OEsquema

Arquivo: ao vivo

Punk Cigano


URBe Fotos

Numa época que bandas inexperientes, ou pior que isso, sem a menor idéia do que se fazer ao vivo em cima de um palco (o que, em muitos casos, poderia resolver o problema), sob a justificativa da “revolução da internet” apresentam porcamente seus MP3s nas principais cidades do planeta, um SHOW, com letras maiúsculas, como o do Gogol Bordello colocam as coisas em perspectiva.

Houve um tempo — não tão distante — em que não bastava aparecer igualzinho ao fotolog debaixo dos holofotes para se protagonizar um espetáculo. Era preciso, no mínimo, um pouco mais de carisma e talento — coisa que muitos nomes dessa geração possuem, somente não se dão o tempo de desenvolvê-lo antes de se profissionalizar virtualmente.

Diferente do batalhão que têm o Coachella, a maior concentração de bandas pequenas do planeta, como olimpo e objetivo final (sem saber o que fazer depois que, rapidamente, chegam lá; vide Clap Your Hands Say Yeah, Peter, Bjorn & John e outros tantos), o Gogol Bordello, que já passou pelo deserto californiano sem que isso tenha significado seu auge, tem um plano mais bem traçado.


Gogol Bordello

Pode ser que o fato de assistir ao show sentado num teatro (Hammersmith Apollo) influencie na leitura de que a performance é metade da apresentação, como no caso dos brasileiros do Brasov, Móveis Coloniais de Acaju ou Cordel do Fogo Encantado.

Seja como for, a mistura de sonoridades do leste europeu, acordeon, punk, dub via The Clash, dançarinas, coreografias e a figura central do vocalista/violonista Eugene Hütz, cantando, pulando, brincando com os roadies em cena ou dando esporro no segurança que tenta o impedir de pular na platéia, atrai muito mais que os frequentadores do MySpace.

Famílias inteiras assistiam ao show, como se fosse uma ida ao teatro, em vez de um show de punk. Gente que não conhecia nada da banda, se divertia tanto quanto os fãs vestidos a caráter, com camisetas rasgadas e com desenhos de estiligues, o logo do Gogol, feitos a mão.

Na banquinha, os discos eram vendidos a 10 pounds, metade do preço da camiseta. O grande produto do Gogol Bordello é o seu show. Como andam repetindo muito por aí, a grande saída para crise no mercado.

A diferença é que eles, de fato, tem um para vender.

Comente

Reuniões


Led Zeppelin, “Stairway to heaven”

Eu tentei. Fui até a porta, perambulei por duas horas num frio de 2 graus atrás de um ingresso, vi Dave Grohl, Noel Galagher, Ben Harper, Brian May, Arctic Monkeys circulando como se estivessem no Metropolitan (e a O2 Arena parece mesmo um shopping), mas não tive sorte. Mas eu tentei.


Portishead, “Glory box”

No sábado, o Portishead fez seu show de retorno (com disco novo programado pra abril de 2008) no festival All Tomorrow Parties. Teve até sample em português, como apontou o Diego Assis.

Enquanto isso, no Brasil, Joca Vidal e Christiano Calvet, apresentam visões bem diferentes do show do The Police, no Maracanã.

——-

Levando dura
por Joca Vidal

O show do The Police foi motivo para eu me despencar para aquele gigante branco que fica na Zona Norte do Rio, chamado Maracanã. Bobo que sou, me iludi que depois de tanto tempo sem pisar no templo do futebol as coisas iriam estar melhores. E o pior, achei que depois de tantos shows internacionais (tirando o Tim Festival) os produtores brasileiros enfim tinham aprendido a organizar grandes eventos, assim como foi o histórico show do Roger Waters alguns meses atrás na Apoteose.

A chegada ao estádio, como eu já esperava, foi caótica. Um (UM!) guarda de trânsito organizava o mesmo, até que consegui chegar do outro lado. O bate-cabeça era generalizado: ninguem sabia para onde ir, qual era a entrada do gramado, qual a do camarote, cadeiras e etc. Uma falta de informação absurda, sem placas indicastivas, ou seja, se vira! Mas vamos lá, topou ir, agora respira e vai!

Chegando ao portão 18, o único que dava acesso ao gramado (outro absurdo), vi que estava fechado (faltando 1 hora para o show) e uma muvuca gritando e se empurrando para entrar. Só não era pior do que final de Campeonato Brasileiro porque nesse caso a massa é composta de 99,345% de homens. Dessa vez eu tinha companhia feminina e não um bebum no cangote!

Passado o fardo, enfim entrei no estádio. A grandeza do Maraca hipnotiza, o show do Paralamas tava rolando, mas… sei lá, me parece datado. É claro que é impossível comprar uma cerveja ou um refri…. Dois caixas para o povo inteiro do gramado não foi uma coisa muito bem pensada/planejada.

Era mais jogo ir em direção ao banheiro (que estava funcionando, aêê!!) e comprar com ambulantes credenciados na grade por R$ 4 a lata. Tinha gente oferecendo R$ 10. Desisti. Não queria brigar com ninguem e já tinha mesmo pensado na possibilidade de passar o show a seco. E olha que o evento era patrocinado por uma marca de cerveja, que deixou de vender bastante.

Começa o show. Apesar de tudo, o gramado tinha uma visão legal, que dava até pra ver tranquilo, numa boa. Déjà vu: “Every little thing is magic” fez parte da minha infância/adolescência. Fazia parte daquelas coletâneas “Flash Hits” (ou algo parecido), que a Som Livre lançava de tempos em tempos. Eu adorava essa e “Human nature” do Michael Jackson. “Every breath you take”, chatinha que dói, mas lá, in loco (e tava bem “loco” mesmo) funcionou que foi uma beleza…

“Invisible sun”, “Walking on the moon”, “King of pain”… só pedrada. E com os três coroas (e só os três) destruindo tudo. Sting mostrando que melhora com o tempo, tocando muito, cantando perfeitamente bem e com um shape de causar inveja. Coppeland e Summers, apesar de mais baleados, eram muito simpáticos e competentes.

Depois de duas horas, o show acaba. Todos os problemas se dissiparam. Parecia que eu tinha transcendido e acabava de voltar. O que foi aquilo? Nem liguei quando uma atriz começou a cheirar cocaína na minha frente. Problema dela. Á minha volta, pessoas se abraçavam, rindo, assim como eu: consegui comprar três cervejas e a saída se deu sem maiores problemas.

Levei uma dura, mas esses puliça são dubem.

Formol
por Christiano Calvet

Assisti a um show de uma empresa e não uma banda de rock. Tudo muito burocrático, sem vida, previsível como uma palestra motivacional para grandes funcionários e seus grandes cargos e suas grandes vidas cheias de grandes coisas insignificantes.

Taí. O Sting daria um ótimo palestrante numa multinacional (ou no Projac…). Faz direitinho as caras, bocas, poses e trejeitos.

Salvaram-se os discos que tenho. Que discos! Que músicas! Que banda (a dos discos, não a do show)!

Por isso deixo uma esquizofrênica, solitária e mal-humorada palavra de ordem aqui, Bruno: não invoquemos o Led Zeppelin! Deixemos o Pete Townsend com as criancinhas (maldade minha…)! Enterremos os Rolling Stones! Exterminemos os Mutantes, proibiremos o Paul Mcartney de tocar os iê iê iês e não deixemos o My Bloody Valentine distorcer mais guitarra alguma!

Tem certas coisas que estragam com a passagem do tempo. A idéia da volta de uma grande banda de rock fazendo (ou não) algo “grandioso” pela sua vida, pela sua cabeça é uma delas. Principalmente nesse mundo de hoje. Não há museus para bandas de rock. Uma pena.

A banda deu uma clara mensagem a respeito disso, ignorada por milhares de pessoas: é pra ser diferente e por isso, indiferente. Não provoca coisa alguma porque não tem como ser de outro jeito. Pena que ninguém acredita nisso. Mas eu fui porque também queria acreditar. Eu fui como fui em outros shows querendo acreditar. Eu juro que quero acreditar mas quebro a cara. Tolice e teimosia. Vou continuar teimando, eu sei. Genética, sei lá.

Apesar das “palavras de ordem” acima, continuarei teimando. Que venha o Led Zeppelin e todos os filhos da eletrificação. Não quero perder a oportunidade de ir ao Museu também. Fazer o quê se sou colecionador de figurinhas, de selo, de bolinhas de gude? Genética, sei lá.

Não deixam o “rock” morrer. Não deixam o “rock” (entre aspas mesmo) entrar poste adentro com um Porshe conversível, virar mártir se acabar, se perdurar na eternidade da memória. E é por isso que não deixam o “rock” nascer de novo, se reconstruir, se reinventar. Deixam ele numa CTI (ou seria CPI?), a champanhe, dólar e choques elétricos e a (argh!), revivals.

Formol Years, Bruno. Formol Years…

1 Comentário

Digitalmente


Digitalism – Ismail Tüfekçi fala sobre o bolo no Brasil
fotos e vídeos: URBe

Seguindo o processo de construção da estética digital (assunto abordado na resenha do show do Justice), os alemães do Digitalism mostraram no Scala que, no que depender deles, o futuro será barulhento.

Ah, o barulho e seu poder de catarse… As explosões de graves distorcidos sobre batidas sujas, hora enquadradas no bumbo caixa do house, hora no 4×4 do techno — algumas vezes perigando resvalar no téquinôu, felizmente sem chegar a cometer tal desgosto — fritaram a platéia, transformada numa constante roda de pogo.

Para quem ficou chateado com o recente bolo da dupla nas datas brasileiras (por motivo de doença de um dos integrantes), o vídeo acima traz uma boa notícia.

O Scala é uma casa de pequeno/médio porte, com uma boa estrutura, qualidade de som e bem localizada, capaz de abrigar shows de bandas que, se ainda não são grandes, também já não deveriam estar tocando em qualquer muquifo. O tipo de lugar que falta no Rio, desde que, com todos os seus problemas, o extinto Ballroom deixou de desempenhar esse papel.


Midnight Juggernauts

A abertura da noite ficou por conta do Midnight Juggernauts. O show dos promissores australianos foi assistido por cerca de 50 pessoas, todas longe do palco.

O trio de baixo, bateria e teclados/vocal, pecou pela falta de graves, embora continue sendo interessante ver uma música com pegada eletrônica sendo tocada ao vivo. Apesar da ótima “Into the galaxy” e da bem boa “Road to recovery” (ambas do disco “Dystopia”), ainda falta um bocado para banda se destacar na vastidão de sósias no MySpace.

Digitalism

Quando chegou a vez do Digitalism tocar, a situação na platéia estava completamente diferente, com as pessoas se espremendo para ficar mais perto do palco.

Enquanto Jens “Jence” Moelle se ocupa dos sintetizadores e dos vocais, Ismail “Isi” Tüfekçi cuida da bateria eletrônica, tocada ao vivo, e da interação com o público, em alguns momentos beirando a fanfarronice.

O cenário é simples e eficaz. Dois telões retangulares horizontais ficam no fundo do palco e um terceiro fica a frente da dupla, escondendo o emaranhado de fios. Neles, são projetadas ilustrações minimalistas, combinado verde, branco e preto.

Há um que de Chemical Brothers na apresentação da dupla, não apenas pela disposição dos equipamentos no palco e pelos raios lasers. A menção a estética das raves (anos 90 mesmo, não a tal da new rave) e também uma certa tiração de onda, totalmente do bem, fazem o elo entre os dois de maneira mais forte do que com o Daft Punk, com quem são constantemente comparados.

As versões ao vivo não são muito difrentes do que se ouve no disco. O som alto, como num show de rock, não esconde o apelo pop das canções, apesar deles negarem essa inclinação.

Músicas como “Pogo” e “Anything new” (que voltou no bis) não deixam dúvida do potencial radiofônico da dupla, sem que isso desmereça o resultado final. A mistura é muito bem cozida.

O tech-house de “Digitalism in Cairo” (remix de “Fire in Cairo”, do The Cure), a citação a “Blue monday” em “Idealistic”, o electro-rock de “Pogo” e as linhas de baixo melódicas culminam na desorientação (alô Mauval!) de “Jupiter room”, melhor música do disco e um dos ápices da apresentação.

Pode não chegar a ser a “the biggest party ever” (maior festa de todos os tempos) alardeada em “Home zone” e frase repetida por Ismail diversas vezes durante o show. Mas é divertido pra cacete.

Comente

DMZ, a principal festa de dubstep de Londres


fotos e vídeo: URBe
* Esse texto foi republicado na coluna Rio Fanzine, do jornal O Globo

A escada apontando para baixo logo na entrada da DMZ, bi-mestral e mais importante festa de dubstep , é sintomática do clima underground da cena.

Porém, com o dubstep ganhando mais e mais espaço, é natural que após entrar na The Mass, em Brixton, você tenha que subir quatro andares de uma escada em espiral. O efeito desorientador das paredes creme e circulares são apenas um aperitivo do que está por vir.


Rumo ao underground

Na fila para guardar o casaco, alguém pergunta “o que exatamente é dubstep?”, no que é respondido pela menina logo a sua frente com uma rima, tão enigmática quanto explicativa: “bass pace and space” (“graves, ritmo e espaço”).

Do lado de dentro, Mala (do Digital Mystikz) e Loefah, davam uma aula prática para cerca de 500 pessoas espremidas numa pista de dança escura, iluminada apenas de tabela pelas luzes do bar e por uma bola espelhada em algum lugar do teto.


Mala

As batidas lentas e quebradas na maior parte do tempo são encobertas por linhas de baixo monstruosas, que muitas vezes se transformam numa cortina de graves oscilantes. Não é exatamente a definição de um som dançante. No entanto, não é o que os urros da pista a cada rewind demonstram.

Toda vez que uma faixa arranca gritos de “pull up” assim que estoura, na melhor tradição jamaicana, a mão de uma dos diversos MCs e amigos amontoados na cabine — raramente a do próprio DJ — volta a música para o início, proporcionando outra gritaria e prolongando seu clímax.

Durante a noite, duas das faixas que mais geraram berros foram “Poison dart” (com vocais da The Warrior Queen) e “Skeng”, ambas do produtor The Bug, que assistia a tudo do bar, ao lado de Kode 9, outro expoente do dubstep (e que já esteve no Brasil).


Skream atacando

A estrela da noite, porém, é um rapaz de 21 anos que manda o próprios fã “tomar no cu” assim que assume os toca-discos, incomodado com assédio do sujeito que enfia um celular com alguma mensagem digitada na sua cara.

Quando Skream começou a tocar, as 2h45, a agitação foi tanta que começaram a jogar cerveja para o alto, molhando seus discos e fazendo com que o MC tivesse que pedir para as pessoas se acalmarem.

Autor de “Midnight request line”, até agora o maior sucesso do dubstep, transpondo as barreiras da própria cena, Skream realmente empurra as fronteiras do gênero. Seu set é mais dançante do que os dos seus parceiros, mesmo sem privilegiar as batidas ou perder a essência grave do som.

Skream mostra que sabe capitalzar a atenção que vem recebendo e, para isso, utiliza um dos mais velhos truques do livro dos DJs.

Remixes de músicas conhecidas não são ainda uma prática tão comum no dubsptep. Por isso, a versão em câmera lenta de “Not over yet”, dos queridinhos do Klaxons, é certeira e só pode render mais destaque para as produções de Skream, que já tem um disco lançado, “Skream!” (Tempa).

Checando o relógio várias vezes ao se aproximar do fim do set de uma hora (impressionante como a pontualidade britânica se manifesta até na cena alternativa), Skream olha para pista de dança pela primera vez.

Ri e bate palmas. Ele sabe que não tem pra ninguém.

Comente

Casa


foto e vídeo: URBe

A participação do Sigur Rós no BBC Electric Proms foi pra satisfazer qualquer fã. Além de uma apresentação acústica do quarteto, as 300 pessoas presentes ao Cecil Sharp House, sede da English Folk Dance and Song Society, assistiram o documentário sobre a banda, “Heima”, com direito a perguntas aos integrantes ao final da exibição.

O show especial, sem dúvidas, era o grande motivo para se estar ali.

Apesar da delicadeza natural das composições, havia o risco da formação enxuta — com violão, baixolão, piano e bateria — pudesse sacrificar a sonoridade da banda, já que a guitarra, alta e distorcida, é um instrumento crucial nos discos e apresentações regulares do grupo.

Deu a lógica. As canções ficaram ainda mais suaves e introspectivas, o que não é pouca coisa em se tratando do Sigur Rós. Era preciso fazer força para lembrar como eram mesmo os arranjos originais, como se as músicas sempre tivessem soado suaves daquela maneira.

Os integrantes revezavam-se nos instrumentos, trocando de lugar algumas vezes, tocando “Untitled 1″, “Agaetis Byrjun”, “Hoppipolla” e outras. A partir da quarta ou quinta música, o quarteto recebeu o acompanhamento das cordas das meninas do Amina, completando o time.


Sigur Rós

Nas outras apresentações que fizeram antes de exibições do documentário sobre a banda em algumas sessões especiais, o Sigur Rós tocou, em média, três músicas. Como nesse caso tratava-se de um evento da BBC, televisionado inclusive, o show teve mais de 10 canções.

Em seguida, “Heima” foi exibido. O filme retrata a série de shows surpresa e gratuitos que a banda fez pela Islândia em 2006 (heima = em casa), logo após sua turnê mundial.

Apesar de estar repleto de clichês (como imagens de corredeiras exibidas de trás pra frente, a água voltando para as geleiras; paisagens geladas; e um certo exagero de planos fotográficos) e de ser um tanto longo, é interessante ver a banda em sua terra natal.

Estranho mesmo é o fato do documentário ser inteiramente falado em inglês, mesmo o Sigur Rós sendo uma banda que não se esforça para ser compreendida fora do seu contexto particular, cantando em islandês, em línguas inventadas ou dando títulos tão bizonhos para seus discos quanto “( )”.

Os que ficaram para a sessão de perguntas e respostas com a banda após três horas de música, não tiveram muita sorte. Com uma postura blasé nerd, os integrantes se esquivaram com piadinhas de quase todas as perguntas, mesmo das mais bobas, como sobre o que gostam de escutar.

Certas coisas, é melhor mesmo nem tentar explicar.

Comente

Dubstep

pic: infinite

O dubstep é um das vertentes mais recentes da música eletrônica, conseguindo algum destaque inclusive internacionalmente. No Brasil, o coletivo Tranquera tem liderado as misturas das batidas tortas do UK garage, grime e linhas de baixo cavalares com os sons locais.

Em Londres, existem duas grandes festa do gênero. A DMZ é a principal delas e acontece a cada seis semanas, em Brixton. A FWD>> é mais constante, toda sexta-feira, na boate Plastic People, em Old Street.

Nessa semana, os residentes Benny Ill e Hijak amassaram a turma que se espremia na Plastic People, lugar que lembra bastante a nossa Casa da Matriz. Se, numa primeira audição, o dubstep parece um som que dificilmente funcionaria para dançar, na realidade sso não pode estar mais distante da verdade.

Aglomerados e enxarcados pela suadeira provocada pelo calor do lugar, os corpos tremiam como se um terremoto em câmera lenta tivesse atingido a pequena pista, completamente as escuras, sem uma luz sequer.

A molecada de boné e casaco preto — e as poucas meninas dispostas a enfrentar a situação — urravam a cada um dos muitos rewinds e ignorava solenemente a lei que proíbe o fumo em lugares fechados se tivesse motivo suficiente a mão.

A próxima DMZ é dia 13 de novembro e, dizem, é uma noitada especial. Daqui um mês vai dar pra dizer.

Comente

Sub-graves

kode9_file.jpg
Kode 9
foto: MauVal

Apesar da recente atenção que vem atraindo (a BBC produziu um mini-documentário, filmado no primeiro aniversário da DMZ, principal festa dedicada ao estilo), o dubstep não é exatamente uma novidade. Sua linha evolutiva é confusa, com raízes que abraçam o UK garage, o grime e o drum n bass, além da interseção desses gêneros, o dub.

É difícill, portanto, definir um ponto inicial duma história que vem se desenvolvendo, pelo menos, desde 2001. Um dos principais nomes da cena, o escocês Kode 9 veio ao Rio, como atração do festival Hipersônica, mostrar um pouco do que se ouve na DMZ.

As experiências eletrônicas do canadense Ray XXXX e do inglês Scanner, que vieram antes da apresentação do Kode 9, espantaram boa parte do público. Talvez, algumas cadeiras e pufes tivessem ajudado as pessoas a apreciar aquele som que, certamente, não era voltado para a pista.

Quem esperava que Kode 9 fizesse um set de “hits” do dubstep, como “Midnight request line”, do Skream, foi surpreendido por um live pa sem batidas, feito inteiramente com frequências graves e sub-graves.

Foi apenas a terceira vez que Kode 9 se apresentou nesse formato, sem a presença do MC Spaceape (a não ser pelas imagens no telão), operando um Laptop (rodando o Live) e uma mesa de efeitos.

As frequências de grave eram picotadas, recortadas e sobrepostas, até formar uma base dançante, complementada por alguns ruídos, em alguns momentos resvalando no pancadão e amassando o peito dos presentes.

E falaram que o Daedelus, depois, foi ainda melhor…

6 Comentários

Gran finale

hpp2007.jpg
HPP 2007
fotos: Joca Vidal

E lá se foi o Humaitá pra Peixe 2007. Numa edição que sofreu os reflexos da fraca safra de novidades de 2006, o HPP mais mapeou a cena do que apresentou novos talentos, dando espaço para algumas das diversas vertentes culturais que se espalham pela cidade.

No novo formato, com shows nos finais de semana, o festival recebeu um público diferente do habitual. Não que antes, quando os shows eram às terças e quartas, fosse muito diferente, mas a ausência de gente das ditas grandes gravadoras e veículos de imprensa ficou ainda mais óbiva dessa vez. O desinteresse pelo novo chega a ser engraçado, não fosse trágico.

Quem pensava que o Brasov seria imbatível e levaria fácil o título de melhor show do HPP 2007, se enganou. O Móveis Coloniais de Acaju chegou atropelando — o que era até previsível — no final de semana de encerramento, com uma programação mais próxima da cara do festival.

duplexx_hpp2007.jpg
Duplexx

Na sexta, o Duplexx criou um clima de ficção científica, prejudicado por problemas técnicos no próprio equipamento. Alguns curiosos ficaram pra conferir as estranhezas eletrônicas da dupla, mas grande parte preferiu esperar do lado de fora.

Difícil dizer se foi falta de ensaio ou de proposta, mas tudo soou um tanto frouxo. A guitarra e bateria ao vivo não acrescentaram muito, ao contrário dos metais, notadamente o trombone, que ajudou a amarrar os ruídos gerados pelos sintetizadores. Timbres e programações legais apontam para um caminho que pode ser interessante, principalmente quando se souber que caminho é esse.

vulgue%20tostoi_hpp2007.jpg
Vulgue Tostoi

Ultimamente parece que toda banda extinta está voltando à ativa, por um show apenas ou para retomar a carreira. São tantas que chega a confundir. Afinal, quanto tempo uma banda precisa ficar afastada para se caracterizar uma reunião? Nessa verdadeira volta dos que não foram, o Vulgue Tostoi se apresentou no festival onde havia estado em 2000.

Jr. Tostoi tem se destacado como guitarristas de apoio de Lenine, assim como Guila, também baixista do Vulgue. Tecnicamente muito boa, a banda se perde em referências pouco disfarçadas. Dá pra ouvir um Jane’s Addicition e seu “Ritual de lo habitual” numa introdução em espanhol, AC/DC em riffs que lembram “Thunderstruck” e Mogwai, no clima soturno presente em quase todas as músicas, mesmo na pegada reggae de uma delas.

turbotrio_hpp2007.jpg
Turbo Trio

Apesar da presença de BNegão nos vocal, o Turbo Trio, que conta também com Tejo Damasceno (Instituto) e Alexandre Basa (ex-Mamelo Sound System e produtor do disco do Black Alien), é presença rara no Rio.

Abrindo a última noite do HPP 2007, o combo provou que o lugar deles é mesmo por aqui. Misturando Miami bass, baile funk, ragga e muita pressão nos graves, por vezes lembrando o Apavoramento Sound System, o Turbo Trio começou com “Terremoto”, cuja letra dá um passo além de “Rio 40 graus”, de Fernanda Abreu: “Riô 50 graus / quem não aguenta passa mal”.

Entre as participações virtuais de Deise Tigrona e trechos de Tim Maia (“Energia racional”), o vocal agressivo de BNegão deixa pouco espaço para as excelentes bases, o que pode dificultar o sucesso do projeto nas pistas, ao mesmo tempo que pode fortalecer o trio num baile. Já passa da hora, aliás, desse intercâmbio deixar de ser de mão única e artistas influenciados pelo funk se apresentarem nos bailes, devolvendo algumas referências para o batidão.

BNegão cantou a sua “Dança do patinho”, enquanto o telão mostrava trechos de “Rize”, documentário sobre uma dança, o krump, dirigido pelo fotógrafo David Lachapelle. Um remix de “Do robô”, outra do repertório do Seletores de Frequência, teve sample de “Big in Japan”, do Alphavile. Tomara que não demore mais um ano para o Turbo Trio retornar ao Rio.

moveis%20coloniais%20de%20acaju_02_hpp2007.jpg
Móveis Coloniais de Acaju

Móveis Coloniais de Acaju. Isso lá é nome de banda? Pra esse ter sido aprovado, imagina o que não ficou de fora. A falta de preocupação em soar moderninho e bacanudo, desde a decisão pelo nome da banda, é justamente o motivo do Móveis soar… bacanudo, moderninho e, sobretudo, relevante.

A desprentensão com que o Móveis Coloniais de Acaju mistura ska, samba, rock, samba-rock, sonoridades de big band dos anos 50, sem soar referencial ou respeitoso demais, é o segredo da banda. O clima de encontro de amigos (nada menos que 10!) pra tocar parece sincero, resultando num som com o frescor que se espera de todas as bandas novas.

Não foi a primeira vez dos brasilenses por aqui, ainda assim a recepção quase histérica do público foi além da melhores previsões. Sem se espantar com nada disso, os integrantes continuaram tranquilos, literalmente desviando dos confetes e serpentinas jogados pelos fãs para fazer um show histórico.

O Móveis é uma banda de palco. Embora sejam as músicas tocadas sejam as mesmas presentes no único disco gravado até hoje, “Idem”, a bolacha não consegue captar a catarse que são os shows do grupo. Será necessário um produtor muito competente pra fazer essa transposição.

moveis%20coloniais%20de%20acaju_hpp2007.jpg
A banda toca no meio do público

Além das músicas do disco de estréia e de algumas inéditas, o Móveis ainda encontrou espaço para versões de “Glory box” (Portishead), e de “Um, dois, três, quatro” (Little Quail and the Mad Birds), crássico alternativo dos anos 90, que contou com a participação do autor, o também brasiliense Gabriel Thomaz, hoje no Autoramas.

Gabriel aproveitou para anunciar que lançará pelo seu selo, Gravadora Discos — além de um compacto do Bnegão e os Seletores de Frequência e do novo disco do Autoramas — um EP intitulado “Vai Thomaz no Acaju”, como integrante da banda.

Por falar em BNegão, o MC deve ter batido o recorde de canjas em um só HPP. Depois de subir ao palco com A Filial, Curumim e com o próprio Turbo Trio, o rapper participou da versão de “Se essa rua fosse minha”, subvertendo o refrão e cantando”Se essa rádio, se essa rádio fosse minha / Eu botava o Acaju pra tocar / Se essa rádio, se essa rádio fosse minha / Não ia ter, não ia ter nenhum jabá“.

Ainda deu tempo de tocar “Copacabana”, que era pra ter sido a última. Porém, atendendo aos pedidos não só da platéia, assim como da própria banda, a produção liberou a saideira, com “E agora, Gregório?”.

Nem precisa perguntar pro tal Gregório. O futuro do Móveis Coloniais de Acaju está bem claro.

7 Comentários

Trovão

bethania_vivo%20rio_2006.jpg.jpg
foto: Beti Niemeyer/divulgação

Confirmando as suspeitas de que o desatre sonoro presenciado no show do New Order, duas semanas atrás, era fruto de uma passagem de som mal feita, Bethânia encantou com um som tinindo no Vivo Rio nesse final de semana.

Decorado com cenário e iluminação climáticas e com uma grande banda de acompanhamento, o palco, grande, fica do tamanho de um caixote de feira com a presença de Bethânia. Isso mesmo antes dela trovejar com seu vozeirão.

Teatral, a cantora domina sozinha o espaço no seu novo show, “Dentro do mar tem rio”. Divido em dois atos, o espetáculo traz músicas dos seus dois recém-lançados discos, “Mar de Sophia” e “Pirata”.

As mais de 30 canções são intercaladas por textos e poemas recitados por Bethânia. Os arranjos, potentes, são perfeitos para proposta, trazendo mais força para músicas como “Asa branca” (o que por si só não é tarefa fácil) e “Debaixo d’água”, de Arnaldo Antunes, que vira um quase-rap.

Contrariando a orientação dos produtores do show, a venda de bebidas e quitutes continuou durante toda a apresentação. Além de dispersivo e desrespeitoso com artista e público, não é exagero dizer que o vai-e-vem dos garçons com bandejas por um espaço reduzidíssimo é perigoso, embora os funcionários não tenham culpa disso.

Prova disso foi o copo de vidro que caiu na cabeça de uma pessoa sentada à minha mesa, se espatifando no chão e espalhando cacos pra todo lado. Não satisfeitos com a lambança, o gerente insistia em conversar a respeito durante o show. Quando terminou, ninguém veio sequer se desculpar.

No momento político do show, Bethânia lê o texto “Ultimatum”, de Álvaro de Campos (vulgo Fernando Pessoa), de 1917, provocando longos aplausos da platéia:

Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.

Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.

Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!

Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.

Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!

E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.

Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.

Poderia ter sido escrito ontem. Pena que não foi.

5 Comentários

Os opostos se atraem em SP


Franz Ferdinand: “This fire” (vídeo: Lúcio Ribeiro)

Quando a produção de um evento sequer responde ao pedido de credenciamento, pode apostar que não vem algo muito organizado pela frente. Com o Motomix, nesse final de semana em São Paulo, não foi diferente. Como aliás, já não havia sido a edição carioca, em 2005.

Devido a falta de um alvará do Espaço das Américas, local dos shows, na sexta-feira o Motomix chegou a ser cancelado pela Prefeitura. Até as 14h de sábado, dia do evento, ainda não se sabia o que iria acontecer, apesar do saite informar que as 13h haveria um comunicado oficial.

Horas depois definiu-se que a programação original seria mantida, com todas as apresentações acontecendo no Espaço das Américas no próprio sábado. Mais tarde, nova mudança, dessa vez definitiva. As atrações foram divididas entre sábado e domingo, a primeira noite priorizando o rock e a segunda a eletrônica.

Como consequência, bastante gente que viajou apenas para assistir o evento, gastou dinheiro com ingressos, passagens e hotel, não pôde assistir metade do que estava programado. A solução? O que ouvi de um dos envolvidos na produção dantesca foi um “que pena”. E só.

Por sorte, restou a boa música.

Chico_Tom%20Brasil_2006.jpg
Chico Buarque
foto: divulgação/Patrícia Cecatti

Antes do Motomix, Chico Buarque no Tom Brasil, porque até essa turnê chegar ao Rio, falta um bocado. A temporada de “Carioca” em São Paulo está em sua terceira semana de casa lotada e a banda, já quente (Wilson das Neves virando nos pratos e o escambau), se prepara pra gravação do DVD.

Além das músicas do novo disco, Chico revisita seu repertório (“João e Maria”, “Futuros amantes”, “Bye, bye Brasil”, “Quem te viu, quem te vê”), algumas tocadas por ele pela primeira vez ao vivo.

O público se mantém sentado e em silêncio, respeitoso, o máximo de tempo possível. Na segunda metade do show, Chico se levanta e essa é a deixa pro pessoal começar a se soltar, terminando com a casa toda em pé. Clássico.

franz_motomix.jpg
Franz

O Franz Ferdinand, encerrando sua turnê mundial, deu aos paulistas um gostinho do que o Rio havia visto no Circo Voador, no início do ano. Se não teve o mesmo clima intimista, obviamente por se tratar de um lugar muito maior, a energia da banda estava bem parecida.

“Do you want to” foi a primeira música a levantar a platéia e “Take me out” fez o estrago de sempre. A temperatura foi subindo gradativamente durante a apresentação. Em “Outsiders”, integrantes do Radio 4, a DJ Annie e outros participaram tocando bateria com Paul Thomson e em peças avulsas do instrumento.

No encerramento, com “This fire”, o vocalista Alex Kapranos, sem camisa, incorporou Jim Morrison e balbuciava as letras como um poema, enquanto o teclado era entregue para galera destroçar e a bateria destruída no palco, como há muito tempo não via. Sensacional.

O show foi gravado para um especial da MTV que, se for feito com as mesmas imagens em preto e branco e documentais exibidas no telão, será um belo programa.

Aos nova-iorquinos do Radio 4 coube a ingrate tarefa de suceder o FF no palco. Não deu. Enquanto o vocalista forçava um patético sotaque britânico e o percussionista enganava (mal) nos atabaques, o baixo sofria distorções bizarras que só podia ser algum defeito, não estilo, porque sempre tentava-se corrigir.

Soando como pastiche do The Clash (com direito até a uma incursão sarapa pelo dub, com cara de Sublime), a banda renegou o sucesso que nunca veio e não tocou sua única música conhecida, “Party crashers”. O show fraco serviu de requiém do festival, já que a maior parte do público resolveu ir embora.

modeselektor_motomix.jpg
Modeselektor

Os alemães do Modeselektor conseguiram, as 5h da manhã, fazer os presentes quicarem ao som do seu gélido dancehall robótico. Os graves vinham com força e a quebradeira também, enfeitados pelo telão bacana do grupo.

Uns 40 minutos depois, o som caminhou para um tech-house pesado, o produtor que estava com uma camisa da Underground Resistance ficou só de camiseta e a coisa toda deu uma certa farofada. Tudo certo, já era hora de ir pra casa.

2 Comentários

Coachella 2006

Coachella 2006 Daft Punk.jpg
Daft Punk

Você tem certeza de que uma viagem vai ser boa quando as coisas se encaixam sem muito esforço. A ida para Los Angeles, para conferir o Coachella Music & Arts Festival , foi premiada logo na chegada ao aeroporto.

No desembarque, um sujeito com pinta de rapper passou carregando uma bolsa de laptop com o logotipo do Ozomatli bordado na frente. Como não se vê esse logo toda hora, mesmo em Los Angeles, fui perguntar. Não deu outra, era Jabu, MC que substituiu Chali 2na (hoje no Jurassic 5) , seguido pelos outros integrantes.

Não bastasse a saraivada de shows que viriam no sábado e domingo, uma das bandas latinas mais bacanas de todos os tempos (top 5 na minha lista pessoal de shows mais desejados) tocava em Los Angeles na sexta-feira que antecedia o festival. Contando com a simpatia gratuita que a palavra “brazilian” desperta no exterior, conseguir ingressos foi moleza.


Ozomatli: “Cumbia de los muertos”

Não era um show comum. O grupo se apresentou na Hollywood Race Track, pista de corridas de cavalos em Inglewood, servindo de entretenimento entre um páreo e outro. Na platéia, praticamente apenas mexicanos e decedentes e um ou outro curioso cansado de perder dinheiro apostando em pangarés.

O despojamento da situação somado ao público receptivo garantiu um show especial, relaxado, com clima de apresentação para amigos. Com naipe de metais, DJ, MCs, baixo, bateria, guitarra e percussão e dois vocalistas, o Ozomatli enche qualquer palco e a mistura de hip hop, cumbia, salsa, dub, rock e letras em spanglish serviu para aliviar a tensão da manifestação hispânica (com adesão dos brasileiros e chineses) que viria no dia 1 de maio, o “Dia sem imigrantes”.

Comandado pelos cantores Asdrubal Sierra e Raul Pacheco, o Ozomatli tocou músicas de seus três discos, indo de “Cumbia de los muertos” até a balada “Cuando canto mi canción”, sem esquecer de “Como ves”, “Saturday night”, “Street signs”, fechando a fiesta com a incendiária “La misma canción” e o palco cheio de crianças brincado de percussionistas.

Antes mesmo de chegar a Indio (cidade onde acontece o Coachella) e um show pra coleção de favoritos. A viagem prometia.

Coachella, primeiro dia

Coachella 2006 entrada.jpg
Entrada

O cenário do Coachella, que esse ano reuniu 97 nomes em dois dias de show, é o belo gramado de um campo de pólo, cercado por montanhas e pelo deserto da região de Palm Springs. As atrações se dividem entre dois palcos (Coachella e Outdoor stage) e três tendas (Gobi, Mojave e Sahara), além de outros espaços com programação feita por rádios e revistas locais. A quantidade de gente que invade a cidade no final de semana do festival é grande, cerca de 60 mil por dia.

Após um leve engarrafamento no estacionamento e de uma fila na entrada, deu tempo de pegar o finalzinho do The Walkmen (com uma música com metais bem legal) e correr para pegar também a rainha do grime, Lady Sovereign. Talvez pela semelhança com o hip hop, a inglesa agradou o público, arrancando gritos com “Public warning” e pedidos de bis.

Com destaque para a saxofonista e segunda vocalista da banda, o Zutons misturou músicas dos dois discos. O vocalista, também muito carismático, segurou bem a platéia e o calor (eles tocaram debaixo de um sol violento). Ao vivo, a banda cresce muito, até dub teve. “Valerie” foi a música mais cantada.

Uma boa surpresa foi o My Morning Jacket. Bom do início ao fim, principalmente quando tocaram “Wordless chorus”. Eles vão abrir a turnê do Pearl Jam nos EUA, o que pode ajudar o MMJ, que está em seu quarto disco, a deslanchar.

Coachella 2006 wolfmother.jpg
Wolfmother

Até então os shows não eram dos mais disputados e estavam fáceis de ver. Isso mudou quando foi hora de assistir o Wolfmother, numa das tendas. O show serviu pra explicitar um dos poucos problemas do festival.

Apesar de aproximarem público e artistas, num evento para 60 mil pessoas as tendas lotam rápido e bastante gente não consegue entrar. Quem fica longe não vê muito bem, não apenas porque a estrutura das tendas bloqueia a visão, mas também porque os palcos são baixos (poderiam ter ao menos 1,5 metro a mais de altura para facilitar a vida de quem está mais atrás).

Influenciados por Black Sabbath, Led Zeppelin, Mars Volta por stoner rock, o trio australiano fez uma apresentação visceral. A voz do vocalista e guitarrista Andrew Stockdale lembra Ozzy Osbourne e Jack White (Stripes) e a mão pesada do rapaz arranca riffs secos e poderosos.

O toque de psicodelia fica a cargo do baixista e tecladista Chris Ross. É ele quem controla os efeitos através de pedais preso em cima do seu teclado, distorcendo, prolongando e alterando os riffs de Stockdale, garantindo que o som da banda não seja apenas um pastiche do rock setentista. A eletrônica está lá, ainda que discreta.

Coachella 2006 cyhsy.jpg
Clap your hands say yeah

Saíram os australianos, veio o combo nova-iorquino Clap Your Hands Say Yeah. Com meros dois minutos de atraso, o CYHSY ouvia palmas ansiosas. Com cinco, quando entrou no palco, ensaiavam-se as primeiras vaias. Num festival com tantas atrações, cada minuto é precioso e, por isso, o público não tolera demora.

Bastou o show começar para a turma esquecer da espera. Bom exemplo da moda que se tornou ouvir música nesses tempos pós-MP3 e iPod, o CYHSY cresceu através da internet, sem divulgação na grande mídia e conta com público fiel. Difícil dizer o que vai ser dessas bandas quando não for mais tão bacana saber qual a última novidade vinda dos porões de qualquer lugar.

A sonoridade do Clap Your Hands é interessante. Chata mesmo é a voz do cantor Alec Ounsworth, desafinado além do ponto do que pode ser considerado um estilo. Pelo menos em uma das músicas, “Is this love?”, Alec consegue controlar os defeitos de sua voz e faz parecer uma estranheza pensada. Pena que seja só nessa.

Às 17h45, no palco principal, Kanye West foi o primeiro peixe fora do áquario independente a dar as caras no festival. Seu disco mais recente, “Late registration”, faturou um Grammy e vendeu, até agora, 2,5 milhões de cópias. Com um sucesso comercial totalmente fora do padrão do resto da escalação, teve gente temendo que recepção ele teria.

Vestindo uma camiseta com uma foto de Miles Davis e pedindo para o público colocar os “diamonds in the sky” (diamantes no céu) — com um gesto juntando a ponta dos indicadores e dos polegares, lembrando outra coisa — Kanye não demorou nem meia música pra ganhar a platéia.

Acompanhado por bons músicos, incluindo cordas e cantores de apoio, reproduziu-se ao vivo os samples e programções dos seus discos. Antes de cantar o hit “Gold digger”, o rapper brincou, dizendo que o “Grammy está errado, essa é a melhor música do ano”, em referência ao título perdido em 2005 para “Boulevard of broken dreams”, do Green Day.

Como na versão radiofônica, que lima palavrões e insultos, Kanye substituiu o “nigger” (palavra agressiva usada para se referir aos negros) do refrão “she ain’t messing with no broke nigger” por um segundo “broke”. Sem perder a oportunidade de dar uma zoada num público majoritatiamente branco, o cantor mudou de idéia no meio da música e resolvou falar a letra sem censura, avisando: “brancos, essa é a sua chance de falar nigger“!

Depois de cantar “All falls down”, Kanye pediu ao DJ A-Trak para colocar algumas músicas que ele ouvia em casa, na adolescência. Vieram “Let’s stay together” (Al Green), “Rock with you” (Michael Jackson) e, acreditem, “Take on me”, do A-Ha (“isso não é uma piada, gosto mesmo dessa música”, fez questão de dizer), enquanto Kanye dançava como se estivesse sozinho em seu quarto.

Guardando o melhor pro final, a última música foi “Touch the sky”, feita em cima de um sample matador de “Move on up”, do Curtis Mayfield. Nem precisava, o jogo já estava ganho.

Coachella 2006 TV on the Radio.jpg
TV on the Radio

Correndo de um lado pro outro, ainda deu tempo de ver um pouco do TV on the Radio, antes de voar de volta para o palco principal atrás do Sigur Rós. Com várias pessoas assistindo o show deitadas no gramado, os islandeses coroaram o final de tarde com músicas do “( )” e “Takk”, em versões um pouco mais barulhentas e pesadas do que as dos discos.

A noite, Cat Power fez um bom show. Com aquela voz, fazendo passinhos de dança e acompanhada de 14 músicos (a Memphis Rythm Band) no palco, tinha sopro, cordas, vocais de apoio, enfim, completo. Cat focou mais músicas do seu último disco, “The greatest”, abrindo com a faixa título, mas também executando outras de discos anteriores.

O Franz Ferdinand enfrentou uma multidão disposto a mostrar que pode ir além dos 15 downloads de fama tão habituais hoje em dia. No entanto, depois do que foi o show no Rio, não tinha nem graça ver de novo. A melhor opção era conferir a metade final da apresentação de Damian “Jr. Gong” Marley.

Exagerando nas homenagens ao pai, Damian carimbou “Exodus” e “Could you be loved”, praticamente na sequência. Logo ele que, ao contrário dos irmãos, resolveu seguir uma linha de reggae atual, um dancehall com o pé fincado no roots and culture e uma boa dupla de baixo e bateria pra manter a casa em pé. Ainda bem que ele encontrou um espaço para mandar “Road to Zion” e a crássica “Welcome to Jamrock”.

Da Jamaica pra Áustria, sem perder o eco, o Tosca estava programado pra tocar as 22h15. Horário perigosíssimo, perto demais da principal atração da noite, Daft Punk. O resultado é que, como aconteceu com outros nomes, só daria pra ver o começo do show do projeto de Richard Dorfmeister.

A situação ficou mais grave com a demora pra começar o show. Quando começou, o pianista e segunda metade do Tosca, Rupert Huber, resolveu fazer uma introdução de uns 10 minutos no Fender Rhodes, espantando quem queria ao menos ter um visto um pouco do show. Quem não ficou até o final, teve que se contentar com a passagem de som, com o MC cantando “The model”, do Kraftwerk, sem parar.

O Depeche Mode também tocou nesse horário, tendo como garantia hits como “Walking in my shoe”, “Personnal Jesus”, “Enjoy the silence”, “Behind the wheel” e “Stripped”, além de faixas do disco novo e seis telões caprichados.

Quem se deu bem foi a dupla Audio Bullys, atração anterior ao Daft Punk e que, com isso, acabou tocando pra uma grande quantidade de pessoas, a maioria apenas aguardando os franceses.

Coachella 2006 Daft Punk pyramid.jpg
Daft Punk e a pirâmide

Há seis anos sem tocar e fazendo a estréia de sua turnê mundial (de apenas oito shows), o Daft Punk encerrou a noite e atraiu todas as atenções.

Um pano preto escondia o palco até o início do set. Quando a cortina caiu, viu-se a dupla dentro de uma pirâmide negra, vestido com as roupas de robô e começando a um zilhão por hora, com “Robot rock”. As pessoas gritavam sem parar, sem nem ter ouvido nada, só pela alegria da cena. O painel de led atrás dos dois piscava.

Apenas os sucessos da dupla seriam suficientes pra garantir uma noite de diversão. Mas eles queriam mais. A pirâmide era a grande surpresa.

Três músicas depois do início, quando todos estavam satisfeitos com o que viam, a pirâmide acendeu pela primeira vez. Ficou branca. Depois azul. Daí em diante, música a música, o triângulo negro (coberto de telas de plama) e a estrutura metálica que o emoldurava iam ganhando algo a mais, cores, movimentos. A cada vez que algo novo acontecia, a platéia urrava.

Coachella 2006 robo.jpg
Robô

Fazendo mash ups deles mesmos, o Daft Punk não negou nada. Teve “Around the world” em cima da base de “Harder, better, faster, stronger”, “Da funk” (essa e qualquer outra com uma pegada hip hop acertavam em cheio os americanos), “Technologic” e uma explosão coletiva com “One more time” misturada à “Aerodynamic”, como no remix que eles próprios fizeram para o disco “Daft Club”.

No final, após “Human after all”, os robôs fizeram jus ao nome da música, se renderam e bateram palmas pro público. Enquanto a pirâmide não se apagou, ninguém parou de berrar ou deixou a tenda, esperando a dupla pra um repeteco que, infelizmente, não houve.

Um show de música eletrônica perfeito, tanto visualmente quanto musicalmente, rivalizando com o Kraftwerk — e provavelmente ganhando — o título de melhor apresentação da praça. Sem essa de “precursores”, “sem um não teria o outro”, blá, blá, blá. Se as coisas fossem assim, nada andava pra frente.

E evolução, bem, esse não é exatamente um problema para o Daft Punk.

Coachella, segundo dia

Coachella 2006.jpg
Coachella

Mal deu tempo de dormir. O segundo e último dia do Coachella Music and Arts Festival, ainda mais quente que o anterior, começou com o funk latino dos venezuelanos Los Amigos Invisibles. Bandeiras da terra de Hugo Chávez pipocavam na platéia. De lá para a apresentação de Amadou & Mariam, dupla de Mali que mistura ritmos africanos, blues, afrobeat e violões e que fez um bom show por aqui, no Rock in Rio 3, em 2001.

No palco principal, a banda-de-menina Magic Numbers fez um bom show, servindo de trilha sonora para um espreguiçada debaixo do sol, vendo as bolinhas de sabão passar no céu. Fazendo seu último show antes de entrar em estúdio para gravar o próximo disco, o grupo aproveitou pra mostrar duas músicas novas.

Coachella 2006 pessoas.jpg
Público

Enquanto isso, músicos promoviam sessões de autógrafo na Virgin. Passaram por lá Matisyahu, She Wants Revenge e Seu jorge, entre outros. A interação com o público, no entanto, é limitada. Um atendente pega o disco (ou DVD, ou poster) das mãos do fã e entrega pro artista. Não há contato algum.

A loja de discos é um ponto de encontro, vendendo títulos de todos artistas do evento por, em média, apenas 10 dólares, bem mais barato que as camisetas, que chegavam a custar US$ 30. Não é fácil resistir a tentação. Lembrar que uma garrafa d’água custa 2 dólares e uma boa refeição vegetariana chega aos US$ 9 ajuda bastante.

Coachella 2006 brinquedos.jpg
Carrossel

Pelo menos passear pelas lojinhas de bugingangas (uma sombrinha em estilo japonês fez sucessos entre as meninas), estandes de revistas e andar nos brinquedos era de graça. Também, pudera, o carrossel era formado por biciletas e só girava se todos pedalassem! Tinha também roda-gigante em miniatura funcionando no mesmo esquema.

A organização impressiona, sobretudo pela qualidade do som em todos os palcos. Boa parte do mérito do festival, entretanto, é o astral dos frequentadores. Americanos (lógico), mexicanos (óbvio), espanhóis, cubanos, ingleses, convivendo num clima ótimo. Pessoas bem educadas, muitos “por favor”, “desculpe” e “obrigado”, palavrinhas bobas, pequenas, mas que podem fazer toda a diferença quando 60 mil pessoas estão reunidas no mesmo lugar.

Coachella 2006 matisyahu.jpg
Matisyahu

No meio da tarde, o reggae man judeu Matisyahu foi um dos primeiros a arrastar uma boa quantidade de gente para o palco principal. Ao contrário do disco, em que baixo e bateria ficam bem à frente, ao vivo a guitarra é muito alta. O rock, o hip hop, beat box e vocalizes predominam sobre o reggae, levando o som mais pro lado do Sublime do que do Sizzla. Bom, mesmo assim, embora diferente do que se esperava a julgar pelas gravações.

Coachella 2006 bloc party.jpg
Bloc Party

Pelo horário, 18h, dava impressão de que a ordem do Bloc Party e do The Go! Team na escalação havia sido invertida. Mesmo sendo mais conhecido, o BP tocou mais cedo que o TG!T, que só entrou às 21h40. Após o show das duas bandas, ficou provado que a ordem estava correta.

Um belo pôr-do-sol serviu de fundo para o show do Bloc Party, enquanto o vocalista Kele Okereke reclamou do calor (“dá pra fritar um ovo aqui no palco”, disse) e agradeceu ao público a disposição de ficar debaixo do maçarico pra conferir a banda.

Ainda que tenha faltado pressão no som — não ficou claro se por culpa da banda ou dos equipamentos — e a guitarra estivesse baixa, o Bloc Party foi bem, muito por conta da presença de palco de Kele. “Banquet” e”She’s hearing voices” continuam funcionando e a boa notícia é que aparentemente a banda finalmente começa a se coçar pra gravar outro disco e chegaram a mostrar uma das músicas novas.

A disputa por um bom lugar para assistir a Madonna obrigou quem quisesse assistir a estréia da Confessions Tour a sacrificar vários shows. Entre as vítimas estavam Yeah Yeah Yeahs, Mogwai e Digable Planets (e também Seu Jorge e Editors). Pior mesmo foi ter que aturar a farofada do Paul Oakenfold antes dela.

Coachella 2006 madonna.jpg
Madonna: telão

Em seu primeira apresentação em um festival, a rainha do pop ofereceu apenas um aperitivo da turnê que está por vir. Foram poucas músicas, abrindo com “Hung up”. Teve ainda “Everybody”, “Get together”, “Ray of light” e “I love New York”, deixando de fora a atual música de trabalho, “Sorry”.

Mestre em dominar as massas, Madonna conversou com o público (“does my ass look ok?” ["minha bunda tá legal?], perguntou), tocou guitarra, dançou com seus bailarinos, tirou a roupa e fez a festa da multidão. Era gente a perder de vista, muito, muito além da capacidade de 8 mil pessoas da tenda. A cantora saiu do palco sem dar tchau ou agradecer. Quem quiser mais, só pagando os US$ 300 do ingresso mais barato da turnê.

No caminho para conferir o The Go! Team, uma parada estratégica para escutar um pouco do Coldcut, sacudindo a tenda com drum ‘n’ bass, jungle, vídeos bem sacados no telão e protestos contra Bush e Tony Blair. No palco principal, o Massive Attack, acompanhado de Horace Andy, chapava os ouvintes.

Coachella 2006 The Go! Team.jpg
The Go! Team

O The Go! Team surpreendeu. Se transpor para o palco um disco repleto de samples e colagens não é tarefa fácil, mais difícil ainda é conseguir animar um público já cansado de horas e mais horas de show. Pois o TG!T conseguiu. Agitados e carismáticos, o grupo conquistou o público com “Ladyflash”, “Phanter dash” e “Everyone’s a VIP to someone”.

A banda é formada por brancos, negros, japoneses e cada integrante desempenha múltiplas funções, todos fazem um pouco de tudo. Seguindo a filosofia da internet, ferramenta de divulgação de quase todos os novos nomes atualmente, o trabalho coletivo é quase um pré-requisito numa banda atualmente, e o The Go! Team não é diferente.

Fechando a tampa, às 23h de domingo (um dia antes do lançamento do novo disco, “10,000 days”), o Tool voltou aos palcos, após muitos anos. A banda conta com uma legião de fãs na California, de todas as idades e incluindo muitas mulheres, coisa rara nesse estilo de som.

Os comentários sarcásticos do vocalista Maynard James Keenan destoavam do clima soturno do Tool. Brincando, saudou a platéia com um “e aí, hippies!” e fez comentários como “espero que vocês tenham conseguido desfrutar a área VIP. Claro que conseguiram, isso é Los Angeles, todo mundo é VIP”.

A pouca luz do palco, iluminado praticamente apenas por lâmpadas azuis, destaca o visual dos telões e seus vídeos sombrios. É praticamente tudo que se pode ver do show, Keenan fica o tempo todo no fundo, escondido perto da bateria. Boa ambientação para as viagens de “The patient”, “Laterallus” ou “Sober”.

3 Comentários

O Globo Online, 03/12/2004

gregory_geral.jpg
foto: Carol Mariotto

Resenha do URBe, para o Rio Fanzine Online (O Globo).

———-

Gregory Isaacs no Brasil

Ganhar uma segunda chance, em qualquer coisa, é raro. Nesse quesito, no entanto, 2004 até agora tem sido generoso. Quem havia perdido as visitas anteriores de Massive Attack e Kraftwerk, teve outra oportunidade de conferir esses shows. Com o ano acabando, mais um nome fundamental dentro do seu gênero voltou ao Brasil: Gregory Isaacs.

Ao contrário dos dois primeiros, o Cool Ruler superou sua visita anterior. A medida que a turnê avançava, os comentários positivos sobre as apresentações de Gregory Isaacs pelo Brasil iam se acumulando. Recife, Salvador, São Paulo, por onde passava o rei do Lovers Rock (vertente romântica do ritmo jamaicano, o que lhe rendeu o apelido de Roberto Carlos do reggae por aqui) ia desfazendo a má impressão deixada na sua última passagem, quando ficou devendo uma atuação digna de sua história.

No entanto, 2004, o ano do repeteco, não ajudou os cariocas. O Rio ficou de fora de boa parte dos grande eventos que agitaram outros estados e com Gregory Isaacs não foi diferente. Para quem enxergou essa vinda como uma chance imperdível de ajustar as contas com o passado, restou ir para Juiz de Fora, em Minas Gerais, o mais perto que o jamaicano chegou do Rio.

O povo de Juiz de Fora, solícito e gente boa, compareceu ao Free Hits, mas não lotou o lugar. Antes do show começar, os DJs do Urcasônica (que abriu a noite, botando som antes do Grave!) ouviram até pedidos para tocar umas musiquinhas do Gregory. “Pra gente ir conhecendo”, explicou o rapaz.

Nem precisou. Acompanhado pela boa banda brasileira Leões de Israel, Isaacs entrou no palco depois das 3h da manhã e em três músicas todo mundo, conhecendo ou não, estava dançando. De terno branco, blusa preta e boné do NY Yankees, a voz saia limpinha, tal e qual nos discos.

A primeira foi “Number One” e depois o velhinho enfileirou hits como “My only lover”, “Front Door”, “Soon Forward”, “Slave Master”, a clássica “Night Nurse”, “Raggamuffin”, “Love is Overdue”, fora a citação a “People are you ready”, do Tappa Zukie. Repertório pra agradar qualquer um.

Conforme o transcorrer do show, Gregory foi ficando mais à vontade. Primeiro tirou o terno, depois abriu a blusa. Não demorou muito e já tava chamando uma menina pra subir no palco. A garota ficou cinco minutos lá em cima enquanto um amigo tentava tirar uma foto. No meio do show. Ninguém reclamou.

Se ele tivesse cantado uma música já teria valido a pena, só por ver uma lenda do reggae ao vivo. Foi bem mais do que isso. Quem perdeu, reze à Jah por uma terceira chance. Essas, porém, costumam ser bem mais difíceis.

Comente

Ufa!

Primeiro veio o falatório, sempre elogioso. Saiu o disco e o todo o burburinho pareceu verdade. Ainda assim, o fato da bolacha ter demorado dois anos pra ficar pronta fez pensar se não sera uma banda de estúdio. Junte a isso uma matéria na MTV com um trecho duvidoso do show no Abril Pro Rock e o hype crescente em torno dos sete rapazes (Marcelo Camelo, BNegão, Gabriel Muzak e Nelson Motta estavam lá pra conferir) e dá pra entender a importância da apresentação de ontem no Ballroom. A noite era decisiva pra mostrar qual nome faz jus a banda: o original, Mombojó, ou o apelido maldoso, Mombojovens.

As dúvidas começaram a desaparecer logo na primeira música. Eles entraram rasgando com “Deixe-se Acreditar”, melhor faixa do disco (sabe-se lá porque não foi a escolhida pro clipe). O coro do público, berrando o refrão (esse é o reino da alegriaaaa!), deixou claro: o Mombojó – pela primeira vez no Rio – estava em casa.

As músicas da banda são marcadas por quebras de andamento e nuances que poderiam facilmente se perder ao vivo. No entanto, o som bem passado, coisa rara no Ballroom, garantiu a riqueza de detalhes e as incursões psicodélicas características da sonoridade do grupo. Qualquer semelhança entre as “sirenes” disparadas pelo teclado e o secos e zumbidos nos ouvidos aditivados com loló deve ser mera coincidência.

Interessante ver como caras tão novos (não custa lembrar, o mais velho tem 21) têm tantas referências bacanas e são seguros no palco. Os moleques são umas figuras. Samuel se contorcia junto com suas linhas de baixo e o vocalista Felipe S mostrou boa presença. Se o nome do disco de estréia, “Nadadenovo”, inicialmente sugere a falta de novidade, o que se viu ontem foi exatamente o contrário. Não teve nada do que já foi feito, nada repetido, nada de novo.

Difícil destacar alguma coisa na apresentação impecável. A versão de “Faaca”, ainda melhor do que no disco, foi matadora, assim como “Cabidela”, que ganhou uma introdução mais longa, com um solo ressaltando a melódica. As músicas de levada Jovem Guarda também caíram bem e as quatro ou cinco músicas que não fazem parte do disco, uma delas inédita, mantiveram o nível.

A interação com a platéia foi tímida, típica do começo de um relacionamento. Felipe agradeceu a recepção e aproveitou pra avisar que as músicas do “Nadadenovo” continuam disponíveis online, gratuitamente. Mesmo assim, pediram para o público  comprar o disco encartado na revista OutraCoisa, justificando: “a gente pede dinheiro pra vocês pra não ter que pedir pra gravadora”. Perto do final, dando a impressão de que estavam mesmo alheios a tudo que se passava na platéia e concentrados apenas em tocar, o vocalista quis saber: “e aí, foi bom?”. Nem precisava perguntar.

O bis – de verdade, repetindo “Deixe-se Acreditar”, em vez de salvar uma do repertório pra tocar depois – teve a participação do “padrinho” China, o que não foi exatamente uma surpresa ou algo inusitado. O ex-Sheik Tosado, do qual o Mombojó era fã, é parceiro em cinco músicas. Só faltou mesmo o violonista Marcelo Campello. Ele sofreu um acidente de carro recentemente e não pode acompanhar o grupo na turnê pelo sul e sudeste.

A banda confirmou ao vivo o que ainda permanecia uma dúvida. Um alívio. O show de ontem deve repercutir, de maneira que não será surpresa se, na próxima vez que aportarem por aqui, tocarem num lugar maior.

O recado foi dado em alto e, principalmente, bom som: sem essa de Mombojovens, eles são o Mombojó.

Comente

A revanche

fatboyrio.jpg
foto: Joca Vidal

O inglês Norman Cook, o Fatboy Slim, chegou no Rio mordido. É que na última vez que tocou na cidade, no Free Jazz 2001, o dj fez um set pesadão que não agradou ninguém. Nem a ele mesmo. Na coletiva de imprensa, Fatboy contou que naquela noite “levou uma surra” do dj que tocou mais cedo, o mesmo Jon Carter que entrou antes dele ontem, na Praia do Flamengo.

Foi o dia de ir a forra. O primeiro evento do Nokia Trends (em setembro eles trazem para São Paulo o mega festival multimídia espanhol, Sónar) começou às 16h30 com o db dos djs Patife e Marky. John Carter entou na sequência e fez um set tão bom quanto o de 2001. Destaque para “Lithium”, do Nirvana, em versão um pouco diferente da que o 2ManyDJs tascou no TIM Fest, ano passado.

Às 19h, cerca de 160 mil pessoas se espremiam para assistir o Fatboy Slim. Ele abriu com uma versão de “Garota de Ipanema” e em seguida botou a tal música que fez para o Rio. Recheada de samples de músicas sobre a cidade, como “Rio”, do Duran Duran, o vocal repetia “Rio de Janeiro, Rio de Janeiro” insistentemente antes de explodir num break matador. Presentão.

Carismático, o dj se comunicava com a platéia escrevendo mensagens nas capas dos discos que apareciam no telão, como no DVD “Big Beach Boutique II”. Foi dessa forma que ele informou que nunca vai tocar “Rio” em outro lugar, mandou um alô para a turma que assistia a tudo de barcos ancorados na praia e disse que queria fazer amor com a platéia depois do show. Até um Elvis, fase Las Vegas, entrou no palco para dançar.

O set de duas horas, bem pop, foi eclético. Teve desde uma versão de “Groove is in the heart” (Dee Lite), citação a “Menino do Rio” (Caetano) e “Born Slippy” (Underworld), a várias ameaças de tocar músicas mais conhecidas, como “Seven Nation Army” (White Stripes) ou “The test” (Chemical Brothers). O dj deu show, esgarçou o mixer.

Dá para dividir o set em três “categorias”: os sambinhas eletrônicos (meio mais ou menos, felizmente foram poucos); os 4×4 quadradões, com batidas em linha reta; e, finalmente, a melhor parte, os breaks grooveados, alegres e sacolejantes. Nessa linha, além da música em homenagem ao Rio, Fatboy tocou seu remix para “Quem cagüetou?”, música do Tejo (Instituto), com vocais do Black Alien e Speed, que fez parte da trilha sonora do filme “O invasor”.

“Quem cagüetou?”, um Miami bass / ragga / funk, está estourada na Europa desde o ano passado, quando serviu de trilha para um comercial da Nissan. A música chamou mais atenção do que propaganda, acabou sendo lançada como single e ganhou remixes de grandes nomes da música eletrônica.

O break beat parece ser a bola da vez. A música eletrônica passa por uma crise criativa (conversei sobre isso com o próprio Fatboy, em entrevista que sai na Revista da MTV de abril) e atualmente a mistura de gêneros aparece como solução. O break beat é um estilo perfeito para esse tipo de cruzamento. Isso acontecendo, aqui no Brasil a aposta mais sensata é o Apavoramento Sound System (parece que algúem já fez a aposta). Quem viu o show deles no TIM Fest sabe bem disso.

O momento funk se estendeu com a versão de “Whoomp! There it is”, a famosa “Uh, tererê”. É impressionante como o ritmo contagia, principalmente aqui no Rio. O público, que já estava dançando bastante, pulou ainda mais ao ouvir o pancadão. Fatboy mostrou que dessa vez pesquisou bastante o que tocar e acertou em cheio.

Na área de imprensa, colada nas caixas, o som estava bom. Mas houve bastante reclamação quanto ao volume, muito baixo segundo quem estava na praia, afastado do palco. Ao invés das laterais, a área vip ocupava o espaço em frente ao palco, criando um faixa que separava os djs da platéia. Nesse ponto as opiniões do público se dividiram. Para uns a festa foi bancada pela Nokia e eles têm o direito de chamar quem quiser, para outros a multidão presente deveria ter a chance de ficar mais perto, afinal a cidade era o cenário da festa.

A noite terminou cedo, às 21h, com uma queima de fogos para emoldurar a lua cheia e um papo de “ano que vem tem mais”. Tomara.

Comente
Página 7 de 71234567