OEsquema

Arquivo: cinemateque

Hoje tem: Bruno Morais

Comente

The book is on the table


Moptop/Delux

Semana passada o Moptop decidiu reviver os tempos de início da banda, quando se chamava Delux e cantava em inglês e a semelhança com o Strokes era ainda maior (acredite). Desde a mudança para sua língua nativa, além de letras muito melhores, veio também algum distanciamento da sonoridade dos nova-iorquinos.

O ápice dessa primeira fase foi a confusão no fórum de discussão do saite dos americanos, quando músicas dos brasileiros foram tidas como um vazamento do segundo disco do Strokes, o que quase levou o Delux a se mudar para os EUA. Ele resolveram ficar, cantar em português, assinaram com uma multinacional e continuam na correria por aqui.

Na primeira metade dos anos 90, depois diversas bandas de rock tentarem escrever em inglês mesmo sem vislumbrar uma carreira no exterior, a coisa se inverteu. Culminando com o cabalístico ano de 1994 — e a ascensão de Chico Science, O Rappa, Planet Hemp, Raimundos e outros — cantar em português passou a ser regra.

Em saraus de colégio ou no circuito independente, o inglês foi perdendo espaço. Reorganizando-se politica e economicamente, a mudança era também sinal da brasilidade em alta, tanto aqui quanto lá fora.

O troço tomou uma proporção tão grande que mesmo o Sepultura, das poucas bandas brasileiras que conseguiu construir uma carreira internacional cantando em inglês, olhou para o próprio país em busca de novas referências, resultando em seu principal disco, o clássico “Roots”.

Veio a internet, o acesso facilitado a mercados internacionais (acompanhada de uma certa pasteurização global em certos estilos, da eletrônica ao rock a moda) e o sucesso do Cansei de Ser Sexy. O estouro na Inglaterra, conquistando a imprensa do velho mundo, coroou um novo momento. Cantar em inglês passou novamente a ser uma possibilidade.

Hoje uma penca de bandas não tem vergonha nenhuma de não escrever em português. E diferente da geração 80, a empreitada vem dando resultado, vide os casos do Mickey Gang, Copacabana Club e Boss in Drama, para ficar em exemplos bem recentes.

Nesse contexto, o retorno do Moptop ao formato Delux poderia até ser vista como uma aposta séria. As músicas no idioma da rainha estão inclusive disponíveis no saite da banda. A questão é saber se os integrantes terão energia pra começar tudo outra vez. Entre esquizofrenia e dupla personalidade, o mais fácil é ser tudo pura curtição.

Atualmente, aliás, quem pegar uma guitarra por qualquer outro motivo que não seja diversão está indo em direção a uma quase certeira frustração. Uma banda hoje em dia é uma roda de violão amplificada, é pra tocar para os amigos, como se cada galera tivessa sua própria trilha sonora original.

Na dificuldade de se  (alargar a barreira dos amigos ainda é possível). Por mais que se chegue em mais gente, o núcleo da brincadeira tende ao nível pessoal e os eventuais fãs.

Assistindo os amigos pra lá e pra cá no Cinemateque, tomando cervejas e dançando, vendo o Cabelo Veludo (o maior fã do Moptop, autor da sensacional “Azaração”) se esgoelando na primeira fila, dá a certeza de que furar esse círculo e chegar a grande massa é uma missão cada vez mais ingrata.

Fico curioso em saber como será a longo prazo. Se esse raciocínio se confirmar, as gerações vindouras não terão grandes ídolos (uma necessidade humana histórica, como nos mostra religiões milenares), nem denominadores comuns. Não morrerá outro Michael Jackson.

Pior que isso é que daqui há um tempo, talvez seja como grande parte das bandas não tivessem sequer existido (e não tem lista de 500 maiores músicas da década que dê jeito nisso). Vão sumir na poeira, ninguém vai lembrar.

Em algum ponto desse futuro, mesmo que ninguém esteja ouvindo, o refrão de uma das músicas do Moptop soará profético não apenas para própria banda: “Sem ninguém pra te esquecer”.

3 Comentários

Cocar


Curumin
foto: URBe Fotos (no celular)

Que diferença dois anos podem fazer na carreira de um sujeito. Pode ser pouco, porém nesse meio tempo o trabalho do Curumin deu um belo salto.

Numa das últimas vezes que esteve por aqui, no HPP de 2007, ainda a bordo do seu regular e único disco “Achados e perdidos”, o paulistano era um ex-baterista em seu primeiro trabalho como homem de frente. As referências samba-rock eram escancaradas demais e, apesar de bem feito, faltava personalidade.

Veio 2008 e Curumin lançou um dos melhores discos do ano. Ao filtrar melhor suas influências, “Japan pop show” acerta onde errou na estréia. O que antes era uma coleção de referências bem marcadas — seja samba-rock, afrobeat, dub — misturou-se com classe, começando a formar uma sonoridade própria, resultado da colisão disso tudo.

Faltava o bom e velho teste do palco. Disco bom é uma coisa, agora disco bom que melhora ao vivo é oooutro papo. Coisa que pouca gente dá conta de fazer. Curumin, novamente, se renovou também nesse sentido.

Ao reduzir sua banda ao mínimo — agora um trio, formado por ele na bateria/vocal/MPC, um baixista/MPC e mais uma pessoa operando somente uma MPC — Curumin transformou também o seu som.

Hoje em dia, quando artista nenhum pode depender da venda de discos para sobreviver, o sujeito tem que fazer shows. Muitos shows. Para conseguir fazer muitos shows num país grande como o Brasil, ajuda muito ter uma banda enxuta.

Além das praticidades econômicas, o novo formato revela também outras facetas do trabalho do Curumin, como a queda para o lado eletrônico, utilizado de uma maneira diferenciada, aproximando seu trabalho do parceiro Lucas Santtana (artistas que sempre colaboram entre si).

Dessa maneira, enquanto a parte rítmica (baixo e bateria) surgem ao vivo, todo os outros elementos das canções (violões, teclados, vocais de apoio, efeitos, etc) se fazem presente via recortes e colagens. Muito além de simplesmente soltar bases pré-gravadas, o que se ouve é uma reinterpretação do que foi gravado para o disco.


Curumin com sua nova formação, numa gravação em estúdio para
um programa de TV e, portanto, um pouquinho sem graça

“Vem menina” emenda em “Turn your lights down low” (Bob Marley), uma versão de “Como é grande o meu amor por você” (Roberto Carlos) quase traz o Cinematéque abaixo, “Japanpopshow” vem inna dancehall style e “Kyoto” vira um hip hop pesadão.

Sem saber o quanto o assunto funk divide opiniões no Rio, Curumin apostou que a pegada Miami de “Caixa preta” iria pegar no Rio e achou graça quando o público riu do seu sotaque (“vocês tiram onda de tudo”, disse).

É verdade, carioca tira onda de tudo, frequentemente até do que não deve. São resquícios de quando isso aqui tinha mais relevância cultural e o sotaque local (não apenas o falado, mas o modo de vida) dominava o cenário.

Aos poucos vai se aprendendo a receber o que vem de fora um pouco melhor, para absorver, reinterpretar e — arrá! — dominar a cena novamente (delírios de grandeza…).

A favor da carioquice, enquanto Jorge Ben pode cantar sobre o Mengo e ser aplaudido em qualquer lugar do Brasil, quando Curumin puxou um Corinthians foi logo vaiado. Os risos voltaram ao som de “Magrela Fever” e “Compacto”, música que é o hit que “Vem menina” prometia ser.

Com apenas dois discos, Curumin vai se transformando em Cacique.

E foi só o primeiro show de 2009. Esse ano promete.

11 Comentários