OEsquema

Arquivo: dub echoes

Saudades de Londres 14


foto: URBe Fotos

A facilidade de acesso a coisas relacionadas a documentário, seja o simples fato de vários deles simplesmente entrarem em cartaz, DVDs, oficinas, festivais ou as sessões especiais organizadas pela BFI, ICA ou Curzon. Sem falar que, no caso meu documentário, “Dub Echoes”, ajudou muito estar por aqui esse tempo para fazerem as coisas acontecerem.

Comente

Ecos


Mad Professor entorta “Lively up yourself” (Bob Marley)

Muita coisa aconteceu desde a última vez que falei do “Dub Echoes” (documentário inicidado em 2004 e só concluído em 2008) por aqui.

O filme rodou o mundo, em festivais na Dinamarca, Suécia, Espanha, Jamaica, EUA, Portugal, Inglaterra e até no Brasil, com México, Irlanda, Finlândia, República Tcheca e Canadá pela frente.

Finalizando essa temporada acompanhando o doc pela Europa, o filme foi exibido em Amsterdã, no cinema da nova biblioteca pública da cidade, num prédio muito futurista, dentro do festival B-oost.


Don Letts se diverte tocando “Rebel” (Morgan Heritage)

Como se isso não fosse o suficiente, após a sessão, teve uma bela festa, com o som a cargo dos entrevistados do filme Don Letts e Mad Professor (ao vivo).

Guardando a melhor notícia para o final, antes do final do ano, “Dub Echoes” será lançado em DVD (com distribuição mundial, exceto no Brasil) pela inglesa Soul Jazz Records.

3 Comentários

Dub matéria

Matéria sobre o “Dub Echoes”, na revista Void.

Comente

“Dub Echoes”, o trailer

Finalmente, o trailer do documentário “Dub Echoes” está no ar!

A repercussão está sendo boa, com notas nos saites das revistas Wired e XLR8R. Se tudo continuar indo como está, em agosto o filme fica pronto.

13 Comentários

A demora e a espera


Lee Perry abençoa os cariocas

Parte 1, o show

Traumatizados com o bolo de cinco anos atrás, quando cancelou sua participação no show com Mad Professor & The Robotiks (que tocaram mesmo assim), muita gente desconfiava se Lee Perry realmente tocaria no Brasil

Dessa vez, foi. Finalmente, “Scratch” pisou por aqui e a apresentação, como era de se esperar, entrou para galeria de melhores dessa cidade.

Perry estava acompanhado de uma banda competente, ainda que resvalando num reggae pop demais em alguns poucos momentos, apresentada como uma reencarnação do Upsetters (com um ex-Robotik na bateria, Sinclair) — e não pelo White Belly Rats, como dito anteriormente — Lee Perry operou sua “blackumba” no Circo Voador.

Recebido aos berros pelo numeroso público, que não chegou a lotar a casa, Perry subiu ao palco com um chapéu de bruxo. Vestindo uma roupa militar, boné (ambos repletos de medalhas coladas e símbolos costurados) e vários colares, abençou a platéia com sua garrafa d’água.

O show começou com “Jungle safari” e terminou com a dobradinha “War ina Babylon/”Open door”. Entre essas duas, “Curly locks”, “I wish it would rain” (The Temptations) e “Roast fish, collie weed & corn bread”.

Apesar do excelente som que se ouviu no Circo (por conta da astúcia na mesa de um ex-integrante do Revolutionary Dub Warriors), especialmente a partir da terceira música, “I’m a good man” (“I’m a mad man” rebatizada), importava mais estar na presença de Lee Perry, o mago do dub, do que qualquer outra coisa.

Muito mais produtor do que artista propriamente dito, foi controlando uma mesa de som que Perry escreveu seu nome como um gênio da música. Talvez por isso, era justamente nos intervalos entre as canções que ele mais brilhava.

Com a voz metálica, repetiu diversos “I love you”, enquanto enxugava o suor do rosto com a toalha preta e fazia discursos pouco intelegíveis, seja pelo pesado sotaque jamaicano, seja pelo conteúdo pouco linear.

Perry citou cristais como uma prova cabal de que Jesus Cristo era negro, pediu menos violência no Brasil e contou que não tem dreadlocks na cabeça, mas sim “no pau” (nessas palavras). A platéia, extasiada, esticava os braços para tocar as mãos e os muitos anéis do Jamaicano. Uma mulher entregou uma rosa branca, que Perry segurou durante boa parte do show.

Um encontro mágico e a certeza de ter presenciado um pedaço da história.

Parte 2, a entrevista

Lee%20Perry%20Circo.jpg

Dois anos, supostamente, é tempo a beça para se terminar um filme. Acontece que, para se concluir um documentário, é preciso primeiro terminar a fase de captação de imagens e entrevistas. E um documentário sobre dub sem Lee Perry é, numa visão otimista, metade do que poderia ser.

A saga da produção do “Dub Echoes”, para contar como o dub influenciou o surgimento do hip hop e da música eletrônica, começou há mais de dois anos. Atravessou oceanos, foi à Jamaica, EUA e Inglaterra, sem nunca encontrar Lee Perry.

Nesse último final de semana, a passagem desse nome fundamental na história do dub e do reggae pelo Brasil, transformou dois anos de demora, de problemas com cronograma e de todas atolações inerentes a um projeto independente, em dois anos de espera.

Dois anos depois de começar, Lee Perry, o primeiro nome da lista, concedeu a entrevista que faltava para o documentário!

Não foi fácil. Após dois meses de trocas de e-mail com o empresário (contato feito com a ajuda de Paulo André), ficou acertado que Lee Perry decidiria se participaria ou não apenas quando chegasse ao Brasil. Chegando aqui, a primeira resposta foi “não”. A segunda também, “não” de novo, pelas mesmas “razões pessoais”.

Como prêmio de consolação, o produtor de turnê de Perry fez um convite para ir ao camarim após o show, para ao menos tirar uma foto. Sem filmadora, sem microfone, sem roteiro, somente como fã. No camarim vazio (com presença apenas das respectivas), a primeira coisa que Perry falou foi: “é você quem está fazendo o documentário?”.

Respondi que sim e emendei “mas você não quer participar, né?”. Ele explicou seus motivos — nem tão convincentes assim — enquanto eu falava que era uma pena, que sem ele o filme não seria a mesma coisa. Perry foi mudando de idéia sozinho, até ele mesmo propor uma entrevista “de cinco minutos, para falar o que quiser, sem edição”, no dia seguinte.

Os cinco minutos viraram 17 e, no fim das contas, ele preferiu ser questionado do que falar o que parecia tanto querer. Perry não foi tão folclórico quanto se podia imaginar (assim como Mrs. Perry também não foi a pessoa difícil que tanto se comenta) e o papo só não durou mais porque ele estava atrasado para o vôo que o levaria para Recife.

Totalmente coerente, explicou porque incendiou seu estúdio, a Black Ark, sem rodeios, de uma maneira direta que, nem Chicodub, nem eu, havíamos visto/lido antes. Falou da importância espiritual da água nas suas produções e no seu bom estado físico. Explicou porque, de Paul McCartney aos Beastie Boys, todos o amam.

Assinou os papéis de liberação de imagem sem frescura nenhuma, despediu-se e foi isso. Quanta coisa boa em meras 12 horas.

Parte 3, o pós

Em seguida ao show do Lee Perry, ainda deu tempo de conferir o norueguês Prins Thomas, na Moo. O sujeito conseguiu ofuscar o seu ótimo set com um remix inédito e destruidor de “Gravity’s rainbow”, do Klaxons (música já remixada algumas vezes). Depois disso, nada soou tão bom.

21 Comentários

Nos trilhos

zion%20train_teatro%20odisseia.jpg
fotos: Joca Vidal

Depois de tocar em Brasília e São Paulo, o Zion Train fez a parada final da turnê brasileira no Rio, no Teatro Odisséia.

O evento estava marcado para as 21h, com aviso na filipeta de que os shows começariam as 23h. Privilegiando os que chegam tarde, era quase 1h da manhã quando a primeira atração da noite, Digitaldubs, subiu ao palco. Isso em pleno domingo, porque desrespeito pouco é bobagem.

digital_ras.jpg
Digitaldubs e Ras Bernardo

O DD apresentou o seu “dub show”. Esse é o mesmo formato responsável por algumas das melhores atuações do grupo (no Humaitá pra Peixe ou abrindo para o Mad Professor, no Circo Voador, ambas em 2005), com Nelson Meirelles tocando baixo, MPC comandando os efeito e pouca gritaria dos MCs convidados.

O bom repertório de linhas de baixo e efeitos, as participações econômicas dos cantores e a prioridade dada a sonoridades acachapantes em vez da estridência do dancehall, fez o DD sacudir os presentes como se fossem a atração principal. É inexplicável esse não ser o show padrão deles.

Logo em seguida, foi a vez do produtor Neil Perch e do MC Dubdadda, mostrar a força do som do Zion Train para platéia carioca. Sem o acompanhamento da banda e dos vocais com o qual a banda excursiona pela Europa, coube a dupla representar o grupo inglês.

Com pouco equipamento — apenas um laptop, uma mesa de som e dois periféricos de efeito — Perch preferiu uma calmaria antes de espancar o público com graves nunca antes ouvidos no Teatro Odisséia. Suando pacas, Dubdadda tinha apenas o microfone pra falar de política, amor, sobre o Brasil e agitar o público. Era o suficiente

Sem tocar músicas dos seus discos, apenas improvisações ao vivo, Perch foi aumentando a pressão aos poucos. Do dub chapadão passou para as misturas com o house que fizeram a fama do Zion Train.

O bpm continou subindo, atingindo seu melhor momento no terço final do show, quando a batida steppers (marcada por uma levada militar, típica do dub inglês) finalmente surgiu. Cristiano Dubmaster, do DD, ainda fez uma participação especial.

Horas antes, Neil Perch deu entrevista e liberou a filmagem do show para utilização no documentário “Dub Echoes“, que, se demora a sair, fica cada vez mais rico em imagens e depoimentos.

No final, um drum n bass violento, com sample de “War in a Babylon” (Max Romeo, produzida por Lee Perry), encerrou a festa, com promessa de retorno do Zion Train. É esperar pra ver.

17 Comentários

Ecoando

dub_echoes_logo.jpg

O primeiro corte do “Dub Echoes” está, finalmente, pronto. Ainda é um rascunho, sem imagens de apoio (shows, ruas da Jamaica e Inglaterra, capas de disco, etc), somente as entrevistas.

Editadas a partir de 48 horas de material, o esqueleto do documentário está com 3h de duração, que irá gerar duas versões: uma de aproximadamente 1h30 (para lançamento em DVD) e outra de 52 minutos, para TV e, talvez, internet.

A previsão é de que até o meio de julho a primeira versão do filme esteja pronta, inclusive um trailer pra começar a divulgar.

5 Comentários

Alegria e tristezas – 2004

Esse ano não vai ter essa balela de lista de melhores do ano com trocentas categorias no URBe. Minha memória é péssima, a cronológica então, pior ainda. Não presto pra fazer essas listas, embolo as datas, é um desastre.

Pra simplificar, sem pensar muito, alguns destaques (com links) nas duas categorias indicadas no título. Depois, três apostas para 2005. Quem for concordando, discordando e lembrando de mais coisas, participe nos comentários.

Alegrias

Tributo à Coxsone Dodd, na JAMAICA!
Mombojó, no Ballroom
Mad Professor no Circo Voador
Los Hermanos, na Fundição Progresso
Chemical Brothers, em São Paulo (acompanhado é sempre melhor)
Kill Bill
BB King, na Marina da Glória
Acabou la Tequila, no HPP
China, no HPP
Lucas Santtana, no Dulcina
Nego Moçambique, no Fosfobox
Basement Jaxx, no Skol Beats
Manu Chao, participando do show do Reggae B, no Circo Voador
Del Rey, no Teatro Odisséia
Festa de lançamento do URBe no Gardenal, no 00
Dub Echoes e suas várias viagens
Babylon by Gus, o ano do macaco vol. 1, o disco
Mr. Catra e os Apóstolos, na Vila Mimosa
Gregory Isaacs, em Juiz de Fora

Tristezas

Massive Attack, no Via Funchal (SP)
Lemonheadzzz, no Ballroom
TIM Fest, no Rio e em SP
Scissor Sisters, no Creamfields UK
The Doors of the 21st Century (fecha a porta! fecha!)
O esvaziamento cultural do Rio
Perder o Pixies em Curitiba
Bush de novo

——-

Claramente, mais coisas boas do que ruins. 2004 foi um bom ano, na música e no URBe. O saite cresceu, ganhou mais visibilidade, pavimentando o caminho para quando finalmente a convergência de mídias chegar.

Já que estamos aqui, três apostas fáceis, barbadas. Três nomes. Um que surgirá, um pra estourar e outro pra continuar por aí no ano que vem:

Mombojó – O septeto pernambucano chegou abrindo espaço e rapidamente conquistou o seu lugar. O excelente “Nadadenovo” conquistou uma legião de fãs, todos secos para ouvir o que mais vai sair da cabeça dessa mulecada do Recife. Melhor surpresa de 2004, o Mombojó tem tudo pra se firmar em 2005. Basta manter o nível e seguir a risca o título do primeiro disco.

Nervoso – André Paixão, o Nervoso, não é exatamente uma novidade no circuito underground carioca. Com passagens pelas baquetas do Acabou la Tequila, Beach Lizards e Autoramas, taí há um tempo. O lance é que o cara cansou de ficar escondido atrás de pratos e caixas e ton-tons, deu um passo a frente e lançou o ótimo “Saudades das minhas lembranças”, se revelando um front man dos bons. Assim como o próprio disco, que leva umas três, quatro audições pra descer direito, Nervoso aos poucos vai chamando mais e mais atenção. Em 2005 um nome pra acompanhar de perto.

Moptop – Mesmo parecendo demais com Strokes, Franz Ferdinand e com um vocal de timbre “Amarante rouco”, os cariocas do Moptop devem crescer. Por que? Exatamente por tudo isso. O público não é mesmo chegado a muita novidade, prefere referências fáceis, próximas. E disso o Moptop tá cheio. O grupo faz um pop rock esperto, com qualidade. Ninguém nasce pronto, com certeza com o tempo eles encontrarão o próprio caminho. Relatos dão conta de que Chico Neves (produtor do “Bloco do eu sozinho”, “Lado B Lado A”, entre outros) produz o disco. O chiclete “O rock acabou” vai martelar muito seu ouvido em 2005.

bônus

O dub sai da toca – Já botou a cabeça pra fora, isso todo mundo viu. Nunca o gênero teve tanta exposição por aqui. No entanto isso não significa que teremos diversos revivals dos clássicos setentistas. Lentamente o gênero vai se infiltrando em outros estilos, aparecendo de maneiras mais sutis, se fortalecendo como elemento, não apenas como influência. No Brasil isso fica cada vez mais óbvio. É um processo sem volta.

Obrigado a vocês, meus quatro leitores, que fazem valer a pena continuar escrevendo aqui. Bom 2005 e vamo que vamo!

Comente

Clipping

O dub no Brasil (e o documentário Dub Echoes) numa matéria da Revista Época.

Comente

O Globo, 17/09/2004

Matéria sobre viagem à Inglaterra, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Clique na imagem para ler.

Maior viagem de eco

Após a bem sucedida passagem pela Jamaica, a Inglaterra era o destino lógico para a equipe do “Dub Echoes”, na verdade, uma dupla formada com o pesquisador e roteirista Chico “dub” Linhares. Num país apavorado com a possibilidade de um ataque terrorista e onde até as lixeiras do metrô foram substituídas por sacos plásticos transparentes, protestos pacifistas na porta do Parlamento não são o suficiente pra trazer o bem estar de volta. No “Verão da Psicodelia”, como foi apelidado pela revista Mixmag, os cogumelos alucinógenos aparecem como solução para escapar da realidade.

Desde que foi encontrada uma brecha na lei permitindo o cultivo e o comércio, os cogumelos estão por toda parte em Londres, vendidos livremente nas ruas e feiras como se fosse shitake. Os junkies de Brixton, praticamente uma atração turística da cidade, que se cuidem. Seus dias podem estar contados. Com os ingleses precisando desesperadamente relaxar, dub parecia mesmo o assunto perfeito.

O documentário pretende mostrar a importância do dub no desenvolvimento da música eletrônica e do hip hop. Para isso, depois de entrevistas com ícones do reggae dos anos 70, como o produtor Bunny Lee, o baterista Sly Dunbar e o cantor U-Roy, faltava falar com o outro lado da história, nomes atuais conscientes da influência dos experimentos jamaicanos nos seus trabalhos. Com o apoio da American Airlines, acreditando num projeto totalmente independente, e a ajuda de alguns amigos cedendo um cantinho na sala, mais rápido do que se possa dizer dubwise, a equipe cruzou o Atlântico em direção à ilha onde a libra corrói o bolso.

À caminho da Europa, uma passagem estratégica por Nova York e Los Angeles pra falar com três jamaicanos: os expatriados Scientist e Bullwackie e o visitante King Jammy. Scientist e Jammy foram aprendizes de ninguém menos que King Tubby. Além de entrevistas com Ticklah, produtor do “Dub Side of the Moon”, e Thievery Corporation, em Washington. E o caldo estava só começando a engrossar.

Logo na primeira entrevista na terra da rainha mãe, Mad Professor começou a turvar a água dizendo que, ao contrário do que se acredita, não há uma cena de dub e reggae na Inglaterra, o que existe são eventos isolados. A estranha afirmação, repetida algumas vezes por outros entrevistados, parecia querer se confirmar quando o festival Reggae in the Park foi cancelado. O motivo oficial foi a recente publicidade negativa em torno do reggae, tornando impossível encontrar um lugar disposto a correr o suposto risco de abrigar os shows de Sizzla, Gregory Isaacs, Freddie McGregor e Barrington Levy. Veio o final de semana e com ele o carnaval de Notting Hill, festança caribenha de dois dias que domina a cidade. Certamente deve ser uma questão de parâmetros, porque um lugar que tem uma festa dessas (sem falar nas muitas outras, nas lojas de disco especializadas, etc.) tem que ter uma cena forte.

Entre muitos trios elétricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É espantoso o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis e acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no início. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, pra curtir freqüências graves de engasgar. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente não é mole.

Em paralelo, em Liverpool, acontecia o Creamfields, evento que aterrisa no Brasil em novembro, só em São Paulo. Mesmo sendo um dos maiores festivais do mundo, a escalação desse ano estava mais caprichada que o normal: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco…), Deep Dish, decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos lá.

Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaço, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente, no auge da noite: Darren Emerson, Sasha e o Chemical Brothers. Tom Rowlands e Ed Simmons fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Sendo fã ou não da dupla, esqueça tudo que falaram de mal sobre a última passagem dos químicos por aqui e comece a juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) em outubro pra conferir de perto. Papo sério.

Em meio a tanta coisa, a lista de entrevistados continuava crescendo. Simon Ratcliffe (Basement Jaxx), Adam Freeland, Audio Bullys, Congo Natty, Dennis Bovell, Dr. Das (Asian Dub Foundation), Dreadzone, Glyn Bush (Rockers Hi Fi), Groove Corporation, Kode 9 (do coletivo Dubstep), LTJ Bukem, Roots Manuva. Impressionante o que dá pra se conseguir apenas enviando o e-mail certo para os lugares corretos. Some a isso duas palavrinhas mágicas, Brasil e dub, e de uma hora pra outra você pode estar tomando um chá na casa de alguns dos artistas mais arredios a entrevistas de que se tem notícia.

Londres não pára. Um final de semana qualquer na cidade pode guardar uma escalação de djs digna de um grande festival, transformar a sexta e o sábado em uma verdadeira peregrinação a procura da batida perfeita. Na quinta você está na Movement conferindo o Artificial Intelligence, Flight, Ill Logic & Raf e Addiction, na sexta está na Fabric, curtindo a festa de lançamento do “Two Culture Clash” (já resenhado aqui no RF) com boa parte dos produtores que participaram do projeto (Howie B, Jon Carter, Kid 606, Switch, General Degree) botando som enquanto na pista ao lado, Randall, High Contrast, Fabio e Grooverider se revezam nas batidas quebradas.

Falando em batidas quebradas, mas não as do drum and bass, o onipresente breakbeat é sem dúvidas o estilo da vez. No mesmo sábado, Barry Ashworth (do Dub Pistols) e Matt Cantor (do Freestylers) bagunçavam a Rythm Factory praticamente na mesma hora em que Adam “We want your soul” Freeland sacudia a Fabric. É preciso se virar em dois pra conseguir acompanhar tudo.

Após quase 30 entrevistas, as malas voltaram mais pesadas. Chicodub ganhou mais de 100 discos, fora a pilha de CDs recebidas ao longo do caminho, incluindo 3/4 do catálogo da Blood & Fire. Ossos do ofício.

Box 1

Bizarrices

- O gente boa Dennis Bovell interrompeu a entrevista duas vezes para vomitar. A culpa foi do presente dado por sua mãe na noite anterior: uma garrafa de rum de Barbados

- Já Congo Natty ficou bem à vontade; só de cueca e camiseta.

- Depois da gravação o figuraça Howie B fez um set particular. Destaque para as músicas do “Last Bingo em Paris”, seu projeto paralelo, lançado apenas na França.

- Simon Ratcliffe, do Basement Jaxx, vai para Hong Kong com seu sound system de reggae, o Hometown Hi Fi, nome em homenagem ao ss do King Tubby

- O Thievery Corporation está com estúdio novo. O lugar parece uma casa mal assombrada.

Box 2

No forno

- O próximo disco do Thievery Corporation sai em fevereiro de 2005. Entre as participações, Sister “Bam bam” Nancy, Perry Farrel e Flaming Lips.

- Dando seqüência a série “Dubplates from the Elephant House”, o G-Corp prepara o terceiro volume, dessa vez com uma banda ao vivo, a “The Mighty Three”

- O Asian Dub Foundation também vai entrar em estúdio. Cada integrante produziu faixas individualmente e agora as idéias vão ser filtradas. Dr. Das está numa onda breakbeat.

- O Audio Bullys começou a gravar o sucessor de “Ego War”. Ao que parece vai tender ainda mais pro hip hop.

- Gorillaz, Chemical Brothers e Roni Size também estão trancados finalizando os novos trabalhos.

Box 3

Ingla is a bitch

- Libra 6 x 1 Real

- no país da noitadas, o transporte público pára as 0h

- tanta coisa pra fazer que sempre se perde alguma boa

Box 4

God save the queen

- mais discos de reggae do que na Jamaica

- o povo prestativo não te deixa se perder

- tanta coisa pra fazer que é difícil se meter em roubada

Comente

O Globo On Line, 03/09/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a sexta entrada.

——-

A capital inglesa é um carnaval

Londres é mesmo a capital da música. Somente em aqui é possível entrevistar, em menos de uma semana, Audio Bullys, Groove Corporation, Asian Dub Foundation, LTJ Bukem, Bigga Bush, Dreadzone, David Katz (autor de “People Funny Boy”, biografia oficial do Lee Perry, e tambem de “Solid Foundation”), conferir o Creamfields, o carnaval de Notting Hill e ainda deixar engatilhado bate-papos com pelo menos outros cinco grandes nomes da cena.

Bully é uma gíria inglesa pra encrenqueiro. Numa tradução grosseira, Audio Bullys pode ser entendido como “encrenqueiros do áudio”. No entanto, nada pode ser mais distante disso do que chegar na casa de um dos integrantes e receber uma xícara de chá para passar o tempo enquanto ele acaba de passar roupa ou pede licença para atender o telefone. Durante a entrevista que encerrou a semana passada, a dupla mostrou não sacar da história do dub, mas foi enfática em reconhecer a importância do gênero no som que eles produzem.

O final de semana foi pouco produtivo para o documentário por dois motivos. Primeiro porque segunda era feriado (Bank Holyday, um dos mais importantes daqui). Segundo porque estava rolando o Notting Hill Carnival, festança caribenha que dura dois dias e domina a cidade.

Entre muitos trios eletricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta da situação, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É impressionante o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis ou acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no comecinho do set. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, para curtir freqüências graves de deixar engasgado. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente nao é mole.

Um dia antes do inicio do Carnaval, foi a vez do Creamfields, em Liverpool. Um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, aterrisando no Brasil no final do ano (só em Sao Paulo), o line up desse ano estava tão caprichado que mesmo os organizadores não se cansavam de alardear que era um dos melhores da história do evento: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco…), Deep Dish decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos la.

Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaóo, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente no auge da noite: Darren Emerson, Sasha (o furão do último Skol Beats) e Chemical Brothers destruíram a galera. Sem poder ver os três, fiquei com o Chemical e, mesmo sem ter visto os outros dois, posso afirmar: foi a escolha certa. Tom e Ed fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Portanto, sendo fã ou não da dupla, é hora de juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) no final do ano e conferir de perto o que talvez seja o melhor show de música eletrônica da atualidade. Só isso.

Essa semana, até agora, já foram devidamente entrevistados o Dr. Das (baixista do Asian Dub Foundation), Richard Wittingham (cabeça da gravadora Different Drummer), o figuraça LTJ Bukem, Bigga Bush (Rockers Hi-Fi), Dreadzone e ainda teve visita ao estúdio do Groove Corporation, o Elephant House, com direito a dub mix ao vivo e o escambau. A viagem está acabando, mas a lista de entrevistados ainda não. Vem mais por aí.

Comente

O Globo On Line, 31/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a quinta entrada.

——-

Ingla is a bitch

A principal preocupação antes de viajar pra Inglaterra era arrumar onde ficar. Tudo por aqui é caro demais. Acabei conseguindo ficar uns dias na casa de uns amigos da Chris Magnavita, ex-colega de MTV. Primeiro na casa do Marcelo, o cara que comanda a comunidade brazuca aqui em Londres através do seu restaurante, o Brasil by Kilo, que aos poucos vai se transformando num centro de cultura brasileira. O prédio de seis andares tem locadora de filmes nacionais, comidas típicas, internet cafe, serviço completo. Quando estão na área, Marky e Patife sempre dão as caras. Depois, foi a vez do Joao hospedar a equipe.

Logo no primeiro dia, três entrevistas foram feitas, começando pelo Mad Professor. O dubman deve pintar no Brasil ainda esse ano para promover sua versão psicodélica do disco “Tranquilo”, do “Marcelino de Lua”, como ele fala. Depois, Kode 9, do coletivo Dubstep, falou sobre as raízes jamaicanas do UK Garage.

Pra fechar, Steve Barrow, um dos chefões da Blood and Fire, principal selo de relançamentos de reggae. Barrow, autor de livros como a bíblia “Rough Guide to Reggae”, tambem é conhecido como o maior colecionador de compactos do estilo, guardando cerca de 9 mil bolachas, organizadas em ordem alfabética, em um dos quartos de sua casa.

No dia seguinte, foi a vez de conhecer o responsável pela Congo Natty, gravadora especializada em jungles rastas até não poder mais.Totalmente em harmonia com sua filosofia, o sujeito nos buscou na estação de trem vestindo um uniforme da Etiópia e falou bastante sobre as mensagens rastafaris das suas músicas e de como isso pode ajudar a empurrar os jovens pra bem longe de lixos pop. Durante a entrevista ele ficou só de cueca e camiseta. Surreal.

Os festivais de verão ainda não acabaram, esse final de semana ainda tem Reading Festival, Leeds, Creamfields e Notting Hill Carnival, o que significa dizer que praticamente todos os artistas do mundo estão ou estarão em Londres por esses dias. Foi durante o ensaio para o Reading que o Roots Manuva falou para o documentário. Talvez em nenhum outro som a fusão entre hip hop e dub feita pelo Roots Manuva saia tão bem e o assunto, claro, foi exatamente isso.

Já Howie B, produtor, entre outras coisas, de “Drum and bass stripped to the bone”, estrelando os riddim twins Sly & Robbie, falou da cena eletrônica como um todo. À vontade na propria casa, Howie defendeu a repetição da música eletrônica e ainda deu a receita ideal para transformar alguem num fissurado em dub: amarre-o pelado em um sofá, raspe todos os pêlos do seu corpo e depois jogue queijo parmesão em cima. Segundo ele, é batata, o sujeito vira dubhead na hora. O resto do papo gravitou nesse mesmo nível de insanidade, com muitas boas declarações.

Semana corrida, agora é visitar o Audio Bullys e David Katz, outro estudioso do assunto. E esses são só os primeiros dias.

Comente

O Globo Online, 25/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a quarta entrada.

——-

Tentando, 1, 2, 3, tentando, 1, 2, 3…

LOS ANGELES – Se o principal motivo da ida a NY era entrevistar o King Jammy, falar com Hopeton Brown, o Scientist, era a razão para vir até a California. Exatamente como Jammy, Scientist também foi pupilo do King Tubby, o homem-dub. Principal nome do dub na Jamaica dos anos 80, seu trabalho mais conhecido é a série de discos temáticos (“Scientist encounters Pac Man”, “Scientist rids the world from the evil curse of the vampires” ou “Scientist meets the Space Invaders”) lancada pela gravadora inglesa Greensleeves.

Além do Scientist, havia outros nomes na lista de personagens em Los Angeles. Talvez, o fato dessas pessoas estarem fora da cidade possa ser encarado como sorte. Isso porque, de seis dias, três foram gastos em encontros com Hopeton. Diferente dos americanos ou europeus, os jamaicanos não enxergam entrevistas como oportunidade de divulgar seu trabalho e suas idéias. Para eles, isso é um negócio como outro qualquer. Isso tudo acontecendo e olha que o “Dub Echoes” até agora não tem nenhuma previsão de lançamento comercial.

Depois do primeiro encontro no camarim de um show de uma cantora que Scientist está produzindo, Triniti, em Santa Monica, ainda nos encontramos em outro show, dessa vez em Malibu, e novamente ele não deu a entrevista. Somente no terceiro encontro, num estúdio em North Hollywood (se você conhece LA, já deve ter percebido que a cada hora ele estava em extremos opostos da cidade), finalmente Scientist sentou para falar. Se não fosse a paciência sem limite do Alexandre Bier, que além de hospedar a equipe ainda deu zilhões de caronas, teria sido bem mais difícil ir a tantos lugares.

Estranhamente, no momento que a camera foi ligada a simpatia desapareceu e Hopeton encarnou um alter ego mandão, confuso e algumas vezes evasivo. Visivelmente nervoso, o dubmaster queria controlar tudo: o posicionamento da câmera, o enquadramento e até a forma que as questões deveriam ser apresentadas. Para ilustrar o nível de insanidade, vou tentar reproduzir parte do diálogo travado logo na primeira pergunta.

- O que é o dub e como isso começou?

- Bom, o dub… (silêncio). Qual foi a pergunta mesmo?

- O que é o dub e como isso começou?

- Não, isso não está bom. Pergunta assim “explique o que é um dub e como surgiu o dub?”

- Ok. Explique o que é um dub e como surgiu o dub?

- Isso é uma opinião pessoal, não uma verdade absoluta e eu não me sinto confortável para falar sobre isso. Próxima pergunta.

Quando acabou, ficou claro que essa tinha sido a entrevista mais difícil que eu já fiz. Depois, analisando melhor o que tinha acontecido, conclui que na verdade essa foi a primeira entrevista verdadeiramente difícil que eu já fiz. Mesmo assim, acredite ou não, o papo rendeu bons depoimentos para o documentário. Agora, a última e mais trabalhosa etapa: 15 dias em Londres para entrevistar mais de 20 pessoas.

1 Comentário

O Globo On Line, 20/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a terceira entrada.

——-

Os ladroes chiques de Washington

NOVA YORK – A busca pelos artistas de hip hop em Nova York fracassou. Quer dizer, fracassar não é bem a palavra, houve um desencontro. Quando os contatos do Grandmaster Flash, Kool Herc, DJ Spooky e Mos Def finalmente apareceram, já era hora de partir para Los Angeles. Nem por isso os dias em NY foram menos produtivos. Além dos jamaicanos Bullwackie e do King Jammy, foi hora de falar com nomes mais recentes do dub e do downtempo.

Após uma viagem de quatro horas até Washington DC, cheguei a sede da Eighteen Street Lounge (ESL), gravadora do Thievery Corporation. O estúdio da dupla fica no segundo andar de uma casa em estilo mal assombrado-chic. Rob Garza e Eric Hilton estavam finalizando o próximo disco do Thievery, que só sai em fevereiro e, pelo pouco que mostraram, promete compensar quem se decepcionou com “The richest man in Babylon”.

Por falar em “Richest man…”, está para sair um EP com oito remixes dessa música, só cacetada. Voltando ao trabalho novo, o disco trará participações tão inusitadas quanto Perry Farrel e Flaming Lips, alem de Sister Nancy, cantora de reggae que gravou a clássica “Bam bam”, favorita entre os djs do gênero no Rio.

Rob (com um visual Che Guevara, de barba, boina e cabelo grande) e Eric fizeram uma das melhores entrevistas até agora. Apesar do tempo curto, deram respostas certeiras e humildes, disseram até que não fazem nada de novo, apenas copiam e juntam referências soltas por aí.

Na mesma noite, de volta a NY, Victor Axelrod, o Ticklah, recebeu a equipe em seu estúdio, o porão da sua casa no Brooklyn. Foi Ticklah quem produziu o excelente “Dub side of the Moon”, versão chapada do (adivinha?) “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd, e tambem o “Hi Fidelity Dub Session presents Roots Combination”.

Totalmente ligado no reggae e dub dos anos 70 e 80, Ticklah não ouve muito os sons atuais. Quando recebeu o bilhete que Eric Hilton (fã do “Dub Side”) mandou, perguntou: “Thievery Corporation? Sim, já ouvi falar”. Sua entrevista foi bem por esse lado e rendeu bons depoimentos. Pra finalizar, ainda rolou uma dub session exclusiva, devidamente registrada.

Próxima parada, Los Angeles.

Comente

O Globo On Line, 18/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a segunda entrada.

——-

Jamaica, de novo

O documentário começou na Jamaica e a impressão é de que, apesar de estar em NY, essa fase ainda não acabou. Primeiro porque por enquanto só falamos com jamaicanos. Depois, porque hoje fomos mesmo pra Jamaica.

A comunidade jamaicana no Queens, subúrbio de NY, é tão grande que uma de suas regiões é chamada de… Jamaica. Tal e qual uma Chinatown, na Kingston nova iorquina tem de tudo que tem na ilha: um centro de cultura jamaicana, comida, estúdios e lojas de discos.

Uma dessas lojas, a VP Records, foi o ponto de encontro com King Jammy. Conhecido como Prince Jammy no início da carreira, o produtor e engenheiro de som foi nada mais, nada menos do que aprendiz do King Tubby, maior nome da arte de transformar o reggae em uma viagem interplanetária.

A entrevista foi tão fria e impessoal quanto foi necessária. Mais preocupado em saber quanto dessa história poderia sobrar pra ele (ah, se ele soubesse…) do que se concentrar na entrevista, Jammy falou por parcos 15 minutos. Cronometrados.

Desde a ida à ilha, ja havia chamado a atenção como a questão de grana é importante na produção musical deles: é difícil separar uma coisa da outra. Muito disso se deve ao fato dos jamaicanos, desde os tempos da colonização inglesa, sentirem-se constantemente explorados.

Não interessa se sua intenção é destacar e divulgar a importância da música deles no que ouvimos hoje em dia. Eles sempre partem do princípio de que você vai ganhar dinheiro e não vai sobrar nada pra eles. O histórico mostra que os jamaicanos não estão muito longe da verdade, ainda assim, cada caso é um caso. Às vezes, pode valer a pena baixar a guarda.

A proxima missão é encontrar com um grande nome do hip hop pra falar da conexao rap/deejay.

Comente

O Globo On Line, 15/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a primeira entrada.

——-

Primeira parada: Nova York

NOVA YORK – Começou a volta ao mundo em busca do eco perdido. Depois de deixar as malas na casa do camarada Paulo Lima, que está hospedando a equipe mais duranga do planeta, que só conta com o apoio da American Airlines, fomos trabalhar imediatamente. Visitamos o estudio do Lloyd Barnes, mais conhecido como Bullwackie.

Dono da gravadora Wackies, e produtor de dubs clássicos dos anos 80, o jamaicano mora nos EUA desde 68 e testemunhou de perto acontecimentos musicais como o nascimento do hip hop.

A entrevista foi bem bacana e o senhor de 60 anos ainda resolveu dar brindes no final. Nada mais nada menos que 37 compactos (uma música de cada lado), sete discos de 10 polegadas (duas de cada lado), dois LPs (seis faixas em cada lado) e 16 CDs. Chicodub era só sorrisos. O mellhor é que foram dois de cada, ou seja, vai ter muito DJ ganhando presente na volta.

Sábado é dia de encontrar a lenda King Jammy na VP Records. Lenda mesmo, porque, apesar de tudo acertado anteriormente, parece que o cara agora quer levar algum pra falar. Veremos…

Comente

Dub echoes, parte 2

Hoje começa a segunda e última etapa das gravações do documentário. Com o apoio da American Airlines, passaremos por Nova York, Los Angeles e Londres, a capital mundial do dub.

Na lista de entrevistados, nomes como King Jammy, Scientist, Asian Dub Foundation, Dreadzone, Groove Corporation, Kode9, Mad Professor, Howie B, Peter Kruder, Ticklah e por aí vai.

Jah guide!

1 Comentário

Dub Echoes online

Está no ar o saite do Dub Echoes, documentário de dub que estou fazendo.

Por enquanto é só um teaser, pra marcar terreno mesmo. Logo mais vai ter um trailer e notícias sobre a produção do filme. Visitem.

Comente

O Globo, 09/07/2004

ss.jpg

Matéria sobre viagem à Jamaica, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Improvisando na Jamaica

A Jamaica é um lugar imprevisível. A comunicação é dificultada pelo inglês de sotaque carregado e salpicado de patois . Qualquer tentativa de agendar compromissos é praticamente inútil. Negociar dinheiro, então, nem se fala: os táxis nem taxímetro têm. Ainda assim, essa confusa informalidade não significa que nada esteja acontecendo. Muito pelo contrário. A produção na ilha permanece tão grande e com tanto trabalho que ninguém consegue marcar nada com antecedência.

Dentro desse esquema caótico — na realidade, a essência do lugar — quando você menos espera é apresentado ao Lone Ranger numa loja de discos em downtown , esbarra com o Elephant Man no trânsito, troca uma idéia com o irmão do Tappa Zukie ou do Dennis Brown, descobre segredos como a reabertura do lendário estúdio Channel One (em novo endereço) ou passa a tarde na casa da viúva do King Tubby, vendo o álbum de fotos do funeral do homem que inventou o dub.

Os sound systems, apesar de poucos, ainda são as grandes atrações de Kingston. O Passa Passa, um dos melhores hoje em dia, transforma a Spanish Town Road (nas redondezas de Trenchtown e Tivoli Gardens, duas regiões barras-pesadas da cidade) num lugar aparentemente tranqüilo, com várias figuras sacolejando ao som da seleção musical caprichada de nu roots e dancehall.

O evento só começa a lotar às 3h e permanece cheio até depois do amanhecer. O segredo da rapaziada local pra agüentar tanto tempo são os seguintes combustíveis: cerveja quente, roots drink (bebida energética feita de raízes) e uns galhos verdes vendidos por ambulantes.

Engana-se quem pensa que a trilha dessas festas são clássicos do reggae dos anos 70. Quem vai pra Kingston esperando ouvir esse tipo de som tem grandes chances de voltar decepcionado. Até dá pra escutar um Bob Marley aqui e ali, principalmente quando eles percebem que tem gringo na parada, mas o som que toma conta da Jamaica ultimamente é outro.

Desde o começo dos anos 1990, o dancehall e o ragga dominam as rádios, lojas de disco e os sound systems da ilha. Os nomes mais falados são Bounty Killer, Vybz Kartel, Beenie Man e, claro, Sean Paul e Elephant Man. A exceção fica por conta do Sizzla. Eclético, o cantor lança tanto discos de dancehall quanto de roots, garantindo presença constante nas caixas de som em toda parte. Os selectors (na Jamaica, DJ é o que chamamos de MC) não tocam só uma música dele, tocam logo seis.

Pra experimentar um autêntico baile de dancehall, o Stone Love é a melhor pedida. A festa do principal sound system da cidade é repleta de jovens vestidos a caráter e dançando de maneira quase pornográfica. As músicas são notadamente mais comerciais e um tanto tensas, parte delas com uma sonoridade próxima demais do hip hop dos EUA. Um retrato fiel de boa parte da produção musical atual. Alguns selectors utilizam um Gameboy plugado na mesa em seus sets. Ligado no banco de sons de um cartucho como “Street fighter”, eles disparam sons de pistolas de raio laser, cabangs e outros ruídos. Só assim para disfarçar a troca frenética de discos; nenhum compacto chega a ficar dois minutos rodando.

Rae Town é outro sound system de rua que vale a visita. Focado nos clássicos das décadas de 60 e 70, atrai um público mais velho e sossegado que o Stone Love. É um dos poucos lugares onde dá pra escutar clássicos do Barrington Levy, Horace Andy e Delroy Wilson.

Na Jamaica, de acaso em acaso, de desencontro em desencontro, tudo vai fluindo. Resta fazer como os jamaicanos — submeter-se ao ritmo e dizer: “ no problem, man! ”

Box 1
Gorillaz
Até onde se sabe, o Gorillaz acabou depois do último show em Lisboa, em julho de 2002, certo? Só que não era isso o que estava se falando no estúdio Gee Jam, o preferido dos artistas internacionais que resolvem gravar na Jamaica e onde o Cidade Negra mixou seu novo disco. Situado em Port Antonio, no lado leste da ilha, e cercado de praias paradisíacas, o estúdio já serviu de palco para gravações do No Doubt e do próprio Gorillaz. Lá também foi produzido o ainda inédito “Two culture clash”, um encontro entre a dance music e o dancehall jamaicanos, com a participação de Roni Size, Howie B, Big Youth, Horace Andy e Junior Reid. O papo no Gee Jam era que Damon Albarn e sua trupe já têm datas reservadas no estúdio para gravar um novo disco.

Box 2
Surf Rastas
Seguindo a tradição jamaicana de produzir docudramas, como o clássico “Rockers”, o diretor Rick Elgood está fazendo “Surf rastas”. Elgood também dirigiu “One love” e “Dancehall queen”, este último um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema jamaicano.

Misturando realidade e ficção, “Surf rastas” pretende mostrar o desenvolvimento do esporte ainda incipiente no país, utilizando como cenário a viagem aos jogos mundiais no Equador dos três principais surfistas da equipe nacional: os irmãos Icah e Ini Wilmot e Luke Williams. Além disso, muitas cenas foram filmadas em Kingston e arredores.

Box 3

Não deixe de fazer na Jamaica:

- Comer ital food (o vegetariano rasta) e jerk chicken (um churrasco apimentado)

- Pirar vendo os locais dançando

- Tomar várias Red Stripe (a cerveja local)

- Entrar em qualquer birosca só pra ouvir o que está tocando

- Visitar pelo menos uma de suas praias

Evite fazer na Jamaica:

- Discutir preço (nem adianta tentar)

- Sair com alguém e não pagar as bebidas

- Dividir a bebida com alguém

- Sair à noite sem a companhia de um local

- Dirigir

Comente

Dub Echoes

uroy_dubechoes.jpg
U-Roy em ação

Esse é o nome do documentário que estou dirigindo. Idéia antiga até, acabou se tornando realidade com a ida pra Jamaica.

Os engenheiros de som jamaicanos foram os primeiros a utilizar a mesa de som como um instrumento, desconstruindo e reconstruindo faixas pré-gravadas, aplicando efeitos, inventando técnicas e criando nesse processo não somente novas músicas, como também um novo gênero: o dub.

Isso no começo dos anos 70. Por conta disso, mestres como King Tubby, Lee Perry e King Jammy são tidos como os precursores do que hoje se convencionou chamar de remix. Como o nome sugere, o objetivo do filme é mostrar que as experimentações psicodélicas nos toscos estúdios da ilha ainda ecoam, influenciando tanto a sonoridade quanto a maneira como se faz música atualmente.

A primeira etapa do documentário já rendeu bastante. Falamos com boa parte dos principais personagens da época que ainda estão vivos e morando na Jamaica. Fomos recebidos por Sly Dunbar, U-Roy, Ernest Hookim e Gussie Clarke, além de Mutabaruka, Weepow, Dr. Carolyn Cooper e Clive Jeffrey. As baixas foram Sylvan Morris (que queria 200 doletas pra falar) e Errol Thompson (hoje dono de supermercado e que fugiu da gente o tempo todo). King Jammy também estava fora, mas esse eu falo na Inglaterra.

Pra concluir o filme falta exatamente isso, ir pra Inglaterra — principal centro de música jamaicana fora da ilha, um dos primeiros lugares a receber suas influências e casa “oficial” do dub hoje em dia — falar com a outra metade da história e amarrar as duas pontas.

Comente

KNG

Estou devendo textos sobre a viagem à Jamaica? Sim, estou. Os motivos dessa demora começam a ser desvendados amanhã.

Enquanto isso, leiam os relatos do parceiro de viagem Chicodub, dissecando Kingston.

Comente
Página 2 de 212