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Coachella 2010, tamanho GG


fotos e vídeos: URBe
+ alguns outros encontrados no YouTube

Atmosfera hippie, nuvens, instalações, vento, fumacê e marola, poeira, sorvete de limão, engarrafamentos e, obviamente, apresentações antológicas, daquelas que fazem valer cada centavo investido na viagem.

O Coachella 2010 foi marcado pelo crescimento, tanto do festival como das bandas que por lá passaram. Desde o anúncio de suas mais de 100 atrações essa edição do festival californiano estava sendo chamada de “o maior Coachella de todos os tempos”.

Com uma escalação desesperadora de tão caprichada, decidir que apresentações perder foi mais difícil do que eleger o que ver. De qualquer forma, assimilar 30 shows ao longo de apenas três dias não é fácil. Mesmo espalhados ao longo de um ano seria bastante.

Leva algum tempo até as idéias se organizarem, os detalhes vão ressurgindo, o volume de informação se diluindo, até começar a se ter um entendimento completo do que aconteceu e o prazer de redescobrir as memórias dura um bocado.

Com a natureza enlouquecida do jeito que está , a apreensão de um terremoto atingir o sul da Califórnia durante o festival, ainda bem, não se confirmou. Porém nem assim o Coachella escapou de problemas ou mesmo dos desastres naturais.

A erupção do vulcão na Islândia interrompeu os vôos na Europa e provocou o cancelamento de vários artistas. Esse foi o menor dos problemas.

Esse ano foram vendidos 25% mais ingressos do que nas últimas edições, aumentando de 60 para 75 mil o número de frequentadores espalhados num espaço físico exatamente do mesmo tamanho de outros anos, prejudicando a tranquilidade, uma das características mais positivas do festival.

Pra agravar a situação, não houve venda de entradas avulsas, somente o pacote para o três dias, superlotando o lugar (a liberação de entrar e sair do acampamento não resolveu esse giro) e gerando vários problemas de organização, o maior deles o estacionamento, além da sujeirada.

Pode parecer chororô, até saber-se que no primeiro dia muita gente (o/) levou até quatro horas para conseguir entrar no evento e em média três para sair. Nos outros dias a situação melhorou, porém a melhor opção foi mesmo chegar muito cedo e pagar 20 dólares para utilizar um dos estacionamentos privados que pipocaram em quintais de casas das redondezas.

Para sorte dos organizadores, o que realmente será lembrado é a passagem do Jay Z pelo festival. Foi o Coachella do Hova, só dava ele, em toda parte, o tempo todo. O rapper monopolizou as atenções de uma maneira que nem Paul McCartney fez, com quase todos os artistas perguntando ao público sobre o show do rapper.

Dia 1: Chegando devagar
She & Him, Gil Scott-Heron, Them Crooked Vultures, LCD Soundsystem, Vampire Weekend e Jay Z


She & Him

Vencida a lentidão do trânsito e da fila da porta, não sobrou tempo para lamentar a perda dos shows do Wale e do Yeasayer. Já passavam das 17h e foi preciso correr pra chegar a tempo ao palco menor para conferir o She & Him.


She & Him, “Why Don’t You Let Me Stay Here”

Com o sol batendo na sua pele branquinha e refletindo no vestido azul de corte retrô, Zooey Deschanel encantou os marmanjos e as meninas com sua meiguice, bonita voz e mais entusiasmo do que técnica no teclado, pulando sem parar.

A combinação de folk, indie, anos 50, Fleetwood Mac é um acerto, mesmo que não seja realmente empolgante. Não fosse pela estrela de Hollywood, provavelmente a banda teria passado despercebida, o que só mostra como o guitarrista M. Ward, o Him da dupla, é um sujeito de visão.


Gil Scott-Heron, “Three Miles Down”

Na tenda, longe da corrida do hype, Gil Scott-Heron mostrou como se faz. Magrinho, com o rosto escondido por uma boina e parecendo frágil, o herói do funk soul chegou devagar, na classe.

Antes de começar o show, foi a frente do palco bater um papo com o público. Comentou sobre a falta de tempo para passar o som adequadamente, agradeceu a presença de todos, sentou em frente ao Rhodes e, quando abriu a boca, mostrou que sua voz grave continua firme, mesmo que um tantinho mais fraca.

Acompanhado apenas por um percussionista, outro tecladista e um saxofista/gaitista, Scott Heron transformou suas músicas em temas mântricos, como grandes introduções marcadas pelo improviso nas letras, sem nunca estourar.


Gil Scott Heron

Mostrando bom humor, Heron perguntou quem já tinha escutado a música do Common. “Fui sampleado”, disse, arrancando risos. “Não é tão ruim quanto soa e não dói, é ótimo para apresentar minha música para outras pessoas”.

E continuou: “Quando isso acontece, a primeira coisa que você faz é chegar em casa e ouvir o seu disco, pra ter certeza que está soando direito”, disse antes de emendar “Home is Where the Hatred Is” (sampleada por Common e Kanye West) e “Did You Hear What They Said?” (sampleada por Freeway). No seu novo disco, “I’m New Here”, foi Scott-Heron quem sampleou “Flashing Lights”, do Kanye West.

Após o encerramento com “In The Bottle”, algo que Scott-Heron falou logo no início fez ainda mais sentido: “para aqueles que apostaram que eu não estaria aqui, vocês perderam”. Perfeito.


Them Crooked Vultures

Já era noite e o Them Crooked Vultures foi o primeiro a arrastar uma multidão para o palco principal. Mesmo com a presença de Jon Paul Jones (Led Zeppelin) e Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters) tocando bateria, a liderança de Josh Homme é aparente, talvez até porque em seu caso o projeto seja maior que sua banda principal, coisa que não acontece com os outros.

Por mais que a contribuição dos outros integrantes seja perceptível, a sonoridade não esconde que Homme conseguiu montar uma formação dos sonhos para o seu Queens Of The Stone Age. Fosse somente mais uma banda nova, o Them Crooked Vultures já seria relevante. Poder ver Dave Grohl na bateria e Jon Paul Jones no baixo só faz tudo mais especial.


Them Crooked Vultures, “Gunman” e “New Fang”

Em casa no deserto, Hommes estava feliz da vida, dedicando música para James Murphy, líder da sua “banda favorita, LCD Soundsystem”.


LCD Soundsystem

De terno branco, foi justamente Murphy quem ocupou o palco principal em seguida. Iluminada apenas pela luz rebatida pelo globo de espelhos gigantesco pendurado em cima do palco, a entrada do LCD Soundsystem no palco principal sinalizou a grande mudança apresentada pelo Coachella 2010.

Passada a primeira década das “bandas de internet” lutando pra chegar ao seu público através de blogues e redes sociais, observa-se agora a consolidação de muitos desses nomes como grandes destaques.

Tendo estado em duas das três tendas do festival em anos anteriores, o LCD Soundsystem assumiu o palco principal como penúltima atração da noite e confirmou a aposta, echendo o lugar.


LCD Soundsystem, “Yeah”

Falante, Murphy comparou a situação com um restaurante. Se antes ele era o amendoim aperitivo, hoje ele ainda não era o filé de carne (esse era o Jay Z, disse Murphy), mas já podia ser considerado o peixe.

Num restaurante vegetariano essa comparação perderia todo sentido, como também perdeu embaixo dos holofotes. Ou Murphy tem baixa auto estima ou então até hoje não entendeu que no Coachella essa hierarquia não existe. Os diferentes palcos e tendas são somente diferentes ambientes, tanto é que Daft Punk e Madonna já tocaram nas tendas.

Em muitos momentos, a ironia de Murphy se confunde com arrogância e falsa modéstia, como antes da chatóide “Drunk Girls” debochou ao comentar sobre o vazamento online do seu terceiro disco.

Felizmente, o sujeito é bom mesmo comandando sua banda e é com isso que ele se ocupa a maior parte do tempo. As versões violentas de “Loosing My Edge” (dedicada a Gil Scott-Heron) e “Yeah”, ambas numa fúria crescente, “All My Friends” quase arrancando o dedo do pianista mostram que o LCD nunca foi amendoim.

A transmissão pelo telão estava espetacular, simplesmente não tinha um plano feio, nada mal enquadrado ou fotografado, um corte mal feito. Faz tempo que não basta uma câmera de frente para o palco para se ter um telão e o Coachella sobra nesse quesito. Cada show poderia render um DVD.

O Vampire Weekend já tocava no segundo palco quando a apresentação arrebatadora terminou, pra baixo, com “New York I Love You”.

Dava pra entender a presença da música quando a turnê era do disco em questão ou mesmo quando o LCD se apresenta em Nova York. Terminar um show tão animado dessa maneira é muito anti-climático.

O público levantou novamentequando viu pelo telão Murphy e Jay Z conversando nos bastidores, assim que o LCD saiu do palco.


Vampire Weekend, “Cousins”

Antes de Jay Z entrar em ação, a boa foi correr para assistir o que fosse possível do Vampire Weekend. Com o seu disco tendo conquistado o primeiro lugar da Billboard, em vendas físicas, não era surpresa nenhuma o quarteto lotar o lugar.


Vampire Weekend

O Vampire Weekend foi o primeiro artista a transformar o Outdoor Stage, mais intimista, numa filial do palco principal, sendo mais uma banda a mostrar que cresceu bastante. A quantidade de pessoas assistindo o show era, no mínimo, o dobro do que se costumava ver ali.

A música independente chegou as massas. Pode até ter sido que a escalação do Vampire no palco menor tenha sido proposital, forçando uma super lotação para mostrar a força da banda, essas coisas de gravadora. Eles estariam mais confortáveis no palco principal.

Mesmo tendo aumentado consideravelmente seu público, o show da banda continua no mesmo clima de antes, apenas amplificado. É uma pena que as passagens entre as músicas levem tanto tempo.


Jay Z, “99 Problems”

Pegando de onde o LCD Soundsystem deixou, o nova-iorquino Jay Z entrou em cena a la Michael Jackson, emergindo de um buraco no chão para exaltar a cidade que nunca dorme e convocar a platéia para quicar, com seus tradicionais gritos de “bounce!”.

Antes, é claro, tirou uma onda. Com 15 minutos de atraso, o telão passou a exibir uma contagem regressive de 10 minutos, ao som de “Don’t Stop Till Brooklyn” (Beastie Boys), so tema do James Bond e “Live And Let Die” (McCartney), como quem diz, “eu decido a hora que o show começa”.


Jay Z

O cenário era composto por objetos retangulares, multi-facetados, que recebiam diferentes projeções a cada música, podendo se transformar em Nova York (em “New York State Of Mind”) ou em uma torre de amplificadores (em “99 Problems”).

A banda é uma grosseria, gigante, conta com coral, metais, baixo, guitarra, duas baterias e um DJ, encorpando as versões ao vivo. A cada hit – e nos EUA são muitos – a platéia urrava, mostrando a força de um ícone americano cuja importância cultural é tremendamente difícil de transpor fora desse contexto.

Jogando pra galera, Jay Z repetiu a brincadeira do Glastonbury do ano passado tocado “Wonderwall” e convidou a primeira dama, Beyoncé, para cantar com ele “Forever Young” (Alphaville). O boato de que Dr. Dre faria uma participação nunca se confirmou.

Uma maneira ruim de encerrar um excelente show. Pior que isso, só mesmo o tumulto pra sair.

Dia 2: Coachella I love you, but you are bringing me down
Girls, Camera Obscura, Temper Trap, Edward Sharpe and The Magnetic Zeros, The xx, Hot Chip, MGMT, Devo, Aterciopelados, Major Lazer, Flying Lotus, Dead Weather, David Gueta e 2ManyDJs

O desespero pra não passar pela mesma provação do primeiro dia fez bastante gente chegar bem cedo, o que foi ótimo, já que muitas vezes bandas interessantes tem pouco público devido ao horário.

O campo de polo onde acontece o festival continuava lotado e, pela primeira vez, sujo. As latas de lixo transbordavam e garrafas de plástico, copos e latas se espalhavam pelo chão.

Logo no Coachella, um festival conhecido pelas preocupações verdes e que em pleno calor do deserto dá uma garrafa de água para quem entregar dez vazias nos postos de troca, algo que sempre fez as garrafas serem disputadas.

O segundo dia era também um dia com poucos conflitos de horários e menos shows imperdíveis, de maneira que durante boa parte do dia a boa era ficar pulando de um para o outro.

O primeiro foi o do Girls, que queimou a largada abrindo com “Lust For Life” e depois não conseguiu segurar a onda. Na tenda ao lado, o Camera Obscura fechava seu show com canções muito lentas para o início de uma maratona musical.


Temper Trap

No palco menor, coube ao Temper Trap cumprir a função de sonorizar um momento tradicional do Coachella: assistir algum show sentado na grama, bem de longe, descansando as pernas.

Com algumas boas músicas, no geral são parecidas demais com o único hit do grupo, “Sweet Disposition”, da trilha do filme “500 Dias Com Ela”.

Assim que os australianos terminaram de tocar, foi a deixa para se enfiar na multidão e pegar um bom lugar pra assistir o The xx. Pra garantir, a melhor saída era entrar já no show anterior, dos desconhecidos Edward Sharpe and The Magnetic Zeros.


Edward Sharpe and The Magnetic Zeros

Desconhecidos o quê. Uma multidão aguardava ansiosamente o insano grupo de bluegrass, uma grata surpresa, com a presença de palco do Gogol Bordello, a grandiosidade do Arcade Fire e o (des)apego a tradição do Kings of Leon. Falando assim soa melhor do que de fato é, mas “Home” é muito boa e foi cantada aos gritos.


The xx, “Shelter”

Bem colocado, estava tudo pronto para o The xx. Quer dizer, por parte da platéia, porque a banda penou um bocado. Em mais um ineditismo do Coachella 2010, até o som apresentou problemas.

Os amplificadores chiaram o show inteiro, tirando a concentração da inexperiente banda, que já tinha bastante com o que se preocupar de frente para aquela multidão.


The roof is on fire

Quando o The xx começou a se soltar, o teto do palco principal teve um princípio de incêndio, desviando a atenção de todos. Tentando manter o espírito elevado, o baixista simplesmente disse “the roof is on fire”, arrancando gargalhadas (mas nada de “burn motherfucker, let the motherfucker burn”).

Quando tudo ia se encaixando, tchanan, mais uma distração. Ninguém menos que o dono do festival, Jay Z, estava no fosso dos fotógrafos assistindo a banda com Beyoncé (o casal assistiu o Beach House do meio da platéia). Bastou mostrá-lo no telão ao lado da mulher para as mãos fazendo um diamante pipocarem no horizonte.


The xx

As músicas continuam lindas ao vivo e são muito bem executadas, tanto a voz da vocalista quanto as guitarras e o baixo tem pegada, só que falta pressão. O que não decepciona é a parte eletrônica e de programação.

O sujeito é um monstro na MPC, tocando dois samplers simultaneamente de uma maneira pouco usual, dedilhando-os como se fosse um piano.

O encerramento foi épico, com o “baterista” tocado o terror na combinação de batidas e um prato microfonado (com efeitos) sendo espancado ritmicamente pelo baixista.

Se falta chão pra banda, o caminho deve ser macio. Só a coragem de enfrentar um palco aberto com um som tão introspectivo (como foi bem dito na resenha do LA Times), mesmo sabendo que se dariam bem melhor em uma das tendas, mostra personalidade.


Hot Chip

A sequência de artistas do segundo palco só fazia o local inchar cada vez mais. Vieram Hot Chip, sempre sem convencer ao vivo, e MGMT, quando a quantidade de gente já estava insuportável.

A essa altura, o único lugar disponível para assistir o show era na praça de alimentação e mesmo assim através dos telões, que de tão distantes pareciam miúdos.

Com um bom som o MGMT melhora bastante no palco, pena que as músicas novas definitivamente não ajudam. E eles ainda inventaram de não tocar “Kids”, ousando demais.

De qualquer maneira, eram mais sinais das transformações do Coachella. Duas bandas que dois anos antes faziam shows nas tendas, sugando multidões nunca antes vistas no palco dois. Mudou o festival ou mudou o público, difícil afirmar, muito embora continue não se escutando esses grupos em toda parte.

Outra vaga cativa do Coachella é reservada para ao menos uma grande banda latina, afinal, estamos na Califórnia. Ozomatli, Café Tacuba, Los Amigos Invisibles, Manu Chao, Kinky, todos passaram por ali em algum momento. Esse ano foi a vez do Aterciopelados.


Aterciopelados

Os colombianos honraram a tradição de show bombásticos na tenda media e não se apertaram. Veteranos, sabem exatamente os atalhos do palco. Fecharam com “Baracunatana” e uma farta distribuição de frisbees de papel machê, entre mensagens de paz e amor.

No caminho para o Major Lazer deu tempo de ouvir o Devo tocando “Whip It”. A curiosidade falou mais alto, silenciando o bom senso e o trajeto até a outra tenda continuou, o que se provou um equívoco.

A tenda explodiu assim que o show começou e o projeto da dupla Diplo e Switch foi um dos mais comentados no dia seguinte. Porque, não sei.

Vestidos com ternos sem nenhum propósito aparente, já que as vestimentas não tinham nada a ver com cenário e figurino dos outros integrantes no palco, a dupla soltou um festival de bases de gosto duvidoso, um despedício de boas referências (baile funk, tecnobrega, reggaeton, dancehall), cobertas por berros do MC, trechos de Ace of Base e outras maravilhas.

David Gueta tocava na tenda ao lado, se esforçando na farofa, hits de FM e mesmo assim perdeu a disputa. O histórico de más escolhas de atrações eletrônicas do Cochella continua.


Flying Lotus, “Idioteque” (Radiohead)

Graças ao bom Deus uma verdadeira higienização auricular veio em seguida. Pela segunda vez no festival, dessa vez o Flying Lotus teve muito mais destaque. As pessoas se acotevelaram para ouvir o hip hop experimental produzido por Steven Ellison.

As batidas instrumentais tem forte influência dos graves do dub, do clima soturno do trip hop e dos blips do EBM. Utilizando apenas um laptop e sem tirar o sorriso do rosto, ao vivo o Flying Lotus entortou ainda mais suas produções.

A frente de um telão, Steven adiciona camadas de elementos uma sobre as outras de uma maneira que demoram a se encaixar, até soltar o elemento unificador e que dá a liga ao groove. Foi assim com as músicas do seu segundo disco, “Los Angeles”, assim como as reconstruções de “Idioteque” (Radiohead), “Avril 14” (Aphex Twin) ou nos passeios pelo deep house ou drum n bass.

Uma das melhores apresentações do festival, coisa fina.


Dead Weather

Na saída, ainda deu tempo de pegar o finalzinho do Dead Weather, mais um projeto bacana do Jack White, que teve seus momentos minimalistas atrapalhados pelo que vinha do palco principal, a cargo do DJ Tiesto.


2ManyDJs

Botando a tampa, o 2ManyDJs reuniu alguns dos seus principais remixes e mashups num set perfeito em que o grande destaque foi o telão. Cada faixa ganhou animações próprias, com visual de capa de disco, se adaptando conforme as mixagens avançavam.

Betty Ditto cantava na capa de um disco do Gossip, assim como MGMT, Vitalic, Joy Division e todos os outros, sempre acompanhando as mixagens. O efeito prático foi um melhor entendimento, principalmente para quem não consegue identificar cada uma das músicas utilizadas, esquentando a relação com o público.

A tempestade de papel picado indicou o fim da festa. Era hora de partir pra casa e descancar para o último e mais promissor dia.

Dia 3: Enfim, Coachella
Soft Pack, Local Natives, Rusko, Mayer Hawthorne, Florence & The Machine, Yo La Tengo, Spoon, Phoenix, Thom Yorke, Sly Stone e Gorillaz

Logo na chegada, notar que o campo de polo não mais parecia mais um formigueiro foi alentador, mesmo que pudesse ser pelo horário. O que parecia uma breve visão de tempos mais agradáveis do festival, se confirmou como o dia com mais cara de Coachella de todos.

Provavelmente muitas das pessoas obrigadas a comprar o passe para os três dias já estavam na estrada de volta pra casa a essa altura. Para contrastar com essa grande notícia, veio a triste informação de que o Hypnotic Brass Essemble havia sido cancelado.

Restou assistir o Soft Pack, legal, e o fraco Local Natives, mais um da barca do nu-folk, fortemente representada esse ano, salvando-se com a boa “Aeroplane”.

Enquanto isso, Rusko lançava dubstep em um dos cenários mais distantes daquele onde o estilo normalmente é tocado. No lugar de uma sala escura, com pessoas encasacadas, lá estava ele em plena luz do dia, as pessoas de chinelo. Uma mudança e tanto.


Mayer Hawthorne

Foi só quando Mayer Hawthorne apareceu que as coisas esquentaram, com sua músicas de baile de formatura inspiradas na Motown dos anos 50 e 60. O que poderia ser mera cópia se revela bastante criativo.

Se a voz não é exatamente avassaladora, dá conta da proposta, emitindo inclusive os falsetos do disco, coisa que o vocalista do Passion Pit não consegue chegar nem perto ao vivo. A banda de apoio, The County, é uma beleza.

Antes de “Maybe So, Maybe No”, Hawthorne contou que uma fã o perguntou no Twitter se ele iria tocar sua música favorita, aproveitando pra divulgar o seu endereço e pedir seguidores.

“Just Ain’t Gonna Work Out”, “Green Eyed Love” e até “Just A Friend”, do Biz Markie, foram mantendo o pique alto até Hawthorne sair com o público na mão e consagrado do salão.

Demorou bastante até a Florence & The Machine resolver dar as caras. O atraso somado a chatice que foi a primeira música foram a deixa para abandonar a menina e ir atrás do que realmente interessava.


Yo La Tengo, “You Can Have It All”

Há muito tempo atrás, houve um show do Yo La Tengo no extinto (e, quem diria, saudoso) Ballroom. Uma noite clássica, produzida por Rodrigo Lariú e que eu faltei. Mesmo sem ser um fã obsessivo do trio, ter perdido a chance de vê-los tão perto de casa foi uma mancada e tanto.

Anos depois, finalmente estava de frente com o Yo La Tengo. Como bem disse o Pedro, 50 minutos é muito pouco para uma banda com um repertório tão amplo, podendo ir do indie ao noise `a fofura em segundos.

Tentar fazer um show que cobrisse tantas nuances acabou prejudicando o YLT. Não tinha muita gente e a magnitude do palco principal piorou isso, uma pena, pois quem viu a coreografia de “You Can’t Have It All” (do George McCrae), feita a pedido do Sly Stone, segundo a banda, sabe o quanto foi sensacional.


Spoon

Do Spoon deu pra ver apenas cinco músicas, todas muito boas, num palco bonito, decorado com fios com lâmpadas incandescentes esperando o por do sol para serem acesas durante o show do Pavement. Assim que Jonsi, vocalista do Sigur Rós, liberou o palco, começou a corrida por um lugar para o Phoenix no Outdoor Stage.


Phoenix, “Fences”

Em nenhum momento durante a crise dos cancelamentos dos vôo na Europa passou pela cabeça a possibilidade do Phoenix não aparecer. Por isso, quando a banda entrou e contou que por pouco isso não aconteceu, mesmo já os vendo no palco, deu alívio.

Por conta das dificuldades de chegar aos EUA, a banda se apresentou sem seus iluminadores e desfalcada da decoração do palco, motivo pelo o qual eles pediram desculpas, falando que “a noite será apenas sobre a música”.


Phoenix

Provavelmente por decisão da banda, todas as luzes de palco estavam apagadas e o Phoenix se apresentou utilizando apenas algumas luzes brancas, em vários momentos coordenando a marcação, determinando de que lado para que lado deveriam ser acesas.

Era por do sol e a luz natural apenas intensificou a beleza de “Love Like A Sunset”, até no telão funcionou. Embora as vezes possa não transparecer nos textos aqui, sei exatamente o tamanho da sorte que é poder vivenciar momentos assim, e esse foi, literalmente, de chorar.


Phoenix

Enfileirando quase todas as músicas do “Wolfgang Amadeus Phoenix”, a banda fez até um bis (na verdade uma extensão do final de “1901”), coisa raramente vista no Coachella.

Em se tratando de shows, poucas coisas são melhores do que ver uma banda na turnê de um disco que você gosta. Num lugar desses, com esse visual e o astral da platéia lá em cima, todo mundo numa boa, não tem comparação. Clássico.


Thom Yorke & Atoms For Peace, “The Clock”

Se antes falei que Thom Yorke e seu Atoms For Peace teriam que rebolar muito pra não me fazer sair no meio do show para conferir o show multimídia do Ritchie Hawtin e seu Plastikman, foi exatamente isso que aconteceu.

Não sei porque, não estava esperando muito desse show. De qualquer forma, a apresentação multimídia do Plastikman ficou pra um outro dia. Nada como baixas expectativas para gerar grandes surpresas.

Pesou também o fato de, com a rapidez das atuais mudanças tecnológicas, amanhã tudo parecer uma besteira. Acredito que o experimento interativo com iPhones e iPods tenha sido demais. Porém, se há dez anos atrás houvesse tido um show utilizando SMS, hoje imagino que não seria algo do qual me lembrasse com muita empolgação.

Soltinho no palco, Thom Yorke parecia estar curtindo bem mais do que nos shows do Radiohead. Talvez eu também. As referências, principalmente pela influências mais escancaradas do dub e da música eletrônica, deixam Thom menos indie.

Depois de tantas bolas fora do Red Hot Chilli Peppers, estava com preguiça, ou ao menos não muito empolgado, para ouvir o Flea tocar. Por isso, foi uma grande alegria ter tido novamente tanto gosto em ver o baixista tocar.

Contorcendo-se no palco no compasso dos slaps, Flea fazia o instrumento estalar como se estivesse no Primus e pesar como se fosse o Robbie Shakespeare, com linhas de baixo cavalares. Até melódica o cara tocou.

O percussionista brasileiro Mauro Refosco, do Forró In The Dark, tem participação crucial na sonoridade do show. É ele quem faz a quebradeira andar com um instrumentos de percussão totalmente brasileiro, injetando batidas do zabumba e o toque do berimbau.

Nigel Godrich, produtor dos últimos discos do Radiohead, e o baterista estava mais recatados, porém precisos.

Quem esteve no Coachella esse ano vai lembrar do vento que soprou forte todas as noites e vai reconhecer os shows só pelas imagens, lembrando da brisa batendo no rosto. Durante o Atoms For Peace, a ventania se intensificou, como se fosse uma reação a pressão que saía do palco.

A decoração toda baseada em tubos de luz, lembrava a do Radiohead, porem estavam na horizontal em vez da vertical, piscando freneticamente em vez de movimentos lentos, hora pintando o palco de verde, hora de azul ou verde.


Thom Yorke, “Giving Up The Ghost”

No bis, Yorke tocou sozinho “Airbag” no violão e “Everything In It’s Right Place” no piano, coisa pra fã nenhum reclamar.

Voltando ao Plastikman, tecnologia por tecnologia, tenho a impressão que ter visto o bis de Thom Yorke, sozinho no palco com o violão, construindo um arranjo utilizando um pedal de loop, vá ter mais valor, mesmo que apenas sentimental, do que uma interação via celular.

Ao apresentar a música, Thom falou: “essa vocês não devem conhecer, a não ser que você passe tempo demais no YouTube”, tocando num ponto interessante, sobre como a busca desenfreado por saber tudo o mais rápido possível pode arruinar grande surpresas.

Felizmente, nunca tinha ouvido a canção e fui arrebatado na hora. Não estar por dentro as vezes tem suas recompensas. Foi o show do festival.


Sly Stone

Outra surpresa, justamente no sentido oposto, foi o que aconteceu no show do Sly Stone. Após um quase adiamento e uma mudança de horário, o rei do funk soul foi uma das últimas atrações do festival a tocar. O que se viu foi umas das cenas mais tristes que já presenciei na música.

A passagem de som, sendo feita na hora, prometia. Só timbre bonito, o groove rolando, a banda pronta esperando seu líder. Eis que Sly Stone adentra o palco, fantasiado de policia, com uma peruca e uma boina que impediam ver o seu rosto.

Totalmente acabado, Sly mal se aguentava em pé. Totalmente perdido, com menos 10 minutos de “show”, perguntava no microfone quanto tempo fazia que estava ali. Os músicos, principalmente uma das integrantes do coral e os roadies, faziam de tudo para cena parecer normal. Era impossível.

Sem conseguir tocar nem metade de alguma música, Sly mudava de idéia no meio das canções, dava ordens a banda e ainda apresentou ao público seus constrangedores experimentos com eletrônica. Não dá pra entender que motivo$ permitiram uma lenda da música ter sido exposta dessa maneira, uma coisa realmente deprimente. Ele não merecia isso.

Na saída, ainda deu pra conferir o final do Gorillaz, “Clint Eastwood” e “Feel Good”. Mesmo com uma banda grande no palco e cenário grandioso, Damon Albarn e sua turma pareciam xoxos e sem força, sem justificar a moral de encerrar o festival.

Exausto, restava finalmente dormir, feliz, sem nem pensar em tanta coisa ficou de fora, praticamente um outro festival (A bagunça do Club 75, Miike Snow, da turma da Ed Banger com um dos integrantes do Justice, Deadmau5, Pavement, Specials, PiL, Erol Alkan, La Roux, Faith No More, Raveonettes, Dirty Projectors, Little Boots, Plastikman, Mutemath, Julian Casablancas…).

Tudo certo. Ano que vem tem mais.

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Coachella 2009, formatura no deserto (completo)


vídeos e fotos: URBe

Dois anos desde a última visita (três desde a primeira) e depois de ter passado por alguns dos festivais mais enxarcados da Europa, finalmente chegou a hora de partir novamente em direção ao deserto, onde o sol é uma certeza e o visual garantido.

O Coachella Music & Arts Festival é um dos maiores encontros das chamadas “bandas de internet” do planeta. Ser escalado para o festival é como receber um diploma que diz “no último ano você se destacou e agora é oficialmente uma banda, não mais um projeto online”.

É claro que nem todos os formandos vingam na profissão. Muitos dos artistas que passam com algum destaque pelo festival, somem na poeira menos de um ano depois. Na turma de 2009, estranhamente ficaram de fora Metronomy e Lady Hawke, dois nomes muito elogiados em 2008.

Alguns outros voltam ao deserto maiores do que quando passaram por lá pela primeira vez, caso do The Killers, TV on the Radio e M.I.A. nesse ano.

A décima edição do festival talvez tenha sido uma das edições com a escalação mais fraca — certamente foi mais difícil manter a usual média de sete shows por dia. Obviamente, uma escalação frouxa do Coachella coloca no bolso boa parte dos festivais pelo mundo e ainda assim vale a pena.

Em 2009 houve menos conflitos de horários entre as principais atrações, tornando as decisões do que assitir (sempre a maior tortura do evento) mais fáceis. Você assistia um show sem aquela pontada de estar ausente de três outros imperdíveis.

Mesmo com a afirmação dos organizadores do evento de que essa provavelmente terá sido a terceira maior edição em termos de público (2007, com Rage Against the Machine, foi a maior), a sensação e comentário dos que estavam lá foi de que estava mais vazio que o normal.

Os sinais eram claros: menos filas pro banheiro, pra água, pra entrar, menos engarrafamento e menos tumulto no estacionamento. Tirando sexta, com Paul McCartney, os ingressos do festival não esgotaram.

A culpa de tudo isso, é claro, é da crise. Uma caminhada pela Melrose Avenue, passando entre um set de gravação do seriado The Hills (afinal, é Los Angeles) e muitas lojas de roupa, assusta a quantidade de lojas em queima de estoque e placas informando sobre fechamentos.

Na América fascinada pelo novo presidente (é impressionante a quantidade de produtos relacionados a Obama, de camisetas a doces, máscaras e livros), o bicho está pegando. O que para muitos foi um motivo a mais para cavar os quase 300 dólares do passe para os três dias de festival e esquecer tudo no deserto.

Se a música não desse conta, certamente a ensolação faria o serviço.

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1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney

Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.

Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração motivando o esforço a mais.

Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações mexicanas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver o Molotov fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do  De Falla.


Los Campesinos

As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.


Ting Tings, “Great DJ”

De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.

Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar foos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.

Como se vê, a dupla se leva a sério demais, a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s not my name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings visse algum demérito nisso.

De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados do dia, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol que foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.

Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.


Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison

A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.

Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela sexta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.

O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrente um dia inteiro debaixo do sol pra aguardar um show.


N.A.S.A., “Watchadoin”

Se o começo do dia foi calmo, a parte final foi corrida. Do Franz Ferdinadn direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.

A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.

Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.

Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa.


Beirut, “Nantes”

O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.

A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.

Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano Veloso, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não teve, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legals e bonitos do festival.


Instalações espalhadas pelo gramado

Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotadas, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.

Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.

Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, onde sobre a acapela e é feita uma nova base. Chegou a hora de um passo a frente, em outra direção? Pode ser.

Ou isso ou era simplesmente preguiça de dançar mesmo.


Paul McCartney, “Blackbird”

Chegada a hora do  Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o grande nome do evento.

O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico demais. Os arranjos soavam comerciais demais, como se fosse um DVD genérico, bem chato.

Além disso, os integrantes faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…

A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.

Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.

Brincando com a platéia, Paul disse que as vezes era difícil se concentrar e tocar com tanta gente segurando placas com dizeres como “Beatles, estive lá!” e chamando a sua atenção.

John Lennon também foi  homenageado com “Here Today”. Obviamente, as músicas dos Beatles (“The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”.

Vendo Paul ao piano, vilolão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.

Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas, dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).

Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.

Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?

Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada.

Até chegar no carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe…

Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!

Menos mal que por ter saído mais cedo ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vãi passando de 200 dólares no eBay.

Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo.

2o dia, sábado
Para one, Surkin, TV on the Radio, Fleet Foxes, Crookers, M.I.A., Chemical Brothers (DJ set) e Gang Gang Dance

Entre todos os acertos, se tem uma coisa na qual o Coachella erra a mão entra ano, sai ano é na programação eletrônica. Não dá pra entender o que acontece, porque apesar de muitos nomes legais entrarem na lista, quando chega a hora de tocar, só vem téquinôu.

Rara excessão foram os franceses Para One e Surkin. O primeiro até resvalou no pior do 4×4 farofento, enquanto o segundo passeou  mais pelo electro, ainda que tenha sido um tanto reto e sem suinge. O horário, 15h, é que não ajudou muito.

Os anos 90 vão ressurgindo também nessa área. Do remix dos Crookers para “Day n Night” (KiD KuDi) as músicas dos DJ sets do Chemical Brothers e Groove Armada, aquelas sirenes de rave do começo da década surgiam picotadas ou inteiras. É o elemento da vez.

Da área VIP, onde também fica a tenda de imprensa, aguardando bananas e coca-cola reverterem o estrago feito por uma wrap de tofu e um café da manhã de ovos com bacon, deu pra ouvir o Michael Franti & Spearhead, mas não dá pra levar sua politização muito a sério, não convence.

A área VIP é puro LA, com pururucas, playboys e celebridades B, de David Hasselholf a Busy Phillips e modeletes como a inglesa Agyness Deyn. Muita gente vem de Los Angeles só pra ficar badalando por ali, sem de fato entrar no festival.

A princípio essas pessoas podem parecer descoladas num festival como o Coachella. Com o aumento do consumo de música na era digital, mudou também o público.

Hoje é difícil você encontrar alguém que não tenha um iPod ou no mínimo conheça meia dúzia de bandas da vez. Lembro que quando era adolescente era comum encontrar gente que simplesmente não escutava música.

No entanto, apesar do maior número de ouvintes, o consumo é feito de forma cada vez mais passiva. Claro que isso sempre foi assim, desde que as rádios e TVs dominaram a distribuição de conteúdo cultural.

O que é mudou é que atualmente bandas alternativas e independentes — o tipo de som que antes exigia um esforço dos interessados para conseguir — chegam de forma massificada via internet, celulares e MP3.

Essa turma não desce pro gramado e não anda pelas tendas, de forma que de certa maneira continua tudo igual. A turma do oba-oba distante, os mais interessados circulando atrás de bons sons. Bom pro festival, que consegue atingir dois públicos diferentes, gera mais mídia e se mantém economicamente viável.

Entre os que vão ao evento pelos shows — a grande maioria — esse ano houve um certo relaxamento em relação ao consumo de maconha. Nas outras duas edições vi pouquíssima pessoas fumando. Dessa vez tinha zilhões de pessoas desbelotando tranquilamente e dando dois em pipes coloridos.

A explicação para essa mudança é a maconha medicinal. Ao que parece (se alguém souber essa história melhor, dizaê), no ano passado houve um flexibilização na lei que permite o uso da cannabis para tratamento médico.

Antes era restrito a doenças mais sérias e agora um baseado pode ser receitado para distúrbios como insônia, depressão e outros problemas que não podem ser diagnosticados em exames.

Rapidamente surgiu uma indústria ao redor disso, de maneira que basta ir a um médico em Venice Beach e sair de lá com a autorização para comprar maconha (e consumir em público) numa loja ao lado.


TV on the Radio, “Staring at the sun”

Com a rapaziada devidamente frita pelo sol e embalada pela marola, o TV on the Radio não teve muito trabalho para chapar o público de vez com um show grosseiramente grave.

O TVOTR foi o primeiro dos graduandos a tocarem no final de semana. Assim como eles, retornaram ao festival para tocar no palco principal em vez de tendas o The Killers e M.I.A.

Cada vez que Kyp Malone dedilhava o baixo os sub-graves pareciam estar saindo de algum equipamento digital de tão fortes. Era cada catranco no peito que não era mole não.

A densa massa servia de base para camadas e mais camadas de guitarra, num som que tinha que ser decifrado para ser entendido.

Durante o show, Kyp perguntou quem iria ficar pra ver o Thievery Corporation logo depois (não deu pra perceber se foi deboche) e afirmou que esperaria para ver o Gang Gang Dance mais tarde.

E ficou mesmo. A noite, sentado no gramado perto da tenda onde o GGD tocaria, ao ouvir a palavra “Brasil” Kyp disse que o Rio era sua cidade favorita no mundo e que espera muito poder voltar para visitar. Uma pena que o GGD não emplacou, com um show esquisito, bem diferente do que “Princes” sugere ser a onda da banda.

O TVOTR foi uma curiosa escolha para tocar no famoso horário do pôr-do-sol, geralmente reservado para atrações mais melosas, como o Fleet Foxes que tocou a seguir.

O cenário é o grande diferencial do Coachella. O lugar é lindo e a luz da Califórnia, um eterno final de tarde dourado, faz maravilhas pelos shows. É tudo que os festivais de verão na Europa não conseguem ser, pelo simples fato de que lá não faz sol.

A beleza do lugar influencia diretamente nas apresentações e no astral do público. Impossível separar uma coisa da outra, o meio é de fato a mensagem. Não é a toa que diversos artistas que tocam no Coachella preparam algo especial pra mostrar. É um lugar mágico mesmo.


Fleet Foxes, “White Winter Hymnal”

Já ao anoitecer, no segundo palco ao ar livre, menor, o Fleet Foxes mostrou seu folk setentista para uma platéia hipnotizada. As harmonias vocias, os arranjos, as canções, tudo muito bem feito e bem tocado.

Só que pra mim, tirando “White Winter Hymnal”, não bate. É retrô e introspectivo demais, embora seja totalmente compreensível a adoração que a banda desperta, é muito bom. É só gosto pessoal mesmo.


M.I.A., “Galang”
vídeo: mattwong26

Como a evolução percebida entre seus dois discos sugere, a M.I.A. do “Arular” é muito diferente da M.I.A. do “Kala”.

Quem viu a apresentação da M.I.A. no TIM Festival em 2005 não guarda boa recordação. Muita gente inclusive se desinteressou por ela por conta do show sem graça. Era o mesmo show que ela apresentava na Fabric, em Londres, para um público bem menor, numa boate. Não transpunha bem para o palco.

No Coachella, no entanto, quando ela tocou na tenda mais cedo no mesmo ano (a abertura do vídeo é hilária) a impressão deixada foi muito boa. Até que M.I.A. teve seu pedido de visto de trabalho nos EUA negado em 2006.

Demorou um pouco até M.I.A. voltar ao festival, em 2008. Em sua segunda passagem pelo Coachella, a tenda já não conseguiu dar conta. Segundo relatos, teve pessoas desmaiando, gente saindo pelo ladrão.

O trabalho de pesquisa da estética dos países em desenvolvimento de M.I.A., tanto a visual quanto a musical, cresceu bastante em “Kala”. Provavelmente ciente de que sem o visual seu show não passava totalmente sua mensagem, M.I.A. se transformou numa Madonna do terceiro mundo.

Promovida ao palco principal,  aproveitou o tamanho e encheu de gente, dançarinos, músicos, roupas fosforescentes, e não apenas um DJ como antes.

Do alto de um púpito repleto de microfones, M.I.A. apresentava os números e dava palavaras de ordem, enquanto o telão exibia imagens de um protesto, com placas onde se lia “M.I.A. is a terrorist”.

Marrenta que só, entrou cantarolando na melodia de “Rehab”, de Amy Winehouse (a grande ausência do festival, cancelada) “they tried to make me sing at the Oscars, but I said no, no, no!”. Tirou onda com o Grammy e depois da sexta música ameaçou a produção: “seis músicas, já posso ir embora.”

Como se sentisse culpada pelo próprio sucesso, M.I.A. faz questão de se afirmar não-cooptada pelo sistema, fazendo questão de manter a postura rebelde, com tanta vontade que, claro, parece falso.

Problema nenhum ela não ser mais a mesma menina desconhecida que gravava músicas em casa e coloca na internet. Seria mais honesto aceitar que os tempos mudaram e continuar inovando a partir de um novo lugar, em vez de querer repetir o que já fez.

Musicalmente essa crise não deve estar acontecendo e a inclusão de “20 dollar” no repertório taí pra confirmar. A não ser que ela esteja somente preocupada em manter a popularidade que mostrou ter durante o encerramento com “Paper Planes”.

Seria uma grande besteira. Esse caminho tem quer natural, tentar adivinhar o que vai agradar o público pucas vezes dá certo. Basta ela fazer o que ela faz, naturalmente, que o resultado vai continuar muito bom.

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3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.

Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tuneKanye West não está mesmo sozinho nessa.

Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.

Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.


Mexican Institute of Sound

Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.

Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.

Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.


Friendly Fires, “Paris”

Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.

Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.

Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.

É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.


Lykke Li, “Knocked up” (KoL)

Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.

Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.

Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.

Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.

Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.

O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.

Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.

Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.

Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.

Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.

No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.

Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.


Yeah Yeah Yeahs

Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.

No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.


Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”

Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.

As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.

Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.

O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.


The Orb

Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.


Etienne de Crecy

Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.

Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.

Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.

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Coachella 2009, formatura no deserto (parte 4/4)

3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.

Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tuneKanye West não está mesmo sozinho nessa.

Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.

Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.


Mexican Institute of Sound

Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.

Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.

Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.


Friendly Fires, “Paris”

Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.

Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.

Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.

É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.


Lykke Li, “Knocked up” (KoL)

Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.

Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.

Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.

Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.

Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.

O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.

Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.

Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.

Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.

Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.

No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.

Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.


Yeah Yeah Yeahs

Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.

No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.


Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”

Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.

As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.

Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.

O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.


The Orb

Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.


Etienne de Crecy

Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.

Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.

Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.

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Coachella 2009, formatura no deserto (parte 2/4)

1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney


vídeos e fotos: URBe

Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.

Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração como motivação.

Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações latinas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver os mexicanos fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do De Falla.


Los Campesinos

As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.


Ting Tings, “Great DJ”

De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.

Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar fotos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.

Como se vê, a dupla se leva a sério demais e a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s Not My Name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings enxergasse algum demérito nisso.

De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados de sexta, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.

Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser detalhadamente calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.


Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison

A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.

Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela quarta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente, justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.

O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrenta um dia inteiro debaixo do sol para aguardar um show.


N.A.S.A., “Watchadoin”

Se o começo foi calmo, a parte final da sexta-feira foi corrida. Do Franz Ferdinand direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.

A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.

Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.

Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa. Kanye West faria uma participação via telão, se o equipamento de transmissão não tivesse “falhado”. Tudo teatro.


Beirut, “Nantes”

O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.

A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.

Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não rolou, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legais e bonitos do festival.


Instalações espalhadas pelo gramado

Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotada, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.

Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.

Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, utilzando acapelas sobre uma nova base. É hora de um passo a frente, em outra direção.

Ou isso ou então foi simplesmente falta de disposição pra dançar mesmo.


Paul McCartney, “Blackbird”

Chegada a hora do Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o beatle.

O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico, certinho além da conta. Os arranjos soavam comerciais, como se fosse um DVD genérico de “rock n roll”, bem chato.

Além disso, os integrantes da banda de apoio faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…

A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.

Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney, antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.

John Lennon também foi homenageado com “Here Today”. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”. Obviamente, as músicas dos Beatles (“The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção.

Ver Paul ao piano, violão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.

Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas e dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).

Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.

Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?

Não. Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada. “Raras vezes na vida pode-se procurar o carro pelo estacionamento com uma trilha dessas”, dizia para me consolar.

Até chegar ao carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe.

Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!

Menos mal que, por ter saído mais cedo, ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vai passando de 200 dólares no eBay.

Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo. Literalmente.

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Favela ê, favela á, favela

Como se sabe, americanos e europeus são fascinados pelo universo das favelas brasileiras. Será que eles estão prontos para tê-las no quintal de casa? A Cidade das Tendas, em Sacramento, na Califórnia, está assustando os americanos. O Governator falou que o acampamento será removido.

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