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Arquivo: Urbanidades

Cedi

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Não teve jeito.

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Dub echoes, parte 2

Hoje começa a segunda e última etapa das gravações do documentário. Com o apoio da American Airlines, passaremos por Nova York, Los Angeles e Londres, a capital mundial do dub.

Na lista de entrevistados, nomes como King Jammy, Scientist, Asian Dub Foundation, Dreadzone, Groove Corporation, Kode9, Mad Professor, Howie B, Peter Kruder, Ticklah e por aí vai.

Jah guide!

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Esmolando

Ontem havia vários calouros de faculdade espalhados pela cidade. Depois dos belíssimos engarrafamentos, a rapaziada pintada e pedindo esmola pra cerveja é o principal sinal da volta as aulas, um lembrete sutil de que mais da metade do ano ficou pra trás.

O pedido dos estudantes chega a ser irônico, quase um presságio. Se eles soubessem, poupariam as forças pra mendigar depois de formado, vão precisar muito mais. Vai chegar o dia em que o pedágio será no último dia de aula.

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Chapa quente

O novo documentário de Michael Moore, “Fahrenheit 9/11″, não traz muitas novidades sobre a guerra contra o terror ou a invasão do Iraque. Nada que já não tivesse sido levantado nos meios de comunicação minimamente decentes. O grande mérito do filme é documentar muito bem todas essas histórias.

Moore faz questão de dizer que suas opiniões e questionamentos colocados no filme podem até ser contestados, mas não existe erro factual, todos os fatos apresentados foram comprovados. Ao que parece, segundo os relatos do próprio diretor, não falta gente interessada em saber mais sobre tudo isso.

A tempestade de provas provocou um misto de surpresa e indignação em boa parte dos mais de 70 milhões de americanos que assistiram ao filme até agora. Essa reação pode servir para ilustrar o quanto a imprensa local fechou os olhos — os dela e, consequentemente, os do público — para o que estava acontecendo. Mostra também o perigoso grau de credibilidade que os meios de massa desfrutam nos EUA. Afinal, essas informações circulam na internet há algum tempo, bastava ir atrás.

Quem pensa que o filme é uma campanha pró-John Kerry está enganado. Não é. Até porque, quando o candidato Democrata ainda não estava definido, Moore já havia declarado sua preferência por Wes Clark. De uma forma ou de outra, como disse a revista Time em sua reportagem de capa sobre Moore, “Fahrenheit 9/11″ é a estréia do cinema agindo diretamente como uma arma política. Dependendo do impacto no resultado das eleições presidenciais, o filme poderá ser tido no futuro como um marco equivalente ao que o debate de Nixon vs Kennedy representou para história da tv.

O filme é extremamente bem feito, seja do ponto de vista político ou cinematográfico. Se suas acusações estão devidamente documentadas, o mesmo cuidado aparece na sua estrutura narrativa. Feito para impressionar, o filme emociona ao mesmo tempo que informa. Equilibrando bem os dois lados da questão, exibe, em detalhes chocantes, os dois lados dos horrores da guerra, tanto o sofrimento americano com os atentados quanto o dos iraquianos, invadidos e humilhados.

Ao contrário do que parecia antes de estreiar, “Fahrenheit 9/11″ não corre o risco de perder importância após as eleições. Seu significado é maior que esse, o que garante que ele não deve sumir no tempo.

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Tarja Preta 02

Saiu o segundo número da Tarja Preta, editada por Matias Maxx. Nessa edição, mais quadrinhos subversivos e escrachados de gente como Arnaldo Branco e Allan Sieber.

Seguindo a tradição, o URBe sorteia três cópias. Mande um e-mail e corra o risco de receber um exemplar na porta de casa.

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Rebeldia, ainda que tardia

Marcelo D2 toca o zaralho na gravação do seu Acústico MTV.

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Dançando

Meio chupado do South Park, mas ainda assim engraçado: www.jibjab.com

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Jabá paulista

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Sexta-feira é praticamente o dia oficial da auto-propaganda no URBe. Pra não perder o costume, reproduzo a nota que saiu na coluna No Tom, publicada semanalmente no jornal Correio Popular, de Campinas.

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Perguntar não ofende

Sei não, mas a imagem de um time campeão levantando um cheque, ao invés de um troféu, não tem muito mais a ver com futebol do que com vôlei?

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Dub Echoes online

Está no ar o saite do Dub Echoes, documentário de dub que estou fazendo.

Por enquanto é só um teaser, pra marcar terreno mesmo. Logo mais vai ter um trailer e notícias sobre a produção do filme. Visitem.

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Dub Echoes

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U-Roy em ação

Esse é o nome do documentário que estou dirigindo. Idéia antiga até, acabou se tornando realidade com a ida pra Jamaica.

Os engenheiros de som jamaicanos foram os primeiros a utilizar a mesa de som como um instrumento, desconstruindo e reconstruindo faixas pré-gravadas, aplicando efeitos, inventando técnicas e criando nesse processo não somente novas músicas, como também um novo gênero: o dub.

Isso no começo dos anos 70. Por conta disso, mestres como King Tubby, Lee Perry e King Jammy são tidos como os precursores do que hoje se convencionou chamar de remix. Como o nome sugere, o objetivo do filme é mostrar que as experimentações psicodélicas nos toscos estúdios da ilha ainda ecoam, influenciando tanto a sonoridade quanto a maneira como se faz música atualmente.

A primeira etapa do documentário já rendeu bastante. Falamos com boa parte dos principais personagens da época que ainda estão vivos e morando na Jamaica. Fomos recebidos por Sly Dunbar, U-Roy, Ernest Hookim e Gussie Clarke, além de Mutabaruka, Weepow, Dr. Carolyn Cooper e Clive Jeffrey. As baixas foram Sylvan Morris (que queria 200 doletas pra falar) e Errol Thompson (hoje dono de supermercado e que fugiu da gente o tempo todo). King Jammy também estava fora, mas esse eu falo na Inglaterra.

Pra concluir o filme falta exatamente isso, ir pra Inglaterra — principal centro de música jamaicana fora da ilha, um dos primeiros lugares a receber suas influências e casa “oficial” do dub hoje em dia — falar com a outra metade da história e amarrar as duas pontas.

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A demora

Fui pra Jamaica pra fazer o making of do catálogo de moda da Zack. Desse trabalho surgiram outros e fiz também um vídeo sobre o surfe na ilha, esporte começando por lá (ainda em negociação quanto a transmissão em algum canal) e uma matéria para Fluir Girls sobre a parte surf trip da viagem (as “modelos” do catálogo eram as duas surfistas patrocinadas da marca).

Além disso, voltei com boas pautas (ainda bem) e estou conseguindo emplacar algumas delas. Hoje teve uma sobre o tributo ao Coxsone Dodd, no Rio Fanzine. Deve ter também Dancehall x Funk na Folha. Sem falar num bônus que, se rolar, vai ser muito legal. Esses são alguns dos motivos, e nem são todos, do atraso das notícias da viagem aqui no URBe. Sentiu o drama?

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Ressaca

São Caetano campeão paulista, Santo André campeão da Copa do Brasil, Figueirense liderando o Brasileirão. Na Europa é a mesma coisa: Monaco na final da Copa dos Campeões e Portugal na final da Eurocopa contra Grécia ou República Tcheca. Até na última Copa do Mundo tiveram bizarrices como Turquia e Coréia do Sul nas semi.

Como diria o grande Gerson: é brincadeira?

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Tamanho G

Se você pensa que com sua conta tradicional + um Hotmail você já estava bem servido é porque ainda não conheceu o Gmail. Depois do buscador e do Orkut, o Google inaugura seu serviço de webmail e dá mais um passo para dominação mundial da informação na rede. Algo que pode vir a ser preocupante, mas isso é papo pra depois.

O Gmail ainda está em versão beta e por enquanto poucas pessoas tem acesso (recebi o convite através do Tom Leão) e o grande diferencial é o espaço de 1 GIGA para armazenamento de mensagens, o suficiente para justificar o slogan “nunca mais delete uma mensagem”. Além disso, assim como o Google e o Orkut, existem diversas funções de busca e agrupamento de mensagens bem interessantes. Outro ponto positivo é que interface é leve, o que, pelo que deu pra perceber até agora, tornou a navegação rápida, muito rápida.

E-mail é um vício perigoso. Quando você percebe, já não consegue ficar um dia sem acessar cada uma das suas diversas contas. Com o Gmail, a tendência é piorar.

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Sons, sons e mais sons

Não tem bar por aqui na Jamaica que não tenha som. As caixas, feitas artesanalmente, são o destaque, exibidas como parte da decoração e sendo motivo de orgulho dos donos dos lugares. Muito por conta disso, a lista de músicas e discos “a comprar” tá grande, cada dia trombo com uma parada nova em algum sound system.

Outro dia, viajando, passei por um bar de beira de estrada com as paredes todas pintadas com grandes nomes do reggae, com dois djs tocando do lado de fora. Simplesmente uma das paradas mais rastas da viagem. Filmei muita coisa desse lugar, ficou bem bacana.

Nesse exato momento estou na costa Leste da ilha, no lado oposto aos destinos turíticos mais procurados da Jamaica, Negril e Montego Bay. Enquanto lá redominam os resorts e o clima frio de praia particular, do lado de cá tudo é mais rural, original, jamaicano por assim dizer. É uma praia atrás da outra, cada uma melhor que a anterior, principalmente Frenchman`s Cove.

Amanhã, de volta à Kingston e novamente ao Passa Passa. Vou ver se pego os contatos, esses caras tem que tocar no Brasil.

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Ya man!

Tudo verde aqui na Jamaica. As coisas são beeeem mais tranquilas do que diziam. O difícil é se comunicar, tem vezes que se passa cinco minutos tentando entender uma frase.

Por enquanto já rolaram visitas ao Striker Lee, estúdio do Bunny Lee, à casa do King Tubby, esbarrão no Elephantman na rua, um sound system muito ROOTS em downtown, making of do novo filme do Rick Elgood, bastante cerveja Red Stripe, ital food e outras boas histórias.

E isso só nos primeiros dois dias.

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Continuem sintonizados

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De hoje, até dia 27, notícias direto da ilha mais enfumaçada do caribe. Jah guide.

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Não tem tu, vai tu mermo

Sentindo falta do Seinfeld? Passeando pelo Esquema Geral, encontrei um link (www.jerry.digisle.tv) para dois curtas publicitários que o comediante fez para Amex.

Neles, Jerry contracena com ninguém menos do que seu maior ídolo, Super-Homem. No final, a propaganda descarada corta o clima, ainda assim serve pra matar as saudades do seriado com um dos melhores textos da tv.

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Seja hippie por uns dias

Um festival de uma semana, com performances artísticas 24h por dia, em pleno deserto e onde transações monetárias são proibidas. Nada disso explica completamente o que é o Burning Man, evento multimídia que faz o Woodstock parecer coisa de yuppie.

Fundado por Larry Harvey, um hippie tardio que chegou à California no final do movimento, o Burning Man começou em 1986 numa praia de São Francisco, quando, numa espécie de ritual espontâneo, Larry construiu um boneco e o incendiou. A fogueira, mesmo sem um sentido definido, atraiu bastante gente e inspirou o nascimento do evento que, desde 1990, acontece em Black Rock, Nevada. Em 2003, mais de 30 mil pessoas passaram por lá para assistir um boneco de mais de 10 metros queimar.

O lance é uma grande comunidade alternativa temporária em que, paradoxalmente, as pessoas pagam 250 dólares pelo direito de passar 7 dias longe do capitalismo. Em Black Rock, nada é vendido — a não ser gelo e café, com renda revertida para projetos sociais — e quem for pego negociando qualquer coisa é expulso.

Além disso, cada um é responsável por trazer tudo que seja necessário para sobreviver por uma semana, de água a papel higiênico, e todo o lixo produzido tem que ser levado junto com o seu proprietário na hora de ir embora.

O saite do evento, que esse ano acontece de 30 de agosto a 6 de setembro, não deixa claro que tipo de atrações se apresentam além dos próprios participantes, mas ressalta para os mais animadinhos que não se trata de uma rave. O grande objetivo é conhecer pessoas e conviver em harmonia. Só indo pra ver se funciona.

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Sound System

A Jamaica tem se mostrado um lugar engraçado. A quantidade de situações absurdas que se vê e vive por aqui é impressionante. Todo dia acontece alguma bizarrice digna de nota, aquele tipo de historia que é difícil botar em palavras. Ainda mais com pressa, então vou ficar devendo detalhes.

Sem dúvidas, a coisa mais complicada aqui é falar de dinheiro. Os jamaicanos são arredios quando esse é o assunto, o que pode acabar transformando uma simples negociação do preço de uma corrida de táxi (que aqui não tem taxímetro, veja só) em uma discussão político/social, remontando aos tempos da colonização inglesa. Isso quando dá pra entender o patois dos locais.

Nesses últimos dias consegui completar parte da missão na ilha. Entrevistei Sly Dunbar, U-Roy, Mutabaruka, Gussie Clark, Dr. Carolyn Cooper (coordenadora do Reggae Studies Unity da universidade West Indies, Kingston) e Clive Jeffrey para o documentário que estou fazendo (acho que ainda não falei disso no URBe), que havia comecado meio torto e agora começa a tomar forma. Também conheci mais dois sound systems, Stone Love e Passa Passa, esse último no meio do gueto, entre Trenchtown e Tivoli Garden, dois lugares BEM barra pesada de Kingston.

Os sound systems são, sem dúvida nenhuma, a grande atração da Jamaica. Como toca de tudo, de roots a dancehall (“the selecta must praise everybody”, me disseram), é a melhor maneira de conhecer novos sons. É tambem o lugar onde se encontra as maiores figuras, desde gente dançando no estilo, até negras enormes, vestidas com roupas de vinil cor-de-rosa muito apertadas, além de vendedores carregando galhos de maconha como se fossem buquês de rosa. Deu pra imaginar o cenário?

Nesses lugares não costuma ter muitos estrangeiros, é a galera local mesmo que comparece. Apesar do clima tranquilo, claro que não dá pra um branquelo como eu ir sozinho — tem que contratar um amigo jamaicano pra ir junto — e muita gente vem pedir dinheiro ou oferecer qualquer coisa. Mas tem também gente que se aproxima só pra perguntar o que você está fazendo ali, positivamente surpresos com sua presença naquele lugar.

O que fica cada vez mais clara é a importancia que a música desempenha no cotidiano dos jamaicanos. É o assunto predileto nas ruas, dá pra conversar sobre riddims ou artitas obscuros com praticamente qualquer um. Como é o futebol no Brasil.

Ainda não entendi bem porque estou tendo essa impressão, mas parece que a paixão deles pela música talvez seja ainda maior do que a dos brasileiros. Mas isso é coisa pra pensar em casa, na volta. A única maneira de começar a entender é assistindo a galera se balaçando em frente a uma pilha gigantesca de caixas de som, cuspindo graves e grooves assassinos.

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Acabou o blog, começou o saite

Após um ano, o URBe rendeu tudo que podia render no formato de blog. A idéia inicial — ser um espaço livre, para escrever sem restrições — foi superada e o blog foi além: serviu de cartão de visitas profissional, como catalisador de novas amizades e, o mais legal, como ponto de troca com vocês, meus quatro leitores.

Agora começa uma nova fase, um pouco mais interessante, onde o grande diferencial é a organização (uma obsessão particular). Cortesia do dizáiner Antonio Pedro. Agora os textos serão divididos por categorias, facilitando a leitura e o arquivamento. Além disso, deixo de ser refém dos humores do blogger e não corro o risco de ser deletado a qualquer momento.

As sessões serão abrangentes. Em “música” entra tudo relacionado ao tema, menos críticas de shows e discos, que vão estar em “resenhas”. “Urbanidades” é aquilo lá, política, cinema e pensamentos gerais. A “agenda” veio pra resolver uma reclamação recorrente, de que nunca rolava avisos ANTES das boas. Em “imprensa” entram links para minhas matérias publicadas por aí e a “links” é auto-explicativa.

No mais, as coisas vão mudando com o tempo. Isso aqui está 80% pronto, ainda faltam uns detalhes para ficar redondinho, como terminar de instalar o sistema de busca e o de mailing e alguns links quebrados.

Mas isso começa a ser feito amanhã, hoje tem uma festa me esperando.

(atualizem seus links, o endereço agora é esse, www.gardenal.org/urbe)

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Harmonia Armorial

O produtor cultural Felipe Boclin conferiu o lançamento do disco do Gesta, conta como foi e aproveita pra dar um toque sobre o Movimento Armorial.

Numa noite em que os holofotes estavam virados para a primeira noite do Chivas Jazz Festival, aconteceu, na modesta arena do Sesc Copacabana, uma noite gloriosa. Daquelas que acontecem de repente, no improviso, onde a emoção toma conta do ambiente. Uma daquelas noites que depois de um show você tem certeza que alguma coisa mudou.

Foi na quarta-feira, durante o lançamento do disco do grupo carioca Gesta, filhos do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna em Pernambuco na década de 70.

O movimento tem manifesto, estética própria e objetivo artístico. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do Brasil. O Auto da Compadecida — que todo mundo já viu — foi uma adaptação da peça com o mesmo título de Suassuna, escrita em 1955. A grande característica da música armorial é que ela é imaginária, provoca cenas de um mundo fantasioso e fantátisco.

Ariano Suassuana é um mito, criador de um movimento moderno e contemporâneo ao mesmo tempo que é folclórico e tradicional. Ele está para a cultura como Glauber Rocha para o cinema, Jorge Amado para literatura, Villa-Lobos para os músicos eruditos, Cartola para os compositores populares. Enfim, essas almas que rondam o imaginário de nossas criações.

O Sesc estava completamente lotado quando apareceu na porta de entrada do Teatro, todo de branco, com seus quase 2 metros de altura, Ariano Suassuna. Sim, era como estar diante de um mestre, uma emoção sem palavras. Mais de 200 pessoas que ali estavam levantaram e começaram a bater palmas durante pelo menos 2 minutos. Foi um momento único.

O show foi iniciado pelo próprio, citando parte de sua obra Romance de Minervina com o Pequeno Cantar Acadêmico a Modo de Introdução do Romance da Pedro do Reino, acompanhado pela rabeca. O Gesta, formado por Pedro Pamplona (flautas), João Bina (Marimbau), Fábio Campos (Violão), Edmundo Pereira (Viola Caipira) e Daniel Bitter (Rabeca), apresentou o repertório do disco “A chave de ouro do reino vai não volta”.

Mesmo diante de um visível nervosismo dos integrantes, apresentação foi perfeita. No final mais uma surpresa. Durante os agradecimentos, um senhor pegou o microfone e disse: “são esses homens, esses guerreiros da luz, que um dia serão lembrados como aqueles que mudaram o rumo de uma nação que raras são as pessoas que a entendem. Viva a cultura brasileira! Viva o Brasil!”. O teatro veio abaixo.

Pode parecer piégas e nacionalista, mas a celebração naquele momento era para a beleza, para a Arte e para toda uma cultura que resiste aos modismos, aos desistereses e a corrupção. Numa época que reina a tecnologia e a indústria do entrenimento, a arte, pura e simples, sem intervenções, continua sendo a única capaz de proporcionar momentos como os de ontem.

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Satisfação geral

Eu tenho que ter um blog. Isso mesmo, não é opcional, descobri isso há pouco tempo. Em praticamente todas as conversas profissionais que tive recentemente (com editores, coleguinhas, etc.) ouvi a pergunta, “você tem um blog onde eu possa ler seus textos?”. Então aí está.

O URBe vai falar de urbanidades, música e comportamento. Discos, shows, ataques terroristas (a ônibus ou a países árabes), picaretagem política, tudo isso vai aparecer por aqui. E o blog já chega com uma boa notícia: vai desentupir a caixa de e-mail de muita gente. Isso vai acontecer porque o fluxo de informação vai ser invertido. Ao invés de mandar vários e-mails com textos e assuntos que julgo interessante (o que era muito cômodo), quem tiver curiosidade pode vir até aqui. Mas é claro que de vez em quando ainda vou mandar umas mensagens avisando das atualizações.

Pra começar, botei alguns textos antigos que alguns já receberam por e-mail. Assim, quem não leu tem a chance de ler e, quem já leu, pode reler. Terça-feira inauguro o espaço com um texto inédito. Na primeira atualização, cobertura (gonzo?) do Skol Beats.

Até.

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A moeda de um lado só

07/11/02

1h40, madrugada de quarta para quinta-feira. Estava num carro com dois amigos parado no sinal da esquina das ruas Visconde de Albuquerque e Mário Ribeiro, cruzamento do canal do Leblon com a Lagoa-Barra. De repente, uma Cherokee bate na traseira. Saímos para ver o que havia acontecido, o motorista da Cherokee continuou dentro do carro até que o convidamos para sair. A história começa aqui.

Bêbado, como era de se esperar de alguém que bate em um carro parado no sinal, o sujeito não conseguia entender nada e perguntava o que acabara de acontecer. Chamamos a polícia, apesar da insistência para “resolvermos isso entre a gente”, e ficamos aguardando a chegada da patrulha. Nesse meio tempo o motorista tentou fugir. Ou melhor, fez menção de fugir, já que mal conseguia ficar em pé, e teve que ser contido. Arrancado à força de dentro do carro, o homem exigia respeito, argumentando com frases como “eu estou bêbado, porra!”, ou “vocês tem que entender que eu estou doidão!”.

A polícia chegou e durante as identificações descobrimos que o bêbado de respeito era Segundo Tenente da Aeronáutica. Não foi carteirada, era simplesmente sua profissão.Como dá para imaginar, a partir daí os policiais ficaram receosos. Toda a burocracia, Brat, BO, foi cumprida, ficou faltando só uma coisa: a multa por dirigir alcoolizado e apreensão do veículo do bêbado. Os dois policiais eram daquele tipo que dificilmente se encontra de madrugada: solícitos, eficientes e educados. O único problema era que estavam lidando com um superior. Um deles explicou que dirigiria o carro do Tenente até em casa e que nós estávamos liberados. Falei da importância daquela multa e de como fazíamos questão de que ela fosse emitida. O acidente foi uma bobeira, mas poderia ter sido algo muito maior, afinal estávamos na esquina da Lagoa-Barra e se não fosse nosso carro para impedir a trajetória, sabe-se lá onde ele ia bater. Ninguém tem nada a ver com sua irresponsabilidade, pior ainda se era um militar. Nós também não tínhamos.

O policial me olhou e sem dizer uma única palavra ficou claro que não podia fazer nada. Não precisa nem pensar muito para perceber que, se decidisse de fato multar o Tenente, teria que arcar com as conseqüências sozinho. Diante da situação grotesca, nojenta mesmo, só nos restou ir embora. Fazer o quê? Insistir numa multa que provavelmente seria revogada e que só traria conseqüências negativas para o policial? Ainda mais porque parecia pelo menos estar, dentro das suas limitações, tentando fazer seu trabalho corretamente. E de impunidade em impunidade construímos o Brasil. Na volta para casa fomos abordados por outro carro da polícia, desta vez com dois policiais que facilmente se encontra de madrugada. A dura, com o requinte de pistolas em punho, mão na cabeça! e todo o resto, não tinha objetivo nenhum. Tanto é que a dupla desistiu de nós quando avistou uma confusão num bar próximo, despedindo-se dizendo que tinham que “ir ali dar umas porradinhas”.

Em uma noite vivenciamos os dois lados da mesma história, o nem tão certo e o errado. Aliás, falar em certo tem ficado tão difícil que temos que nos contentar com o quase. Independente das posturas antagônicas, tanto a primeira quanto a segunda dupla de policiais pertencem ao mesmo grupo. Fazem parte de uma moeda de um lado só.

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É legal ser underground

15/01/2003

A questão é a seguinte: virou bacana ser underground. Pero no mucho. Para isso – usando o termo cunhado pelo autor do texto – a mudernidade resolveu suprimir o under do underground, recriar esses ambientes e torná-los mais palatáveis. Essa onda de churrasco em laje é coisa de quem vê editorial da Vogue francesa em favela e passa a achar bonito a pobreza, como se estivesse tão distante disso tudo quanto, na realidade, se está de Paris. Assim como essa roda de samba asséptica, em clima fake e platéia idem, se lixando para a música e preocupados com todas outras coisas. E o pior, com cerveja à R$3,50!, que foi o que mais me irritou quando eu fui na primeira, em novembro, e não agüentei ficar mais de 20 minutos.

Esses programas hype, mas que você não frequenta, não incomodam tanto. O problema são os lugares que você normalmente frequenta e que de repente se tornam insuportáveis. Os pitboys e a pleiboisada em geral, masculina e feminina, são um problema sim. Todos os programas legais do ano passado (Juarez, Orquestra Imperial, Reggae B, etc. Até mesmo o Monobloco, por que não?), que indicavam um verão animado na seqüência, foram destruídos por essa galera que está cagando para o lado cultural e só aparece para encher a cara, chegar em mulher (nas solteiras, nas que estão a fm, nas que estão só querendo ver o show, nas que já estão com alguém…) e tumultuar. Mas o que me intriga mesmo é outra coisa. Não sei mais se é esse pessoal que aparece onde não devia ou se esses programas cedem e estão buscando esse público. Afinal, ninguém quer ser cultura paralela a vida toda, sobretudo porque não dá dinheiro. Exemplo: A roda de samba do Juarez, na última vez que eu fui, tinha virado um pagodão. Trocaram a banda, trocaram o repertório, e com isso trocaram também o público. Melhor? Pior? Depende para quem. Antes iam algumas pessoas, escutar bons sambas num clima de paz. Depois das mudanças não é mais possível passar de carro naquela rua, pegar uma cerveja é uma missão ingrata, e o som… Fico me perguntando por que que esse pessoal que não está muito preocupado com o lado cultural, que só sai de casa para azarar e bater papo – direito deles, claro – não vai a programas que se adequem mais a isso. Festa-show das Oi e Tim da vida, apresentações do iletrado Rogê, etc. A programação é farta.

Porém, existe solução. Quer roda de samba? Vai para Lapa! Quer curtir bateria de carnaval ou blocos? Aparece numa quadra de escola de samba ou no Cordão do Bola Preta! Quer experimentar a cultura dos marginalizados? Ao invés de subir em uma laje da zona sul busque um projeto social numa comunidade carente e vá à confraternização de final de ano numa laje de verdade! Agora, se quiser ver fusão de bossa nova com música eletrônica, vá assistir o Bossacucanova no Ballroom mesmo! Lá não tem maquiagem.

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