OEsquema

Arquivo: 2008

As árveres samo nozes


foto: Louise Pedroso

Sem me dar conta de que o lugar estaria repleto de pessoas assistindo o show de luzes da árvore de natal no começo da noite, optei pela ciclovia da Lagoa em vez da praia, como caminho mais prático. Quando percebi, já era tarde demais.

Pra minha surpresa, em vez do tumulto, desordem e confusão comumente associados ao que acontece nas margens e no entorno da Lagoa nessa época do ano, as coisas estavam até bem calmas.

Diversas pessoas de várias partes da cidade, crianças, além de turistas brasileiros e estrangeiros, tiravam foto e caminhavam tranquilamente pela mal iluminada ciclovia. Deu gosto de ver tanta gente curtindo a cidade, numa boa.

Bastou algumas pedaladas em direção ao epicentro, perto da Faculdade da Cidade, para tudo mudar de figura: dezenas de barracas de cachorro-quente, churros e tapioca ocupavam o espaço das bicicletas, carros parados em fila dupla interrompiam o trânsito, ambulantes estressados xingavam quem estivesse na frente “atrapalhando” seus negócios…

O Rio de sempre. Com suas ilusões e realidades.

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Carência


Sonny Rollins
fotinho fora de foco, feita lááá de longe
URBe Fotos

Para muito além da música, é impressionante como um evento cultural (como o Tim Fest) pode falar tanto de uma cidade (como o Rio) e do estado das coisas.

Um dos dias mais estranhos desse último ano em Londres foi quando descobri, por acaso e apenas no dia seguinte, que havia ocorrido uma etapa do Red Bull Air Race na cidade. No dia do evento, circulei bastante e não notei nada de diferente. Nenhum tumulto, nada de confusão. A corrida só aconteceu para quem esteve interessado em acompanhar.

Quando esse evento (ou outro do mesmo tamanho, ou até menor) acontece no Rio, a cidade pára. Não interessa se você não se importa com corrida de aviões, você está fadado a passar o domingo preso em engarrafamentos e outras alegrias do gênero.

O motivo é muito claro, tem a ver com a carência (não só) do Rio por grandes eventos minimamente bem produzidos — além, óbvio, da infra-estrutura precária. Lembrei dessa história ontem, durante o show do Sonny Rollins.

É essa carência que desperta a quantidade gigante de reclamações em relação ao evento, da produção a escalação. São tão raras as chances de se ver algo interessante que faz disparar o nível de exigência quando elas aparecem, no que em outras circunstâncias deveria ser apenas um show.

Se isso explica os ânimos exaltados em relação ao Tim Fest 2008, não justifica erros como o PA magrelo, sem graves e estalando, os atrasos e o desrespeito com as leis.

Uma das principais reclamações é em relação ao preço dos ingressos, absurdos de caro, ainda mais se comparados com os 100 reais cobrados pelo Planeta Terra pra ver todos os shows da escalação oferecida por eles.

A julgar pelos comentários que se ouvia antes do show, Sonny Rollins deve ser um dos maiores nomes da música no Brasil. A quantidade de vezes que eu ouvi “cara, não perderia esse show por nada, ele é incrível” (o adjetivo da vez, incrível, normalmente é dito com uma expressão meio blasé) faz pensar porque o show do sujeito não é uma data oficial do calendário do Rio.

Carioca é um bicho esquisito. Qual o problema de dizer que estava indo lá atrás da lenda, para conhecer mesmo? Acredito até que essa é uma das funções do evento, divulgar e criar público para a boa música. Não sou entendido em jazz (o que eu conheço um pouco mais e gosto é o samba-jazz brasileiro) e não vejo problema em admitir que se ouvi três músicas do Rollins na vida, foi muito.

O show foi OK, muito prejudicado pela tradicional má qualidade de som (fritando sem parar), por uma iluminação multi-colorida mais apropriada ao Cirque du Soléil e, principalmente, pelo tamanho do lugar. Será sempre um mistério incompreesível porque investem tanto dinheiro em cenografia em vez de equipamentos (e técnicos!) de som de qualidade, num evento de MÚSICA.

Certamente a intenção ao colocar o Sonny Rollins no maior dos palcos foi a melhor possível. Acontece que um show de jazz não cabe num lugar daqueles. Como alguém comentou, “jazz não combina com PA”. Ainda mais com os BPM lentos das músicas tocadas. Perdido, lá no fundo da tenda, entre o vai e vêm das pesssoas, a reação involuntária era a dispersão.

Nas mesas em volta a fumaça subia, sem pudor, apesar do aviso de “proibido fumar” e de uma lei em vigor no Estado. Perguntei ao segurança a respeito disso e a conversa foi curiosa.

Segundo ele, a “orientação era pra não incomodar quem estivesse fumando”. Ué, mas não é uma lei? “Pra você ver…”. Num momento em que se fala tanto em mudanças, é assustador ouvir um troço desses. Mudanças, sim. Lá no quintal dos outros, né.

Na Casa da Matriz, onde a fiscalização está batendo forte, contam que a orientação aos seguranças é bem outra. Na marca do pênalti pra perder a licença, a Casa está cumprindo a lei bonitinho. Como no exterior, além da educação, é a pena que faz a lei ser seguida. A produção do Tim Fest talvez não esteja preocupada com a fiscalização.

Como ia dizendo, um simples evento de música pode falar muito de uma cidade e sua sociedade. Vai vendo.

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Tim Fest 2008

Saiu a escalação da mais mansa de todas as edições do TIM Fest 2008.

Rio de Janeiro

Marina da Glória

23/10 – 20h
Rosa Passos

23/10 – 21h
Sonny Rollins

24/10 – 20h
Carla Bley / Stacey Kent / Esperanza Spalding

24/10 – 21h
Kanye West

24/10 – 22h
The National / MGMT

25/10 – 1h
Instituto apresenta “Tim Maia Racional”

25/10 – 20h
Bill Frisell / Tomasz Stanko / Enrico Pieranunzi

25/10 – 21h
The Gossip / Klaxons / Neon Neon

25/10 – 22h
Marcelo Camelo / Paul Weller

26/10 – 1h
Tim Festa: Dan Deacon / DJ Yoda / Sany Pitbull / Música Magneta / Junior Boys / Gogol Bordello / Switch / Database

São Paulo

Auditório Ibirapuera

21/10 – 20h30
Sonny Rollins

22/10 – 20h30
Carla Bley / Stacey Kent / Esperanza Spalding

23/10 – 20h30
Marcelo Camelo / Paul Weller

24/10 – 20h30
Bill Frisell / Tomasz Stanko / Enrico Pieranunzi

25/10 – 20h30
Rosa Passos

Parque do Ibirapuera

22/10 – 21h
Kanye West

23/10 – 21h
The Gossip / Klaxons / Neon Neon

24/10 – 19h
Tim Festa: Dan Deacon / DJ Yoda / Sany Pitbull / Música Magneta / Junior Boys / Gogol Bordello / Switch / Database

25/10 – 21h
Cérebro Eletrônico / MGMT/ The National

Auditório Ibirapuera – ao ar livre

25/10 – 11h
Sonny Rollins

Vitória

Teatro UFES

25/10 – 20h30
Stacey Kent / Carla Bley

26/10 – 20h30
Siba / Gogol Bordello

27/10 – 20h30
The National / MGMT

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Santa

Do show do Friendly Fires, direto para a Santogold. A cantora tem sido tão comentada ultimamente que é fácil classificá-la como um grande hype, com toda carga negativa que o termo hoje carrega.

O detalhe é que, aqueles que vencerem a preguiça de conferir mais uma artista-da-vez, vão dar de cara com um bom disco. Uma coisa pode-se dizer: ninguém faz músicas como “L.E.S. artistes” e “Creator” e “Shuv it” se não tiver pelo menos algum talento. Nem que seja o de escolher bem de quem se cercar.

Depois de se juntar a Swich para produzir o disco, Santogold começa bem ao decidir se apresentar com uma banda (baixo, bateria, DJ, dois teclados e duas cantoras de apoio) em vez de apenas cantar sobre bases eletrônicas que não enchem um palco. Porém, a vontade de mostrar que é mais que uma fugaz estrela internética é tão grande que atrapalha.

A banda, uniformizada, fica espalhada pelos cantos, deixando um enorme vazio no centro do palco que Santogold, mesmo com bastante carisma, voz e simpatia, não consegue preencher. A coreografia robótica das duas cantoras de apoio, boa parte do tempo paradas como estátuas, funciona bem no começo, mas cansa rápido.

O som é bom, mas ao vivo falta pressão, o show não decola. Pode ser a grande flopada do TIM Fest 2008, maior até do que a M.I.A. em 2005. A ver.

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Simpatia


Friendly Fires, “Ex Lover”

Divulgando o disco de estréia, o Friendly Fires (já entrevistado aqui no URBe) fez um show na loja Pure Groove, em Londres.

Após a apresentação, os integrantes contaram sobre a apresentação no Reading Festival, em que contrataram percussionistas brasileiros para tocar com eles em “Jump in the pool” e falaram um por um, inclusive o empresário, que estão desesperados pra tocar no Brasil.

O show foi cedo, deixando tempo suficiente para correr para o Koko e conferir a Santogold.

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“Sabe o que é um argentino feliz?”

Olha que a analogia não é nada boba, hein… Essa busca pela perfeição, essa disputa entre nações…

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No caminho do bem

De passagem pelo Rio, ainda que esse ano o festival esteja acontecendo em Copacabana (quebrando o trocadilho famoso), a oportunidade de comparecer ao menos a uma noite do Humaitá pra Peixe, e assim não quebrar a sequência de anos ininterruptos sempre presente, era imperdível. A escalação ajudava: Do Amor e Vanguart.

O Do Amor é a banda-paralela-que-quer-virar-principal de músicos conhecidos do circuito carioca. O baixista Ricardo Dias Gomes, o baterista Marcelo Calado (ambos tocando com Caetano hoje em dia) e os guitarristas Bubu (músico de apoio do Los Hermanos) e Benjão (ex-Carne de Segunda e o menos conhecido dos quatro) se juntaram para se divertir e tirar uma onda.

As letras divertidas, levadas de guitarra com a baianidade do axé (uma das músicas se chama “Pepeu baixou em mim”) e uma despretensão contagiante disfarçam arranjos elaborados e uma musicalidade difícil de se perceber sem prestar muita atenção. O produtor Berna Ceppas, amigo da banda, classificou o show de clássico. Muita gente não entendeu, incluindo o escriba aqui.

De Cuiabá para para o Rio, o Vanguart, ao vivo, apresenta os mesmos problemas do seu disco de estréia.

A banda é azeitada e a voz de Hélio Flanders se destaca nas ótimas canções folk. O problema é uma falta de coragem, ou estrada mesmo, para acreditar neles próprios, soltar o corrimão e andar para longe das referências.

O vocal emula demais Thom Yorke e Bob Dylan e a postura calculadamente desleixada atravanca o caminho, como a trapalhada do baixista e do guitarrista, desnecessariamente dividindo os coros no mesmo microfone e acabando por derrubar o equipamento, podem exemplificar.

Problemas pequenos para uma banda com muito potencial. Acompanhando-se no violão e na gaita, sozinho no palco, Hélio colocou o a Sala Baden Powell no bolso num dos momentos mais bacanas do show, o que não é pouca coisa.

Fica cada vez mais difícil entender o porquê da insistência nas letras em inglês e algumas em espanhol, se as feitas em português funcionam bem melhor. Mesmo porque a pronúncia (o sotaque nem é problema) não é das mais perfeitas.

Como algumas das melhores canções do grupo são justamente as que recebem as letras em idioma estrangeiro (como a cantada no momento solo de Hélio no palco), fica o palpite que talvez o Vanguart esteja almejando uma carreira internacional. O que é um desejo justo e justificaria a insistência.

Se a idéia não for essa, por favor, português, porque devem ter mais uns cinco “Semáforo”, sucesso alternativo do grupo, no meio daquelas músicas, esperando pra acontecer.

Demonstrando muita presença de espírito, o grupo encerrou o show atendendo os pedidos de “toca Raul!” com uma versão de “Medo da chuva” que de improviso não tinha nada. Era o mesmo arranjo que o Vanguart tocou no programa Som Brasil, da TV Globo, dedicado a Rauzito.

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