxofonista e flautista Martin Perna, vestindo uma blusa onde se lia “Eu coração Iraque”, conquistou a platéia com suas muitas explicações sobre tudo que acontecia no palco.

A companhia aérea extraviou a bagagem da banda e o TVOTR teve que tocar com equipamentos emprestados pelo Thievery Corporation. Isso certamente atrapalhou um bocado, vide algumas panes na guitarra da de David Andrew Sitek, mas não comprometeu o show.

Despretenciosos, o carismático vocalista Tunde Adebimpe, o guitarrista Kyp Malone (com uma impagável camiseta rosa-choque, apertada), o baixista Gerard Smith e o baterista Jaleel Bunton seguiram em frente e enfileiraram favoritas da casa como “Starring at the sun”, “Wolf like me” e Ambulance”.

Sim, sim, sim

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YYY: Karen O
foto: Mariana Vitarelli

De volta ao palco principal, o show do Yeah Yeah Yeahs, como já se sabia, pode ser resumido em um nome: Karen O.

A voz rasgada, os berros estridentes e o gestual exagerado cantora (maquiada e vestida com roupas coloridas, além de máscara e capa) deixa para o baterista com pinta de nerd Brian Chase e pro guitarrista Nick Zinner apenas o papel de meros coadjuvantes, responsáveis por sonorizar as loucuras da moça.

A entrada da banda no palco, sem frescuras, indicava o que estava por vir. Ao vivo, o som cru do YYY sai mais sujo, áspero. Antes de tocar músicas dos seus dois discos oficiais, o trio — que conta com um quarto integrante como músico de apoio se alternando entre o baixo e um sintetizador — foi esquentando devagar, com músicas de seus EPs e algumas improvisações.

Uma vez quentes, o YYY disparou “Phenomena”, “Black tongue”, “Gold lion”, “Honey bear”, as excelentes” Cheated hearts” (em versão bem diferente do disco, com um teclado pontuando a música inteira e Karen O ameaçando um strip), “Maps” e “Turn into”.

A platéia, repleta de meninas com figurinos inspirados em Karen, entrou na onda, jogando calcinha no palco e respondendo a qualquer provocação da cantora, que se jogava no chão e fazia poses. Faltou apenas “Way out”, que inexplicavelmente ficou de fora.

Trapaceando?

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THIEVERY CORPORATION
foto: Mariana Vitarelli

Encerrando o palco Lab, os americanos do Thievery Corporation finalmente fizeram seu show por essas terras. Fãs de música brasileira, influenciados pela própria e com uma legião de seguidores por aqui, Rob Garza e Eric Hilton estavam devendo a visita faz tempo.

A primeira parte do show foi dedicada ao que dupla sabe fazer melhor, que é misturar batidas e blips eletrônicos com a pressão dos graves da música jamaicana, o tal do downtempo.

Acompanhados por dois bons MCs jamaicanos, Roots e Zee, Rob pilotou teclados e samplers enquanto Eric ficou responsável pelos toca-discos. Os graves saiam com força do PA, apertando a garganta de quem estava perto do palco.

O lance ficava esquisito quando o BPM subia. Nessa hora, o Thievery Corporation abandonava o minimalismo do dub e pecava justamente pelo excesso. O exagero de elementos no palco (metais, dois sets de percussão, guitarra, baixo, cítara…) congestionava o som, em alguns momentos beirando a fanfarronice.

Nesse quesito, a cantora brasileira Karina Zeviani foi responsável por momentos constrangedores. Fazendo os vocais em português (originalmente gravados por Bebel Gilberto em algumas faixas), a ex-modelo convocava o público com frases do naipe de “vamos fazer barulho” ou “vamos tomar whisky”.

Sem se incomodar com nada disso, a tenda chacoalhou sem parar. Faixas com a outra vocalista cantando em francês, “Lebanese blonde” e “Le mond” caíram bem.

Pra sorte de quem acompanha o Thievery Corporation desde o começo, a presença constante dos rastas MCs puxava o som pro lado certo, garantindo momentos memoráveis nas crássicas “.38.45 (A Thievery Number)” e “The richest man in Babylon”.

Dia 3 (29/10)

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SHADOW E LATEEF: em direção à luz
fotos: Joca Vidal

Convidado de última hora, Caetano Veloso teve que se contentar com o apagar das luzes do palco Lab. As principais atrações da última noite do TIM Fest estavam na tenda ao lado, com escalação dedicada ao hip hop branco do Instituto, DJ Shadow e Beastie Boys.

A exemplo do ano passado, encerrar o festival num domingo, com shows começando tarde — 23h no caso do TIM Stage — não funciona muito bem. A perspectiva da segunda-feira vindoura traz uma certa melancolia de final de festa. Nos tempos em que a largada era numa quinta, a estréia também precedia um dia de trabalho, porém a o final de semana estava logo ali.

Brazucas

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INSTITUTO

Fugindo do tradicional (e normalmente monótono) formato DJ + MC, o Instituto abriu e foi muito bem recebido. A parte instrumental dos paulistas continua excelente. A groovezeira formada por teclado rhodes, guitarras, bateria, percussão, DJ e linhas de baixo com forte influência do bom reggae acerta o tempo todo.

Apesar de um “iô iô” aqui e acolá, o grupo sabe misturar hip hop, música jamaicana e elementos da música brasileira. Some a isso a presença dos MCs Kamal e Funk Buia e o Instituto confirma o título de melhor apresentação de hip hop do Brasil.

Fugindo das sombras

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SHADOW

Responsável por um dos mais cultuados discos da história do hip hop, o fundamental “Endtroducing” (primeiro disco feito totalmente apenas com samples), o californiano Josh Davis é mais conhecido como DJ Shadow.

Suas produções sombrias e atmosféricas, majoritariamente instrumentais, sempre justificaram o nome, assim como a fama de fazer som cabeçudo. Após seu segundo disco, “The private press”, Shadow deve ter se cansado de ser visto como “difícil” e das muitas cópias que vieram no seu encalço. Seu terceiro disco, “The Outsider”, com uma sonoridade mais comercial, mudou o rumo das coisas.

Em sua primeira apresentação no Brasil, Shadow, exatamente como faz no DVD “In tune and on time”, começou falando com a platéia e contando o que pretendia fazer. Conhecido por suas performances bombásticas de turntablism, mesmo utilizando dois toca-discos, CD-J, MPC e laptop, o DJ chamou a atenção foi com outro aparelho, seu DVJ.

A vitrola de imagens comandava as ações no telão caprichado, colocado atrás de Shadow. O áudio e vídeo perfeitamente sincronizados pela maquininha (possivelmente usando bases pré-gravadas para isso) geraram momentos que impressionaram, mesmo após a avalanche visual promovida pelo Daft Punk dois dias antes.

Enquanto a calminha “Six days” era acompanhada por projeções de bombardeios, “Enuff” e seu sample de violão contou com a participação do rapper Lateef (Quannun, Solesides) ao vivo e também no telão, em poses bem presepeiras.

Com o clipe da música ao fundo, uma animação, Lateef cantou “Mashin’ on the motorway” e interagiu com a platéia em “The number song”, pedindo gritos de “break it down”.

As levadas mais comerciais das músicas do terceiro disco, com uma pegada dirty south e mais próximas do que está fazendo sucesso nos EUA hoje em dia, podem até servir para levantar o público, no entanto soam como contra-senso na trajetória de Shadow.

Obviamente, ele tem o direito de fazer o que quiser, mas é no mínimo estranho notar Shadow, que sempre nadou contra-corrente, com essa preoucapação. Muito melhor é ouvir “Organ donor” e seu pianinho frenético.

Essa nova fase de Shadow tem o lado positivo de ter tornado o DJ mais eclético. Indo além do hip hop, ele solta alguns pancadões estilo Miami bass (o novo samba dos DJs que querem agradar a rapaziada carioca) e brinca de rock, com guitarras nas alturas.

Pra garantir, o final com “Midnight in a perfect world” veio pra consolar os saudosistas que não se convenceram com o bom set.

BB

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BEASTIES: Três MC e um DJ

Depois de passar a tarde fantasiados de “Men in Black” filmando em Super 8 pelo Rio para um projeto que não se sabe qual é, os Beastie Boys entraram em cena vestindo os mesmos ternos pretos e óculos escuros com o qual desfilaram a tarde.

Após a introdução avassaladora do DJ Mix Master Mike , definindo o nível da performance que iria se repetir ao longo do show, os três nova-iorquinos invadiram o palco ao som de “Root down” e “Sure shot”, ambas difíceis de ouvir tamanha era a gritaria.

Mike D, Ad Rock e MCA tem história o suficiente para se apresentar como quiserem e ainda assim fazer sentido, seja como banda, como rappers ou o que for. Mesmo assim, a opção pela formação tradicional de DJ + MCs privilegia os fãs de carteirinha (como tem que ser), satisfeitos em simplesmente poder ver os ídolos colocando suas vozes sobre bases e cantar junto.

Para quem acompanha a banda com alguma distância, o formato pode tornar a experiência um pouco repetitiva. A questão é: quem naquela tenda não era fã? Provavelmente, os que não eram, se tornaram. E os que não se tornaram, ficaram até o fim, admirados com a recepção que os Beastie Boys tiveram, sem dúvida, a mais calorosa do festival.

Entre elogios ao Rio e perguntas sobre quem tinha vindo de São Paulo (arrancando um urro estrondoso de quase metade do público, formado por paulistas), o grupo citou o obrigatório BB Lanches e seu suco predileto, o abacaxi com hortelã, confundindo o nome das frutas e chamando de abacate.

No melhor estilo hip hop de samplear, as iniciais do letreiro, que são uma homenagem a Brigitte Bardot rapidamente se tornaram Beastie Boys nas fotos que o produtor Mario Caldato tirou do trio, vestido com os mesmos ternos do show, para uma capa não se sabe do que.

Ao longo do set, Mix Master Mike introduziu alguns elementos de banghra e samples de “Move your body” (Nina Sky) nas bases. Na reta final, “Intergalactic”, “Brass monkey” (em estilo pancadão), “Body moving” e “No sleep ’till Brooklyn” sacudiram, literalmente, o chão.

Aquele admirador que ficou até o fim não deve ter se decepcionado quando os panos pretos que (mal) escondiam os instrumentos foram retirados. Sem direito a bis, uma “Sabotage” esporrenta fechou a tampa e as atividades do palco principal.

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Zumbis

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foto: Joca Vidal

O Hurtmold está se especializando em fazer shows em situações bizarras no Rio. Depois da apresentação de derreter os ossos na Audio Rebel, ano passado, ontem foi a vez da Estação Leopoldina.

Uma combinação de fatores fez com que o lugar não estivesse cheio. Além do fato da banda ter tocado por aqui há menos de um mês (no Centro Cultural Telemar, dentro do projeto Multiplicidade), a distância do local do show e o dia da semana também não ajudaram. Os que ainda assim resolveram ir, tiveram que aguardar até meia-noite pra finalmente ouvir o Hurtmold.

Confirmando o que é quase uma regra quando se trata do sexteto, valeu a pena esperar. Logo na abertura, uma música nova, um reggae devidamente entortado, mostrou, para os que não conheciam, o que é o tal do pós-rock.

A soma de percussão, linhas de baixo chapantes, a quebradeira da bateria de Maurício Takara, vibrafone, escaleta e bases eletrônicas não falha. Os temas instrumentais espaciais, cheios de detalhes, pontuados por guitarras pesadas fizeram o público viajar sem sair da estação de trem a céu aberto, onde acontecia o show.

O Hurtmold enfileirou músicas dos discos “Cozido” e “Mestro”. Tocaram a própria “Mestro”, “Amarelo é vermelho”, “Telê” (essa do split com a banda The Eternals) e mais duas músicas novas, ainda sem nome, que devem entrar no próximo disco da banda, previsto para março de 2007.

A banda não é de falar muito além do tradicional “nós somos o Hurtmold, de São Paulo”. Envergonhado pelo resultado das eleições em seu Estado, Guilherme Granado (vibrafone, escaleta e bases eletrônicas) resolveu ir além e citar esse fato.

O silêncio que se seguiu deixou uma dúvida. Não deu pra saber se era reflexo de uma alienação da platéia ou o simples resultado da hipnose provocada pelo som.

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3 anos, a festa


3 anos, o vídeo: toscamente gravado com uma câmera fotográfica
digital. No escuro.

Já é uma tradição. No dia da festa de aniversário do URBe, cai um temporal, bate o desespero “ih, não vai ninguém!” e, no final, dá certo. Na comemoração dos 3 anos, mais uma vez, foi exatamente assim.

Com um atraso de quase seis meses, finalmente a festa saiu do papel. Depois do susto com a chuva, as coisas entraram nos eixos e cerca de 400 pessoas foram ao 00 se acabar até as 4h e pouca da manhã.

As 23h, quando o Cooper Cobras começou a tocar, ainda havia pouco público. Azar de quem chegou tarde.

O power trio provou que não se passa anos ouvindo Fu Manchu, Karma to Burn e outros ícones do stoner rock impunemente e mostrou músicas contaminadas pelo estilo, como “Até o fim do show”, “Primeiro lugar” e “Pequenas tragédias”. A performance energética do grupo, que sem fazer força vai chamando cada vez mai atenção, com direito a subidas no bumbo e dancinhas, garante a diversão.

Como bom anfitrião, fiz as honras da casa e botei som depois do show. Enrolado com a produção da festa e Sem tempo pra separar músicas, levei uma pá de CD-Rs véios e embolei New Order, Mr. Catra, Ellen Allien, Les Rythmes Digitales, João Brasil, Madonna e Daft Punk. No final, consegui entregar a pista cheia para o próximo DJ.

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Segura o “lainâp”

O lugar já estava bem cheio quando Rogério Flausino assumiu as carrapetas. Fazendo um set de house e tocando praticamente só vinis, o mineiro arrancou gritos de empolgação da galera. Além, claro, de comentários elogiosos de alguns incrédulos que diziam “ué, mas é muito bom!”.

Entre remixes da DFA — para “Deceptacon” (Le Tigre) e “Dare” (Gorillaz) — e discos da Antipop, Flausino manteve a pista lotada e passou a bola, redondinha, para Nego Moçambique.

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Matias e o Comitê Presença 2006

Enquanto o o bicho pegava do lado de dentro, do lado de fora o comitê de candidatura do Capitão Presença a presença angariava votos para causa. Sob o comando do criador e da criatura, houve farta distribuição do material de campanha e os bottons foram bastante disputados.

Finalizando seu aguardado segundo disco no estúdio do Dudu Marote, Nego Moçambique contou que a masterização está marcada para dia 28 de setembro. Será que agora, depois de muitos atrasos, realmente sai? “Reza a lenda”, brincou o próprio.

Enquanto a bolacha não vem, Nego tocou várias músicas novas nessa apresentação. Coisas tão novas que nem no disco estarão, pra desespero do dono da sua gravadora, Daniel Di Salvo, alucinado justamente por essas produções.

Com equipamento novo — substituiu todos os periféricos que utilizava por uma MPC 4000 — Nego, mais uma vez, arregaçou. Dançou, cantou, pulou e fez pular durante mais de uma hora de breaks, grooves e colagens insanas demais pra explicar. A galera se acabou na pista e isso é o que importa.

Durante a troca de equipamentos para entrada do live do Bass Comando, levemente complicada, Alexandre Matias aproveitaria o horário de pico para adiantar alguns dos mash ups que prometeu.

Não deu certo. Devido a uma creca inexplicável no sistema de som, os graves sumiram, os agudos alfinetaram com força e não houve mais jeito de tocar CDs. Uma pena, pois pelo pouco que chegou a tocar, deu pra ver que a seleção prometia.

Chato mesmo é a sede irrefreável por ser VIP nessa cidade. A quantidade de gente que me pediu pra liberar a cartela (o que não fiz nenhuma vez, pois todo o dinheiro do caixa é utilizado pra pagar os artistas) foi inacreditável.

A entrada custava uma merreca, R$10, valor com o qual não se assiste nem mesmo uma apresentação do Mulato Zimbábue, quanto mais uma escalação caprichada como a dessa festa. Não dá pra entender mesmo.

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O fervo

Fechando a tampa, o Bass Comando confirmou as origens (John Woo é integrante do Apavoramento) e aterrorizou o 00 com suas experimentações com baixas frequências e MCs sacanas.

Do hino do Flamengo a “Melô do gaitero”, todas as coisas graves tiveram vez. Eram 4 horas da manhã quando o grupo encerrou os trabalhos e constatou que havia entornado todo seu cachê. E em plena quarta-feira, ainda tinha gente querendo dançar, mas a festa tinha acabado.

O lance é guardar a vontade pro ano que vem. A festa de 4 anos pode ser maior ainda.

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* Agradecimentos especiais à Lontra Music, parceira desde a festa de 2 anos e a Segundo Mundo.

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Nos trilhos

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fotos: Joca Vidal

Depois de tocar em Brasília e São Paulo, o Zion Train fez a parada final da turnê brasileira no Rio, no Teatro Odisséia.

O evento estava marcado para as 21h, com aviso na filipeta de que os shows começariam as 23h. Privilegiando os que chegam tarde, era quase 1h da manhã quando a primeira atração da noite, Digitaldubs, subiu ao palco. Isso em pleno domingo, porque desrespeito pouco é bobagem.

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Digitaldubs e Ras Bernardo

O DD apresentou o seu “dub show”. Esse é o mesmo formato responsável por algumas das melhores atuações do grupo (no Humaitá pra Peixe ou abrindo para o Mad Professor, no Circo Voador, ambas em 2005), com Nelson Meirelles tocando baixo, MPC comandando os efeito e pouca gritaria dos MCs convidados.

O bom repertório de linhas de baixo e efeitos, as participações econômicas dos cantores e a prioridade dada a sonoridades acachapantes em vez da estridência do dancehall, fez o DD sacudir os presentes como se fossem a atração principal. É inexplicável esse não ser o show padrão deles.

Logo em seguida, foi a vez do produtor Neil Perch e do MC Dubdadda, mostrar a força do som do Zion Train para platéia carioca. Sem o acompanhamento da banda e dos vocais com o qual a banda excursiona pela Europa, coube a dupla representar o grupo inglês.

Com pouco equipamento — apenas um laptop, uma mesa de som e dois periféricos de efeito — Perch preferiu uma calmaria antes de espancar o público com graves nunca antes ouvidos no Teatro Odisséia. Suando pacas, Dubdadda tinha apenas o microfone pra falar de política, amor, sobre o Brasil e agitar o público. Era o suficiente

Sem tocar músicas dos seus discos, apenas improvisações ao vivo, Perch foi aumentando a pressão aos poucos. Do dub chapadão passou para as misturas com o house que fizeram a fama do Zion Train.

O bpm continou subindo, atingindo seu melhor momento no terço final do show, quando a batida steppers (marcada por uma levada militar, típica do dub inglês) finalmente surgiu. Cristiano Dubmaster, do DD, ainda fez uma participação especial.

Horas antes, Neil Perch deu entrevista e liberou a filmagem do show para utilização no documentário “Dub Echoes“, que, se demora a sair, fica cada vez mais rico em imagens e depoimentos.

No final, um drum n bass violento, com sample de “War in a Babylon” (Max Romeo, produzida por Lee Perry), encerrou a festa, com promessa de retorno do Zion Train. É esperar pra ver.

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Os opostos se atraem em SP


Franz Ferdinand: “This fire” (vídeo: Lúcio Ribeiro)

Quando a produção de um evento sequer responde ao pedido de credenciamento, pode apostar que não vem algo muito organizado pela frente. Com o Motomix, nesse final de semana em São Paulo, não foi diferente. Como aliás, já não havia sido a edição carioca, em 2005.

Devido a falta de um alvará do Espaço das Américas, local dos shows, na sexta-feira o Motomix chegou a ser cancelado pela Prefeitura. Até as 14h de sábado, dia do evento, ainda não se sabia o que iria acontecer, apesar do saite informar que as 13h haveria um comunicado oficial.

Horas depois definiu-se que a programação original seria mantida, com todas as apresentações acontecendo no Espaço das Américas no próprio sábado. Mais tarde, nova mudança, dessa vez definitiva. As atrações foram divididas entre sábado e domingo, a primeira noite priorizando o rock e a segunda a eletrônica.

Como consequência, bastante gente que viajou apenas para assistir o evento, gastou dinheiro com ingressos, passagens e hotel, não pôde assistir metade do que estava programado. A solução? O que ouvi de um dos envolvidos na produção dantesca foi um “que pena”. E só.

Por sorte, restou a boa música.

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Chico Buarque
foto: divulgação/Patrícia Cecatti

Antes do Motomix, Chico Buarque no Tom Brasil, porque até essa turnê chegar ao Rio, falta um bocado. A temporada de “Carioca” em São Paulo está em sua terceira semana de casa lotada e a banda, já quente (Wilson das Neves virando nos pratos e o escambau), se prepara pra gravação do DVD.

Além das músicas do novo disco, Chico revisita seu repertório (“João e Maria”, “Futuros amantes”, “Bye, bye Brasil”, “Quem te viu, quem te vê”), algumas tocadas por ele pela primeira vez ao vivo.

O público se mantém sentado e em silêncio, respeitoso, o máximo de tempo possível. Na segunda metade do show, Chico se levanta e essa é a deixa pro pessoal começar a se soltar, terminando com a casa toda em pé. Clássico.

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Franz

O Franz Ferdinand, encerrando sua turnê mundial, deu aos paulistas um gostinho do que o Rio havia visto no Circo Voador, no início do ano. Se não teve o mesmo clima intimista, obviamente por se tratar de um lugar muito maior, a energia da banda estava bem parecida.

“Do you want to” foi a primeira música a levantar a platéia e “Take me out” fez o estrago de sempre. A temperatura foi subindo gradativamente durante a apresentação. Em “Outsiders”, integrantes do Radio 4, a DJ Annie e outros participaram tocando bateria com Paul Thomson e em peças avulsas do instrumento.

No encerramento, com “This fire”, o vocalista Alex Kapranos, sem camisa, incorporou Jim Morrison e balbuciava as letras como um poema, enquanto o teclado era entregue para galera destroçar e a bateria destruída no palco, como há muito tempo não via. Sensacional.

O show foi gravado para um especial da MTV que, se for feito com as mesmas imagens em preto e branco e documentais exibidas no telão, será um belo programa.

Aos nova-iorquinos do Radio 4 coube a ingrate tarefa de suceder o FF no palco. Não deu. Enquanto o vocalista forçava um patético sotaque britânico e o percussionista enganava (mal) nos atabaques, o baixo sofria distorções bizarras que só podia ser algum defeito, não estilo, porque sempre tentava-se corrigir.

Soando como pastiche do The Clash (com direito até a uma incursão sarapa pelo dub, com cara de Sublime), a banda renegou o sucesso que nunca veio e não tocou sua única música conhecida, “Party crashers”. O show fraco serviu de requiém do festival, já que a maior parte do público resolveu ir embora.

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Modeselektor

Os alemães do Modeselektor conseguiram, as 5h da manhã, fazer os presentes quicarem ao som do seu gélido dancehall robótico. Os graves vinham com força e a quebradeira também, enfeitados pelo telão bacana do grupo.

Uns 40 minutos depois, o som caminhou para um tech-house pesado, o produtor que estava com uma camisa da Underground Resistance ficou só de camiseta e a coisa toda deu uma certa farofada. Tudo certo, já era hora de ir pra casa.

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Recompondo

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Reavivendo os arquivos do blogue, as resenhas dos shows do Chemical Brothers no Creamfields e no Pacaembu.

Aquecimento para o Daft Punk. (Hein!?).

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XLR8R, Agosto 2006

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Resenha da coletânea “Made in Brasil que escrevi para revista XLR8R.

The recent baile funk fever might lead to the conclusion that that’s all Brazilian music has to offer. Nothing could be further from the truth, and that‘s what WordSound’s head scout Skiz Fernando found out when he spent a couple of months in Rio. Remember that this is Brasil with an “s,” and all types of the country’s music are pushed forward. The swinging acoustic guitar on BNegão’s “No Hay,” Dom Negrone’s mix of hip-hop and samba (“O Povo Que Vibra”), Mamelo Sound System riding the Stalag riddim on the dub-hop “Liri Sista,” and Digitaldubs’ mixture of dancehall and Afro drums on “Arrego” all add up to future visits to the favela from Diplo and friends.

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Diabólico

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Embora o Brasil faça fronteira com quase todos os países da América do Sul, a língua ainda é uma barreira cultural quando o assunto é música. Apesar da proximidade, pouco se ouve do que está sendo produzido por nuestros hermanos.

Certa vez, em visita ao lendário programa de rádio roNca roNca, BNegão falou de uma banda da Venezuela que ele havia conhecido durante uma turnê pela Europa. Chamava-se Desorden Público.

O MC contou que ficou envergonhado quando conheceu os integrantes do Desorden Público. Não apenas porque a banda tem 18 anos de estrada pela América Latina, mas também porque eles já conheciam seu trabalho com os Seletores de Frequência.

Aos poucos, ainda bem, a distância vai diminuindo. Há alguns anos, a MTV tentou fazer essa ponte, através de programas como “Hermanos” e “Tordesilhas”. Em 2006, o lançamento nacional (via Radiola Records) do sexto disco dos venezuelanos, “Diablo”, pode ser visto como indicativo de que as pontas começam a se tocar.

A mistura de ska, cumbia, salsa, punk, dub, percussões, metais e boas letras do Desorden Público não fica devendo a expoentes do chamado “rock latino”, como Ozomatli ou Café Tacuba.

Até mesmo o exagero de direções apontadas no disco, que causa uma certa falta de unidade entre as músicas, acaba servindo como atrativo, ilustrando a amplitude sonora da banda. Escutar belezuras como “Maldad en tu corazón” ou “La primera piedra” confirmam o velho ditado: antes tarde do que nunca.

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Europa em 3 tempos

Nem só de Copa é feita uma passagem pela Europa. É lógico que não. Entre um jogo e outro, deu pra assistir alguns shows e sets. Pena que não deu pra conferir tudo que estava rolando no período. Nunca dá mesmo.

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Berlim, 16 de junho

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Chico
foto: divulgação

Há oito anos sem lançar disco e mais ou menos o mesmo tempo sem fazer shows, Chico Buarque aceitou o convite pra participar da Copa da Cultura, evento paralelo à Copa do Mundo, quebrando o jejum.

Os ingressos, vendidos a € 5, evaporaram da bilheteria, deixando na vontade muitos brasileiros expatriatos, doidos pra matar a saudade da terrinha. Do lado de fora, cambistas vendiam a entrada por € 50. Considerando a qualidade sonora da Casa das Culturas do Mundo e o evento em questão, local da apresentação, continuava barato.

Mart’nália abriu a noite, mostrando músicas do seu mais recente disco, “Menino do Rio”, além de clássicos como “Estácio, holy Estácio” (Luiz Melodia) e de suas parcerias com Zélia Duncan e Ana Carolina. A banda, privilegiando os elementos percussivos, agradou bastante os alemães, arrancando aplausos e tentativas de sambar.

Chico começou o show, apropriadamente, com “Voltei a cantar” e aproveitou pra mostrar o repertório do disco novo, “Carioca”, esquentando pra turnê que vem por aí. O samba “O futebol”, claro, também foi incluído.

A platéia, respeitosa, permaneceu em silêncio, mesmo em músicas conhecidas, como “Futuros amantes” ou “Morro dois irmãos”, como se aproveitasse ao máximo o momento. No final, em “Quem te viu, quem te vê”, o público se soltou e começou a cantar.

Chico saiu do palco sob aplausos, mas teve que voltar. Cantou “Vai passar”, junto com Mart’nália, e saiu novamente e teve que voltar outra vez, agora com “João e Maria”.

O público insistiu por mais um bis, mas foi a derradeira música do show. Não interessa quantos bis houvesse, nunca seria o suficiente.

Amsterdã, 24 de junho

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Paradiso

A Paradiso é uma espécie de Cine Íris que deu certo. Localizada dentro de uma antiga igreja, é (junto com o Melkweg) uma das principais boate/casa de shows da Holanda, onde — se não me falha a memória — Chico Science & Nação Zumbi tocaram quando estiveram no país.

O Pressure Drop Sound System tomava conta da pista principal. Influenciado por todas vertentes do reggae, inclusive as mais modernas, os ingleses tocaram acompanhados por uma boa dupla de MCs, Mista Melody & Rider Shafique.

O dub porrada comeu solto a noite toda, passeando pelo jungle e pelo breakbeat. E tome versões de “Milkshake” (Kelis), “Ring the alarm” (Tenor Saw) e mais meia dúzia de músicas no Stalag Riddim, além de músicas próprias, num set tão poderoso quanto animado.

Paris, 29 de junho

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Alice Russell

Paris não é mais a boemia que foi um dia. Após meia-noite é difícil encontrar bares abertos, um lugar pra comer ou mesmo pegar um táxi (na verdade, isso é difícil a qualquer hora do dia). Pegunta daqui, pergunta dali e chega-se à boate Rex.

Parada obrigatória de nomes importantes da eletrônica — Laurent Garnier, Miss Kittin e vários outros batem ponto por ali quando estão na cidade luz — a data era de uma festa entitulada “Carta branca para Alice Russell”. A soul woman inglesa teve a noite toda pra fazer o que quisesse.

Nome em ascensão do nu-soul, Alice Russell, lançou seu segundo disco, “My favourite letters”, no final de 2005. Antes desse já havia chamado atenção na cena com a estréia “Under the Munka moon” e pelas participações em projetos como The Quantic Soul Orquestra (e viva o Google, porque, antes disso, nunca tinha ouvido falar da cantora).

Ainda que suas músicas adicionem elementos como hip hop e eletrônica ao soul, é difícil imaginá-las funcionando numa pista de dança. A questão foi resolvida. Acompanhada por TM Juke (parceiro do selo Tru Thoughts) nos toca-discos, turbinando as bases, Alice Russel incarnou uma espécie de Jamie Lidell de saias, empolgando a pequena platéia.

E justo quando se pensava que não havia mais versão nenhuma a se fazer de “Seven nation army”, do White Stripes, Alice canta a música sobre uma base um tanto mais sombria, composta por duas guitarras minimalistas, bateria e metais (como registrada em um EP do Nostalgia 77).

Boa surpresa.

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Ela voltou

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foto: Dávila Pontes/divulgação

Terça-feira, o Los Hermanos comemorou o show de número 500 da carreira. Foi festa pra poucos, apenas 2 mil ingressos, 2/3 da capacidade total do Circo Voador, foram colocados à venda. Prática, aliás, que poderia se tornar praxe. Mais do que isso é um exagero, que faz bastante gente não conseguir sequer ouvir o show, como foi o caso da Nação Zumbi, na sexta passada.

Os fãs, claro, compareceram, afinal faz tempo que o LH não toca pra um público tão “pequeno” no Rio. A arena e as arquibancadas abarrotadas, universitários em sua maioria, berrando as letras, parece emular o clima dos festivais da canção. Ou pelo menos, pela faixa etária, a descrição que se conhece desses festivais.

Quem vai a um show do Los Hermanos hoje, sai de casa com essa idéia na cabeça: “vou cantar todas as letras, bem alto”. Essa catarse coletiva passou a fazer parte do espetáculo, tanto é que a banda deixa espaços e mais espaços nas letras, virando o microfone para frente para o público completar.

Além do vocal, fica difícil também ouvir os detalhes das músicas, mesmo num show para um público reduzido. É muito bom pra banda, imagina-se. Mas é também uma pena pra quem gostaria de ouvir o Los Hermanos, e não o seu público, tocando.

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Depois de um show que enfileirou as músicas do “4″ e mais algumas de “Ventura” e do “Bloco do eu sozinho”, a surpresa veio no bis. “Anna Julia”, a canção-chiclete que catapultou a carreira dos Hermanos e que raramente é tocada, abriu a parte final da apresentação.

O LH é criticado por alguns, dizendo que a banda nega seu maior sucesso. A verdade não é bem essa. Foi uma estratégia, uma maneira de não desgastar a banda ao ponto de ninguém mais ter paciência ou boa vontade de escutar o que quer que viesse depois de “Anna Julia”.

De vez em quanto a música aparecia em shows, geralmente no interior do país. De uns tempos pra cá, como indica as listagens no saite da banda, tem tido presença mais frequente no repertório. Ótimo, “Anna Julia” é muito boa, transcendeu estilos e foi regravada até por grupos de axé e sertanejo.

As férias forçadas parecem ter dado certo. Ao invés de insuportável, “Anna Julia” virou motivo de orgulho para os fãs. Como se fosse sinônimo de apresentação em que a banda está realmente à vontade, os celulares não pararam: “tá tocando Anna Julia!”.

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Finalmente


No camarim do Circo, Mombojó fala do show no Rio

Dois anos e cerca de seis shows depois, o Mombojó finalmente chegou ao Rio de Janeiro. No show de sexta-feira, no Circo Voador, os recifenses tiveram a recepção mais calorosa do público carioca desde o lançamento de “Nadadenovo”.

A confusa fila de entrada fez bastante gente perder o ínicio do show. O motivo do tumulto, de certa maneira, é positivo: a apresentação começou as 23h30, cedo para os padrões do Circo e do Rio de maneira geral, pegando de surpresa o pessoal que tomava cerveja do lado de fora e os que deixaram pra chegar mais tarde. Fica a lição para os atrasildos e a esperança de que a moda de seguir os horários pegue.

Por ter começado mais cedo do que se esperava, o Mombojó tocou para um Circo bem cheio, mas não abarrotado, como ficaria durante o show da Nação. Foi melhor assim. Mais tarde, cheio além da conta, parte do público ficou impossibilitada de assistir ao show. Teria sido uma pena perder o Mombojó também.

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O reino da alegria

A quantidade de pessoas no Circo tão “cedo” era mostra de que aquele era público do Mombojó, não apenas seguidores da Nação dispostos a conferir a atração de abertura. Isso se confirmou através dos coros da platéia, principalmente durante as músicas do primeiro disco, como “Faaca”, “A missa” e, claro, “Deixe-se acreditar” e seu refrão “esse é reino da alegriaaaaa”.

O vocalista Felipe S, um dos únicos de pé no palco (dos sete integrantes, quatro tocam sentados), regia o público. Mesmo assim, as músicas do recém-lançado “Homem-espuma” foram mais observadas do que cantadas pelos fãs.

Em “Tempo de carne e osso”, Felipe convidou a cantora Céu — que esteve na passagem de som, à tarde — para repetir o dueto do disco, mas ela inexplicavelmente não compareceu e o cantor teve que levar a música sozinho.

Apesar da gafe, o momento serviu para mostrar o quanto a voz de Felipe se desenvolveu. Não apenas ele está cantando melhor, como utiliza o microfone com mais eficácia. E não é só ele, a banda toda evoluiu, algo que as próprias músicas do “Homem-espuma” denunciam e que ficou comprovado ao vivo.

A guitarra baixa prejudicou a pancada de algumas canções. Ainda assim, “Saborosa”, “Fatalmente”, “Novo prazer”, “Pára-quedas” e outras novas soaram tão bem quanto gravadas.

Se o ótimo segundo disco era boa notícia o suficiente, a boa atuação ao vivo soprou pra longe qualquer dúvida que eventualmente ainda pudesse existir em relação à banda.

Está mais certo do que nunca, o Mombojó veio pra ficar.

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Soltando bolhas

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Bate-estaca e marreta são alguns dos termos nada elogiosos utilizados para descrever o techno. Muitas vezes é verdade mesmo, princpalmente no “sub-gênero” téquinôu, praticamente sinônimo de eletrônica entre fanfarrões e que serve bem pra descrever toda e qualquer farofada digital.

Ainda que aqui o techno esteja diluído e infiltrado por diversas influências, o excelente “Orchestra of bubbles” é um belo cala-a-boca para os que gostam de música eletrônica e ainda tem preconceito com o gênero.

Depois de remixarem um ao outro, Ellen Allien, dona do selo BPitch Control, e Apparat, cabeça do Shitkatapult (esse nome é fantástico) decidiram se juntar para produzir em conjunto. Deu certo.

O techno minimalista de Ellen Allien (que impressiona desde antes do seu último disco solo, “Thrills”) misturou-se as ambientações e entortadas de Apparat, conhecido por suas produções IDM (Inteligent Dance Music, ô sigla…). O resultado é uma espécie de deep techno, um 4×4 menos massante e mais viajandão.

É, de certa maneira, um techno mais acessível que o normal e isso não é pejorativo. Pra curtir sozinho, de fone de ouvido ou pra dançar pequenininho, sem grandes explosões. As músicas nunca estouram, pelo menos não com a força que se costuma ver nas pistas.

É tudo sútil, uma virada, um break, a entrada de um elemento novo. Do dubstep/dancehall abaixo de zero em “Metric”, passando pela quebradeira em “Do not break”, pelo chill out “Edison”, até as pancadas de “Jet” e “Turbo dreams”, tem música pra todos os gostos. Até pra quem não gosta de techno.

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¡Arriba!


Rapture: “W.A.Y.U.H.”

A primeira edição do Nokia Trends no México começou bem. No último sábado, The Rapture, Kasabian, Art Brut e No Somos Machos tocaram na capital, para um público de aproximadamente 3.500 pessoas (a maioria convidados, apenas mil ingressos foram postos a venda, cota mínima exigida pelo Kasabian).

Os show aconteceram num galpão, num bairro chamado La Condesa. O lugar é conhecido como o Soho mexicano e está em alta entre os jovens atualmente, pela grande concentração de bares e restaurantes e eventos culturais.

O Art Brut abriu a noite, ainda cedo, umas 21h, quando o lugar ainda começava a encher. Tidos como grande revelação, a banda não fez juz a fama. O som estava tão ruim que causou apreensão sobre como seria o resto da noite. Mais tarde, quando as outras atrações subiram no palco, com bom som, ficaria claro que o problema era mesmo com o Art Brut.

O vocalista é carismático e o resto dos integrantes tem boa presença de palco, mas isso não é suficiente. Não é meramente uma questão técnica, algumas vezes isso não importa. As letras são bobas, a voz do cantor não existe (ele fala, não canta), falta pressão e entrosamento entre os músicos.

O êxito dos reality shows pode servir pra explicar o sucesso de grupos como o Art Brut. A empatia gerada no público ao ver uma pessoa “normal” na televisão é a chave para a boa audiência desses programas. Mesmo para quem não está participando do programa, a televisão deixa de ser um lugar inatingível, aproximando-se do telespectador.

Seguindo esse raciocínio, com a música acontece algo similar. É como se o fato daquele camarada que não sabe cantar, numa banda que não consegue nem passar o som, estar viajando o mundo, significasse que o palco não é um lugar tão distante. Talvez, seja melhor que continue sendo.


Kasabian: “Reason is treason”

Há sete meses sem fazer shows, dedicados exlusivamente a terminar seu segundo disco — “Empire”, novamente produzido por Jim Abiss e que chega as lojas em setembro — os ingelses entraram em cena com vontade de tirar o atraso. O show foi dividido em duas partes, primeiro as músicas com pegada mais rock e depois as voltadas pra pista.

“Club foot”, “Processed beats”, “Reason is treason” e “L.S.F.”, hits do primeiro disco, se juntaram a inéditas, tocadas pela primeira vez em público. Ao vivo, a mistura de Primal Scream, Chemical Brothers, Happy Mondays e Stone Roses e Oasis funciona tão bem quanto no disco, com a vantagem da energia da banda valorizar algumas músicas.


Rapture: música nova

O Kasabian esquentou, mas a noite era do Rapture. A banda também se prepara para lançar o segundo disco, um dos lançamentos mais aguardados do ano, e não se apresentava há um tempo. Os mexicanos se espremeram no pequeno espaço para assistir os nova-iorquinos.

“Sister saviour”, “Echoes”, “Olio” e o encerramento com a música que catapultou a banda para o sucesso, “House of jealous lovers”, serviram pra matar saudades do show deles no Brasil, em 2003. O melhor mesmo foi a quantidade de músicas novas que foram tocadas, umas cinco.

De acordo com Luke Jenner (voz e guitarra), o baixista Mattie Safer canta em cerca de metade do disco, ainda sem nome. No show deu pra perceber que os vocais estão menos gritados, ameaçando até algumas harmonizações entre os dois cantores.

Os boatos de que Danger Mouse, que produziu o último Gorillas e é metade do Gnarls Barkley, comandou as gravações é quase verdade. Na realidade, ele produziu apenas duas faixas, o restante ficou por conta da dupla Paul Epworth (Bloc Party) e Ewan Pearson.

A apresentação foi toda filmada por um cara que está seguindo todos os passos da banda; na coletiva de imprensa, no hotel e no palco. Empolgado, Jenner pulou no meio do público e o Rapture parece ter gostado da recepção as novidades.

Eram umas 2h20 quando a dupla No Somos Macho começou a tocar. Nem deu tempo de sacar qual é a deles. As 3h os copos de tequila com refrigerante sumiram do bar, as luzes acenderam e a música parou. No México, parece, a festa acaba cedo.

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Spin, Maio/2006

Resenha escrita para revista norte-americana Spin.

Wordsound apresenta Made in Brasil
words: Bruno Natal

The result of a two-month research trip to Rio de Janeiro, made by Wordsound’s front man, Skiz Fernando, this compilation gives you a honest glimpse at Brazil’s underground scene. Beyond baile funk music, it shows other genres being produced in the country, from hip hop to reggae and ambient rock, all tied together by street talents that you are unlikely to hear anywhere else, like a preview of what is yet to come.

Tracks:
Maquinado – “Sutura”
BNegão – “Seletores de frequência”

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XLR8R, Maio 2006

Resenha do disco “Sauna: um, dois, três”, do São Paulo Underground, que escrevi para revista XLR8R.

Rob Mazurek (Chicago Underground Duo/Trio, Isotope 217) teams up with Brazilian drummer/trumpeter/programmer Mauricio Takara (from the jazzy instrumental rock band Hurtmold) for this noisy, experimental project. The title track doesn’t divulge the duo’s post-rock leanings, but they’re slightly hinted at on the “Afrobeat-fueled Afrihouse” and “Pombaral,” telling pieces of this landscape soundtrack that translate the sounds of the tumultuous metropolis into music.

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Transbordou

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LCD Sound System
foto: divulgação (Cláudia Assef/Felício Marmo)

O Skol Beats vai caminhando rumo a conquista do título de “maior festival de música eletrônica do mundo” (tamanho é documento?), custe o que custar. A sétima edição do principal evento de música eletrônica do Brasil sofreu com o excesso de público no Anhembi, o exagero de 57 mil pessoas, numa noite gelada de São Paulo. Ainda bem que a boa música, apesar de tudo, continua conseguindo dominar as atenções.

Ficou difícil circular. Não bastasse as grandes distâncias entre o palco e as tendas, não estava fácil atraveassar a massa humana, compacta em toda parte, tornando impossível um simples passeio e desanimando quem queria assistir mais atrações. O empurra-empurra na hora do show do Prodigy foi tão grande que, segundo relatos, lotou o pronto socorro e foi descrito por alguns frequentadores como “um dos piores momentos da vida”.

A organização do evento precisa tomar uma decisão urgente: ou segue o exemplo do Coachella e diminui a lotação, proporcionando conforto pra quem está do lado de dentro ou; melhor ainda, muda de lugar. Com a força que o Skol Beats tem hoje em dia, a mudança para um lugar mais aprazível — como uma fazenda no interior, grama no chão — provavelmente não abalaria o que já se tornou uma verdadeira peregrinação anual dos amantes da música eletrônica de todo país.

Tocando num horário ingrato (21h30), quando grande parte do público ainda está começando a chegar, Tiga fez um set honesto na tenda The End. Misturando breaks, electro, remixes de Bloc Party (Banquet”) e LCD Soundsystem (“Tribulations”), o maior desafio do canadense foi vencer o som baixo.

Enquanto isso, no trio Pepsi “Eletric” (assim mesmo, faltando a letra “c” do inglês electric; o “o” de eletrio ou o acento agudo de elétrico), o DJ Marlboro, depois de rodar o mundo 35 vezes, finalmente ganhava sua chance de mostrar a música eletrônica genuinamente brasileira no Skol Beats.

Foi um sucesso. Como foi bem observado por um amigo, os sorrisos e animação das pessoas — dançando e rebolando, com direito a um “chão, chão, chão” — contrastava com o visual geralmente posudo da cena eletrônica. Marlboro foi na certa e disparou hit atrás de hit: “Elas estão descontroladas”, “Malha funk”, Tati Quebra-Barraco (“fama de putona só porque como teu macho”) e o sucesso do verão, “Se ela dança, eu danço”, do MC Leozinho. Isso tudo com o trio em movimento e milhares de pessoas seguindo. Sensacional.

Perto do final da apresentação de Marlboro, o LCD Soundsystem de preparava pra entrar em cena, praticamente obrigando parte do público a abandonar o trio. Antes dos americanos, Gil Barbara fez um bom set.

A banda de James Murphy, uma das atrações mais aguardadas do evento, começou morna e demorou um pouco pra empolgar. Bastou a sequência matadora de “Daft Punk is playing in my house”, “Tribulations” e, um pouco depois, “Yeah” para mudar o cenário.

O bom vocal e presença de palco (e atuação na percussão) de Murphy ajudaram bastante o LCD, que acabou sim conquistando o público, embora este ainda fosse pequeno. O show teve também “Beat connection” e “Losing my edge”.

Garantindo-se no sucesso de um passado nem tão distante, o grande nome do Skol Beats 2006 era mesmo o Prodigy. Entre o show deles e do LCD, o DJ Vitor Lima tocou e agradou com um remix bacana de “Dani California”, do Red Hot Chilli Peppers.

O Prodigy entrou avassalador e não demorou nada para tocar hits como “Breathe” e “Firestarter”. Enquanto o grupo tocava, o público, crescente, continuavam tentando entrar na arena do palco, causando confusão e transtornos. Enquanto isso, do lado esquerdo do palco, onde ninguém conseguia chegar, estava tudo calmo.

Após um tempo, as batidas se tornaram um pouco repetitivas e cansaram. A falta de variações justifica, talvez, o motivodo Prodigy ter sumido do mapa. Pra resolver, mais sucessos.

“Smack my bitch up” arrancou o povo do chão e o encerramento com “Out of space”, com o sample de “Chase de devil” (pérola produzida por Lee Perry eternizada na voz de Max Romeo) sendo cantado por todos, foi melhor do que se esperava. Pra acalmar a galera, depois do show tocou “Love is in the air”, do Paul Young.

O Cansei de Ser Sexy, acompanhado por Camilo Rocha, fechou a tampa do trio Eletric, fazendo um show de verdade, com bateria, baixo e guitarra. Os destaques foram o sucesso underground “Super afim” e a versão rock de “Sexy boy”, do Air.

Depois da decepção de 2005, o Skol Beats reconquista sua credibilidade musical com uma boa edição. Resta agora, resolver questões organizacionais.

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Lua dub


Easy Star All Stars: “Time”

O conjunto Easy Star All Stars, responsável pela versão inna dub style do clássico do Pink Floyd “Dark Side of the Moon”, apareceu pelo Brasil para uma série de apresentações do disco “Dub Side of the Moon”. O roteiro incluiu Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte.

A tarefa era complicada; transpor para o palco as delicadas camadas do disco e repetir ao vivo o que deu tão certo quando foi gravado: transformar psicodelia rock em psicodelia reggae. O MC talvez tenha tido a missão mais ingrata, ao ter que refazer vocais que no disco são cantados por nomes como Ranking Joe.

A banda afiada deu conta direitinho. Começando com um aquecimento de umas cinco músicas próprias antes de entrar no repertório do disco — que foi tocado na ordem — o Easy Star All Stars adiantou a versão interessante de “Climb up the walls”, do Radiohead, que vai estar na próxima experiência do grupo, a releitura de “Ok Computer”, chamada “Radiodread”. Agora é esperar o disco sair pra ouvir o resto.

A Via Funchal não lotou, mas ficou cheia, na noite que também teve apresentações do DubVersão e do Firebug, com participação de BNegão dando um sabão no D2. O público cantou junto em várias músicas, como “Time” e “Us & them”.

Faltou mais pressão no grave da casa (como já havia acontecido no show do Massive Attack, em 2004), porém nada que estragasse a noite. Só a oportunidade de ver uma boa banda de reggae passando longe do óbvio “tributo a Bob Marley”, coisa difícil de acontecer por aqui, já valeu o ingresso.

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Joca Vidal conta como foi o show no Rio:

O lado dub do Rio

Que o evento ia ficar cheio, ninguém duvidava. Só não dava pra imaginar que ia ficaria lotado. O próprio pessoal do Circo Voador estava na dúvida se iria “bombar” mesmo, afinal muita coisa estava em jogo naquele dia, principalmente custos. Devem estar sorrindo até agora.

Como de costume aqui na Cidade Maravilhosa, o público foi chegando bem aos poucos. 1 da manhã e metade do Circo tinha acabado de ser preenchida. A outra metade, só 1 hora depois, quando a banda entrou no palco.

Antes deles, o coletivo Sound System Attack começou a tocar por volta das 23h. Escalados para serem a primeira atração, o Digitaldubs se recusou a entrar no palco e preferiu deixar rolando o novo disco de Lucas Santtana, integrante do Sensorial Sistema de Som (ao lado de David Cole).

O Sensorial abriu oficialmente os trabalhos, seguido pelo Sozales Dub. O pessoal ia chegando e aos poucos uma pista ia surgindo. Chico Dub fez o seu set, privilegiando a mistura de dub com eletrônica e tocando nomes como Roots Manuva.

Quando o Urcasônica entrou, já tinha um pessoal atento as batidas do dub/dancehall, até mesmo porque eles levaram as suas “Uh-tererês Queens” para dançarem no palco enquanto discotecavam. Quando o set do Urca acabou o Digitaldubs entrou e começou uma combination entre todos os sounds, cada um tocando uma música. Foi nessa vibe que chegaram os integrantes do Easy Star All Stars.

Ovacionados assim que entraram no palco, o Easy Star All Stars demorarou para mandar os petardos de “Dub Side Of The Moon”. Antes da primeira música do disco, foram apresentados vários sons do selo do Easy Star, como “Fighting”.

45 minutos depois e o público já estava tenso. Aos primeiros acordes de “Time” o Circo veio abaixo! O sorriso nos rostos das pessoas (e dos músicos) era cintilante. Um clima de misticismo misturado com uma pressão que vinha de todos os lados era responsável pelo momento mágico que todos esperavam.

“The Great Gig In The Sky”, “Money” e “Us And Them” adaptaram o som clássico do Pink Floyd à modernidade da emergente cena dub carioca. Mas não foi só isso: o Easy Star ainda manteve a vibe com clássicos como “World a Reggae” (de Ini Kamoze, inspirador de “Welcome To Jamrock”, clássico contemporâneo), “Climbing Up The Walls”, do Radiohead e “Steppin’ Out” (o riddim, instrumental). Duas horas depois o público já se dava por satisfeito.

Todos foram unânimes em repetir que o show foi histórico. O engraçado foi ver que, no dia seguinte, um monte de amigos esteve por lá e nem deu para encontrar. Isso mostra que o público está atento ao que vem de fora e realmente representa algo original, inovador. Se o show fosse apenas uma cópia do disco não ia ter tanta graça.

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Coachella 2006

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Daft Punk

Você tem certeza de que uma viagem vai ser boa quando as coisas se encaixam sem muito esforço. A ida para Los Angeles, para conferir o Coachella Music & Arts Festival , foi premiada logo na chegada ao aeroporto.

No desembarque, um sujeito com pinta de rapper passou carregando uma bolsa de laptop com o logotipo do Ozomatli bordado na frente. Como não se vê esse logo toda hora, mesmo em Los Angeles, fui perguntar. Não deu outra, era Jabu, MC que substituiu Chali 2na (hoje no Jurassic 5) , seguido pelos outros integrantes.

Não bastasse a saraivada de shows que viriam no sábado e domingo, uma das bandas latinas mais bacanas de todos os tempos (top 5 na minha lista pessoal de shows mais desejados) tocava em Los Angeles na sexta-feira que antecedia o festival. Contando com a simpatia gratuita que a palavra “brazilian” desperta no exterior, conseguir ingressos foi moleza.


Ozomatli: “Cumbia de los muertos”

Não era um show comum. O grupo se apresentou na Hollywood Race Track, pista de corridas de cavalos em Inglewood, servindo de entretenimento entre um páreo e outro. Na platéia, praticamente apenas mexicanos e decedentes e um ou outro curioso cansado de perder dinheiro apostando em pangarés.

O despojamento da situação somado ao público receptivo garantiu um show especial, relaxado, com clima de apresentação para amigos. Com naipe de metais, DJ, MCs, baixo, bateria, guitarra e percussão e dois vocalistas, o Ozomatli enche qualquer palco e a mistura de hip hop, cumbia, salsa, dub, rock e letras em spanglish serviu para aliviar a tensão da manifestação hispânica (com adesão dos brasileiros e chineses) que viria no dia 1 de maio, o “Dia sem imigrantes”.

Comandado pelos cantores Asdrubal Sierra e Raul Pacheco, o Ozomatli tocou músicas de seus três discos, indo de “Cumbia de los muertos” até a balada “Cuando canto mi canción”, sem esquecer de “Como ves”, “Saturday night”, “Street signs”, fechando a fiesta com a incendiária “La misma canción” e o palco cheio de crianças brincado de percussionistas.

Antes mesmo de chegar a Indio (cidade onde acontece o Coachella) e um show pra coleção de favoritos. A viagem prometia.

Coachella, primeiro dia

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Entrada

O cenário do Coachella, que esse ano reuniu 97 nomes em dois dias de show, é o belo gramado de um campo de pólo, cercado por montanhas e pelo deserto da região de Palm Springs. As atrações se dividem entre dois palcos (Coachella e Outdoor stage) e três tendas (Gobi, Mojave e Sahara), além de outros espaços com programação feita por rádios e revistas locais. A quantidade de gente que invade a cidade no final de semana do festival é grande, cerca de 60 mil por dia.

Após um leve engarrafamento no estacionamento e de uma fila na entrada, deu tempo de pegar o finalzinho do The Walkmen (com uma música com metais bem legal) e correr para pegar também a rainha do grime, Lady Sovereign. Talvez pela semelhança com o hip hop, a inglesa agradou o público, arrancando gritos com “Public warning” e pedidos de bis.

Com destaque para a saxofonista e segunda vocalista da banda, o Zutons misturou músicas dos dois discos. O vocalista, também muito carismático, segurou bem a platéia e o calor (eles tocaram debaixo de um sol violento). Ao vivo, a banda cresce muito, até dub teve. “Valerie” foi a música mais cantada.

Uma boa surpresa foi o My Morning Jacket. Bom do início ao fim, principalmente quando tocaram “Wordless chorus”. Eles vão abrir a turnê do Pearl Jam nos EUA, o que pode ajudar o MMJ, que está em seu quarto disco, a deslanchar.

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Wolfmother

Até então os shows não eram dos mais disputados e estavam fáceis de ver. Isso mudou quando foi hora de assistir o Wolfmother, numa das tendas. O show serviu pra explicitar um dos poucos problemas do festival.

Apesar de aproximarem público e artistas, num evento para 60 mil pessoas as tendas lotam rápido e bastante gente não consegue entrar. Quem fica longe não vê muito bem, não apenas porque a estrutura das tendas bloqueia a visão, mas também porque os palcos são baixos (poderiam ter ao menos 1,5 metro a mais de altura para facilitar a vida de quem está mais atrás).

Influenciados por Black Sabbath, Led Zeppelin, Mars Volta por stoner rock, o trio australiano fez uma apresentação visceral. A voz do vocalista e guitarrista Andrew Stockdale lembra Ozzy Osbourne e Jack White (Stripes) e a mão pesada do rapaz arranca riffs secos e poderosos.

O toque de psicodelia fica a cargo do baixista e tecladista Chris Ross. É ele quem controla os efeitos através de pedais preso em cima do seu teclado, distorcendo, prolongando e alterando os riffs de Stockdale, garantindo que o som da banda não seja apenas um pastiche do rock setentista. A eletrônica está lá, ainda que discreta.

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Clap your hands say yeah

Saíram os australianos, veio o combo nova-iorquino Clap Your Hands Say Yeah. Com meros dois minutos de atraso, o CYHSY ouvia palmas ansiosas. Com cinco, quando entrou no palco, ensaiavam-se as primeiras vaias. Num festival com tantas atrações, cada minuto é precioso e, por isso, o público não tolera demora.

Bastou o show começar para a turma esquecer da espera. Bom exemplo da moda que se tornou ouvir música nesses tempos pós-MP3 e iPod, o CYHSY cresceu através da internet, sem divulgação na grande mídia e conta com público fiel. Difícil dizer o que vai ser dessas bandas quando não for mais tão bacana saber qual a última novidade vinda dos porões de qualquer lugar.

A sonoridade do Clap Your Hands é interessante. Chata mesmo é a voz do cantor Alec Ounsworth, desafinado além do ponto do que pode ser considerado um estilo. Pelo menos em uma das músicas, “Is this love?”, Alec consegue controlar os defeitos de sua voz e faz parecer uma estranheza pensada. Pena que seja só nessa.

Às 17h45, no palco principal, Kanye West foi o primeiro peixe fora do áquario independente a dar as caras no festival. Seu disco mais recente, “Late registration”, faturou um Grammy e vendeu, até agora, 2,5 milhões de cópias. Com um sucesso comercial totalmente fora do padrão do resto da escalação, teve gente temendo que recepção ele teria.

Vestindo uma camiseta com uma foto de Miles Davis e pedindo para o público colocar os “diamonds in the sky” (diamantes no céu) — com um gesto juntando a ponta dos indicadores e dos polegares, lembrando outra coisa — Kanye não demorou nem meia música pra ganhar a platéia.

Acompanhado por bons músicos, incluindo cordas e cantores de apoio, reproduziu-se ao vivo os samples e programções dos seus discos. Antes de cantar o hit “Gold digger”, o rapper brincou, dizendo que o “Grammy está errado, essa é a melhor música do ano”, em referência ao título perdido em 2005 para “Boulevard of broken dreams”, do Green Day.

Como na versão radiofônica, que lima palavrões e insultos, Kanye substituiu o “nigger” (palavra agressiva usada para se referir aos negros) do refrão “she ain’t messing with no broke nigger” por um segundo “broke”. Sem perder a oportunidade de dar uma zoada num público majoritatiamente branco, o cantor mudou de idéia no meio da música e resolvou falar a letra sem censura, avisando: “brancos, essa é a sua chance de falar nigger“!

Depois de cantar “All falls down”, Kanye pediu ao DJ A-Trak para colocar algumas músicas que ele ouvia em casa, na adolescência. Vieram “Let’s stay together” (Al Green), “Rock with you” (Michael Jackson) e, acreditem, “Take on me”, do A-Ha (“isso não é uma piada, gosto mesmo dessa música”, fez questão de dizer), enquanto Kanye dançava como se estivesse sozinho em seu quarto.

Guardando o melhor pro final, a última música foi “Touch the sky”, feita em cima de um sample matador de “Move on up”, do Curtis Mayfield. Nem precisava, o jogo já estava ganho.

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TV on the Radio

Correndo de um lado pro outro, ainda deu tempo de ver um pouco do TV on the Radio, antes de voar de volta para o palco principal atrás do Sigur Rós. Com várias pessoas assistindo o show deitadas no gramado, os islandeses coroaram o final de tarde com músicas do “( )” e “Takk”, em versões um pouco mais barulhentas e pesadas do que as dos discos.

A noite, Cat Power fez um bom show. Com aquela voz, fazendo passinhos de dança e acompanhada de 14 músicos (a Memphis Rythm Band) no palco, tinha sopro, cordas, vocais de apoio, enfim, completo. Cat focou mais músicas do seu último disco, “The greatest”, abrindo com a faixa título, mas também executando outras de discos anteriores.

O Franz Ferdinand enfrentou uma multidão disposto a mostrar que pode ir além dos 15 downloads de fama tão habituais hoje em dia. No entanto, depois do que foi o show no Rio, não tinha nem graça ver de novo. A melhor opção era conferir a metade final da apresentação de Damian “Jr. Gong” Marley.

Exagerando nas homenagens ao pai, Damian carimbou “Exodus” e “Could you be loved”, praticamente na sequência. Logo ele que, ao contrário dos irmãos, resolveu seguir uma linha de reggae atual, um dancehall com o pé fincado no roots and culture e uma boa dupla de baixo e bateria pra manter a casa em pé. Ainda bem que ele encontrou um espaço para mandar “Road to Zion” e a crássica “Welcome to Jamrock”.

Da Jamaica pra Áustria, sem perder o eco, o Tosca estava programado pra tocar as 22h15. Horário perigosíssimo, perto demais da principal atração da noite, Daft Punk. O resultado é que, como aconteceu com outros nomes, só daria pra ver o começo do show do projeto de Richard Dorfmeister.

A situação ficou mais grave com a demora pra começar o show. Quando começou, o pianista e segunda metade do Tosca, Rupert Huber, resolveu fazer uma introdução de uns 10 minutos no Fender Rhodes, espantando quem queria ao menos ter um visto um pouco do show. Quem não ficou até o final, teve que se contentar com a passagem de som, com o MC cantando “The model”, do Kraftwerk, sem parar.

O Depeche Mode também tocou nesse horário, tendo como garantia hits como “Walking in my shoe”, “Personnal Jesus”, “Enjoy the silence”, “Behind the wheel” e “Stripped”, além de faixas do disco novo e seis telões caprichados.

Quem se deu bem foi a dupla Audio Bullys, atração anterior ao Daft Punk e que, com isso, acabou tocando pra uma grande quantidade de pessoas, a maioria apenas aguardando os franceses.

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Daft Punk e a pirâmide

Há seis anos sem tocar e fazendo a estréia de sua turnê mundial (de apenas oito shows), o Daft Punk encerrou a noite e atraiu todas as atenções.

Um pano preto escondia o palco até o início do set. Quando a cortina caiu, viu-se a dupla dentro de uma pirâmide negra, vestido com as roupas de robô e começando a um zilhão por hora, com “Robot rock”. As pessoas gritavam sem parar, sem nem ter ouvido nada, só pela alegria da cena. O painel de led atrás dos dois piscava.

Apenas os sucessos da dupla seriam suficientes pra garantir uma noite de diversão. Mas eles queriam mais. A pirâmide era a grande surpresa.

Três músicas depois do início, quando todos estavam satisfeitos com o que viam, a pirâmide acendeu pela primeira vez. Ficou branca. Depois azul. Daí em diante, música a música, o triângulo negro (coberto de telas de plama) e a estrutura metálica que o emoldurava iam ganhando algo a mais, cores, movimentos. A cada vez que algo novo acontecia, a platéia urrava.

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Robô

Fazendo mash ups deles mesmos, o Daft Punk não negou nada. Teve “Around the world” em cima da base de “Harder, better, faster, stronger”, “Da funk” (essa e qualquer outra com uma pegada hip hop acertavam em cheio os americanos), “Technologic” e uma explosão coletiva com “One more time” misturada à “Aerodynamic”, como no remix que eles próprios fizeram para o disco “Daft Club”.

No final, após “Human after all”, os robôs fizeram jus ao nome da música, se renderam e bateram palmas pro público. Enquanto a pirâmide não se apagou, ninguém parou de berrar ou deixou a tenda, esperando a dupla pra um repeteco que, infelizmente, não houve.

Um show de música eletrônica perfeito, tanto visualmente quanto musicalmente, rivalizando com o Kraftwerk — e provavelmente ganhando — o título de melhor apresentação da praça. Sem essa de “precursores”, “sem um não teria o outro”, blá, blá, blá. Se as coisas fossem assim, nada andava pra frente.

E evolução, bem, esse não é exatamente um problema para o Daft Punk.

Coachella, segundo dia

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Coachella

Mal deu tempo de dormir. O segundo e último dia do Coachella Music and Arts Festival, ainda mais quente que o anterior, começou com o funk latino dos venezuelanos Los Amigos Invisibles. Bandeiras da terra de Hugo Chávez pipocavam na platéia. De lá para a apresentação de Amadou & Mariam, dupla de Mali que mistura ritmos africanos, blues, afrobeat e violões e que fez um bom show por aqui, no Rock in Rio 3, em 2001.

No palco principal, a banda-de-menina Magic Numbers fez um bom show, servindo de trilha sonora para um espreguiçada debaixo do sol, vendo as bolinhas de sabão passar no céu. Fazendo seu último show antes de entrar em estúdio para gravar o próximo disco, o grupo aproveitou pra mostrar duas músicas novas.

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Público

Enquanto isso, músicos promoviam sessões de autógrafo na Virgin. Passaram por lá Matisyahu, She Wants Revenge e Seu jorge, entre outros. A interação com o público, no entanto, é limitada. Um atendente pega o disco (ou DVD, ou poster) das mãos do fã e entrega pro artista. Não há contato algum.

A loja de discos é um ponto de encontro, vendendo títulos de todos artistas do evento por, em média, apenas 10 dólares, bem mais barato que as camisetas, que chegavam a custar US$ 30. Não é fácil resistir a tentação. Lembrar que uma garrafa d’água custa 2 dólares e uma boa refeição vegetariana chega aos US$ 9 ajuda bastante.

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Carrossel

Pelo menos passear pelas lojinhas de bugingangas (uma sombrinha em estilo japonês fez sucessos entre as meninas), estandes de revistas e andar nos brinquedos era de graça. Também, pudera, o carrossel era formado por biciletas e só girava se todos pedalassem! Tinha também roda-gigante em miniatura funcionando no mesmo esquema.

A organização impressiona, sobretudo pela qualidade do som em todos os palcos. Boa parte do mérito do festival, entretanto, é o astral dos frequentadores. Americanos (lógico), mexicanos (óbvio), espanhóis, cubanos, ingleses, convivendo num clima ótimo. Pessoas bem educadas, muitos “por favor”, “desculpe” e “obrigado”, palavrinhas bobas, pequenas, mas que podem fazer toda a diferença quando 60 mil pessoas estão reunidas no mesmo lugar.

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Matisyahu

No meio da tarde, o reggae man judeu Matisyahu foi um dos primeiros a arrastar uma boa quantidade de gente para o palco principal. Ao contrário do disco, em que baixo e bateria ficam bem à frente, ao vivo a guitarra é muito alta. O rock, o hip hop, beat box e vocalizes predominam sobre o reggae, levando o som mais pro lado do Sublime do que do Sizzla. Bom, mesmo assim, embora diferente do que se esperava a julgar pelas gravações.

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Bloc Party

Pelo horário, 18h, dava impressão de que a ordem do Bloc Party e do The Go! Team na escalação havia sido invertida. Mesmo sendo mais conhecido, o BP tocou mais cedo que o TG!T, que só entrou às 21h40. Após o show das duas bandas, ficou provado que a ordem estava correta.

Um belo pôr-do-sol serviu de fundo para o show do Bloc Party, enquanto o vocalista Kele Okereke reclamou do calor (“dá pra fritar um ovo aqui no palco”, disse) e agradeceu ao público a disposição de ficar debaixo do maçarico pra conferir a banda.

Ainda que tenha faltado pressão no som — não ficou claro se por culpa da banda ou dos equipamentos — e a guitarra estivesse baixa, o Bloc Party foi bem, muito por conta da presença de palco de Kele. “Banquet” e”She’s hearing voices” continuam funcionando e a boa notícia é que aparentemente a banda finalmente começa a se coçar pra gravar outro disco e chegaram a mostrar uma das músicas novas.

A disputa por um bom lugar para assistir a Madonna obrigou quem quisesse assistir a estréia da Confessions Tour a sacrificar vários shows. Entre as vítimas estavam Yeah Yeah Yeahs, Mogwai e Digable Planets (e também Seu Jorge e Editors). Pior mesmo foi ter que aturar a farofada do Paul Oakenfold antes dela.

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Madonna: telão

Em seu primeira apresentação em um festival, a rainha do pop ofereceu apenas um aperitivo da turnê que está por vir. Foram poucas músicas, abrindo com “Hung up”. Teve ainda “Everybody”, “Get together”, “Ray of light” e “I love New York”, deixando de fora a atual música de trabalho, “Sorry”.

Mestre em dominar as massas, Madonna conversou com o público (“does my ass look ok?” ["minha bunda tá legal?], perguntou), tocou guitarra, dançou com seus bailarinos, tirou a roupa e fez a festa da multidão. Era gente a perder de vista, muito, muito além da capacidade de 8 mil pessoas da tenda. A cantora saiu do palco sem dar tchau ou agradecer. Quem quiser mais, só pagando os US$ 300 do ingresso mais barato da turnê.

No caminho para conferir o The Go! Team, uma parada estratégica para escutar um pouco do Coldcut, sacudindo a tenda com drum ‘n’ bass, jungle, vídeos bem sacados no telão e protestos contra Bush e Tony Blair. No palco principal, o Massive Attack, acompanhado de Horace Andy, chapava os ouvintes.

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The Go! Team

O The Go! Team surpreendeu. Se transpor para o palco um disco repleto de samples e colagens não é tarefa fácil, mais difícil ainda é conseguir animar um público já cansado de horas e mais horas de show. Pois o TG!T conseguiu. Agitados e carismáticos, o grupo conquistou o público com “Ladyflash”, “Phanter dash” e “Everyone’s a VIP to someone”.

A banda é formada por brancos, negros, japoneses e cada integrante desempenha múltiplas funções, todos fazem um pouco de tudo. Seguindo a filosofia da internet, ferramenta de divulgação de quase todos os novos nomes atualmente, o trabalho coletivo é quase um pré-requisito numa banda atualmente, e o The Go! Team não é diferente.

Fechando a tampa, às 23h de domingo (um dia antes do lançamento do novo disco, “10,000 days”), o Tool voltou aos palcos, após muitos anos. A banda conta com uma legião de fãs na California, de todas as idades e incluindo muitas mulheres, coisa rara nesse estilo de som.

Os comentários sarcásticos do vocalista Maynard James Keenan destoavam do clima soturno do Tool. Brincando, saudou a platéia com um “e aí, hippies!” e fez comentários como “espero que vocês tenham conseguido desfrutar a área VIP. Claro que conseguiram, isso é Los Angeles, todo mundo é VIP”.

A pouca luz do palco, iluminado praticamente apenas por lâmpadas azuis, destaca o visual dos telões e seus vídeos sombrios. É praticamente tudo que se pode ver do show, Keenan fica o tempo todo no fundo, escondido perto da bateria. Boa ambientação para as viagens de “The patient”, “Laterallus” ou “Sober”.

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Entrou areia

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foto: Ricardo Mello/O Globo

Contrariando qualquer previsão e as suposições feitas em cima do estereótipo do surfista (desses que pipocaram nas resenhas da passagem do cantor pelo Brasil na grande mídia), o show do Jack JoooooOOOOHNNNN… Uá, Johnson, não teve nada de tranquilo. Foi um caos. Culpa da produção desastrosa da Dream Factory, uma das piores para um show dessas proporções já vista por aqui.

O tumulto começou logo na entrada, com um afunilamento inexplicável do público e uma longa fila, cheia de furões, trazendo recordações do Maraca — fossem os frequentadores do estádio majoritariamente loiras de 16 anos, como num episódio do seriado Laguna Beach. A saída foi igualmente tumultuada, talvez pior, coroada com um tiroteio comendo solto do lado de fora.

Não satisfeitos, os organizadores reservaram uma arquibancada inteira para VIPs de mentira que se dispuseram a pagarR$300 pelo direito de bebidas sem filas e banheiros limpas. Algo que deveria ser oferecido a todo público, taxado em R$ 100 pela chance de estar ali.

O ambiente, definitivamente, não era o ideal para um show do Jack Johnson. Seja pelo tamanho (grande demais), seja pelo tipo de construção (só cimento), a Apoteose cortou o clima intimista proposto pelo havaiano.

O som, perfeito pra ouvir quieto, relaxando, se dispersou. Uma praia, com uma divulgação menos agressiva, para menos pessoas, seria ideal, como ficou provado na canja que JJ deu em Ipanema, no domingo.

A banda não ajuda. Tá certo que a sonoridade não pede grandes músicos; o mérito está nas excelentes canções escritas por Jack Johnson, não em performances mirabolantes. Pena que os músicos não tenham entendido isso. O tecladista, fraco, se esforçava pra aparecer. Subia no piano, tocava pulando e dançando como uma chacrete, tudo na tentativa de esconder suas deficiências técnicas.

A passagem de som também não colaborou. Os instrumentos de apoio abafavam o violão de JJ, que deveria ser o principal. Um tanto frio, parecendo até desconfortável no centro das atenções, a voz de Jack Johnson saia meio sem vontade, faltando empolgação.

Houve bons momentos. O público recebeu bem as canções de seus dois primeiros discos (“Bushfire fairytales” e “On and on”), tanto quanto as do “In between dreams” (os dois últimos com produção de Mario Caldato Jr.), que catapultou JJ para o estrelato.

O cantor tocou “My doorbell” (White Stripes), fez citação a “Whole lotta love” (Led Zepellin) e arrancou urros da platéia com o corinho de “Mas que nada” (Jorge Ben). Faltou a melhor música, “Holes to heaven”.

Ao final do show, a confirmação do óbvio: as ótimas canções funcionam melhor mesmo em disco.

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Na amizade

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Renatinho, Nervoso e Edu Vilamaior
foto: André Nazareth

O denominador comum, pra variar, é o Acabou la Tequila, mas a amizade de Nervoso e Renato Martins transcende a banda em que tocaram juntos. A noite de quarta, no Sergio Porto, mostrou isso. Foram dois shows, de dois amigos, lançando dois clipes, um deles como parte de um contrato com uma gravadora.

Cada um à frente de um banda — Renatinho no Canastra, Nervoso em carreira solo — ambos trilham caminhos parecidos, cavando seu lugar e tentando viver de música.

Foi show pra pouca gente, algumas testemunhas presenciando dois nomes que merecem mais destaque. E quando esse destaque finalmente chega, como já aconteceu com outras bandas, entre os presentes fica a memória “daquele show meio vazio, antes da banda estourar” e o lembrete de porque é tão bom frequentar a cena independente e ver, antes da maioria, com todo conforto e sem empurra empurra, gente que ainda vai dar o que falar. Sem falar nas boas bandas que se perdem antes de acontecer e só alguns poucos tiveram sorte de ver.

Nervoso tocou primeiro . O bom show — que várias vezes, dividindo o palco com outras bandas, acaba sendo muito curto — teve duração suficiente para Nervoso mostrar músicas do seu disco de estréia, “Saudades das minhas lembranças”, e adiantar algumas que estarão no próximo, como “Kit homem”, “Um sonho de transatlântico” (essa com clima mais pop, tipo de música pra puxar o disco) e “Candidato a amigo”.

Embora algumas músicas estejam com arranjos diferentes, algumas mais lentas, outras ressaltando mais levadas de samba, o show continua parecido com o do lançamento do disco. Houve também distribuição do primeiro “Nervozine”, um fanzine no estrito significado do termo, ou seja, um informativo sobre a banda, feito por um fã, em papel xerox e distribuído gratuitamente. Fazia tempo que não se via um desses.

O Canastra, de contrato assinado com a Sony/BMG, por outro lado, mostrou um show bem diferente do que se via no ínicio da banda, mais bem amarrado e potente. Em clima de big band, o Canastra mistura rockabilly, country, rock sem perder a mão, alguns integrantes fazem cena quando não estão tocando, como os músicos responsáveis pelos metais, jogando baralho entre uma canção e outra.

No final do show, Renatinho convidou Nervoso para cantarem juntos “Bom veneno”, gravada por Nervoso e com letra de Renatinho, seguida de uma versão de “Back in black” countrycore. Nervoso se jogou no palco, arrancando risos da filha de Renatinho, que assistia ao pai pela primeira vez.

“O tio Nervoso é muito louco, né filha?” , disse Renatinho. Na amizade, claro, na amizade.

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Ecoando

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Dubstrong no comando
foto: Joca Vidal

Meses após o lançamento do excelente “Tempo vai dizer”, finalmente o Echo Sound System aportou no Rio para lançar o disco. O Fosfobox ficou cheio para conferir os paulistas ao vivo.

A noite começou com o reggae dos DJs do Urcasônica SS e emendou num set de dancehall suingado de Pedrinho Dubstrong antes de desembocar na apresentação do ESS. A abertura mostrou parte da linha evolutiva do conjunto. O hip hop, outro elemento importante na sonoridade, ficou pro encerramento, com o DJ Tamempi.

É no cruzamento dessas influências — entre o reggae e o hip hop — que o ESS atua. Dub hop, como dizem alguns. Ao vivo, o trio Dubstrong, Gustavo Sola e Veiga (do Veiga & Salazar) se multiplica, como faz no disco, através das participações dos MCs.

Os MCs Jimmy Luv, Funk Buia, Junior Dread e Arcanjo, todos com excelente presença de “palco” (era uma pista de dança, né), se dividiram nos vocais, como no disco. Até o jamaicano General Smiley participava, mesmo que pré-gravado.

Problemas técnicos nos microfones forçaram o trio de produtores a disparar, além do arsenal de efeitos, vocais gravados também de alguns dos MCs presentes, sem atrapalhar a apresentação.

O som tem peso, balanço e nuances suficientes pra empurrar a pista de uma boate, coisa difícil pra grupos de reggae. Ainda assim, seria interessante ver o Echo Sound System virar uma banda. Pode ser questão de tempo até isso acontecer.

De má notícia, só o que se leu no jornal no dia seguinte, sobre a possível venda do Fosfobox. Mais uma casa fechando e o Rio indo pra vala… O problema não pode ser concorrência, a noite carioca está desértica nesse sentido. Mais sobre isso, logo mais.

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Na maciota em Maceió


Cidadão Instigado, crepe com borda de queijo, Banda Só Bonecos,
Wado… Um passeio visual pelo FMI.
fotos e vídeo: URBe

Seguindo o caminho de outras cidades do Nordeste (Recife e o Abril Pro Rock, Natal e o Mada, etc.), o Festival da Música Independente de Maceió chegou decidido a colocar Alagoas no circuito nacional.

Qualquer eventual pensamento negativo despertado pela sigla infeliz do festival (FMI), se desfez com bons shows e boa organização.

Festivais como esse são importantes para fortalecer a cena. Não apenas no que se refere aos músicos e bandas, mas também as outras funções que cercam o assunto, da produção ao jornalismo.

Por exemplo, são sempre uma boa oportunidade para reencontrar e conhecer coleguinhas de outras paradas. Estavam lá o comparsa Matias, o pernambucano Xico Sá, os paulistas Marcelo Costa, Chris e AD Luna, os mineiros Mariana e Terence, além do carioca Julin. E assim as pontes vão se formando e as idéias circulando.

Misturando atrações locais (15 no total) com atrações de outros estados, o FMI reuniu 24 nomes com o objetivo de exibir e amplificar a produção alagoana e também outros estados do Nordeste (por isso tantos convites para jornalistas de fora), origem da maioria absoluta das bandas envolvidas.

Faz sentido, afinal, se o objetivo é fomentar uma cena local — motivação declarada pelo idealizador do festival, André Frazão — é necessário artistas locais. 24 nomes, no entanto, talvez tenha sido demais, tornando a maratona de três dias um pouco cansativa. Nada grave, é a sede de mostrar serviço, compreensível em se tratando do primeiro evento de música independente desse porte em Maceió.

Na noite de abertura, Tom Zé, que havia tocado em Maceió apenas uma única vez, em 1962, foi a atração principal no centenário Teatro Deodoro, utilizado apenas na estréia do evento. Reformado em 1998, o lugar é uma beleza, com frisas e camarotes em estilo neoclássico.

O cenário de ópera caiu bem para Tom Zé e sua opereta rock sobre as mulheres, do disco “Estudando o pagode”. Depois de ensinar o público a cantar cada uma das músicas, fazer piadas e desconcertar os presentes com comentários ácidos, o baiano enfileirou seus clássicos (“Augusta, Angélica e Consolação”, “Fliperama”, etc.), muitas vezes parando no meio para começar a próxima, como que tirando o atraso de 40 e tantos anos sem visitar Maceió.

Antes dele teve o forró do Chau do Pife (AL) e depois Bonsucesso Samba Clube (PE) e Tororó do Rojão (AL), anunciado como o “tsunami do forró”. Bacana mesmo era a Banda Só Bonecos, que tocava na entrada do teatro. É o Kraftwerk brasileiro.

Disfarçada pelos bonecos do nome, trata-se de uma engenhoca de tocar forró, baião e guitarrada mecanicamente. Robôs de verdade tocando música (e sem laptop!). Programar seus pandeiros, agogôs e teclados, sem falar no leitor ótico, foi trabalho de mais de dez anos de um senhor de idade. Valeu a pena, o troço é genial.

Durante os shows que se seguiram, Tom Zé atendeu pacientemente a fila de fãs que se formou para cumprimentá-lo e pedir autógrafos nos discos e livros que compravam. É parte do trabalho do artista, claro, mesmo assim a paciência com que ele conversava com cada um, sem pressa de fazer a fila andar, significa muito para um fã que praticamente não tem chance de acompanhar seu ídolo de perto, pelo menos não em casa.

Os ingressos mais caros e o lugar pequeno da primeira noite (e que mesmo assim não lotou) deram a impressão de que o festival seria morno. Errado. Os segundo e terceiro dias, no Armazém Uzina (com capacidade para 4 mil pessoas) foram de casa cheia, ainda que, aparentemente, todas as entradas não tenham sido vendidas.

Foi nesses dias que deu pra notar a boa produção do evento. Não faltou nada. Eram dois palcos funcionando alternadamente (o principal, num espaço com ar condicionado, parecia o palco Lab, do TIM Festival), ambos com boa qualidade de som e luz, projeções, sala de imprensa equipada e praça de alimentação com frozen de cajá e um inacreditável crepe com borda de queijo.

Wado e Cidadão Instigado, as atrações mais aguardadas (fora o Tom Zé, cuja apresentação foi praticamente um evento paralelo), tocaram no sábado, segunda noite do FMI. Antes deles vieram Basílio Sé (AL), Experiência Apyus (RN), Duofel (AL/SP), e Marcelo Cabral e Trio Coisa Linda (AL), fazendo bons shows para um público ainda pequeno (Xique Baratinho — o Jethro Tull de Alagoas, Cícero Flor e Beto Batera encerram a noitada).

O Cidadão Instigado fez valer a viagem de 2 mil quilômetros de alguns — ou o preço do ingresso para outros. Catatau e sua trupe fizeram um show enxuto por conta do tempo, o que acabou privilegiando as melhores músicas do repertório. Melhor ainda foi a sorte de ter presenciado (e capturado) um momento especial no camarim, antes do show.

Conversávamos (Matias, Marcelo e eu) com o Régis Damasceno, enquanto ele afinava seu violão, quando o Catatau entrou no camarim. Ele queria passar “O tempo” com o músico que iria tocar rabeca na música. Geralmente tímido, Catatau ignorou nossa presença e o que se seguiu foi uma versão acústica de uma das melhores músicas do disco “Cidadão Instigado e o método túfo de experiências”. No final, todos estavam cantando junto, até que Catatau percebeu, deu uma risada envergonhado e se retirou (tem um trecho disso no vídeo acima).

Se tudo acontecer como tem que acontecer e o trabalho de Catatau receber o reconhecimento que merece, o FMI poderá dizer que teve em seu primeiro ano um dos principais nomes da música brasileira atual. Aliás, mesmo que a consagração não venha, azar de quem não tiver a oportunidade de conhecer o som. Vai sair perdendo.

Sem tocar na sua cidade “natal” (ele nasceu em Florianópolis e cresceu em Maceió) há dois anos, Wado conseguiu uma boa reação do público, que participou, pediu bis, o escambau. Pra resumir: mais um ótimo show do Wado, só que dessa vez com uma recepção a altura. Deu gosto de ver. Coisa que, infelizmente, nunca se viu no Rio, onde Wado morou nos últimos dois anos, se apresentando e tentando, sem sucesso, fazer o jogo virar.

Há duas semanas Wado voltou para Maceió. Descolou uma casa na praia da Guaxuma (onde fica o comentado Bar Brasil) e está tocando a vida de lá. Cansou do Rio, da apatia cultural da cidade, da dificuldade que é realizar qualquer coisa por aqui. Nas conversas com outros músicos nos bastidores do evento, a impressão era a mesma. O Rio hoje, por incrível que pareça, é considerado nulo para a maior parte das bandas.

Não dá pra deixar de pensar: como é que no Rio, supostamente uma das pontas do eixo cultural, nunca se vê um festival independente com uma estrutura dessas? Sim, há muita coisa boa por aqui, mas em geral são eventos com bons nomes, porém sem algo maior, um conceito ou o que valha, na maior parte das vezes por falta de recursos.

O Ruído costuma ter escalações interessantes, mas depende da estrutura do lugar onde estiver acontecendo (o que, no Rio, quase sempre é receita pra desastre) e ainda não conseguiu se transformar num evento de porte nacional. O Humaitá pra Peixe é o mais bem estruturado, mas sofre com o horário e tamanho do Espaço Cultural Sergio Porto, com os humores dos modismos cariocas e, conseqüentemente, com o desinteresse do público.

O público. Esse deve mesmo ser um fator determinante. Pode até ser que, depois de anos renegado, o público do Nordeste (como foi em Maceió) seja mais interessado. Ou mesmo que ter ficado fora rota dos grandes shows tenha servido de impulso para o surgimento de cenas locais. Mas é simplista afirmar que é apenas isso. Porque banda boa e gente se mexendo o Rio tem. O que não tem — e isso fica cada vez mais claro — é um público curioso. Porquê, é complicado dizer. Talvez por ser uma cidade diurna. Difícil explicar.

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Aproveitando a viagem, deu para conhecer um pouco das redondezas durante o dia. Maceió deve ser a maior cidade de 900 mil habitantes do mundo. Tudo é longe. A cidade se move verticalmente, ao longo da costa, como se evitasse ir em direção ao interior e ser obrigada a encarar a dureza do sertão.

Parti com Marcelo e Matias para uma turnê relâmpago pelo litoral. No som, a trilha oficial da viagem (o “chá lá lalalá, chá lá lalalá, chá lalá…”, da ainda inédita “Novo prazer”, do Mombojó) e na janela praias, lagoas e visuais incríveis sem nenhuma máquina fotográfica pra registrar.

A primeira parada foi na Praia do Francês e seus coqueirais, cartão postal da cidade. Estava imunda. Pinicos, tampas de privada e toneladas de garrafas pet se espalhavam pela areia. Embora, verdade seja dita, a Barra de São Miguel também não estivesse limpa, é difícil acreditar que seja desse jeito sempre. Deve ter acontecido algo fora do normal.

De lá, seguindo a dica de uma das produtoras do FMI, fomos para Massagueira, um povoado de pescadores em torno de um lago, com vários restaurantes de frutos do mar. O escolhido foi o Bar do Pato, com uma escada que leva ao lago, para tomar cerveja curtindo o pôr-do-sol. Uma tristeza mesmo…

Na volta pro hotel, gravamos um algumas coisas para o podcast do Matias, o Vida Fodona.

No domingo, a última noite do evento começou com Santa Máfia (CE/RJ), Vibrações Rasta (AL), Projeto Cru (SP), o auto-explicativo Negroove (RE), Vitor Pirralho (AL) e Pedra do Raio (PE/AL).

O primeiro show a ter atenção total do público foi a psicodelia do Mopho (AL), ovacionado pela torcida local. Depois vieram Jackson Envenenado (PB) e, fechando a tampa, a sequência Sonic Junior (AL), Autoramas (RJ) e a lenda alagoana Living in the Shit, retornando aos palcos depois de anos.

O Sonic Junior mostrou produções bem interessantes. Agora sozinho (antes era uma dupla) e após derrapadas como o projeto PR5, com Paulo Ricardo, Juninho deu a volta por cima. O som totalmente voltado pra pista, com toques de db, breaks e percussão, bem poderia estar no Skol Beats.

O Autoramas fez o de sempre, arrancando pulos e gritos as 3h da manhã de uma turma que estava vendo shows desde as 19h. Encerrando o festival, o Living in the Shit tocou pra um Armazém Uzina vazio. Com apenas três músicas, a última van partiu e até mesmo a imprensa teve que ir embora. Ano que vem tem mais.

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O URBe viajou a convite da produção do festival.

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Discoteca

A pilha de discos estava acumulada. Pra alegria das assessorias de imprensa, que gentilmente mandam as bolachinhas nessa direção, a fila vai andar.

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Vindo de Salvador, Ronei Jorge e os ladrões de bicicleta se destacou no concurso de bandas novas Claro que é Rock. Não levaram o prêmio, mas arrebanharam bastante fãs, tocando também em festivais importantes como Goiânia Noise, Mada e até no ultra-comercial Festival de Verão de Salvador.

O disco homônimo foi lançado de maneira independente. Rock com influência de samba, quebras de andamento psicodélicas e letras esquisitas, tudo bem amarrado pela produção caprichada de Luiz Brasil (Cássia Eller). Pra baixar: “Sete sete”.

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A Slag Records sai na frente outra vez. Depois de lançar o disco do Arcade Fire no Brasil e, dizem, assegurar a versão nacional da excelente estréia do Artic Monkeys, a gravadora paulista põe na rua “Everything ecstatic”, do Four Tet.

Experimental, estranho em alguns momentos, ensolarado em outros (ouça “And the patterns”), Kieram Hebden e seu Four Tet é um dos principais nomes da música eletrônica atual. Enquanto ninguém acorda, o catálogo da Slag vai crescendo. Em quantidade e em importância.

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A Deck Disc dá sequência ao seus (re)lançamentos de reggae com esse disco de 2003, finalmente em versão nacional. Dub Side of the Moon é um clássico. Simples assim.

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Ska, rocksteady e dub são os principais ingredientes de “On the move” (Deck Disc), dos paulistas do Firebug (originalmente lançado pela independente Radiola Records). Tudo muito bem tocado e produzido, contando com o diferencial de ter Victor Rice como integrante e produtor do disco. De olho no mercado internacional, as letras da banda são em inglês.

A preocupação em agradar quem está lá fora conduz a banda por um caminho preocupante, do denominador comum, fazendo o Firebug soar como qualquer outra boa banda de ska, rocksteady e dub que se encontra na Europa ou nos EUA (o que, se não é pouca coisa, não é o bastante).

Uma pena. Basta ouvir a “Injustiça”, com a participação de BNegão, para constatar que injetar o mínimo de brasilidade, ao invés de emular a gringolândia, faz toda diferença no balanço. A opção bem podia ter sido essa. De qualquer maneira, um ótimo disco.

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Ao começar a rodar, “Reggae a vida com amor” (Deck Disc), do Ponto de equilíbrio, promete. Os clichês do reggae iô iô estão ausentes da parte musical, com bons timbres, levadas e produção bem feita.

Infelizmente, esses mesmos clichês estão presentes nas letras e temáticas das músicas, a começar pele trocadilho infame do título do disco. Seria excelente, se fosse instrumental. Resta torcer por uma dub version

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Apadrinhados pelo baterista Barba, do Los Hermanos, os mineiros do Latuya não negam as origens. Embora soe promissor, a mistura de rock, samba, latinidates e metais de “Alegorias gratuitas” ainda remetem muito a banda do padrinho.

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Incendiário


Franz Ferdinand: Take me out!

Quando entrou no palco para o primeiro show em São Paulo, o líder do U2, Bono, agradeceu ao Franz Ferdinand pelo show de abertura e disse, em tom de brincadeira, “ano que vem, nós abriremos para vocês”. Os fãs do U2 acharam que Bono estava sendo gentil. Quem esteve no Circo Voador e viu a única apresentação completa do FF no Brasil deve estar pensando diferente.

É difícil uma banda estrangeira passar pelo Brasil no auge, enquanto ainda é uma das atrações principais em festivais mundo afora. Mais raro ainda é esse conjunto, quando vem, tocar num lugar para 2.500 pessoas sem ser parte de um evento maior, dividindo a noite com outras atrações.

O Franz Ferdinand aceitou receber um cachê bem abaixo do usual para possibilitar a apresentação carioca. Apesar da vontade da banda de tocar no Rio, eles não sabiam o que os esperava. O público surpreendeu os integrantes, que se entreolhavam e riam quando a platéia cantava músicas inteiras. Parecia show do Los Hermanos (que, aliás, estavam lá assistindo).

Em 1h30 de show, iniciado com pontualidade britânica às 23h, o Franz Ferdinand tocou os dois discos praticamente inteiros e ainda enfiaram uma inédita no repertório. “Do you want to”, “Take me out”, “Jaqueline” e “Tell her tonight” foram algumas das mais bem recebidas. A balada “Walk away” foi cantada em coro de ponta a ponta e a excelente “Outsiders” teve direito a três bateristas tocando ao mesmo tempo, emendando numa versão monstruosa de “This fire”.

No estilo agro-boy (de blusa social vermelha para dentro da calça jeans branca e bota), o vocalista Alex Kapranos, figuraça, comandou a catarse. Pulou, fez coreografias bizarras, bateu os pés com força para marcar o tempo e rodopiou no chão solando sua guitarra. Colados no palco, alguns fãs tocavam nos músicos, para entregar cartazes ou receber palhetas.

Os que não gostavam da banda tanto assim, saíram do show gostando bem mais. A mistura de rock, punk, pós-punk e a pegada Disco funciona que é uma beleza. O Franz Ferdinand é melhor ao vivo do que em disco. É um show seco, sem firulas, direto e não por isso menos dançante. O Circo Voador sacolejou a noite toda.

Depois do show, os integrantes do Franz Ferdinand ficaram conversando, autografando capas de disco e tirando fotos com os fãs do lado de fora do Circo, na saída de serviço. O riso continuava na cara deles, de orelha à orelha.

O documentarista Don Letts (“Punk the movie”, “Punk: attitude”, “Westway to the world”, etc.) registrou o show para um DVD da banda que está preparando (nos anos 70, Letts era o DJ do Roxy Club, principal palco das bandas punks. Descendente de jamaicanos, é o grande responsável pela ponte punk-dub entre Brixton e Kingston). Pelo que se viu, essas imagens devem ocupar boa parte do disquinho.

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