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O vídeo oficial do Queremos Jagwar Ma! no Rio

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foto: I Hate Flash

Semana passada o Jagwar Ma tocou no Rio para pouco mais de 150 pessoas 252 pessoas, pouco mais da metade da casa. Uma pena que tão pouca gente foi assistir um show tão bom. Ouvi dizer que muitos ficaram desanimados por ser no Miranda, casa que se lançou como de luxo com ingressos caríssimos e agora luta para desfazer essa imagem. Besteira. A casa é ótima, intimista e  o show custava R$ 70, mesmo preço que no Circo Voador (lugar que alguns da Zona Sul acham longe).

Azar de quem perdeu, foi bonzão e a banda saiu alucinada do palco, como você pode ver na entrevista que fiz com eles, em que citam inesperadas influências de Tom Jobim e rastas.

O vídeo oficial da Solange no Rio

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Com dois discos pouco conhecidos no currículo e apenas o recente EP “True” como verdadeiro combustível para atrair fãs, Solange Knowles (também conhecida como “a irmã da Beyncé”) surpreendeu com um show preciso e divertido, ainda que tenha sido curto. Garantido-se, nem guardou “Losing You” para o encerramento. E ainda tocou sua versão de “Stilness is the Move”, do Dirty Projectors.

O vídeo oficial do Beach House no Rio

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Beleza de show esse do Beach House, simples e tecnicamente perfeito, fazendo o som crescer. Como um trip hop construído sob uma matriz e timbres indies, a chapação da dupla funciona bem demais ao vivo.

No palco a cantora e tecladista Victoria Legrand e o guitarrista Alex Scally são complementados por um baterista. A cenografia sem firulas, baseada na transição de luzes complementa as viagens auditivas oníricas do Beach House, assim como a presença fantasmagórica de Victoria, tocando o teclado sem nunca olhar para as teclas, enquanto Alex solta as frases de guitarra e as programações.. O ponto que desiquilibrou, no entanto,  foi o técnico de som, que tirou uma sonzeira daquelas pra entrar na lista de melhores ouvidos no Circo Voador.

Como de praxe nos shows do Queremos!, bati um papo com a dupla pro vídeo oficial.

OEsquema apresenta: Sala Criolina

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Autoramas e BNegão

Assim que assisti o vídeo que o diretor Cícero Fraga enviou via Facebook para assistir um episódio da websérie Sala Criolina, vi paralelos com o conteúdo publicado n’OEsquema. Como nossa OEsquema TV é  apenas uma ideia – ainda que sejam muitas essas ideias – falta um bocado para todas elas tornarem-se realidade, ficou claro que uma parceria fazia sentido.

A estreia do Sala Criolina, produção da ClipClipUha e do Coletivo Criolina, com apoio e distribuição do OEsquema, é um primeiro passo nessa direção. Como a primeira leva de programas já estava produzida, não nos envolvemos diretamente na concepção. Porém, mesmo assim, o conteúdo está bastante alinhado. o Cícero tinha um produto na mão, nós tínhamos o canal e agora cá estamos.

Amanhã as 13h será lançado o primeiro vídeo, por aqui mesmo, estrelando o vizinho Lucas Santtana. Pra contextualizar, conversei com por email com o Cícero sobre a série e essa parceria.

Cicero Fraga - diretor - ClipClipUha
Cícero Fraga, como se vê pela blusa, sabe das coisas

Como surgiu e quais as intenções do Sala Criolina?

Cícero Fraga – O coletivo Criolina é formado por DJs aqui de Brasília (Rodrigo Barata, Tiago Pezão e Rafael Oops). Posso dizer tranquilamente que eles são um dos principais agitadores aqui da cidade. Eu tenho uma produtora de video que basicamente se dedica a videos sobre música e videoarte, a ClipClipUha. Há tempos que a gente ensaiava unir esses dois lados para produzir algo. No início desse ano, fiquei sabendo que o coletivo Criolina tinha fechado um projeto que traria bons artistas para a cidade durante todo o ano. Foi essa a hora de pegar carona e propor um modelo de programa. Em um almoço chegamos no formato e montamos o cronograma já com o primeiro convidado, Lucas Santtana. O nome, Sala Criolina, vem da casa que os Criolinas moravam. Uma grande casa que até hoje serve de hotel para músicos que vem tocar na cidade na festa que eles promovem toda segunda. A sala é o ambiente mais comunitário e mais abarrotado de vinis, vitrolas, MPC, computadores e todo tipo de instrumento.

Quem já foi entrevistado e quem mais vem por aí?

Cícero Fraga – Além do Lucas Santtana, já passaram pelo Sala Criolina a Anelis Assumpção, Karol Conká, BNegão, Curumin, Autoramas, Maga Bo e Chico Correa e Thiago Pethit. Os próximos ainda não sabemos. Um coisa é certa, pra segunda temporada queremos incluir artistas aqui da cidade que já estão com o pé para fora da região, como Passo Largo, Sacassaia e Móveis Coloniais.

Gravando com Curumin
Durante as gravações com Curumin

Como vocês escolheram os entrevistados e os assuntos abordados?

Cícero Fraga – Queremos conversar sobre música. Não necessariamente sobre a música que aquele artista faz. Acho que poucas vezes entramos no trabalho autoral, sem ter como fugir dele também em certas questões. Mas o que queremos é juntar conhecedores de música, pesquisadores, colecionadores de vinil, alguns músicos chegam a ser potenciais historiadores (se não o são, rs). Mandamos três perguntas diferentes para cada um. Obtemos três ótimas respostas. Todo convidado tem sempre uma grande história para contar. O Gabriel, do Autoramas, deu uma aula de Jovem Guarda, o Lucas fala da “invenção do samba”, o BNegão sobre destruir para poder construir. E tudo isso costurado por ótimas dicas de som.

Conte um pouco da produção dos vídeos.

Cícero Fraga – A produção dos vídeos é completamente independente. Porém, foi-se o tempo em que ser independente é ser amador. Tinha de ser bem feito. Essa era a prerrogativa. Fechamos uma equipe base, enxuta, com o equipamento mínimo necessário investidos por mim, Silvio Cohen, Gustavo Amora e David Alves. O nosso retorno é ter um programa bem feito, onde as pessoas possam gostar e querer mais. Essa websérie é um termômetro para outros projetos que ainda queremos fazer. E assim tem sido. Todos os artistas que passaram por aqui compartilharam o conhecimento deles, estavam abertos para trocar ideia. E todos saíram com a sensação de que foi massa. De que foi uma entrevista diferente.

Quais eram os planos antes da parceria com o OEsquema e qual a importância dessa associação?

Cícero Fraga – Desde quando chegamos no formato, sabíamos que o Sala Criolina era para web, foi concebido para ser web. Assim que o projeto começou a ficar pronto, surgiu uma oportunidade de negociar o programa para TV. Mas para praticamente ceder os direitos desse nosso investimento, só valeria a pena se fosse uma TV expressiva e sob boas condições. Como não era o caso, optamos por permanecer na web mesmo. E já vínhamos traçando uma lista de portais e blogs que entraríamos em contato para divulgação. O OEsquema era o topo da lista. Eu conversava com o Rodrigo Barata e a gente falava que tinha que ser algo ‘tipo OEsquema’. rs. E naturalmente rolou. De certa forma, o OEsquema é o nosso jornal diário de boa informação e boa música. Nos alimentamos tanto dessa informação que era natural que o Sala Criolina tivesse um pouco a cara de vocês a ponto da gente institivamente fechar essa parceria. Feito! O objetivo agora é que o Sala Criolina seja um conteúdo interessante. Apostamos boas fichas nisso.

Entrevista: Rafael Ramos (Polysom) + sorteio de vinis

A volta do vinil e as altas vendas tornaram-se um mito na indústria. Conversando por email sobre o assunto com Rafael Ramos, da Deckdisc e da Polysom, única fábrica de vinis da América Latina, o papo virou uma entrevista sobre o mercado de vinis no Brasil. Ficou faltando a visita a fábrica, mas vamos marcar o passeio (aliás, seria massa levar um leitor).
De quebra, Rafael ainda colocou uns vinis na roda pra sortear entre vocês, leitores.
URBe – Faça um resumo da situação da Polysom hoje.

Rafael Ramos – A fábrica está funcionando a pleno vapor, passando por sua melhor fase, que tende a melhorar. A cada dia chegam mais clientes e esses cada vez ficam mais satisfeitos. A fábrica evoluiu muito todas as fases do processo (desde o corte de acetato até a prensagem em si) e hoje atinge um nível de excelência altíssimo. A procura é muito grande, o interesse em fazer vinil tem aumentado muito e muitas das solicitações de orçamento têm virado realidade rapidamente. Os clientes estão entendo as facilidades e as vantagens de se prensar no Brasil e isso, junto ao respaldo da qualidade, têm deixado as prensas bem ocupadas. Tanto para vinil de 12″ (140 e 180 gramas) quanto para compactos de 7 polegadas.

URBe – Hoje o mercado está estabelecido? Ou é balela esse papo de mercado do vinil gigante? Quais os números de produção atuais?

RR – Gigante” realmente não é o melhor termo. Os números não são grandes mas são consideráveis para um mercado que ficou parado por uns bons 10 anos e voltou à ativa há menos de 2 anos. Ainda são poucas as lojas que vendem e muitas delas são lojas pequenas e fiéis que, com muita esperteza (preços bons, bom atendimento, não colocando uma margem de lucro excessiva), têm aumentado seus pedidos. Mas com muita insistência algumas barreiras têm sido quebradas e todo novo cliente (loja) que adere ao formato causa um aumento grande nos números. A fábrica hoje produz uma média de 5 mil peças por mês, um crescimento de mais de 200% do ano de 2011 para 2012.

URBe – Qual foi o período mais difícil e as maiores complicações?

RR – O início foi a fase mais complicada. Desconsiderando a fase de reforma da fábrica (todas as prensas foram desmontadas até o último parafuso por uma equipe de altíssimo nível), os impostos, que no Brasil chegam a uma porcentagem absurda, atrapalharam muito no preço de fabricação e a desconfiança da clientela sobre a qualidade do produto final também fez tudo demorar a engrenar. Só depois de um bom tempo com os discos clássicos que a fábrica licenciou na rua é que essa mentalidade foi mudando. A prova da qualidade está na pick-up de grandes colecionadores e adoradores de música com os ótimos resultados atingidos na fabricação de discos como “A Tábua de Esmeraldas” do Jorge Ben e do “Krishnanda” do Pedro Santos.

URBe – Tem o papo dos discos prensados no leste europeu, que são mais baratos. Fale dessa concorrência.

RR – Foi outra complicação desde o começo e que durou até pouco tempo. Como disse, a mentalidade tem mudado muito. Hoje o cliente sabe que pra ficar “super mais barato”, ele tem que trazer uma prensagem inteira ilegalmente dentro da mala, o que não é leve, nem correto. Se você for importar legalmente uma prensagem feita no exterior, o seu preço final será consideravelmente maior do que o que a Polysom oferece hoje. Isso sem contar os que nunca calcularam o valor da passagem pra ir de voltar da Europa. Não vale a pena.

URBe – Quais as perspectivas de mercado? Tem muito mais artista prensando vinis?

RR – A procura cresceu muito no ano passado. Chegou a assustar, pro lado bom da coisa. Cada vez mais o artista (assim como as gravadoras e selos) sabe o quanto agrega a um projeto lançar no formato de vinil. A perspectiva é que ainda melhore e estabilize num ponto mais alto do que nos encontramos agora. A fábrica ainda não chegou na metade de sua capacidade de fabricação. O plano é que estabilize no topo.

URBe – Como você enxerga o papel do vinil na equação da industria fonografica atual? Dá pra desafogar ou as vendas não tem tanto impacto?

RR – Os números não são grandes mas como as vendas de cd também não são mais as mesmas, a equação tem ficado engraçada. Não desafoga as baixas vendas do formato físico, mas tem um impacto gigante no trabalho artístico. Valoriza muito um lançamento. A capa, o som, a atenção que atrai na loja, a posição que ocupa na vida de quem vai a um show e sai com um vinil debaixo do braço. Está mudando a forma como as pessoas enxergam música no Brasil, e isso já vale todo o esforço.

SORTEIO:

Pra ganhar, diga nos comentários qual desses discos você gostaria de receber e por quê. O primeiro pedido para cada disco, com uma resposta decente (sim, o critério é subjetivo, portanto esforce-se), leva a bolacha.

Dado a belezura dos presentes, o número mínimo de participantes é 100. Vou deixar os comentários acumularem e só vou publicá-los depois de chegar a 100 comentários. E pra dar mais emoção, um dos discos será ganho pelo participante número 100, que vai ser o primeiro a escolher, Assim ninguém ficar com medo de publicar atrasado e não ganhar.

Adendo (incluído após a publicação do post): cada pessoa só pode concorrer uma vez, não adianta postar várias vezes tentando vários discos.

Muito importante: não tenho a mais vaga ideia de como fazer pra entregar esses discos aos ganhadores, correio seria uma fortuna. O mais provável é que deixe na Tracks para ser buscado pelos ganhadores, mas ainda nem falei com ninguém da loja. Portanto, concorra por sua conta e risco, e saiba que se estiver no Rio aumentam suas chances de fato receber seu disco.

Resumindo: São 14 discos, o centésimo comentarista tem prioridade na escolha do seu disco. Depois disso, a distribuição segue a partir do primeiro comentário, na ordem de chegada e pedidos, até acabarem as peças.

Abaixo, o Rafael descreve cada peça. Boa sorte!

Atualização: PROMO ENCERRADA!

1 Jorge Ben – Tábua de Esmeralda (Vinil Verde, só existe UM, foi um teste feito na fábrica…)N.E. – esse foi travado, meu disco favorito de todos os tempos
Jards Macalé - 1972 – Clássicos em Vinil – 180 gramas
1 Agridocevinil 12″ transparente!- foi um teste, tem 20 desses e vou fazer uma venda especial, peguei um e botei no seu pacote! (Exclusivo)
Agridoce - compacto Vermelho - “Ne Parle Pas” (lado B remix de Tejo do Instituto para a mesma música)
1 teste de prensagem “Agridoce” vinil laranja!
1 teste de prensagem Los Hermanos “Ventura” (duplo!)
1 teste de prensagem “Los Hermanos Ao Vivo” (duplo!)
1 teste de prensagem Los Hermanos “4″
1 Teste de Prensagem Pedro Santos – “Krishnanda” (!!!!!!!!!!! Item lindo raríssimo)
1 Teste de Prensagem Cícero“Canções de Apartamento”
1 Teste de Prensagem Black Alien“Babylon By Gus” que relançamos em vinil agora. – N.E. – por muita sorte de vocês não travei esse também
1 Nação Zumbicompacto “Fome de Tudo” – Lado A “Onde Tenho que Ir” – Lado B “A Culpa” (são as faixas que não entraram na versão em vinil 12″ do “Fome de Tud”o, pela questao tempo vs. qualidade)
1 “Voyeur” – compacto da banda eletropop de Recife
1 Boss In Drama“Pure Gold”
1 Panda Bear“Tomboy” – vinil 12″ (conhece isso? é um dos caras do Animal Collective)

Obs: Um teste de prensagem são de três a cinco cópias que são feitas antes da prensagem oficial começar, com rótulo exclusivo, pra se ouvir e saber se está bom, conferir som, peso, etc. Uma vez  aprovadas, começa a prensagem. São poucas testes e não são descartados porque estão bons, foram aprovados.

O URBe reserva-se o direito de mudar a regra completamente se der qualquer tipo de confusão ou mesmo cancelar o sorteio. É uma brincadeira, portanto divirtam-se!

MPC (Digitaldubs) fala sobre a noitada com Aba Shanti I no Rio (SORTEIO DE INGRESSO)

Aba Shanti I vem aí e MPC, do Digitaldubs, responsável pela noitada, explica porque sábado é um evento imperdível.

URBe – Explique para alguém que  não sabe bem o que é um sound system: qual a importância da noite de sábado?

MPC - Sound system é um termo bastante usado hoje em dia, mas poucos tem realmente noção do que é… Se uma pessoa curte reggae e nunca viu/ouviu um sound system, ela  apenas “acha” que sabe o que é reggae. Não importa a vertente – roots, dub, dancehall – a música reggae nasceu no sound system e só pode ser inteiramente apreciada num sound system. Não é a mesma coisa ouvir no iPod ou com um som normal de discoteca. E essa noite é imperdivel porque o nosso convidado, Aba Shanti-I, é um dos maiores representantes da cultura sound system atualmente.

URBe - O que Aba Shanti I representa pra cultura dos sound systems?

MPC – Pra resumir: “entendi” que tinha que montar as caixas do digitaldubs quando vi o Aba Shanti-I tocando. O Digitaldubs já estava em atividade há alguns anos, mas quando tive a experiencia de ver Aba controlando seu sound system ao vivo, mudou tudo. Espero que essa noite cause isso nas pessoas aqui.

URBe - Em termos da experiência de se visitar um sound system original, você se considera satisfeito com o que tem conseguido oferecer com os eventos do digitaldubs?

MPC - Estou feliz com o que o Digitaldubs vem oferecendo aqui no Rio em termos de qualidade de som. Claro que sempre queremos mais, só que as coisas vão crescer junto com a cena e com o publico. Nós estamos sempre trazendo atrações de peso pra cá, e modestia a parte, o Digitaldubs está fazendo um som de nivel internacional na cena dub (não à toa estamos sempre viajando pelo mundo).

Mas o diferencial dessa noite é que Aba Shanti-I é um mestre em ação. A forma que ele apresenta as músicas nos leva a um transe que faz o salão de dança virar um templo. Chega a ser uma viagem espiritual movida pelo som!

URBe - Fale um pouco do equipamento que será utilizado.

MPC – É o sistema do Digitaldubs. Se for necessário, vamos usar parte do som do teatro Rival. A vantagem é que o teatro é no subsolo e não tem vizinhança, então vamos poder soltar o grave como poucas vezes podemos.

PROMO: o primeiro a dizer a melhor maneira de se aproveitar os graves nos comentários leva 01 (um) ingresso individual para assistir o Aba Shanti I no Rival.

ATUALIZAÇÃO: Promo encerrada, o vencedor foi Emílio Dossi.

Abaixo, o trecho sobre sound systems do documentário sobre dub que dirigi, “Dub Echoes”:

Transcultura #100: Doo Doo Doo, Mohandas, Amplexos

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Entrevista coletiva
Doo Doo Doo, Mohandas e Amplexos: três bandas que acabam de lançar o primeiro disco se entrevistam
por Bruno Natal

Um dos grandes entraves do mercado independente é a falta de interação entre os artistas. Poucos se escutam, menos ainda se frequentam, e a tal cena às vezes mais se assemelha a uma disputa por território, na qual perdem todos, fechados em panelas e nichos. Este mês, três bandas — duas cariocas e uma de Volta Redonda — lançaram seus discos de estreia, disponíveis para baixar de graça: Doo Doo Doo (“Casa das Macacas”), Amplexos (“A música da alma”) e Mohandas (“Etnopop”).

A pedido da Transcultura, integrantes das três bandas se entrevistaram. Nenhum conhecia o trabalho do outro, então só esse exercício já teria valido a pena. Eles conversaram sobre influências, sonoridades e métodos de trabalho. Sobretudo, se enxergaram. São três bandas bastante diferentes, e é exatamente desse atrito que pode sair algo de novo.

DOO DOO DOO (Alberto Kury) responde a MOHANDAS (Eduardo Lacerda)


Doo Doo Doo

O disco de vocês, assim como o nosso, foi literalmente “feito em casa”, no esquema independente. Além da divulgação on-line, com o download gratuito, sabemos que os shows são fundamentais para a banda seguir a jornada. Qual é o foco de vocês pra circular com o disco ao vivo? O que vier vocês “traçam”?

Traçamos o que vier! Costumamos fazer shows em lugares mais under, como Plano B, Audio Rebel e Tico Taco, na Lapa, lugares que frequentamos. Com o álbum disponível na rede, a ideia é aumentar esse leque, chegar em mais gente. E, como já disse o outro, a gente monta banda pra ser escalado em festival e ganhar vip.

O clipe “Carnaval no inferno” é bem interessante, com uma pegada de humor trash. Somos de uma geração que EStá pegando a transição da MTV para o YouTube, no qual produções mais caseiras, com boas ideias, podem “vingar”, gerar audiência. Que importância vocês dão para os clipes dentro do trabalho da banda?

Heheh, na verdade, o nome é “Carnaval no fogo”. Hoje em dia, fazer um videoclipe é um passo imprescindível na divulgação de qualquer banda. Tem gente que só ouve música pelo YouTube! E, assim como no caso da gravação do disco em casa, com os meios digitais hoje, fazer um clipe “na marra” é, além de viável, altamente recomendável. Nós gostamos muito, desde o início pensamos em fazer um vídeo pra cada faixa, talvez role, acaba acrescentando mais uma variante de significado às músicas.

Além das influências como o Animal Collective e o Tune Yards que vocês listaram no Myspace, pesquei também outras ascendências, como Kraftwerk, Nirvana. Os teclados e guitarras têm coisas de rock 1960 e às vezes de blues. Quais as referências nacionais no som que fazem?

Mutantes é sempre uma referência, mas crescemos ouvindo muita Legião Urbana também. Na verdade, o pessoal ouve de tudo, é impossível fugir do Caetano, do Tom Jobim, por exemplo, esses sons já meio que nascem dentro da gente.

O disco de vocês é todo autoral – mais uma convergência dos nossos trabalhos. Como é esse processo de criação coletiva? As bases vão abraçando as letras (que são todas em português), ou vocês criam essas texturas e camadas e as músicas vão vindo na esteira?

Normalmente, o Dudu mostra um rabisco da canção e o resto do pessoal vai acrescentando elementos e vamos arranjando em conjunto. Como agora estamos com um estúdio na Lapa, o Coletivo Machina, e temos mais tempo e espaço, temos caminhado para um processo mais coletivo de composição.

Uma pequena provocação agora. Qual ou quais artistas vocês acham que não gostariam do trabalho de vocês? E qual público rejeitaria seu som?

Temos uma certa dificuldade de nos encaixarmos em um gênero musical específico talvez porque enxerguemos a música por um prisma mais universal, então, à princípio, todos poderiam gostar do nosso som… mas acho que a Maria Bethânia é uma que ficaria nervosa de não entender as letras direito.

Vocês definem seu som como um “pop experimental”. Agora, de que pop vocês estão falando? Uma coisa ligada a determinados gêneros musicais ou o pop no sentido de uma música popular mais acessível ou convencional?

Pop no sentido de canção radiofônica, de utilizar estrofes e refrães grudentos, de falar de amor e de dor, de juntar elementos de cultura de massa. Mesmo que o resultado caminhe por um viés mais esquisito ou experimental, a estrutura das músicas é de canções pop.

AMPLEXOS (Eduardo Valiante) responde a DOO DOO DOO (Alberto Kury):


Amplexos

Como é o processo de composição? Vocês são filhos da linha evolutiva da MPB?

Temos um compositor, que faz as letras e melodias principais, e os arranjos são feitos em conjunto. Tocamos juntos há bastante tempo e sabemos pra onde ir. Muitas vezes a gente fica tocando uma levada até que ela “fixe o groove”, e aí já temos uma base. A composição dessas letras e melodias é que não tem regra. Pro disco, metade das músicas saiu sem a gente ter muita noção sobre o que tava falando… depois é que percebemos que havia algo ali em comum. Somos gratos pela inspiração e pela oportunidade que temos de fazer música. Nunca pensei nesse lance de linha evolutiva da MPB, não sei se a gente faz parte dessa linha evolutiva e, mais ainda, não sei o que é ser filho de uma linha evolutiva.

Vocês acham que a história sonora do planeta chegou ao seu limite de inovação estética ou ainda há muito o que explorar? Vocês são filhos do Fukuyama?

A gente acredita que há muito a ser criado. O ser humano ainda não evoluiu o suficiente para criar uma música nova. É só olhar pra dentro e ver o quanto a gente continua errando. Ao mesmo tempo, acreditamos que novo é o que se comunica com a época. A música tem o papel de mudar muita coisa na vida de uma pessoa. Se eu conseguir passar uma mensagem, minha música serve para essa pessoa, é nova. Ah, e não conhecemos Fukuyama.

A indústria fonográfica está em transição. Amplexos: como vivem, do que se alimentam? Vocês realmente acreditam no download livre? Vocês são filhos do Radiohead?

A eterna transição! Todos vivemos de música, temos projetos paralelos, trabalhamos em estúdio. A gente vive no perrengue, mas é o que escolhemos, fazemos música com muita alegria. E nos alimentamos bem dela e com ela, comemos frutas, fibras e verduras, praticamos esportes e cuidamos da saúde. O download livre é algo em que a gente acredita. Todos baixamos música grátis, e isso contribui na nossa formação. É claro que eu gostaria que todos comprassem nosso disco. Ao mesmo tempo, nossa música é para ser espalhada, E adoramos o Radiohead, mas definitivamente não somos filhos deles.

Vimos que vocês participaram do tributo ao Raça Negra. A experiência de arranjar, ensaiar e gravar essa música deixou alguma marca do som deles em vocês? Vocês são netos da Tropicália?

A gente adora o Raça Negra, desde sempre. Temos integrantes na banda que são fãs de verdade do grupo e a marca do som deles já estava no nosso som antes mesmo de a gente gravar uma música deles. Fazer a versão de “Quando te encontrei” foi algo muito natural. Tivemos um papo, escutamos algumas vezes, fizemos um ensaio e fomos para o estúdio. E adoramos a Tropicália, o Gil, Oiticica, Tom Zé… são artistas que nos influenciam até hoje de alguma forma. E, cara, a gente não pensa em música assim, em uma “árvore genealógica”. Estamos quase em 2013, a Tropicália é um movimento da década de 1960/1970, muito importante para a época e que tem reflexos até hoje, mas a gente não pensa neles na hora de fazer música.

Vocês tiveram a participação especialíssima de Oghene Kologbo, guitarrista nigeriano que gravou com Fela Kuti. Como foi essa experiência com ele no estúdio e no palco, já que ele também fez participações nos shows? Vocês são filhos do Fela?

Mais do que a experiência de música, foi uma experiência pessoal muito importante. Na primeira vez que ele veio ao Brasil, nós ainda não tínhamos lançado o disco e o Kologbo ter ido até Volta Redonda e passado esses dias com a gente foi muito simbólico e nos deu muita força. Ele trouxe o afrobeat genuíno e isso enriqueceu bastante a nossa música, os nossos shows, e nos deu mais liberdade na hora de fazer o nosso som. E, cara, essa parada de perguntar se somos filhos está meio chata, porque a gente não conseguiu responder isso direito até agora… não é bem assim que a gente pensa. Mas se tivéssemos que escolher um pai entre esses que vocês citaram, o Fela seria um bom pai. A gente adora a música dos filhos dele, do Seun Kuti, especialmente.

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MOHANDAS (Eduardo Lacerda) responde a AMPLEXOS (Eduardo Valiante):


Mohandas

“Etnopop” é uma espécie de conceito criado para definir o som do Mohandas. Qual foi e é a importância da música “étnica” e da música pop para vocês?

A música étnica foi um ponto de convergência entre nós. Muitos de nós passamos pela escola da percussão popular brasileira, do Maracatu de Baque Virado à formação de escola de samba e às muitas manifestações populares de nossa cultura. As tradições musicais africanas, indianas, latinas, caribenhas também nos fascinam. Já a música pop é importante pelo simples fato de ser uma cultura na qual estamos imersos. Sem falar que os gêneros musicais sob esse guarda-chuva do pop são parte fundamental de nossa cultura. O etnopop que criamos busca conciliar essas informações, fazer a aldeia dialogar com mundo e vice-versa.

A música do Mohandas dialoga com os tempos de hoje? E para quem é?

A música é uma expressão de quem a faz, e estamos sempre em movimento. Temos canções como “George Clooney” e “Monkey dance”, que são críticas diretas aos tempos atuais. E temos “Kite” e “Mohandas”, com mensagens sobre amor fraterno, luta pacífica, integração dos povos, que são valores atemporais. Musicalmente, dialogamos com as informações que nos chegam, e procuramos saber mais, por isso o carimbó misturado ao funk e à eletrônica, são todos atuais. Acho que quem vai dizer para quem é essa música é o próprio público, que se apropria destas mensagens e faz nossa música ter sentido.

Para nós, que estamos no interior do Rio, parece haver uma multiplicação de artistas “fofos”, com muita pose e pouca coisa relevante a dizer. O que vocês acham da cena carioca?

Vivemos um momento fértil. É claro que, aumentando a oferta, aumenta a disparidade. Mas, falando de cena, acho importante que os artistas se ajudem. Não dá pra confundir independente com isolado. Vejo com bons olhos bandas interessadas em ir pra rua mostrar o trabalho, como Biltre, Maracutaia, Feijão coletivo. Tem boas bandas (e más) em todos os estilos. Nos identificamos com Letuce, Cícero, Tono e outros.

O som do Mohandas tem um pouco de estilos bem populares (do “povão”). Os shows na Pedra do Leme, abertos ao público, são boas oportunidades de mostrarem a música de vocês para um público mais amplo, mas vocês já experimentaram levar (ou devolver) essa música para locais mais periféricos, que é de onde vem muitas referências que vocês usam?

Nós temos a intenção de tocar em espaços públicos sempre que possível. Obviamente adoraríamos levar nosso som ao Pará, aos países da América Latina e às cidades africanas cujas culturas musicais nos servem de inspiração, mas é um tanto complicado realizar esse desejo, não é? Queremos sim levar nossa música aos guetos e periferias, não para pagar alguma espécie de “dívida de gratidão” com eles, porque a cultura é um documento de atuação pública, está aí para ser devorada e reinventada, mas porque queremos nos comunicar e achamos que todos merecem acesso à diversidade cultural. Nós queremos fazer nossa arte dialogar com as pessoas, seja no Leme, no Alemão, em Madureira ou onde for.

A música do Mohandas é feita para mover as pessoas, mudar alguma coisa em suas vidas e causar alguma reflexão, ou é uma música somente para divertir, entreter?

Acho que a nossa música é feita para dar expressão ao que sentimos. Fazer música é nossa forma de estar no mundo, de dialogar com as pessoas à nossa volta. É um reflexo do que sentimos, pensamos, dos nossos gostos, alegrias e sofrimentos, indignações. E acreditamos que muitas pessoas possam compartilhar destes mesmos sentimentos e também terem as mesmas angústias e felicidades, então daí vem a comunicação. Não estamos preocupados em ser virtuosos ou eruditos, revoltados contra o sistema, tampouco condescendentes com ele. Por outro lado, não temos a pretensão e nem paciência para ser puro entretenimento, música-chiclete, de fácil digestão e mais fácil ainda perecimento.

Tchequirau

Um dia todos humanos terão a oportunidade de visitar o espaço. Enquanto essa aguardada hora não chega, a página How many people are in space right now (Quantas pessoas estão no espaço nesse exato momento) mantém a contagem em dia. Hoje, há apenas três astronautas, todos a bordo da EEI.