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Moptóveis


URBe TV

Muito bom poder assistir Moptop e Móveis Coloniais de Acaju no Canecão, num evento que contou com o apoio do URBe. São bandas que merecem tocar num palco tão bacana, com som bom, num esquema decente.

No vídeo acima, você assiste a trechos dos shows e entrevistas com os vocalistas de ambos os grupos.

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5 perguntas – João Brasil

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João Brasil é um sujeito família

O mito João Brasil é figura conhecida do URBe. Com uma penca de hits lançados (“Baranga”, “Supercool”, “Mamãe virei capitalista” e “Elisa”), essa semana João lançou duas novas pérolas: “O carnaval acabou com o meu fígado” (sua melhor faixa em termos de produção) e “Monica Valvogeu”, uma ode à mulher madura.

Não bastasse isso, agora João está escrevendo um blogue e se prepara para encararar os palcos, estreiando na festa de 4 anos do URBe, nessa quinta, no Pista 3.

Quem é João Brasil?

João Brasil é cantor, compositor, multi-instrumentista, mito, hit-maker underground, natureza subversiva, gênio para alguns, viciado em comunicão e música pop, faz músicas bem-humoradas e sarcásticas, ouseja, um cara legal.

Uma palavra: baranga.

Tipo de mulher predominante no mundo, todos os homens já se engraçaram com uma, pelo menos uma vez. Mulher banida das capas de revistas femininas e masculinas. A anti-heroína, a anti-mídia, o mau necessário. Elas sempre te divertem.

Como será esse primeiro show?

O primeiro show, ah o primeiro show: eu, um laptop e algumas parafernálias midi. O rapper De Leve fará uma participação.

Quais as novidades?

Tem duas músicas novas que cantarei no show: “O carnaval acabou com meu fígado” e “Monica Valvogeu”. A primeira é meu primeiro trabalho para orquestra e a segunda é um ode a essa maravilha da meia-idade, uma celebração a inteligência femina!

Quais os próximos planos?

Meus planos para o futuro são: continuar compondo, fazer shows pelo Brasil, começar a fazer um programa de entrevistas chamado “João Brasil Show” e claro, tentar mostrar minha música para a Monica.

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Entrevista – Explosions in the sky

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Os texanos do Explosions In The Sky, fazem longas músicas instrumentais, climáticas, com diversas camadas de guitarras hipnóticas, muitas vezes culminado, hmm, em grandes explosões.

A comparação com uma trilha sonora de cinema é imediata e, não por acaso, em 2004, o EITS compôs a trilha incidental do filme “Friday night lights”. Estrelado por Billy Bob Thornton, o filme, baseado num livro sobre uma história real, conta a história de um time de futebol americano de Odessa, cidade próxima de onde três dos integrantes cresceram.

Aproveitando o lançamento do seu quinto disco, “All of a sudden I miss everyone”, o URBe conversou, via e-mail, com Mark Smith, um dos três guitarristas da banda.

A música do Explosions in the sky tem um tom melancólico. Não exatamente triste, mas contemplativo. Quais são suas inspirações e intenções?

As mesmas coisas que inspiram a maior parte das pessoas a fazer música, basicamente, nossas vidas. Não acho que nenhum de nós leva uma vida especialmente excitante, mas apesar disso (ou provavelmente por causa disso) nós somos pessoas muito contemplativas. Nossa variações de humor levam as nossas dinâmicas, nossos arrependimentos e esperanças aos nossos tons, etc.

Sem letras para determinar o clima, o que serve como guia para EITS ao escrever as músicas? O que surge primeiro?

As guitarras sempre vem primeiro. Geralmente alguém toca um riff simples, todo o resto tenta acompanhar e se desenvolve a partir daí.

Rótulos são um saco, músicos não gostam disso, mas eles existem. Nesse sentido, como você classificaria o som do EITS? Post rock?

Post rock não foi definido o suficiente para ser significativo. Nós nos consideramos simplesmente uma banda de rock.

Que tipo de som a banda escuta, além das referências óbvias que se espera, como Fugazi, Mogwai, etc?

Nos últimos anos, todos nós expandimos além das nossas influências iniciais. Escutamos bastante música ambient (Stars of the Lid, Belong, Eluvium), soul dos anos 60 (Sam Cooke, Nina Simone), hip hop (Clipse, MF Doom), metal (Mastodon, Ludicra)… Além do que, todos nós temos um fraco por música pop realmente boa (Jens Lekman, The Shins).

O disco novo, “All of a sudden I miss everyone”, soa mais pesado, mais alto, com mais guitarras distorcidas. Era essa a intenção?

Não, eu não diria que essa era a intenção, mas ficou bem claro, desde o início — “The birth an death of the day” foi a primeira música que compusemos para esse disco. O disco novo é mais pesado que “The earth is not a cold dead place”, mas não tão pesado quanto “Those who tell the truth…”, eu acho. Gosto de pensar que esse disco é mais diversificado que os outros.

Vocês gravaram o disco no estúdio Pachyderm, o mesmo no qual o Nirvana gravou o “In utero”. Fale sobre essa escolha, esse estúdio sendo em Minessota e não no Texas, de onde vocês são.

John Congleton, o engenheiro de som de “All of a sudden I miss everyone” e do “The earth in nota a cold dead place”, foi quem sugeriu esse estúdio. Ele nos mostrou umas fotos na internet, falou sobre o Nirvana e nós compramos a idéia. E acabou sendo uma grande escolha — nós amamos — num lugar bonito e remoto, cheio de árvores, redes, trilhas, lagos, etc.

Dessa vez, uma tiragem com um disco de remixes acompanha a versão original (o disco traz um remix do Four Tet, Eluvium, The paper chase e outros). De quem foi essa idéia e como os convidados foram escolhidos?

A idéia do disco de remix foi do Jeremy Devine, responsável pelo Temporary Residence (nosso selo nos EUA). Nós escolhemos os artistas junto com ele. Sinceramente, estou totalmente extasiado como disco de remixes, amo todas as versões.

As músicas soam muito diferentes ao vivo. Mesmo nos discos, o aspecto de improvisação parece bem importante. Vocês estão acostumados a tocar em lugares grandes e ao ar livre, como o Coachella? Esse cenário parece se encaixar bem com a banda.

As músicas ficam bem parecidas com as versões gravadas quando tocamos ao vivo e isso porque nós gravamos os discos ao vivo. Escrevemos cada canção tendo certeza de que podemos tocá-la ao vivo. Nós improvisamos para criar músicas, mas depois de escritas, elas permanecem basicamente iguais.

Nós já tocamos em alguns festivais ao ar livre, mas nenhum tão grande quanto o Coachella. Certamente há algo legal num show para milhares de pessoas, mas para ser sincero, nós preferimos lugares pequenos.

A cena independente no Brasil está se organizando, embora o caminho ainda seja longo. Vendo daqui, banda americanas e européias parecem ter mais saída para sua música e, mesmo as menores, conseguem viver disso. Isso é real ou é uma interpretação errada? Como é a vida de uma banda independente nos EUA?

Essa é uma questão difícil de responder. Nós nos consideramos EXTREMAMENTE sortudos, porque estamos tendo a chance de fazer exatamente o que nós amamos e ganhamos dinheiro o suficiente para viver apenas da banda, sem precisar de outros empregos.

Obviamente, poucas bandas nos EUA podem fazer isso. Em outros países (como Canadá e alguns da Europa) existem subsídios artísticos oferecidos pelos governos, nos EUA não. Entretanto, parece haver mais chances para bandas menores hoje em dia, principalmente graças a internet.

A internet foi importante para divulgação do trabalho do EITS?

A internet tem sido muito importante para nós. Muita gente descobriu nossos primeiros discos (os quais tiveram muito, muito pouca promoção e propaganda) no boca-a-boca, a maior parte feito pela rede. E continua acontecendo assim.

Você conhece alguma das bandas brasileiras que transitam pelo post rock (por falta de termo melhor), entre eles Hurtmold e M. Takara?

Não, nunca ouvi nenhum desses. Estamos em turnê agora, então é bem difícil conferir os saites. Farei isso no futuro.

Alguma chance de ver o EITS no Brasil?

Por favor, peça alguém para nos convidar, porque nós adoraríamos ir!

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Hermanos en dub

Passando por Buenos Aires, Joca Vidal tocou em um evento ao ar livre da rapaziada da Army of Dub. Mostrou Digitaldubs, Lucas Santtana e outras brasilidades para os hermanos portenhos.

Aproveitou e fez uma matéria, exclusiva para o URBe, com imagens do sound system e entrevista com o DJ Cucho, falando sobre a cena argentina.

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Entrevista – Dr. Eduardo Senna

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No dia 17 de outubro de 2006, numa entrevista coletiva no hotel Copacabana Palace, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) anunciou que iniciou 20 ações cíveis contra usuários de internet que fazem troca ilegal de música na rede.

Nada de especial foi estabelecido no evento. O encontro foi apenas para anunciar algo praticado há muito tempo pelos altos executivos da área, marcando oficialmente o início desse tipo de ações no país.

O URBe conversou com o Dr. Eduardo Senna, especialista em propriedade intelectual, mestre pela universidade Valladolid e sócio do KCP advogados, para entender melhor quais mudanças estão por vir na relação entre a indústria e os consumidores no Brasil.

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O que está acontecendo com a indústria? Combater seus próprios consumidores parece uma atitude equivocada.

Uma teoria que tenho é de que o movimento pendular da história está puxando o mercado da música de volta às suas origens.

Todas as majors do mercado fonográfico (exceto a Warner) foram criadas por fabricantes de aparatos eletrônicos. A Polygram foi criada pela Phillips; a RCA, que virou BMG e agora é Sony-BMG, foi criada pela AT&T e a GE, incorporando em 1929 a Victor Talking Machine, principal produtora de tocadores de disco (vitrolas) da época; EMI é a sigla originada por Eletric and Music Industries Ltda; o caso da Sony, grande fabricante de eletrônicos, nem preciso mencionar.

A indústria de discos nasceu da necessidade de produzir conteúdo para gerar demanda por produtos muito mais caros e de muito valor agregado: rádios e tocadores de disco. Nasceu como um apêndice da indústria de aparelhos eletrônicos. Em um determinado momento a industria de discos começou a dar dinheiro e ganhou vida própria. Hoje a indústria sofre com a facilidade de cópia e distribuição.

Vejo uma tendência de a produção e distribuição de música e conteúdo em geral ser cada vez mais financiada pelos produtores de aparatos e prestadores de serviço que ganham em cima da distribuição de conteúdo (Apple, empresas de telefonia, Nokia, Motorola, TV digital, etc). Ressalto que essa é uma teoria baseada na observação do mercado e impressões pessoais.

Seria uma lógica de mercado que casaria muito bem com os fenômenos já constatados do barateamento da produção de conteúdo, simplicidade e eficiência na distribuição e proliferação dos mercados de nicho.

O mercado mudou?

A tendência é que se produza muito mais coisas com menos custo. Madona e Rolling Stones são alguns dos últimos exemplos de uma momento onde um número enorme de pessoas desenvolviam gostos parecidos, porque escutavam as mesmas rádios e viam os mesmos programas de televisão. Era a lógica da comunicação de um para muitos.

A lógica hoje é mais dispersa, é de comunicação de muitos para muitos. Mesmo os canais de TV (e IPTV) e rádios (e rádio IP e podcast) são em número muito maior e de perfis muito mais variados do que antes. Isso se traduz em muitos nichos a serem aproveitados, porém todos com uma margem de lucro e de volume muito mais baixa que os grandes sucessos de antes, com seus enormes custos de marketing e propaganda massiva.

Diante dessa lógica, utilizar uma tática que implique em fixar uma imagem negativa e de antipatia na cabeça dos consumidores, que têm a sua disposição uma série de mecanismos para burlar com sucesso qualquer esforço que a indústria faça para impedir o uso indevido de obras intelectuais, pode não ser o mais sensato.

A indústria pode e deve zelar pelo respeito aos seus direitos. No entanto, a falta de sensibilidade, a pouca compreensão das nuances do novo mercado e, acima de tudo, dos hábitos de consumo da nova geração, pode cobrar um preço ainda mais caro no futuro.

Este preço pode ser, até, uma volta ao passado. A indústria de discos poderia voltar a ser um apêndice da indústria de aparatos eletrônicos, o que seria uma grande perda para a sociedade e para a cultura.

Quem disponibiliza links para baixar discos na rede, como os blogues de MP3, mesmo que não tenha sido o responsável pelo upload, pode ter problemas legais?

Esse usuário pode ficar tranqüilo, por enquanto. Mesmo em tese, teriam que fazer força para enquadrar esse usuário em distribuição (pirataria). Na prática, o pior que poderia acontecer é receber uma notificação. A perseguição vai se concentrar, pelo menos de início, nos uploaders, que são as pessoas que estão disponibilizando arquivos desde sua própria máquina.

Como um usuário, efetivamente, é envolvido num processo desses?

Esse assunto é meio cinzento. Pelo texto da lei, eles podem processar qualquer um que distribua arquivos. O problema é que em um sistema P2P (person to person) todo mundo que baixa, também distribui.

O fato é que eles vão atrás de gente que disponibiliza muita coisa, como por exemplo, o cara que coloca um monte de DVDs no bit torrent. O usuário “normal”, em tese, não está ameaçado. Em tese, porque, para um acabar caindo de gaiato não é muito difícil. Esse é o terror que a industria quer difundir, deixando as pessoas com medo de baixar coisa da internet.

O grande problema é que essa tática deu certo nos EUA e por isso estão replicando em outros países. Mas ninguém está levando em conta as diferenças sociais e culturais.

Pirataria comercial (camelô) nos EUA representa menos de 6% do mercado, no Brasil esse número chega a 50%. O grau de inclusão digital nos EUA é altíssimo, no Brasil não chega a 20% da população.

O assunto é longo e solução concreta para o problema ninguém tem. Do ponto de vista legal você não deveria baixar nada, do ponto de vista pragmático você deve prestar atenção, mas não precisa ficar aterrorizado, podendo manter hábitos “normais” na internet.

Gostaria de saber como alguém é descoberto trocando arquivos. Através do endereço IP (os endereços individuais de cada computador conectado à internet)? Um belo dia batem na porta da sua casa, dizendo “é a polícia”?

O sistema é mais ou menos assim: Eles identificam a pessoa que está “violando direito autoral” junto ao servidor através de uma ordem judicial e entram com uma ação de reparação de danos por violação de direito autoral. Se a pessoa realmente disponibilizou muita coisa e muita gente baixou, a indústria pode usar esses números para pedir indenizações altíssimas.

O provedor pode ser obrigado judicialmente a prestar essas informações. Ninguém usa máscara de IP (TOR, por exemplo) para trocar arquivo P2P. Um dia chega à sua porta uma citação onde você é réu de um processo judicial que te cobra uma grana preta por “violação de direito autoral”.

Não tem processo criminal, não envolve polícia. Nos EUA sim, tem gente presa e tudo. Aqui, isso, de momento, não vai acontecer.

A lei está do lado de quem?

O fato é que a lei está do lado da indústria, mas a tecnologia e os fatos nem tanto. A base legal para processar é legítima.

Tudo começou com o Napster. No julgamento o Napster perdeu a briga muito mais pelo fato de sua propaganda induzir as pessoas a trocar conteúdo protegido por direito autoral do que pela utilização da tecnologia P2P. Há um célebre julgado da suprema corte americana que diz, em síntese, que qualquer tecnologia que possa ter um uso legítimo não pode ser banida por conta de seus usos ilegítimos.

Outras ações da mesma natureza proposta pela industria contra sites deste tipo, como Grotsker nos EUA, Kazaa na Australia e Kuro em Taiwan, entre outros, tiveram também um desfecho favorável para a industria.

Até agora, nada disso acabou com a troca de arquivos.

Tendo prejuízo com a troca de arquivos, a indústria americana começou a processar usuários, mandando alguns, como disse, à cadeia. E fez efeito. As pessoas realmente ficaram com medo e índice de troca de arquivos nos EUA caiu.

O fato é que os sites de troca de arquivo P2P não vão acabar e nem todos podem ser perseguidos, pois os que aparecem já vêm com uma cosciência maior das questões legais e tornam mais difícil o trabalho dos advogados da indústria de tirá-los do ar.

Qualquer pessoa que viole propriedade intelectual pode ser processada por isso, da mesma maneira que alguém que arrebente o seu carro, sua casa ou qualquer propriedade sua, também pode. Mas quando a propriedade é imaterial a coisa é mais complicada.

Essa tática pode funcionar no Brasil?

Pessoalmente, acho um tiro n’água a industria fazer isso no Brasil. Pelo menos da maneira como foi feito. A indústria tem o direito de defender sua atividade econômica e está utilizando os instrumentos que a lei dá para isso, mas em um país onde a pirataria comercial é de mais de 50% e o número de pessoas com acesso a internet de banda larga é muito pequeno, parece gastar tempo, dinheiro e energia em um foco de resultado duvidoso.

O outro lado disso é a prejuízo de imagem para a indústria. Essas iniciativas são extremamente impopulares, em especial com o público jovem, que é a grande força de consumo presente e futuro de qualquer mercado, em especial o de música.

Gerar esse tipo de animosidade quando não há outra saída é uma coisa. Deliberadamente fixar uma imagem antipática junto aos seus consumidores para solucionar um problema que na verdade não é o problema (a questão aqui é pirataria comercial, não de internet), é outro jogo.

Como você vê essa disputa no futuro? Quais as possíveis soluções, tanto para o mercado quanto para o consumidor? Emprestar discos para amigos é um hábito inerente a fazer a coleção…

O futuro é incerto ainda, mas vejo sinais bastante claros em alguns sentidos.

No ponto específico da troca de arquivos, o que preocupa a industria é o volume. Você só pode emprestar seu disco físico para um amigo de cada vez, mas se vc coloca no torrent pode compartilhar com milhares de pessoas ao mesmo tempo. E todas elas fazem uma cópia. A intenção é coibir a disponibilização massiva de conteúdo, mas do ponto de vista prático é muito difícil.

O futuro da música, como mercado global, é a distribuição sem suporte. CDs, físicos, com encarte, embalagem, custos de produção, distribuição, estoque etc, vão continuar existindo, mas vão ceder espaço cada vez maior para a distribuição sem suporte. O desafio é cobrar por isso.

Há casos de sucesso como o iTunes, mas na América Latina a compra on line de música ainda não decolou. Mesmo na Europa, exceto por Reino Unido e Alemanha, também está engatinhado. A telefonia celular, por sua vez, está de vento em popa com o mercado de distribuição de conteúdo.

Mercados de nicho também são um fator muito importante. Enquanto um aficionado em determinados produtos que não sejam de massa tem grande dificuldade de encontrar os produtos que procura no mundo físico, no mundo virtual isso não é um problema. A capacidade de tornar rentáveis produtos que no mundo físico não chegariam aos seus potenciais consumidores, e portanto seriam descartados pela lógica da cadeia de produção, é dos principais criadores de novos mercados de conteúdo para distribuição virtual.

O próprio relatório anual da IFPI aponta a distribuição por telefonia celular como “menina dos olhos” da indústria fonográfica. Muitos números interessantes podem ser encontrados nesse relatório.

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Entrevista – Luke Jenner (The Rapture)

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Num ano cheio de segundos discos de bandas que estouraram logo no primeiro (recapitulando, de cabeça: Mombojó, TV on the Radio, Kasabian, Nego Moçambique vindo por aí…), o Rapture também chega à “hora do vamos ver” com o ótimo “Pieces of the people we love”.

Encontrei essa entrevista com Luke Jenner, vocalista do Rapture, que simplesmente havia esquecido de publicar.

Feita em maio desse ano, durante a edição mexicana do Nokia Trends, em parceria com Lúcio Ribeiro, Luke fala sobre o novo disco, um pouco antes do lançamento.

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Bruno Natal – Vocês trabalharam com o produtor Danger Mouse no novo disco, não é? Já está pronto?

Sim. O disco já está pronto, estamos mixando. Temos que decidir o que vai entrar ou não.

BN – Uma das músicas novas, “W.A.Y.U.H.” vazou na internet.

O Mattie [Safer, baixista da banda] canta nessa música, ninguém sabe que ele canta, mas ele canta.

Lúcio Ribeiro – E não vai entrar no disco?

Vai, com certeza. O Mattie canta em metade das músicas. É uma grande mudança.

LR – O que “W.A.Y.U.H.” significa?

Significa “We’ll Alright, Yeah, Uh-Huh”.

LR – E o segundo disco, tá muito diferente?

Mattie canta em metade das músicas, o Gabe [Andruzzi] está na banda há mais tempo… [No primeiro disco] ele só gravou saxofone, em dois dias, agora ele teve mais opinião. Passamos mais tempo escrevendo as músicas também. O último disco era mais forçado algumas vezes, dessa vez está mais natural.

LR – E não está pronto ainda?

Está, estamos mixando, só temos que decidir a sequência e tal.

BN – Como vocês se juntaram com o produtor Danger Mouse? Ele está se tornando uma figura importante na música pop, depois de produzir o segundo disco do Gorillaz, o MF Doom e criar o Gnarls Barkley.

Nós o conhecemos antes dele ficar famoso. Nós tocamos com ele numa festa do Adult Swim [faixa de desenhos animados para adultos, do canal Cartoon Network] e não tinha mais ninguém lá, então nós ficamos juntos a noite toda. Ele falou, “quando tivermos uma chance, deveríamos trabalhar juntos”, e nós falamos “beleza”. Naquela época nós já tínhamos ouvido o “Grey album”, ouvimos umas outras coisas.

BN – Para nós, fora dos EUA, a impressão é que ele não era ninguém antes do “Grey album” e, de repente, explodiu, né?

É o que estou dizendo. Quando conhecemos a [gravadora] DFA eles também não eram ninguém. Espero que Paul Epworth e Ewan Pearson também se tornem nome maiores depois desse disco.

BN – Como foi trabalhar como Danger Mouse, ele sendo mais ligado ao hip hop?

Gravamos a maior parte do disco com o Ewan Pearson e Paul Epworth e eles são de uma escola mais dance, mais ou menos. Ewan Pearson ganha a vida fazendo remixes [para Franz Ferdinand, Royksopp e para o próprio Rapture] e como DJ e o Paul trabalha principalmente com bandas de rock.

BN – Quais?

Hum, não sei. Se você fizer uma busca no Google vai ser melhor do que eu tentando inventar [Bloc Party, Goldfrapp, Babyshambles, The Streets, Maximo Park, são algumas das mais conhecidas].

Ele foi nosso engenheiro de som, então o conhecemos como engenheiro, antes de produtor. A maior parte do tempo tentamos trabalhar com nossos amigos, porque é mais divertido que trabalhar com alguém que você não conhece.

BN – Qual foi o trabalho do Danger Mouse no disco então?

Nós passamos duas semanas em Los Angeles pra trabalhar com o Danger Mouse, provavelmente duas músicas vão estar no disco. Nós gravamos umas cinco.

BN – Então não foi o disco inteiro?

Não, não, não. A maneira como ele trabalha é bem diferente. Trabalhamos com ele mais pra dar uma variada, sabe, queríamos algo diferente. Fizemos a maior parte do disco e pensamos, bem, temos isso e está bom, mas queremos algo diferente. Foi assim.

BN – “W.A.Y.U.H.” foi uma das que ele produziu?

Não, o Paul e o Ewan produziram essa.

LR – No Soulseek a música está identificada como parte da “Danger Mouse sessions”.

As pessoas só conhecem o Danger Mouse, então elas querem escrever “Danger Mouse”. Quando nosso disco sair vai ser apenas “Danger Mouse”, que é uma besteira, mas o que a gente pode fazer? Eu não escrevo os artigos.

LR – O disco novo já tem nome?

Não, não sabemos. Mudamos o nome algumas vezes, a música de trabalho muda toda semana… A gente não sabe. Essa música vazou, as pessoas gostaram…

LR – Mas vocês têm que decidir.

Em duas semanas estará finalizado.

BN – Quando sai?

Provavelmente em setembro.

BN – Em meio a esse frenesi da internet atualmente, em que toda semana surge uma melhor banda do mundo…

Eu gosto, eu gosto.

BN – …vocês foram essa banda há uns anos atrás e estão tendo uma nova chance. Você acha que isso ajuda ou atrapalha?

(Risos) É, é! Acho que ajuda, porque é tão difícil colocar seu nome na consciência das pessoas, esse é o maior desafio pra qualquer artista. Quando você faz isso, é questão de você ser bom ou não. Depois que as pessoas ouvem seu nome elas podem decidir, mas se elas nunca ouviram, esquece, você não tem chance nenhuma. Acho que nós somos bons e as pessoas ouviram falar da gente, então agora elas podem decidir se somos bons ou não.

O que é bom dessa vez, porque não é mais apenas “você é a banda do momento e eu não sei o que pensar porque todas essas pessoas antenadas gostam e eu não tenho certeza se gosto disso”, sabe o que estou dizendo? O papo agora é somente se é bom ou não, saber isso é reconfortante.

BN – Mas em termos de atenção das pessoas, da imprensa, você acha que o segundo disco de vocês vai atrair mais atenção ou a reação vai ser “ah, é só o Rapture de novo”?

Não sei, vamos descobrir. É a nossa primeira vez nessa posição, vamos ver. Você pode escrever no final do seu artigo o que aconteceu de verdade, porque eu não sei.

LR – Você está por dentro dessas novas bandas inglesas, como o Klaxons, Shit Disco? São punk funk como o Rapture, não é?

O que eu ouvi do Klaxons eu gostei, porque soava como aquelas sirenes das raves, sabe? Eu gosto do primeiro disco do Prodigy e todo aquele exagero do começo das raves, é demais. E é disso que eles estão falando na Inglaterra agora, estou bem feliz com isso. Os ingleses sempre passam por períodos musicais de dois anos, em ciclos, e agora eles estão nessa um pouco. Fizemos uma matéria pra uma revista de lá e eles uma matéria sobre esse período das raves e tal.

BN – Você acha que isso está voltando?

Na Inglaterra, por agora. Punk funk re-começou lá, eles estão sempre definindo que período vai acontecer novamente. Eu gosto dessa música, acho que é tão boa quanto Led Zeppelin ou outra música que as pessoas dizem “isso é bom”. Gosto de Depeche Mode tanto quanto esse tipo de som. É interessante.

A Inglaterra é importante, especialmente no jornalismo e para as pessoas que amam música de verdade. Os jornalistas de lá sabem das coisas, não é como “quem é você ou com qual banda você parece?”. Eles sabem exatamente o que estão fazendo. Eles sabem, então é bom.

BN – Então o que de bom tem aparecido por aí? Quais bandas novas você tem ouvido?

Tem um selo novo de Nova York chamado What’s Your Rupture? que é interessante. Eles lançaram o Love Is All, The Long Blondes, uma banda chamada Bill Cosby and His White Pudding Pops, Cause Comotion… São todas bandas bem, especificamente, meio… pop, mas com uma pegada pós-punk, fazendo menção aos anos 80, mas é boa música, ingênua, da mesma maneira que a K Records é ingênua, sabe? Vocês podem me dizer se é bom mesmo quando ouvirem. Mas eu gosto.

BN – Vocês tem planos de ir ao Brasil novamente?

Se nós formos convidados!

BN – O que você lembra do Brasil?

Eu fui no Cristo gigante, no topo da montanha, à praia, tocamos no festival com o White Stripes. Lembro de estar sentado na piscina e a Meg White estava lá também. Tocamos no palco principal, isso foi legal.

BN – O show de vocês foi considerado um dos melhores do festival. Você teve essa sensação?

Demais! A platéia era muito legal. Toda vez que alguém vai tocar na América Latina, dizem que a platéia é assim, então era o que eu estava esperando. E quando foi muito bom eu pensei, “bom, então é assim!”. Vou ficar muito decepcionado se hoje a noite [se referindo ao show na Cidade do México] não for bom. Talvez não seja a melhor expectativa…

BN – As pessoas tem que pirar?

É melhor pra gente, não tem graça se for como em Nova York ou qualquer outro lugar. Tantas bandas passam por lá que ninguém não dá valor.

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5 perguntas – Alexandre Matias

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Pra finalizar a série de mini-entrevistas com as atrações da festa de 3 anos do URBe, Alexandre “Il Padrino” Matias fala sobre mashups.

Explica melhor essa história de um set de mashups?

Bem didático: mashup – que também é conhecido como bootleg e bastard pop – é a colagem de dois ou mais trechos de músicas na criação de uma faixa nova. Na maior parte dos casos, consiste apenas da instrumental de uma faixa com o vocal isolado (os chamados acapella) de uma outra e via de regra as faixas vêm de universos diferentes.
Se você for ver na história da música, há dezenas de exemplos de pessoas grudando pedaços de músicas umas nas outras – do Pierre Schaffner ao John Oswald, passando pelos Dust Brothers e Frank Zappa. Mas desde que a internet popularizou a troca tanto de arquivos originários de músicas clássica quanto de programas de edição de áudio, o mashup tornou-se um gênero específico.
O marco zero pode ser rastreado na Parte 2 do disco “As Heard on Radio Soulwax”, dos 2Many, DJs e na faixa “A Stroke of Genius”, do produtor Freelance Hellraiser, ambas do primeiro ano do século 21. De lá até então, aumenta exponencialmente de mashups, de DJs e produtores de mashup, que forma uma imensa subcultura cuja matéria-prima é apenas a história da música gravada.
Pois o mashup – como uma cultura típica da internet – parece resgatar o interesse das pessoas no hábito de descobrir músicas novas a partir de músicas velhas. O mais legal é que quanto mais você conhece música, melhor você desfruta de um mashup. E não é um gênero de flashbacks, já que boa parte de seus produtores quase sempre buscam o atual single de sucesso para fazer seus mashups – só esse ano já rolou isso com “Crazy” do Gnarls Barkley, “Promiscuous” da Nelly Furtado e agora “SexyBack” do Justin Timberlake. É um bom termômetro pra o que está realmente fazendo sucesso (pois o mashup é um remix do inconsciente coletivo) e para testar a durabilidade e infaliabilidade de uma boa música.
Nem todo mashup é feito para pista – há mashups de lounge, soul e jazz – mas a maior parte é, e eu toco um set que vai ser composto basicamente por esse tipo de som – embora eu vá colocar um ou outro som “puro”.

O 2ManyDJs foram os precurssores disso?

Sim, mas, como eu disse, a dupla é apenas um dos responsáveis. É legal também isso – ao trabalhar basicamente com músicas alheias, a cultura mashup é um passo além da cultura techno/rave e seu culto à despersonalidade. Contudo, os 2ManyDJs têm o mérito legal da história – foram um dos primeiros mashupeiros a lançar um disco com todos os samples limpos por lei (ainda que apenas na região de Bénélux – Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Mas eles são tão pioneiros quanto os Avalanches, a festa Booty, o DJ Danger Mouse ou a fita Brainfreeze do DJ Shadow e do Cut Chemist.

Qual a importância disso para cultura pop?

Mais gente ainda produzindo música, mais gente ainda trocando música online, mais música sendo produzida, renovação do interesse em descobrir música nova (mesmo que a partir de músicas velhas), redescoberta de gêneros inteiros do passado, o cruzamento de realidades que fingem não existir umas pras outras. E tudo pop deslavado, sem cabecismo estéril nem pretensões de vanguarda.
Começa-se a falar na produtização do mashup, não apenas musical, mas econômico como um todo. Saites fundem trechos de outros saites e criam um novo veículo – a cultura do tag (tipo de.li.cio.us) e do RSS é basicamente a cultura de mashups. Neste escopo maior, o mashupeiro também é conhecido como mapeador, o sujeito que funde informações de campos diversos para criar uma imagem mais aprofundada de uma determinada situação.

Porque ainda não apareceram mashups de música brasileira?

Já apareceram. O produtor João Brasil – dos clássicos instantâneos “Baranga” e “Supercool” – já fundiu Cidadão Instigado com Britney Spears em “Os Urubus Só Pensam em Te Comer, Britney” e “Sexual Healing” com Almíckar e Chocolate em “Som de Preto Gaye”. A produtora dos Princesa, DJ Mulher, lançou “It Ain’t Ghostwriter Babe”, casando RJD2 com Dylan. E o Gorky, DJ do Bonde do Rolê, mashupou “Atoladinha” com Franz Ferdinand e Black Eyed Peas com funk carioca. Ainda tá começando, mas já existe.

Deixe um top 10.

1.”ABC Breaker” – DJ Moule
2. “Hey Villain Boy” – DJ Zebra
3.”Barrell of a Goo” – Arty Fufkin
4. “Crazy as She Goes” – Legion of Doom
5.”J-Lo vs K-Co vs S-Wo” – Lenlow
6. “Wonderwall Tribulations” – Aggro1
7. “For Those About to Clown” – DJ Riko
8.”No Woman, No Mercy” – FuTuro
9.”No One Takes Your Freedom” – DJ Earworm
10. “Me Against the Monkey” – Team9

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Entrevista – Mombojó

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A maldição do segundo disco é um fantasma conhecido de bandas que chamam atenção logo na estréia. Como fazer um disco tão bom quanto o primeiro, quando se teve toda a vida pra pensar, em um espaço curto de tempo, geralmente dois anos?

A resposta exata continua uma incógnita. Seja como for, o Mombojó conseguiu. Com folga. “Homem-espuma”, sucessor de “Nadadenovo”, é melhor que o primeiro.

As quebras de andamento estão lá, as mudanças de estilo na mesma música, as influências de jovem-guarda, rock dos anos 60, psicodelia, eletrônica e todo o resto também. A diferença é que estão mais bem equilibradas, misturadas de uma maneira que mostram o Mombojó evoluindo em direção a um caminho cada vez mais próprio, em que essas referências deixam de ser tão claras e passam a ser uma coisa só.

Eles tocam hoje (2 de junho) no Circo Voador, junto com a Nação Zumbi. Como na época do lançamento do primeiro disco, em 2004, o URBe conversou, por e-mail, com alguns integrantes da banda.

Chiquinho (teclado, sampler), Marcelo Campello (violão, escaleta) e Marcelo Machado (guitarra) falaram sobre o processo de produção de “Homem-espuma“.

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O que mudou de do primeiro disco (“Nadadenovo”, de 2004) para esse “Homem-espuma”? Dá pra traçar paralelos e fazer comparações?

Marcelo Campello – Dá. O primeiro disco hoje me soa um pouco como uma coletânea de referências explícitas, quase uma busca juvenil por identidade. Agora, as referências estão mais diluídas, abandonamos trabalhar “gêneros musicais”, desaguando num trabalho mais autoral dentro da perspectiva da MPB.

Chiquinho – A gravação teve bem menos participação do computador como meio de edição, o que deixou mais à mostra um Mombojó ao natural, com nossos erros e acertos.

Marcelo Machado – O que mudou foi o acesso aos equipamentos que nós tivemos. Por exemplo, enquanto no primeiro disco nós usávamos um programa de computador que simulava o som de tal equipamento, no segundo nós tivemos acesso ao equipamento original, o que foi muito bom para a sonoridade do disco.

Algumas das músicas novas já vinham aparecendo em shows há um tempo. Em algum momento vocês pararam pra compor o disco ou as músicas foram surgindo aos poucos? Como foi a elaboração do disco?

Chiquinho – Tem uma música muito antiga, “Realismo convincente”, uma das primeiras músicas que a gente fez, bem antes do “Nadadenovo”, mas que só veio ser gravada agora. O resto foram algumas músicas não tão novas e outras mais recentes, arranjadas já com a cabeça no segundo disco.

Marcelo Machado – Algumas músicas nós já tínhamos feito e tocávamos em shows como forma de testar como elas funcionariam ao vivo. Outras foram compostas em ensaio, pouco antes de gravar o disco. “Saborosa”, “Pára-quedas” e “Minar” são exemplos destas.

Marcelo Campello – Em um [dado] momento paramos para arranjar as idéias que surgiram nesse meio-tempo. Temos o costume de tocar os trechos em loop até que cada integrante sinta-se confortável com seu encaixe. As músicas chegaram bem encaminhadas ao estúdio, os timbres já direcionados e os arranjos fechados. O que fizemos então foi um lapidar sutil.

Tiveram sobras de estúdio? Qual foi o critério de escolha, tem algum “tema” condutor?

Chiquinho – A gente tinha 15 musicas e três vinhetas antes de começar a gravar.

Marcelo Machado – Não tivemos sobras de estúdio. Na verdade deixamos de gravar uma música que tínhamos no repertório por ser mais acessível gravar 14 músicas ao invés de 15.

Marcelo Campello – De estúdio não, pois o tempo foi bem coordenado. Mas de repertório sim, sempre sobram muitas músicas. Não houve um tema condutor consciente, mas dá pra traçar uma fixação na idéia de “outro ar ao acordar” e “o bem está comigo enfim”.

O primeiro disco foi muito bem recebido. Vocês sentiram alguma pressão ou ansiedade pra fazer esse segundo?

Chiquinho – Outro dia eu li uma coisa no jornal falando que tava pra sair o esperado segundo disco do Mombojó. Confesso que também fiquei ansioso.

Marcelo Machado – Não sentimos a pressão por considerarmos o segundo disco uma continuação do que começamos a fazer no primeiro, ou seja, música confortável para ouvir.

Marcelo Campello – Eu não. Não acredito em expectativas.

Dessa vez vocês gravaram em São Paulo em vez do Recife. Qual a diferença? Estar longe de casa interfere em alguma coisa?

Chiquinho - Acho que esse lance da geografia não interfere muito não… Se bem que São Paulo é bem mais frio que Recife, a gente acaba ficando mais tranqüilo com isso. Foi bacana poder trabalhar com gente nova que a gente não tinha tanto contato, são outras cabeças a nosso favor.

Marcelo Machado – Nós fizemos o segundo disco em São Paulo, mas em um clima muito família, pois toda a equipe do estúdio começou a conviver o dia a dia de uma forma muito boa. O entrosamento dentro de estúdio foi muito bom e importante para o desenrolar das gravações.

Marcelo Campello – A diferença foi ter acesso a equipamentos de ponta, dispensar simuladores e trabalhar com originais. Para mim, estar longe de casa não interferiu. Minha casa é meu corpo.

Lançado de forma independente, “Nadadenovo” foi bem, vendendo cerca de 10 mil cópias (o número é esse mesmo?). A tiragem de “Homem-espuma” não mudou muito, foram 5 mil cópias. O que mudou com a ida pra Trama?

Chiquinho – A grande diferença é que em São Paulo a gente pode contar com uma estrutura de apoio da Trama que a gente não tinha, o que acabou facilitando um pouco a vida da gente. Agora a gente tem um monte de profissionais que trabalham com a gente nas mais variadas atuações: marketing, imprensa, TV e rádio, etc.

Marcelo Campello – Esses números não sei te confirmar. Mudou que agora contamos com uma estrutura para lidar com os assuntos que antes tínhamos que fazer por nós mesmos, sem um conhecimento para tal.
Eles traçam uma estratégia de imprensa de forma que demos muitas entrevistas para veículos de todo o país num curto prazo; esse tipo de articulação nós não tínhamos. Também contaremos com uma distribuição melhor do disco.

Pelo currículo mais focado no hip hop, o nome de Ganjaman (Instituto) como produtor causou surpresa. Chegou a falar-se em Kassin e Arto Linday para produzir algumas músicas, mas acabou não acontecendo. Como foi essa escolha?

Chiquinho – Ganja sempre foi uma referencia muito boa pelas suas produções no Instituto, além de ser um musico incrível. A gente precisava de alguém que nos fosse accessível e que já estivesse familiarizado com o tipo de som que a gente queria tirar.

Marcelo Campello – Foi prática. Ganja mora em SP e mostrou-se dinâmico no estúdio, precisávamos disso pelo curto prazo que tínhamos para gravar o disco.

E como foi trabalhar com Lúcio Maia (que produziu três faixas)? É uma interação de gerações do mangue interessante.

Chiquinho – A gente gosta muita dessa idéia de não concentrar a produção de um disco nas mãos de uma única pessoa. Lucio já tinha gravado dois discos lá no estúdio da Trama e tá começando a trabalhar com outras coisas extra Nação Zumbi, o que nos alertou pra mais essa possibilidade.

Marcelo Campello – Ele tem uma visão muito boa de processar efeitos ao vivo interagindo com a interpretação dos músicos. Também acho que ele soube valorizar bem a parte mais acústica do grupo.

O som do Mombojó parece tão bem resolvido e pensado que não deixa muito espaço pra mão do produtor. Qual foi o papel deles efetivamente no disco?

Chiquinho – É sempre muito difícil resolver as coisas quando se têm sete cabeças pensando juntas. É muito importante ter uma visão de fora pra dar uma organizada na casa.
Somos todos muito novos, temos muita idéia na cabeça, mas precisamos de gente mais entendida que nos mostre os melhores caminhos pra chegar onde a gente quer. Ganjaman é muito bom nisso.

Marcelo Campello – Foi de um lapidar sutil. Se chegamos com um timbre a 80%, eles captavam a idéia e sugeriam o mais exato.

O disco está cheio de participações, tem Tom Zé (“Realismo convincente”), Fernando Catatau (“Swinga”) e Céu (“Tempo de carne e osso”). Como surgem esses convites? As músicas são feitas com isso em mente ou a idéia vem depois?

Chiquinho – Isso é o tipo da coisa que sempre aparece muito ao acaso.

Marcelo Campello – Tom Zé é artista da Trama e estava lá no dia em que gravávamos uma música durante a qual fazíamos uma citação à “Tô”, nos shows. Pela coincidência, tomamos coragem e o convidamos. E ele topou na hora.

A internet teve um papel importante na divulgação do primeiro disco do Mombojó. Coisa que, aliás, não é mais novidade pra banda nenhuma. Ao contrário do primeiro disco, “Homem-espuma” até agora não está no saite de vocês. Dessa vez vai ser diferente?

Chiquinho – Não, muito pelo contrario, queremos e temos apoio da Trama pra usar muito mais da Internet. Só não estamos disponibilizando ainda porque tivemos um problema na atualização do novo site. Mas em breve vai estar lá. Pra que tá muito na pilha, outro dia eu vi um link no Orkut que já tinha o disco todo disponível. Tá valendo também.

Marcelo Campello – Será igual. Em junho teremos esse site no ar com todos os MP3 para download grátis, registrados em copyleft, e algumas faixas abertas para remix para quem
quiser.

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Entrevista – Kasabian

Entrevista com Sergio Pizzorno e Christopher Edwards, do Kasabian, feita durante o Nokia Trends, na Cidade do México.

Existe um boato que vocês vão fazer uma turnê pelo Brasil. Isso é verdade?

Sergio Pizzorno – Acho que quando nós formos para os Estados Unidos nós vamos para lá também, deve ser em setembro.

O que vocês sabem sobre o país, expectativas, etc?

Sergio Pizzorno – É um lugar do mundo que eu quero muito conhecer. É lindo. Quero muito ir ao Cristo Redentor, é um lugar que você tem que conhecer antes de morrer. Quero jogar futebol na praia também.

Vocês são fãs de futebol?

Christopher Edwards – Sim, grandes fãs. Torço para o Leeds United.

Sergio Pizzorno – Eu torço pelo Leicester City.

E quais suas expectativas pra Copa do Mundo?

Sergio Pizzorno – Desde que não encontremos com o Brasil, vamos ficar bem. Seu ataque é como o time de 70, incrível.

O disco de estréia do Kasabian é de 2004 e, mesmo com essa correria provocada pela internet, vocês ainda não lançaram o segundo. A demora é proposital?

Sergio Pizzorno – Acabamos de terminar, na verdade. Sai em setembro.

Como vai se chamar e quem produziu?

Sergio Pizzorno – “Empire”. Nós mesmos produzimos, com Jim Abiss, o mesmo que fez o primeiro.

Tem alguma grande diferença entre os dois?

Sergio Pizzorno – Sim, acho que nós crescemos. A melhor maneira de descrever é como uma orgia.

Vocês são conhecidos por misturar bem rock e eletrônica. Isso continua no novo disco?

Christopher Edwards – Com certeza, é a mesma fonte. A maneira como usamos a crueza do rock, as guitarras, a bateria e misturamos com os sintetizadores e qualquer tecnologia que você conseguir por as mãos.

Para vocês, quando as pessoa ouvirem o novo disco vai parecer uma continuação do primeiro ou algo totalmente diferente?

Sergio Pizzorno – Totalmente diferente. Dessa vez nós soamos como nós mesmos e com nada mais. Esse disco soa como o Kasabian e não como alguma outra banda. No primeiro você pode identificar algumas coisas aqui e ali.

Como o quê? Quais bandas você destacaria?

Sergio Pizzorno – Várias que nunca foram mencionadas, como Pink Floyd ou Tangerine Dream. E, obviamente, Primal Scream e esse tipo de coisa. Mas esse disco soa como nós, Kasabian.

Num primeiro disco, uma banda tem as experiências de toda uma vida pra se basear na hora de escrever as músicas. No segundo, geralmente tem dois anos para ficar pronto. Isso foi uma questão pra vocês?

Sergio Pizzorno – Apenas acontece. Nós sempre tivemos bastante confiança em relação a nossa música, nós entramos no estúdio e vemos no que dá. Nós acabamos de voltar dos dois anos mais fantásticos de nossas vidas, foi ótimo.

Vocês sentem a banda crescendo ainda ou estão no seu ápice?

Christopher Edwards – Não. Conforme nós crescemos, as músicas vão crescer com a gente. Nós vamos crescer e ficar mais forte juntos.

Vocês acham que o fato de ser o segundo disco de vocês e o Kasabian não ser mais novidade ajuda ou atrapalha?

Sergio Pizzorno – Acho eu ajuda, porque é um bom disco. Não acho que vai decepcionar ninguém. Os fãs vão ficar felizes, excitados e orgulhosos que a banda que eles disseram pra todo mundo que é boa não os decepcionou.

Estão orgulhosos do disco novo então?

Christopher Edwards – Sim, sim!

Sergio Pizzorno – É o melhor disco dos últimos 50 anos! (risos)

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BPM, abril/2006

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Alguns textos que escrevi para a matéria de capa sobre funk da revista americana BPM: uma página sobre o DJ Marlboro, as introduções, edição e tradução de várias mini-entrevistas (com Mr. Catra, DJ Sandrinho, MC Xana, Dj Edgar, DJ Mavi, Sany Pitbull) feitas pela Pitti (acho) e que acompanham a matéria principal.

DJ Marlboro: The Godfather of funk
words: Bruno Natal


Funk is much a amalgamation of situations as it is a clash of influences and references. Although other DJs, such as Grand Master Raphael, are also important in it’s development, if one person has to be pointed as the godfather of favela funk, DJ Marlboro is the name that stands out.

Even though he did not created it alone, not only was he the more determined, but also the more organized one. He produced and released the first tracks and artists and, up untill today, still is behind of much that has to do with the genre. Thru his label, publishing company, radio show or his chain of sound systems — all under the same name, Big Mix — he remains on top.
 
He began as a DJ at a very early age, 14, as black music selector, in small balls in Rio’s suburbs. Throughout the late 70s and early 80s, music shifted from funk and soul to disco and then to electronic. And so did Marlboro. The synthesized sounds that came along with songs like Kraftwerk’s “Numbers” or, most importantly, Bambaataa’s “Planet rock”, were crucial to what was yet to come.

Up untill then, the music played in Funk balls were mostly done by international artists. The turning point happened in 1989, after Marlboro received a Boss drum machine as a gift from anthropologist Hermano Vianna — who was then researching for his pioneer study, a book called “O mundo funk carioca” (Rio’s Funk World).

Marlboro learned how to program his new toy just enough to cut the first Funk rhythms. This set of songs came out in a compilation called “Funk Brasil”, a instant success and Funk ground zero.

Singers had no longer to chant over foreign instrumental beats, they could have their own. This also meant that producers could now incorporate local elements and samples, changing the sound, giving it a tropical flavor. From this point on, Funk became a Brazilian – and mostly, a favela – thing.

Nowadays, Marlboro hosts the country’s biggest radio show (with a absurd average of 500,000 listeners per minute). On screen, he has appeared as a guest DJ on TV shows, hosted his own Funk show and even played a — guess what — Funk DJ in a TV series directed by “City of God’s” Fernando Meirelles.

Since his appearance in Central Park Summer Stage, in 2003, Marlboro has travelled around the world and back: England, Croatia, Colombia, Holland, Germany, Slovenia, Mexico, France, you name it. When it comes to spreading the music, Marlboro simply knows no limit.



Q&As


MR. CATRA



Mr. Catra, 37, begun his career in a hardcore band. Then he went on to become one of the biggest names in the “proibidão” (loosely translated as “very  prohibited”), a style of Funk against the law not only due to its lyrics, praising drug lords and their organizations, but also because of it`s – note the switch in the sense of the word – hardcore, real life approach of everyday favela subjects, such as sex, crime and police brutality.



He has since moved away from this kind of songs, establishing himself as one of the most prominent names in Funk, even landing deals with multi national record company Warner Music in the past.



Known by fans as “The Faithful”, he often praises the Lord on his lyrics, even if this  means using Thy name along side lyrics about marijuana, and not in a rasta fashion. Along with other musician, he created the first live Funk band, Mr. Catra e os Apóstolos (Mr.  Catra and the Apostles), that sometimes holds open rehearsal inside whorehouses in Rio de Janeiro’s Red Light District.

How do you spend a typical day?

It’s a regular day, lide everybody else. Work, wife, kids…

As a kid, what was it like growing up in your neighborhood? Tell me something you love about it and something you would change, if possible.

It was wonderful and healthy! It’s a wonderful community, I wouldn’t change a thing.

How have those memories influenced your music?

Through musics I’ve listened during my childhood, and religious learning.

It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

I don’t have a favorite MC, but James Brown is a strong reference. [I talk about] bringing peace and religiosity.

What is it about your local music scene that is so special to you?

The freddom of speech, to be able to make music without having to measure the words. In short, to be able to make a direct speech.

Who/what are your inspirations both musically and personally?

Just daily life, in general.

Funk is heavily influenced by American hip-hop, electro, Miami bass, R&B. What American artists do you find most inspirational?

George Clinton, James Brown and 2 live Crew.

Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

The counscious lyrics are the ones that give you “hints” on how to live life good, on the right track. The sexy ones talk about sex in a natural way, with love and passion, like everyone does, in the form of a happy music, at the same time irreverent and sexy. My role in it is being a composer and singer of both styles.

Hollywood is famous for distorting the facts. Have you seen “City of God”? If yes, what’s your opinion about the movie?

It’s a cool visual interpretation of a “proibidão”.

Music taken you outside of Brazil, many times. Talk about your favorite trip.

Today my music is recognized in Europe and the US. The best trip was to Israel, because of the spiritual side and receptivity of the people there.

Where do you see yourself and funk music in five years?

You’ll see the billboards in your city!

DJ SANDRINHO

This fan of Snoop Dog, Stevie B, Dr. Dre, Africa Bambaataa, Gigolo Tony, Trinere, MC Ade and MC Shyd, started going to Funk balls with his older brother, also a DJ, from who he learned his turntable techniques, at age 10.

With a respectull record collection and having worked with big names 25 years old DJ Sandrinho is perceived by many as one of the best Funk DJs around, having worked with big names, like Mr. Catra. He also produces his own music.

“[I’m a fan of] the strong beats we call batidão, the groove, swing, rhythm, the special way we play, produce and show it”, states Sandrinho.

As a kid, what was it like growing up in your neighborhood? Talk about something you love and something you would change, if possible.

I used to like it very much, but nowadays is hard to do so, because of the increasing violence. Off course, that’s what I would change, if I could.


It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

Mano Brown (from Racionais MCs) and Menor do Chapa, who hails from the Turano community. What stands out for me are lirycs against violence, telling the true facts of our hidden reality.

Who/what are your inspirations both musically and personally?

Personally, my family and friends. Musically, my brother Mr. Catra, Jonathan French DJ, funk, hip hop, drum and bass, samba and, most of all, my inner inspiration.



Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

It’s true, it is divided. The strongest political ones you can only hear at the communities’ balls, in the clubs you hear mostly to the sexy ones. I play, produce and like both styles.


Hollywood is famous for distorting the facts. Have you seen “City of God?” If yes, what’s your opinion about the movie?

It’s a good portrait of that time. But things have changed into a full parallel [crime] and social organization.



Has music taken you outside of Brazil? If yes, tell me about your favorite trip?

Yes, I went to France and was really cool to meet different people, sounds and culture. 


Where do you see yourself and funk music in five years?

There will be some changes, because funk always recreates itself, with new artists, beats, grooves, etc. I hope to get know outside Brazil and, with that, be able to release my own record.

DJ SANY PITBULL

Sergio Reis Silva, aka DJ Sany Pitbull, 35, spends his days surfing the web, looking for new songs. “Specially stuff other than Funk, as I work with it all the time. Old music is the best, at the moment I’m listening to Kraftwerk”.

Besides being a DJ at balls all over town, Sany also manages artists, produces music, writes about funk for websites and is frequently invited to take part in debates to discuss, whatnot, Funk.

“[Funk] it’s an important part of the communities’ economy. The majority of people selling beers, juices, hotdogs, t-shirts, etc, are elderly and women. The supermarkets are full of housewives the day after the balls, with some cash to buy the family’s meal”, he explains.

Read on, Sany has more to say. And he knows his stuff.

As a kid, what was it like growing up in your neighborhood?

At the suburban neighborhood I grew up in, everything was great. But I would increase the number of organized sports offered for the kids. I would have liked to try surfing, if I had a board or school available.

Going to the beach at Copacabana was the best part. And also listening to music, of course. My father was against me working with music, even being a very party person, with his beloved hi-fi stereo, that he only trusted to me. Eventually, he agreed that I became a DJ.

How have those memories influenced your music?

I’ve never lived in the really worst favelas, but part of my friends came from there. The suburbs were real neutral zone, a good place to meet everybody. The sounds coming from the hills were samba and various forms of 70s funk and soul. At home, my father listened to a lot of Brazilian romantic popular songs, with very sophisticated harmony and lyrics. Portuguese is a language famous for it’s poetry. My mother preferred disco (ABBA was a home hit) and classical.

It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

What appeals to me it’s the political side of the lyrics. I’m a collector of rare voices, and there are more of these hungry screams to be heard. But there’s not always space to show it.

What is it about your local music scene that is so special to you?

The sound itself and specially the happiness in peoples face at the communities balls. The preparation for the ball, during the day, it’s a party for everybody, including children. It’s a mobile discotheque. It’s a circus. Happiness all day and all night long. Everybody helps, food always appears all over the place.

Who/what are your inspirations both musically and personally?

American funk, James Brown, Kool & The Gang, Aretha Franklyn, Donna Summer, Egyptian Lover and Dr. Dre. Personally, my father is my biggest influence.

American hip-hop, electro, Miami bass, R&B, heavily influence Funk. What American artists do you find most inspirational?

2live Crew, Newcleus, MC Shy-D, Afrikan Bambaata, Zulu Nation.

Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

What you mean by true or false? Tell me more about what you’ve heard. Who prohibited funk? Which ones? Who decides that? Some of the famous samba from Rio have even stronger lyrics, but as it became the Brazilian “classics”, it’s OK to sing or perform them.

Both styles, the sexy and the conscious, are part of our history. Always. But with the Funk beat, you can be legitimately afraid of being arrested in Rio or Brazil.

Hollywood is famous for distorting the facts. Have you seen “City of God?” If yes, what’s your opinion about the movie?

Nothing is 100% real, but could be. It’s a good story based on reality.

Has music taken you outside of Brazil? If yes, tell me about your favorite trip?

Not yet.

Where do you see yourself and funk music in five years?

We’ll see a funk artist performing at the opening of Pan-American games (that will take place in Rio 2007) and others events, not just as a participation, but as the main attraction.

DJ MAVI

The importance of “Planet rock” in Funk’s development is hard to measure. Not too hard to calculate is the happines DJ Mavi must have felt when his remix for Bambaataa’s “B more shake” was selected to be part of a special record that made it to the Billboard’s Top 50.

A hip hop fan and videogame addict, Mavi is worried about the monopoly in the scene. “Some DJs only play on his gigs or radio shows songs that are produced and edited at their studio. The team, the equipment, everything has to belong to the godfathers”, he explains.
His solution? Simply make more music, free, without worring too much. Seem like a good plan.

How do you spend a typical day?

I normally wake up in the afternoon and go to the studio. I stay there until 5 AM, making music, loops, samples, until midnight and then I start playing videogame (Soldiers of Fortune II, Double Helix) online with friends. At weekends, there are the balls to perform.
 
As a kid, what was it like growing up in your neighborhood? Tell me something you love about it and something you would change, if possible.

I feel privileged growing up here, no will to leave it ever. There were not many houses, lots of green and I played with kites, marbles and some other toys I can’t translate the names. All kind of toys kids don’t with today anymore, substituted by playgrounds, videogames and behind bars. If I could change something would be not allowing so many buildings to be constructed, there is no respect with what was here before.

How have those memories influenced your music?

The freedom I had that allowed me to create.
 
It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

I don’t have a favorite MC; I know and like all. I respect all of them and admire their will to triumph. But I have an opinion that they should be more concerned about the contents of lyrics. As they are so influential to children and the young living in poor communities, they should say something really constructive for their lives.
 
What is it about your local music scene that is so special to you?

There is a lot of bad managing at the scene. Some DJs only play on his gigs or radio shows songs that are produced and edited at their studio. The team, the equipment, everything has to belong to the godfathers. We are very strong to have survived and surpassed these barriers. I know this is not going to end soon, but the MCs should be more united and refuse to produce and edit through those guys. We don’t need them, they are not musicians like us. And we now have better options.
 
Who/what are your inspirations both musically and personally?

My inspiration comes from everywhere, but especially from American hip hop.
 
American hip-hop, electro, Miami bass, R&B, heavily influence Funk. What American artists do you find most inspirational?

Snoop Dogg, 50 Cent, Ja Rule, Young Bloodz, NAS, DMX, Dr Dre, Jay-Z, Puffy Daddy, Notorious BIG, Usher, Twista, Public Enemy, Etc. Fresstyle, Tinere, Stevie B, Olga, Debbie Debie, Debie Gibson, Afrika Bambaataa, Inoj, Dj Tragic, Dj Magic Mike, Etc.
 
Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

This is a country full of hypocrisies. Poor people are discriminated even when they are successful. There are castes in society, but we live together. I find myself more attracted to the conscious Funk then the sexy ones. The “proibidões” are giving an important message, about a unspoken reality of millions here.

You can’t pretend reality is not there. There is violence, TV and cinema are using it, but and “funkeiros” can’t. If I make a movie out of a “proibidão” it would would then be considered art. But I think music is even more challenging. TV and films are too explicit. Music can drive you further.

That’s why I think the autorities should be more concerned about public health and food, etc, instead of persecute people singing about their lives.
 
Hollywood is famous for distorting the facts. Have you seen “City of God?” If yes, what’s your opinion about the movie?

I liked it. Was not the true story, but a good fiction about it. Really cool.

Has music taken you outside of Brazil? If yes, tell me about your favorite trip?

The most exciting one was to Boston, bringing my sound to Brazilians that have been abroad for a long time and seeing their emotion, feeling home thru the music. It was remarkable.
 
Where do you see yourself and funk music in five years?

Five years ago I could not imagine this (doing remixes for Afrika Bambaata). Life is unpredictable, we can never tell what’s gonna happen in five years. I just hope that things go even further, with more opportunities for everyone,l without stealing of royalties, etc. There is a lot of talent here, everywhere. We don’t need godfathers to slave us.

DJ EDGAR

Like most DJs, Edgar spends his days inside a studio, producing music and promoting his beats through the Internet. He is on the business for 16 years now and is currently Mr. Catra’s DJ, which is no small achievement. Together, they went to Europe on tour and DJ Edgar plans to go back this year to open even more doors for Funk.

“2005 was one of the best for Funk”, he believes. Above everything, DJ Edgar believes that Funk will always shake bootys, even of those who say they don’t like it.. That’s not far from the truth.
 
As a kid, what was it like growing up in your neighborhood? Tell me something you love about it and something you would change, if possible.

I wouldn’t leave the place I was born and still live until today for any other in the world. What I like most here is the peace and calm to rest after the nights of mixing and to work at the studio without bothering. The only thing I would change here is to send away people sucking my energy. The place has no flaws.

How have those memories influenced your music?

My father listened to James Brown, Barry White, Jimi Hendrix … Now maybe you can understand why I work with funk for 16 years already.

It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

Funk nowadays is portraying society too, not just hip-hop. It shows the reality of the favelas, protesting. I think the lyrics must talk about this too. In the conscious part of Funk there could be more hip hop samples.

My favorites MCs are: Mr. Catra, Gorilla & Preto, Menor do Chapa, Mr. Schock, Sapão, Mascote, Frank, Duda Do Borel and Ricardo, among others.

What is it about your local music scene that is so special to you?

The best is that our sound rocks everybody, from the 5 years old kid to the older ones. Even those that says they hate it… When it plays, they will dance with their little finger, there is no escape from it.

Who and what are your inspirations both musically and personally?

My father, my kids, my wife, Bob Marley, Jimmy Hendrix, James Brown, 50 Cent, Wu Tang Clan, Assassin, Z’africa Brasil, Racionais, Mr. Catra and many others.

Funk is heavily influenced by American hip hop, electro, Miami bass, R&B. What American artists do you find most inspirational?

Some old Miami bass, ADE, Freestyle, Trinere, Afrika Bambaataa…

Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

The way to fit as a DJ is to play a little bit of everything, because the two styles have the same importance in Funk’s history. To say that Funk only speaka about drug traffic and the parallel power is a lie. It is underground, but real, and the sound systems are the real life, with music you cannot listen at the radio

Hollywood is famous for distorting the facts. Have you seen City of God?? If yes, what’s your opinion about the movie?

I liked it very much, was a landmark in Brazilian cinema. But Rio is not made only of criminals, there’s a lot of good stuff to be shown too.

Where do you see yourself and funk music in five years?

If I’m working with it for 16 years already, and doing fine, I don’t need to answer this. Funk it in the media world wide, despite been marginalized before, and I never gave up. Funk is my life and blood. Stay with God!

MC XANA
 
Is no wonder MC Xana, 24, looks up to Beyoncé. She is playing a rather new role in Funk history: of a woman MC. Along with other girls, like Tati Quebra-Barraco and Deise Tigrona, women are trailing a path that, not long a go, were mostly reserved to men.

As Denise Garcia’s documentary, “I’m ugly, but trendy”, depicts, the gender barrier is coming down fast. Girls are now producing some of the biggest hits, voicing femin issues, from woman to woman, sometimes in a neo-feminist way. Is the so called “girl power”. And it’s unstoppable.

How do you spend a typical day?

I wake up late and stay with my kids. If I can, I take them to school. Then I sleep again until is night, when I wake up to work: singing, composing, and producing.  

As a kid, what was it like growing up in your neighborhood? Tell me something you love about it and something you would change, if possible.

The coolest thing is that everybody loves and knows how to dance, and the same choreography sometimes! I was always the one creating them. I wouldn’t change a thing, just keep on solving the problems of society, like we must do always.

How have those memories influenced your music?

I compose music dancing. I learned that way, I can’t and I won’t change it.

It seems that a lot of the lyrics have a strong message. Who is your favorite MC? What one line stands out to you the most?

Catra is the best. All lines must contain truth.

What is it about your local music scene that is so special to you?

Sensuality…the freedom to be sexy.

Who/what are your inspirations both musically and personally?

The way I feel the world at that specific moment.

American hip-hop, electro, Miami bass, R&B, heavily influence Funk. What American artists do you find most inspirational?

For me it actually comes from “candomblé”, a traditional Brazilian religion, [that mixes elements of African and Christian cultures]. The American music helped the development of communication, bringin it to more people, as a universal language. My preferred one is Beyoncé.

Talk about the two predominent categories of funk lyrics: the sexy and the rougher, more political ones. What is true, what is false and how do you fit into everything?

Things are not as dark as presented abroad. The parallel laws take place, yes, but when the social structures can’t provide the official laws, the population do it, as a way to survive.

Has music taken you outside of Brazil? If yes, tell me about your favorite trip?

Tomorrow I’m going for the first time to Europe! Ice cream? Cotton balls? How does snow feels?

Where do you see yourself and funk music in five years?

Funk is a rhythm that changes to be faithful to itself. It will keep on doing it even in a bigger scale. Me? I don’t know, man!  “Now, show that you can!” [a line from Xanas first hit, “Dança do chão”].

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Entrevista – Fernando Catatau

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Lídero do Cidadão Instigado, o cearence Fernando Catatau conversou com o URBe, por e-mail, sobre o novo disco, “Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências”.

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E aê, o que continua instigando o cidadão?

Os que eu gosto, instrumentos e algumas músicas. Do amor eu não posso falar, então fico calado.

O que aconteceu entre o primeiro disco, “O ciclo da De.Cadência” e esse “Método tufo de experiências”? Quais mudanças significativas?

Eu diria que eu tenho caminhado em paz. Faço o que eu gosto, toco com quem eu quero e gravo os discos da minha maneira. Daí saem essas coisas aí. A gente vai mudando com a vida, né? A música vai junto.

Você trocou o Selo Instituto pela Slag?

Eu num troquei não. Esse disco é uma parceria da Slag com o Instituto, saiu pelos dois selos, o que tá sendo muito legal. Sou grande amigo dos meninos do Instituto, a gente tá sempre fazendo coisas juntos. Os meninos da Slag estão sendo fora de série, agilizando
um monte de coisas pra gente. Eu não poderia ter nada melhor. Tô muito satisfeito.

Sendo nordestino, e talvez mais habituado ao brega, estilo muito maior no norte do que no sul do país, como você vê a quantidade de bandas atuais declaradamente influenciadas por esse estilo (e conseqüentemente pela Jovem Guarda)? Como é essa influência para você?

Uma coisa que eu sempre falei e que eu gosto muito de ouvir musica triste, musica feliz demais me dá agonia, me deixa triste. Normalmente eu busco a felicidade pra minha vida, na música eu prefiro me acabar na tristeza. Roberto Carlos é o que mais me emociona nessa vida não sou tão fã da Jovem Guarda, nem do Rei nessa época. Gosto da fase 70, romântica. Sou muito fã do Fernando Mendes, Marcio Greyck, da maioria das músicas lentas internacionais dos anos 80, Bee Gees… É disso que eu gosto.

Além do brega, o rock progressivo e músicas climáticas parecem outras fortes influências no “Método tufo…”.

Passei minha adolescência escutando Pink Floyd, [Jimi] Hendrix, [Black] Sabath, Iron [Maiden], como todo adolescente rockeiro da minha época. Quando ouvi Santana pela primeira vez, escolhi meu instrumento. Sou, na realidade, um apaixonado por guitarras. Gosto até mais de instrumentos do que da própria música e tento me divertir com eles nas composições, bagunçando tudo.

Como a música eletrônica e experimentos de estúdio entram nessa equação?

Eu sou um apaixonado por áudio. Passo minha vida atrás de equipamentos antigos.
Tenho um problema muito sério com o mundo digital. Não que eu ache totalmente ruim, acho que hoje existem ótimas ferramentas. Vieram para facilitar nossa vida, mas a qualidade final é sempre um “quase lá”. Falta a humanidade, mas não posso dizer que é um mal. Muito pelo contrário. [É] uma salvação pro mercado independente.

A mixagem das faixas foi dividida meio a meio entre Kalil Alie e Buguinha Dub. Qual a intenção disso? Qual critérios você utilizou para decidir quem mixaria o que?

Os dois são grandes amigos meus. Na real, eu já sabia o que ia sair dali. O Buga é mais dub, então eu dei as que tivessem menos a ver com dub e pedi pra ele dar a cara dele. O Kalil é mais rockeiro e taquei as baladas pra que elas soassem da maneira dele. No final eu achei que ficou com uma unidade boa. As vezes me soa como se tivesse sido mixado por uma só pessoa e, mesmo assim, é possível ver a personalidade dos dois lá.

A interpretação das letras do disco está bem teatral, muitas vezes são apenas recitadas ou faladas mesmo. Porque isso?

A música do Cidadão é quase totalmente baseada nas letras. Tento fazer uma trilha sonora para o que eu escrevo. Se a música fala de amor eu procuro dentro do universo musical os acordes que vão chegar mais perto das emoções do coração. Se tem que passar uma tensão, já penso diferente. Com a música a gente pode passear pelo mundo das sensações, o grande lance é saber combinar os elementos certos pra poder passar o que você esta querendo.

O falado é mais porque antes eu não me garantia muito em cantar e hoje, por mais que eu continue não me garantindo muito, já me arrisco mais. O legal é você tentar passar a sua verdade, por mais fuleira que ela seja.

O disco está recheado de participações. É uma necessidade pra poder realizar o disco da maneira que você imaginou ou é mais pra juntar os amigos mesmo?

Todos que participaram nesse disco são grandes amigos com os quais eu tenho bastante afinidade musical. O Thomas Rohrer (sax, violino, rabeca) e a Izaar (vocais) são seres emocionantes, já vieram assim. Os meninos da banda são fodas: Regis Damasceno (Mr.
Spaceman), Rian Batista (Otto, Instituto), Clayton Martin (Vaca de Pelúcia, Detetives) e Mauricio Takara (Hurtmold, M. Takara). Teve também o Marcos Axe e o Andre Male, que tocam com o Otto na percussão. Esses tocam muito. Até fiz o Ganja Man (Instituto, Otto) tocar música romântica! Hahaha! Na realidade, chamei meus amigos pra gente se divertir, entrar no estúdio e tirar um som. Daí saiu o disco.

Por outro lado você tem tocado bastante com outras bandas, né? (Los Hermanos, Nação Zumbi, Los Sebosos Postizos… quem mais?) Fale um pouco dessas participações, como elas rolam, etc.

Bem, comecei a tocar com outras pessoas em 2000. Até então eu só tinha tocado com meus projetos pessoais. O primeiro foi o Otto, que me chamou pra tocar com ele sem me conhecer direito. Fui lá e tô até hoje. Depois disso várias pessoas me chamaram e eu fui também. Já toquei com DJ Dolores, Estela Campos, Beto Vilares, Los Sebosos Postizos e também gravei com a Nação Zumbi, Los Hermanos, Zeca Baleiro, Eddie, Bonsucesso [Samba Clube]… Já fiz algumas trilhas também. No mais, é isso.

Imagino que você não deve agüentar mais essa pergunta, mas não tem como fugir: o que é o “método túfo de experiências”?

Túfo, significa você fazer algo sem pensar demais. Duma vez. Quando você quis fazer, já estava pronto. Então o método são essas experiências vomitadas. Deu pra entender?

E que diabos é um “pinto de peitos”?

É um pinto que tem peitos, mas o mais massa é que ele tem o bico preto e o pio dele é escuro. Hahahahahaha!

Queria finalizar com uma coisa que eu acho muito importante. O Cidadão Instigado não é “uma banda de um homem só”, fica até chato pros meninos ouvir isso sempre. Não sei quem falou isso a primeira vez, mas isso não é verdade. A banda sou eu, o Regis Damasceno, o Rian Batista, o Clayton Martim e sempre um convidado, que um dia vai fechar os cinco. Por enquanto tá o Marcelo Jeneci e tá massa.

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Kassin – entrevista

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fotos: Alex Werner

O novo disco do Los Hermanos, “4″, dividiu opiniões. Tem quem ame, tem quem odeie, lembrando o tipo de reação que o “Bloco do Eu Sozinho” despertou quando foi lançado, desagradando, principalmente, os fãs iniciais e os que embarcaram na onda “Anna Julia”.

Já disseram que “4″ não parece coisa do Los Hermanos. Entretanto, só eles quatro podem dizer o que soa e o que não soa como Los Hermanos. Como no que foi publicado até agora na imprensa eles não falaram muito sobre isso, o URBe foi ao estúdio Monoaural conversar com Kassin, para compreender melhor as intenções da banda. E Kassin fala.

Produtor de “4″ e do “Ventura”, baixista no “Bloco”, influência declarada por Marcelo Camelo para formação do Los Hermanos e amigo pessoal da banda, Kassin revela a existência de um arquivo de gravações inéditas do grupo, espinafra matérias apressadas e conta histórias de bastidor da produção do novo disco.

A passagem do disco de estréia para “Bloco do Eu Sozinho” foi um choque. Ao mesmo tempo em que espantou fãs do início da banda, fez sucesso de crítica e entre os chamados “formadores de opinião”, pavimentando o caminho para o disco seguinte, “Ventura”.

Esse, por sua vez, parece uma catalisação dos conceitos apresentados no “Bloco”, tornando-o mais fácil de compreender e ajudando a fixar o nome do Los Hermanos entre os grandes do rock brasileiro. Como produtor da metade dos discos da banda, para você, como “4” se encaixa no resto da discografia?

Como uma nova quebra. E é até o que eu gosto mais do disco, de ser uma quebra e não uma afirmação da idéia anterior. O que eu gosto bastante nesse disco é isso. Concordo com essa evolução que você apresentou. Essa quebra é principalmente de composição. Porque, mesmo a coisa de arregimentação das músicas é bastante relacionada a composição, então, não adianta empurrar certas coisas para determinadas composições porque não tem como.

Acho que a safra de composição que eles tinham no primeiro disco é diferente da do “Bloco”, da do “Ventura” e do “4”. Mas acho que existem semelhanças entre o “Bloco”, o “Ventura e entre o “4” também, existe um certo tipo de composição que é primo. Como em “Pois é”, por exemplo, poderia estar nos outros discos essa música. Existem certas intersessões, mas o que eu admiro é ter menos essas intersessões do que no “Ventura”. Embora eu goste dos dois, gosto de todos na verdade, gosto muito do primeiro também. Embora eu prefira as demos, são muito boas.

O que foi conversado entre você e a banda? Como foi seu primeiro papo com eles sobre esse disco?

Para falar sobre o esse disco especificamente, a gente teve um almoço no meio de 2004. O Marcelo falou que tinha 30 músicas prontas e o Ruivo [Rodrigo Amarante] falou que não tinha nenhuma. O Marcelo falou que tava querendo fazer um disco, naquela época, que fosse mais tocado pela banda, que tivesse mais coisas de improvisação. Ele estava querendo fazer uma coisa solta e livre e a idéia de um disco totalmente ao vivo, dentro do estúdio, com tudo valendo. A idéia era a gente ensaiar pra caralho, todo mundo, eu no baixo ou guitarra, e na hora de tocar, tocar na reta. Todo mundo junto, se olhando, como se fosse um show.

Passou duas semanas daquele almoço e o Marcelo falou, “cara, estou fazendo umas músicas novas que estou achando boas e elas não tem a ver com isso que a gente estava fazendo antes”. Ele rejeitou algumas das músicas que ele tinha e chegou nesse conceito das músicas dele. São bem mais plácidas, né. Elas não têm compromisso com o ritmo, a melodia vai e não volta… São músicas complexas, um pouco sinfônicas até. E o Ruivo começou a aparecer com essas músicas do disco também e, com o jeito que ele tocava, no violão e voz, já diziam um pouco de como os arranjos deveriam ser, no caso dos dois.

O Marcelo já tinha aquele negócio que era bem espaçado, com os tempos relaxados. Ouvindo aquilo, com todo mundo da banda, todo mundo já meio imaginou como aquilo poderia ser e já se viu que não seria um disco muito de rock, como não é, tem três músicas um pouco mais… Foi uma conseqüência da safra de composições que veio e todos naquele momento concordaram que essa composições serviriam para essa quebra, entendeu, mais que a safra passada.

Depois desse processo que o Marcelo falou que tinha novas músicas, o Rodrigo já apareceu com várias. A última música que entrou no disco foi “Condicional” e foi a última música que apareceu dessa safra. Ela entrou exatamente no penúltimo dia de ensaio para começar a gravar. Ali, já no final, com o disco fechado. Ele tinha umas outras músicas que a gente ensaiou e não entraram, o Marcelo também.

Não chegou nem a gravar essas?

Não. A gente decidiu que só gravaria o que fosse usar, o que foi ótimo, deu o mínimo de confusão. No disco anterior, algumas músicas a gente ficou deixando, deixando pra tirar e no final não tirava. Então dessa vez se optou por gravar só o que fosse usar.

Então existem sobras do “Ventura” gravadas?

Existem sobras, acho, de todos os discos. Eles fazem muita música, né. Desse disco também existe, tem uma que sobrou.

Música boa, poderia estar no disco?

Poderia, mas dentro do disco, não por qualidade, mas conceitualmente não faria sentido. Uma música do Marcelo muito boa. Ela mudou de nome algumas vezes, mas a gente chamava de “Perceber”, que era como começava a primeira estrofe.

A gente fez dois arranjos, gravamos de três jeitos diferentes. Um com a banda, outra com eu e o Bruno fazendo sapateado…

Como assim? Gravando o chão?

É sério! A gente fazendo umas batidas de sapateado. Gravação ridícula, cara! Eu e o Bruno suando pra caralho, “pô, difícil essa merda!” (risos). A gente gravou dobrando, pra dar aquela sensação de que era uma porrada de gente sapateando. Depois fizemos uma versão com percussões. Esses três arranjos foram gravados.

Em termos de som, o que se queria atingir com “4″? Quais eram as referências?

Não tinha muita referência, nunca teve, cara. Inclusive, saiu um negócio num jornal falando de Wilco e eu achei isso muito louco, porque ninguém tinha ouvido Wilco até bem no final [das gravações]. Quando saiu aquele disco com o ovo na capa [“A ghost is born”] eu ouvi esse disco com o Ruivo e eu lembro exatamente quando, por isso achei engraçado esse comentário. Foi um dia que a gente saiu pra comer e o Ruivo me mostrou o disco no carro, no dia que a gente tava passando o mix pra fita, o disco [do Los Hermanos] já tinha terminado. Achei engraçado terem falado que isso era uma referência, porque ninguém tinha ouvido aquilo até então.

Isso foi coisa do José Flávio [Jr., colaborador da Folha de S.Paulo], né, fazendo merda. Pronto, falei, falei, tava aqui ó! Achei que ele foi meio bundão naquela matéria lá. Posso falar porque eu já falei pra ele. Ele não tinha ouvido o disco e estava falando sobre um negócio partindo de opiniões de pessoas que ouviram vagamente, porque ninguém tinha ouvido. Só a gente e o Daniel [Carvalho, engenheiro de som], no estúdio.

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Se não tinham referências explícitas, como era a conversa com a banda?

O Marcelo queria um clima que o resto das coisas fosse uma paisagem, que o resto da banda não imprimisse tanto. A idéia de fazer um disco calmo. O disco é bem calmo, né? Mesmo as músicas um pouco mais agressivas, é um agressivo calmo.

O Barba falava que queria um som de bateria tal e aí me explicava. Ele usava um tipo de pele que meio mata o som, então a gente conversou sobre isso, testou umas outras peles. Ele queria que os tons cantassem mais, tudo tem nota. Acho que a parada passa menos por referências, passa mais por aí.

O Bruno queria ter Rhodes, piano acústico numa, ele tinha a idéia bem dele. O Bruno é incrível gravando, ele tem a idéia dele muito precisa. Dos quatro ele é o que tem o foco maior na gravação. Ele já vem com o som pronto, mexo muito pouco na parada dele. Até tem jogo, mas a concepção tá ali já.

O Marcelo e o Rodrigo também, pedem uns sons de guitarra. O Marcelo até trocou de guitarra, gravou quase tudo com uma semi-acústica. Ele comprou uma Hofner, indicada pelo Catatau [guitarrista do Cidadão Instigado, que participa do disco].

E o baixo, quem é que define?

O Ruivo tem um baixo que é muito legal, semi-acústico também, do Rio Grande do Sul, chama Sonelli. Com três captadores, um baixo esquisitão. Teve uma parada engraçada. Eles me mostraram as músicas e eu viajei, pra fora, com a Orquestra ou com o +2, não lembro. Entrei numa loja e vi um jogo de cordas de nylon, pretas, pra botar em baixo, e pensei “isso tem a ver com o disco do Los Hermanos”, comprei as cordas e esqueci disso, passou um tempão. Ficou aqui guardada um tempão, passaram-se meses. Quando o Ruivo chegou, com o baixo, na hora do ensaio, eu falei das cordas. Daí eu olhei e ele tinha as mesmas cordas no baixo dele! A gente pensou a mesma coisa!

Tu acabou gostando do disco ou não? Não curtiu não?

É… estou no meio do caminho. Sinceramente, se fosse outra banda, eu já tinha parado de ouvir, tinha desistido. Mas como é uma banda que eu respeito, ainda estou tentando entender o que está acontecendo, pra onde está indo. Fiquei mais perdido do que qualquer coisa, o que talvez seja bom. Achei as letras muito herméticas também, difíceis de se relacionar.

No “Bloco do Eu Sozinho”, se você ver as matérias que saíram na época – e a gente leu algumas até – elas são do mesmo jeito, ninguém fala nada do disco. Ficou todo mundo com o pé atrás, sem entender.

A parada das letras é um pouco mais hermética mesmo. Mas tem uma parada musical, que se você for julgar esteticamente, no primeiro, no segundo e no terceiro discos, não é que seja um clichê, mas existe um modo de compor que ele é repetido. Acho que isso é o normal de compositores. Se você pegar caras que tem uma carreira extensa, com coisas diferentes, tipo Jorge Ben, Caetano ou Gil, existe uma certa maneira, como se fosse um Gestalt da pessoa, que aquilo raramente se quebra. E acho que isso é o que acontece nesse disco: aquilo se quebra. Tem uma parada do Marcelo realmente estar fazendo um tipo de composição que ele nunca fez, e o Rodrigo também.

É o que eu gosto nesse disco, esse é o ponto que eu acho legal. Quando me mostraram as músicas eu pensei “pô, maneiro, isso nem parece eles”. Dentro do disco, ele parece dois discos, um lado e um outro lado. Isso é uma parada do disco que eu gosto, dele ter essa riqueza. Eu acho uma riqueza, não acho uma fraqueza, me dá uma sensação de “do caralho!”.

A mudança é interessante. Foi muito legal o que aconteceu do primeiro disco pro segundo e do segundo para o terceiro. Depois de ter encontrado um caminho mais pop no “Ventura”, cristalizando os conceitos do “Bloco”, se eles se repetissem teria sido muito chato. Teria virado uma fórmula.

Acho que na verdade, o “4” é mais “Bloco” do que “Ventura”.

Então essa quebra de formato do “4” em relação ao “Ventura” pode ser um desenho de algo que virá mais bem resolvido no próximo disco?

Não tem como prever como o cara vai compor, nem ele tem. Acho inclusive que essa quebra não é planejada por eles. Aconteceu de, num determinado momento, o Ruivo ter aquelas músicas e o Marcelo aquelas e esse conjunto ter se formado.

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Sendo que músicas do Marcelo estão mais diferentes do que se conhecia dele do que as do Amarante estão em relação as suas, comparando em paralelo.

É, exatamente. Eu acho isso também.

Dessa vez, o processo de pré-produção pareceu mais solto, com a banda dando continuidade a agenda de shows, sem tanto isolamento. Acompanhando pelo saite, pareceu que vocês não estavam tão imersos no processo quanto das outras vezes. Qual foi a diferença dessa estada do sítio em relação as outras vezes?

Da outra vez a banda sumiu porque já estava no final da turnê mesmo, já não tinha tantos shows. Dessa vez tinha um monte de show pra fazer, mas eles estavam falando que tinham que gravar um disco. Então, no primeiro momento do disco, não teve show, no primeiro mês e meio eles sumiram mesmo. No sítio já tinha shows, ensaiava durante a semana e descia pra fazer tocar no final de semana. Da outra vez também foi assim.

Esse sítio de agora era melhor que o anterior. O outro era mais gelado e tinha menos coisa pra fazer na casa. Dessa vez era em Araras, que já era mais perto do que o outro, tinha pingue-pongue, totó, piscina, então tinha mais recreação que no outro. O lugar era bem mais relaxado.

De cara, a principal diferença é que os metais parecem mais mansos. O Marcelo Camelo tem escutado, literalmente, muitas “Coisas” do Moacir Santos. Essa mudança passa por aí?

Acho que não, porque não parece com os arranjos dele. O arranjo de metais que tem em “Horizonte distante” parece bastante com Los Hermanos, o de “Dois barcos” é que não. A gente começou a ouvir esse disco na época do “Ventura”, fomos pro sítio uma vez ouvindo “Coisas”.

As quebras de andamento também deram uma acalmada, né?

As músicas eram mais lentas, não tinha nem jeito de fazer quebras de andamento.

A estética das músicas do Camelo e do Amarante parecem mais distantes do que nunca. Isso foi uma questão na produção do disco? Como você resolveu isso, em termos de unidade na produção?

Isso foi uma questão pra mim. Isso pra mim sempre foi o maior problema, parecia ter dois discos diferentes. Ouvindo em casa o disco saiu melhor do que eu pensava, achei que ouvindo você não tem a sensação, quando muda de música, que a produção ficou aquém para uma ou outra. Para o produtor essa é a parte difícil.

Quando você tem um disco com faixas tão distintas, a gravação muda muito. Se você tem uma banda de rock tocando rock o tempo inteiro, é muito mais fácil você gravar e mixar um disco coeso e bom. Porque quando você tem uma música com uma pegada muito leve e outra com os caras enfiando a porrada, muda como eu armo o estúdio, como monto a bateria, muda a afinação, os microfones, as distâncias dos microfones…

Quando você mixa um disco, o plano da voz é uma parte importante, o volume que aquilo vai estar. Ter dois cantores já é uma questão pra isso. Se você tem dois cantores, você tem que ter a o som da voz de um, o som da voz de outro e aquilo que dá a impressão geral do disco, a banda entra dentro daquilo. Só que quando você tem uma música de rock, as vozes são mais baixas, porque você tem uma banda. Porque se não soa como se tivesse meio magro, sabe, você vai tirando som da banda pra aumentar a voz. E eu passava de música rock pra uma música totalmente violão e voz e quase nada, e um vibrafone… Isso pra produção é um momento que é difícil de ter coesão.

Como você solucionou isso?

Quebrando muito a cabeça. Tiveram coisas que eu evitei, durante a produção, desde os ensaios. Por exemplo, evitei, dentro das próprias músicas, ter dinâmicas muito acentuadas porque acho que isso acentuaria mais no disco inteiro, se fosse mais esquizofrênico de dinâmica. Como o “Ventura” é um pouco mais, as músicas t}em muito sobe e desce, mas quase tudo tem o som parecido. Nesse, como as músicas eram tão diferentes, eu achava que isso poderia ser um problema. Tentei aliviar um pouco nos arranjos mesmo.

Também tem a parada de não ter tantas distâncias nas freqüências do disco todo. Não ter músicas com mais grave ou mais agudos do que outras. Por exemplo, do baixo ser agudo numa música e na outra ser extremamente grave. O som das guitarras nunca tinha um som realmente estragado, pesado e podre, pra dar unidade pelo menos nisso no disco. Os agudos sempre têm um certo padrão para não ter um super agudo ou um super médio atacando e depois numa outra música não ter.

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Algumas músicas remetem a outras bandas do círculo de amizade de vocês. “Paquetá” parece tirada do repertório da Orquestra Imperial, “O vento” lembra o tema do programa Ensaio Geral, do próprio LH, “Condicional” tem algo de Moreno Veloso. Isso pode ser conseqüência de todos esses nomes terem sua participação, ou na produção ou como integrante?

Acho que “Condicional” remeteria mais a “Cara estranho” do que ao Moreno, é a mesma escala. “Paquetá” tem um toque de Orquestra sim. A gente é um grupo de amigos, acho que isso é completamente normal, mas eu não concordei com a sua pergunta. Concordo com o que você está falando, mas não coma a sua pergunta, porque eu não achei essas semelhanças especificamente. Mas quando você está num grupo amigos, que tocam juntos, se vêem e ouvem música juntos, isso é completamente natural. Poderia até existir bem mais nesse disco do que existe. Dessas, talvez, acho que só “Paquetá” lembre realmente a Orquestra, bastante. Acho isso normal, saudável. Uma troca boa.

Existe o risco desses artistas transitarem numa intersessão, ficando todos muito parecidos entre si? Não seria o caso de se variar um pouco as parcerias?

Acho isso impossível de acontecer. No caso do +2 [grupo mutante formado por Kassin, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti], por exemplo, trocando então de foco. A gente tem o projeto de fazer três discos, Moreno+2, Domenico+2 e Kassin+2. Os dois primeiros já são totalmente diferentes entre si. Isso não é uma coisa só pensada. Cada pessoa tem suas características de talentos, né, o que você pode fazer quando está em determinada função e suas limitações. Tem um certo tipo de coisa que eu vou fazer bem se estiver naquela posição e, sei lá, se eu estivesse indo pra bateria eu faria de outro jeito. Então esse grupo de pessoas, mudando a função, já delimita diferenças. Mesmo que você esteja pensando de um certo jeito, é impossível o meu disco ser parecido com o do Moreno, porque eu não vou cantar daquele jeito.

No caso deles [Los Hermanos], acho que eles têm uma unidade de banda e que isso permanece. Por mais que tenham influência de um, aquela influência de um — por exemplo, no caso da Orquestra influenciando o Ruivo — aquilo nunca vai ser totalmente passado para os outros, por mais que ele queira, porque são grupos diferentes. É impossível. Aquela música especificamente não soa Orquestra, não tem os metais… É uma música totalmente Los Hermanos em termos de letra. O jeito de pensar é outro, é o Bruno tocando piano, é o Barba tocando bateria.

E em termos de técnicas de gravação, desses artistas utilizarem o mesmo estúdio [o Monoaural], não pode gerar essas semelhanças entre os trabalhos?

Acho que não. Pensa nos discos que saem daqui, tem um jeito com Gameboy [do projeto Artificial], tem os do +2, tem o “Ventura” e o “4”, que são completamente diferentes de som. Acho difícil disso acontecer em qualquer disco, em qualquer grupo. Mesmo que um cara faça umas canções muito parecidas umas com as outras, ele foi gravar em outro lugar, outro dia… Já é outro dia.

Por mais que “Paquetá” pudesse caber na Orquestra, talvez outras músicas do Ruivo também poderiam caber, e vice-versa. É óbvio que cada um pode tocar suas coisas, mas a partir do momento que cada um toca, aquilo imprime de um jeito que é diferente. Por exemplo, Ramones é mole de tocar, não é? Qualquer imbecil toca Ramones. Aí você vê qualquer imbecil tocando Ramones e não é a mesma coisa. Fica uma merda, porque não são aqueles caras, é outro lance. O Raimundos tocando Ramones é o Raimundos tocando Ramones. Raimundos é uma banda do caralho, adora Ramones, daí o nome, só que quando eles tocam Ramones eles são os Raimundos e você ouve isso.

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Isso é algo que pode acontecer, um produtor colocar demais a sua cara numa produção?

Existe esse tipo de produção, de fazer aquele som, aquela parada. Mas isso é mais uma limitação. O que eu acho de produção, quando eu acho maneiro, é quando você tem um disco e você fala “pô, o que eu vou fazer com esse disco agora?” e aí você pensa como vai ser aquela parada. Você planeja como vai ser o som daquela porra ali, como aquilo ali deve soar. Isso que eu acho que é a parada, pensar cada disco.

Outra coisa é que o produtor é um cara que fica num mundo muito melhor do que o do artista. O artista leva uma vida, que pra mim parece ruim, mas pra muitas pessoas pode parecer um glamour, mas é um cara pega um avião por dia. Ele passa a semana inteira numa cidade diferente a cada dia, que ele não conhece, que geralmente é no interior de não sei aonde, que pode ser um lugar legal, pode ser um lugar que não tenha nada. Acorda de manhã pega um ônibus, fica no hotel, vai pra passagem de som, volta pro hotel, faz o show, dorme seis horas, pega o primeiro vôo no outro dia. Ele vive uma parada que é foda, sacou.

Pra mim, que tenho uma vida que eu acho ótima, saio de casa, venho pro trabalho, cada dia faço uma coisa diferente, eu acho que cada disco o máximo que o produtor consegue tirar do artista pra aquilo que está sendo gravado seja verdade, o que o cara realmente acredita, é isso é que faz a parada ficar boa. Porque é ele que vai fazer essas viagens que depois eu não vou fazer. Nesse momento agora, o Marcelo deve estar no interior de São Paulo, não sei aonde, hipoteticamente. O cara deve estar fazendo uma viagem de ônibus, cada dia uma cidade, essas paradas assim. Eu tô aqui, tranqüilo, batendo papo contigo, vou subir pro estúdio e fazer um pouco Os Gardenais [banda de Minas que Kassin está produzindo, nenhuma relação com o portal que hospeda o URBe], vou dormir na minha própria cama… É uma vida diferente, por isso, por mais que o produtor interfira, o disco é do artista, porque ele é que vai lá ralar. O meu trabalho acaba quando o disco lança, o dele se estende por mais dois anos.

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Entrevista – Nego Moçambique

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Nego Moçambique é o principal artista de música eletrônica brasileira. Encontrei com ele para uma entrevista (para uma matéria para a revista americana XLR8R) no restaurante especializado em comidas do norte Tacacá do Norte, no Catete, Rio de Janeiro.

A entrevista virou bate-papo, foi bem bacana. Ele falou da crescente atenção que tem recebido no exterior, de suas influências, do atual estágio da música eletrônica brasileira e otras cositas más. Tá tudo aí embaixo.

Como foi seu começo na música?

Em Brasília tem uma escola pública de música e eu estudei lá a vida toda. Mas eu ia trocando de instrumentos, desde criança eu não tinha muita paciência para aprender um instrumento só. Terminou que eu passei por todos e não aprendi a tocar mesmo nenhum, não me profissionalizei em nenhum.

Mas fiquei com aquela coisa na cabeça. Na escola de música tinha um corredor e você ia passando por blocos onde estavam os diferentes naipes da orquestra. Então um bloco era só de sopros, outro era de percussão, um de cordas, outro só de teclas. Eu lembro de passar por lá e ficar ouvindo todos os instrumentos ao mesmo tempo, as pessoas ensaiando, você ia andando e ouvindo um pouco de cada. Isso foi demais pra definir minha cabeça pro que eu faço hoje, porque na música eletrônica você termina sendo uma pessoa de banda de um homem só.

É parte do trabalho do produtor mesmo, juntar as partes.

Exatamente, exatamente. Agora, essa coisa de música eletrônica começou assim: em Brasília abriram um club chamado Wlöd, que foi mais ou menos o que o Hell’s Club foi para São Paulo. Tocava música eletrônica lá.

Em que época foi isso?

Sou péssimo pra época, mas eu tinha uns 24 anos [N.E. por volta de 1997, portanto], hoje eu tenho 32. Então esse lugar era bacana porque ninguém era profissional, os DJs não eram profissionais, ninguém sabia sequer mixar. E ninguém sabia também o que era techno, trance, drum ‘n’ bass, jungle, não sei o que, então as pessoas tocavam de tudo. Era demais porque você chegava na noite e não sabia qual ia ser a próxima música do cara, você não tinha noção. Não tinha essa coisa de estilo.

O que tem a ver com o seu set.

Isso. A gente ia sempre com essa coisa da surpresa, “pô, como vai ser a próxima música?”. Hoje os DJs são profissionais, mas nessa época não tinha isso, e era demais. Eu fiquei com isso também marcado na cabeça. E como eu já mexia com músico, é evidente que nunca me interessou tocar disco dos outros, eu queria saber como é que se fazia isso.

Você nunca foi DJ?

Nunca, nunca.

Você sabe mexer em toca-discos se você quiser?

Não. Tem vezes que eu vou tentar ligar um mixer e não está tocando e é maior dificuldade pra saber o que está acontecendo, por exemplo. CD-J, não sei mexer em nada disso. Então, nessa época, um amigo meu chegou com uma bateria eletrônica, uma Boss DR-5. Ela era um seqüenciador de 4 canais, a gente ligava num módulo da Emu chamado Morpheus, fazia música com os 4 canais e usava a batida da bateria. Eu ficava impressionado com aquilo porque o negócio tocava sozinho, era uma banda, tava lá funcionando. Eu falei, “ah, então é assim que esses caras fazem essas músicas”. Mal eu sabia que os caras usavam muito mais coisas.

Mas já era um começo.

Já era um começo. Me encantou esse lance da casa noturna porque as pessoas saíam pra dançar e era o seguinte. Brasília era conhecida como a capital do rock no Brasil, mas quando você ia nesse lugar tava todo mundo lá. Que é até uma característica de Brasília, mas eu via que a pista de dança era muito democrática. Pessoas que normalmente nem falariam uma com as outras, estavam lá dançando juntas. Era louco porque, como as batidas eram muito diferentes, as pessoas se soltavam mesmo.

O que tocava lá nessa época?

Putz, tocava desde LFO àquelas coisas Relief Records, tocava muito esse tipo de coisa. Tinha uns outros caras que tocavam uns lances que hoje são consideradas ambient, mas tocava techno também, uns negócios impossíveis e todo mundo dançava, não estava nem aí. Era engraçado, mas aí que você mesmo que era um mundo de possibilidades. Acho que a coisa se fechou um pouco quando foi se profissionalizando. É até uma coisa que eu acho que, aqui no Brasil principalmente que não tem essa cultura de música eletrônica específica, estancou a possibilidade de entrar gente nova. Ficou uma coisa fechada, certa.

Perdeu o ecletismo, né?

É, exatamente. Por exemplo, uma noite de drum ‘n’ bass. Quem conhece e gosta, já sabe que só vai rolar db a noite toda, vai. Quem conhece e não gosta, não vai.

Vira um gueto.

É bom, lógico, o cara sair pra curtir db vai gostar, mas em termos de ser uma coisa mais participativa, mais parecida com o Brasil… Por exemplo, estou aqui tomando um tacacá agora. É uma comida da Amazônia, mas eu nasci em Brasília, que é uma cidade que não tem nada de regionalismo, essas coisas. Em contrapartida estou aqui tomando esse negócio que eu adoro, sou viciado nisso. O Brasil tem uma capacidade de fazer as coisas que caem aqui virarem uma terceira muito mais maluca.

É o lance da Semana de Arte Moderna de 1922, antropofagia.

Essa onda. Acho que essa especialização é boa e tal, mas destrói um pouco isso. Eu faço live pa e me toquei que, quando você toca ao vivo, as pessoas não querem ver outro DJ. Então pra que eu vou fazer as mixagens todas perfeitas, aquela mesma onda que os DJs fazem? Eu vou é quebrar tudo mesmo! Vai entrar uma vinheta, depois vai entrar uma música muito mais lenta do que a que estava tocando antes… Porque, eu vejo as pessoas que saem pra dançar outro tipo de música e elas não querem ficar ouvindo a mesma batida a noite toda, elas querem que varie. Eu comecei a quebrar porque eu queria tocar na rua, para os b-boys, uma música que quando minha avó escutasse não dissesse, “filho, tira isso daí”, uma música que fosse mais democrática, como essa base que eu tive. É a única coisa que eu tenho de ideológico talvez com música, abrir pra todo mundo.

Ser eclético para atingir mais gente?

Não no sentido de ser mais comercial. Só acho que dançar é bom pra todo mundo.

E como é fazer música fora do eixo Rio-São Paulo, principalmente música eletrônica? Isso acabou sendo benéfico, te deu mais liberdade?

Completamente. Sempre ficou uma coisa meio amadora, até hoje o que eu faço é um pouco amador. Agora é que estou tentando me profissionalizar no sentido de melhorar a qualidade de som que sai do PA. O lance estava meio tosco, mesa de som ruim, nem sabia mexer direito numa simples mesa de som. Hoje mesmo, porque um cara mudou dois cabos, que eu fui me ligar como que funcionava o compressor que eu comprei. Nesse sentido que estou tentando deixar a coisa um pouco mais profissional. Faz diferença um som bom.

Como [em Brasília] as pessoas estão longe daqui, elas não estão muito preocupadas em tocar de uma maneira tal. Agora sim, agora está em todo lugar, depois do DJ Marky principalmente, começou uma corrida do ouro. Todo mundo quer ficar rico também, ganhar grana sendo DJ, então vamos tocar certinho, mixar perfeito. E os meninos novos têm muito essa preocupação técnica, a mixagem tem que ser perfeita, e às vezes esquecem da seleção das músicas, que é mais importante.

A mixagem é um instante, a música que você escolher colocar vai ficar ali pelo menos uns três minutos tocando.

O que interessa, sinceramente, em música, é a emoção. Se música for boa, ela vai ficar anos na cabeça daquela pessoa que escutou, ela vai querer esse disco, vai atrás dessa história e vai descobrir um outro mundo. Uma mixagem perfeita não é nada perto disso.

No que você pensa quando faz música?

Eu não moro exatamente em Brasília. De uns anos pra cá estou morando numa zona rural, entre uma cidade satélite e o Plano Piloto, na auto-estrada, numa chácara. Não tem nem Internet rápida, está na era da conexão discada ainda.

A música é feita do que você vive. Você tem uma filha, você é doido pela sua mulher, o dia está bonito, estou me sentindo bem, eu faço música sobre isso. Minha música não é sobre bombar no club, minha preocupação não é essa. Se eu estou dançando, tá beleza. Na minha casa mora uma família grande, meu sogro, minha sogra, as crianças. Então se funciona para uma senhora e para os pequenos estão dançando, tá funcionando.

E como você classificaria seu som? House, breakbeat, funk, uma mistura de tudo isso?

É uma mistura de tudo isso. Em geral falo simplesmente que eu toco funk. Funk com uma acento brasileiro, não é um funk americano nem nada.

Funk 70 e o do Rio também, né?

Pois é, passa por aí também, esse Miami bass com maculelê. Tem influência de soul brasileiro, africano, afro beat, uma escola de house. Como eu vou tocando exatamente o que me agrada, às vezes quando estou fazendo música eu penso, “bom, agora queria uma coisa um pouquinho mais reta”, vou lá e faço um house. “Agora vou fazer uma pra todo mundo rebolar”, faço um Miami.

Você se liga nisso então?

Me ligo, isso aí eu peso. Tem que ter uma música da mulherada rebolar se não elas vão ficar bravas, lá vem um Miami; tem que ter uma pro pessoal swingar, faz um house também; agora pro pessoal dançar mais loucão, pá breakbeat; agora um afro beat pra ficar mais roots, manda.

Quais equipamentos você usa?

É tudo hardware. Estou usando uma MPC 1000, um cabeçote de sintetizador alemão Virus C, que eu acho o melhor sintetizador que tem, uma mesa de som de 8 canais e um microfone. E comprei um compressor inglês, Fatman, pra dar uma pressão e pra ver se melhora um pouquinho a saída.

Você tem vontade de em algum momento ter instrumentos no palco, montar uma banda?

Tenho vontade, mas não uma banda exatamente com uma formação de banda, saca? Umas pessoas participando, alguém tocando uma percussão ou bateria eletrônica mesmo, algum sopro, adoro metais. Queria que tivesse mais gente cantando comigo, isso ia ser demais, porque a coisa coletiva das vozes enriquece muito.

Isso para as apresentações ao vivo ou para gravar também?

Se eu conseguisse montar uma banda assim eu chamaria eles pra gravar também. Como produtor você arredonda tudo e é outra coisa. Se eu cantando tiver uma voz de mulher junto, é outra coisa. Você já começa a pensar contando com aquela voz e vai na onda da pessoa. Se o cara toca saxofone, gosta mais de jazz, quando eu for fazer uma música já vou pensar nisso.

Tem uma interação, essas pessoas viram mais uma peça. Como com o equipamento, você tem que ver o que eles podem te dar, o que eles podem te oferecer.

Essa coisa de você ter os seqüenciadores e poder usar mais seres humanos, mais gente, fica muito rico. Que é uma coisa que inclusive aproxima demais as pessoas para conhecerem esse tipo de música, todo mundo que ver. Nesse lance de live pa tem isso também, as pessoas querem ver alguma coisa.

Realmente, poucas coisas são mais chatas do que ficar olhando um DJ tocar. É uma pessoa, dois toca-discos e a cena não muda. As suas apresentações têm essa parte de dançar, cantar, ajuda a prender a atenção das pessoas.

Eu nunca vou querer um show em que as pessoas estejam fixadas olhando, tanto que não gosto muito de palco. Prefiro club, gente que dança mesmo. E acho que uma banda dentro deste espaço é um outro lance, porque aí tem um elemento humano muito mais forte e tal, mas eu quero que as pessoas continuem interessadas em dançar. Apesar de que eu sei que é um pouco difícil.

Como é esse lance da dança? Muita gente pensa que você é dançarino de b-boy.

Eu não sou b-boy. Gosto de break dance demais, até já treinei uns passos, mas eu não sou b-boy. Ver os b-boys dançando me influenciou completamente, porque eu ouvia aquele som que estava tocando nos rádios deles e eu queria fazer uma música igual aquela.

Eu danço porque acho minha música dançante, então eu danço.. Eu estou numa festa, com todo mundo dançando então eu danço também. A única diferença é que estou do outro lado. Admito que quando eu me toquei que podia ser um recurso para me comunicar com as pessoas, às vezes eu uso. Tanto que tem vezes que eu não danço e o pessoal fica achando que tem algo estranho. Eles acham que faz parte do show.

Suas influências vão de Kraftwerk ao baile funk, passando por Prince, hip hop, reggae. Quem mais você curte ouvir?

Fela Kuti, John Coltrane e esses caras do jazz, Tim Maia… pior que agora pra lembrar o nome de todo mundo… Tenho andado meio viciado em Basement Jaxx, tô ouvindo direto. Nunca fui muito ligado em som, na verdade. Vou ouvindo coisas que meus amigos colocam.

Não é de ficar fuçando, catando coisas?

Não. Agora eu comecei porque estou namorando uma menina que é assim. Tem uma porrada de discos, aí ela que me atualizou. Ela falou “Você só escuta coisa velha! Escuta aqui”, não sei o que. Claro que eu já conhecia o Basement Jaxx, mas como ela tem todos, ouvi melhor.

Quem mais?

Música eletrônica tem tanta gente… Tenho muita coletânea, de breakbeat, de house e tal. Mas realmente, nomes… De gente nova do hip hop, eu só gosto de coisa velha, gosto muito da Missy Eliott, pelo menos umas duas faixas. Teve umas outras que ouvi que eu já não achei tão legal.

Dancehall?

Dancehall gosto mais de coisa velha também, gosto dos digitais também, adoro. Não gosto muito dessas coisas novas da Jamaica, teve meio que uma fusão com esse hip hop americano novo e as pessoas ficam falando que isso é legal e tal. Pode até ser, mas pro meu ouvido não rolou. Adoro Sean Paul, o primeiro disco dele é animal. Agora, esse outro aí com Beyoncé e tal já não achei tão legal. Ah, coisa que eu adoro, que é novo: Antibalas Afro Beat Orchestra, principalmente aquela música “Che che kole”.

Você já ouviu a versão reggae do disco “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd? O nome é “Dub Side of the Moon” e foi produzido pelo Victor “Ticklah” Axelrod, que toca órgão no Antibalas.

Esse disco é muito animal, muito foda. Ele que produziu? Não sabia não. Taí, esse disco é muito bom também. Gostei do Prefuse 73, é muito legal. Eu não me ligo muito em selo. O trabalho da Gigolo, por exemplo, eu não conhecia. Confesso pra você que eu nunca tinha colocado nem um CD da Miss Kittin. Até vi ela tocando fora, achei maneiro. Ela tocando como DJ, excelente. Ela consegue dar uma coisa feminina pro techno, sem ser aquela coisa noiada.

Falando nisso, tem esse papo do DJ Hell [dono da Gigolo] ter te escutado na Fosfobox, né?

É, foi legal. Quando eu tava tocando, de repente tinha um gringo lá. Gringo no Rio, no verão, a gente vê logo. [interrompe para pedir mais um tacacá, o terceiro]. Eu tô vendo aquele gringo lá e deu mal contato no mixer. Ele avisou e ele mesmo meteu a mão e arrumou o cabo. Eu falei “que gringo gente fina”. Eu ouvia disco do DJ Hell há dez anos atrás, sei lá quantos anos atrás, imagina se eu ia imaginar que aquele gringo lá era o DJ Hell, eu não tava nem aí. Até brinquei com ele durante o show e tal, normal.

Quando eu terminei de tocar ele veio falar comigo e se apresentou. Eu te confesso, sabia quem era ele, mas eu não sabia o tamanho da Gigolo, não sabia nem a quantas ele andava. Ele disse “fiquei interessado no seu som, queria ver se eu lançava alguma coisa”, bem direto. Aí eu dei meu e-mail dele, mas eu dei numa assim, um selo lá de fora. Depois que eu vi o site e todo mundo veio me falar, “pô, Gigolo, Gigolo”.

Conversamos por e-mail, vim aqui pro Rio de novo conversar e ele pediu pra mandar material pra ele. Ele comprou o disco que saiu pela Segundo Mundo, tem uma demo que eu gravei pro pessoal da gravadora, porque a gente vai lançar outro disco em agosto, que eu mandei também, e tinha um live do Sónar gravado. Coisa que neguinho gravou pra mim aí. Curiosamente, ele escolheu umas músicas que pra mim eram tipo as piores. Não que fossem as piores, mas são aquelas que eu falo, “essa?!”.

Quais foram os comentários dele?

Ele falou umas coisas sobre o que eu faço que eu nunca imaginei que alguém fosse falar. Que parecia Green Velvet, Kraftwerk. Essa relação com Kraftwerk que ele descolou eu achei muito engraçado, porque eu nunca achei isso.

Pelo minimalismo, talvez.

Depois que ele falou que eu comecei a sacar que, apesar dos samples, como eu toco tudo, é praticamente uma música feita com timbre de sintetizador. Então é eletrônica mesmo, não tem muito jeito. Pode ser suingada, ter uns batidões diferentes, mas é eletrônica, no sentido mais eletrônico que se pode ter. Eu também não achava que era minimalista, achava tudo muito cheio. Depois que eu comecei a sacar que era menos.

Outros gringos já me viram tocando, mas o Hell foi um cara que falou da minha música de um jeito que ninguém tinha falado, apontou coisas que ninguém nunca tinha apontado. Ele, mesmo sem querer, me deu uma visão da coisa que eu não tinha. Isso aí foi demais. É massa ouvir um cara com a experiência dele falar essas coisas.

Como vai ser, o Hell vai lançar alguma coisa lá? Tem alguma coisa fechada?

Até fiquei de finalizar umas músicas e mandar pra ele, mas até agora não mandei. Agora é que eu comprei um computador, comprei uma interface de áudio. Não tem nada exatamente fechado.

Você tem sampleado o que?

Às vezes eu toco umas guitarras funk e sampleio, sampleio muito a minha própria voz.

Gosto muito de fazer remix de baba, hit. Tipo uma que eu tava tocando da Sophie St. Laurent, “Sex appeal”. Foi uma música muito famosa nos anos 80 e que não toca mais, não sei nem se as pessoas se lembram. Já fiz remix do Illya Kuryaki and the Valderramas. Prince também. Outra banda que eu adoro também é o Zapp & Rogers. Acho que o Prince copiou muita coisa deles. São os reis do talk box.

Você considera o que você faz música brasileira?

Não sei se o que eu faço é música brasileira, mas eu faço uma música pensando no Brasil. Porque tem que dar certo aqui, antes de mais nada, atrair as pessoas daqui. Eu acho que eu faço uma espécie de funk com acento brasileiro.

Eu achava até que não. Quando eu fui tocar no Sónar, fui com o Marlboro e com o Instituto, que são duas coisas completamente brasileiras. Um com tamborim, chocalhão, bandeira do Brasil, depois o Marlboro com o funk, mais brasileiro que isso não tem. Eu falei, “putz, fudeu, vou ficar deslocado aqui”.

Mas aí não, rolou total, a galera adorou. Eu sempre acreditei nisso, mas me confirmaram que tem um acento brasileiro na música. A gente nasceu aqui né, vai fazer o que. Minha mãe é do Maranhão e meu pai é do Rio, você cresce ouvindo forró, samba, então é uma coisa cultural mesmo, sai sozinho. É uma coisa que até o DJ Dolores fala, você não precisa querer mostrar que é brasileiro. Basta você fazer que vai sair.

O Tim Maia mesmo, aquele soul dele. Ele tem um disco inteiro em inglês que é incrível. Duvido que tenha algum gringo que tenha gravado alguma coisa parecida com aquilo, porque por mais influência que tenha de música estrangeira, é o típico brasileiro antropofágico, mastiga e devolve outra coisa. Como afro beat.

Que é a releitura da releitura. O funk, influenciado pelos ritmos africanos, voltando para África.

Tem coisas de afro beat que são super funk. Não é só o Fela Kuti. Você escuta e diz, “é funk, é soul”, mas é africano, não é americano. É super claro. Como o soul brasileiro. Então eu acho que estou nesse time aí, só que na eletrônica.

O que você está achando desse reconhecimento internacional da música eletrônica brasileira que está surgindo? Por que só agora? É pelo amadurecimento?

Acho que já dá pra fazer uma avaliação dessa revolução digital. Para os gringos acho que não fez muita diferença, eles sempre tiverem acesso as coisas. Você divide uma MPC lá em 40 vezes, é muito diferente.

Por aqui, essa coisa digital ajudou muito as pessoas a adentrarem o mundo da produção musical de uma maneira mais barata, mais acessível, da nossa maneira, que é pirateando programas, etc. Querendo ou não, acabou criando uma cultura de produção. Depois com um pouco mais de dinheiro as pessoas acabam comprando equipamentos melhores, mas o que importa é que num primeiro momento a gente teve acesso, a uma maneira de fazer que era nova.

Nesse sentido aí foi muito bom. O lance da Internet, das pessoas poderem pegar tudo. Aí você fala, “teve um amadurecimento?”. Agora teve.

Como você está vendo a cena brasileira?

Tem muita gente fazendo de tudo, ta bem interessante. Mas tem muita gente nova, de 20, 18 anos. Tá bem efervescente mas ainda não tem uma coisa conclusiva, de uma música exatamente nossa. Tem muita coisa acontecendo positiva, mas tem alguma coisa que vai vir depois do Dolores, do Drumagick, de mim. Acho que tudo isso ainda é a ponta do iceberg, vamos ter muitas surpresas pela frente.

Você considera a sua geração como a que está fazendo a transição então?

Eu colocaria dessa maneira. Eu sou uma espécie de sortudo mesmo. Eu não estou no eixo Rio-SP, não estou tentando fazer nada de novo, só faço o que vem na minha cabeça, vou pela intuição, não tento fazer um lance criativo e inovador. Eu vou pelo o que eu acho que é legal de dançar.

Eu não acho que estou fazendo nada de novo, quem vai fazer algo realmente de novo é o pessoal que vai vir depois de mim.

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Os bastidores do laboratório – Chemical Brothers

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Os Irmãos Químicos pilotam a nave – foto divulgação

Após seis anos, o Chemical Brothers voltou ao Brasil em grande estilo. Tocando para 26 mil pessoas (segundo divulgado pela organização do evento) no Pacaembu, número condizente com a importância da banda, eles fizeram uma apresentação bem parecida com a do festival inglês Creamfields e confirmaram, pra quem tinha dúvidas, que continuam relevantes. Se o conteúdo foi o mesmo, o resultado final também não foi diferente.

Uma faixa produzida por Tom Rowlands e Ed Simmons pode ser reconhecida em poucos segundos. O que alguns, ansiosos pela novidade da estação “lá fora” — esse lugar tão idílico quanto onírico — se apressam em chamar de fórmula batida, nesse caso deveria ser percebido como estilo próprio. Isso fica claro, por exemplo, pelo fato de mesmo as músicas antigas não soarem datadas.

Apesar de mostrarem desapego ao hype da vez, qualquer que seja ele, a sonoridade da dupla permanece atual. Eles fazem o que gostam, são sua própria referência. Isso não significa que estejam fechados em si mesmos. Como um buraco negro, sugam tudo à sua volta; breakbeat, house, electro, trance, não importa, fatalmente o que é bom encontra espaço nas criações da dupla.

Abre parêntese

Acompanhar de perto os nomes internacionais da cena eletrônica que estão passando pelo Brasil esse ano não tem sido tarefa fácil. A maior dificuldade –especialmente para os cariocas, com o esvaziamento cultural do Rio (o último a sair, por favor, desliga os toca-discos) — nem é a concentração dos eventos em São Paulo. Preocupante mesmo é a maneira como as coisas estão acontecendo.

A iniciativa de uma marca de apoiar eventos de música, apesar dos interesses implícitos e explícitos, é por si só louvável. O problema é quando a apresentação de artistas como Moby ou Tiga ficam restritas a festas para um grupo reduzidíssimo.

A exemplo do que aconteceu no set do Fatboy Slim na Praia do Flamengo, no show do Chemical Brothers reservou-se o melhor lugar, justo em frente ao palco, para área VIP. Com a pequena diferença que dessa vez o evento não era gratuito, o ingresso custava amargos R$90. Pegou mal. Se vira moda, vai saber onde isso vai parar.

Fecha parêntese e chega de chorar pitanga.

Acabado o show, hora de ir embora. Ao menos esse era o plano inicial. Depois de encontrarmos ACM, pessoa de realce na Baiia, ficou decidido: vamos ao camarim conversar com os caras. Sem credencial nem nada, de excuse me em excuse me, de thank you em thank you, chegamos à sala de aquecimento, nos vestiários do Pacaembu.

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Da entrada do camarim (um lounge com incensos, pufes, panos indianos, cerveja e champagne) dava pra ouvir uma guitarrinha sincopada e uma voz de sotaque carregado saindo do aparelho de som. Chegando mais perto, linhas de baixo estranhamente familiares vibravam, até surgir a prova cabal. Uma cacetada na caixa da bateria, o estalo ecoando pelo ambiente e uma certeza. Dub. O som esolhido para o pós-show foi “Linval Thompson & Friends: Whip them King Tubby!”.

Bizarro mesmo foi assistir Valéria Zopello (!!!), ex-senhora Dinho (Mamonas Assassinas), e seu acompanhante comandando as ações no camarim, decidindo onde a trupe iria esticar a noite.

Enquanto boa parte da imprensa especializada não conseguiu uma entrevista sequer com Tom e Ed, infiltrado no chill out, lado a lado com os dois, restou fazer o meu trabalho.

Simpático, Ed Simmons cumprimentou, um a um, todos no recinto enquanto trocava o disco. Colocou um CD-R com músicas do TV on the Radio (“Staring at the sun”), Roots Manuva (“Witness”) e outras mais. Menos falante, a conversa com ele foi mais rápida. Perguntei sobre dub, ele respondeu que não conhecia muito, mas que sempre tinha seu King Tubby ou Linval Thompson à mão.

Tom Rowlands foi mais acessível. Confiando em nada além da minha combalida memória, vou tentar reproduzir o papo.

URBe: Opa, bom show!

Tom: Obrigado, que bom que você gostou. Obrigado por ter vindo!

Estou fazendo um documentário sobre dub, até contactei seu empresário para tentar marcar uma entrevista. Você ficou sabendo?

Sobre dub? Legal! Não fiquei sabendo, sabe como é… Também não gosto de fazer entrevistas [delicadamente cortando qualquer esperança]. Viu esse disco? [apontando para Tubby em cima da mesa].

Vi. Bacana, não conhecia. Realmente dar entrevistas todos os dias não deve ser legal. Acho que eu também não gostaria. Gostou do show?

Foi meio mais ou menos, esse lugar é meio esquisito. A platéia não estava reagindo muito.

Muita gente não gostou do show que vocês fizeram aqui da primeira vez, sabia?

Não! Bom, música tem dessas coisas, né, não dá pra agradar todo mundo. Os lugares que a gente tocou eram mais legais que esse aqui, no entanto.

Vocês tocaram muita coisa do disco novo?

Umas duas ou três músicas, acho.

“Acid child”, aquela com um sample do Fred Kruger, é uma delas?

Não. Essa não vai estar no disco, é apenas uma faixa.

E você tem um CD-R do disco novo aqui?

Pra falar a verdade, tenho sim. Mas é claro que não vou te dar! Ha, ha!

Ha, ha, ha! O que você gosta de escutar? Gosta do Adam Freeland?

Hummm… Acho OK.

Do que você gosta então?

De Roots Manuva [aproveitando que tinha acabado de tocar uma música deles]. Boas linhas de baixo. O nosso engenheiro de som é o mesmo que o deles.

Quer dizer que vocês não fazem a parte de engenharia de som dos seus próprios discos?

Nós até poderíamos fazer, mas preferimos que outra pessoa faça para poder focar somente na música. Você sabe o que tem pra fazer por aqui hoje a noite?

[após uma breve explicação sobre o que é funk] O DJ Marlboro toca hoje na Lov.e.

Uau! Música eletrônica das favelas brasileiras deve ser interessante! Algo que tenha as batidas do Miami bass e seja cru como o dancehall parece bom. Nós fomos nessa boate ontem. As letras tem muita violência, como no dancehall?

Tem de tudo. Violência, política, letras mais apimentadas… Nesse aspecto é bem parecido com o ritmo jamaicano mesmo.

Nós vamos para o hotel agora, mas essa parece uma boa opção. Boa viagem de volta amanhã e bom trabalho. Obrigado por terem vindo!

>> colaborou: Carol*

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Funk, preconceito e justiça divina

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clique: URBe Fotos

Nem bem voltou de Londres, onde tocou na versão local do Sónar, o dj Marlboro já está de malas prontas pra retornar à Europa. A turnê começa dia 17, na edição oficial do Sónar, em Barcelona, e passa pela França, Eslovênia e Croácia.

Há pouco menos de um ano, quando Marlboro tocou no festival Central Park Summer Stage, em NY, a primeira apresentação do funkeiro nos EUA chamou atenção da mídia. Agora, tão pouco tempo depois, tocar no exterior parece ter virado rotina.

Pra tentar entender o que mudou de lá pra cá e falar de algumas outras coisas, nada melhor do perguntar pro próprio.

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URBe – Como foi a apresentação na Inglaterra, tudo bem?

DJ Marlboro – Recebemos um e-mail do Ben Cave, produtor do The Breezeblock, da BBC Radio One, o maior programa de música eletrônica alternativa da Inglaterra e que já teve convidados como Radiohead e Björk. Ele disse que tinha ficado muito impressionado com o que ouviu no Sónar e me convidou pra produzir um set especial para o programa.

URBe – Suas músicas tem muitos samples de clássicos da década de 80. Você acredita que esse interesse do funk lá fora possa estar relacionado com o revival mundial dos anos 80?

DJM – Acho que não. O funk se alimenta de tudo, desde músicas dos anos 80 até músicas e elementos do nosso folclore, essas influências e essa mistura é que fazem do funk uma coisa inédita, apesar de conter samples. A popularização e reconhecimento do funk no exterior tem mais a ver com o vazio da cena dance atual, tá todo mundo atrás de algo novo. Nosso som está tendo um espaço e reconhecimento que já poderia ter tido há muito tempo, mas o preconceito de djs e promotores daqui deu uma retardada nisso. A justiça divina tarda, mas nunca falha. Tem muito mais coisas acontecendo, é que eu nao gosto de falar antes de concretizar. Coisas que, acho, nenhum dj brasileiro até hoje conseguiu.

URBe – Adianta pelo menos um pouco desse assunto. Algo relacionado a outros grandes festivais europeus (Glastonbury, Homelands, etc.)?

DJM – Sei não!

URBe – A última faixa do disco que veio encartado naquela revista/biografia sobre você, é um medley praticamente sem vocais. Essa vertente instrumental é um estilo dentro funk? Dá pra fazer um set inteiro dessa forma?

DJM – Claro que sim. Pelo tempo de existência e pelo o que o funk já se desenvolveu até hoje, dá pra fazer um set completo de qualquer uma de suas vertentes. Tem muita música que pra gente já passou, mas pro resto do mundo é novidade e bem legal. Isso é o resultado de ter ficado tanto tempo no submundo, se desenvolvendo nele. Hoje temos um história muito forte e vasta.

URBe – Falando de tendências dentro do funk, liste os principais estilos e os anos em que cada um surgiu.

DJM – Até 1988 era só funk internacional, a nacionalização se deu nesse ano e em 89 saiu o primeiro disco, “Funk Brasil Volume 01″. No início tudo era chamado de funk. Quando letras romanticas foram inseridas no estilo, nasceu o funk melody. O funk irrevente é mais atual, com a Taty [Quebra Barraco] e MC Serginho, apesar de já ter musicas há mais tempo. O funk relato, também conhecido como “proibidão”, surgiu quando os bailes foram fechados e a policia não permitia bailes nos clubes. Antes era a favela cantando pro asfalto, as músicas relatavam o orgulho da favela, de morar nela. Depois da perseguição, era a favela cantando pra favela, sob outras regras e outras visões. As músicas passaram a retratar a realidade das pessoas que moram sobre aquelas regras e leis. Funk montagem é o funk com trechos de outras músicas. Hoje bootleg é moda, mas o funk é bootleg muito antes de existir essa denominação. O mesmo serve pra música eletrônica, o funk é eletronico antes da denominaçao também!

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Entrevista – Mombojó (2004)

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A idade dos integrantes — o mais velho tem 21, o baterista, 17 — rendeu o apelido de “Mombojovens”. No entanto, a pouca idade não quer dizer nada. Ou melhor, acaba sendo mais um fator positivo no som do Mombojó. Dez anos após o manifesto mangue bit, Pernambuco está definitivamente de volta ao mapa musical brasileiro e a geração pós-Chico Sciense convive com naturalidade com isso. Os elementos já foram devidamente digeridos e reprocessados. Sem perder os laços com o passado, a proposta agora é outra, hora de dar mais um passo à frente.

Nem bem lançou o primeiro disco independente, o Mombojó rapidamente passou de aposta para certeza. Depois de resenhas positivas em alguns grandes jornais e revistas, a banda fechou um contrato de distribuição nacional com a revista do Lobão, a OutraCoisa. Além disso, esse ano volta ao Abril Pró Rock (tocaram na edição de 2002) e participam do Curitiba Pop Festival.

Em entrevista ao URBe, por e-mail, quatro integrantes falaram sobre esses e outros assuntos.

Como foi o início do Mombojó? Parece que vocês eram fãs do Sheik Tosado e que estavam em todos os shows.

Chiquinho (teclado, sampler) — A coisa começou quando metade do pessoal que hoje é a Mombojó ainda tinha uma outra banda, a Play Damião. Começamos a sacar o que realmente queríamos fazer e com o fim da Play surgiu a Mombojó Ragajá!. Depois assumimos uma nova formação, com algumas mudanças de integrantes, resultando na atual Mombojó, nome que não quer dizer nada, mas hoje pelo menos já soa bonito no ouvido!

Felipe S (vocal) — A gente conheceu China depois de um show do Sheik Tosado com a Nação Zumbi aqui em Recife. Tínhamos uns 16 anos e China, 19. Mas levou um tempão até a gente se juntar mesmo de alguma forma. A Mombojó começou mesmo num projeto de remanescentes de outras bandas de adolescentes, todos já com experiências frustradas querendo fazer uma história não-rock, mas ao mesmo tempo com peso.

Marcelo Campello (violão, cavaquinho, escaleta) — Todo mundo na banda acompanhava os eventos da cena Recife-Olindense desde muito jovem, escutando aquela carga de informações e se identificando. Eddie, CSNZ, Mundo Livre S/A, o próprio Sheik, de certa forma exalavam uma postura que supria nossa “fome” sonora na época.

Marcelo Machado (guitarra) — A banda começou com a junção de uma galera que tocava desde cedo, uns com apenas 12 anos. Uns já se conheciam há muito tempo, como é meu caso, do Chiquinho, Vicente (o baterista, meu irmão!) e Felipe. Rolou uma coisa que nunca tinha rolado muito nas outras bandas: entrosamento quase total.

O disco tem algumas parcerias com o China. Como surgiu isso?

Marcelo Campello — Um dia o China ligou pra elogiar o nosso EP (2001), foi massa essa atitude dele de entrar em contato. Aí eu e Felipe marcamos de ir na casa dele, assim mesmo, na cara-dura, não tínhamos muita coisa pra falar, mas uma vontade de se conhecer mais e trocar idéias. Já nesse primeiro dia a identificação foi instantânea, China mostrou um esqueleto de “Adelaide”, eu fui botando uns acordes e a música surgiu. Era assim: quem tivesse uma letra ou uma base, botava na roda pra ver no que dava. Foi assim que surgiram as parcerias.

Chiquinho — Eu pessoalmente não sei como surgiu esse contato, quando dei por mim estávamos eu e China, em minha casa, compondo a trilha sonora de um curta metragem que nunca rolou.

Vocês cresceram no legado de Chico Science e alguns de vocês eram praticamente crianças quando ele morreu. Qual a relação de vocês com a figura do Chico e com o movimento mangue bit?

Marcelo Campello — Chico Science foi uma coisa meio iluminada aqui em Pernambuco, pouca gente passou indiferente àquela proposta. Eu tinha uns 12 anos e foi importante ver que as coisas podiam ser feitas aqui, ver as pessoas se agregando por dividir pensamentos em comum. Acho genial a metáfora do mangue como biodiversidade cultural, porque evitou a formatação do som. As bandas daqui seguem uma cultura de procurar um som próprio, criar, isso é do caralho.

Felipe S — Quando Chico era vivo, a Nação fazia uns ensaios no ateliê do meu pai [o artista plástico Maurício Silva], meu contato inicial com a banda foi dessa forma. Da leva de coisas que surgiu nesse tempo por aqui o que mais influenciou diretamente a Mombojó foi o “Samba Esquema Noise” da Mundo Livre S/A, os dois discos da Eddie, “Samba pra Burro” de Otto e os do Nação Zumbi pós-Chico.

Chiquinho — Acho legal ser visto meio que como a nova geração do mangue, isso é massa, é bom ver que estamos dando continuidade àquilo que agente vê desde guri, estar no meio dos ídolos de infância: Eddie, Mundo Livre e a própria Nação Zumbi.

Como o folclore pernambucano influencia o som de vocês?

Marcelo Campello — Na verdade, a gente procura diferenciar bem até onde a valorização da cultura popular é sadia e onde começa a afetação. O simples fato de termos nascido aqui nos faz suficientemente pernambucanos e reflete no som de formas muito mais sutis e complexas, não há mais nada a buscar.

Chiquinho — De alguma forma, acaba influenciando. Cresci ouvindo isso, acompanhando minha mãe pelos carnavais da cidade. Porém, dispenso qualquer preocupação em enfatizar essa mistura de ritmos do folclore pernambucano em nosso som, até porque já tem muita gente fazendo isso e muito bem. Por isso é legal tocar as coisas que sabemos fazer sem forçar a barra do “pernambucanismo”. Afinal, pernambuco acaba sendo isso mesmo: diversificado.

O que vocês ouvem e quais são suas referências?

Felipe S — Ultimamente travei meu cérebro escutando só o “Silver Album”, da Astrud Gilberto, a banda que toca com ela nesse disco é fantástica! Os sons mais novos a gente sempre faz circular internamente por todos da banda. O último que teve grande aceitação sem dúvida foi o Stereolab.

Marcelo Campello — A lista é grande: Air, Stereolab, Tortoise, Man or Astroman, The Pops, Tim Maia, Roberto Carlos, Nação Zumbi, Jorge Ben, Garoto, Tom Jobim, João Gilberto, Rogério Duprat, Stooges, Cartola, Skatalites, Snoop Dogg, Horace Andy, Black Uhuru, Lee Perry…

Chiquinho — Tenho o costume de ouvir as coisas que são daqui: Dj Dolores, Comadre Fulozinha, Variant, Tonami Dub e Variant TL, um projeto paralelo da Mundo Livre e de uma banda local chamada Songo, os caras tocam um ska roots do caralho.

A exemplo de banda atuais como Los Hermanos, Acabou la Tequila ou Nervoso, a Jovem Guarda é referência para vocês?

Felipe S — O lance de Roberto Carlos fluiu de forma muito espontânea dentro da Mombojó.

Chiquinho (o tecladista) já tinha alguns vinis e China é vidrado, botava a gente pra escutar coisas o tempo todo. A Jovem Guarda é referência pra todo mundo que morou em subúrbio aqui em Recife, mas eu nunca tive muitas afinidades. Das bandas que você citou, conheço apenas o Los Hermanos, mas as pessoas insistem tanto em dizer que eu me espelho neles que, por nóia, já não escuto faz mais de um ano.

Marcelo Campello — Roberto Carlos, nos idos de 70, refletia bem o tipo de conflito que muitas pessoas da nossa idade vivem – melancolia, estranheza – por isso a identificação.

Chiquinho — Viajo muito nos timbres que os caras tiravam na época, em ir atrás daqueles timbres; inclusive, uso um sintetizador que me faz chegar bem perto daquela vibe.

Marcelo Machado — Eu curto muito o Los Hermanos, é uma banda que se encontrou e faz um som muito na vibe. Em relação a Roberto Carlos, eu acho que ele realmente é o pivô musical e intelectual pra muita gente.

Vocês e o China têm até uma banda cover do Robertão…

Marcelo Campello — Primeiro a gente fez um projeto muito massa, os Monstros. Tocamos umas duas vezes, uma delas numa festinha de prédio. China mostrou uns vinis do The Pops, Roberto Carlos, essa coisa meio jovem-guarda/surf que a gente viaja. Essa era a onda dos Monstros.

Chiquinho — Recentemente, fundamos uma nova banda, a Del rey, tocando as pérolas do rei Roberto dos anos 60 e 70. É o jeito que a gente arrumou pra tirar um nas passagens de China por Recife. O negócio é muito divertido, é do caralho tocar as músicas do rei, tem um sentimento inexplicável… É massa, ainda vai dar o que falar!

Como foi o esquema de gravação de “Nadadenovo”?

Felipe S — O “Nadadenovo” foi realizado da forma mais independente que se possa imaginar, inclusive poucas pessoas escutaram o disco durante o processo de gravação e mixagem, pra evitar aquele clima de “isso tá ruim”, “aquilo poderia ser desse outro jeito”, etc. Todos queríamos fazer um disco exatamente como desse na nossa telha e muita coisa foi se transformando durante as gravações, sempre mexíamos muito.

Marcelo Machado — O Nadadenovo foi gravado graças a um projeto para a Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife que conseguimos aprovar. A primeira tiragem foi de cerca de 2 mil discos. Por enquanto conseguimos negociar a vendagem com algumas lojas de disco do Recife e nós mesmos vendemos em shows da Mombojó.

Quais são os planos para esse disco, vai ter turnê?

Marcelo Machado — O disco tem sido bem comentado pela imprensa daqui do Recife e do Sul, e por isso estamos organizando algumas viagens para fazer durante o ano. Provavelmente ainda esse semestre estaremos organizando uma mini-turnê pelo sul-sudeste.

Pra finalizar, falem um pouco das músicas, do clima do disco. Enfim, expliquem para quem ainda não conhece.

Felipe S — Na verdade, acho meio chato dar receita sobre as músicas. Mas já que muita gente busca certeza em tudo, vai aqui uma dica: não tem nadadenovo!

Marcelo Campello — O disco tem uma sutileza que eu acho massa, buscamos muito isso, o minimalismo, nada foi jogado, até os momentos caóticos são bem planejados. Uma coisa que caracteriza o disco são as constantes e repentinas mudanças de atmosfera, gostamos muito disso, ainda há muito o que evoluir nesse sentido. Procurar “ver” o som é uma coisa boa.

Marcelo Machado — Uma característica nossa é inserir nas músicas elementos que fazem a gente ficar na vibe, uma espécie de vibração conjunta que une todos da banda em um som harmônico. Gostamos de fazer música que nos deixe felizes e descansados quando ouvimos, música pra fechar o olho e relaxar.

* na página do grupo dá para baixar o disco inteiro.

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Zé Ramalho

Acabei de chegar da entrevista com Zé Ramalho para a Revista da MTV (sai na edição de Junho). O papo foi bom. Falamos de plágio, dos tempos da psicodelia nordestina e da influência do poder criativo das drogas na sua música. Pra quem não sabe, Zé Ramalho foi ao fundo do poço, tentou cavar mais um pouco, não conseguiu e voltou. Citados: cogumelos, maconha e LSD.

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