Que ano o Phoenix vem tendo desde o lançamento do melhor disco de 2009, “Wolfgang Amadeus Phoenix”.
Eleitos os artistas do ano no Hype Machine, os franceses Tocaram no Saturday Night Live, fizeram coletânea pra Kitsuné e falaram dos seus artistas favoritos, gravaram vídeos por Paris, fizeram shows especiais em estúdios de rádios, lançaram um disco oficial de remixes, foram remixados por uma outra penca de produtores, apresentaram-se no Central Park…
O que mais podia faltar, você pode perguntar. Acertou quem lembrou do famigerado acústico. Não mais. Gravado num show em Hamburgo, o EP não-oficial “Live & Unplugged” preenche essa lacuna.
Vai saber o que mais vem da banda por aí. Tomara que um próximo disco a altura desse último.
Dica do Antológico.
Piada irrestível: um dos melhores momentos, o TWBA em silêncio
Semana passada o The Whitest Boy Alive tocou no Rio e, pra resumir em uma palava, foi uma catarse. A platéia adorou, cantou junto como se todas as músicas tocassem no rádio e a banda brincou por uns momentos de ser maior do que é.
Voto vencido, fui dos poucos que não acharam isso tudo.
O baterista é um relógio, não erra nada. O problema é ser preciso demais para um som que pede suingue. O baixista, animalesco, até ajuda a balançar a coisa e o tecladista faz o papel principal, criando as melodias e fazendo a cama.
O problema pode ter sido o líder da banda, o guitarrista e vocalista Erland Øye, que passa boa parte do show dando esporro da platéia que fala demais — “como há quatro anos atrás”, disse, referindo-se ao show do Kings of Convenience no TIM Fest.
Os discos são muito bacanas. Ao vivo, sei não, falta sal naquilo ali.
Lucas Santtana & Seleção Natural, “Nighttime In The Backyard”
fotos e vídeo: URBe
Mesmo morando na cidade, show do Lucas Santtana no Rio é coisa rara. A turnê de lançamento do “Sem Nostalgia”, rodou o Nordeste, foi a São Paulo e ainda não tinha aterrisado por aqui.
Só isso já valeria a ida ao Vale Open Air. Some a oportunidade de ouvir ao vivo as canções do quarto disco do baiano, um dos melhores do ano, e o programa era praticamente obrigatório.
Como se não bastasse, havia ainda mais um atrativo. Para facilitar a agenda de shows e, principalmente, baixar os custos da turnê, Lucas montou três bandas diferentes: uma no Rio, uma em São Paulo e uma na Bahia.
O repertório pode ser o mesmo, porém cada formação da Seleção Natural traz sua própria pegada para os arranjos, transformando as músicas e tornando as apresentações em cada um desses lugares mais especiais.

Lucas Santtana
A escalação de cada formação é de luxo. Não tem reserva, é só titular.
No Rio, acompanhados da guitarra nervosa de Gustavo Benjão (com o qual formam a banda Do Amor junto com Gabriel Bubu), o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes constróem as bases, enquanto David (efeitos e sampler) e Lucas Vasconcellos (do Binário e Letuce, nos teclados Rhodes e Mini Korg) criam as camadas e atmosferas.
Na Seleção Natural, Marcelo e Ricardo eles podem escancarar a faceta Sly & Robbie da dupla, quando a comparação com os jamaicanos vai além do fato de serem uma das cozinhas mais entrosadas da música brasileira. Com a forte influência do dub nos arranjos, desde antes de “3 Sessions In a Green House” até, os dois podem amassar a platéia sem dó.

Monome
“Sem Nostalgia” é um disco experimental. Inteiramente gravado utilizando apenas sons extraídos do violão, o resultado final soa como uma banda completa. Os métodos para se conseguir os mais variados sons e os processos aos quais foram submetidos é que enriquecem os arranjos.
Transpor essas músicas para o palco é complicado. Ainda mais porque algumas delas são bastante delicadas e bem resolvidas. Nesse sentido, Lucas Vasconcellos conseguiu uma façanha ao adicionar uma cama de teclados na balada “Nightime In The Backyard”, umas das melhores do disco, fazendo a canção crescer no palco.
Agora que só se apresenta totalmente sóbrio, em nome de melhorias no vocal, Lucas Santtana encontrou no Monome o parceiro perfeito. Tocando o sequenciador como um instrumento ritmico, Lucas batuca séries de programações, acompanhadas de luzes classudas.
A grande lástima é que muito provavelmente, Lucas Santtana será dos poucos que poderá conferir a apresentação com as três formações.
Seria uma beleza poder assistir o show de novo com a banda de São Paulo (Regis Damasceno - guitarra; Rian Batista - baixo; Bruno Buarque - bateria e mpc; e Dustan Gallas - Rhodes e sintetizadores) e da Bahia (Roberto barreto – guitarra; Seco - baixo; Emanuel Venâncio - bateria; Mangaio - sampler e sintetizador; e Jelber oliveira – Rhodes e sintetizador).
Num mundo ideal, haveria um show misturando todas elas. Nem que fosse para um DVD.
A estranheza que a sonoridade do Dirty Projectors desperta beira o desconforto. Ritmos prevalecem sobre a melodia, harmonias vocais vão pra um lado e baixo e bateria pro outro, dando apenas algumas folgas para platéia achar que entendeu e vai dar pra acompanhar o resto.
É um pique-pega em que a banda está sempre a frente. Por isso não espanta o fato do Teatro Odisséia não ter recebido um grande público, ainda que houvesse mais gente do que se esperava. Sem falar que o Fla assumiu a liderança do Brasileirão horas antes e a comemoração virou o principal programa da noite.
“Stillness Is The Move”
O show prende tanto a atenção que, quando você finalmente entra na onda, acaba. A estrutura das músicas são muito interessante e bem montadas, encaixando passagens e trechos dispersos de maneira retalhada e ainda assim fazendo sentido.
Até o som do Odisséia, um dos piores do Rio, colaborou. Infelizmente, a apresentação começou com mais de duas horas de atraso, num domingo a noite, o que não é exatamente uma novidade e certamente colaborou para ausência de muita gente.
Quem lá esteve, no entanto, se encantou com a banda. Até os integrantes, conhecidos por sua postura fechada tanto no palco quanto fora dele, estavam soltinhos, fazendo piadas e rindo sem parar.
É raro ter a chance de ver uma banda tão pouco preocupada com fórmulas pop tocando por aqui, ainda mais num lugar pequeno. Quando pinta, tem que aproveitar, inclusive para possibilitar novos eventos. É uma pena que mesmo quem curte não se dá conta da importância do apoio od público para se criar uma cena, um circuito.
“Start Wearing Purple”
Quem pensou que o festival Indie Rock não contava com uma grande atração, capaz de arrastar público para encarar a desesperadora acústica da Fundição Progresso, foi surpreendido, duas vezes quase.
Mas só quase, porque o som da Fundição continua ruim, porém melhorou um bocado com algumas reformas acústica. Quem sabe um dia acerta.
O Gogol Bordello estava em casa em sua segunda apresentação no Rio, provavelmente ajudado pela catequização Lapa afora feita pelo vocalista Eugene Hutz durante a longa temporada que passou na cidade.
Seriam os ciganos o novo Manu Chao? JP Cuenca arriscou um “The Clash com Chiclete Com Banana”. A comparação logo começou a ser repetida, com maldade. Um engano. Não apenas é uma boa combinação, como o Gogol Bordello prova que daria certo, se esse for o caso.
As cerca de 2 mil pessoas presentes pularam sem parar e pareciam ter ido lá mesmo para assistir mais uma apresentação teatral do grupo, deixando o resto da escalação (Holger, Super Furry Animals e El Mató A Un Polizia Motorizado) como abertura de luxo.
Empolgadões, comunicando-se com a platéia através de cartazes com frases em português, o Super Furry Animals fez um bom show no festival Indie Rock, sábado pasado. Até Nick McCarthy, do Franz Ferdinand, fez uma participação especial através os mesmos cartazes.
Mais as outras apresentações do festival (Gogol Bordello, Holger e El Mató A Un Polizia Motorizado) já já. Pra quem perdeu, fica a belezura “Juxtaposed With U” de presente.

Nação Zumbi no Circo Voador
foto: leojorge
Num final de semana disputado, repleto de shows internacionais em São Paulo (com os festivais Planeta Terra e Maquinária), Belo Horizonte (festival Eletrônica) e mesmo no Rio (Ellen Allien na Moo), um dos melhores programas não foi exatamente uma novidade: Nação Zumbi no Circo Voador.
Som redondinho, graves pesados, repertório infalível e casa cheia. Não tinha como dar errado.
Com o Circo abarrotado para ouvir um dos discos mais importantes da música brasileira, “Da Lama Ao Caos”, ser tocado na íntegra e na ordem, pintou até um elemento surpresa. Não se pode chamar exatamente de pontualidade, já que estava marcado para as 22h, mas um show no Circo começar as 0h30 merece comemoração.
“Rio 40 graus, quem não aguenta passa mal”, cantou o guitarrista Lúcio Maia, citando “Terremoto”, do Turbo Trio. Originalmente a letra fala em 50 graus, temperatura mais próxima da realidade.
Em meio a suadeira intensa, a banda foi saudada com uma adaptação do canto da torcida do Flamengo para o goleiro Bruno (”Puta que pariu / É a maior banda do Brasil / Nação!). “Só se for porque tem oito caras no palco”, brincou Jorge Du Peixe.
Além da formação original, Fred Zero Quatro, pedra fundamental do mangue beat e figura central até mesmo no disco da Nação em questão, participou de quase todo o show, curtindo justamente a celebração. Seu Jorge e Pitty também deram canja.
O Circo Voador e da Nação Zumbi tem histórias paralelas que se confundem. Como a própria banda ressaltou, eles evoluíram junto com o espaço.
De uma tenda na Lapa, o Circo passou a melhor casa do Rio, com direito a uma longa crise, quando a casa foi fechada. De uma novidade em “Da Lama Ao Caos”, a Nação tem hoje o show mais poderoso do Brasil, sem esquecer do baque que foi a perda de Chico Science.
De onde uma banda que canta que “computadores fazem arte” e que “os artistas pegam carona” foi parar no centro de uma confusão sobre compartilhamento de arquivos na internet é difícil de entender. A julgar pela molecada que comparecu ao circo, a rede criou as carreiras e os artistas levam a fama. Felizmente.
O que fica muito claro vendo a celebração desse disco (não que já não fosse) é que a banda não é só o Chico Science. ÓBVIO que ele foi elemento catalisador, a liga de tudo, porém o discurso musical e sonoro do manguebit é tão importante quanto as letras.
Tanto é assim que não apenas a banda continuou tocando após a morte de seu líder, como não se esconde de mostrar as músicas desse disco e de “Afrociberdelia”. E não tem medo de dar sequência a festa com material feito após o trágico acidente que matou Chico.
Mais do que celebrar “Da Lama Ao Caos”, o show comemorativo dos 15 anos de seu lançamento exaltam a própria Nação Zumbi. Apesar do clima nostálgico, é pra frente que se anda. Poucos sabem disso tão bem quanto eles.

foto: -ferrr
O significado da passagem da turnê “Second Coming” do Faith No More pelo Brasil vai além de simplesmente matar saudades dos fãs ou arrecadar alguns tostões.
A visita da banda marca também (o início) da despedida de uma era em que a TV e rádio tinham um força que cada vez tem menos e bandas tornavam-se denominadores comuns em um corte social horizontal e contínuo.
Para constatar, bastava olhar a sua volta no Metropolitan, ouvir os papos ou notar as bandas estampadas nas camisetas (de Slayer a Daft Punk, de ícones do Reggae a blusas sociais dobradas). Tirando a faixa etária, flutuando nos 30 e poucos, o público tinha pouco em comum além do gosto pelo FNM.
Durante seu auge, o FNM encontrou no país sua verdadeira casa, com uma base de fãs que não tinha em nenhum outro lugar. O fato impressionou a própria banda, que chegou até a gravar partes em português na música “Caralho Voador”.
Mesmo assim, tocaram no Brasil apenas três vezes e somente em uma delas numa turnê própria (as outras tendo sido nos festivais Rock in Rio II e o Monsters of Rock).
Com o retorno da banda anunciado em 2009, a expectativa era de que finalmente voltassem ao Brasil era grande. Catorze anos depois da última visita, finalmente o FNM veio outra vez.
– Voltemos no tempo, 18 anos para ser exato –
Dois anos após o lançamento do disco que os botou no mapa do pop — “The Real Thing” (terceiro da banda, o primeiro com Mike Patton nos vocais) — o Faith No More veio ai Brasil pela primeira vez,participar do Rock in Rio II, em 1991.
“Epic”
Apesar do clipe de “Epic” rodando forte na recém-nascida MTV, eram uma incógnita na noite que tinha como grande atração o Guns N Roses. O FNM surpreendeu e foi apontado como a grande revelação do festival, mesmo tocando músicas de um disco lançado dois anos antes — eram outros tempos e novidade era um conceito menos apressado.
A consagração do FNM no Brasil se deu num palco gigantesco. Não o montado no Maracanã, mas sim as telas, uma vez que a Globo trasmitia ao vivo os shows do Rock in Rio.
Camisas de flanela transformaram-se num item da moda, antes mesmo do estouro do grunge. O corte de cabelo de Patton, longo em cima e raspado embaixo, apareceu na cabeça da garotada (quem? eu?). A exposição massiva criou quase uma base de fãs quase automaticamente.
Tanto foi que a banda voltou para uma mini-turnê nacional no mesmo ano, tocando em diversas cidades além do Rio.
– Pausa. De volta a 2009 –
Cantando letras feitas há mais de vinte anos, comunicando-se em português o tempo todo, ao ponto de mandar uma versão brazuca de “Evidence” (”eu não senti nada / não tem significado algum”), Mike Patton continua com o carisma de sempre e a banda com o mesmo peso.
Tanto tempo e andanças depois, influências dos muitos projetos paralelos de Patton encontraram espaço na nova formação do FNM, como a versão jazz de “Midlife Crisis”, ruídos e doideiras pós-Fantomas ou o uso de efeitos via kaoss pad por Patton, ampliando a sua já vasta paleta vocal.
Os tempos são outros, alguns integrantes da banda beiram os 50, não seria justo esperar um repeteco exato do que foram os outros shows do FMM no Brasil. Esperava-se apenas que no quesito tecnologia o passar dos anos tivesse ajudado o Metropolitan.
“Falling to Pieces”, cheia de erros, especial para o Rio, segundo Patton
A qualidade de som MEDONHA do Metropolitan (com direito a caixa estourada, fritando sem parar desde antes do show) e uma área vip ocupando exatamente a melhor área da platéia, quase põe tudo a perder. Os agudos descompensados estão rasgando meus ouvidos até agora.
Nada que atrapalhasse a celebração dos conformados trintões na platéia. Nesse quesito, o túnel do tempo funcionou que foi uma beleza e a turma se esbaldou.
Quando um show dessas bandas parecem perder o sentido e essas reuniões ressoam como meros caça-níqueis, surge um outro fator. Servem também pra lembrar que um dia também fomos novos. E tome air-guitar (para os que já tinham parado, né), sacudida de cabeça e soco no ar.
Dos anos 2000 pra frente tudo mudou, e não apenas porque hoje você precisa desviar tanto de pessoas altas quanto de câmeras digitais pra enxergar o palco.
Com tanta diversificação e nichos proporcionados pela i nternet, é difícil dizer qual vai ser o denominador comum das novas gerações, se é que isso vai existir — o que pode ser bom inclusive.
Uma coisa não deve mudar. O carinho que se tem pelos sons que moldaram sua cabeça na adolescência é igual amor de mãe, dura pra sempre. Mesmo que você não ouça a banda desde então.
Taí o Faith No More pra confirmar.
Franz Ferdinand: entrevista sobre Circo vs The Week
vídeo e fotos: URBe
A passagem do Franz Ferdinand por São Paulo tinha como objetivo promover a turnê que o grupo fará pela América do Sul em 2010. Ao decidirem fazer um show fechado e escolherem a pequena The Week como palco, um elefante branco surgiu.
Não era o assunto principal — esse era como conseguir um ingresso — mas devido as semelhanças de condições (como a lotação de pouco mais de 1.000 pessoas), começou-se a falar em um repeteco do clássico show da banda no Circo Voador, em 2006.
Muitos do que estavam no Circo naquela noite dizem ter sido um dos melhores shows de suas vidas. A própria banda concorda, tendo citado diversas vezes em entrevistas esse como o melhor apresentação da história deles. Entrou num panteão além da realidade, imbatível portanto.

Por todos esses motivos a comparação seria tão desnecessária quanto injusta. Mesmo porque, passado três anos, há um terceiro disco no catálogo dos escoceses, o repertório mudou. Se bem que com a qualidade do “Tonight”, esse poderia ser o fator crucial.
Sem se preocupar com nada disso, o Franz Ferdinand simplesmente aproveitou e curtiu o momento, assim como os sortudos que conseguiram conferir uma apresentação tão especial. A pegada mais dançante do que rock das novas músicas caíram bem na The Week, ajudadas por um som redondinho, pecando apenas pela bateria um pouco baixa. Bem diferente do Coachella desse ano, ao ar livre e de dia.
Uma das poucas bandas de sua geração que não apenas conseguiram se estabelecer, mas também crescer, o Franz Ferdinand tem como trunfo um excelentes shows. Mostraram isso em suas visitas anteriores ao Brasil e dessa vez não foi diferente.
Em março eles voltam pra fazer tudo outra vez.
Phoenix, “1901″
vídeo e fotos: URBe
Quem acompanha esse espaço sabe que o Phoenix tornou-se uma obsessão por aqui, agravada após o lançamento do quarto disco, “Wolgang Amadeus Phoenix”. Por isso, a expectativa em relação ao show em NY era alta.
Lá pela metade da apresentação dos franceses no Rumsey Playfield, parte do Central Park Summerstage, pintou uma questão: como resenhar algo tão perfeito? Diante de tanto acerto, resta muito pouco além de elogios.
De cima do palco fincado entre as árvores no final de verão/início de outono nova-iorquino, com um público extasiado a sua frente, a banda deve ter se feito a mesma pergunta.
Sem saber o que dizer além dos trocentos “thank you” ao longo do show, o vocalista Thomas Mars encontrou uma maneira de demonstrar sua alegria no final da primeira parte, antes do bis. Microfone em punho, decidiu passear no meio da platéia, talvez tentando entender do ponto de vista do público o que havia acabado de acontecer.

Passion Pit
Voltar um pouco no tempo pode ajudar a entender o que deu tão certo. Antes do Phoenix colocar o Central Park no bolso, os americanos do Passion Pit fizeram o show de abertura. A expectavia era grande, porém, infelizmente, a apresentação falhou em todos os aspectos que o Phoenix acertou.
O Passion Pit teve uma enorme dificuldade em transpor o bom disco de estréia “Manners” para o formato ao vivo, a começar pelos falsetes do vocalista. Michael Angelakos não consegue atingir ou sustentar os agudos da gravação e por algum motivo prefere não utilizar os recursos digitais que poderiam auxiliá-lo (e certamente foram utilzados no disco).
Não é apenas a voz, todo o som do Passion Pit emagrece no palco. Os sintetizadores deixam para trás camadas (harmônicos, oitavas, dobras) que dão peso as músicas, a bateria foge dos pads eletrônicos, a banda ainda parece desentrosada.
A tentativa de reproduzir organicamente um disco que conta com tantos sons eletrônicos, como se isso fosse uma espécie de evolução, falha justamente por se afastar demais da proposta original. Ainda assim, algumas músicas, como “Sleepyhead”, funcionam. Com o tempo as outras podem acompanhar.

Phoenix
Com bem mais tempo de estrada, o Phoenix demonstrou segurança ao abrir direto com “Liztomania”, principal hit de “Wolfgang Amadeus Phoenix”, lançado esse ano. Era como se dissessem “Estão ouvindo essa música? Temos muitas outras tão boas quanto, não se preocupem”. E tem mesmo.
O Phoenix esteve no Brasil em 2007 e o show foi bem elogiado. Porém, muita coisa mudou de lá pra cá.
No começo do ano o Phoenix passou por NY para tocar três músicas no Saturday Night Live (normalmente são duas) e também no David Letterman. Poucos meses depois, a banda volta a Grande Maça e faz dois shows esgotados no Central Park, um surpresa na Apple Store do Soho e, pra não perder a viagem, aproveita e visita o programa do Jimmy Fallon.
O responsável por tantas mudanças na carreira de uma banda até então nem tão conhecida foi o seu quarto disco, o melhor até aqui, catapultando o nome do Phoenix e levando faixas a serem incluídas até em comercial de carro. Uma surpresa para os próprios integrantes.
Prova disso é o quanto a platéia respondia mais a essas canções do que ao resto do repertório.
Poder assistir uma banda na turnê de um bom disco é muito bacana. No seu melhor então, nem se fala, ainda mais num show próprio, longo, além dos tradicionais 40 minutos dos festivais.
Restava saber se o quarteto conseguiria repetir ao vivo os timbres e arranjos que fazem “Wolfgang Amadeus Phoenix” tão bom. Os vídeos das participações em programas de TV que pipocavam na internet faziam crer que sim.
“Wolfgang…” foi tocado praticamente na íntegra (faltando apenas a parte 1 de “Love Like a Sunset”), intercaladas por alguns dos melhores momentos da banda em seus primeiros discos, como “Too Young”, “Long Distance Call”, “If I Ever Feel Better” e “Consolation Prizes”.
Muito bem ensaiados, com direito a paradinhas e movimentos coreografados, o show conta com cenário simples e funcional, baseado numa iluminação bem cuidada, na medida. Acompanhados por dois músicos de apoio, um tecladista/percussionista e um baterista monstruoso, os franceses repetem as gravações com uma precisão assustadora.
Para alguns isso pode ser algo menor, só que se tratando de músicas tão ricas em detalhes, climas, trocas de andamento, não apenas é muito difícil, como seria uma decepção se elas surgissem transfiguradas. Não há no que se mexer ali.
Não é todo dia que se ouve músicas tão bem produzidas serem reproduzidas tão fielmente ao vivo. Aliás, não é todo dia que se presencia um show tão bom. Direto pro Top 5 da vida, sem titubear.
No bis, Thomas Mars e o guitarrista Christian Mazzalai fizeram uma versão acústica de “Playground Love”, do Air, da trilha do filme “Virgens Suicidas”, da mulher do vocalista, Sophia Coppola, enquanto uma chuva começava a cair.
Era hora de se retirar em grande estilo e “1901″ serviu a esse papel. Pulação, gritaria, mais alguns “thank you” e fim de festa.
Numa rápida conversa após o show, Thomas Mars disse que há grande possibilidade da banda passar por aqui no ano que vem. A torcida já começou.
–
As músicas:
“Lisztomania”
“Long Distance Call”
“Lasso”
“Run Run Run”
“Fences”
“Girlfriend”
“Armistice”
“Love Like a Sunset Part 2″
“Too Young”
“Rally”
“Consolation Prizes”
“Rome”
“Funky Squaredance”
Bis:
“Everything is Everything” (Thomas and Laurent)
“Playground Love” (Thomas and Laurent)
“If I Ever Feel Better”
“1901″

Lily Allen no Rio
fotos e vídeos: URBe
A fama de ruim de palco que persegue Lily Allen não é gratuita. Quem presenciou sua primeira apresentação no Brasil, no Planeta Terra 07, diz que a menina estava tão breaca que estragou o show, errou letras… Nem ela gostou. No Coachella ela também já passou vergonha.
As expectativas, portanto, eram as mais baixas possíveis para o show da inglesinha no Rio. As coisas começaram a dar pinta de que poderiam ser diferentes quando surgiram os primeiros comentários elogiosos sobre o show de São Paulo, na noite anterior.
Em todo caso, baixas expectativas aumentam as chances de uma boa surpresa e Lily bom uso desse fator. Acompanhada por uma banda fazendo o feijão-com-arroz, sem nenhum destaque (e com a guitarra inaudível), desfilou seus hits, afinadinha (aparentemente com o auxílio de uma dobra de voz pré-gravada e auto-tunada), jogando charme e enlouquecendo a meninas e os marmanjos.
Lily Allen, “Day n Night” (Kid KuDi)” + “Womanizer” (Britney Spears)
E é exatamente tudo que precisa. O que Lily Allen tem de interessante pra oferecer não são composições elaboradas, sonzeira ou mesmo muita inovação. Apesar de bem feito — a versão de “Womanizer”, da Britney Spear, “Smile”, “LDN”, “The Fear” tão aí pra provar — o som mesmo é uma veículo para o discurso, esse sim o principal
O forte são as letras, o dia-a-dia de uma menina “normal”, que passa por coisas que qualquer menina da idade dela também passa: namorados, medos, as dificuldade de entrar na vida adulta, amadurecimento.
O que ela conseguiu fazer, seu grande mérito, foi botar isso tudo pra fora, no papel e em forma de música. E graças a internet conseguir encontrar um público pra ouvir suas canções.
Claro que sua vida mudou bastante desde que resolveu externar tanta intimidade. Com tanta exposição, Lily Allen tornou-se uma celebridade e vive nas páginas dos tablóides ingleses. O cerne das suas angústias, no entanto não muda, são comuns a qualquer menina, como prova o sucesso do segundo disco, em muitos aspectos melhor que o primeiro.
Numa entrevista que foi capa da Observer Music Monthly em dezembro de 2008, Lily falava de quanto ser chamada de gorda nos jornais todos os dias destruiu sua auto-estima, a fazendo beber ainda mais, ficando mais feia e piorando a situação. Tira o jornal da equação e qualquer menina se identifica.
Do jeito que os fãs cantavam todas as letras, a língua não deve estar sendo barreira para ela se comunicar com jovens fora da Inglaterra. Afinal, são temas universais.
Semana passada o Moptop decidiu reviver os tempos de início da banda, quando se chamava Delux e cantava em inglês e a semelhança com o Strokes era ainda maior (acredite). Desde a mudança para sua língua nativa, além de letras muito melhores, veio também algum distanciamento da sonoridade dos nova-iorquinos.
O ápice dessa primeira fase foi a confusão no fórum de discussão do saite dos americanos, quando músicas dos brasileiros foram tidas como um vazamento do segundo disco do Strokes, o que quase levou o Delux a se mudar para os EUA. Ele resolveram ficar, cantar em português, assinaram com uma multinacional e continuam na correria por aqui.
Na primeira metade dos anos 90, depois diversas bandas de rock tentarem escrever em inglês mesmo sem vislumbrar uma carreira no exterior, a coisa se inverteu. Culminando com o cabalístico ano de 1994 — e a ascensão de Chico Science, O Rappa, Planet Hemp, Raimundos e outros — cantar em português passou a ser regra.
Em saraus de colégio ou no circuito independente, o inglês foi perdendo espaço. Reorganizando-se politica e economicamente, a mudança era também sinal da brasilidade em alta, tanto aqui quanto lá fora.
O troço tomou uma proporção tão grande que mesmo o Sepultura, das poucas bandas brasileiras que conseguiu construir uma carreira internacional cantando em inglês, olhou para o próprio país em busca de novas referências, resultando em seu principal disco, o clássico “Roots”.
Veio a internet, o acesso facilitado a mercados internacionais (acompanhada de uma certa pasteurização global em certos estilos, da eletrônica ao rock a moda) e o sucesso do Cansei de Ser Sexy. O estouro na Inglaterra, conquistando a imprensa do velho mundo, coroou um novo momento. Cantar em inglês passou novamente a ser uma possibilidade.
Hoje uma penca de bandas não tem vergonha nenhuma de não escrever em português. E diferente da geração 80, a empreitada vem dando resultado, vide os casos do Mickey Gang, Copacabana Club e Boss in Drama, para ficar em exemplos bem recentes.
Nesse contexto, o retorno do Moptop ao formato Delux poderia até ser vista como uma aposta séria. As músicas no idioma da rainha estão inclusive disponíveis no saite da banda. A questão é saber se os integrantes terão energia pra começar tudo outra vez. Entre esquizofrenia e dupla personalidade, o mais fácil é ser tudo pura curtição.
Atualmente, aliás, quem pegar uma guitarra por qualquer outro motivo que não seja diversão está indo em direção a uma quase certeira frustração. Uma banda hoje em dia é uma roda de violão amplificada, é pra tocar para os amigos, como se cada galera tivessa sua própria trilha sonora original.
Na dificuldade de se (alargar a barreira dos amigos ainda é possível). Por mais que se chegue em mais gente, o núcleo da brincadeira tende ao nível pessoal e os eventuais fãs.
Assistindo os amigos pra lá e pra cá no Cinemateque, tomando cervejas e dançando, vendo o Cabelo Veludo (o maior fã do Moptop, autor da sensacional “Azaração”) se esgoelando na primeira fila, dá a certeza de que furar esse círculo e chegar a grande massa é uma missão cada vez mais ingrata.
Fico curioso em saber como será a longo prazo. Se esse raciocínio se confirmar, as gerações vindouras não terão grandes ídolos (uma necessidade humana histórica, como nos mostra religiões milenares), nem denominadores comuns. Não morrerá outro Michael Jackson.
Pior que isso é que daqui há um tempo, talvez seja como grande parte das bandas não tivessem sequer existido (e não tem lista de 500 maiores músicas da década que dê jeito nisso). Vão sumir na poeira, ninguém vai lembrar.
Em algum ponto desse futuro, mesmo que ninguém esteja ouvindo, o refrão de uma das músicas do Moptop soará profético não apenas para própria banda: “Sem ninguém pra te esquecer”.
Friendly Fires, “In The Hospital”
vídeo: Carol*
“Superou todas as expectativas” é um clichê que pode ser usado pra falar de qualquer show. No caso da apresentação do Friendly Fires no Rio a definição se aplica muito bem — e isso não tem nada a ver com o fato de grande parte das pessoas ter ido ao Circo Voador sem saber muito o que esperar.
Se baixas expectativas são o combustível para uma grande surpresa, os ingleses fizeram sua parte. Confirmando a fama de bons de palco, os ingleses sacudiram a tenda sem parar com ótima presença de palco, principalmente do vocalista Ed MacFarlane, requebrando sem parar.
O legal do Friendly Fires é que mesmo para quem não conhece mais do que duas músicas (”Paris” e “Skeleton Boy” para maioria), ao vivo o som funciona como um bom DJ set, onde mesmo sem conhecer as músicas, as pessoas dançam sem parar.
Diferente das outras apresentações (foi a sexta vez que vi a banda), havia metais no palco. Pra ficar 100% falta só um tecladista pra tocar ao vivo as bases pré-gravadas em Mini Disc.
Era o show certo no lugar certo. O novo Circo Voador da sequência a própria tradição e vai se firmando como uma casa de shows clássicos. E a lista só faz crescer. A escolha foi um grande acerto da produção do Popload Gig, surpreendentemente priorizando o Rio no lugar de São Paulo, ao colocar o Friendly Fires em pleno sábado na cidade.
Após o show, o vocalista disse que “o público foi dez, mas a banda foi 6,5″. Não deu pra saber bem de onde ele tirou isso. Uma coisa é certa: ninguém saiu de lá com essa impressão.

Cat Power (URBe Fotos)
Não sobra muito espaço para falar de um show que a própria cantora encerrou com repetidos pedidos de desculpas, distribuindo rosas para platéia. Com uma postura estranha no palco, fugindo dos holofotes e se escondendo pelos cantos, Cat Power não explicou porque sua voz não estava saindo com a força que se esperava.
A banda é OK, sem nenhum destaque (o baterista, talvez), embora tenha sido muito prejudicada pela acústica medonha do HSBC Arena. Trata-se de um ginásio, sem a menor estrutura para um show de música. O baixista viajou até o Rio a toa, pois do seu instrumento nada se ouvia.
Mesmo com tantos problemas, difícil imaginar que o show pudesse ter sido muito melhor. O repertório só de versões (como o último disco da cantora), de baladas de arranjos e estruturas repetitivas, poderia ter funcionado num lugar mais intimista, ou mesmo no Circo Voador. Vai ver, por lá decolava.
The Skatalites, “Guns of Navarone”
vídeo e fotos: URBe
O Circo Voador estava cheio, com cerca de 700 pessoas, supreendendo até os produtores do show e assim que as primeiras notas de “Occupation” soaram,começou uma pulação que duraria quase duas horas proporcionada pelo lendário The Skatalites, precursores e catalisadores do Ska.
Sempre exaltando Coxsone Dodd e o Studio One, casa da banda, os jamaicanos fizeram um show preciso, sem uma nota fora do lugar, perfeito, mesmo com arranjos complicados, viradas e quebras de andamento de entortar as costas.
Isso não quer dizer que soem mecânicos ou burocráticos, pelo contrário, os longos improvisos ressaltam as origens jazzísticas da banda. Fosse o tema do James Bond, o riddim Real Rock ou em “El Pussycat”, algumas das frases de metal mais reconhecíveis da música garantiram a alegria da rapaziada.
Teve um momento estranho, quando levaram um reggae com os temíveis iô iô tão comuns por aqui. Ainda bem, passou rápido. O que fica na lembrança mesmo são transes coletivos como o provocado por “Guns of Navarone”.

Cedric IM Brooks a la mano esquierda
+ fotos no Flickr do URBe
Uma das maiores chateações durante a produção do “Dub Echoes” foi ter ficado um bom tempo sem vontade de ouvir música jamaicana. Por um período, ouvir dub lembrava trabalho em horas não apropriadas e isso não foi legal. Mas passou (ou tá passando).
Finalmente poder ver o lendário relembrou porque os sons da ilha são tão especiais. Mesmo desfalcado dos principais fundadores — que já subiram há algum tempo (Tommy McCook, Rolando Alphonso, Don Drummond e Jackie Mittoo, pra citar alguns) — mas com Cedric IM Brooks (do obrigatório “& The Light of Saba”) na escalação .
Uma noite e tanto. Como se fosse fazer as pazes.
House of Pain vs Klezmer, FAROFF Mashup
Ontem no Pista 3, aquela caveira de burro, o FAROFF fez sua primeira apresentação áudio-visual no Rio. As cerca de 40 testemunhas presentes no local se esbaldaram com as frenética colagens do brasiliense, com destaque
Ex-integrante e fundador do Móveis Coloniais de Acaju e cursando doutorado em economia em Harvard, hoje pela manhã Faroff, ou melhor, o Leo, tinha uma reunião num banco. O sujeito é a personificação do mashup. Tudo ao mesmo tempo agora.
A bagunça foi na festa Os Ritmos Digitais, produzida por uma molecada que está mandando bem e quase ninguém está vendo. Os sets do trio são divertidos, com boas mixagens e diversificado sem ser bagunçado. Logicamente, sendo o Rio, o que é bom fica vazio.
A primeira temporada da festa foi encerrada, vamos ver se volta. Se não, anota aí: dia 20 de junho eles tocam na festa de 6 anos do URBe, no Cine Glória. Mais detalhes em breve.
Em sua primeira vez tocando por conta própria e como atração principal no Rio, apresentando seu excelente disco “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar”, Siba fez um lindo show com a sua Fuloresta no reformado Teatro Rival.
A casa estava cheia, embora o público não obedecesse o perfil jovem típico das noitadas nordestinas comanadas por Cabruêra, Cordel do Fogo Encantado ou DJ Dolores por ali.
Não importa quanto tempo passe ou quantas vezes ele explique que seu trabalho não é de renovação ou resgate, o trabalho de Siba parece fadado a estar sempre visto como algo que faz exatamente isso com os sons da Mata Norte pernambucana. Como se não fizesse parte ele próprio de uma evolução natural dos sons da região.
Separada em duas partes, concerto e festa, a apresentação foi uma aula de frevo e maracatu. Ao vivo, os arranjos de metal e percussão ficam transparentes, quando os músicos enfileirados lado a lado praticamente desenham os sons no ar.
O cenário foi feito pelos Gêmeos, artistas que surgiram na rua e agora expõe em algumas das principais galerias e museus do mundo. Foram eles que fizeram a capa do disco, os recorrentes temas nordestinos da dupla feitos sob encomenda para Siba.
Alguns integrantes da Fuloresta ainda trabalham cortando cana em Pernambuco. É Siba quem tem que negociar a iberaração dos músicos quando tem show. Por isso, e por Siba estar montando um projeto em outro formato, essa foi uma das últimas apresentações dos mais velhos, como Biu Roque, de 75 anos.
Nesses tempos em que tudo tem que ser reembalado ou atualizado para ser novamente relevante, em entrevista para o Leo Lichote Siba disse: “A própria busca da subversão ou da ruptura no que a gente desenvolve pressupõe uma inércia criativa que não corresponde à realidade”.
É verdade. O trabalho de Siba só surpreende dessa maneira aqueles que pouco conhecem o resto da história musical da região. Pasmos com a “modernidade”, a “contemporaneidade” do que lá se produz. É um tapa na cara, um belo “acorda aê”.
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O Bernardo também esteve lá e fala das participações do Jam da Silva, do break dance do Galego do Trombone e outras coisas mais.

vídeos e fotos: URBe
Dois anos desde a última visita (três desde a primeira) e depois de ter passado por alguns dos festivais mais enxarcados da Europa, finalmente chegou a hora de partir novamente em direção ao deserto, onde o sol é uma certeza e o visual garantido.
O Coachella Music & Arts Festival é um dos maiores encontros das chamadas “bandas de internet” do planeta. Ser escalado para o festival é como receber um diploma que diz “no último ano você se destacou e agora é oficialmente uma banda, não mais um projeto online”.
É claro que nem todos os formandos vingam na profissão. Muitos dos artistas que passam com algum destaque pelo festival somem na poeira menos de um ano depois. Na turma de 2009, estranhamente ficaram de fora Metronomy e Lady Hawke, dois nomes muito elogiados em 2008.
Alguns outros voltam ao deserto maiores do que quando passaram por lá pela primeira vez, caso do The Killers, TV on the Radio e M.I.A. nesse ano.

A décima edição do festival talvez tenha sido uma das edições com a escalação mais fraca — certamente foi mais difícil manter a usual média de sete shows por dia. Obviamente, uma escalação frouxa do Coachella coloca no bolso boa parte dos festivais pelo mundo e ainda assim vale a pena.
Em 2009 houve menos conflitos de horários entre as principais atrações, tornando as decisões do que assitir (sempre a maior tortura do evento) mais fáceis. Você assistia um show sem aquela pontada de estar ausente de três outros imperdíveis.
Mesmo com a afirmação dos organizadores do evento de que essa provavelmente terá sido a terceira maior edição em termos de público (2007, com Rage Against the Machine, foi a maior), a sensação e comentário dos que estava lá foi de que estava mais vazio que o normal.
Os sinais eram claros: menos filas pro banheiro, pra água, pra entrar, menos engarrafamento e menos tumulto no estacionamento. Tirando sexta, com Paul McCartney, os ingressos do festival não esgotaram.
A culpa de tudo isso, é claro, é da crise. Uma caminhada pela Melrose Avenue, passando entre um set de gravação do seriado The Hills (afinal, é Los Angeles) e muitas lojas de roupa, assusta a quantidade de lojas em queima de estoque e placas informando sobre fechamentos.
Na América fascinada pelo novo presidente (é impressionante a quantidade de produtos relacionados a Obama, de camisetas a doces, máscaras e livros) o bicho está pegando. O que para muitos foi um motivo a mais para cavar os quase 300 dólares do passe para os três dias e esquecer.
Se a música não desse conta, certamente a ensolação faria o serviço.
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1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney

Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.
Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração motivando o esforço a mais.
Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações mexicanas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver o Molotov fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do De Falla.

Los Campesinos
As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.
Ting Tings, “Great DJ”
De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.
Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar foos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.
Como se vê, a dupla se leva a sério demais, a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s not my name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings visse algum demérito nisso.
De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados do dia, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol que foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.
Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.

Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison
A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.
Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela sexta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.
O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrente um dia inteiro debaixo do sol pra aguardar um show.
N.A.S.A., “Watchadoin”
Se o começo do dia foi calmo, a parte final foi corrida. Do Franz Ferdinadn direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.
A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.
Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.
Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa.
Beirut, “Nantes”
O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.
A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.
Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano Veloso, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não teve, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legals e bonitos do festival.

Instalações espalhadas pelo gramado
Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotadas, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.
Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.
Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, onde sobre a acapela e é feita uma nova base. Chegou a hora de um passo a frente, em outra direção? Pode ser.
Ou isso ou era simplesmente preguiça de dançar mesmo.
Paul McCartney, “Blackbird”
Chegada a hora do Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o grande nome do evento.
O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico demais. Os arranjos soavam comerciais demais, como se fosse um DVD genérico, bem chato.
Além disso, os integrantes faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…
A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.
Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.
Brincando com a platéia, Paul disse que as vezes era difícil se concentrar e tocar com tanta gente segurando placas com dizeres como “Beatles, estive lá!” e chamando a sua atenção.
John Lennon também foi homenageado com “Here Today”. Obviamente, as músicas dos Beatles (”The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”.
Vendo Paul ao piano, vilolão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.
Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas, dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).
Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.
Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?
Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada.
Até chegar no carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe…
Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!
Menos mal que por ter saído mais cedo ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vãi passando de 200 dólares no eBay.
Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo.
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2o dia, sábado
Para one, Surkin, TV on the Radio, Fleet Foxes, Crookers, M.I.A., Chemical Brothers (DJ set) e Gang Gang Dance

Entre todos os acertos, se tem uma coisa na qual o Coachella erra a mão entra ano, sai ano é na programação eletrônica. Não dá pra entender o que acontece, porque apesar de muitos nomes legais entrarem na lista, quando chega a hora de tocar, só vem téquinôu.
Rara excessão foram os franceses Para One e Surkin. O primeiro até resvalou no pior do 4×4 farofento, enquanto o segundo passeou mais pelo electro, ainda que tenha sido um tanto reto e sem suinge. O horário, 15h, é que não ajudou muito.
Os anos 90 vão ressurgindo também nessa área. Do remix dos Crookers para “Day n Night” (KiD KuDi) as músicas dos DJ sets do Chemical Brothers e Groove Armada, aquelas sirenes de rave do começo da década surgiam picotadas ou inteiras. É o elemento da vez.
Da área VIP, onde também fica a tenda de imprensa, aguardando bananas e coca-cola reverterem o estrago feito por uma wrap de tofu e um café da manhã de ovos com bacon, deu pra ouvir o Michael Franti & Spearhead, mas não dá pra levar sua politização muito a sério, não convence.

A área VIP é puro LA, com pururucas, playboys e celebridades B, de David Hasselholf a Busy Phillips e modeletes como a inglesa Agyness Deyn. Muita gente vem de Los Angeles só pra ficar badalando por ali, sem de fato entrar no festival.
A princípio essas pessoas podem parecer descoladas num festival como o Coachella. Com o aumento do consumo de música na era digital, mudou também o público.
Hoje é difícil você encontrar alguém que não tenha um iPod ou no mínimo conheça meia dúzia de bandas da vez. Lembro que quando era adolescente era comum encontrar gente que simplesmente não escutava música.
No entanto, apesar do maior número de ouvintes, o consumo é feito de forma cada vez mais passiva. Claro que isso sempre foi assim, desde que as rádios e TVs dominaram a distribuição de conteúdo cultural.
O que é mudou é que atualmente bandas alternativas e independentes — o tipo de som que antes exigia um esforço dos interessados para conseguir — chegam de forma massificada via internet, celulares e MP3.

Essa turma não desce pro gramado e não anda pelas tendas, de forma que de certa maneira continua tudo igual. A turma do oba-oba distante, os mais interessados circulando atrás de bons sons. Bom pro festival, que consegue atingir dois públicos diferentes, gera mais mídia e se mantém economicamente viável.
Entre os que vão ao evento pelos shows — a grande maioria — esse ano houve um certo relaxamento em relação ao consumo de maconha. Nas outras duas edições vi pouquíssima pessoas fumando. Dessa vez tinha zilhões de pessoas desbelotando tranquilamente e dando dois em pipes coloridos.
A explicação para essa mudança é a maconha medicinal. Ao que parece (se alguém souber essa história melhor, dizaê), no ano passado houve um flexibilização na lei que permite o uso da cannabis para tratamento médico.
Antes era restrito a doenças mais sérias e agora um baseado pode ser receitado para distúrbios como insônia, depressão e outros problemas que não podem ser diagnosticados em exames.
Rapidamente surgiu uma indústria ao redor disso, de maneira que basta ir a um médico em Venice Beach e sair de lá com a autorização para comprar maconha (e consumir em público) numa loja ao lado.
TV on the Radio, “Staring at the sun”
Com a rapaziada devidamente frita pelo sol e embalada pela marola, o TV on the Radio não teve muito trabalho para chapar o público de vez com um show grosseiramente grave.
O TVOTR foi o primeiro dos graduandos a tocarem no final de semana. Assim como eles, retornaram ao festival para tocar no palco principal em vez de tendas o The Killers e M.I.A.
Cada vez que Kyp Malone dedilhava o baixo os sub-graves pareciam estar saindo de algum equipamento digital de tão fortes. Era cada catranco no peito que não era mole não.
A densa massa servia de base para camadas e mais camadas de guitarra, num som que tinha que ser decifrado para ser entendido.
Durante o show, Kyp perguntou quem iria ficar pra ver o Thievery Corporation logo depois (não deu pra perceber se foi deboche) e afirmou que esperaria para ver o Gang Gang Dance mais tarde.
E ficou mesmo. A noite, sentado no gramado perto da tenda onde o GGD tocaria, ao ouvir a palavra “Brasil” Kyp disse que o Rio era sua cidade favorita no mundo e que espera muito poder voltar para visitar. Uma pena que o GGD não emplacou, com um show esquisito, bem diferente do que “Princes” sugere ser a onda da banda.
O TVOTR foi uma curiosa escolha para tocar no famoso horário do pôr-do-sol, geralmente reservado para atrações mais melosas, como o Fleet Foxes que tocou a seguir.
O cenário é o grande diferencial do Coachella. O lugar é lindo e a luz da Califórnia, um eterno final de tarde dourado, faz maravilhas pelos shows. É tudo que os festivais de verão na Europa não conseguem ser, pelo simples fato de que lá não faz sol.
A beleza do lugar influencia diretamente nas apresentações e no astral do público. Impossível separar uma coisa da outra, o meio é de fato a mensagem. Não é a toa que diversos artistas que tocam no Coachella preparam algo especial pra mostrar. É um lugar mágico mesmo.
Fleet Foxes, “White Winter Hymnal”
Já ao anoitecer, no segundo palco ao ar livre, menor, o Fleet Foxes mostrou seu folk setentista para uma platéia hipnotizada. As harmonias vocias, os arranjos, as canções, tudo muito bem feito e bem tocado.
Só que pra mim, tirando “White Winter Hymnal”, não bate. É retrô e introspectivo demais, embora seja totalmente compreensível a adoração que a banda desperta, é muito bom. É só gosto pessoal mesmo.
M.I.A., “Galang”
vídeo: mattwong26
Como a evolução percebida entre seus dois discos sugere, a M.I.A. do “Arular” é muito diferente da M.I.A. do “Kala”.
Quem viu a apresentação da M.I.A. no TIM Festival em 2005 não guarda boa recordação. Muita gente inclusive se desinteressou por ela por conta do show sem graça. Era o mesmo show que ela apresentava na Fabric, em Londres, para um público bem menor, numa boate. Não transpunha bem para o palco.
No Coachella, no entanto, quando ela tocou na tenda mais cedo no mesmo ano (a abertura do vídeo é hilária) a impressão deixada foi muito boa. Até que M.I.A. teve seu pedido de visto de trabalho nos EUA negado em 2006.
Demorou um pouco até M.I.A. voltar ao festival, em 2008. Em sua segunda passagem pelo Coachella, a tenda já não conseguiu dar conta. Segundo relatos, teve pessoas desmaiando, gente saindo pelo ladrão.
O trabalho de pesquisa da estética dos países em desenvolvimento de M.I.A., tanto a visual quanto a musical, cresceu bastante em “Kala”. Provavelmente ciente de que sem o visual seu show não passava totalmente sua mensagem, M.I.A. se transformou numa Madonna do terceiro mundo.

Promovida ao palco principal, aproveitou o tamanho e encheu de gente, dançarinos, músicos, roupas fosforescentes, e não apenas um DJ como antes.
Do alto de um púpito repleto de microfones, M.I.A. apresentava os números e dava palavaras de ordem, enquanto o telão exibia imagens de um protesto, com placas onde se lia “M.I.A. is a terrorist”.
Marrenta que só, entrou cantarolando na melodia de “Rehab”, de Amy Winehouse (a grande ausência do festival, cancelada) “they tried to make me sing at the Oscars, but I said no, no, no!”. Tirou onda com o Grammy e depois da sexta música ameaçou a produção: “seis músicas, já posso ir embora.”
Como se sentisse culpada pelo próprio sucesso, M.I.A. faz questão de se afirmar não-cooptada pelo sistema, fazendo questão de manter a postura rebelde, com tanta vontade que, claro, parece falso.
Problema nenhum ela não ser mais a mesma menina desconhecida que gravava músicas em casa e coloca na internet. Seria mais honesto aceitar que os tempos mudaram e continuar inovando a partir de um novo lugar, em vez de querer repetir o que já fez.
Musicalmente essa crise não deve estar acontecendo e a inclusão de “20 dollar” no repertório taí pra confirmar. A não ser que ela esteja somente preocupada em manter a popularidade que mostrou ter durante o encerramento com “Paper Planes”.
Seria uma grande besteira. Esse caminho tem quer natural, tentar adivinhar o que vai agradar o público pucas vezes dá certo. Basta ela fazer o que ela faz, naturalmente, que o resultado vai continuar muito bom.
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3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.
Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tune — Kanye West não está mesmo sozinho nessa.
Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.
Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.
Mexican Institute of Sound
Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.
Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.
Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.
Friendly Fires, “Paris”
Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.
Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.
Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.
É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.
Lykke Li, “Knocked up” (KoL)
Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.
Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.
Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.
Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.
Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.
O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.
Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.
Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.
Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.
Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.
No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.
Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.

Yeah Yeah Yeahs
Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.
No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.
Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”
Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.
As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.
Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.
O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.
The Orb
Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.
Etienne de Crecy
Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.
Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.
Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.
3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.
Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tune — Kanye West não está mesmo sozinho nessa.
Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.
Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.
Mexican Institute of Sound
Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.
Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.
Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.
Friendly Fires, “Paris”
Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.
Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.
Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.
É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.
Lykke Li, “Knocked up” (KoL)
Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.
Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.
Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.
Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.
Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.
O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.
Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.
Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.
Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.
Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.
No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.
Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.

Yeah Yeah Yeahs
Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.
No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.
Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”
Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.
As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.
Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.
O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.
The Orb
Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.
Etienne de Crecy
Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.
Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.
Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.
2o dia, sábado
Para one, Surkin, TV on the Radio, Fleet Foxes, Crookers, M.I.A., Chemical Brothers (DJ set) e Gang Gang Dance

vídeos e fotos: URBe
Entre todos os acertos, se tem uma coisa na qual o Coachella erra a mão entra ano, sai ano é na programação eletrônica. Não dá pra entender o que acontece, porque apesar de muitos nomes legais entrarem na lista, quando chega a hora de tocar, só vem téquinôu.
Rara excessão foram os franceses Para One e Surkin. O primeiro até resvalou no pior do 4×4 farofento, enquanto o segundo passeou mais pelo electro, ainda que tenha sido um tanto reto e sem suinge. O horário, 15h, é que não ajudou muito.
Os anos 90 vão ressurgindo também nessa área. Do remix dos Crookers para “Day n Night” (KiD KuDi) as músicas dos DJ sets do Chemical Brothers e Groove Armada, aquelas sirenes de rave do começo da década surgiam picotadas ou inteiras. É o elemento da vez.
Da área VIP, onde também fica a tenda de imprensa, aguardando bananas e coca-cola reverterem o estrago feito por um wrap de tofu e um café da manhã de ovos com bacon, deu pra ouvir o Michael Franti & Spearhead e sua politização não convincente.

A área VIP é puro Los Angeles, com pururucas, playboys e celebridades B, de David Hasselholf a Busy Phillips e modeletes como a inglesa Agyness Deyn. Muita gente vem de Los Angeles só pra ficar badalando por ali, sem de fato entrar no festival.
A princípio essas pessoas podem parecer descoladas num festival como o Coachella. Com o aumento do consumo de música na era digital, mudou também o público.
Hoje é difícil você encontrar alguém que não tenha um iPod ou no mínimo conheça meia dúzia de bandas da vez. Lembro de quando era adolescente e era comum encontrar gente que simplesmente não escutava música.
No entanto, apesar do maior número de ouvintes, o consumo é feito de forma cada vez mais passiva. Claro que sempre foi assim, desde que as rádios e TVs dominaram a distribuição de conteúdo cultural.
O que é mudou é que atualmente bandas alternativas e independentes — o tipo de som que antes exigia ouvintes interessados o suficiente para ir atrás — chegam de forma massificada via internet e celulares.

Essa turma não desce pro gramado e não anda pelas tendas, de forma que de certa maneira continua tudo igual. A turma do oba-oba distante, os mais atentos circulando atrás de bons sons. Bom pro festival, que consegue atingir dois públicos diferentes, gera mais mídia e se mantém economicamente viável, especialmente em tempos de crise.
Entre os que vão ao evento pelos shows — a grande maioria — esse ano houve um certo relaxamento em relação ao consumo de maconha. Nas outras duas edições vi pouquíssimas pessoas fumando. Dessa vez tinha zilhões, desbelotando tranquilamente e dando dois em cachimbos de vidro coloridos.
A explicação para essa mudança é a maconha medicinal. Ao que parece (se alguém souber essa história melhor, dizaê), ano passado houve um flexibilização na lei que permite o uso da cannabis para tratamento médico.
Antes era restrito a doenças mais sérias e agora um baseado pode ser receitado para distúrbios como insônia, depressão e outros problemas que não podem ser diagnosticados em exames.
Rapidamente surgiu uma indústria ao redor disso, de maneira que basta ir a um médico em lugares como Venice Beach e sair de lá com a autorização para comprar maconha (e consumir em público) numa loja ao lado.
TV on the Radio, “Staring at the sun”
Com a rapaziada devidamente frita pelo sol e embalada pela marola, o TV on the Radio não teve muito trabalho para chapar o público de vez com um show grosseiramente grave.
O TVOTR foi o primeiro dos graduandos a tocarem no final de semana. Assim como eles, retornaram ao festival para tocar no palco principal em vez de tendas o The Killers e M.I.A.
Cada vez que Kyp Malone dedilhava o baixo os sub-graves pareciam estar saindo de algum equipamento digital de tão fortes. Era cada catranco no peito que não era brincadeira. A densa massa servia de base para camadas e mais camadas de guitarra, num som que tinha que ser decifrado antes de fazer sentido.
Durante o show, Kyp perguntou quem iria ficar pra ver o Thievery Corporation na sequência (não deu pra perceber se foi deboche) e afirmou que esperaria para ver o Gang Gang Dance mais tarde.
E ficou mesmo. A noite, sentado no gramado perto da tenda onde o GGD tocaria, ao ouvir a palavra “Brasil” Kyp disse que o Rio era sua cidade favorita no mundo e que espera muito poder voltar para visitar. Uma pena que o GGD não emplacou, com um show esquisito, bem diferente do que a boa “Princes” sugere ser a sonoridade da banda.
O TVOTR foi uma curiosa escolha para tocar no famoso horário do pôr-do-sol, geralmente reservado para atrações mais melosas, como o Fleet Foxes que tocou a seguir.
O cenário é o grande diferencial do Coachella. O lugar é lindo e a luz da Califórnia, um eterno final de tarde dourado, faz maravilhas pelos shows. É tudo que os festivais de verão na Europa não conseguem ser, pelo simples fato de que lá não faz sol.
A beleza do lugar influencia diretamente nas apresentações e no astral do público. Impossível separar uma coisa da outra, o meio é a mensagem. Não é a toa que diversos artistas que tocam no Coachella preparam algo especial pra mostrar. É um lugar mágico mesmo.
Fleet Foxes, “White Winter Hymnal”
Já ao anoitecer, no segundo palco ao ar livre, menor, o Fleet Foxes mostrou seu folk setentista para uma platéia hipnotizada. As harmonias vocais, os arranjos, as canções, tudo muito bem feito e bem tocado.
Só que pra mim, tirando “White Winter Hymnal”, não bate. É retrô e introspectivo demais, embora seja totalmente compreensível a adoração que a banda desperta, é muito bom. É só gosto pessoal mesmo.
M.I.A., “Galang”
vídeo: mattwong26
Como a evolução percebida entre seus dois discos sugere, a M.I.A. do “Arular” é muito diferente da M.I.A. do “Kala”.
Quem viu a apresentação da M.I.A. no TIM Festival em 2005 não guarda boa recordação. Muita gente inclusive se desinteressou por ela por conta do show sem graça. Era o mesmo show que ela apresentava na Fabric, em Londres, para um público bem menor, numa boate. Não transpunha bem para o palco.
No Coachella, no entanto, quando ela tocou na tenda mais cedo no mesmo ano (a abertura do vídeo é hilária) a impressão deixada foi muito boa. Até que M.I.A. teve seu pedido de visto de trabalho nos EUA negado em 2006.
Demorou um pouco até M.I.A. voltar ao festival, em 2008. Em sua segunda passagem pelo Coachella, a tenda já não suportou. Segundo relatos, teve pessoas desmaiando, gente saindo pelo ladrão.
O trabalho de pesquisa da estética dos países em desenvolvimento de M.I.A., tanto a visual quanto a musical, cresceu bastante em “Kala”. Provavelmente ciente de que sem o visual seu show não passava totalmente sua mensagem, M.I.A. se transformou numa Madonna do terceiro mundo.

Promovida ao palco principal, aproveitou o tamanho e encheu de gente, dançarinos, músicos, roupas fosforescentes, e não apenas um DJ como antes.
Do alto de um púpito repleto de microfones, M.I.A. apresentava os números e dava palavaras de ordem, enquanto o telão exibia imagens de um protesto, com placas onde se lia “M.I.A. is a terrorist”.
Marrenta que só, entrou cantarolando na melodia de “Rehab”, de Amy Winehouse (a grande ausência do festival, cancelada) “they tried to make me sing at the Oscars, but I said no, no, no!”. Tirou onda com o Grammy e depois da sexta música ameaçou a produção: “seis músicas, já posso ir embora.”
Como se sentisse culpada pelo próprio sucesso, M.I.A. faz questão de se afirmar não-cooptada pelo sistema, fazendo questão de manter a postura rebelde, com tanta vontade que, claro, parece falso.
Problema nenhum ela não ser mais a mesma menina desconhecida que gravava músicas em casa e coloca na internet. Seria mais honesto aceitar que os tempos mudaram e continuar inovando a partir de um novo lugar, em vez de querer repetir o que já fez.
Musicalmente essa crise não deve estar acontecendo e a inclusão de “20 dollar” no repertório taí pra confirmar. A não ser que ela esteja somente preocupada em manter a popularidade que mostrou ter durante o encerramento com “Paper Planes”.
Seria uma grande besteira. Esse caminho tem quer natural, tentar adivinhar o que vai agradar o público poucas vezes dá certo. Basta ela fazer o que ela faz, naturalmente, que o resultado continuará sendo relevante e bom.
1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney

vídeos e fotos: URBe
Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.
Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração como motivação.
Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações latinas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver os mexicanos fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do De Falla.

Los Campesinos
As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.
Ting Tings, “Great DJ”
De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.
Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar fotos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.
Como se vê, a dupla se leva a sério demais e a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s Not My Name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings enxergasse algum demérito nisso.
De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados de sexta, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.
Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser detalhadamente calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.

Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison
A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.
Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela quarta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente, justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.
O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrenta um dia inteiro debaixo do sol para aguardar um show.
N.A.S.A., “Watchadoin”
Se o começo foi calmo, a parte final da sexta-feira foi corrida. Do Franz Ferdinand direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.
A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.
Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.
Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa. Kanye West faria uma participação via telão, se o equipamento de transmissão não tivesse “falhado”. Tudo teatro.
Beirut, “Nantes”
O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.
A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.
Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não rolou, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legais e bonitos do festival.

Instalações espalhadas pelo gramado
Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotada, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.
Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.
Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, utilzando acapelas sobre uma nova base. É hora de um passo a frente, em outra direção.
Ou isso ou então foi simplesmente falta de disposição pra dançar mesmo.
Paul McCartney, “Blackbird”
Chegada a hora do Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o beatle.
O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico, certinho além da conta. Os arranjos soavam comerciais, como se fosse um DVD genérico de “rock n roll”, bem chato.
Além disso, os integrantes da banda de apoio faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…
A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.
Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney, antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.
John Lennon também foi homenageado com “Here Today”. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”. Obviamente, as músicas dos Beatles (”The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção.
Ver Paul ao piano, violão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.
Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas e dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).
Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.
Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?
Não. Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada. “Raras vezes na vida pode-se procurar o carro pelo estacionamento com uma trilha dessas”, dizia para me consolar.
Até chegar ao carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe.
Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!
Menos mal que, por ter saído mais cedo, ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vai passando de 200 dólares no eBay.
Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo. Literalmente.

vídeos e fotos: URBe
Dois anos desde a última visita (três desde a primeira) e depois de ter passado por alguns dos festivais mais enxarcados da Europa, finalmente chegou a hora de partir novamente em direção ao deserto, onde o sol é uma certeza e o visual garantido.
O Coachella Music & Arts Festival é um dos maiores encontros das chamadas “bandas de internet” do planeta. Ser escalado para o festival é como receber um diploma que diz “no último ano você se destacou e agora é oficialmente uma banda, não mais um projeto online”.
É claro que nem todos os formandos vingam na profissão. Muitos dos artistas que passam com algum destaque pelo festival somem na poeira menos de um ano depois. Na turma de 2009, estranhamente ficaram de fora Metronomy e Lady Hawke, dois nomes muito elogiados em 2008.
Alguns outros voltam ao deserto maiores do que quando passaram por lá pela primeira vez, caso do The Killers, TV on the Radio e M.I.A. nesse ano.

A décima edição do festival talvez tenha sido uma das edições com a escalação mais fraca — certamente foi mais difícil manter a usual média de sete shows por dia. Obviamente, uma escalação frouxa do Coachella coloca no bolso boa parte dos festivais pelo mundo e ainda assim vale a pena.
Em 2009 houve menos conflitos de horários entre as principais atrações, tornando as decisões do que assitir (sempre a maior tortura do evento) mais fáceis. Você assistia um show sem aquela pontada de estar ausente de três outros imperdíveis.
Mesmo com a afirmação dos organizadores do evento de que essa provavelmente terá sido a terceira maior edição em termos de público (2007, com Rage Against the Machine, foi a maior), a sensação e comentário dos que estava lá foi de que estava mais vazio que o normal.
Os sinais eram claros: menos filas pro banheiro, pra água, pra entrar, menos engarrafamento e menos tumulto no estacionamento. Tirando sexta, com Paul McCartney, os ingressos do festival não esgotaram.
A culpa de tudo isso, é claro, é da crise. Uma caminhada pela Melrose Avenue, passando entre um set de gravação do seriado The Hills (afinal, é Los Angeles) e muitas lojas de roupa, assusta a quantidade de lojas em queima de estoque e placas informando sobre fechamentos.
Na América fascinada pelo novo presidente (é impressionante a quantidade de produtos relacionados a Obama, de camisetas a doces, máscaras e livros) o bicho está pegando. O que para muitos foi um motivo a mais para cavar os quase 300 dólares do passe para os três dias e esquecer.
Se a música não desse conta, certamente a ensolação faria o serviço.
Copa Jam Band recebe Kassin
fotos e vídeo: URBeTV e URBe Fotos
Samba jazz, Copacabana, um hotel glamuroso… Os bons tempos estão de volta.
Na última quarta-feira, tarde da noite no BB Lanches, o baixista Alberto Continentino contava que estava vindo do Bar do Copa, novo bar do hotel Copacabana Palace, onde está tocando duas vezes por semana com a Copa Jam Band, completa por Marco Tommaso (piano), Widor Santiago (sax) e Renato Massa (bateria).
O programa sensacional tem apenas um porém: os proibitivos R$ 120 cobrados de entrada (sem direito a nenhuma bebida). Inviável.
Apesar disso, alguns detalhes da história daquela noite contados por Alberto aguçaram a busca por uma entrada para esse universo paralelo, ao mesmo tempo tão perto e tão distante.
Toda semana a Copa Jam Band recebe convidados. Na primeira semana foi Thalma de Freitas e naquela noite havia sido Kassin, com repeteco no dia seguinte. Nas próximas semanas participam Domenico Lancelotti e Moreno Veloso. É o +2 parcelado.
Alberto contou que Kassin tinha aparecido na beca, de gel e cabelo pro lado, sapato branco, blusa de botão e calça, fazendo papel de crooner e tocando guitarra. Só a descrição da cena dava vontade de rir. Além da sonzeira prometida, a temporada dava pinta de se tornar histórica.
Na noite seguinte, resolvido o empecilho da entrada, tudo se repetiu. O Bar do Copa, com seus espelhos e jaulas, cumpre tudo que se espera de um bar de hotel. O público misturava amigos dos músicos, hóspedes batucando fora do tempo nas mesinhas e membros da equipe do Kiss com companhias locais (enquanto Gene Simmons jantava na pérgula, do lado de fora).
A noite é dividida em dois atos, com um intervalo de uma hora entre eles. Em ambos o quarteto inicia os trabalhos tocando standards em levada samba jazz. Passado tantos anos desde a revolução do Beco das Garrafas, hoje isso soa “tradicional”.
O repeterório cumpre o papel de oferecer o que muitos visitante buscam — e raramente encontram — quando vem ao Brasil, como um turista em Cuba procurando o som do Buena Vista Social Club ou roots reggae em Kingston.
Ainda assim, há algo no ar, como se o Copa Jam Band buscasse quebrar a sisudez relacionada a bossa nova, ao samba jazz e a toda essa linhagem musical, por vezes levada a sério demais, canonizada de uma maneira talvez não planejada pelos próprios músicos protagonistas.
A maneira encontrada para realizar essa quebra foi a escolha dos convidados, apostando que eles não fariam cerimônia e ajudariam a descontrair o ambiente.
Assim que foi chamado, Kassin ligou sua guitarra, incluindo alguns pedais e foi emendando a sua “Esquecido”, “Meio Desligado” (Mutantes) e uma inédita, um bolero sobre a falta de potássio.
No final, convidou Thalma de Freitas pra cantar “Tranquilo” e mais uma inédita, parceria dela com João Donato, chamada “Enquanto a gente namora”.
Comportado e comedido, Kassin terminou sua apresentação sob aplausos timídos, como pedia a situação. Por uns instantes o bar voltou ao volume normal, após a jam ter se tranformado num show.
Rapidamente um DJ entrou em ação, pra garantir que o bar não esvaziasse. Tascou “Finally” (its happening to me…), da CeCe Peniston, e a noite continuou.
O que quer que tenha ocorrido a partir dali ninguém sabe, ninguém viu. O que acontece em Copacabana, morre em Copacabana.
MSTRKRFT, “Bohemian Rhapsody” em SF
Produtor do Circo Voador, Rolinha estava em São Franciso na semana passada e conferiu os brasileiros do The Twelves, Simian Mobile Disco e MSTRKRFT por lá. Voltou impressionado com a recepção que a dupla de Niterói está tendo em sua turnê nos EUA e escreveu um relato especial para o URBe.
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Semana passada três duos de ponta do que eu suponho, sei lá, seja uma vertente do maximal, se apresentaram em São Francisco: Simiam Mobile Disco no Mezaninne, The Twelves no 103 Harriet e MSTRKRFT no Independent.
Geralmente não vou ver artistas brazucas na gringa, porque posso ver no Braza, mas no caso do Twelves é diferente. Nunca consigo curtir os shows deles porque geralmente estou trabalhando no show e queria ter uma perspectiva do que eles são atualmente. E vou dizer, tive que tomar uma boa distância, porque os caras estão ficando grandes lá fora!
Senti logo quando fui convidar uma mina irlandesa que mora lá pra ir ao show e não precisei nem gastar muita lábia. Bastou falar o nome da banda que ela topou. Quando cheguei lá, tinha muito mais gente que eu esperava.
Durante a abertura do Shadow Dancer deu pra observar a platéia: nenhum patrício. Quando eles entraram, ninguém gritou “toca Raul”, então não tinha nenhum brazuca mesmo. Os caras foram recebidos com urros e em minutos aquilo virou um fervo!
De repente olho pro palco e tem umas seis mulheres se agarrando na frente dos niteroienses, um show de lesbianismo explícito! Quando rolou o remix de “Boyz” (M.I.A.) os hormônios entraram em combustão. Parecia show no Circo! O segurança tirava do palco e elas invadiam de novo. Mesmo quando rolou uma pane no sistema, a temperatura não baixou.
Quando tocou o remix de “Reckoner” (Radiohead), o povaréu so faltou acender isqueiros. Na verdade teve um maluco que acendeu aquela app do IPhone que imita um isqueiro, muito útil em shows do Scorpions. Foi consagrador, noite perfeita!
Chamou a atenção o Simiam ter tocado num lugar menor do que o do Twelves, mas foi animal. Ao contrário do acento funky do duo de Niterói, eles pegaram muito mais pesado. Não tocaram a versão do Justice da sua “Never be alone” — agora mais conhecida pelo nome do remix, “We Are Your Friends” — e ninguém pediu. Aliás, nem sei se eles tocam essa música ao vivo. Além de surdo, sai de lá meio cegueta de tanto estrobo
Já cheguei na porta do Independent, munido do maior desgosto do mundo, pois sabia que estava esgotado. Mas como sou brasileiro e não desisto nunca, fiquei lá passando frio até ter uma notícia positiva. Depois de uma hora, já era melhor amigo do chefe da segurança que me confidenciou que iam abrir pra vender mais uns ingressos em breve.
Cheguei pra um grupinho na porta que estava na mesma expectativa e dei a boa nova. Antes de entrar ficamos trocando idéia na fila e o assunto principal era o show do Primal Scream com o Brian Joneston Massacre no dia anterior. Até que alguém tocou no nome do Twelves e esse virou “O” assunto. Todos haviam estado lá, menos um casal que não pode ir, mas ia ver em Austin, no South by Southwest.
Fiquei de cara com a moral dos malucos. Entramos lá a tempo de vermos o MSTRKRFT entrando num set composto por três telões de plasma, com imagens da Bettie Page spanking uma outra mina.
Começaram com “Bounce. Chorei! Daí pra frente não parei de quicar, que nem um feijão mexicano. Rolou “Work on You”, o remix de “D.A.N.C.E.” (Justice), “Fist of God” até o magistral encerramento com “Bohemian Rhapsody”, do Queen! Em uma palavra: épico.

Radiohead
fotos e vídeos: URBe
Os deuses da músicas ouviram nossas preces e operaram um milagre na Apoteose. O show do Radiohead teve um som perfeito, como nunca se viu naquele lugar. O que um bom técnico de som não é capaz de fazer…
Thom Yorke não passou, segundo algumas fontes, duas horas fazendo aquecimento vocal em vão. Era indispensável que fosse assim para que as delicadas músicas do excelente “In rainbow” que ocupam boa parte do repertório soassem tão boas quanto aparecem no disco.
Infelizmente, o show perfeito em todos aspectos técnicos (a parte gringa da equação) contrasta com a produção capenga a que estamos acostumados (a parte brasileira).
Filas quilométricas para o banheiro, a impossibilidade de pegar bebidas com tranquilidade e a truculência dos seguranças justificam a percepção do público médio (aquele que se precisa conquistar para vender 35 mil ingressos) de que o programa é uma furada.
Ouvir um “vai se fuder” e outros poemas durante um show que custou a bagatela de R$200 (x2) só por ter perguntado se o armário iria ficar mesmo parado na minha frente bloqueando a visão não é uma furada, é um total desrespeito mesmo. Se a produção se interessar — o que eu duvido — anotei o número da camiseta do sujeito.
Los Hermanos, “Todo carnaval tem seu fim”
vídeo: marceloguy (enquanto o do URBe não sobe)
Segunda atração mais esperada da noite, ou a principal para muitos dos que enfrentaram a fila desde cedo para garantir um lugar no gargarejo, o Los Hermanos fez seu primeiro show em dois anos para uma Apoteose ainda vazia.
Contratados a peso de outro, a missão dos Los Hermanos era esgotar os ingressos que teimavam em não sair das bilheterias. Falharam duas vezes: as entradas não esgotaram e o aguardado show foi frio, com a banda desentrosada no palco, mesmo com muitos fãs fazendo o tradicional coral.
A única novidade foi “Cher Antoine”, tocada ao vivo pela primeira vez. De resto, foi abaixo da expectativa (que, sim, eram altas demais), com o show sendo muito prejudicado pela má qualidade de som.
Kraftwerk, “Aero Dynamik”
Espremido entre duas bandas cultuadas como poucas, a reação ao público Kraftwerk era a incógnita da noite. A música eletrônica totalmente sintética foi bem recebida pela turma mais acostumada as guitarras.
A apresentação tem toda a elegância, eficiência e simplicidade que se espera dos alemães. Tem quem diga que a cada turnê o show cai um pouquinho, devido a substituição dos teclados por laptops e, provavelmente, pelo fato de cada vez menos integrantes originais façam parte do grupo, restando apenas um.
Seja como for, toda vez que se assiste ao Kraftwerk o embasbacamento é o mesmo. É como se eles tivessem apertado e girado todos os botões de sintetizadores possíveis e imagináveis antes de todo o mundo.
Você escuta “Trans Europe Express” e pensa “pô, parece baile funk”, ouve “Tour de France” e se questiona como o povo do trance conseguiu estragar e desgastar tantos timbres bonitos, olha pro telão e vê de onde o Daft Punk ou Etienne de Crecy tiraram algumas de suas idéias.
O show curto incluiu as músicas mais conhecidas, como “Radioactivity”, “Autobahn” e “Musique non stop”. Faltou mesmo “Pocket calculator”.
O Kraftwerk serve como matriz para boa parte do que se ouve em música eletrônica hoje, sem soar velho ou antiquado, como se mesmo depois de gravadas essas músicas continuassem sempre a olhar pra frente.
No intervalo antes do início do show do Radiohead, Maurício Valladares fez o que pode ter sido o set de dub com mais ouvintes da história dessa cidade. Certamente Jonny Greenwood, guitarrista/tecladista do Radiohead e conhecido dubhead, aprovou a seleção.
Radiohead, “Idioteque”
O Radiohead entrou em cena com apenas 10 minutos de atraso em relação ao horário divulgado, garantindo uma noite tranquila para todos que dali ainda teriam que voltar para casa. Thom Yorke já chegou apresentando o Radiohead em português.
Nos dias anteriores ao show comentou-se bastante sobre o show no México que, pelo que se sabe, deixou a banda impressionada. Como bom brasileiro, logo pareceu que o troço iria se tornar uma espécie de competição, para decidir o público mais quente.
Logo na abertura, com “15 step”, com a Apoteose bem mais cheia, deu pra perceber que o público era respeitoso com a banda. Cantou-se todas a músicas, mas não aos berros. Bateu-se palmas, mas sem estalar alto as mãos. Os desatentos conversaram durante as baladas (ah, mas como não…), porém menos do que se esperava.
A relação beirava a cerimônia, ainda que os integrantes do Radiohead chamassem o público, como não é do costume deles. Era como se depois de tanta espera, todos quisessem guardar aquelas notas na memória e os próprios gritos fossem um obstáculo. As excessões foram os coros mais fortes em “Karma Police”, “No Surprises” e “Paranoid Android”.
Talvez o Radiohead tenha estranhado a calma da platéia, talvez tenham ficado mesmo decepcionados com o público carioca, conhecido pela empolgação. Sendo esse o caso, provavelmente eles jamais saberão o quanto esse pequeno cuidado dos fãs fala da admiração pela banda.
Radiohead: o telão
Foi uma beleza poder ouvir em detalhes as experimentações de Johnny Greenwood quando se afasta da guitarra e vai mexer nos pedais e nos teclados. As interferências de rádios locais que ele sintoniza durante o começo de “National Anthem” deixaram muita gente sem entender de onde vinha tanto português.
Já tendo visto outros dois shows do Radiohead ano passado, dessa vez resolvi me afastar do palco na parte final, para poder apreciar o cenário de longe. Bom, por isso e porque as costas já estava pedindo arrego mesmo.
Os telões laterais e do fundo do palco mostram a banda de tantas posições que daqui a pouco vai faltar ângulo pra filmar de maneira diferentes. Saturando cores ou fazendo meias fusões, os efeitos aplicados nas imagens são sempre simples e extremamente funcionais. Porque bom gosto, como se sabe, não vem instalado no seu Mac.
Visto de longe, do alto da arquibancada, o cenário ganhava uma moldura bem carioca. A direita brilhava o Cristo Redentor e a esquerda o Morro da Coroa, com seu luminoso “Coroa paz” saudando a platéia. Pena que a banda não teve essa visão, pois diz tanto da cidade.
Dessa distância, os efeitos luminosos do palco ganham outros contornos, assumindo formas imperceptíveis de muito perto. Conversando com Mateus Araújo, ele levantou a hipótese de que durante “Everything in it’s right place” um texto fica correndo pelo palco, em letras gigantescas. Conhecendo a banda, faria sentido. Fica aí mais um enigma para ser desvendado.
Como um presente para platéia, uma demonstração de carinho, o Radiohead encerrou o show com “Creep”, seu primeiro grande sucesso e música que eles raramente tocam.
Foram 25 músicas no total, ainda assim ficou faltando coisa. “Fake plastic trees” e “High and dry” para os fãs de novela, e “Climbing up the walls”, tocada na passagem de som.
“Bom pra caralho”, como disse a banda em bom português ao final do show. Foi mesmo.
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As músicas:
“15 step”
“Airbag”
“There There”
“All I Need”
“Karma Police”
“Nude”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“The National Anthem”
“The Gloaming”
“Faust Arp”
“No Surprises”
“Jigsaw Falling Into Place”
“Idioteque”
“I Might Be Wrong”
“Street Spirit (Fade Out)”
“Bodysnatchers”
“How To Disappear Completely”
Bis
“Videotape”
“Paranoid Android”
“House of Cards”
“Just”
“Everything In It’s Right Place”
Tris
“You And Whose Army?”
“Reckoner”
“Creep”
* Dá pra assistir boa parte da apresentaçãona página do cybertechno, um doido que tranformou em regra pessoal filmar na íntegra e colocar no YouTube todos os shows que vai (nesse ficaram faltando algumas).
Little Joy, “The next time around”
(em 00:40, no meio da tela, Camelo cantando)
vídeo e fotos: URBe
Mais uma sexta-feira, mais uma ida a Lapa. Como ia dizendo outro dia, o bairro anda a um zilhão por hora. Dessa vez a atração principal da noite era o Circo Voador, onde tocou o Little Joy, “projeto paralelo de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (The Strokes)”, aparente sobrenome da banda.
É o típico evento que no Rio vira um programa, a famosa boa da noite. Na platéia, tinha de tudo; de indies conhecedores de cada integrante aos perdidos; de quem só ouviu falar do LJ a gente gritando “gostoso” para Amarante. É, os fãs do Los Hermanos não são mole não.
Em muitos aspectos a histeria e empolgação do show realmente lembrou as apresentações dos barbudos. Sem falar que músicas como “Keep me in mind” (uma variação acelerada de “O Vento”?) bem poderiam ter saído do repertório do LH.
Na festinha após o show, o baixista gente boa Todd Dahlhoff (Dead Trees e parte do projeto paralelo de outro Strokes, Albert Hammond Jr.) contou que a banda estava preparada para isso, pois Fabrizio já havia alertado que o galego (apelido de Amarante entre o LJ) era grande no Brasil.

Atenção para o horário do início do show. No Circo. Inacreditável!
O que não foi nada, nada comum, foi o respeito aos horários marcado para os shows (ALELUIA!). As 23h30 o Cidadão Instigado já encerrava sua apresentação para os poucos que acreditaram e chegaram na hora. Precisamente as 00h27, o Little Joy pisava o palco, numa cena quase impossível de acreditar em se tratando de Rio ou de Circo Voador.
Antes disso, no momento vergonha alheia da noite, um rapaz anunciou ao microfone que um DVD estaria sendo gravado, quem não concordasse em aparecer que fosse “lá para atrás”, fechando com um constrangedor “é Little Joy no bagulhôu!”. Foi merecidamente vaiado.
Muita gente perdeu o show, basicamente por três motivos. Uns bobeaream e ficaram sem ingresso; outros chegaram atrasado por conta do trânsito infernal na Lapa e arredores (embora alguns culpassem a pontualidade, o que não deixa de ser irônico); e o pior caso: gente que comprou ingresso, chegou a tempo mas não conseguiu ver o show por conta da indesculpável super lotação da casa. Uma mancada e tanto, numa noite de acertos.
Feliz, depois de tanto tempo sem tocar no Brasil, Amarante estava visivelmente contente e não cansava de agradecer, cumprimentar rostos conhecidos na platéia e dizer como era bom estar de volta em casa.
No entanto, era Fabrizio Moretti, aparentemente doidaralhaço, quem ganhava os holofotes. Com algumas frases desconexas, danças bizarras e declarações populistas como “quem está muito feliz? Eu estou muito feliz, sabe porquê? Por causa de vocês!”, divertiu o público.


Sergio Mendes vs Noah Georgeson (foto: Carlie Armstrong)
O resto da banda estava mais na deles. O guitarrista (e produtor do disco) Noah Georgeson chamava mais atenção pela semelhança física com Sergio Mendes, apontada por João Brasil (perguntado, Noah disse que nunca tinha escutado isso antes, sabe-se lá como), e a vocalista Binki Shapiro, apagadinha, protagonizou os momentos fofos. O baterista Matt Romano se destacava pela técnica e pela precisão monstruosa.
Brand new Anna Julia?
A arquibancada estava cheia de amigos de Amarante. O parceiro Camelo, o produtor Kassin, dois terços do Do Amor, Pedro e Jonas Sá, Nina Becker e Vanessa da Mata cantarolavam as músicas. Nesse contexto brazuca, a música com maior potencial de hit do Little Joy, “Brand new start”, ganhou uma nova perspectiva.
Não tinha notado o quanto a pegada, as referências e até a estrutura da canção do Amarante — apesar do andamento bem mais lento e arranjo suave — se assemelha ao grande sucesso do LH, “Anna Júlia”, de Camelo. O “uô uô uôu” que encerra uma e o “oh, no” que fecha a outra escancaram as semelhanças.
Assim como o disco, o show foi bem curto. Tirando uma versão bem apropriada de “This time tomorrow”, do Kinks (”música que todos nós gostamos muito, explicou Amarante), outra de “Walking back to hapiness”, da Helen Shapiro, e uma música nova do LJ, nada foi acrescentado.
Moretti puxa o coro do público: “Último romance” (Los Hermanos)
Show encerrado, até então não havia tocado nenhuma música do Los Hermanos. Isso até Fabrizio ir ao microfone e começar a cantar “Último romance”, iniciando um coro gigantesco, que um encabulado Amarante acertadamente decidiu apenas ouvir e não acompanhar. Fabrizio ria sem parar.
Com esse final, é de se imaginar que o show do Circo tenha sido o ápice da turnê. Os intengrantes disseram que Porto Alegre e Belo Horizonte também foram memoráveis. Apenas São Paulo decepcionou, pela recepção muito fria.
Como suas atividades em seus projetos principais demanda muito tempo dos integrantes (Fabrizio entra em estúdio com o Stokes no mesmo dia que chega de volta aos EUA), a gravação de um DVD na penúltimo data da extensa turnê ( que se encerrará em Recife e viu a banda atravessar os EUA e passear pela Europa tocando em pequenos clubes) dava pinta de final de festa.
O baixista, Todd, afirmou que não é nada disso. A banda continua e tem até músicas suficientes para um segundo disco, que deve vir logo, logo.
Enquanto o disco não vem e a banda não define seus destino, resta a internet. Menos de 12 horas depois, o show estava inteiro no YouTube, filmados de diversos ângulos. Só que ao vivo, é claro, é muito melhor.

Chorofunk 14: Sany Pitbull, Sergio Krakowsky e o convidado
Carlos Malta tocam alguns clássicos da música brasileira em
versão choro-funk.
foto: URBe
Tem coisas que só podem acontecer na Lapa. Hoje em dia, com a vida cultural do bairro fervendo, isso é mais verdade do que nunca. Uma passeada pelo berço da boemia carioca numa sexta ou sábado dá a exata dimensão da efervescência cultural que acontece sob (e além) os Arcos.
Tem festa de samba (pra todos os bolsos), funk, forró, hip hop, ciganos, rock, eletrônica, boteco, barzinho, restaurante, carrocinha de cachorro quente… Não importa a direção que se tome na Avenida Mem de Sá, as chances de você encontrar algo que te agrade são enormes.
Não poderia mesmo haver cenário melhor para mistura proposta por Sérgio Krakowski e Sany Pitbull. A parceria entre os dois começou quando o conjunto de choro Tira Poeira, de Sergio, convidou o funkeiro Sany para uma parceria inusidada: uma versão choro-funk de “O morro não tem vez” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes).
O encontro deu caldo e daí para o Baile Chorofunk? foi um pulo. Durante o mês de janeiro, Sergio e Sany receberam convidados (Carlos Malta, Pedro Luis, Moyseis Marques) para uma festa no Clube Democráticos, tradicional ponto de encontro de samba, honrando o nome e abrindo o espaço para novidades.
Na sexta passada, o convidado foi Chico César. O público da noite há quatro anos dedicadas ao choro, estranha o som que vem do palco. Talvez não questionem tanto devido ao peso dos convidados, ainda que a casa não fique tão cheia quanto de costume.
A princípio, a mistura não é tão dançante quanto se esperaria de dois estilos como o samba e o funk. A dinâmica da mistura choro-funk por si só já exige atenção, some a isso um convidado e fica mais complicado ainda.
Na festa, até pelo local escolhido, é o samba que faz o papel de padrinho do gênero perseguido e mal visto. Pra você ver como o mundo dá voltas… Há menos de um século, quem precisava de padrinho era o próprio samba.
O negócio pega mesmo quando ficam Sany, Sergio e a banda, por já estarem ensaiados e, principalmente, entrosados. Seja como for, ambos os estilos só tem a ganhar com o encontro, disso não resta dúvidas.
Para o samba, é a absorção de mais uma linguagem. Para o funk, só a interação com músicos, ao vivo, é um caminho totalmente novo, afinal o trabalho do produtor de música eletrônica é quase sempre solitário, em estúdios.
Sany tem se destacado pela inventividade. Tido como precursor do estilo batizado como pós-baile funk, através de suas experimentações Sany vai alargando o que se acostumou esperar da música dos bailes. Não apenas pelas faixas instrumentais, mas também pela quantidade de novos estilos e referências que vem aproximando do funk.
Essa abordagem vai se alastrando, através de nomes como João Brasil, Bonde do Rolê, DJ Sandrinho e DJ Chernobyl, que como Sany, vão traçando novos caminhos e possibilidades para o baile funk, garantindo com isso a continuidade de uma das suas características mais interessantes: a falta de pudor de se apropriar do que quer que seja para construir uma boa faixa.
No palco, o melhor momento de Sany, Sergio e banda é a versão de “Construção” (Chico Buarque), cantada ao vivo por uma convidada. Repleta de efeitos dubwise, os violões, o vocal, a percussão e todo resto sustentam-se apenas sobre a clássica base de funk conhecida como Volt Mix, desacelerada até chegar aos 60 BPM. Coisa fina.
Na platéia, alguns não aprovam e vão embora. Outros, como Eugene Hutz, vocalista do Gogol Bordello e DJ residente de uma festa na Lapa, se esbaldam na pista com os remixes ao vivo de Sany para “We are your friends” (Justice) e “Harder, better, faster, stronger” (Daft Punk).
A noite tinha hora marcada pra acabar e o aviso foi feito no PA com o som do Windows sendo desligado. Sob aplausos. Numa noite de tantos cruzamentos, foi sintomático.
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Nessa terça (03 de fevereiro), Sany toca na festa Dancing Cheetah, na Casa da Matriz.
Festival encerrado, ficaram faltando esses dois registros do Humaitá Pra Peixe 2009:
João Ferraz Grupo
Em toda sua mineirice, chegando devagarinho, o João Ferraz Grupo vai tomando forma. Projeto do compositor e violonista João Ferraz, o grupo foi uma consequência de dois bons discos, que precisavam ganhar o palco. Não são arranjos fáceis de se executar ao vivo, o que atrasou bastante a empreitada. Bom ver que a espera valeu a pena.
Momo
A frente do Momo, Marcelo Frota fez um show bacana com seu folk brasileiro de pitadas indies. O som cresce bastante ao vivo. O violão de Marcelo corta o som da banda com precisão, ajudando a conduzir o transe a que as levadas das canções vai submetendo o público. Destaque para o teclado Casiotone de Fabio Pizzo e para participação de Régis Damasceno (Cidadão Instigado) no violão de 12 cordas.
Junio Barreto
Comadre Fulozinha
3namassa
Mais uma vez, o Humaitá Pra Peixe aportou na Sala Baden Powell, em Copacabana, em vez do tradicional Espaço Sérgio Porto (no Humaitá, obviamente).
Essa mudança transforma o festival de uma maneira interessante. Em Copa você encontra todo tipo de gente, de turistas a idosos, e isso se reflete no evento.
Se no Sergio Porto o público é majoritariamente composto de profissionais da área (jornalistas, músicos, produtores), amigos e fã dos artistas, em Copacabana poucas dessas pessoa aparecem. Porquê, é difícil explicar.
A Baden Powell tem ficado lotada de pessoas atrás de um bom programa, de conhecer novos artistas. Nesse sentido, a impressão é de que o trabalho de construção de público — o grande mérito do festival — se dá em uma escala maior em Copa do que acontecia no Humaitá.
Esse ano, porém, a tarefa de montar um festival de novas bandas foi mais difícil do que antes. A safra, inegavelmente, está bem fraca, principalmente no Rio, principal celeiro do HPP.
O próprio criador/curador do festival, Bruno Levinson disse em uma entrevista para a revista Programa, do Jornal do Brasil, que não pode “trazer todos os grupos de fora do Rio que gostaria. Foi o ano mais fraco em relação a qualidade dos artistas”.
Deve ser uma pedrada para os participantes ler uma declaração dessas (salvo que tenha sido citado de maneira incorreta), porém Levinson está sendo transparente. Realmente o festival não tem grandes destaques.
Isso não significa que não tenha alguns bons nomes que valha a pena conferir. Nas duas primeiras semanas passaram pelo palco o projeto 3namassa, Junio Barreto e Comadre Fulozinha, todos com raízes pernambucanas.
A noite de abertura foi por conta do projeto paralelo de Pupilo e Dengue, da Nação Zumbi com participação de várias cantoras e atrizes. O 3namassa faz um show temático, sob todos os aspectos.
O clima é de inferninho, com as mulheres interpretando de maneira sensual os temas tocados pela banda. Está mais para uma peça do que para um disco, as músicas dependem muito do estímulo visual para se sustentar.
Na semana seguinte, sem Isaar, que gravou dois discos com a banda, o Comadre Fulozinha mostrou que segue forte, criando intrincados arranjos percussivos que servem de cama para toada das quatro meninas, pontuadas por um sax e ocasionalmente um violão.
Compositor respeitado, gravado por nomes como Gal Costa, Maria Rita e Roberta Sá, Junio Barreto também gosta de cantar suas próprias músicas.
A presença de palco de Junio é estranha e cativante ao mesmo tempo. Ele circula pelo espaço, como se estivesse nervoso, ao mesmo tempo que estimula a banda com sinais de OK.
As ótimas letras e melodias mereciam arranjos mais interessantes. Não que a banda seja ruim — não é mesmo — porém soa tudo correto demais, perfeitinho demais, um tanto de emplastificado. Fala-se em improviso durante todo o show, só que a impressão é de uma banda ensaiada além da conta, perdendo a espontaneidade.
O festival continua por mais duas semanas.

Curumin
foto: URBe Fotos (no celular)
Que diferença dois anos podem fazer na carreira de um sujeito. Pode ser pouco, porém nesse meio tempo o trabalho do Curumin deu um belo salto.
Numa das últimas vezes que esteve por aqui, no HPP de 2007, ainda a bordo do seu regular e único disco “Achados e perdidos”, o paulistano era um ex-baterista em seu primeiro trabalho como homem de frente. As referências samba-rock eram escancaradas demais e, apesar de bem feito, faltava personalidade.
Veio 2008 e Curumin lançou um dos melhores discos do ano. Ao filtrar melhor suas influências, “Japan pop show” acerta onde errou na estréia. O que antes era uma coleção de referências bem marcadas — seja samba-rock, afrobeat, dub — misturou-se com classe, começando a formar uma sonoridade própria, resultado da colisão disso tudo.
Faltava o bom e velho teste do palco. Disco bom é uma coisa, agora disco bom que melhora ao vivo é oooutro papo. Coisa que pouca gente dá conta de fazer. Curumin, novamente, se renovou também nesse sentido.
Ao reduzir sua banda ao mínimo — agora um trio, formado por ele na bateria/vocal/MPC, um baixista/MPC e mais uma pessoa operando somente uma MPC — Curumin transformou também o seu som.
Hoje em dia, quando artista nenhum pode depender da venda de discos para sobreviver, o sujeito tem que fazer shows. Muitos shows. Para conseguir fazer muitos shows num país grande como o Brasil, ajuda muito ter uma banda enxuta.
Além das praticidades econômicas, o novo formato revela também outras facetas do trabalho do Curumin, como a queda para o lado eletrônico, utilizado de uma maneira diferenciada, aproximando seu trabalho do parceiro Lucas Santtana (artistas que sempre colaboram entre si).
Dessa maneira, enquanto a parte rítmica (baixo e bateria) surgem ao vivo, todo os outros elementos das canções (violões, teclados, vocais de apoio, efeitos, etc) se fazem presente via recortes e colagens. Muito além de simplesmente soltar bases pré-gravadas, o que se ouve é uma reinterpretação do que foi gravado para o disco.
Curumin com sua nova formação, numa gravação em estúdio para
um programa de TV e, portanto, um pouquinho sem graça
“Vem menina” emenda em “Turn your lights down low” (Bob Marley), uma versão de “Como é grande o meu amor por você” (Roberto Carlos) quase traz o Cinematéque abaixo, “Japanpopshow” vem inna dancehall style e “Kyoto” vira um hip hop pesadão.
Sem saber o quanto o assunto funk divide opiniões no Rio, Curumin apostou que a pegada Miami de “Caixa preta” iria pegar no Rio e achou graça quando o público riu do seu sotaque (”vocês tiram onda de tudo”, disse).
É verdade, carioca tira onda de tudo, frequentemente até do que não deve. São resquícios de quando isso aqui tinha mais relevância cultural e o sotaque local (não apenas o falado, mas o modo de vida) dominava o cenário.
Aos poucos vai se aprendendo a receber o que vem de fora um pouco melhor, para absorver, reinterpretar e — arrá! — dominar a cena novamente (delírios de grandeza…).
A favor da carioquice, enquanto Jorge Ben pode cantar sobre o Mengo e ser aplaudido em qualquer lugar do Brasil, quando Curumin puxou um Corinthians foi logo vaiado. Os risos voltaram ao som de “Magrela Fever” e “Compacto”, música que é o hit que “Vem menina” prometia ser.
Com apenas dois discos, Curumin vai se transformando em Cacique.
E foi só o primeiro show de 2009. Esse ano promete.
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