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5 perguntas (URBe 8 anos) – Sany Pitbull

Troquei uma ideia com Sany Pitbull, atração da festa de 8 anos do URBe, nessa quinta, no Studio RJ.

DJ, em que pé anda o funk hoje? O que você tem visto de mais legal por aí?

Sany Pitbull – O Funk vive em constante mutação, misturas e encontros dos mais inusitados acontecem dentro do universo funk. O que o mundo chama de mashup por exemplo, nós funkeiros já fazemos há 20 anos com nossas montagens e hoje a coisa estrapolou a mesa dos DJs e produtores, a coisa agora é na dança, o funk se mistura com samba, frevo e até balé classico. A Batalha do Passinho é a síntese do poder do funk como manifestação cultural.

E lá fora, você que viaja bastante pode falar, como andam as coisas? O funk ainda está quente ou esfriou?

Sany Pitbull – Hoje o mundo conhece e reconhece o nosso funk. Antigamente existia só funk ( James Brown, Afrika Bambaata e etc), hoje existe o “Baile Funk Carioca” feito no Brasil e exportado pro mundo todo. A coisa não esfriou, continua quente, nós aqui no Brasil que parece que já nos acostumamos e não damos mais notícias sobre as conquistas do funk mundo à fora. Hoje o beat do tambor ja é encontrado em artistas e produtores internacionais, sem falar que todos os dias um DJ/artista de funk embarca para alguma apresentação fora do país. É um caminho sem volta, o funk ja conquistou seu espaço além favelas. Temos o filme “Favela on Blast”, do Leandro HBL e Diplo, que vem ganhando muitos prêmios nos festivais por onde passa até hoje, um deles foi o prêmio de melhor tilha sonora original do Festival de Cinema de Miami-USA. E por falar em Miami, está sendo rodado um documentario nos EUA sobre o Miami Bass, ritmo que deu origem ao Baile Funk, e o Rio de Janeiro e sua música estão presentes no documentario, isso mostra como ainda estamos crescendo lá fora.

E fora do funk, o que você tem visto de interessante na produção eletrônica aqui do Brasil?

Sany Pitbull – O Tecno-Brega é muito legal, me lembra o funk carioca na sua consistencia e produção, são fragmentos de outras musicas e culturas que formam o ritmo, gosto muito.

O que você tem vontade de fazer e ainda não conseguiu no funk?

Sany Pitbull – Mesmo dormindo 4 horas por dia, isso quando durmo, me falta tempo pra encarar muitos projetos e botar ideias em prática, mas uma orquestra de MPCs seria incrível … a Orquestra Filarmônica da Favela.

O que você está preparando para festa do URBe?

Sany Pitbull – Muitas surpresas musicais boas. É uma festa de aniversário, não é ? Em festa de aniversário vale tudo… Vamos nos divertir muito, garanto.

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5 perguntas (URBe 8 anos) – Strausz

Um papo com Diogo, o menino multi-tarefas responsável pelo Strausz, atração da festa de 8 anos do URBe, nessa quinta, no Studio RJ.

Você faz parte da nova leva de músicos, produtores de festas e agitadores do Rio. Qual o diferencial dessa geração para a anterior?

Diogo Strausz – Acho que a nossa geração cultua mais o marketing e o empreendedorismo. Vejo muitos amigos e conhecidos prosperando em seus empreendimentos e vejo isso como ponto positivo para nós. Também sinto que somos bastante unidos e isso gera uma concorrência extremamente saudável. Infelizmente, a princípio, minha geração também parece cultuar mais o comportamento do que a cultura e essa vontade de agradar talvez afrouxe um pouco os filtros.

Agora você aparece com mais um projeto, o Strausz. Fale um pouco dos seus outros trabalhos, como DJ, produtor, no R. Sigma… Tem mais coisa?

Diogo Strausz – O R.Sigma é a minha escola e a matriz de tudo isso. Começamos a produzir festas porque o R.Sigma precisava de dinheiro, aprendemos a vender as nossas ideias porque ninguém comprava a ideia do R.Sigma no começo. Eu acho que se dedicar a uma banda pode ser uma boa escola de empreendedorismo, já estamos há 7 anos juntos, com a mesma formação e sempre aprendendo um bocado. Também produzo a Chocolat Party há 3 anos e meio, era tudo o que eu e meus amigos queríamos de uma festa aos 18 anos e fico feliz por ainda ser o que as pessoas de 18 querem da noite delas. E vou começar a SSS em dezembro em parceria com a EPA! e o Urbanik, significa Super-Sentai c/ Sintetizador, é uma festa que mistura a estética de desenhos/filmes japoneses mais retro-futurísticos através de vídeo mapping com a proposta sonora do House, Disco, Glitchy Disco, Nu Techno etc.

Qual as vantagens e dificuldades de ter tantos projetos paralelos?

Diogo Strausz – A dificuldade certamente está na gerência de tudo, aprender a me organizar está sendo doloroso. Parece que não existe um caminho “traçado” como na vida acadêmica/institucional/corporativa etc. Se eu não trabalhar, certamente nada acontecerá. A vantagem é que todas essas frentes dão na mesma matriz, que sou eu. E todas elas tecem uma teia e uma sempre agrega a outra. As vezes um contato que fiz através do R.Sigma ouve o Strausz e me chama para discotecar em outra cidade, ou um DJ que tocou na Chocolat ou em outras festas recomenda o R.Sigma para tocar em algum lugar, coisas assim. A vantagem é ter o que oferecer aos outros, não ser um “taker”.

Qual a diferença do Strausz ao vivo e sozinho, como DJ?

Diogo Strausz – Como DJ eu misturo produções dos outros com as minhas e faço um set de música eletrônica, misturo Nu Techno, Glitchy Disco e produções que eu julgo criativas e me ajudem a levar o público para fora do ponto comum e da zona de conforto. O live é um set 100% autoral, todos os detalhes compostos por mim, cada transição, cada tema, cada pingo no i. É como compor uma faixa de 40 minutos e executá-la ao vivo, com todos os canais abertos, um para o bumbo, outro para um synth, outro para uma voz etc, etc… diferente do DJ set, onde você joga uma faixa inteira em cada canal do mixer.

E o que você está preparando para festa do URBe?

Diogo Strausz – Na festa do URBe vou estrear meu live set novo, o 2012. Conta a história de que no dia do juízo final, Deus resolveu recomeçar a raça humana deixando apenas 2 humanos vivos e mandou o resto pra pista de dança. A sonoridade é meio house / breakbeat / sci fi.

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5 perguntas (URBe 8 anos) – Autoramas

Uma conversa com o Gabriel Thomaz, do Autoramas, grande atração da festa de 8 anos do URBe, nessa quinta, no Studio RJ, apresentando o recém-lançado “Música Crocante”. Como disse antes, Autoramas é Autoramas, não tem erro.

Vocês acabaram de lançar “Música Crocante”. Como está indo a repercussão?

Gabriel Thomaz – Está supimpa, melhor q nunca…A primeira prensagem já esgotou, depois de 10 dias de lançado, nunca tínhamos conseguido fazer isso. Os comentários tem sido muito legais, as músicas novas nos shows tem funcionado maravilha. Geralmente tínhamos q esperar uns meses pros discos começarem a pegar de verdade, agora tem sido diferente. O próprio lance do crowdfunding teve um papel legal nisso, pq já tinha gente falando no disco sem nem ele estar gravado ainda. Vamos em frente! :)

E como foi o processo de gravação? O que mudou do disco anterior para esse?

Gabriel Thomaz – Bom, a entrada da Flavinha mudou bastante a banda de lá pra cá… E o “Desplugado” foi o primeiro disco que lançamos com ela e q consideramos um disco de carreira, já que a maior parte do repertório ou é inédita ou é de coisas que nunca havíamos gravado. De certa forma, essa novidade pra gente não é tão novidade assim. Na realidade, a gente quis nesse novo disco reafirmar nosso estilo. Os shows que começamos a fazer fora do Brasil aumentaram muito a auto-estima da banda, já que os comentários da gringaiada eram sempre que tínhamos um estilo próprio e um som único, então a vontade de reafirmar nosso próprio estilo foi gigantesca. Sou da época que dizer que alguém tem estilo era um elogio (acho q ainda estamos nessa época heheheheh).

Você é tido como o operário do rock brasileiro. As coisas facilitaram ultimamente ou a luta é a mesma?

Gabriel Thomaz – Cara, não concordo quando falam isso, tô nessa esse tempo todo me divertindo pra caramba, se não fôr divertido eu tô fora. O q fazemos é não faltar aos compromissos e realizar nossas ideias malucas. Tem gente q acha estranho pq nossa história não é aquela roteiro de filme, da banda q começa, lança um disco e conquista o mundo imediatamente. Se fosse assim não teria gente pra construir esse cenário que existe no Brasil da música independente. O Autoramas foi ponta de lança dessa história toda, quando artista independente era sinônimo de banda iniciante. E hoje a história é outra.

Pra você, o que falta para a cena independente brasileira se tornar de fato sustentável?

Gabriel Thomaz – Nada. Os principais artistas se sustentam com facilidade. Assim como acontecia na época das gravadoras. Só alguns artistas contratados conseguiam viver de música. E tem gente q ainda tá no caminho e vai chegar lá.

O que vocês estão preparando para festa do URBe?

Gabriel Thomaz – Vamos tocar músicas de todos os discos, mas priorizando o disco novo. Vejo artistas q estão lançando disco novo, mas vão a tv e tocam músicas antigas. Graças a Deus com a gente isso não acontece. É Música Crocante na cabeça.

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Kevin Drew, do Broken Social Scene, fala sobre o hiato da banda momentos antes do derradeiro show

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O vídeo oficial do Paralamas do Sucesso tocando “Selvagem?” no Rio

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O vídeo oficial do The Kills no Rio

O vídeo oficial do show do The Kills no Circo Voador, com entrevista com a banda. Dessa vez ainda tem mais dois vídeos, com duas músicas na íntegra, “Heat Is A Beating Drum” e “No Wow”, depois do pulo. A íntegra da entrevista vem logo mais.

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Festival Carirocka

De uma ideia aparentemente boba, como costumam ser as boas ideias, surgiu quase um manifesto: as bandas cariocas Dorgas, Suncore Project, Tipo Uísque, Rockz e R.Sigma juntaram-se em um festival auto-produzido com o intuito de ocupar um dos melhores palcos da cidade, o Circo Voador. Surgiu assim o Festival Carirocka.

Sempre admirado com quem tira a bunda da cadeira e toma atitudes, o URBe está apoiando o evento. Abaixo, uma rápida conversa com um dos produtores da noitadas, Diogo Strausz, sobre como isso tudo começou e para onde vai.

URBe – Como surgiu a ideia do festival, qual foi a motivação?

Diogo Strausz – Todas as bandas independentes visam tocar no Circo Voador, por ser uma casa de peso cultural, boa infraestrutura e de médio porte, aonde podemos dar o melhor show possível para o nosso público e mostrarmos o nosso trabalho com o mínimo de ruídos possível.

Qual o objetivo maior, o que vocês querem demonstrar ou conquistar com isso?

DS – O Rio tem muitas bandas de qualidade e que precisam buscar espaço em outras cidades, como São Paulo, para crescerem. A maior conquista seria fazer da nossa cidade um catalisador de artistas e não um refletor.

Por que você acha que o público não comparece a esses shows normalmente?

DS – Talvez porque a grama do vizinho seja mais verde, pelo comodismo de sempre poder ir ao próximo, talvez mesmo gostando da banda, o público esteja esperando há muito tempo por algum resultado. De qualquer forma, o Rio passou em 2006 por uma fase aonde um excesso de bandas “pentelhava” muito os amigos para irem a shows ou “comprarem ingressos antecipados” ou “encher um show para ter votos e a banda ter uma oportunidade em um festival”, isso na minha opinião desvalorizou o músico. O que temos agora é uma oportunidade de reverter esse cenário e reerguer o estigma de banda.

E por que as bandas não se juntam mais para ações desse tipo?

DS – Primeiro porque conseguir uma data no Circo Voador não é algo fácil, todas as bandas envolvidas neste festival já possuem alguma credibilidade através de anos conquistando seu espaço, e segundo porque, afinal, quem arriscaria essa ideia?

Porque essas bandas? Como vocês se juntaram?

DS – Todos nos conhecemos há anos, compartilhamos das mesmas alegrias, dificuldades e crescemos muito pessoalmente através do empreendimento que é ter uma banda. Nos identificamos e admiramos os sons uns dos outros e sabemos que não existe cena de um artista só.

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Entrevista: Warpaint

A íntegra da conversa que tive com o Warpaint, antes do show delas no Queremos!, no Rio. Elas falam sobre porque levaram cinco anos para gravar o primeiro disco, da velocidade com que bandas surgem na rede, remixes, da importância de tocar ao vivo, influência dos anos 90, drogas e mais algumas coisas.

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O vídeo oficial do Darwin Deez no Rio

Ah, a goiabice… Quando fui subir o vídeo do Primal Scream na conta do Queremos, percebi que o do Darwin Deez continuava marcado como “privado”. Ou seja, ninguém viu. Agora foi. Bom pra matar as saudades de um show divertido.

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Entrevista: Bobby Gillespie (Primal Scream)

A íntegra do papo que bati após o show do Primal Scream no Rio com Bobby Gillespie, vocalista da banda, sobre “Screamadelica”, dub, pirataria e Queremos.

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Hoje tem: 15 anos de Trabalho Sujo

Ano passado o Matias comemorou os 15 anos do seu Trabalho Sujo. Vizinho virtual de longa data e sócio aqui n’OEsquema, ele deixou pra fazer a festança esse ano, com um grande time. Infelizmente, só em SP (precisamos fazer uma juntos, hein!).

Bati um papo por email com meu guru digital (hahaha!) sobre esses 15 anos e o futuro desse amado portal.

Redes sociais, conteúdo colaborativo, blá, blá, blá… O que mudou de verdade na rede, para além das ferramentas, na mentalidade das pessoas, nesses 15 anos?

Alexandre Matias – Acho que, apesar de não parecer, as pessoas estão mais tolerantes umas com as outras. Ainda há quem se incomode com religião, opção política ou time de futebol, mas acho que a internet mostrou individualmente, para cada um de nós, que perceba que, mais importante do que aparência e escolhas pessoais, o que vale é o que pessoa realmente é. E está cada vez mais fácil saber quando é que alguém é legal de verdade ou apenas online.

Nesses 15 anos, qual foi o trabalho mais sujo que você teve que fazer?

Alexandre Matias - Sou limpinho. Acho que o mais difícil que já fiz foi matar a versão em papel, quando saí do Diário do Povo, em 1999. Não quis levar o nome para o Correio Popular, onde fui editar o caderno de cultura, para não ter conflitos entre os jornais. Mas não consegui ficar sem fazer, daí abri a versão digital no saudoso Geocities.com

Descreva como seria o nêmesis do TS, o Trabalho Limpo.

Alexandre Matias - O Trabalho Limpo seria tipo uma coluna de um senhor de 50 anos, parado no tempo há uns trinta, cagando regra sobre os sons que gostaria que as pessoas ouvissem numa coluna de jornal em um caderno para adolescente. Provavelmente, mal falaria de Brasil – e quando falasse, falaria com nojinho -, de cultura independente e se deslumbraria com o iPad.

Num chute lá pra cima, comparando a evolução digital de 15 anos atrás com a de hoje, quais as possibilidades do Trabalho Sujo em 30 anos?

Alexandre Matias - 50 posts por minuto, sobre todos os assuntos que eu gosto, feitos apenas na base do pensamento. Links para todas as coisas legais que vejo. Tudo de graça e com gente querendo me pagar só porque o que eu faço é legal. E eu, provavelmente, morando com a minha família em alguma fazenda com teletransporte no interior do Goiás.

E esse OEsquema novo? Vamos conseguir botar de pé ou não? Aproveitando a ocasião, adianta um bocado das nossas reuniões secretas e conta um pouco das mudanças que vem por aí.

Alexandre Matias - Tá difícil. Acho que a grande mudança vai ser a troca de nome, quando vamos mudar o nome do site para www.ositedomatiasbrunominiearnaldo.org, e viraremos uma ONG destinada a salvar jornalistas legais das redações do mundo. Mas isso é papo pra fase 4. Por enquanto, adianto: teremos home, layout novo, botão para Twitter e Facebook [N.E. Tumblr, agenda, sessões de foto e vídeo], espaço específico para os projetos paralelos de cada um de nós e, principalmente, e eis a grande novidade, MAIS BLOGS. Pra quando? Podia chutar “neste semestre”, mas vou deixar quieto pra criar expectativa…

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5 perguntas (URBe 7 anos) – DJ Nepal


Uma das atrações da festa de 7 anos do URBe (nessa quinta, 10 de fevereiro), o DJ Nepal já tocou em outras duas edições da festa, com o Neskal e  com o Apavoramento. Dessa vez ele vem sozinho. Antes de ler a entrevista, baixe o set de soul que o Nepal preparou pra sonorizar o verão.

URBe – Hoje você é um veterano. Qual tua história com os toca-discos?

Que isso Bruninho, que palavra forte, “veterano”… Prefiro dizer que sou um eterno gatoro de Nikiti kkkkk Meu envolvimento com música veio dos tempos de garoto em Nikiti.

Nepal – Sempre gostei muito de música e sempre tive um envolvimento sentimental com isso, sabe, essa coisa de mostrar (aplicar os amigos com músicas novas). Isso sempre fez parte da minha vida mesmo antes de tocar a parada de comprar o vinil ou cd e ir pra casa e ficar ouvindo e dividir aquela experiência com os amigos era muito natural da minha galera de Nikiti (Black Alien, Tabalipa, DJ Castro, entre outros). Trocávamos ideias sobre músicas e novas bandas e organizamos festinhas para mostrar aquilo para outros e outros.

Sempre fui de manipular som, começar a tocar foi bem natural. Hoje posso dizer que já toquei em muitos lugares pelo mundo onde a música me levou (Portugal, Espanha, Londres, Paris, NY e grandes festas, festivais e clubes pelo nosso Brasil afora), já dividi cabine com artistas que sou muito fã (Africa Bambaata , Anthony Rother, Josh Wink, e Mayer Hawthorne, entre outros q não vou lembrar agora). Já tive projetos de live com renomeados artistas brasileiros, como Fausto Fawcett e Azymuth.

URBe – Como você se prepara pra um set? Ultimamente te vi tocando em tudo quanto é tipo de festa e você tem sempre um set redondo na manga.

Nepal – Ouço muita coisa e pesquiso bastante, desde de música atual a coisas antigas, que as vezes passaram batido por muitos. Procuro misturar bastante e tocar olhando pra frente, percebendo a expressão e o sentimento. Aprendi uma coisa sendo DJ: controlar uma pista é maior troca de energia com o público, pois você está ali despertando sentimentos e fazendo uma troca de energia com pessoas que você nem conhece, é meio como um ritual. Acima de tudo a música tem esse poder.

URBe – Tem alguma coisa que você goste mais de tocar?

Nepal – Meus sets são ecléticos, porém tem sempre uma linha que acredito funcionar bem, que é groove funk & soul . Dae procuro variar bastante dentro do tema proposto, mas não esquecendo minha alma funk & soul .

URBe – Tem rolado outros projetos? Algum live nos planos? A quantas anda Apavoramento, Neskal, Bife, etc?

Nepal – O Apavoramento e Neskal quem sabe um dia façam um show, acho que seria algo mais maduro. Tenho todas as tracks abertas no HD. Quanto ao Bife, temos nos encontrados e o disco sai esse ano com certeza.

Tenho vontade de um dia juntar tudo e me lançar como cantor… kkkkkkk Brincadeira o cantor. Mas juntar tudo no palco tenho vontade, apavora+neskal+bife+fawcett=muito groove bom!

Namastê e paz no coração pra geral, quinta vamos a mais um Ritual URBe, agora 7 anos!

URBe – Deixe um top 5.

Nepal:

Johnny “Guitar” Watson, “Superman Lover”

DJ Agent 86, “All About The Money” (DJ Butcher’s Maguire Edit)

Max Essa, ”Uptown Vibration”

Kosmetiq & Mirrorsoul, “Keep On Lovin’ Me”

Midnight Missy, “Midas Dutch” (Jay.Soul Blend)

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5 perguntas (URBe 7 anos) – João Brasil & Aori

Atrações da festa de 7 anos do URBe, nessa quinta, 10 de fevereiro, João Brasil e MC Aori falam do encontro e o que estão preparando juntos:

URBe – Vocês dois já tocaram juntos? Como se conheceram?

Aori – Nos conhecemos no Twitter! Somos um projeto mashup virtual. Se na gringa tem os GORILLAZ, nós somos os MICOS!

João Brasil - Nunca tocamos juntos! Ainda não nos conhecemos formalmente/pessoalmente, hoje vou encontrar com ele pela primeira vez. Fiz mashups com vocais dele no meu projeto 365 Mashups. Conheço o trabalho dele da época dos Inumanos.

URBe – O que estão armando para a apresentação?

Aori – Vamos aproveitar os mashups que o J. fez ano passado com os acapellas do INUMANOS e mandar brasa. E devem rolar uns freestyles também.

João - Vamos ensaiar. Vamos tocar algumas surpresas que vamos inventar amanhã.

URBe – O que acham do trabalho um do outro?

Aori – Curto bastante a criatividade e a sensibilidade do Joao na hora de fazer uns mash ups, gostaria muito de fazer música com ele pro próximo disco do INUMANOS. Rola um bom humor e os lances são FRESH.

João - O Aori é um guerreiro cultural. Gosto de toda a movimentação artística dele: Inumanos, Liga dos MCs, … Acho que ele é um dos grandes e melhores representantes da arte urbana no Brasil.

URBe – Então vamos testar: criem três mashups, agora!

Aori:

Fela Kuti vs. Banda Black rio, “De onde vem Mr. Follow Follow”

Kanye West e Jay-z vs. Lil Jon e Catra, “Machuka Power”

Terra Preta vs. Sade, “Soldier of Crises”

João:

Jorge Ben X Caspa

MC Aori X Gaby Amarantos

Hermeto Pascoal X Emicida

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5 perguntas (URBe 7 anos) – Leonardo Uzai


Como sempre acontece, a festa de 7 anos do URBe (nessa quinta, 10 de fevereiro), terá uma exposição. O artista convidado esse ano é o Leonardo Uzai:

URBe – Quais suas referências, profissionais e pessoais?

Leo – Sempre fui fissurado em graffiti, desde criança, além de adorar tipografia e cartoons. Estudei desenho industrial e através de pesquisas em vários seguimentos em arte, acho que consegui misturar diversas influências na minha linguagem.

URBe – Quem são outros artistas do Rio que você admira?

Leo – Admiro muitos artistas, tanto no graffiti quanto nas artes plásticas e na música, o que torna essa pergunta bem difícil. No final do ano passado fui convidado para fazer parte do Fleshbeckcrew, grupo que sempre admirei no graffiti carioca. Mateu Velasco, Ment, Gais, Felipe Motta sao artistas que influenciaram muito também.

URBe – Que peça você gostaria de produzir e até hoje não conseguiu?

Leo – Pintar um prédio inteiro. Um prédio bem grande de preferência.. rsrs

URBe – Você acha que o grafite anda saturado? Ultimanente parece que tudo tem que ser grafitado…

Leo – Acho que o graffiti, assim como outros seguimentos de arte, as vezes sofre banalizações, mas isso não necessariamente diminui sua força como forma de expressão.

URBe – O que vê de novo na arte de rua? Como sair do lugar comum e continuar relevante?

Leo – Com as constantes inovações da tecnologia, surgiram novas ferramentas para serem usadas na rua. Uma das que mais me chama atenção é o mapping, onde o artista mapeia qualquer superfície e projeta imagens em lugares inusitados. Para sair do lugar comum você precisa estar em um estudo constante, sempre antenado na política, na religião e outros fatores que tem poder sobre a sociedade. A relêvancia do trabalho vem quando o artista consegue de alguma maneira dialogar com o público.

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5 perguntas (URBe 7 anos) – Ajax


Formado por Filipe Raposo e Gustavo MM, o Ajax, atração da festa de 7 anos do URBe, nessa quinta, 10 de fevereiro, conta sua história:

URBe – Filipe, qual tua história com os toca-discos?

Filipe Raposo – Começou em 1975, quando nasci. Meus pais são viciados em música, meu pai especialmente. Desde pequeno a tradição era acordar ao som forte de um grave cheio. Aparelhagens de som bombásticas e toca-discos de última geração eram a cachaça do meu pai, muitos discos dançantes eram trilha sonora matinal. Pra você ter uma idéia, minha mãe tinha todos os discos em vinil do Prince, Kid Creoule e outros. Eu, meu irmão (João do The Twelves) e minha irmã demos sequência no vício.

Para mim, esse foi o início da fórmula. Música boa e dançante igual boas emoções. Juntando a vontade de compartilhar esta alegria mais o desejo de escutar aquela faixa numa altura cavalar, fez o DJ. Daí, foi comprar um par de CDJs e um mixer para começar a fissura. O debut foi em 2006, na extinta e excelente festa mineira que o Fabiano Moreira trouxe para o Rio junto com a sua mudança. Junto com Breno Pineschi, nós formamos o duo Mustache DJS. O Breno depois abandonou o áudio e concentrou no visual, e o Mustache DJs ficou no Filipe Mustache.

De lá pra cá, toquei em inúmeras festas cariocas, ao lado de grandes nomes da nossa cena carioca, nacional e outros internacionais como Matias Aguayo, Woolfly e etc. Ainda produzi alguns eventos e festas, entre elas a nossa querida e exótica CALZONE.

URBe – Gustavo, resuma a sua longa trajetória.

Gustavo MM – Eu frequentava muito clubes e shows em geral desde muito novo (mesmo, tanto que lembro perfeitamente do Rock in Rio 1, com uns 15 anos ). Desde os clubes mais under como Dr Simth a Hipopotamus, eu ia a todos e sempre ficava vidrado no que o dj fazia com a pista. Um belo dia nos anos 90 , meio que do nada, resolvi comprar um par de toca-discos, aceitei de cara convites para residencias dizendo “que era dj sim”, fiz sempre minhas festas como a Minimal Sessions no Les Artistes, Playground no 00 , Combo e etc. Daí fui acrescentando outros trabalhos como trilhas para desfiles, fiz alguns shows mais experimentais pelo Projeto Morfina e o trabalho hoje como pesquisador para a Agência de music branding Gomus.

URBe – Como surgiu a ideia do Ajax? Qual a onda?

Filipe – Ajax é filho da Cheetah. A macaca mãe através de seus filhos Chico Dub, Pedro Seiler e João Brasil foram os maiores incentivadores do projeto. O Chico Dub frequentava muito a Combo, festa que fez história na cidade no Club 69, e lá, já experienciava os toques da Disco exótica que eu ou o MM tocavamos no meio de nossos sets. Chico e Gustavo MM deram start na festa Clap! que no ínicio tinha uma proposta mais global guettotech e aquilo particularmente me chamou a atenção: senti que uma nova fase chegava. Space Disco já não tinha mais o que explorar, as novidades já eram genéricos do que realmente foi bom e ritmos exóticos se tornaram muito mais atraentes e estimulantes para dançar. Comecei a gravar uma case nova.

Qual o futuro do projeto?

Filipe – Gravar uns re-edits e quem sabe produzir algumas faixas. Vontade há de sobra, já o tempo…

Deixem um top 5 do Ajax.

Barış Manço – Aman Yavaş Aheste 12″ [Baris K Re-edit]

Nickodemus, Zeb & Balkan Beat Box – “Balkan Beat Box”

Adir Nickodemus, Zeb & Balkan Beat Box - “Balkan Beat Box – Adir Adirin” (Nickodemus Remix)

Christy Essien Igbokwe – “Rumours 1980″

John Ozila – “Funky Boogie”

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5 perguntas (URBe 7 anos) – mario maria


Uma conversa com mario maria, uma das atrações da festa de 7 anos do URBe, nessa quinta, 10 de fevereiro:

URBe – O que é e como começou o mario maria?

mario maria – Começou da possibilidade de gravar minha voz em casa. eu já tocava guitarra e violão, compunha pra/na banda e pra violão-solo, e aí veio essa chance de montar canções ouvindo minha voz, coisa que eu ainda to relativamente começando a fazer. Então começou mesmo de ter o computador/gravador em casa, das oportunidades que ele abriu. Ao mesmo tempo não queria ser tão central, tão trovador da história, e assumi esse apelido como forma de abrir pra outras pessoas participarem ou no mínimo tratar de algo coletivo.

URBe – Por que esse formato? Já pensou em ter uma banda?

mario maria – Sinto falta de tocar acompanhado, mas quando gravo não sinto tanto porque as pessoas participam de alguma forma, dando opiniões, fazendo sons, videos, compondo, pessoas com quem conto pra várias coisas no projeto. No ao vivo tenho assumido o velho voz e violão, que é de onde as músicas vêm e também incorpora o ambiente em torno, gerando um clima talvez parecido com o do disco.

URBe – O lo-fi é uma opção de linguagem ou uma necessidade?

mario maria – É uma opção. Tem a ver sim com reduzir custos, mas hoje em dia você pode fazer um disco hi-fi em casa pelo mesmo preço, praticamente. O meu “lo-fi” talvez venha de não exigir certa “quantidade de informação” pras minhas gravações, e testar os sons até que fiquem de um jeito que me agrade, e sem horários regulares de trabalho. O que não é necessariamente tão minucioso… Acho que no EP isso casa bem com o tema das músicas, quase sempre caseiras, interioranas. Talvez case até demais…

URBe – Como vai ser a apresentação na festa do URBe?

mario maria – Será um show curto de músicas novas na maioria, minhas e versões pra músicas de outros (um cover da “Take it Back”, do Pink Floyd, tá garantido). Vai ser uma apresentação mais sobre o que está por vir no projeto e considerando muito o fato de tocar numa festa de DJs, num salão. Tem uma prévia do que pode rolar no site, uma música.

URBe – Alguma gravação nova a caminho? um disco completo?

mario maria – Tenho gravado e tocado muito violão, usando a afinação aberta que aprendi só agora lendo a biografia do Keith Richards. Virou um instrumento novo, acho que isso estará no show. Não sei se as gravações vão gerar um disco, mas espero que sim. E tem agora um video pra “Eclipse”, feito pelo Rafael Salim, a Maya Dikstein e eu.

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Hoje tem: lançamento do livro “DJs”

Aproveitando o lançamento do livro, uma entrevista com os autores Frederico Coelho e Joca Vidal:

URBe – Como surgiu a ideia desse livro? Qual a motivação?

Fred - A ideia do livro surgiu quando a Fernada Gentil, editora, me procurou para pensar em uma série del ivros sobre música para sua nova editora, a Circuito. Sugeri três títulos e o escolhido para iniciar essa coleção musical foram as entrevistas com DJs cariocas.

Joca – O Fred chegou com a idéia e o projeto em andamento. Eu produzi as entrevistas que estavam faltando e sugeri nomes, como o do David. A motivação principal foi fazer um registro da história de cinco DJs que começaram há alguns anos e que ainda continuam na ativa.

Qual o objetivo do livro? Iluminar a profissão ou discutir aspectos específicos?

Fred - O objetivo do livro foi um pouco dos dois: iluminar o trabalho de DJs (principalmente mostrar como se trata de um ofício nos dias de hoje, como qualquer outro) e trazer para o público alguns aspectos específicos desse cotidiano, como a questão das condições de trabalho para quem vive de festas no Rio de Janeiro, a formação da carreira e as alternativas profissionais do Dj (produção, trilha sonora, discos).

Joca - O bacana foi ter a possibilidade de eternizar o trabalho destes cinco DJs. Mostrar até mesmo para a nova geração quais as maiores dificuldades da carreira de DJ e ter um exemplo prático de como é ainda ser DJ depois de tantos anos nesta profissão.

Como foi feita escolha dos entrevistados?

Fred – A escolha se deu através de um recorte entre inúmeros possíveis que dê conta de um panorama amplo dos Djs cariocas. Nado Leal, Maurício Lopes, Marcelinho da Lua, Nepal e David Tabalipa não só representam quase todos os gêneros possíveis na pista (faltou um Dj especializado em reggae, por exemplo), mas suas próprias trajetórias, de certa forma, contam a trajetória da noite carioca desde que o Dj tornou-se personagem principal das festas e da cultura noturna carioca. Poderiam ser muitos outros, porém o grupo reunido tem história e, de certa forma, fez história nesses últimos vinte anos.

Joca - Esse grupo tem muito em comum, como a amizade, o público, a pista de danca, o profissionalismo. Se pegássemos um outro DJ aleatório e que não conhecesse muito bem os outros DJs acho que não daria o mesmo impacto. Um DJ que ficou faltando nesse livro foi o Markinhos Meskita, que também faz parte dessa turma, mas que atualmente mora em Brasília, o que dificultou a entrevista.

Como anda a profissão atualmente?

Fred – Pela minha perspectiva pessoal, acho que a profissão vai muito bem, tem status, todas as festas e eventos precisam de ou demandam DJs, os equipamentos estão cada vez mais acessíveis etc. Porém, por isso mesmo, criou-se uma incrível disputa por espaço em que o DJ não precisa mais ser um profissional reconhecido pelo mercado de festas. Criam-se festas diariamente, com Ipods e softwares de mixagem. Todos, de certa forma, podem ocupar o espaço do DJ de festa. Por isso que a profissão talvez tenha que cada vez mais investir na polêmica dupla repertório/técnica para se diferenciar dos que tem repertório porém tocam de forma precária ou os que ficam treinando em casas por meses técnicas de mixagem, porém não tem cultura musical. Creio que todos podem ser DJs, sem problemas, mas nem todos podem exercer a profissão do DJ de forma completa, trabalhando diariamente com as demandas da área. Uma coisa é você tocar no fim de semana com os amigos, outra coisa é você viver disso, ter que ocupar toda sua semana com festas e eventos para ter um salário legal no fim do mês.

Joca – Acho que essa ‘banalização’ da profissão tirou o espaço de muitos DJs que tocavam profissionalmente, não só aqueles que trabalhavam em clubs, mas os que também ganhavam a vida tocando em festas particulares. Hoje em dia todo mundo conhece algum DJ e o ‘preço de tabela’ acabou desabando, já que muitos tocam de graça ou por merreca. Teve também a troca de geração , que veio com tudo e a noite carioca mudou muito nos últimos anos, dificultando ainda mais.

Qual futuro da profissão atualmente, quando qualquer um com um iPod se acha um DJ? As pessoas tem percepção de são coisas diferentes?

Fred – Citando a resposta anterior, acho que o ponto é exatamente esse: quem toca músicas em sequência numa festa é DJ? Ou DJ é uma profissão definida pelo uso técnico de equipamento musicais na construção de uma dinâmica sonora? Uma coisa é ter bom gosto musical e tocar músicas em festas sem compromisso com o dia-a-dia da profissão do DJ, outra é você viver 24 horas batalhando por espaços, produzindo faixas, fazendo remixes, conversando com produtores etc. No caso de caras como o Da Lua, ele ainda tem a carreira musical, produz seus discos, faz turnês etc. O DJ de Ipod (e não vejo nenhum problema em quem é DJ assim, acho que tudo é valido) não é DJ no sentido profissional do termo. Aliás, o debate entre técnica e repertório é intenso entre os próprios DJs. Talvez o futuro da profissão seja uma maior especialização técnica do DJ, deixando de ser menos glamour (que faz com que nomes famosos queiram ser DJs eventuais) e tornando-se mais profissional no sentido de carteira assinada, garantias sociais etc. Mas nas festas sempre vai ter lugar para tudo, já que a organização e a escalação de quem toca nelas são feitas quase sempre de forma amadora, entre amigos. O problema para o DJ, como os que foram entrevistados, é justamente serem nivelados por baixo junto aos Djs de fim de semana. E isso quer dizer perder espaço para concorrentes midiáticos ou perder valor de mercado – leia-se cachê. Mas isso é um debate longo entre os próprios DJs e o acesso cada vez maior que a tecnologia dá para as pessoas sempre renovará esse debate.

Joca - Eu acho que essa nova geração não dá o mesmo valor para DJs mais antigos, que estão na cena há muito tempo. Hoje em dia o hype é ter uma amigo da mesma idade que é DJ for fun. Se ele toca com ipod ou cd ou disco, tanto faz. O lance é que a pista “bombe” e a galera saia satisfeita. Eu acho que o futuro da profissão pode ser cada vez mais sombrio para a maioria dos DJs das antigas, que vão se fechar em seus nichos ou parar de tocar. O grande lance será buscar novos meios de renda e/ou se especializar cada vez mais. O que vai prevalecer é um mercado mais informal, quase de gueto mesmo, e cada vez mais festinhas particulares para pouca gente.

Quais os proximos planos? Podemos esperar um “DJs” vol. 2?

Fred – Acho que sim. Eu e Joca achamos que um DJ merece um livro só dele, com longas entrevistas: Maurício Valadares. Quem sabe não convencemos a editora?

Joca – O Edinho daria um bom papo. Eu gostei da experiência e tô pronto para novos desafios. Eu e Fred vamos nos reunir depois do lançamento para discutir os próximos passos. Tenho vontade de fazer um documentário também.

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Entrevista – José Padilha (Revista Monet, Out/2010)


foto: Alexandre Lima

Íntegra da entrevista que fiz com o diretor José Padilha sobre “Tropa de Elite 2″ para a revista de programação da na Net, Monet. A conversa foi há dois meses, infelizmente antes de ter assistido o filme.

Bruno Natal – Passados três anos do lançamento do 1º filme, qual é a avaliação do “caso Tropa”? De lá para cá…

José Padilha – Qual dos casos? Tem quinhentos casos, cara…

BN – Do filme mesmo, como experiência mesmo. Da hora que começou, como repercutiu, etc.

JP – Olha, vou fazer um digressão aqui então… Quando fui fazer o primeiro filme eu só tinha filmado documentário. Nossa produtora não faz comercial, o que significa que eu saí de um set de quatro pessoas, três… De um set de documentário, para um set de 100 pessoas, com luz, com um monte de coisa, que era o “Tropa de Elite” – acho que era o maior filme daquele ano, em termos de orçamento – sem ter nenhuma experiência com set grande. O que é uma certa irresponsabilidade, vamos dizer assim, né? Uma porralouquice. Então, para mim, a experiência de filmar o “Tropa” foi muito legal. Porque irresponsabilidade não é uma coisa que falte aqui na nossa produtora. Então, a gente entrou tranquilo, com todo nosso cacife de irresponsabilidade e fez o filme que a gente queria fazer, né? Aí teve… Por isso eu perguntei qual dos casos, né? Bom, aconteceram uma série de coisas estranhas com o filme “Tropa de Elite.”

BN – A pirataria, por exemplo.

JP – A pirataria fez uma diferença brutal na historia do filme e não dá para avaliar o filme, sem avaliar a pirataria. Qual foi a principal diferença? Quando o filme foi lançado nos cinemas ele já estava lançado. Já tinha sido visto, segundo a Folha de S.Paulo, por 11,5 milhões de brasileiros. Depois a gente contratou o Ibope para fazer uma pesquisa e era isso mesmo. Acima de 16 anos, mais de 11 milhões de pessoas já tinha visto o filme antes de ele abrir no cinema. E já tinham escrito críticas sobre o filme antes de ele abrir no cinema. De forma que a recepção do filme não passou pela crítica. O público disse o que achava do filme antes da crítica se manifestar. As críticas que foram escritas antes de abrir no cinema, foram em cima do que o público tava falando. Foi uma experiência única, que não vai se repetir, eu acho, na história do cinema. Pelo menos na minha história eu acho muito difícil que se repita.

BN – Acha ou espera?

JP – Eu espero, né? Trabalho que nem um louco para isso não acontecer! É engraçado, porque você me perguntou qual a avaliação. A avaliação foi anterior ao lançamento do filme. Agora, não existe uma avaliação, né? Existe essa ficção, “qual a avaliação do público sobre o seu filme?” Como se o público fosse uma massa uniforme que tivesse uma só opinião. E não é assim que funciona. Dentro do público você tem milhares de pessoas diferentes. Cada um com sua opinião. Eu não me preocupo muito com isso…

Não fico lendo o que as pessoas escreveram. Eu não entro nessa linha. Eu faço meu filme do jeito que eu gosto, com as pessoas com quem eu tô fazendo. O Wagner Moura, Bráulio Mantovani, Dani Resende, Lula Carvalho, Marcos Prado e tal… Os outros atores. A gente olha pro filme, gostamos do filme e tal. Botamos o filme no festival, botamos o filme no cinema. E vamos em frente, tá certo? Eu não fico voltando sobre o projeto e analisando o projeto com base na opinião das pessoas. Porque isso seria uma receita para eu ficar maluco! Tem um milhão de opiniões diferentes sobre o “Tropa de Elite” publicadas. E sobre qualquer filme que eu tenha feito. Com o “Ônibus 174” foi a mesma coisa.

Então para resumir, qual é a avaliação? A avaliação é que a gente tinha uma produtora pequenininha fazendo um filme irresponsável, porque o tamanho do filme era muito maior do que o tamanho da produtora. E a gente lançou o filme e o filme funcionou para caramba. A avaliação é que o cinema contempla essa possibilidade, né? De um cara sair de uma posição super pequena pra fazer um filme que vira grande. Foi o que aconteceu com a gente.

BN – E a internet, que impacto teve no filme? Você avalia de uma maneira positiva ou negativa? Aposto que seja ambígua, né? Teve um fator positivo nisso, uma maior divulgação.

JP – Por internet, eu vou entender pirataria. Porque eu acho que no caso do “Tropa de Elite”, talvez 90% da pirataria não tenha sido via internet.

BN – Tem razão. Foi banquinha?

JP – Tenha sido via DVD. Eu, por exemplo, vi… Me ligaram, me falaram o que tava acontecendo e eu fui ver pessoalmente. Eu vi, na barca de Niterói, uma televisão com 10 ou 15 cadeiras, pessoas sentadas esperando a barca, vendo o filme. Pagaram um ingresso de dois Reais. Ou seja, foi pirateado o cinema, não foi só o filme. O cara pirateou o cinema inteiro. Fez um cinema pirata. Foi um fenômeno sociológico, não sei explicar. Porque o filme não teve mídia nenhuma no seu lançamento. Vazou um DVD e esse DVD foi copiado, começou a ser vendido, caiu no gosto das pessoas e se espalhou pelo Brasil inteiro. Não só pelo Brasil, tinham pessoas que me ligavam: “Tô aqui em Bali vendo seu filme!”, “Tô aqui não sei aonde vendo seu filme”. “Tô aqui em Portugal”, “em Angola”…S e espalhou pelo mundo, né? Foi um fenômeno sociocultural o que aconteceu com o filme.

Uma parte desse fenômeno depende da internet, outra parte – que é a maior no Brasil – não depende da internet, né? Depende das redes de piratarias de DVD que estão estabelecidas aí. É bom, é legal para um cineasta que seu filme comunique dessa forma, espontaneamente? É, é muito legal que o filme comunique, eu fico feliz que o filme tenha comunicado com as pessoas. O que não significa dizer que pirataria é bom. Não, pirataria é péssimo. Pirataria é sonegação de imposto, pirataria é corrupção policial… Eu mesmo fiz imagens de policiais andando na frente sãs banquinhas enquanto o camelô estava vendendo o DVD. Bom, certamente não é de graça esse passeio policial ali. O policial não está prendendo o camelô por algum motivo, né?

Pirataria é competição desleal. O sujeito que está lá na sua loja de DVD, fazendo seu filme, vendendo seus filmes, alugando e pagando imposto está competindo com o cara que não paga imposto, tá certo? Pirataria é ruim, ponto. Então, é bom ter um filme popular? Muito bom. É bom ter um filme pirateado? Não, muito ruim. É isso.

BN – Você acha que isso afetou o desempenho do filme nos cinemas para baixo ou para cima?

JP – Eu acho que a pirataria aumentou o público do filme como um todo. Ou seja, se você somar todo mundo que viu na pirataria, mais todo mundo que viu no cinema, mais todo mundo que viu na televisão, mais todo mundo que viu no cabo, no Brasil, se você fizer essa soma… Se você tirasse a pirataria, se o filme fosse lançado sem pirataria, esse número agregado seria menor. Mas, o cinema perdeu muito para a pirataria, né?

Como eu te falei, a gente contratou o Ibope para fazer uma pesquisa depois do filme lançado. E o número que o Ibope deu para gente, foi que o filme perdeu 2/3 da sua renda de cinema. Ou seja, se o filme fez 2 milhões e 300 mil [ingressos], podia ter feito seis [milhões]. Perdeu. Significa que a gente teve uma perda financeira grande. Não existe mágica, tá certo? Se alguém pegou o seu filme e distribuiu ele antes da janela de cinema e ele foi visto, evidentemente que você perdeu gente no cinema. Não tem como escapar. Por isso que todos os contratos, de todas as distribuidoras no mundo têm janela, entendeu? O cara não pode lançar em DVD antes do cinema, porque já está auferido pelo mercado, na sua história, que você perde público no cinema se você furar a janela.

BN – É que há quem diga que no caso da música – onde já há alguns estudos mais precisos disso – que muito desse público talvez não fosse ver o filme e viram porque estava disponível dessa maneira.

JP – Por isso que o valor agregado, o número agregado, quando você soma a pirataria, é maior. Mais pessoas viram o filme, eu acho, mas o número do cinema caiu. O sujeito que bota dinheiro pra fazer um filme não tá interessado num número agregado, ele tá interessado no dinheiro que volta para pagar o filme, tá certo?

BN – Bom, então tá. Passado esse período do primeiro para o segundo filme, algumas mudanças estão acontecendo na política de segurança pública do Rio. O filme continua relevante nos assuntos que estão ali?

JP – Qual filme continua relevante?

BN – O “Tropa 1”.

JP – Totalmente. O assunto principal do “Tropa de Elite 1”… Vamos fazer aqui uma pequena digressão. Eu fiz dois filmes sobre violência urbana: Fiz o “Ônibus 174”, que conta a história da violência urbana do ponto de vista de um marginal, né? E que se pergunta como que esse marginal se formou. E conta a história da vida da pessoa para explicar o comportamento dele dentro daquele ônibus. Grosso modo é isso. E o que você descobre quando olha a vida daquele marginal? Que também se chama Nascimento, não por acaso. Você descobre que ele foi maltratado, sobretudo pelo Estado. O Sandro vira menino de rua e menino de rua é responsabilidade do Estado. E o que acontece com ele quanto ele é menino de rua? Primeiro o Estado não pega ele, não ensina ele, não educa ele. Ele fica na rua, ele apanha da polícia, ele é achacado por policial, ele fica jogado na Candelária… Ele vê seus amigos serem assassinados na Candelária… Quando é preso ele vai para o Padre Severino, e o Padre Severino é uma escola de criminalidade, etc. Na medida que você olha para o filme, você se dá conta que quem produz o lado marginal do Sandro é o Estado. Nós mesmos, com o dinheiro do nosso imposto, vamos dizer assim né?

O “Tropa de Elite” é a mesma coisa ao contrário. Quem produz o Capitão Nascimento? Quem produz o policial violento? Quem transforma o Matias numa pessoa capaz de dar um tiro de Calibre 12 na cara do traficante? O Estado. O Estado é que mantém e tem uma organização corrupta e violenta como a Polícia Militar do Rio de Janeiro, né? Faz parte da cultura organizacional da PMERJ esse tipo de comportamento. Está arraigado na cultura. Não da cultura formal, pois se você pegar o formalismo da PM, não tem lá esses comportamentos, mas todo mundo sabe que as organizações têm culturas formais e culturas informais. E que no final das contas, a cultura informal vale mais. Isso é o tema do “Tropa de Elite I”.

Agora eu pergunto para você ou para o telespectador: A PM não corrompe mais? A PM não mata mais? O “Tropa de Elite” está ultrapassado? Não está, né?

BN – O que motiva o “Tropa de Elite II”? É uma continuação desse assunto?

JP – Uma das coisas que eu não vou fazer é contar para você o filme.

BN – Sim, sim. O que te motiva a fazer um segundo filme sobre o mesmo tema?

JP – Um terceiro filme.

BN – Um terceiro filme sobre o mesmo tema. Mas, no caso, um segundo com os mesmos personagens.

JP – Então, o que me motiva a fazer um filme qualquer sobre um tema qualquer? E isso faz parte do estilo dos meus filmes, é tentar dar alguma compreensão – como se fosse uma crônica social – ao público sobre esse tema. E colocar essa compreensão numa estrutura dramática que funcione como cinema.

Então, eu vou dar um exemplo de novo indo para o documentário. Quando eu conto a história do Sandro… A história do Sandro aconteceu de maneira linear no tempo, tá certo? Começou com ele pequeno, foi crescendo… Como qualquer história no mundo real. No documentário eu começo ele no ônibus. Faço um flash forward, né? Por que eu faço isso? Porque eu achei que o flash forward era melhor pra dramaturgia do filme.

Em outras palavras, qualquer filme, inclusive documentários – principalmente documentários – tem duas dimensões: tem uma dimensão epistemológica, da relação do filme com a realidade e uma dimensão dramatúrgica, que é inerente ao filme, para fazer o filme funcionar como cinema. O quê eu me interesso por fazer? Filmes que tenham essas duas dimensões, mesmo na ficção. Um documentário necessariamente vai ter isso, né? Na ficção não necessariamente. “Star Wars” não tem uma dimensão epistemológica, porque “Star Wars” é sobre um universo que não existe, né?

Nos três filmes que eu fiz sobre a violência até agora, “Tropa I”, “Tropa II” e “Ônibus 174”, eu tentei criar uma estrutura de dramaturgia que refletisse aspectos do mundo real. De modo a usar a dramaturgia do filme para gerar debates que eu considero relevantes. Pode chamar isso de cinema político, cinema engajado, como você quiser.

Nos três filmes eu não me preocupei em dar para o público, tempo de reflexão dentro do filme. Nunca me preocupei com isso. Eu não compro a ideia de que eu tenho que afastar o público da história, ou da dramaturgia para o público pensar, numa sequência lenta e arrastada e etc durante o filme. Eu acho que é melhor pegar o público pela emoção e dar todo impacto da história e deixar o público pensar em casa. Tem gente que não gosta disso. Tem 15mil comentários aos meus filmes nesse sentido, “não tem tempo de reflexão dentro do filme”, como se a pessoa não pudesse pensar depois sobre o filme. Como se fosse vedado o pensamento pós-crédito, tá certo? Eu fiz a mesma coisa nos três filmes.

O “Tropa de Elite 2” lida com assuntos que eu não lidei no “Tropa de Elite I” e nem no “Ônibus 174”. Que assuntos são esses você vai ver quando você vir o filme. Eu não faria o filme se não fosse para falar sobre outra coisa. Eu não me interesso em fazer o filme, é muito trabalho, muito tempo, muita ralação, muito risco fazer um filme. Eu, particularmente, não me interesso em fazer um filme que seja só de entretenimento. Nada contra quem faz isso. Não tenho nada contra isso, mas eu não tenho, vamos dizer, paciência para fazer.

Então a gente fez a mesma coisa: Pesquisa… Pesquisamos durante dois ou três anos o tema sobre o qual a gente vai falar, que é milícia, tem a ver com milícia. Não tá falado nem no primeiro filme, nem no segundo filme. Olhamos horas e horas de material da CPI das milícias, transcrevemos todo esse material, estudamos a história da CPI das milícias que teve no Rio de Janeiro agora para entender como que a milícia funciona.

Fizemos uma pesquisa enorme e dessa pesquisa entramos da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado – que é a DRACO – que prendeu os milicianos todos que foram presos. Estudamos os processos todos da DRACO, entrevistamos as pessoas, quer dizer, fizemos um trabalho longo e árduo para fazer um filme que fale sobre um assunto que é muito atual – e que não está sendo lidado direito na minha opinião – no Rio de Janeiro.

Você pode, por exemplo, você perguntou com relação ao que mudou na segurança pública. O que mudou na segurança pública foram essencialmente, na minha opinião, duas coisas: a primeira coisa foi a despolitização das delegacias e dos batalhões. Ou seja, o Governador – antigamente por exemplo, na época da Rosinha Garotinho e do Garotinho – indicava, ou dava para algum vereador, o direito de indicar tal delegado, tal policial militar, etc. O que gerava parte da corrupção que a gente vê na polícia. Parte, não toda. O Sérgio Cabral teve o mérito de acabar com isso. Ele acabou com isso e foi fundamental na segurança pública.

A segunda coisa que mudou na segurança pública não foram as UPPs, foram três coisas que mudaram. A segunda coisa foi essencialmente feita por um cara, Marcelo Freixo, do PSOL, que conseguiu emplacar duas CPIs importantíssimas na ALERJ. Uma não foi nem um CPI, foi o processo de cassação do Álvaro Lins, ex-chefe de policia, com uma série de denúncias de corrupção e Deputado Estadual. O Marcelo conseguiu cassar o Álvaro Lins, apesar de ele não ter partido. Isso mudou, mandou um recado: “Olha só, a impunidade não é total”. E a segunda CPI que o Marcelo fez, foi a CPI das milícias, que prendeu uma série de pessoas, cassou Deputados Estaduais, etc, e que revelou uma conexão que existia, muito forte, entre a milícia e a política. A milícia elegia pessoas, a milícia tomava uma favela, não só fazia dinheiro como caixa de campanha, como pegava o voto daquela favela e alocava no processo político. Isso não está dito em nenhum filme que eu fiz e em nenhum filme que ninguém fez, que eu conheça, até hoje.

E a terceira coisa que mudou, foram as UPPs. As UPPs provaram… As UPPs não são processos…Tem que entender direito o que é uma UPP. Uma UPP não é uma luta contra o tráfico, não resolve o problema do tráfico. O tráfico de drogas continua. E ele nem se propõe a resolver o problema do tráfico. O que ela faz é: tirar um traficante armado de uma favela e ocupar com a polícia. O tráfico continua. Você continua comprando drogas no Rio de Janeiro. Não acabou tráfico de drogas. O que ela faz é mostrar que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro não precisa necessariamente ser violento. Por exemplo, existe tráfico de drogas na Inglaterra e as pessoas não se matam na rua. Não é isso? A UPP faz isso. E recupera o território que um grupo armado tinha tomado –  frupo armado era um grupo de traficantes que tomou normalmente uma favela- e recupera a dignidade das pessoas que moram ali, que não mais controladas, ou administradas por aquele grupo armado.

A UPP é muito boa nesse sentido e eu acho que no curto prazo e no médio prazo, a UPP só vai ser positiva, só vai melhorar os índices de violência no Rio de Janeiro. Sou a favor da UPP, porém, no longo prazo, quem está ocupando a favela no lugar do traficante? É a polícia. Como que funciona a nossa polícia? No longo prazo, se não reformar a polícia, pode ser que a UPP não seja tão boa assim.

BN – Porque até circular… vai cair na milícia de novo. O que é de certa maneira isso, né? UPPs independentes.

JP – Então, você acabou de concluir, por si mesmo, qual é a relevância do filme “Tropa de Elite II”.

BN – Você falou do projeto de pesquisa ser importante e como seu trabalho como documentarista influencia seu trabalho como cineasta de ficção. Seu primeiro filme sobre o tema é um documentário. O “Tropa I” foi feito baseado na pesquisa do livro “Elite da Tropa”, né? Foi o que inspirou?

JP – Na verdade não, foi ao contrário. A gente fez a pesquisa toda do filme. Eu fiz com o Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, agora jornalista. Com o André Batista e com vários policiais que eu entrevistei. Aí eu escrevi um roteiro com o Pimentel, do filme. Quando eu estava lá no sétimo tratamento, eu chamei o Luiz Eduardo Soares e falei: “Olha, tem um milhão de histórias aqui, eu não consigo contar todas. Faz um livro sobre isso”. Nosso roteiro é um roteiro original, não-adaptado, o livro é que nasceu do filme. Só que o livro foi lançado antes.

BN – E agora “Tropa II”, como você disse, também nasce de uma pesquisa grande, você foi atrás de casos reais. Então é uma pesquisa.

JP – Eu não tenho nenhuma imaginação, né? Tenho que buscar as coisas na realidade… (risos)

BN – Pois é. E ao mesmo tempo é um documentário. Você acha que isso é uma característica do seu trabalho, que permanece?

JP – É, permanece no “Tropa III”. Eu nunca fiz um filme que não seja sobre um assunto real, então eu sou obrigado a dizer que isso é uma característica do meu trabalho. Não quer dizer que eu não vá fazer outra coisa amanhã, mas até agora é isso aí.

BN – Então vai ter “Tropa III”, é certo?

JP – Eu falei “Tropa III”, mas é “Tropa II”. Se tiver um “Tropa III”, vai ser “Tropa 3D”! (risos)

BN – Você vê essa nova realidade que você descreveu, esse cenário que vem se desenhando das UPPs, como uma possibilidade de um abordagem para um novo filme? Você tem interesse?

JP – Olha só, o processo das UPPs está no comecinho. O Rio de Janeiro tem mais de 1.700 favelas. Quantas favelas foram ocupadas? Quinze, né? E não é um processo que está dado. Isso não é uma história que acabou, tá certo? É um ótimo projeto, é um bom começo e é o óbvio ululante. A UPP coloca uma pergunta. A UPP não tá mostrando que é facílimo recuperar as favelas? Quantas trocas de tiros tiveram? Né? Nenhuma e tal, estamos aí retomando e tal… A pergunta que eu faço é a seguinte: Então por que não fez isso antes?

Não é obrigação da polícia fazer isso? Não é fácil fazer? Por que foi necessário um programa de governo, um nome UPP, o apoio da mídia para fazer o que a polícia tinha que ter feito há quinhentos anos atrás? Essa é uma pergunta que eu estou colocando não para jogar lama na UPP, porque eu sou a favor da UPP. Mas é uma pergunta que revela alguma coisa. E revela o quê? Revela que a polícia não tinha interesse na UPP. Nunca teve, está certo?

Se a polícia não tinha interesse na UPP e teve que vir de cima para baixo, faz você pensar: “Que polícia é essa?” Porque é essa polícia que está ocupando a favela. Está certo? Porque se você olhar com calma para a UPP, você vai ver o seguinte: Qual policial que a Polícia Militar coloca nas operações de UPP? Entra primeiro o BOPE, o traficante corre. Avisa na mídia que vai ter a invasão, o traficante corre. Porque está totalmente certo. Totalmente certo, na minha opinião. O traficante corre, a polícia entra. Aí quem fica lá na ocupação? Primeiro é o BOPE, que é uma polícia que não é corrompida igual à outra. Aí o BOPE sai, aí entram os aspirantes, os caras que acabaram de se formar na PM. Por que eles não mandam o policial antigo pra UPP? É uma pergunta que eu não preciso nem colocar a resposta.

Aí você faz uma conta: Quantos policiais novos a gente tem? Não têm muitos. Quantas favelas a gente tem? 1.700 Então a UPP é um projeto de longuíssimo prazo, não é um projeto instantâneo.

BN – O que é bom, né?

JP – É ótimo! Você tem que ir formando os policiais, novos, e colocando na UPP. Mas aí tem uma pergunta. O que acontece com o policial novo depois que ele fica velho? Porque ele é um policial que ganha o mesmo salário do policial antigo e que opera na mesma organização. O que a organização faz com o policial? Bom, esse é o tema do “Tropa de Elite I”, você já viu, né? Então é o seguinte: A UPP é meio projeto. É metade do projeto.

Ocupação territorial das áreas que estão com tráfico? Ótimo! Sou totalmente favorável. Agora cadê a outra metade? Porque a outra metade é a reforma da polícia. Se não tiver a outra metade a gente corre o risco de estar substituindo o tráfico por máfia. Máfia mata mais do que tráfico? Não, mata menos. Os números da violência vão cair.

Mas, máfia tem outros problemas. Quantas armas da milícia o BOPE já apreendeu? Zero. A polícia vira quase inútil para enfrentar a milícia, tá certo? Milícia é um nome brasileiro para máfia, no fundo é máfia. Então, o que eu estou falando? Cuidado! Faz a UPP? É claro que tem que fazer, mas cadê a reforma da polícia? Porque senão daqui a pouco a gente pode estar fazendo uma coisa ruim.

BN – Você tem vontade de fazer um terceiro filme abordando esses novos temas?

JP – Já fiz. Isso está no “Tropa II”. O que eu estou falando com você agora é um discussão que o “Tropa II”coloca.

BN – Tem UPP no “Tropa II” então?

JP – Não vou te contar o filme! (risos) Mas eu te digo o seguinte: Eu posso colocar essa discussão sem usar o nome UPP.

Olha só, eu ocupei uma favela, tirei os traficantes de lá. A favela mudou de nome? UPP é Unidade de Polícia Pacificadora. Quer dizer que a outra polícia que está nas outras favelas, que não é UPP, não é pacificadora? É o quê então?

Vou repetir, eu acho UPP um projeto maravilhoso. Uma coisa que a UPP mostra, na minha opinião, é que o tráfico tem um componente cultural. O tráfico tal qual ele existe no Rio de Janeiro. O tráfico que anda com AR-15 e dá tiro, tem um componente cultural. É um negócio que passa de geração em geração dentro da favela. O garoto lá… A criança nasce e quando tem problema familiar e uma série de motivos, vê aquele cara armado e “pô, o cara armado manda em todo mundo”. Tem um componente de reprodução cultural. Isso está demonstrado em quinhentas mil teses sociológicas… Desde a tese da Alba Zaluar …Pois é, tá demonstrado. Em suma, quando você coloca a UPP lá, se ficar por algum tempo, ela quebra a transmissão dessa cultura. Ela não acaba com o tráfico, mas o tráfico não fica violento. O que é muito melhor. Então a UPP é joia, é nota dez.

Por exemplo, no “Tropa de Elite II” não tem nenhuma crítica a UPP. Você não vai encontrar. Tem só um alerta: “Olha só, cadê a outra parte do projeto?” Porque se não botar a outra parte do projeto funcionando, o projeto tende a dar errado. E quanto tempo você tem para fazer a segunda parte do projeto? Você calcula. É fácil calcular. Quantas favelas você tem que ocupar, qual a ordem de ocupação, quantos policias novos por ano, quando é que vão acabar os policiais novos, tá certo? Quando é que os novos vão ficar velhos… Você calcula esse prazo. Eu acho que tem aí uns dois, três anos pra fazer isso, se não fizer vai começar e ter problema.

BN – E foi essa nova realidade que te inspirou a fazer o “Tropa II”? Foi isso que deu a coceirinha: “Tá na hora de fazer de novo.”?

JP – Foi. A gente conversou, assim. O “Tropa” é um filme de “patota”, vamos dizer assim, né? Para usar um termo velho, né? Então é uma coisa que eu fui conversando com o Wagner, com o Marcos, com o Bráulio, com o Dani Resende, com o Lula Carvalho, e tudo mais… “Pô, será que a gente faz esse filme? Tem um monte de gente que está falando pra gente fazer”.

Mas pô, a gente claramente só queria fazer se a gente achasse que era relevante fazer. E eu criei uma série de conexões com o mundo da Segurança Pública, através dos meus filmes. E a medida que eu ia conversando com o Wagner, e tal, eu ia também conversando com algumas pessoas que eu conhecia que estavam nesse mundo e que começaram a me falar esse tipo de coisa que eu tô te falando aqui. “Pô, olha só: UPP é legal, mas tem um problema aqui. Olha o que tá acontecendo com o Rio de Janeiro. Olha como foi a CPI das milícias. Dá uma olhada, porque a CPI das milícias prendeu os milicianos, mas não acabou com as milícias. A milícia fragmentou , mas ela continua.

O Marcelo Freixo, por exemplo, foi o cara que fez a CPI das milícias, né? O Marcelo Freixo não pode fazer campanha na Zona Oeste. Ele morre. Ele não pode. Já está avisado: “Se você fizer campanha aqui na Zona Oeste…”. As pessoas das favelas da Zona Oeste não podem ter um “santinho” do Marcelo Freixo. Isso é seriíssimo, não é brincadeira. A milícia tá aí.

BN – E qual foi a diferença do processo de filmagem do “Tropa I” e do “Tropa II”, no sentido em quê no primeiro o filme foi ganhar atenção com aquele caso do roubo das armas lá no Babilônia. Quando teve aquele “troço” que todo mundo pensou “ppa, tá fazendo um filme sobre isso?”. O pessoal do meio sabia, mas fora não sabia direito. Agora no “Tropa II” já muda tudo. Isso torna a coisa mais fácil ou mais difícil?

JP – Mais fácil, na média é mais fácil. No primeiro filme a gente só tinha feito documentários. Tava fazendo um projeto de, sei lá, 10 milhões de Reais. A gente nunca tinha feito um projeto de mais de 700 mil. Como que levanta esse dinheiro? É difícil. Depois a gente tinha feito o “Ônibus 174”, que é bastante agressivo com a polícia e com o governo Garotinho em particular. Então quando eu ia filmar o “Tropa de Elite I”, a Governadora era a Rosinha, então a gente não tinha acesso, não conseguia autorização, a polícia queria ler o roteiro… Uma coisa maluca, que deu um trabalho grande para conseguir. Se não fosse o Fernando Pelegrino, um amigo meu, explicar pro Governo Garotinho que não se pode censurar cinema, a gente não tinha conseguido. A gente conseguiu, mas deu muito trabalho.

No segundo filme foi muito mais fácil. As autorizações saíram rápido, ninguém pediu pra ver roteiro, a polícia colaborou para caramba. O atual comandante da PMERJ é uma pessoa honesta, séria. Ele ajudou a gente porque ele entendeu que é bom para a polícia haver crítica, então deixou a gente filmar dentro do 3º Batalhão, a gente filmou no Palácio do Governador, dentro do BOPE. Foi infinitamente mais fácil. E como o segundo filme não fala muito, fala um pouco, mas não fala muito, sobre tráfico, eu não filmei em favelas que estavam ocupadas pelo tráfico como eu fiz no primeiro filme. Você falou, no Babilônia, Prazeres, etc. Então, foi muito mais fácil.

BN – Você creditaria isso a uma mudança já de mentalidade ajudada pelo Tropa I”?

JP – Eu acho que sim. Com certeza. Foi mais fácil levantar dinheiro também.

O “Tropa de Elite I” não é inimigo da polícia ou do policial honesto. Não é. Por que seria? Tá dizendo “olha, policial não recebe dinheiro, a policia tá jogada as traças, isso gera corrupção dentro da polícia”. Para lidar com uma polícia tão corrupta, que não consegue operar direito, o Governo teve que fazer uma polícia, é… maluca.

Para você isolar o policial especial, o BOPE, da corrupção que campeia uma organização policial, você tem que aquartelar ele num lugar diferente. Você tem que doutrinar ele do jeito que ele é doutrinado, senão ele vai virar igual ao outro. Aí a polícia ao invés de acabar com o problema da corrupção, fez isso. Gerou um batalhão que tortura, mata, se considera superior aos outros, etc. que é o BOPE. O filme fala isso. Nada disso é bom. Então falar isso, alertar para isso é a favor da polícia. Ou será que a gente quer uma polícia corrompida e violenta? Não quer. Então algumas pessoas – e por sorte o Mário Sérgio, por exemplo – entendem isso dentro da polícia.

Não vou dizer que a polícia inteira concorda com isso. Não concorda, tanto assim que o “Tropa de Elite I” gerou um número enorme de ações na Justiça, de policiais. Os oficiais do BOPE processaram o filme, uma série de policiais convencionas processaram o filme e etc. A polícia como um todo, não concorda, mas essa chefia da polícia que está aqui, concorda hoje. Pode ser sorte. E também é mais fácil levantar dinheiro para o “Tropa de Elite II” do que para o “Tropa I”, porque já existia o “Tropa I”, né?

BN – E teve alguma coisa parecida com esse incidente das armas no Babilônia ou foi mais tranqüilo dessa vez?

JP – Foi muito mais tranqüilo. Ah, bom, teve algumas coisas, sempre tem. Por exemplo, a gente estava filmando uma cena na Zona Oeste, da execução de uma testemunha contra as milícias. A cena era essa. A gente tava lá, 2 da manhã, preparando pra rodar o 1º take quando chegaram 20 carros de polícia, pararam, encostaram… Só que eles não vieram na filmagem, eles viraram numa ruazinha perto, à direita e tal… Aí o cara da segurança da nossa filmagem foi ver o que era… Era uma execução da milícia. A milícia tinha executado um cara num botequim a dois metros da filmagem que a gente ia fazer, que era sobre o mesmo assunto. Quer dizer, a filmagem é no Rio de Janeiro. As coisas que acontecem no Rio de Janeiro

Olha só, não vamos imaginar que acabou a violência no Rio de Janeiro porque a gente fez dez UPPs. Quantos autos de resistência têm no Rio de Janeiro? Antes das UPPs, ainda na vigência do Sérgio Cabral, teve mais de mil autos de resistência. O que é um auto de resistência? É um policial que matou alguém que estava resistindo à prisão. Teoricamente. O policial declara que foi isso que aconteceu. A gente tem que entender que número é esse. Nos Estados Unidos a policia mata 200 pessoas por ano, em uma população de 300 milhões. No Rio de Janeiro, a polícia matou mil pessoas em um ano, numa população de 11 milhões, né? Não é brincadeira isso. Não vamos imaginar que a Segurança Pública está resolvida com a questão da UPP. Não está. É um passo ótimo para resolver, mas se não reformar a polícia, não vai resolver.

BN – E que filme você gostaria de fazer? Que realidade você gostaria que existisse para te inspirar a filmar?

JP – Problema social, meu amigo, vai existir. Existe desde o primeiro minuto da história da humanidade e vai existir sempre, tá certo? Eu não imagino e não acredito na Utopia, tá certo? Então, se o meu problema fosse “pô, eu só faço filme sobre problema social, o que eu faria se acabassem os problemas sociais? É isso que você está me perguntando? É uma pergunta meramente retórica, porque os problemas sociais não vão acabar, infelizmente.

Tem uma série de filmes que eu me interesso por fazer. Eu, por exemplo, fiz um filme agora que não fala diretamente de problema social. Fiz um documentário chamado “Segredos da Tribo”, que abriu no Sundance esse ano. Que fala sobre a filosofia da ciência, sobre epistemologia, sobre a incapacidade de um determinado grupo social – no caso os antropólogos – de produzir conhecimento confiável. E por que isso acontece, etc. Que é um outro assunto completamente diferente de segurança pública. Eu fiz um outro filme, que é o “Garapa”. Que é um outro documentário que teve em Berlin ano passado. Que fala sobre como uma família lida com falta de alimento. Eu faço uma série de filmes que não são sobre segurança pública, agora todos eles são sobre assuntos reais. Porque como eu te disse, a minha imaginação é curta.

BN – Agora, para fechar, uma pergunta pedida pela revista. Como o diretor vê no Brasil a questão de patrocínio através de leis de incentivo à cultura?

JP – Bom, eu acho que o cinema brasileiro, o teatro brasileiro e uma boa parte da música brasileira não existiria sem o incentivo à cultura. Isso é um fato, por vários motivos. De modo que, como eu gosto da cultura, eu gosto de ver show de música, eu gosto de ir ao teatro e gosto de ir ao cinema, eu sou a favor do incentivo.

Essa realidade da impossibilidade econômica de uma atividade – no caso a cultura – em determinado lugar, não é uma realidade única do Brasil. A cultura, o cinema, por exemplo, é incentivado na França, é incentivado na Inglaterra. Ele é incentivado no mundo inteiro, com exceção dos Estados Unidos e da Índia. O mundo inteiro, ou a maior parte dos países que têm cinema, têm cinema porque fez uma opção pelo incentivo fiscal. Eu sou favorável ao Brasil ter cinema. Acho que é importante para o Brasil ter cinema. Acho que o cinema faz mais do que gerar emprego. O cinema catalisa, ou pode catalisar, discussões importantes na sociedade. O cinema é entretenimento, que é importante. E o cinema exporta uma cultura, né? Cinema é mais do que parece. Eu acho importante o Brasil ter cinema. Acho que o Brasil não está pronto para ter cinema sem (a lei do) Audiovisual. Acho que não consegue fazer isso. Não é possível fazer isso. Então assim, a Lei do Audiovisual tem que continuar.

Qual é o modelo correto para o incentivo fiscal? Eu não acho que o modelo que está aí seja ruim. Pelo contrário, eu acho até que ele tem grandes méritos. Por exemplo, a ANCINE, que é a agência de cinema, avalia os projetos do ponto de vista orçamentário, do ponto de vista jurídico. Ela faz um trabalho que eu acho fundamental, que é analisar se o sujeito prestou contas. Se usou o incentivo fiscal direito ou não. Porque a gente tem aí na história do cinema brasileiro desvios nesse sentido. Ela empresta seriedade no processo. Então, isso é bacana. E ela não analisa o conteúdo do projeto. A ANCINE não reprova o projeto porque ele está falando A, ou B, ou C. O que é muito bom, muito bom! Porque o cineasta faz e se exprime da forma como ele quiser, né? O cinema brasileiro é verdadeiramente independente.

Eu vou a muitos festivais no mundo inteiro. Eu já participei de alguns painéis de festivais. Participei em um painel em Sundance sobre o cinema independente americano. Quando eu expliquei lá como é que funcionava o cinema brasileiro, felicidade geral. A felicidade das pessoas foi absurda, “Vocês são muito felizes, porque eu para fazer um documentário eu tenho que discutir com o canal que está financiando, eu tenho que fazer no modelo deles, eu não posso dizer isso, eu não posso dizer aquilo”. Ou seja, o Brasil tem um modelo muito para o cinema independente. Eu gosto.

Existem ajustes possíveis a serem feitos nesse modelo, para tornar ele melhor? Existem. É possível melhorar, mas é perigoso também mexer. Por exemplo, uma ideia do tipo: “Vamos concentrar o incentivo fiscal numa entidade pública e ela vai decidir que filme é feito?” eu acho péssimo. Eu prefiro que o empresário, que tem imposto a pagar, decida o filme a ser feito, do que, sei lá, a Embrafilme, entre-aspas, certo? Porque aí vira uma questão de a cultura que é feita é a cultura que o Estado decide que deve ser feita. O que é péssimo. Todas as sugestões que são feitas no sentido de melhorar o Audiovisual, que passem por um controle Estatal do conteúdo, para mim são piores do que agora.

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Entrevista – José Huerta (diretor do doc “Uma Semana Em Parajuru”)


“Uma Semana Em Parajuru”: disponível na íntegra para assistir, só clicar

No litoral do Ceará, a vila de pescadores de Parajuru vive um momento delicado, tentando descobrir como progredir e conseguir melhorias estruturais sem perder a sua própria cultura.

Tendo a cidade como pano de fundo, o documentário “Uma Semana Em Parajuru” fala do loteamento de praias e reservas ecológicas para construção de empreendimentos imobiliários estrangeiros, prática tão comum no norte e nordestedo Brasil. Mostra também brasileiros trabalhando em situações, no mínimo, questionáveis.

Sensibilizados pela mortandade de golfinhos japoneses, os principais jornais e revistas do Brasil falaram bastante do documentário vencedor do Oscar “The Cove”. Mesmo tendo sido exibido no maior festival de cinema do país, o Festival do Rio, em 2009 (com uma sinopse pouca sedutora), e no FAM (em Florianópolis), pouco se falou do documentário. Na grande mídia, nada.

Como isso foi acontecer, é incompreensível. Ninguém deve ter assistido, só isso explicaria o filme ter sido ignorado dessa forma. Fui saber do filme seguindo a dica do casal Felipe Schuery e Clarice Ramalho, direto da França.

Realizado por um espanhol, casado com uma brasileira que mora em Paris, “Uma Semana Em Parajuru” é revelador. Ao se conhecer melhor o caso da vila de pescadores, descobre-se que o aparente marasmo da vida praiana esconde bastante coisa.

A abordagem lembra a do sensacional “Pesadelo de Darwin” (“Darwin’s Nightmare”), filme que mostra os efeitos sociais e ambientais da introdução de um peixe da espécie “Perca do Nilo” no Lago Vitória, na Tanzânia, pertubando o sensível ecossistema com o objetivo de gerar lucro financeiro.

No caso de Parajuru, um grupo austríaco, liderado por uma mulher chamada simplesmente de Gesi, adquiriu terras no local para construir um complexo hoteleiro.

Com o propósito de gerar mão de obra para uso próprio, eles oferecem cursos de línguas e hotelaria, além de oferecerem terras para venda no exterior, colaborando ativamente com especulação imobiliária que descarteriza o local. Participantes do programa pagam pelo ensino com o próprio trabalho e, quando terminam, recebem muito pouco.

Entre delírios de um político deslumbrado que acredita que o brasileiro “não é colonizável” (mas deseja uma ópera e uma orquestra sinfônica), imagens de um pescador idoso em situação degradante, relegado a ser o “bêbado da praia” em Canoa Quebrada (exemplo de turismo sem planejamento), uma das cenas mais impressionates é a de um local matando uma cobra a pauladas — algo que ele provavelmente não faria — simplesmente para deixar a vontade estrangeiros tocando flauta e sanfona.

A força de pescadores locais, ainda bem, vem se fazendo valer. Organizados, esclarecidos e extremamente educados — certamente legado da mesma cultura e costumes locais que tentam agora defender — eles lutam para verem suas casas invadidas sem ter direito de opinar.

O que se vê no doc é uma violência cultural violenta. Uma forma de turismo agressiva que, apesar de se fazer preocupada com o bem estar da população, está interessado apenas em impor a suas regras e métodos.

É um filme importante, que qualquer documentarista gostaria de ter feito. Felizmente, alguém fez.

Muito mais intrigado com o fato desse filme não ter tido nenhuma repercussão no Brasil do que curioso sobre detalhes técnicos da produção, procurei o diretor José Huerta para uma entrevista por e-mail, em português.

URBe – Qual sua relação com o Brasil? Vive ou já viveu aqui? Quantas vezes esteve no país?

José Huerta – Minha história com o Brasil começa em 1987. Depois de meus estudos em educação, queria ter uma experiência fora da França. Uma ONG francesa (Enfants Réfugié du Monde) me propôs a coordenação de um projeto social numa favela em Fortaleza, o Buraco da Jia.

O projeto era o de construir uma creche comunitária para as crianças da favela, pois tinha uma fábrica de castanhas ao lado da comunidade e as mães que trabalhavam nesta fabrica não tinham uma solução para a guarda das crianças. A gente formou um grupo de mulheres nas áreas da saúde, educação e administração. A creche era totalmente autogerida.

Eu fiquei um ano. Essa experiência foi fundamental na minha vida. Conviver com a comunidade, foi essencial na minha formação intelectual. A humanidade das pessoas, a luta para a sobrevivência, a diversidade cultural do Brasil me ajudou muito para ver o mundo na sua complexidade. Até hoje essa experiência serve para meu trabalho de cinema. O respeito, a luta e a humildade.

URBe - Como surgiu esse documentário? Você estava vivendo em Parajuru?

José Huerta -Minha relação com o vilarejo de Parajuru remonta a 1996, por ocasião do casamento de uma amiga brasileira muito próxima, que praticamente cresceu em Parajuru, pois seus pais são proprietários de uma casa de veraneio. Fui padrinho deste casamento e, a partir de então, passei a freqüentar o vilarejo com uma certa regularidade. Após mais de 10 anos deste encontro com Parajuru, esta amiga me sugeriu que eu comprasse uma pequena casa ao lado da sua.

URBe - Quem financiou o filme?

José Huerta -O produtor é francês (Jour J Productions). O filme foi produzido pelo canal Images Plus,RFO (televisão publica) e o Ministério da Cultura francês.

URBe – O filme se chama “Uma semana em Parajuru”. Foi realmente filmado nesse tempo, durante uma mesma viagem? Quanto tempo você ficou na cidade?

José Huerta - Não, o filme foi rodado durante um mês. A estrutura da semana é uma estrutura narrativa.

URBe - Como você chegou `a história da especulação imobiliária e da exploração da força de trabalho?

José Huerta - Quando comprei a casa no vilarejo, muita gente comentava a presença da Gisi. Ninguém sabia exatamente o que era o projeto dela a longo prazo. Se dizia que nunca houve uma reunião para informar a população. A comunicação do projeto era direcionada unicamente sobre o lado social: escola para as crianças, capacitação do jovens na área da hotelaria. Escutava-se muitos comentários, mas havia pouca informação.

A idéia do filme surgiu em 2007, após um estada de um mês em Parajuru. Achei interessante fazer um retrato do vilarejo, que estava vivendo uma mutação econômica, social e cultural. Não tinha a menor idéia do que descobri depois com a fala dos entrevistados. Foi durante as rodagem, as pesquisa e as entrevistas do povo de Parajuru que percebi que tinha alguma coisa de errado ali.

Inclusive, comecei as rodagem com o projeto social da Gisi. Lembro que fiquei uma semana seduzido pelo projeto. Depois fiz outras entrevistas com o povo, com os jovens que se afastaram do projeto, com Chico Mariano (o presidente da associação dos produtores de Parajuru), e a história da barraca do kite surf. Isso revelou que o projeto era uma fachada que escondia algo maior, uma operação de especulação imobiliária.

URBe - Como você conseguiu ter acesso aos entrevistados? Eles sabiam qual era a sua intenção com o filme?

José Huerta -Minha idéia desde o inicio era de fazer um retrato completo: histórico, cultural, econômico e político. Sempre fui bem claro sobre isso e o filme aborda muita coisa sobre todos esses aspectos. Na época eram as eleições dos vereadores e acabei filmando a campanha do atual prefeito. Todo mundo sabia o que eu estava fazendo, porque ia por todos os lados filmar.

Era claro que queria filmar a mutação de Parajuru e que a presença dos austríacos era importante. No meu trabalho tento sempre deixar o entrevistado falar, nunca sou eu quem domina as falas, porque isso poderia influir nas resposta de um entrevistado por exemplo. Prefiro dizer o mínimo durante o trabalho.

Neste caso, a decisão de focalizar o projeto turístico foi decidido na sala de edição. Os fatos e os testemunhos eram tão fortes que não dava para fazer de outro jeito. Essa decisão foi tomada junto com o produtor e o canal de TV (RFO).

URBe - Quais as condições de trabalho dos habitantes de Parajuru que fazem parte do programa da Gisi? No filme não parece trabalho forçado, mas a idéia que passa é de que a Gisi oferece educação apenas para gerar mão de obra qualificada pra ela mesma. Os entrevistados falam que os salários pagos são muito baixos (150 euros) em relação ao faturamento do hotel. Alguns falam que não receberam salário durante muito tempo, tendo sido dito que os cursos oferecidos (línguas, hotelaria) custavam caro e que o trabalho deles custeava isso.

José Huerta -O que está colocado no filme é a experiência de cada um com o projeto. Pelos relatos, muitas pessoas trabalhavam a titulo de formação e esta formação consistia muitas vezes em trabalhar no hotel em troca do curso de hotelaria e do curso de língua. Quanto ao valor real dos salários pagos, só podemos saber o que as experiências puderam nos contar.

E o trabalho feito no Hotel da Áustria? [NE: Gisi também tem hotéis no país] Qual o estatuto desse trabalho? Não coloquei nada no filme sobre esse assunto porque não tenho documentos que atestem as condição exatas de viagem para a Áustria, mas sabemos que alguns jovens viajaram com vista de turismo e alguns foram barrados pela policia da imigração na Europa.

No comentário do filme, tive o cuidado de não afirmar coisas que não possuo provas ou que não tenham sido ditas em entrevistas. A finalidade do comentário é de servir de guia para facilitar a compreensão do espectador e, as vezes, o artifício de colocar questões serve como saída reflexiva para o filme. No meu comentário, acho que não tem nenhuma denúncia explícita. Isso faz parte de minha ética.

O filme foi feito para ajudar a preservar a beleza do vilarejo e sua cultura. Uma rejeição da população seria um desastre para mim. Não foi o caso, graça a Deus, foi o contrário. Acho que nunca tive tanta prova de afeição como ultimamente. Talvez porque eles saibam o que eu estou sofrendo. Não sei, mas fiquei com mais confiança para o futuro.

URBe - Muitos dos entrevistados falam abertamente sobre o assunto, mesmo trabalhando para o hotel. Isso me fez pensar que talvez eles tenham identificado você e sua equipe como “gringos”, parte da turma da Gisi, e não se preocuparam em esconder nada. Estou correto?

José Huerta - Como falei, pedi a autorizarão para filmar, disse que queria fazer um retrato de Parajuru e que era importante filmar o projeto deles. Eles aceitaram. Depois percebi que era estranho porque minha filmografia esta toda na internet com acesso aberto todos. Até dei uma copia de 2 filmes que fiz para um austríaco envolvido no projeto deles. Era sobre a questão da reforma agrária no brasil e outro sobre a luta das comunidades vitimas da poluição dos rios pelas barragens. Acho que ele não viu. Hoje ele não fala mais comigo.

URBe - A Gisi já assistiu ou sabe que o filme existe? Qual foi a reação dela?

José Huerta - Durante a filmagem, eu me comprometi a organizar uma projeção do filme no vilarejo. O que foi feito em abril de 2009, e que contou com a presença dos moradores que vieram em grande número, alguns turistas, a elite local, assim como com os representantes dos investidores austríacos. A Gisi não estava em Parajuru nessa época.

Após esta projeção, a reação dos investidores austríacos foi a de dar queixa na delegacia de polícia. Uma queixa que, na ocasião, foi julgada desmedida por sua ausência de motivo criminal. Não se contentando com o BO registrado, os empresários enviam a minha casa um tabelião responsável por me transmitir uma notificação extrajudicial, que pretendia interditar a difusão do filme; isso, mesmo reconhecendo haver consentido e dado autorização para a filmagem.

URBe - Por que A Gisi não fala no filme?

José Huerta -Ela nunca quis e não sei porque.

URBe - Já visitou os hotéis da Gisi na Áustria?

José Huerta -Não, nunca fui.

URBe - Qual foi a reação da população de Parajuru?

José Huerta -As pessoas que assistiram a projeção do filme aplaudiram muito no final. Depois teve uma certa tensão pois a população ficou dividida. Uns pensavam que tive coragem de mostrar a realidade de Parajuru. Como uma pessoa falou: “você colocou o dedo na ferida”. Outros achavam que os investidores austríacos traziam emprego para o Parajuru e que isso era positivo.

Entendo esse tipo de argumento. A população precisa de trabalho. Hoje as opiniões estão mudando devido as noticias que vem da Áustria. Um dos principais investidores parece que esta implicado numaaffaire de corrupção. O povo esté vendo que o filme estava, infelizmente, ainda aquém da realidade.

URBe - Como os políticos locais receberam o filme?

José Huerta -Não teve relação com os políticos, fora um vereador de Parajuru que fala rapidamente no filme. Ele ficou um pouco chateado, porque pensou que o filme dava uma imagem negativa de Parajuru. Não teve agressividade local.

URBe - O Nordeste, principalmente as menores províncias, é conhecido por seus “coronéis”. Que tipo de problema você enfrentou em relação as pessoas que mandam na cidade ao fazer esse filme?

José Huerta -Realmente, não teve nenhuma dificuldade para fazer esse filme. Os problemas chegaram depois da projeção em Parajuru, em abril 2009.

URBe - Você já esteve de volta `a cidade após o filme?

José Huerta - Voltei em dezembro com um pouco de apreensão no início, pois o mais importante para mim era conservar a relação que tenho com a comunidade. Isso é sagrado. Tenho uma relação de amor com Parajuru. O filme é menos importante que tudo.

URBeO filme foi já foi exibido em algum canal de televisão?

José  Huerta – Por enquanto, só na França, infelizmente. Passou no canal France Ô, em abril e agosto 2009, quatro vezes. No canal Images Plus duas vezes, acho, em Abril.

URBe - Quais são os processos que você cita no final do filme?

José Huerta -No final de abril de 2009, oito processos foram impetrados contra mim, onde um deles seria mesmo de natureza criminal. De volta a Parajuru em janeiro 2010, recebi as notificações dos oito processos. Contratei então um advogado, já tendo o processo criminal uma audiência fixada para o mês de maio.

Os fatos de que sou acusado portam essencialmente sobre a acusação de que o filme teria um propósito difamatório. Eles se baseiam mesmo no termo “exploração de trabalho escravo”, expressão que sequer figura no filme. Segundo eles, eu teria feito esta afirmação em uma entrevista dada na ocasião do Festival do Mercosul, em Florianópolis.

Estes termos foram efetivamente reproduzidos num artigo publicado no site do festival, mas afirmo jamais tê-los proferido. Infelizmente, a entrevista não foi gravada, mas um professor da universidade que estava presente no momento da entrevista se comprometeu a testemunhar para confirmar minha versão dos fatos.

Os processos são movidos por algumas pessoas presentes no filme ligadas ao projeto dos investidores austríacos, por Fred (responsável econômico do projeto), Isaura (esposa de Fred, responsável pela escola), por alguns alunos que trabalham no hotel e pela Associação beneficente Gisele Wisniewski.

Por exemplo, o jardineiro do hotel, que aparece apenas alguns segundos no filme, sem sequer dizer uma palavra, demanda por calúnia e difamação, uma quantia equivalente a 6 mil reais. Ao total, o pedido de reparação da dita calúnia e difamação, chega a 150 mil reais aproximadamente. Acrescente-se a isso, os custos com meu advogado, algo em torno de 13 mil reais.

Fica claro para mim que todos esses processos são para fazer pressão para impedir a difusão do filme.

URBe - As leis brasileiras de direitos autoral e cessão de imagem são bastante rígidas, inclusive para documentários, “fair use” é uma realidade distante. Como essas questões foram resolvidas?

José Huerta -Ainda não foram resolvidas.

URBe - O filme é de que nacionalidade? Pergunto pelo seguinte motivo: ao não considerar esse um filme brasileiro, muda o tipo de questões legais envolvidas? Facilita?

José Huerta -O filme é Francês. Não sei como ficam as coisa no Brasil. De qualquer modo os processos existem e tenho que me defender. Uma linha de defesa vai ser a de pedir a ilegitimidade dos processos. São questão jurídicas que não domino infelizmente.

URBe - Vi que o filme passou no Festival do Rio. Você estava na sessão?

José Huerta -Não, infelizmente.

URBe - Qual foi a repercussão do filme, principalmente no Brasil? A não ser que o filme tenha um título em português completamente diferente do original, mesmo em buscas cruzadas não encontrei nenhuma resenha, crítica ou comentários sobre o filme.

José Huerta -Primeiro na França se produz mais de 2 mil documentários por ano. Tem muitos canais e na época da difusão na TV eu estava no Brasil e meu produtor não fez nada para a promoção do filme. Depois quando soube dos processos, não fiz nada e esperei ter mais informações jurídicas sobre os meus diretos…. Esperei as notificações dos processos também para ver do que se tratava. De uma certa maneira, conseguiram o que eles queriam, impedir a divulgação do filme.

Hoje, a situação é diferente. Com todos os elementos, sinto a legitimidade de me defender. Na área da justiça e na área social (para não dizer política). Os fatos recentes vem reforçar minha posição e demonstra que o filme estava ainda aquém da realidade.

A escola do kite surf está embargada pelo IBAMA. Em julho, o IBAMA além de uma multa de 15 mil reais, pediu a destruiçao da escola que está construída em uma área de preservação permanente. Paralelamente a isto, em setembro de 2009, um escândalo de desvio de dinheiro público veio à tona na Áustria, e a surpresa: este escândalo implicava um dos investidores do projeto de negócios instalado em Parajuru, Peter Hochegger, próximo a Gisele.

Segundo a justiça austríaca, ele estaria implicado no desvio de 9,5 milhões de euros em um affaire de venda de imóveis pertencentes ao governo austríaco: o Buwog-Affäre. O ex-ministro de finanças austríaco é um dos outros implicado segundo a impressa.

Um jornal austríaco Wirtschaftsblatt.at (em 15/02/2010), afirmou que 1,6 milhões de euros de Peter Hochegger foi investido em Parajuru, com a construção de um imenso condomínio, compra de terras (80 hectares) e com o controle de 25% do capital da empresa austríaca que gera os negócios em Parajuru.

Toda essa situação vai levar o filme a ser divulgado mais uma vez nas TV, com debate ao vivo. A campanha de apoio ao filme começou agora, mas já tem inúmeras ONGs que vão apoiar na França, assim como no Brasil. De uma certa forma, os processos impulsionaram a publicação do filme.

URBe - Como você pretende distribuí-lo? Pensa em disponibilizar para download gratuito? Foi você mesmo quem o colocou no DailyMotion?

José Huerta - Sim, mas isso depende de acordo da produtora que é detentora dos direitos sobre o filme.

Colocamos na página do DailyMotion mas foi uma decisão junto com o produtor. Aqui na França, é o produtor que é responsável de tudo.

O filme foi enviado para a TV Cultura e para a TV Brasil, mas acho que o produtor não obteve resposta. Mesmo com a importância do filme, não tem sido fácil entrar no universo da difusão no Brasil. O filme também foi mandado para a TV na Áustria, mas não obtivemos resposta ainda.

URBe - Quem é Vivi, para quem você dedica o filme no final? É alguém que você conheceu por lá e o motivo de você ter feito essas denúncias?

José Huerta -Não. é minha esposa brasileira que amo tanto e a gente espera um neném em breve.

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Entrevista – Ana Garcia (Coquetel Molotov)


Ana Garcia com os sócios Tathianna Nunes e Jarmeson de Lima

Nesse final de semana acontece a Mostra Instrumental Contemporânea, na Caixa Cultural Rio de Janeiro (Teatro Nelson Rodrigues, Centro). A programação está bem legal (sempre as 19h30 e grátis):

12 de março (sexta): 19h30: Caldo de Piaba (AC) e Binário (RJ)
13 de março (sábado): A Banda de Joseph Tourton (PE) e Guizado (SP)
14 de março (domingo): Fossil (CE) e Elma (SP)

O festival é organizado pela Coquetel Molotov (produtora de Recife com desdobramentos em saite, selo, rádio, revista…). Ana Garcia fala um pouco da produtora e conta porque demorou tanto tempo até fazer algo no Rio.

O que é o Coquetel Molotov?

O Coquetel Molotov é uma produtora de Recife que realiza um programa de rádio, revista, site, selo e festival de música. Também realizamos outros projetos, como a Invasão Sueca, estamos preparando para trazer o Transmission, do Canadá, em novembro e assessoria de alguns eventos como o Rec-Beat, Virtuosi.

Fechamos esta semana a assessoria nacional da Conexão Vivo! Recentemente abrimos uma agência chamada Na Estrada com alguns dos nossos artistas favoritos, como A Banda de Joseph Tourton, Thiago Pethit, alguns projetos de Jam da Silva e outros artistas que ainda estamos tentando fechar. O novo site do Coquetel Molotov deve entrar no ar em breve com todas essas infos, mas por enquanto podem acessar www.coquetelmolotov.com.br que tem o nosso podcast, revista on-line, entrevistas, etc.

Quais os principais eventos organizados por vocês?

O festival No Ar Coquetel Molotov, que normalmente acontece em setembro no Teatro da UFPE, que já teve entre os seus convidados artistas como Beirut, Teenage Fanclub, Sebastien Tellier, CocoRosie, Tortoise, Hurtmold, Artificial, Chambaril, entre muitos outros.

A Invasão Sueca também é um projeto importante que existe há mais de quatro anos. Através do apoio do Swedish Institute, conseguimos armar turnês por diversas cidades brasileiras, com artistas como Peter Bjorn and John, El Perro Del Mar, Jens Lekman, José González, Love is All, Shout Out Louds e outros.

Mas estamos sempre armando turnês com artistas diferente de lugares diferentes, como a Laetitia Sadier (Stereolab/Monade) que acontece no final de abril.

Porque demorou tanto tempo para o Coquetel Molotov chegar ao Rio?

Eu acho o Rio uma das cidades mais complicadas para armar um evento ou até incluir dentro de uma turnê de uma banda pequena/médio porte. Temos mais facilidade de chegar aos interiores de São Paulo ou Porto Alegre, ou até mesmo ao Chile e Argentina, do que no Rio de Janeiro.

Acho que falta um produtor que invista no tipo de música que estamos tentando trabalhar e consiga formar um público, casa realmente interessada, apoiadores. Estou na esperança que Alex Werner (ex-empresário do Los Hermanos) possa tomar este posto! Hahaha!

Mas chegamos a fazer uma edição da Invasão Sueca no Teatro Odisséia que foi um sucesso, mesmo com ingressos tão caros! Fiquei impressionada. Ah, não posso esquecer que o Circo Voador sempre leva um ou outro artista do No Ar, como já aconteceu com o Nouvelle Vague e Sebastien Tellier.

Fiquei sabendo que o Grito Rock do Rio foi bem legal, no Circo Voador, com 2 mil pessoas. Obviamente público não falta.

Então, ficamos muito animados quando a Caixa Cultural aprovou o nosso projeto “Música Instrumental Contemporânea”! Muito bom poder invadir a cidade com bandas fodas, instrumentais, que normalmente não tocam na cidade, em um teatro com entrada gratuita. Não daria pra ser mais perfeito!

Como anda a cena no Recife? Tem apoio? Aqui no rio o papo é sempre que nada sai do lugar porque ninguém apóia, nem de empresas nem o publico.

Recife tem duas leis de incentivo à cultura, estadual e municipal, que ajudam bastante a cena independente, e não apenas música, mas literatura, cinema, artes plásticas, etc. O grande desafio é conseguir apoio privado e acho que o Coquetel Molotov aprendeu a fazer isso bem, não sei exatamente o porquê. Talvez insistência.

Somos praticamente um dos únicos festivais da cidade que consegue agregar algumas marcas que realmente dialogam com o festival, como aconteceu no ano passado com a Vivo, como também a Trident, Red Bull, AESO. A maior dificuldade no Recife é conseguir patrocínio através da Lei Rouanet já que todas as grandes empresas não pagam imposto de renda na cidade e sim em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Eu gosto muito de trabalhar com Recife, é um desafio e por algum motivo as empresas e o público estão abertos a novidades. Talvez porque existam poucas pessoas na cidade fazendo o que estamos fazendo… Também não estamos com pressa… Eu espero o que for preciso para convencer que uma empresa deveria investir nas nossas empreitadas.

O que mais esta programado para 2010?

Estamos fechando o festival No Ar neste momento, pensando nas datas e nos artistas, como também a Invasão Sueca e o Transmission. Esperamos criar uma certa periodicidade com a nossa revista, que no momento depende sempre de verba e tempo para uma nova edição ser lançada, como também transformar o nosso programa de rádio em um programa diário (no momento é semanal). Estamos bem animados com o lançamento do disco da Joseph Tourton, que deve acontecer em setembro, com patrocínio da Petrobrás.

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Entrevista – Fabio Lopez

O designer Fabio Lopez ficou conhecido em 2007, quando divulgou na internet uma de suas criações, uma polêmica adaptaçnao do jogo “War” chamada “War In Rio”, e viu seu nome aparecer em tudo quanto é jornal. São dele também os Pictogramas Cariocas Rio 2016 e a Batalha Na Vala.  

Nunca havia converado com o Fabio. Autor de dois dos cartazes do hexa do Flamengo publicados por aqui. Isso até “No Sapatinho We Can” (a já clássica versão do pôster de Shepar Fairey com  o técnico Andrade no lugar de Obama) ter parado na capa da Globo.com (que citou o URBe como fonte) e descobrirmos uma tonelada de amigos em comum.

Nesse papo informal por e-mail ele contou histórias dos bastidores da repercussão do “War In Rio”, assunto que ele costuma abordar em sua palestra “Minhas Idéias São Minhas Putas”.

O jogo não é novidade, porém o tema, infelizmente, continua atual. Além disso, é importante registrar o processo pelo qual o Fábio passou e a proporção que seu trabalho inesperadamente tomou. Pedi então pra publicar essa conversa e ele autorizou.

Como não foi uma entrevista propriamente dita, separei os assuntos em tópicos.

Reações ao “War in Rio”

Fábio Lopez – Ainda recebo e-mails de gente pedindo o tabuleiro ou perguntando onde encontra pra comprar. A maioria dessas mensagens ficou sem resposta, pela falta de tempo e porque eu acho que não entenderam exatamente a essência do projeto. Por outro lado, outros me contactaram elogiando a iniciativa ou contando histórias relacionadas à violência. Com essas eu troquei mensagens interessantes sobre segurança pública, sobre a função do design como instrumento de crítica social e outras iniciativas parecidas. Acompanhei opiniões em blogues e na própria página do projeto sem editar nada. Queria ver como as pessoas estava reagindo ao projeto.

A polícia e o “War in Rio”

Fábio Lopez – Teve um episódio com um soldado do BOPE que foi foda. Havia um parágrafo no texto do blogue em que eu me referia a PM e ao BOPE como ‘marginais do bem’. Então um sujeito escreveu dizendo que tinha se amarrado no projeto e tal, mas queria fazer uma observação muito séria. E começou a dizer em letras garrafais que ‘marginal do bem é o CARALHO’, que o BOPE se mete na lama pra enxugar gelo enquanto playboy que nem eu vai pra festinha fumar maconha, e encerrou assinando ‘CAVEIRA’ (!!!).

Como eu não sabia que merda ia dar aquilo tudo – isso rolou nas primeiras três horas de repercussão – fiquei bolado e removi o parágrafo, sem deixar de responder a mensagem do cara e questionar o tom dos comentários. Fiz isso também pra sacar se o cara era um combatente mesmo ou era apenas um maluco querendo dar uma escrotada.

A conversa por e-mail tomou um rumo mais civilizado, o cara passou a assinar o próprio nome e escreveu de maneira bem mais respeitosa. Eu também pude me colocar melhor em relação ao projeto e a gente seguiu trocando ideia: acabei entrando em contato com um personagem do tabuleiro a partir de um esbarrão completamente inesperado. Era um ‘caveira’ mesmo, um cara da minha idade, de classe média e mestrando que nem eu (na época), só que trabalhava no CORE combatendo marginais de 15 anos armados com fuzis de guerra e artilharia anti-aérea. Por que? Por que o cara acreditava que alguém precisava fazer isso pra barbárie não dominar a cidade do Rio de Janeiro, e aceitava o sacrifício para preservar uma sociedade na qual ele parecia estar cada vez mais desacreditado.

No momento em que me escreveu eu simbolizava pra ele um sujeito criativo, mas pertencente a raça de hipócritas pelos quais seus companheiros morriam gratuitamente (ele estava transtornado por ter perdido um parceiro alvejado num helicóptero na semana anterior). Depois viu que eu era um cara politizado, consciente e que estava usando o projeto pra discutir um assunto importante. Teve a hombridade de reconhecer o exagero, e desejou que eu continuasse, à minha maneira, lutando pelo que acreditava. Desejei o mesmo. Volta e meia releio aquelas mensagens e respiro fundo, refletindo sobre a brutalidade daquele cotidiano de guerra e sobre as palavras de apoio que trocamos.

Confesso que fiz bem em tirar esse trecho sobre as milícias, por que havia incluído as MILÍCIAS como ‘marginais do bem’ e umas três pessoas questionaram essa afirmação. Eu concordei com elas. É que na época havia pouca informação sobre a atividade marginal das milícias – que estourou junto com a violência nos dois anos seguintes. Por isso a ‘censura’ acabou servindo pra preservar o texto do projeto de um equívoco verdadeiro.

Responsabilidade surgidas com o projeto

Fábio Lopez – A ideia inicial do projeto era um questionamento social profundo? Não, não era. Mas a ideia era atingir as pessoas em cheio, e estava acontecendo. O projeto nasceu, cresceu e virou um monstro, e eu fui obrigado a assumir um papel diferente como autor. Não comercializar, não distribuir, não tratar como brincadeira o que era uma realidade escrota pra muitos – e a paródia acabou virando um manifesto de verdade.

Conhecendo o tabuleiro

Fábio Lopez – Outro episódio marcante foi quando apresentei o projeto numa mini-palestra na escola de artes visuais Kabum! Uma amiga trabalhava lá na época (Mariana Aurélio) e me chamou pra apresentar o projeto pros alunos. Porra, eu sabia que ela dava aula pra uma molecada vinda de comunidade carente, e achei que ela estava me desafiando. Algo do tipo: quero ver se tu tem coragem de trazer essa merda pra cá ou se tua parada é fazer piadinha pra televisão (o projeto mexeu muito comigo, e eu fiquei muito tocado pelas questões morais que envolvia). Então eu tinha que ir, ou seria um rato pra mim mesmo – mas foi foda.

Na Kabum! eles trabalham com garotos indicados por outros programas sociais (uma garotada que manda bem, se destaca e ganha a oportunidade de aprender mais) e com uma galera que eles chamam de borderlines, cuja participação simboliza a ultima chance de reintegrar meninos que estão a um passo da marginalidade. (Eu conhecia a escola, mas não conhecia esse detalhe). Então lá fui eu, com o desafio de apresentar um projeto que trazia representado no mapa a casa de quase todos ali.

A primeira reação dos meninos foi achar divertido encontrar o nome de suas comunidades no tabuleiro. Achei isso muito estranho: eu tava falando de guerra, mas eles ficaram felizes simplesmente por existir no mapa. Entendi o sentido humano da expressão ‘comunidade carente’, e tive alguma ideia do que é morar num lugar ignorado pelo Estado.

Então comecei a falar de design gráfico, de projetos pessoais, explicar porque eu tinha feito aquilo, quais os meus motivos, qual a minha revolta… Aos poucos eles foram baixando a guarda (não era um playboy zoando com a gente) e comecei a escutar as histórias deles também: de um BOPE que entra na favela metendo o pé na porta, de policial fazendo merda, de parente executado, de tiroteio na hora da escola… Viver no front é um inferno que a gente não faz ideia.

A turma sentava meio dividida, e levou mais tempo pra metade ‘borderline’ confiar em mim: ali ninguém tinha visto porra nenhuma na internet, não conhecia War, blogue e o escambau. Foi tenso, mas acho que no final eu consegui romper uma barreira social óbvia que nos separava, e acho que eles ganharam alguma coisa com as minhas palavras também.

Conversei com a Mariana, e ela disse que não tinha me chamado por desafio nenhum – e eu percebi que precisava descansar daquela história. Eu tava sendo consumido por todas as questões que o projeto arrastava: saí e tive vontade de tacar o jogo no canal do mangue, como se isso fosse resolver alguma coisa.

Os desafios morais

Fábio Lopez – A maioria das pessoas que lembra do “War in Rio” associa o projeto ao oba-oba, a fama repentina, e ao sucesso de um jogo que circulava loucamente pela internet. Mas as pessoas não tem muita ideia do quanto foi difícil manter a integridade moral diante de tanta merda que eu podia ter feito ou falado com aquele projeto debaixo do braço. Eu tive a sorte de ser escutado naquele momento e precisei assumir a responsabilidade de passar uma mensagem positiva: era isso ou ficar marcado pra sempre como ‘o babaca do War in Rio’.

Relação com a imprensa

Além dessas histórias, leve em consideração o caos pessoal de um dia estar em casa na encolha, e no dia seguinte estar sendo solicitado por todas as emissoras de TV aberta, seis jornais, revistas e etc.

Por sorte, na época, eu namorava uma menina que era do meio jornalístico, e ela sugeriu que eu me preparasse pra ser intensamente consumido pela notícia e logo depois descartado. Para que me preparasse psicologicamente pra esse abismo. A fama instantânea traz prestígio, mas isso some com a mesma rapidez. Ela também me orientou a tratar os jornalistas com educação e muita paciência, mesmo se fizessem as perguntas mais idiotas do mundo – e fizeram – pois no dia seguinte a palavra final é deles. Para tomar cuidado com tudo que eu dissesse, e mesmo assim eu vi entrevista editada e foto substituída pra moldar meu perfil de acordo com a repercussão do projeto.

Vi editor de jornal grande ir atrás das autoridades de segurança do Estado com o microfone na mão, pra captar opiniões absurdas em relação a notícia que eles haviam publicado. Acordei com a manchete ‘Autoridades abrem fogo contra War Tropa de Elite’ e tive medo. Um repórter da TV perguntou se eu queria algum efeito de distorção na minha cara: eu disse que não tinha feito nada de errado e não tinha porque me esconder. Mas nessa manhã eu achei que estava perdendo o controle da situação e desmarquei uma entrevista já dentro do carro da emissora. Percebi que a ideia da jornalista era fazer piada com a parada, e depois quem ia levar fumo era eu. Expliquei isso pra equipe e eles mudaram a pauta, na hora e literalmente nas coxas da repórter.

Ainda assim, me recusei a sorrir nas fotos e nas gravações com medo de virar alvo fácil de patrulheiros morais – a ponto da minha vó de 90 anos reclamar que eu estava sério demais, rs… Dei uma entrevista ao vivo pra uma rádio agachado embaixo de uma mesa na redação da RedeTV (por conta do barulho), e todas as perguntas diziam respeito apenas aos comentários do secretário de Segurança do Estado. Não dei entrevista em casa pra ninguém mostrar que eu não morava na favela, e tive que tomar cuidado pra ninguém me filmar ou fotografar com a carta ‘eliminar o Comando Vermelho da cidade do Rio de Janeiro’, por que minha mãe sonha um dia em ter netos, rs…

Recebi e-mail de apoio de gente que eu admirava pra caralho, e de gente que resolveu dar uma surfada na onda pra se promover com o jogo. Vi advogado conceituado escrevendo artigo sugerindo que eu processasse o secretário Beltrame por ter me acusado de estar fazendo apologia à violência, e também ouvi o Chefe da Polícia Civil dizendo que nunca tinha jogado War na vida. Dei entrevista ao jornal da Globo com uma camisa da Esdi, e recebi a ligação carinhosa do diretor da escola. :)

Resultados profissionais

Não ganhei um centavo direto com esse projeto: sabia das questões legais que isto envolveria e não quis assumir o passivo moral de vender um jogo que banalizava o problema da violência na cidade – isso era exatamente o que eu NÃO queria fazer. A outra questão é que eu jamais poderia imaginar o que estava por vir, e não tinha como estar preparado para o interesse comercial que o trabalho despertou. Era pra ser daquele jeito.

Profissionalmente o retorno foi bastante positivo. Com os colegas designers a repercussão foi bem mais duradoura e consistente, como se eu tivesse conquistado uma pontinha de admiração eterna – e isso é muito melhor que escutar um elogio desconhecido de qualquer autoridade.

Também tive medo de virar apenas o ‘cara do War In Rio’, mas depois aprendi a lidar com esse ‘fantasma’ positivamente. Tenho uma atuação profissional diversificada, e os colegas de profissão me conhecem por outros projetos (curso de tipografia, estampas, textos). Mas “War in Rio” é um patrimônio do qual eu também não tenho porque me envergonhar. Virou um cartão de visita interessante, e um tema divertido para palestras e rodas de bate-papo – apesar de eu sentir um pouco de vergonha pra falar do projeto (eu me empolgo, melhor desconversar).

O projeto hoje em dia é uma espécie de ponto turístico da internet e ainda recebe umas 2.000 visitas mensais e e-mails, mesmo eu não tendo postado nada no blog desde novembro de 2007. Em 2009 o jogo (objeto físico) participou de duas exposições em São Paulo: uma de design e uma de arte contemporânea.

Joguei “War in Rio” uma vez no fim de 2007 pra experimentar o tabuleiro, e vi que o mapa diferente atrapalha um pouco a dinâmica do jogo. Nas duas primeiras rodadas era curioso: ‘Três contra dois da Rocinha pro Vidigal’. Aí foi perdendo a graça, por que toda piada de mau gosto sempre desce um pouco atravessada. No final não foi divertido, e nunca mais usei o projeto.

“War in Rio” em números

• 70.000 acessos ao blog nos três primeiros dias de projeto – hoje a visitação total do projeto gira em torno de 160.000 visitantes;
• 2.200 mensagens eletrônicas (a maioria interessada na compra do projeto);
• Capa de cinco jornais de grande circulação: Extra (por 2 dias), Diário de São Paulo, Destak, Estado de São Paulo e Metro. Matéria interna em outros 3 grandes jornais: O Globo, Folha de São Paulo – caderno Folhateen e Jornal do Comércio (PE);
• Entrevistas concedidas a sete emissoras de televisão e duas de rádio: Globo (Jornal da Noite), Band Rio, RedeTV!, TV Record, GloboNews,TV Brasil (programa Recorte Cultural) e PlayTV (grupo Band); rádio Paradiso e Band FM;
• Publicado em 5 revistas: IstoÉ, Revista da Semana, Computer Arts, Jungle Drums (ING) e Tabu (jornal Sol – POR). Noticiado em versões digitais de outras cinco revistas: Cult, Trip, Galileu, Rolling Stones e Mac Magazine;
• Entrevistas concedidas para diversos jornais na internet: Globo, Folha, Extra e Estadão on line. Noticiado em portais de notícia: G1, MSN Notícias, iG, Yahoo e Terra Notícias, Agência AFP, Agência Estado e Observatório da Imprensa. Entrevistado pelo portal DesignBrasil.org.br;
• Apresentado na escola Kabum! de artes visuais;
• Noticiado em mais de 120 saites e blogs, como: Designers Justiceiros, Pedro Dória, Sydney Resende, São Paulo Fashion Week, Omelete, Nice to meet you (US), Banco Real, Computer Love, Coletivo Mobile, Design Gráfico e outros;
• Participação do projeto em dua exposições: 9ª Bienal de Design Gráfico da ADG 2009, e exposição “Outros Passatempos”, organizada pelo SESC da Vila Mariana em SP, março de 2009

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Franz Ferdinand para poucos em São Paulo


Franz Ferdinand: entrevista sobre Circo vs The Week
vídeo e fotos: URBe

A passagem do Franz Ferdinand por São Paulo tinha como objetivo promover a turnê que o grupo fará pela América do Sul em 2010. Ao decidirem fazer um show fechado e escolherem a pequena The Week como palco, um elefante branco surgiu.

Não era o assunto principal — esse era como conseguir um ingresso — mas devido as semelhanças de condições (como a lotação de pouco mais de 1.000 pessoas), começou-se a falar em um repeteco do clássico show da banda no Circo Voador, em 2006.

Muitos do que estavam no Circo naquela noite dizem ter sido um dos melhores shows de suas vidas. A própria banda concorda, tendo citado diversas vezes em entrevistas esse como o melhor apresentação da história deles. Entrou num panteão além da realidade, imbatível portanto.

Por todos esses motivos a comparação seria tão desnecessária quanto injusta. Mesmo porque, passado três anos, há um terceiro disco no catálogo dos escoceses, o repertório mudou. Se bem que com a qualidade do “Tonight”, esse poderia ser o fator crucial.

Sem se preocupar com nada disso, o Franz Ferdinand simplesmente aproveitou e curtiu o momento, assim como os sortudos que conseguiram conferir uma apresentação tão especial. A pegada mais dançante do que rock das novas músicas caíram bem na The Week, ajudadas por um som redondinho, pecando apenas pela bateria um pouco baixa. Bem diferente do Coachella desse ano, ao ar livre e de dia.

Uma das poucas bandas de sua geração que não apenas conseguiram se estabelecer, mas também crescer, o Franz Ferdinand tem como trunfo um excelentes shows. Mostraram isso em suas visitas anteriores ao Brasil e dessa vez não foi diferente.

Em março eles voltam pra fazer tudo outra vez.

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Entrevista – Dan Carey (produtor de “Tonight” e “Blood” do Franz Ferdinand)


“Backwards On My Face” (Twilight Omens Dub Version)

Quando o disco “Tonight: Franz Ferdinand” estava prestes a ser lançado, veio a surpreendente notícia de que haveria também uma versão dub do disco.

Historicamente o punk e o dub tem uma relação estreita, principalmenten os anos 70, culminando com o The Clash chamando Lee “Scratch” Perry pra produzir o disco triplo “Sandinista”.

No entanto, fazia tempo que uma banda de rock não se aventurava por esse caminho, ao menos não de maneira tão radical. “Blood: Franz Ferdinand”, um disco inteiro do Franz Ferdinand ganhando o tratamento jamaicano, gerou expectativas.

O nome que assinava as versões era Mr. Dan, pseudônimo de Dan Carey, que além da versão original “Tonight” e a dub “Blood” do Franz Ferdinand, já produziu faixas e discos do Cansei de Ser Sexy, Roisin Murphy, Ladyhawke e remixou Massive Attack e Sebastien Tellier, entre outros.

Na época pedi uma entrevista, que acabou não respondida. Com a vinda da banda ao Brasil essa semana, entrei em contato novamente e dessa vez Dan Carey respondeu as perguntas.

URBe – De quem foi a idéia de fazer uma versão dub do disco, você ou a banda?

Dan Carey – Produzi a versão original do disco, “Tonight”. Enquanto estávamos gravando eu fazia vários pré-mixes das faixas pra testar, enquanto as coisas iam acontecendo. Sempre passo algum tempo nesses testes para ter idéia para a mixagem final. Sempre que mixo uma faixa, faço uma versão dub, por hábito e por diversão. Quando eu mostrava as versões dub a banda sempre amava o som e rapidamente eles tiveram a idéia de eu fazer uma versão dub do disco todo.

URBe – Como a banda chegou a você?

Dan Carey – Sempre fui fã da banda e o Lawrence [Bell], da [gravadora] Domino me apresentou para o  Nick [McCarthy] e o Alex [Kapranos].

URBe – Quais outros artistas você havia produzido antes? No que está trabalhando agora?

Produzi e mixei discos para Emiliana Torrini, Garrison Hawk, Joe Lean and the Jing Jang Jong, CSS, M.I.A. e no momento estou produzindo o disco da Alice McLaughlin.


Dan Carey com o maior baixista da música jamaicana, Robbie Shakepeare

URBe – Qual sua relação com o dub?

Dan Carey – Fui guitarrista do Nick Manasseh, que m e deixava passar bastante tempo em seu estúdio e ensinou-me a fazer discos. Porque fazia somente dub, tudo que faço vem dessa perspectiva.

Também passei um tempo na Jamaica com Sly and Robbie. Uma noite fiz um dub de uma faixa, eles amaram e me trouxeram várias gravações originais para eu fazer versões dub delas. Gravei muitas coisas com ele que gradualmente estou transformando num disco de dub.

Também tive uma noite estranha na casa do Lee Perry, na Suíca, onde ele me contou muitas coisas interessantes.

URBe – E a relação do Franz Ferdinand com o dub?

Dan Carey – Todos nós compartilhamos o amor pelo eco.

URBe – Recentemente eles tiveram um documentário sobre a turnê deles na América do Sul feito pelo Don Letts, que nos anos 70 apresentou o reggae e o dub para os punks, como o The Clash, influenciando totalmente o som deles. Você acha que essa convivência possa ter algum papel no interesse da banda pelo dub?

Dan Carey – Com certeza deve ter tido, mas nunca falei disso com eles.


A lenda Lee Perry e Dan Carey

URBe – A sonoridade de “Blood”, a versão dub do “Tonight”, se aproxima mais ao que é entendido como dub no meio da house music, um remix sem vocais. Você concorda?

Dan Carey – Não muito (a não ser por “Die On The Floor”, que realmente era pra ser um club mix). A abordagem — em termos de como os efeitos foram arranjados, o fato de que todos eles são sessões de dub “ao vivo” editadas juntas — é o mesmo. Tentei evitar efeitos que soassem muito “antigos”, então não tem tanto eco de fita, reverb de mola quanto poderia ter. Acho que reestruturei algumas faixas, o que não é tão tradicional.

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Entrevista – Dustan Gallas

Recentemente o nome Dustan Gallas apareceu relacionado a dois dos mais legais discos brasileros desse ano. O sujeito gravou com o Cidadão Insigado em “Uhuuu!” e faz parte da banda de Lucas Santtana nos show do disco “Sem Nostalgia”.

Ninguém melhor pra explicar quem é Dustan Gallas do que ele próprio.

URBe – Apresente-se: instrumento, de onde você é, idade, com quem já tocou, principais trabalhos e sua formação.

Dustan Gallas - Eu sou guitarrista, nasci em Parnaíba, litoral do Piauí e cresci em Fortaleza. Eu aproveitei uma parte do tempo que eu passei estudando em universidades pra fazer umas aulas de outras coisas, fazendo umas aulas de piano e bateria, comprei tambem um trompete e um bongô, nessa época eu pensava que isso ia me fazer melhor guitarrista, mas acabou que eu aprendi alguma coisa neles mesmos. Acho que esse é um bom termo… Eu não diria que eu sei tocar baixo, por exemplo mas eu sei usá-lo.

Tenho 37 anos, e passei uns 10 pra lá e pra cá, estudando nesses lugares: America Institute of Music (Viena-Áustria), Hochschule für Muzik und Tanz (Graz-Áustria), Northern Illinois University (Illinois-usa), Rotterdam Conservatorium (Rotterdam-Holanda). E saí variando curso… Fiz de guitarra jazz, violão tango, produção musical, e até pintura

Nesse vai e vem de ir estudar e voltar ,comecei a me envolver com produção e trabalhei em alguns discos ainda em Fortaleza: Realejo Quartet, Karine Alexandrino, Eddy de Clercq, Alcalina, Forma Noise, Felipe Cazaux, Samba Hemp Club, Pádua Pires e fiz também umas trilhas pra espetáculo de dança, teatro, desfile, cinema, tal e tal.


Cidadão Instigado, “Doido”

URBe – De onde vem a sua relação com o Cidadão Insigado?

Dustan Gallas - A gente é “de época”… Hehe… Sou amigo de infância do Rian, e vizinho do Fernando [Catatau] na adolescência, quando conheci o Regis também, quando começamos a tocar e as nossas bandas ficavam tocando juntas. Depois que elas se desfizeram, (quando uns foram estudar, outros formar outras coisa) o Fernando começou a conceber o Cidadão.

Se ouvia muita coisa diferente o Régis era rock inglês, o Rian muita coisa brasileira, e eu e o Fernando mais mistureba, até que eu fui pra um lado de só ouvir jazz, pra tentar entender, e o Fernando mergulhou nos Sérgio Ricardo, Tom Zé, Alceu Valença, o som da primeira metade dos 70 deles (e as trilhas deles da época). Quando voltei pra Fortaleza em 97/98, a banda ja rolava e eu tocava umas guitarra em participações em shows. Pouco depois eu entrei pra banda, tocando caixa e prato e umas panelas, e fiquei até 2002 por aí, quando viajei de novo. Gravei o primeiro EP em Fortaleza e o “Ciclo da Decadência” aqui em São Paulo.

URBe – Qual foi o seu papel e participação em “Uhuuu!”?

Dustan Gallas - Foi muito legal. Porque vim morar em São Paulo no meio do ano passado com a intenção de ficar um ano, essencialmente, próximo dos amigos. E tem sido massa, porque eu tenho não só estado perto, como tocando junto também.

No fim do ano passado o Fernando [Catatau] me convocou pra fazer os teclados, tanto pra minimizar o uso das bases como pra tocar mais coisa no material novo do Cidadão. Aí, o processo na hora de gravar foi o de captar o som do quarteto, como é o formato dos shows ha alguns anos, e depois eu entrei como, digamos, um olhar “de fora”, editando umas músicas e pondo teclados adicionais, ajudando na mixagem e nas decisões das coisas, já que o projeto envolvia muita coisa: metais, muitos e muitos tracks nas músicas, etc.

É engraçado como o aspecto multirão tende as vezes a confundir o objetivo, mas nesse caso, muito provavelmente pela afinidade da galera, o multirão virou um trunfo e fez com que se atingisse um resultado pelo menos satisfatório pra todos nós seis.

URBe – E de onde você conhece o Lucas Santtana?

Dustan Gallas - Eu conheci o Lucas vendo shows da banda, ano passado, porque o Rian e o Regis tocam com ele, aí fui num show no Studio SP. Na verdade eu lembrava dele de ver clipe anos atrás de “De coletivo ou de metrô”, que achava massa, mas não o conhecia pessoalmente.

URBe – Como foi entrar na banda do Lucas para tocar as músicas do “Sem Nostalgia”, um disco feito inteiramente com violão?

Dustan Gallas – Esse ano ele me convidou pro projeto “Trilhando” do SESC (a edição com Bruno Barreto), com a Gal Costa cantando, isso foi no início do ano quando ele tinha acabado de gravar o disco novo. Na verdade, antes ainda mesmo desse projeto rolar, ele me convidou pra integrar a banda do show desse mesmo disco. Adorei o convite, porque o que tinha visto do show anterior dele era muito bom. Aí ele enviou o disco novo, e eu fiquei mais contente ainda, porque o disco é simplesmente sensacional. E tem isso do disco ter um monte de violão e ao mesmo tempo a maneira que ele arrumou de transportar o disco pra o formato da banda, ta dando bem certo, no meu conceito. O “tom” das composições tá preservado, deu certo.


Júpiter Maçã, “Essência Interior”

URBe – Do que mais você participou ou está participando?

Dustan Gallas -Teve essa experiência incrível de tocar com a Gal nesse projeto com o Lucas (o que me rendeu uma demissão da banda do Otto), eu participo da banda do Edgard Scandurra, que foi formada pra gravação do DVD dele. Gravamos em Maio e agora tá em processo de edição e mixagem. Inclusive gravamos uma música ano passado que ficou bem especial (“Não precisa me amar”, ta no myspace dele).

Toco com o Júpiter Maça e estamos entrando numa fase massa com músicas novas, e que uma primeira já ganhou clipe que inclusive está indicado ao VMB desse ano. Tô produzindo com o Boca (Otto, Instituto) o disco da Barbara Eugênia. Toco com a Juliana R. Tô tocando na banda e gravando no disco novo da Karina Buhr. Terminando discos de duas bandas de Fortaleza, O Garfo e Murano….e mais dois projetos caseiros, o Chic Shit e o Eles Cantam Mal.

Tem ainda um disco que fiz há anos, e que esta sendo relançado do Realejo Quartet, tem o Psycho Jazz, um combo que o Boca encabeça, hoje mesmo a gente tava discutindo o repertório pra próxima temporada, que deve começar agora em outubro no Studio SP. Outro que tá nos ensaios ainda, mas já promete virar um projeto interessante, é o disco do Tupiniquin, que tô produzindo com o Rian.


Gal Costa, “Gabriela”

URBe – Quais bandas tem voado abaixo do radar e devem surgir logo, logo?

Dustan Gallas – Barbara Eugênia, Karina Buhr, Juliana R., O Garfo, Mr. Spaceman, Tupiniquin, pra mencionar alguns… hahahahaha!

Tem um menino de Fortaleza que eu ouço quase diariamente e por mim tava todo mundo falando dele. Chama The Amazing Broken Man.

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Entrevista – Emicida

Em “Vai Ser Rimando”, música presente em sua mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, o Emicida fala:

“Minhas rimas tão na rua
Por enquanto é o seguinte
Se não chegou até você
É porque não é pra você ser ouvinte”

Isso está a ponto de mudar. Aos 24 anos, indicado em três categorias ao VMB 09 (Aposta, Rap e Videoclipe do Ano), Leandro Roque de Oliveira, quadrinista nas horas vagas, morador do Tucuruvi e “cria da Zona Norte” de São Paulo (“já morei na Vila Zilda , Fontalis, Cachoeira e Furnas”), começa a ver suas rimas chegarem a cada vez mais gente.

As letras do Emicida seguem o mesmo farol. Seja falando de amor, amizade, rap ou problema sociais, o lema “a rua é nóiz“, repetido diversas vezes em suas músicas, funciona como uma espécie de mantra.

Isso sem descuidar do apuro técnico, como fala em outro trecho de “Vai Ser Rimando”, espécie de carta de intenções:

“Curto as produça caseira
Não as de qualquer jeito
Não sei porque assimilaram
O underground ao mal feito”

Num papo por e-mail, Emicida dá uma geral na carreira, cita influências, fala da cena hip hop e, entre a penca de nomes citados, oferece uma porta de entrada ao rap atual.

URBe - Como você descobriu o rap e como entrou numa de virar rapper?

Emicida – Eu descobri o rap nos bailinhos de quebrada, nas festas de garagem da Vila Zilda, nas quermesses… Foi lá meu primeiro contato com a coisa, sem saber nem que tinha esse nome, eu só curtia a parada. Na época rolava bastante miami bass ainda, tipo “Sally The Girl” e aquela miami zimbabwe, mesclado a essas tinha MC Pepeu, “Nomes de Menina”.

No fim dos anos 80 e começo dos 90 eu tinha entre cinco e seis anos, meus pais ajudavam na organização de um dos bailes da quebrada, os equipamentos ficavam todos em casa, meu interesse surgiu daí mesmo. No primeiro momento foi uma fascinação inexplicável, depois uma longa fase de aprendizado e estudo até botar a cara pra bater memo e dizer eu sou um MC, quando eu percebi tava rimando já. Costumo dizer pros caras que rima boa é igual coisa errada, você só percebe que fez depois de fazer (risos).

URBe – Que tipo de som você escuta (além de rap)? Quais são suas influências?

Emicida – Ouço samba, um pouco de jazz. Mas pra mim samba é foda, melhor música do mundo, se eu soubesse cantar mesmo seria sambista. Costumo ouvir tudo, hoje em dia principalmente, mas a quantidade de samba que escuto realmente é muito maior do que todos os outros gêneros juntos.


foto: ariel martini

URBe – Quem fez as bases da sua mixtape? Qual sua participação nessa parte, você produz?

Emicida – Vários irmãos, desde Marechal até Projeto Nave, Felipe Vassão, Bruno Pompeo, Léo Cunha, Dario, DJ Nyack e DJ Nato PK, vários monstros, fora as coisas tocadas que deram outra cara pra várias faixas.

Minha participação na produça é bem pouca, prefiro pegar pronto as coisas. Antes eu queria fazer tudo, igual todo mundo quer fazer e acaba fazendo tudo mais ou menos, hoje eu me concentro em fazer minhas rimas.

Claro que as vezes me arrisco a fazer um beat ou outro, mas nada que eu saia por aí distribuindo cartão, escrito beat maker em baixo do meu nome. Mostro pros caras, pra alguém que realmente entenda. Se não tiver saído muito ruim, gravo em cima, assino e digo que eu fiz…(risos).

Hoje foco mesmo nas minhas rimas, tem quem faça bases boas, não preciso me preocupar. Conheço os melhores, são meus amigos, então quando eles precisam de uma rima boa me ligam por que eu sou centrado nesse negócio de rima. Quando preciso de uma base boa faço o mesmo, porque sei que eles são tão focados quanto eu nessa parada de instrumental.


foto: divulgação

URBe – Como é o esquema de gravação? Como você faz suas bases?

Emicida - Antes eu trabalhava em um estúdio grande, com uma estrutura legal, era estagiário lá. Quando ninguém tava usando as salas eu fazia minhas coisas. Depois saí, fiquei um tempo sem gravar, aprendendo a escrever, por que nem só de freestyle vive o homem.

Meu foco maior sempre foi na escrita, entrei nesse lance de freeestyle e me tornei meio fanático por isso. Não que eu queira deixar de ser, mas eu amo escrever uma letra, terminar ela é uma sensação muito foda, melhor que qualquer coisa.

Mas enfim, saí desse estúdio e acabei conhecendo outros estúdios, gravando com outras pessoas, mas hoje, como trabalho bastante com o Felipe Vassão, com o Tixamen e o Bruno Pompeo na Maria Fumaça e na Loud Produções, a gente sempre grava junto e não pretendo mudar isso. Eles tem o estúdio, equipamento bom, conhecimento e eu tenho as rimas, fecha certinho. Os caras me conhecem, eu conheço eles, não tem aquele lance de entrar no estúdio gravar e sair com aquela puta frieza do tipo “tamo trabalhando aqui de saco cheio, depois de você vem mais cinco bandas, então grava rápido”.

Não faço as bases, pego com os beat makers que me cercam. Raramente faço alguma coisa, quando faço levo pro Bruno Pompeo, que é o mais paciente comigo, e ele me ajuda a consertar as coisas. Se bem que nem tivemos que consertar tanta coisa assim das últimas vezes, prova de que estou evoluindo, e ele apara as arestas pra mim, aí fica tudo perfeito.

Se tiver que gravar algo a gente grava, se tiver que compor a gente compõe, se tiver que jogar fora e dizer que tá uma merda também… (risos).

URBe – Imagino que agora esteja ficando mais fácil, com gente interessada em te levar pro estúdio, mas como era no começo? Qual a estrutura você tinha pra gravar?

Emicida – No começo mesmo, nos primórdios, eu tinha um teclado da Casio, um duplo deck, um mic de karaokê e um saco de lixo de 20 litros cheio de fita K7. Ficava madrugadas inteiras fazendo minhas tapes, uma atrás da outra, vários raps.

Não dava pra loopar, então eu tocava (mesmo sem saber) quatro, cinco minutos de uma mesma célula ritmica e cantava em cima, gravava com o mic de karaokê e ia pirando. Quando acabava o último take já não dava mais pra ouvir os seis primeiros (risos). Era só a chiadeira , os cachorros latindo, barulho da TV na sala e pra mim aquilo era mágico.

Saí de lá pra ir pra um estúdio com C-12, pré-amplificador Antony DeMaria Labs, mesa com vários canais, caixas Genelec, etc, coisa fina. Aí foi foda, porque eu tinha a essência das gambiarras, a capacidade de improvisação de quem não tem estrutura e os equipamento igual ao de qualquer pop star aí (risos). Resultou na qualidade da “Triunfo”. E posteriormente de toda a mixtape.


a capa da mixtape

URBe – É tudo sampleado ou tem som original? Como são gravados os originais?

Emicida – Tem bastante sampler, mas também tem bastante coisa original. Em sua maioria os instrumentos são tocados pelo Bruno, pela proximidade memo e pelo lance de captar as idéias sem que eu tenha que ficar gesticulando como se fosse mudo, ele entende pra onde quero levar a música aí a gente faz. Mas tem coisa do Fióti também, violão, cavaco, percussa, do Franja, na mixtape tá tudo misturado, tem música de todo jeito.

URBe – Você gosta de samplear bastante funk 70 e r&b. O que mais você acha legal samplear?

Emicida – Não tenho um gênero predileto pra samplear, escolho pelo momento, pela coisa que determinada frase ou célula me faz sentir. O que aquelas notas me dizerem vai dizer se elas vão ser sampleadas ou não.

URBe – O que você acha das bases eletrônicas, como as que tem tomado conta das paradas de sucesso nos EUA?

Emicida – Quando bem feito acho bom. Mas cansa rápido…

URBe – E o que você pensa do tipo de rap que faz sucesso hoje em dia, de Lil Wayne, Soulja Boy, T-Pain, Black Eyed Peas, etc? Fale da sonoridade e do discurso separadamente.

Emicida – Gosto de Lil Wayne, ele é foda mano. Soulja Boy eu não conheço, ouvi uma musica só e não gostei, achei chato pra caralho, repetitivo, vazio. A música em si as vezes é boa mano, eu gosto mesmo, tipo “A Milli”, a introdução do disco do T-Pain é foda, aquela “Welcome to 3 Ringz”. Os caras sabem fazer música boa, mas existe um mercado que eles obedecem, compreendo e respeito isso.

Quanto ao discurso, ainda não vi, quando ver terei prazer em falar sobre ele. É sempre a mema merda, “eu tenho grana, como todas as putas, as pessoas querem ser iguais a mim porque sou rico”. As vezes isso mostra como o espírito das pessoas é pequeno. Esses caras foram vítimas de um sistema no passado que os discriminou por não terem essas coisas e a maneira que eles respondem hoje é essa.

Acho triste, acho que somos mais, e no Brasil tem um pessoal indo na mesma onda Mas enfim, vejo nas idéias dos caras um medo, uma fraqueza de espirito. É aquilo que o Edy Rock falou, marginal tem estilo, ninguém consegue imitar.

Isso que os caras louvam hoje é estética. Em vinte minutos na galeria você se veste igual ao 50 cent, mas tomar nove tiros e guentá o B.O. é otros 500. Acho que o que vai fazer o rap se solidificar mesmo no Brasil é a essência do rap marginal, o que tem estilo e ninguém consegue imitar.


Emicida vs Gil, na final da Liga dos MCs 2006

URBe – Você passou pelas batalhas de MC do Rio. Como veio parar por aqui?Já tinha visto algo parecido em SP? Qual importância teve isso na sua carreira?

Emicida – Passei e trouxe o caneco (risos). Em 2006 eu ja tinha ganhado tudo em São Paulo, tava arregaçando e o Pedro, do Pentágono me disse que tinha um contato na Brutal Crew que podia me envolver na liga e no Hutuz. Disse pra ele que, se rolasse, eu daria metade de tudo que ganhasse pra ele, pegamos um avião e fomos para o Rio.

Hoje vejo como fui marrento, fiz planos com o prêmio antes de me inscrever até, mas fazer o quê? É isso memo. Foi extremamente importante pra mim esse lance po que deu uma visibilidade monstra dentro dessa parada de freestyle. Hoje quem faz freestyle no Brasil sabe quem é o Emicida graças a Liga dos MCs.

URBe – Você acha que existe uma troca entre as cenas de SP e do Rio? As vezes parece que as duas cenas não se misturam muito.

Emicida – Existe quando há interesse em trocar informações e crescer junto. Marechal é um paulistano honorário, embora ele não saiba (risos). E eu me considero um cidadão do Rio de Janeiro quando estou lá, tenho bons amigos, amo o Rio. Prefiro São Paulo, obviamente, mas amo o Rio de Janeiro. Esse problema da cena não se misturar só fica exposto quando o caso é entre o Rio e SP, porque é o Sudeste.

Mas aos meus olhos, nesse momento em que vivemos, o rap em si está desligado de suas extremidades. Tá todo mundo no twitter e as calçadas vazias. Pra mim poderia haver um diálogo melhor entre todas as regiões, tento criar isso, mas é dificil pra caralho.

Vou para os lugares e tem cara que quer puxar meu saco porque sou de São Paulo e ele quer tentar vir fazer um show aqui. Como se vir e fazer um show fosse fazer a vida dele mudar… Vai ter que cobrar uns 500 mil de cachê, só se for.

E tem cara que torce o nariz e me estranha como se eu tivesse afastado as regiões ou como se os habitantes do Sudeste tivessem colocado uma cerca ao redor do rap, quando o que define sua posição dentro disso é trabalho: você vive essa porra? Vai colher frutos. Você se dá 20% pro rap, o rap vai te devolver 20% tambem. E nem é só no Rap é na vida, tudo é uma coisa só.

O melhor exemplo é o dos caras do Costa a Costa, lá no Ceará, que estão fazendo um barulho lá em cima e assustando uns inseguros pelo Brasil todo (risos). Os caras de Curitiba tambem tão bem organizados, tem uma cena bem intensa rolando com Cabes, Dario, Savave, Nel Sentimentum. Algumas das melhores batidas dos últimos anos sairam de lá, o disco do Kamau e do D2, tudo tem um pézinho lá no Sul…


“Essa é pra você, Primo”

URBe – Você acha que a chuva de gírias de São Paulo que você usa ajuda ou atrapalha? Como o sotaque fica nisso tudo?

Emicida – Acho que soa natural pra mim, assim como as gírias de gaúcho são naturais pros gaúchos. Embora vá parecer o cúmulo do egocentrismo, eu escrevo rap pra mim e pros meus, e acredite, eles são muitos, espalhados por cantos onde até Deus duvida.

O sotaque não atrapalha quando você canta com o coração. Os norte americanos são o maior exemplo disso, 90% das pessoas que cantam “I Feel Good” junto com James Brown não fazem idéia do que ele está dizendo. O sentimento é como uma língua universal e o rap é uma ótima janela pra se passar sentimento.

URBe – Qual foi o seu ponto da virada? O que e como aconteceu do seu nome surgir fora de SP?

Emicida – A Liga dos MCs foi um deles, o YouTube foi outro responsável, junto as câmeras digitais que ajudaram a propagar cada sessão de rima na calçada que eu fiz.

Acho que eu ainda não surgi, tem muita gente que não me conhece ainda. O que acontece é que o espaço dado pra música que eu faço é escasso, quando alguém como eu se destaca em outros meios é porque a coisa tá começando a ficar doida.

Mas minha meta é bem mais ambiciosa do que três indicações ao VMB. Eu ainda nem lancei um disco oficial man, isso ainda vai muito longe. Esse ponto de virada que você disse ainda esta por vir.


Kamau e Emicida
foto: leo.eloy

URBe – O rap brasileiro já tem estrada o suficiente para se falar que os temas sociais são o assunto preferido. Você acha que chega um ponto que isso se torna repetitivo? Afinal, infelzmente a situação não mudou muito. Como manter os temas relevantes depois que o choque inicial já passou?

Emicida – Com certeza, enche o saco vagabundo chorando no seu ouvido, por isso eu não choro. A minha realidade é outra, sou correria, tenho o que fazer, a situação não mudou, mas o momento sim. Você deve ser atual, num me vem escrever rap como se estivessemos nos anos 80, muito tá a mema merda, mas muita coisa melhorou também.

A parada é que falar de dor da ibope, mas cansa. Vários irmãos que amavam rap cansaram dele porque miséria traz tristeza e vice-versa. Eu peguei uma nota suja de sangue no troco de almoço ontem, isso é chocar hoje com um assunto de anos.

Cada um tem sua maneira de ver o mundo, o problema são os que tentam sugar até o fim uma fórmula que deu certo. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui a dez anos: um dia você vai se cansar…

URBe – Quais opçõs de caminho em termos de tema? Do que mais se pode falar?

Emicida – Ah, existem mil temas, quem escreve com o coração ja viu isso há tempos. Odeio me parafrasear, mas eu digo na mixtape “os bico pensa se fala de rua ou de festa? e eu só escrevo”. Quem vive isso só escreve, o resto tá se perguntando do que o rap deve falar no século 21.

URBe – Você fala bastante da cena alternativa ser uma fase, não um destino final, que quer fazer sucesso. Como fazer para atingir o grande público, como já fizeram Gabriel O Pensador e Marcelo D2? Porque nenhum rapper de São Paulo, onde a cena é bem forte, conseguiu isso ainda?

Emicida – Trabalhar sério, ter foco, sem se emocionar. Como assim nenhum rapper de São Paulo conseguiu isso? Até onde eu sei Racionais MCs é daqui e até minha sobrinha que nasceu no começo do ano canta… Isso é ser rua.


foto: zoeirahiphop

URBe – E quem está vindo aí? Quais nomes na nova geração com potencial pra estourar?

Emicida – Rashid tá se preparando pra chegar direitinho. Rincon Sapiência tem o maior potencial dessa geração, comercialmente falando mesmo, capacidade pra ganhar dinheiro, ele é um monstro.

URBe – A pergunta é batida, mas é sempre legal saber como cada músico enxerga a situação. O que você acha da troca de músicas na internet?

Emicida – Da hora, troquem as minhas. Hoje não dá mais pra ficar de ranhetice em cima disso, já é e ninguém perguntou pras gravadoras se podia. Agora corre atrás pra ficar na frente de novo, porque a molecada ja tá a milhão, baixando tudo que sai e espalhando na rede.

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