
Isso é um gif animado de um trecho da entrevista do Roots Manuva no Dub Echoes. Saiu no Dutty Artz, do mestre Dj Rupture.
Vi no Dancing Cheetah, blogue editado pelo pesquisador do documentário Chicodub, meu companheiro de viagem para as entrevistas do filme.
Hoje o filme será exibido no Rio, as 21h, no Cine Santa Teresa, como parte da edição carioca do festival In Edit Brasil.
Liderança é isso aí.

vídeos e fotos: URBe
Dois anos desde a última visita (três desde a primeira) e depois de ter passado por alguns dos festivais mais enxarcados da Europa, finalmente chegou a hora de partir novamente em direção ao deserto, onde o sol é uma certeza e o visual garantido.
O Coachella Music & Arts Festival é um dos maiores encontros das chamadas “bandas de internet” do planeta. Ser escalado para o festival é como receber um diploma que diz “no último ano você se destacou e agora é oficialmente uma banda, não mais um projeto online”.
É claro que nem todos os formandos vingam na profissão. Muitos dos artistas que passam com algum destaque pelo festival somem na poeira menos de um ano depois. Na turma de 2009, estranhamente ficaram de fora Metronomy e Lady Hawke, dois nomes muito elogiados em 2008.
Alguns outros voltam ao deserto maiores do que quando passaram por lá pela primeira vez, caso do The Killers, TV on the Radio e M.I.A. nesse ano.

A décima edição do festival talvez tenha sido uma das edições com a escalação mais fraca — certamente foi mais difícil manter a usual média de sete shows por dia. Obviamente, uma escalação frouxa do Coachella coloca no bolso boa parte dos festivais pelo mundo e ainda assim vale a pena.
Em 2009 houve menos conflitos de horários entre as principais atrações, tornando as decisões do que assitir (sempre a maior tortura do evento) mais fáceis. Você assistia um show sem aquela pontada de estar ausente de três outros imperdíveis.
Mesmo com a afirmação dos organizadores do evento de que essa provavelmente terá sido a terceira maior edição em termos de público (2007, com Rage Against the Machine, foi a maior), a sensação e comentário dos que estava lá foi de que estava mais vazio que o normal.
Os sinais eram claros: menos filas pro banheiro, pra água, pra entrar, menos engarrafamento e menos tumulto no estacionamento. Tirando sexta, com Paul McCartney, os ingressos do festival não esgotaram.
A culpa de tudo isso, é claro, é da crise. Uma caminhada pela Melrose Avenue, passando entre um set de gravação do seriado The Hills (afinal, é Los Angeles) e muitas lojas de roupa, assusta a quantidade de lojas em queima de estoque e placas informando sobre fechamentos.
Na América fascinada pelo novo presidente (é impressionante a quantidade de produtos relacionados a Obama, de camisetas a doces, máscaras e livros) o bicho está pegando. O que para muitos foi um motivo a mais para cavar os quase 300 dólares do passe para os três dias e esquecer.
Se a música não desse conta, certamente a ensolação faria o serviço.
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1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney

Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.
Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração motivando o esforço a mais.
Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações mexicanas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver o Molotov fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do De Falla.

Los Campesinos
As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.
Ting Tings, “Great DJ”
De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.
Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar foos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.
Como se vê, a dupla se leva a sério demais, a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s not my name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings visse algum demérito nisso.
De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados do dia, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol que foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.
Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.

Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison
A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.
Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela sexta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.
O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrente um dia inteiro debaixo do sol pra aguardar um show.
N.A.S.A., “Watchadoin”
Se o começo do dia foi calmo, a parte final foi corrida. Do Franz Ferdinadn direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.
A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.
Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.
Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa.
Beirut, “Nantes”
O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.
A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.
Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano Veloso, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não teve, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legals e bonitos do festival.

Instalações espalhadas pelo gramado
Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotadas, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.
Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.
Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, onde sobre a acapela e é feita uma nova base. Chegou a hora de um passo a frente, em outra direção? Pode ser.
Ou isso ou era simplesmente preguiça de dançar mesmo.
Paul McCartney, “Blackbird”
Chegada a hora do Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o grande nome do evento.
O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico demais. Os arranjos soavam comerciais demais, como se fosse um DVD genérico, bem chato.
Além disso, os integrantes faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…
A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.
Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.
Brincando com a platéia, Paul disse que as vezes era difícil se concentrar e tocar com tanta gente segurando placas com dizeres como “Beatles, estive lá!” e chamando a sua atenção.
John Lennon também foi homenageado com “Here Today”. Obviamente, as músicas dos Beatles (”The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”.
Vendo Paul ao piano, vilolão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.
Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas, dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).
Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.
Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?
Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada.
Até chegar no carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe…
Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!
Menos mal que por ter saído mais cedo ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vãi passando de 200 dólares no eBay.
Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo.
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2o dia, sábado
Para one, Surkin, TV on the Radio, Fleet Foxes, Crookers, M.I.A., Chemical Brothers (DJ set) e Gang Gang Dance

Entre todos os acertos, se tem uma coisa na qual o Coachella erra a mão entra ano, sai ano é na programação eletrônica. Não dá pra entender o que acontece, porque apesar de muitos nomes legais entrarem na lista, quando chega a hora de tocar, só vem téquinôu.
Rara excessão foram os franceses Para One e Surkin. O primeiro até resvalou no pior do 4×4 farofento, enquanto o segundo passeou mais pelo electro, ainda que tenha sido um tanto reto e sem suinge. O horário, 15h, é que não ajudou muito.
Os anos 90 vão ressurgindo também nessa área. Do remix dos Crookers para “Day n Night” (KiD KuDi) as músicas dos DJ sets do Chemical Brothers e Groove Armada, aquelas sirenes de rave do começo da década surgiam picotadas ou inteiras. É o elemento da vez.
Da área VIP, onde também fica a tenda de imprensa, aguardando bananas e coca-cola reverterem o estrago feito por uma wrap de tofu e um café da manhã de ovos com bacon, deu pra ouvir o Michael Franti & Spearhead, mas não dá pra levar sua politização muito a sério, não convence.

A área VIP é puro LA, com pururucas, playboys e celebridades B, de David Hasselholf a Busy Phillips e modeletes como a inglesa Agyness Deyn. Muita gente vem de Los Angeles só pra ficar badalando por ali, sem de fato entrar no festival.
A princípio essas pessoas podem parecer descoladas num festival como o Coachella. Com o aumento do consumo de música na era digital, mudou também o público.
Hoje é difícil você encontrar alguém que não tenha um iPod ou no mínimo conheça meia dúzia de bandas da vez. Lembro que quando era adolescente era comum encontrar gente que simplesmente não escutava música.
No entanto, apesar do maior número de ouvintes, o consumo é feito de forma cada vez mais passiva. Claro que isso sempre foi assim, desde que as rádios e TVs dominaram a distribuição de conteúdo cultural.
O que é mudou é que atualmente bandas alternativas e independentes — o tipo de som que antes exigia um esforço dos interessados para conseguir — chegam de forma massificada via internet, celulares e MP3.

Essa turma não desce pro gramado e não anda pelas tendas, de forma que de certa maneira continua tudo igual. A turma do oba-oba distante, os mais interessados circulando atrás de bons sons. Bom pro festival, que consegue atingir dois públicos diferentes, gera mais mídia e se mantém economicamente viável.
Entre os que vão ao evento pelos shows — a grande maioria — esse ano houve um certo relaxamento em relação ao consumo de maconha. Nas outras duas edições vi pouquíssima pessoas fumando. Dessa vez tinha zilhões de pessoas desbelotando tranquilamente e dando dois em pipes coloridos.
A explicação para essa mudança é a maconha medicinal. Ao que parece (se alguém souber essa história melhor, dizaê), no ano passado houve um flexibilização na lei que permite o uso da cannabis para tratamento médico.
Antes era restrito a doenças mais sérias e agora um baseado pode ser receitado para distúrbios como insônia, depressão e outros problemas que não podem ser diagnosticados em exames.
Rapidamente surgiu uma indústria ao redor disso, de maneira que basta ir a um médico em Venice Beach e sair de lá com a autorização para comprar maconha (e consumir em público) numa loja ao lado.
TV on the Radio, “Staring at the sun”
Com a rapaziada devidamente frita pelo sol e embalada pela marola, o TV on the Radio não teve muito trabalho para chapar o público de vez com um show grosseiramente grave.
O TVOTR foi o primeiro dos graduandos a tocarem no final de semana. Assim como eles, retornaram ao festival para tocar no palco principal em vez de tendas o The Killers e M.I.A.
Cada vez que Kyp Malone dedilhava o baixo os sub-graves pareciam estar saindo de algum equipamento digital de tão fortes. Era cada catranco no peito que não era mole não.
A densa massa servia de base para camadas e mais camadas de guitarra, num som que tinha que ser decifrado para ser entendido.
Durante o show, Kyp perguntou quem iria ficar pra ver o Thievery Corporation logo depois (não deu pra perceber se foi deboche) e afirmou que esperaria para ver o Gang Gang Dance mais tarde.
E ficou mesmo. A noite, sentado no gramado perto da tenda onde o GGD tocaria, ao ouvir a palavra “Brasil” Kyp disse que o Rio era sua cidade favorita no mundo e que espera muito poder voltar para visitar. Uma pena que o GGD não emplacou, com um show esquisito, bem diferente do que “Princes” sugere ser a onda da banda.
O TVOTR foi uma curiosa escolha para tocar no famoso horário do pôr-do-sol, geralmente reservado para atrações mais melosas, como o Fleet Foxes que tocou a seguir.
O cenário é o grande diferencial do Coachella. O lugar é lindo e a luz da Califórnia, um eterno final de tarde dourado, faz maravilhas pelos shows. É tudo que os festivais de verão na Europa não conseguem ser, pelo simples fato de que lá não faz sol.
A beleza do lugar influencia diretamente nas apresentações e no astral do público. Impossível separar uma coisa da outra, o meio é de fato a mensagem. Não é a toa que diversos artistas que tocam no Coachella preparam algo especial pra mostrar. É um lugar mágico mesmo.
Fleet Foxes, “White Winter Hymnal”
Já ao anoitecer, no segundo palco ao ar livre, menor, o Fleet Foxes mostrou seu folk setentista para uma platéia hipnotizada. As harmonias vocias, os arranjos, as canções, tudo muito bem feito e bem tocado.
Só que pra mim, tirando “White Winter Hymnal”, não bate. É retrô e introspectivo demais, embora seja totalmente compreensível a adoração que a banda desperta, é muito bom. É só gosto pessoal mesmo.
M.I.A., “Galang”
vídeo: mattwong26
Como a evolução percebida entre seus dois discos sugere, a M.I.A. do “Arular” é muito diferente da M.I.A. do “Kala”.
Quem viu a apresentação da M.I.A. no TIM Festival em 2005 não guarda boa recordação. Muita gente inclusive se desinteressou por ela por conta do show sem graça. Era o mesmo show que ela apresentava na Fabric, em Londres, para um público bem menor, numa boate. Não transpunha bem para o palco.
No Coachella, no entanto, quando ela tocou na tenda mais cedo no mesmo ano (a abertura do vídeo é hilária) a impressão deixada foi muito boa. Até que M.I.A. teve seu pedido de visto de trabalho nos EUA negado em 2006.
Demorou um pouco até M.I.A. voltar ao festival, em 2008. Em sua segunda passagem pelo Coachella, a tenda já não conseguiu dar conta. Segundo relatos, teve pessoas desmaiando, gente saindo pelo ladrão.
O trabalho de pesquisa da estética dos países em desenvolvimento de M.I.A., tanto a visual quanto a musical, cresceu bastante em “Kala”. Provavelmente ciente de que sem o visual seu show não passava totalmente sua mensagem, M.I.A. se transformou numa Madonna do terceiro mundo.

Promovida ao palco principal, aproveitou o tamanho e encheu de gente, dançarinos, músicos, roupas fosforescentes, e não apenas um DJ como antes.
Do alto de um púpito repleto de microfones, M.I.A. apresentava os números e dava palavaras de ordem, enquanto o telão exibia imagens de um protesto, com placas onde se lia “M.I.A. is a terrorist”.
Marrenta que só, entrou cantarolando na melodia de “Rehab”, de Amy Winehouse (a grande ausência do festival, cancelada) “they tried to make me sing at the Oscars, but I said no, no, no!”. Tirou onda com o Grammy e depois da sexta música ameaçou a produção: “seis músicas, já posso ir embora.”
Como se sentisse culpada pelo próprio sucesso, M.I.A. faz questão de se afirmar não-cooptada pelo sistema, fazendo questão de manter a postura rebelde, com tanta vontade que, claro, parece falso.
Problema nenhum ela não ser mais a mesma menina desconhecida que gravava músicas em casa e coloca na internet. Seria mais honesto aceitar que os tempos mudaram e continuar inovando a partir de um novo lugar, em vez de querer repetir o que já fez.
Musicalmente essa crise não deve estar acontecendo e a inclusão de “20 dollar” no repertório taí pra confirmar. A não ser que ela esteja somente preocupada em manter a popularidade que mostrou ter durante o encerramento com “Paper Planes”.
Seria uma grande besteira. Esse caminho tem quer natural, tentar adivinhar o que vai agradar o público pucas vezes dá certo. Basta ela fazer o que ela faz, naturalmente, que o resultado vai continuar muito bom.
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3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.
Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tune — Kanye West não está mesmo sozinho nessa.
Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.
Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.
Mexican Institute of Sound
Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.
Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.
Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.
Friendly Fires, “Paris”
Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.
Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.
Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.
É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.
Lykke Li, “Knocked up” (KoL)
Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.
Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.
Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.
Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.
Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.
O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.
Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.
Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.
Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.
Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.
No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.
Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.

Yeah Yeah Yeahs
Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.
No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.
Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”
Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.
As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.
Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.
O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.
The Orb
Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.
Etienne de Crecy
Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.
Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.
Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.
3o dia, domingo
Mexican Institute of Sound, Friendly Fires, Sebastien Tellier, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Yeah Yeah Yeahs, Late of the Pier, My Bloody Valentine, Groove Armada (DJ set), The Orb e Etienne de Crecy

Nunca deixa de surpreender enorme o descompasso entre um dos maiores festivais de música do mundo e as grande mídia local. Ligar o rádio (mesmo a por satélite que pega até no carro) é ter a certeza de que o Coachella (e a interenet por extensão) ainda é um mundo paralelo.
Tirando obviedades como The Killers, não toca nenhuma das bandas do festival. Não que isso seja surpresa, claro. O que toca é hip hop comercial, atochado de auto-tune — Kanye West não está mesmo sozinho nessa.
Basta uma ida ao supermercado ou dirigir uns 20 minutos pra se ouvir Soulja Boy Tell`em e o chiclete “Kiss Me Thru The Phone” (falando nele, já viu a hilária troca de gentilezas do rapper mirim com Ice T?), a irritante “Blame it” (Jamie Foxx com participação do T-Pain) e a bizarra “I Know You Want Me (Calle Ocho)” (Pitbull, uma versão da medonha “75, Brazil Street”, do Nicola Fasano, sampleando Chicago ), ao menos duas vezes cada.
Ainda bem que o último dia trazia algumas das atrações mais esperadas por esse escriba. Era o dia de matar saudades de Londres com alguns shows vistos repetidas vezes por lá.
Mexican Institute of Sound
Pra entrar no clima caliente do deserto, nada melhor do que uma banda latina, no caso o Mexican Institute of Sound, conhecidos em casa como Instituto Mexicano del Sonido, um nome muito mais legal.
Os mexicanos presentes lotaram o segundo palco ao ar livre pra balançar ao som de cumbia digital, tirações de onda com “Macarena” e hip hop temperado com tequila.
Os gringos também entraram na dança e ao final da apresentação a platéia se transformou num grande trenzinho, daqueles dignos de festa de casamento. Energéticos no palco e uniformizados, o MIS fez bonito com as misturas a metaleira, bases eletrônicas e letras divertidas. Mais um pra lista de boas bandas do México.
Friendly Fires, “Paris”
Uma dos nomes mais elogiados em 2008, o Friendly Fires inexplicavelmente tocou num horário terrível (muito cedo) e na menor das tendas.
Mesmo torrando de calor, os ingleses justificaram a fama e fizeram a alegria dos que lotaram o local e de colegas da indústria que se espremiam na lateral do palco, como o dono da Ed Banger Busy P.
Era o tipo de apresentação que cairia melhor a noite, quando a batida disco e rock de pegada eletrônica faria mais sentido. Mesmo assim, o vocalista Ed MacFarlane dançava como se estivesse escutando um som sozinho no seu quarto, rebolando como um Mick Jagger nerd enquanto batia com o microfone na cabeça.
É um show que poderia vir pro Brasil. Difícil dar errado. Pelo que li, quem não tinha visto ao vivo gostou.
Lykke Li, “Knocked up” (KoL)
Sebasiten Tellier logo depois e, dessa vez, não agradou. Demorou um tempão pra começar, acertando o som e, quando entrou, estava tudo embolado. Vestindo uma roupa sem graça, faltou o deboche que marca seus shows. Menos pior, porque não iria dar pra ver inteiro, já que Lykke Li começava antes do fim do francês.
Novamente no palco aberto menor, a loirinha sentou a puia na galera que tostava sob o sol. Toda de preto e pulando sem parar, Lykke Li mostrou um show ainda melhor do que o usual, utilizando suas mil traquitanas e sem se preocupar em posar de gatinha.
Com o público na mão, se arriscou até a tocar balada, o que poderia ser um perigo, uma vez que sob aquele sol qualquer motivo era motivo pra debandar para alguma sombra. Que nada. O pessoal ficou onde estava até o final. A sueca surpreendeu ainda com sua versão de “Knocked up”, do Kings of Leon.
Enquanto isso, aviões passavam deixando mensagens publicitárias escritas com fumaça no céu. Embora tecnicamente executadas a perfeição, era a certeza de que não há mais limite para interrupções consumistas. Mesmo assim, com boa vontade e reenquadramento, ao menos rendeu uma boa foto.

Na caminhada para o show do Yeah Yeah Yeahs, uma passagem estratégica pelo espaço secundário Do Lab onde a água não parava de cair.
Ao som de um hip hop com batidas quase trance (não é o caso do vídeo acima), o cenário do lugar era daqueles que só se encontra nos EUA. A MC iCatching até que não era ruim não.
O palco era decorado com motivos tribais, em cima tinha uns caras fantasiados de sei lá o que, jogando água no povo, numa breguice digna da Disney.
Nessa escalação enigmática do Coachella 2009, pois não dá pra saber exatamente o que ela signfica até saírem os horários dos palcos (o que esse ano demorou muito, sendo divulgado a dias do evento), deu pra perceber desde o começo que haveria bastante repeteco.
Engraçado como isso parece algo ruim. Acostumados a ver as bandas uma vez na vida (ou então 800, quando os artistas adotam o país como segunda casa), nós aqui no Brasil estamos sempre atrás da novidade, do inédito.
Em tempos de internet esse sentimento é potencializado, tornando a perspectiva de ver uma banda pela segunda ou terceira vez em algo menor. Está longe de ser verdade.

Editada pelo criador de “Lost”, J.J. Abrams, a revista Wired desse mês (se você não leu, deveria) tem como tema o mistério. Em seu ensaio , Abrams fala de como, devido a pressa no consumo de informação, estamos perdendo o gosto por descobrir as coisas ao longo de um processo.
Isso pode se enquadrar a música de duas maneiras. No caso das novidades, poucas bandas são escutadas duas vezes. Abrams fala de como hoje se baixa discos que nunca são ouvidos, algo impensável quando se comprava os mesmos.
No caso das bandas repetidas, pode-se pensar no quanto se perde ao trocar uma audição do segundo disco daquela boa banda (ou show) que você já conhece pela pressa de ouvir algo novo, tentando se manter atualizado. Tarefa ingrata essa, se manter atualizado hoje em dia.
Nesse sentido, é legal notar que um festival que tem dez anos como o Coachella tem apenas um DVD lançado. Em vez de todo ano sair um, a organização esperar para ver quais bandas novas realmente vingaram antes de compilar os melhores momentos. O tempo é mesmo o melhor filtro.

Yeah Yeah Yeahs
Guardando energias e atrás de água, o show do Peter, Bjorn & John foi ouvido de longe. Mais um graduando, dessa vez tocando no palco principal, os suecos não decepcionaram e mantiveram a impressão de 2007, quando tocaram numa tenda: são chatos mesmo. Chega a ser inacreditável que um deles tenha produzido o disco da Lykke Li e que juntos tenham composto “Young Folks”.
No final de tarde, o YYY fez um show bom, sem empolgar o suficiente para valer uma caminhada até mais perto do palco. A boa era mesmo ficar sentado curtindo o som e dando uma espiada no telão. A essa altura, no terceiro dia, o julgamento começa a ficar nublado.
Late of the Pier, “The Enemy Are The Future”
Após jantar um taco ao som da massaroca de guitarras do My Bloody Valentine (o show todo soou como uma música só), a noite chegava perto do seu grand finale, que viria antes do final da noite propriamente dita.
As chances do Late of the Pier não emplacar eram grandes, afinal foram escalados pra tocar a noite na maior das tendas, a Sahara, quase exclusivamente dedicada a música eletrônica e derivados.
Os meninos nem ligaram. Como se estivessem tocando num pub em Londres, fizeram o mesmo show de sempre, com as danças e roupas esquisitas, a gritaria, a quebra de andamento, as camadas de sintetizador e a programações esquisítissimas.
O LOTP tem um lance bacana. É uma banda que você olha e imediatamente saca que tem um clima deles. E esse clima se espalha para o resto do que eles fazem, do som ao vestuário a postura no palco, e não o contrário. Numa época com tanta banda tentando se embalar pra parecer o que não é, isso por si só é um grande diferencial.
The Orb
Chumbado e fazendo hora pra conferir o Etienne de Crecy, passei pelo The Orb fugindo do farofento DJ set do Groove Armada (só de “Superstylin” foram umas três versões). No começo tava legal, bem dub, até descambar pra algo bem genérico entre o lounge e o house, tirando totalmente a vontade de continuar ali.
Etienne de Crecy
Botando a tampa, Etienne de Crecy e seu cubo luminoso. O electro do francês é muito bom não é de hoje e os vídeos do tal cubo no YouTube eram animadores. A verdade é que ao vivo o cenário perde um pouco do impacto, as duas dimensões das projeções ficam mais aparentes do que se pode perceber numa tela, vai entender.
Falta também um pouco de personalidade aquilo lá. Por algum motivo, tem mais cara de cenário de uma boate, onde todo DJ toca dentro daquele cubo, do que de um projeto visual feito sob encomenda para alguém.
Exausto, caminhando em direção ao carro, o primeiro assunto começou com a pergunta “e aí, voltamos ano que vem?”. Se tudo der certo, tomara que sim.
2o dia, sábado
Para one, Surkin, TV on the Radio, Fleet Foxes, Crookers, M.I.A., Chemical Brothers (DJ set) e Gang Gang Dance

vídeos e fotos: URBe
Entre todos os acertos, se tem uma coisa na qual o Coachella erra a mão entra ano, sai ano é na programação eletrônica. Não dá pra entender o que acontece, porque apesar de muitos nomes legais entrarem na lista, quando chega a hora de tocar, só vem téquinôu.
Rara excessão foram os franceses Para One e Surkin. O primeiro até resvalou no pior do 4×4 farofento, enquanto o segundo passeou mais pelo electro, ainda que tenha sido um tanto reto e sem suinge. O horário, 15h, é que não ajudou muito.
Os anos 90 vão ressurgindo também nessa área. Do remix dos Crookers para “Day n Night” (KiD KuDi) as músicas dos DJ sets do Chemical Brothers e Groove Armada, aquelas sirenes de rave do começo da década surgiam picotadas ou inteiras. É o elemento da vez.
Da área VIP, onde também fica a tenda de imprensa, aguardando bananas e coca-cola reverterem o estrago feito por um wrap de tofu e um café da manhã de ovos com bacon, deu pra ouvir o Michael Franti & Spearhead e sua politização não convincente.

A área VIP é puro Los Angeles, com pururucas, playboys e celebridades B, de David Hasselholf a Busy Phillips e modeletes como a inglesa Agyness Deyn. Muita gente vem de Los Angeles só pra ficar badalando por ali, sem de fato entrar no festival.
A princípio essas pessoas podem parecer descoladas num festival como o Coachella. Com o aumento do consumo de música na era digital, mudou também o público.
Hoje é difícil você encontrar alguém que não tenha um iPod ou no mínimo conheça meia dúzia de bandas da vez. Lembro de quando era adolescente e era comum encontrar gente que simplesmente não escutava música.
No entanto, apesar do maior número de ouvintes, o consumo é feito de forma cada vez mais passiva. Claro que sempre foi assim, desde que as rádios e TVs dominaram a distribuição de conteúdo cultural.
O que é mudou é que atualmente bandas alternativas e independentes — o tipo de som que antes exigia ouvintes interessados o suficiente para ir atrás — chegam de forma massificada via internet e celulares.

Essa turma não desce pro gramado e não anda pelas tendas, de forma que de certa maneira continua tudo igual. A turma do oba-oba distante, os mais atentos circulando atrás de bons sons. Bom pro festival, que consegue atingir dois públicos diferentes, gera mais mídia e se mantém economicamente viável, especialmente em tempos de crise.
Entre os que vão ao evento pelos shows — a grande maioria — esse ano houve um certo relaxamento em relação ao consumo de maconha. Nas outras duas edições vi pouquíssimas pessoas fumando. Dessa vez tinha zilhões, desbelotando tranquilamente e dando dois em cachimbos de vidro coloridos.
A explicação para essa mudança é a maconha medicinal. Ao que parece (se alguém souber essa história melhor, dizaê), ano passado houve um flexibilização na lei que permite o uso da cannabis para tratamento médico.
Antes era restrito a doenças mais sérias e agora um baseado pode ser receitado para distúrbios como insônia, depressão e outros problemas que não podem ser diagnosticados em exames.
Rapidamente surgiu uma indústria ao redor disso, de maneira que basta ir a um médico em lugares como Venice Beach e sair de lá com a autorização para comprar maconha (e consumir em público) numa loja ao lado.
TV on the Radio, “Staring at the sun”
Com a rapaziada devidamente frita pelo sol e embalada pela marola, o TV on the Radio não teve muito trabalho para chapar o público de vez com um show grosseiramente grave.
O TVOTR foi o primeiro dos graduandos a tocarem no final de semana. Assim como eles, retornaram ao festival para tocar no palco principal em vez de tendas o The Killers e M.I.A.
Cada vez que Kyp Malone dedilhava o baixo os sub-graves pareciam estar saindo de algum equipamento digital de tão fortes. Era cada catranco no peito que não era brincadeira. A densa massa servia de base para camadas e mais camadas de guitarra, num som que tinha que ser decifrado antes de fazer sentido.
Durante o show, Kyp perguntou quem iria ficar pra ver o Thievery Corporation na sequência (não deu pra perceber se foi deboche) e afirmou que esperaria para ver o Gang Gang Dance mais tarde.
E ficou mesmo. A noite, sentado no gramado perto da tenda onde o GGD tocaria, ao ouvir a palavra “Brasil” Kyp disse que o Rio era sua cidade favorita no mundo e que espera muito poder voltar para visitar. Uma pena que o GGD não emplacou, com um show esquisito, bem diferente do que a boa “Princes” sugere ser a sonoridade da banda.
O TVOTR foi uma curiosa escolha para tocar no famoso horário do pôr-do-sol, geralmente reservado para atrações mais melosas, como o Fleet Foxes que tocou a seguir.
O cenário é o grande diferencial do Coachella. O lugar é lindo e a luz da Califórnia, um eterno final de tarde dourado, faz maravilhas pelos shows. É tudo que os festivais de verão na Europa não conseguem ser, pelo simples fato de que lá não faz sol.
A beleza do lugar influencia diretamente nas apresentações e no astral do público. Impossível separar uma coisa da outra, o meio é a mensagem. Não é a toa que diversos artistas que tocam no Coachella preparam algo especial pra mostrar. É um lugar mágico mesmo.
Fleet Foxes, “White Winter Hymnal”
Já ao anoitecer, no segundo palco ao ar livre, menor, o Fleet Foxes mostrou seu folk setentista para uma platéia hipnotizada. As harmonias vocais, os arranjos, as canções, tudo muito bem feito e bem tocado.
Só que pra mim, tirando “White Winter Hymnal”, não bate. É retrô e introspectivo demais, embora seja totalmente compreensível a adoração que a banda desperta, é muito bom. É só gosto pessoal mesmo.
M.I.A., “Galang”
vídeo: mattwong26
Como a evolução percebida entre seus dois discos sugere, a M.I.A. do “Arular” é muito diferente da M.I.A. do “Kala”.
Quem viu a apresentação da M.I.A. no TIM Festival em 2005 não guarda boa recordação. Muita gente inclusive se desinteressou por ela por conta do show sem graça. Era o mesmo show que ela apresentava na Fabric, em Londres, para um público bem menor, numa boate. Não transpunha bem para o palco.
No Coachella, no entanto, quando ela tocou na tenda mais cedo no mesmo ano (a abertura do vídeo é hilária) a impressão deixada foi muito boa. Até que M.I.A. teve seu pedido de visto de trabalho nos EUA negado em 2006.
Demorou um pouco até M.I.A. voltar ao festival, em 2008. Em sua segunda passagem pelo Coachella, a tenda já não suportou. Segundo relatos, teve pessoas desmaiando, gente saindo pelo ladrão.
O trabalho de pesquisa da estética dos países em desenvolvimento de M.I.A., tanto a visual quanto a musical, cresceu bastante em “Kala”. Provavelmente ciente de que sem o visual seu show não passava totalmente sua mensagem, M.I.A. se transformou numa Madonna do terceiro mundo.

Promovida ao palco principal, aproveitou o tamanho e encheu de gente, dançarinos, músicos, roupas fosforescentes, e não apenas um DJ como antes.
Do alto de um púpito repleto de microfones, M.I.A. apresentava os números e dava palavaras de ordem, enquanto o telão exibia imagens de um protesto, com placas onde se lia “M.I.A. is a terrorist”.
Marrenta que só, entrou cantarolando na melodia de “Rehab”, de Amy Winehouse (a grande ausência do festival, cancelada) “they tried to make me sing at the Oscars, but I said no, no, no!”. Tirou onda com o Grammy e depois da sexta música ameaçou a produção: “seis músicas, já posso ir embora.”
Como se sentisse culpada pelo próprio sucesso, M.I.A. faz questão de se afirmar não-cooptada pelo sistema, fazendo questão de manter a postura rebelde, com tanta vontade que, claro, parece falso.
Problema nenhum ela não ser mais a mesma menina desconhecida que gravava músicas em casa e coloca na internet. Seria mais honesto aceitar que os tempos mudaram e continuar inovando a partir de um novo lugar, em vez de querer repetir o que já fez.
Musicalmente essa crise não deve estar acontecendo e a inclusão de “20 dollar” no repertório taí pra confirmar. A não ser que ela esteja somente preocupada em manter a popularidade que mostrou ter durante o encerramento com “Paper Planes”.
Seria uma grande besteira. Esse caminho tem quer natural, tentar adivinhar o que vai agradar o público poucas vezes dá certo. Basta ela fazer o que ela faz, naturalmente, que o resultado continuará sendo relevante e bom.
1o dia, sexta
Molotov, Los Campesinos, Franz Ferdinand, N.A.S.A., Beirut, Ghostland Observatory, Girl Talk e Paul McCartney

vídeos e fotos: URBe
Um vôo de oito horas pra Miami + quatro horas de espera + seis horas até Los Angeles + uma hora até estar dentro do carro alugado + duas horas até Indio (santo GPS!) + check in no hotel + fuso horário configuram uma maratona que pede o mínimo de descanso.
Isso tudo pra dizer que chegar cedo no primeiro dia do festival logo no dia seguinte é uma perspectiva desanimadora, ainda mais sem nenhuma grande atração como motivação.
Chegando as 15h, ao som do chato We Are Scientists, foi o tempo de comprar água, encontrar os amigos e partir para o Molotov. As atrações latinas são uma marca do festival e quase sempre vem coisa boa. Surpresa foi ver os mexicanos fazendo rock sobre batidas de Miami bass, soando bastante como “Popozuda Rock and Roll”, do De Falla.

Los Campesinos
As baixas expectativas em relação ao Los Campesinos foram confirmadas. Até músicas legais como “You! Me! Dancing!” ficam magrelas ao vivo. Alguma coisa ali lembra o Clap Your Hands Say Yeah, que também não convence ao vivo, só que mais bobo. O vocalista se esforça tanto na afetação que consegue tirar atenção do resto da banda, sem fazer disso algo positivo.
Ting Tings, “Great DJ”
De afetação para… mais afetação! O Ting Tings mostrou muita frescura e pouco som. Começaram 15 minutos atrasados, reduzindo bastante o tempo do seu show. O que pode ter sido proposital, visto que eles tem bem pouco pra mostrar.
Antes de subirem ao palco, veio um aviso, avisando que o público era bem vindo para tirar fotos, mas não deveria usar flash, pois incomoda a banda. Era dia.
Como se vê, a dupla se leva a sério demais e a postura no palco confirma isso. É como se eles não entendessem que o público de “That’s Not My Name” ou “Great DJ” é majoritariamente adolescente. Ou pior que isso — é como se o Ting Tings enxergasse algum demérito nisso.
De qualquer maneira, foi um dos shows mais disputados de sexta, com gente tentando assistir do lado de fora da tenda (a Sahara, a maior delas), debaixo duma solaca que não é brincadeira não. O mesmo sol foi o principal fator na decisão de assistir o Ting Tings e não o Black Keys no palco principal.
Grande erro. No jogo de apostas do Coachella, cada movimento deve ser detalhadamente calculado. Cada escolha envolve um custo, as vezes alto demais para valer o risco. Mais tarde isso ficaria ainda mais claro.

Alex Kapranos (Franz Ferdinand) e a blusa do George Harrison
A primeira grande escolha do dia envolvia duas atrações tocando exatamente no mesmo horário, uma nada a ver uma com a outra. Na disputa mental entre ouvir “Poison Dart” ou “Lucid Dreams”, terminei não ouvindo nenhuma.
Optei por assistir o Franz Ferdinand (pela quarta vez) em vez do The Bug & Warrior Queen (que nunca vi) pra poder ouvir ao vivo faixas do terceiro disco. Infelizmente, justo a que mais queria ouvir, “Lucid Dreams”, ficou de fora.
O show foi morno, muito por conta da distância que o palco principal impõe entre os artistas e a platéia. A luz do dia também não ajudou muito o clima dançante e carregado nos sintetizadores das novas músicas.

No primeiro dia do festival era o show do Paul McCartney que centralizava as atenções, lógico. Tocando no mesmo palco, Alex Kapranos (do Franz Ferdinand) apareceu com uma camiseta escrita “George Harrison”. Desde cedo, fãs dos Beatles se expremiam na grade. E por fãs dos Beatles entenda-se pessoas acima dos 50, raramente o perfil de quem enfrenta um dia inteiro debaixo do sol para aguardar um show.
N.A.S.A., “Watchadoin”
Se o começo foi calmo, a parte final da sexta-feira foi corrida. Do Franz Ferdinand direto pro N.A.S.A., já começado. Estava bem curioso pra saber que tipo de apresentação eles fariam. Fosse um mero live PA perigava ser meio xarope. Cada vez parece fazer menos sentido ficar olhando para um palco onde um sujeito faz coisas que você não pode ver.
A lição do Daft Punk e sua pirâmide parece ter sido assimilada em larga escala por artistas de música eletrônica, caminhando cada vez mais em direção de soluções visuais para suas apresentações, indo além de telões e apostando em cenários e até instalações.
Formado pelo brasileiro Zé Gonzales (ex-Planet Hemp) e Squeak E. Clean (irmão do cineasta Spike Jonze), o N.A.S.A. (North America South America) aterrisou no Coachella a bordo de uma nave retrô-tosco-futurista, acompanhado por duas dançarinas ETs, alguns monstros e um MC.
Funcionou. O set misturando músicas próprias e trechos de Daft Punk (olha eles aí de novo), Beni Benassi e hip hop levantou a tenda e fez a festa. Kanye West faria uma participação via telão, se o equipamento de transmissão não tivesse “falhado”. Tudo teatro.
Beirut, “Nantes”
O primeiro artista a realmente arrastar uma quantidade grande de fãs foi o Beirut. Nem bem soaram as primeiras notas de “Nantes” e o coro e aplausos começaram, se extendendo por todo show.
A delicadeza das músicas se repete ao vivo. Projeto solo de Zachary Condon, o Beirut se transformou numa banda sem perder o clima intimista dos discos. Baixo acústico, acordeon, metais, bateria e teclado servem as canções sem exageros, priorizando os arranjos aos solos.
Teve até gente gritando “Leãozinho”, do Caetano, música as vezes tocada pelo Beirut. Dessa vez não rolou, teria sido divertido. Foi um dos shows mais legais e bonitos do festival.

Instalações espalhadas pelo gramado
Na sequência, um pedaço do Ghostland Obervatory e do Girl Talk. O primeiro tava numa onda meio téquineira que desanimou e o segundo deu uma preguiiiiiça… A tenda estava lotada, bem animada, só que as colagens do Girl Talk começam a cansar.
Não sou fã dos discos dele, muito por conta da predileção aos samples de hip hop. Essa onda de mashup está começando se tornar um tanto formulática, com a sonoridade de todos os produtores se assemelhando bastante.
Pior que isso, a volta se aproxima dos 360 graus, chegando ao ponto de partida, com alguns desses mashups soando como remixes, utilzando acapelas sobre uma nova base. É hora de um passo a frente, em outra direção.
Ou isso ou então foi simplesmente falta de disposição pra dançar mesmo.
Paul McCartney, “Blackbird”
Chegada a hora do Paul McCartney o festival parou. Quase todo mundo foi em direção ao palco principal para conferir o beatle.
O começo foi meio estranho. Acompanhado por uma banda perfeitinha demais na execução, o show soava plástico, certinho além da conta. Os arranjos soavam comerciais, como se fosse um DVD genérico de “rock n roll”, bem chato.
Além disso, os integrantes da banda de apoio faziam caras e bocas dignas dos piores clichês do rock, o que era um tanto contrangedor. O sujeito toca com o Paul McCartney e quer aparecer? Sei não…
A apresentação, ainda bem, guardava momentos memoráveis.
Quando Paul tocava violão ou piano sozinho a atmosfera mudava completamente. Com as canções que o sujeito tem, realmente não precisa de quase nada pra soar fantástico. Menos é mais, costumam dizer por aí. E nesse caso, é mesmo.

Paul estava comunicativo, falando das músicas e até da sua vida pessoal como se não estivesse diante de uma multidão. O momento mais emotivo foi quando ele lembrou que naquela data faziam 11 anos da morte de Linda McCartney, antes de dedicar “My love does it good” para a ex-mulher.
John Lennon também foi homenageado com “Here Today”. George Harrison também foi lembrado quando Paul tocou “Something” em um ukulele presenteado pelo próprio, seguida por “I’ve got a feeling”. Obviamente, as músicas dos Beatles (”The Long and Winding Road”, “Blackbird”, “Eleanor Rigby”) causavam comoção.
Ver Paul ao piano, violão ou ukulele faz pensar porque um compositor desses prefere tocar o baixo em quase todas as músicas. Seria de pensar que Paul fosse ter preferência pelo violão, mais harmônico, no lugar de um instrumento melódico e comumente usado ritmicamente.
Eis que chegou a hora do erro. Lembra que falei das escolhas e dos riscos envolvidos? Pois bem, um julgamento mal feito me assombrará pelo resto da vida (ou até o próximo show do Paul — vai ter no Rio, andam dizendo).
Com quase duas horas de show, perto da meia-noite, horário limite dado pelas autoridades locais para o término das apresentações, cansado, resolvi começar a andar para o carro, pra fugir do tumulto da saída. Em 2007, após o Rage Against the Machine, levei quase duas horas só pra sair do estacionamento e chegar na estrada.
Sendo Estados Unidos, terra da organização (ah, como eu gosto…), era razoável pensar que o show estava pra terminar. Certo?
Não. Fui andando e escutando “Give Peace a Chance”, “Let it Be”, “Live and Let Die”, “Hey Jude”, o que animou a longa caminhada. “Raras vezes na vida pode-se procurar o carro pelo estacionamento com uma trilha dessas”, dizia para me consolar.
Até chegar ao carro ainda tocaria “Can’t Buy Me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Get Back” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Foi praticamente um show inteiro, que se estendeu até quase uma da manhã, e eu ouvindo tudo de longe.
Um erro imperdoável. De novo: IM-PER-DO-Á-VEL!
Menos mal que, por ter saído mais cedo, ainda consegui comprar uma da últimas cópias numeradas e assinadas do pôster especial feito por Shepard Fairey para comemorar o show do Beatle no Coachella. Custou 75 dólares e hoje, quatro dias depois, já vai passando de 200 dólares no eBay.
Toda vez que olhar para ele vou lembrar de uma das maiores lambanças da minha vida. Belo castigo. Literalmente.

vídeos e fotos: URBe
Dois anos desde a última visita (três desde a primeira) e depois de ter passado por alguns dos festivais mais enxarcados da Europa, finalmente chegou a hora de partir novamente em direção ao deserto, onde o sol é uma certeza e o visual garantido.
O Coachella Music & Arts Festival é um dos maiores encontros das chamadas “bandas de internet” do planeta. Ser escalado para o festival é como receber um diploma que diz “no último ano você se destacou e agora é oficialmente uma banda, não mais um projeto online”.
É claro que nem todos os formandos vingam na profissão. Muitos dos artistas que passam com algum destaque pelo festival somem na poeira menos de um ano depois. Na turma de 2009, estranhamente ficaram de fora Metronomy e Lady Hawke, dois nomes muito elogiados em 2008.
Alguns outros voltam ao deserto maiores do que quando passaram por lá pela primeira vez, caso do The Killers, TV on the Radio e M.I.A. nesse ano.

A décima edição do festival talvez tenha sido uma das edições com a escalação mais fraca — certamente foi mais difícil manter a usual média de sete shows por dia. Obviamente, uma escalação frouxa do Coachella coloca no bolso boa parte dos festivais pelo mundo e ainda assim vale a pena.
Em 2009 houve menos conflitos de horários entre as principais atrações, tornando as decisões do que assitir (sempre a maior tortura do evento) mais fáceis. Você assistia um show sem aquela pontada de estar ausente de três outros imperdíveis.
Mesmo com a afirmação dos organizadores do evento de que essa provavelmente terá sido a terceira maior edição em termos de público (2007, com Rage Against the Machine, foi a maior), a sensação e comentário dos que estava lá foi de que estava mais vazio que o normal.
Os sinais eram claros: menos filas pro banheiro, pra água, pra entrar, menos engarrafamento e menos tumulto no estacionamento. Tirando sexta, com Paul McCartney, os ingressos do festival não esgotaram.
A culpa de tudo isso, é claro, é da crise. Uma caminhada pela Melrose Avenue, passando entre um set de gravação do seriado The Hills (afinal, é Los Angeles) e muitas lojas de roupa, assusta a quantidade de lojas em queima de estoque e placas informando sobre fechamentos.
Na América fascinada pelo novo presidente (é impressionante a quantidade de produtos relacionados a Obama, de camisetas a doces, máscaras e livros) o bicho está pegando. O que para muitos foi um motivo a mais para cavar os quase 300 dólares do passe para os três dias e esquecer.
Se a música não desse conta, certamente a ensolação faria o serviço.

Há pouco mais de um mês do lançamento em DVD pela Soul Jazz e após participar em mais de 20 festivais em 18 países, semana passada “Dub Echoes” recebeu o prêmio de melhor de melhor filme do público do festival polonês Music and World Documentary Film Festival. Parabéns e obrigado a toda equipe!
Digitaldubs vs Dubiterian, “Deb dub”
(música utilizada como trilha no trailer do “Dub Echoes”)

foto: Caroline Bittencourt
Segundo a MTV, a produção do Just a Fest confirmou oficialmente o Los Hermanos e Vanguart na escalação do festival, além, claro, de Radiohead e Kraftwerk.
O tecladista da banda, Bruno Medina, também confirmou a notícia em seu blogue.
Eu não te disse? ;)
Seun e Femi Kuti, Damon Albarn, Baaba Maal, Amadou & Marian, Tony Allen, Ginger Baker, Alex Kapranos, todos juntos no Afrika Shrine, em Lagos, Nigéria, dia 18 de outubro, sem repertório ensaiado e sem hora pra acabar.
É o Felabration 08. De chorar. Felizmente, será transmitido on line, pela BBC. O lance é arranjar um jeito de furar o bloqueio aos IPs fora da Grã-Bretanha para poder acessar o conteúdo.
Mad Professor entorta “Lively up yourself” (Bob Marley)
Muita coisa aconteceu desde a última vez que falei do “Dub Echoes” (documentário inicidado em 2004 e só concluído em 2008) por aqui.
O filme rodou o mundo, em festivais na Dinamarca, Suécia, Espanha, Jamaica, EUA, Portugal, Inglaterra e até no Brasil, com México, Irlanda, Finlândia, República Tcheca e Canadá pela frente.
Finalizando essa temporada acompanhando o doc pela Europa, o filme foi exibido em Amsterdã, no cinema da nova biblioteca pública da cidade, num prédio muito futurista, dentro do festival B-oost.
Don Letts se diverte tocando “Rebel” (Morgan Heritage)
Como se isso não fosse o suficiente, após a sessão, teve uma bela festa, com o som a cargo dos entrevistados do filme Don Letts e Mad Professor (ao vivo).
Guardando a melhor notícia para o final, antes do final do ano, “Dub Echoes” será lançado em DVD (com distribuição mundial, exceto no Brasil) pela inglesa Soul Jazz Records.
Os informativos da marca carioca Totem sempre vem recheados de boas dicas de discos e filmes do dono da marca, Fred D’Orey. Esse ano ele organiza a 2ª mostra de cinema Rock & Totem, no auditório do Senac Rio.
A passagem pelo festival Brit Doc 08, em Oxford, rendeu um e-mail com um relato para os amigos interessados no assunto.
A mensagem acabou republicada no DocBlog, espaço totalmente dedicado aos documentários e editado pelo Carlos Alberto Mattos, no Globo On Line.
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BritDoc: nem tudo é pra levar a sério
Bruno Natal, esse documentarista e docblogófilo que está em Londres, enviou um e-mail para os amigos compartilhando um pouco do que viu no BritDoc Festival. Por julgar de interesse mais geral, e com sua autorização, reproduzo aqui (o título do post é meu e a foto é da divulgação do BritDoc):
Na semana passada passei três dias em Oxford, no BritDoc Festival. É um festival de indústria, cheio de palestras e alguns poucos filmes. Foi uma experiência interessante.
Acabei indo meio sem planejar. Era caro para participar, umas 350 libras se não me engano, mas eles convidam alguns estudantes, baseados não sei exatamente no quê, porque eu mesmo não me inscrevi. Porém, como tinha mandado o Dub Echoes (que dessa vez não entrou), eles acabaram me convidando também. Do meu mestrado, fomos eu e mais duas pessoas.
Só assisti a três filmes, um deles Man on Wire, que foi simplesmente uma das melhores coisas que já vi em documentário. Lindo, lindo, não deixem de ver quando sair.
O foco do festival são as chamadas pitching sessions, onde diretores/produtores apresentam seus projetos para um painel, em busca de financiamento. Formado por 12 pessoas, o painel tinha os comissioning editors de diversos lugares: BBC, Channel 4, PBS, Independent Film Channel, Sundance Channel, emissoras do Japão, Austrália e franco-alemã.
Havia uns dois ou três projetos realmente bons. Quer dizer, tinha coisa legal, mas a grande maioria era regular ou até mesmo ruim. Bom, bom mesmo, de você olhar e falar “esse cara é um gênio”, só teve um.
É tão complicado de explicar que nem sei se consigo. É de um diretor chamado Joshua Oppenheimer e chama-se Freeman: When Killers Make Movies. Já está quase todo filmado, mostraram um trailer bem bacana. O filme é sobre dois assassinos contratados pelo governo da Indonésia para liderar um dos muitos esquadrões da morte em Sumatra, que perseguiam os comunistas nos anos 60. Hoje em dia os sujeitos continuam soltos e são tratados como heróis em alguns lugares.
O lance é que, antes de se tornarem assassinos, os dois camaradas eram cambistas de ingressos de cinema e adoradores do cinema dos EUA. Quando se tornaram assassinos, a dupla começou a executar suas vítimas inspirados nos filmes a que assistiam. Para realizar o documentário, o diretor está reconstituindo os crimes, com os dois assassinos como atores, co-diretores e co-roteiristas, interpretando tanto eles mesmos quanto as vítimas, em cenários que lembram os filmes que inspiraram as matanças descritas.
Segundo o diretor, essa foi a única maneira encontrada para confrontá-los em relação ao que fizeram. Os sujeitos acreditam que viraram atores de cinema! Mas vão acabar é em cana, pelo que o diretor disse.
É uma produção grande mesmo, algo como Gondry em Be Kind Rewind encontra Kiarostami em Close Up. Muito sofisticado e arriscado.
O grande destaque do painel foi a representante do Sundance Institute, Cara Mertes. Ela não dava bola fora e só fez comentários interessantes. Deu muita vontade de tentar entrar em uma dessas oficinas do Sundance, para desenvolver projetos, etc, porque se o nível for esse, deve ser classe. Fiquei muito bem impressionado.
Fora isso, apareceram alguns projetos para filmar no Rio. Quase todos sobre violência. Todos com a abordagem de sempre, de explorar a desgraça sem apresentar soluções. Triste. A representante do Sundance salvou meu dia, quando foi a única a fazer esse tipo de observação.
Entre os projetos de terra brasilis, estava Art Is Garbage, de João Jardim e Lucy Walker. Contando a história do projeto do artista plástico Vik Muniz no lixão de Gramacho, o projeto teve recepção fria. O representante da americana PBS chegou a questionar se era tudo uma farsa, visto que para ele, Vik Muniz, o artista apresentado como “conhecido mundialmente”, sequer existia. Santa ignorância.
Baseado numa cena do trailer que mostra o leilão de uma obra de arte feita por um participante do projeto por 28 mil libras, um dos membros do painel perguntou se ao vender a arte produzida pelos catadores do lixão, não se estaria alterando a realidade daquelas pessoas. Pergunta boba. É claro que está, e para o melhor. Porém, parece que não há mesmo interesse em abordagens positivas sobre questões sociais do Brasil. Que sejamos miseráveis pra sempre, parece ser o recado.
Também pareceu uma unanimidade no painel a espera por um bom projeto sobre a ascensão evangélica na América Latina. Imediatamente pensei num filme sobre o Edir Macedo, mas, sinceramente, tenho receio de me meter nisso.
O que torna a ida a esse tipo de festival muito importante, como sempre falam por aqui, é o networking, o bom e velho “fazer contatos”. Nesse aspecto, achei bem pouco produtivo. Primeiro porque as pessoas que interessam (produtores e financiadores) não estão abertas para papo. Mas também, pudera, coitados deles se fossem conversar com todo mundo.
E segundo porque, como num certo lugar, ficou claro que é uma panelinha bem fechada. Absolutamente todos os projetos que estavam sendo apresentados (escolhidos previamente por uma inscrição no começo do ano) já eram conhecidos de todos do painel. A maior parte das respostas era “vamos continuar conversando” ou “já falamos sobre isso anteriormente e não é bem a nossa praia”.
Ou seja, o troço todo é mais um espetáculo do que pra valer mesmo. Todos já se conheciam, sabiam dos projetos, então não dá pra entender direito pra que serve a coisa toda. Fora a puxação de saco e tapinha nas costas… Joguinho difícil de jogar.
Voltando ao festival, o tema desse ano era humor nos documentários. Entres os palestrantes, estava Larry Charles, roteirista do Seinfeld e diretor do Borat, da série Curb Your Enthusiasm e do doc ainda inédito Religulous.
Teve um painel chamado “Are documentaries too serious?” (acho que ganhou a tese de que não, não são, do que eu discordo), mas o Larry falou no “You cannot be serious”, que analisava o papel do humor nos docs. E teve também uma palestra só dele, com uma boa meia-hora de trechos do doc de religião, bem divertido.
O áudio dessas e de outras palestras estão no saite do festival, caso alguém se interesse.
Pra mim, essas sessões foram muito boas, porque estou preparando o projeto de um doc no único formato que tem se provado comercialmente viável: com apresentador, roteirinho redondo e humor. Vamos ver como é que anda. Depois conto os detalhes, mas foi muito bom ter tido essas palestras pra iluminar o assunto.
Logo no começo do festival também teve um workshop falando de funding trailers (peças de venda) que foi bem informativo. Não acredito que tenha fórmula para essas coisas, mas é sempre bom conhecer o formato melhor. O mais divertido foi notar que, pelas tais regras, o trailer do Dub Echoes estaria totalmente “errado”: é clipado, com trilha, usa títulos, não tem nenhuma cena inteira… Hahaha! E foi justamente o trailer que levou o filme longe, consolidando as palavras de um grande mestre da edição, “tem regra não, lesque”.
De qualquer jeito, a palestrante tem um saite com algumas infos interessantes.
E eu ganhei uma consulta grátis com ela, por ter sido a pessoa vinda de mais longe!
Então é isso.

URBe TV (com excessão do Radiohead) e
URBe Fotos (inclusive as fora de foco)
Como dito anteriormente, todos os caminhos apontavam para Bélgica. O que pode ter faltado foi placas sinalizando melhor as intempéries.
Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:
Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.
Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar — afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.
O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.
Dia 1 - onde os urubús tem asa

Uniforme
Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso — e sem o nome de nenhuma mega corporação intrometida no logo do evento — é um mistério.
Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.
Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.
Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.
A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.
E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Já na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.
Vampire Weekend, “A-Punk”
No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial do quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.
O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem intervalos. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.
Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina.
Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com “C” maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.
Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume.
Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.
Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com “Orange crush” e fechando com “Man on the moon”.
Soulwax, “Robot rock” + “Phantom Pt. II”
De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.
Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro), sob o nome Soulwax Nite Versions ênfase é na eletrônica, tocando seus remixes ao vivo.
Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.
Emendando “Gravity’s rainbow” (Klaxons), “NY Excuse” (deles mesmo, explodindo a tenda), “Robot Rock” (Daft Punk) e “Phantom Pt. II” (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).
Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal.
A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.
Dia 2 - lá vem o sol

Jay-Z
Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda.
No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.
Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.
Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: “99 problems”, “Crazy in love” (Beyoncé), “Umbrella” (Rihanna) e a música da estação, “American boy” (Estelle).
A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.
No palco principal (eita, vai-e-vem…), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem está tão longe assim ainda.
Hot Chip, “Ready for the floor”
A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.
Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.
O show deu uma crescida em “Over and over” e na ótima “Ready for the floor”, ficando curioso na versão de “Nothing compares 2 U”, do Prince, imortalizada por Sinead O’Connor.

Digitalism
Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.
Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do que é o “DJ Ibiza”.
Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a “tendenssa” atual, nem todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. O Digitalism certamente funciona melhor de olhos bem fechados.
Dia 3 - dobradinha histórica

MGMT
Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.
A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.
É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si — o que deveria ser uma boa coisa — a turma impaciente do hype debanda.
O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só “mandar um dance”.
O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.
O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e… Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.
Show bom bagarái. Vamos ver como será recebido no Brasil.
O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal.
No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.
Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa.
Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, “On call”, e lançando um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.

Sigur Rós
Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas.
É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.
Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de “Woman in me”, um musicão) e, hoje, assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.
Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.
Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral.
Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca para aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.
Radiohead, “Climb up the walls”
Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.
A grande “falta de sorte” foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.
A inclusão de “Paranoid android” fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) “In rainbows” foi tocado quase integralmente e “Climb up the walls” surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.
Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que ocasionou um espreme-espreme raro por essas bandas.
Na tentativa de evitar o tumulto no final da apresentação, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.
Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando “Everything in it’s right place”, antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.
Dia 4 - arrancada final

Hercules & Love Affair
Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.
O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.

Mark Ronson
Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos.
A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm… contemporâneo.
Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.
Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre “Toxic” (Britney Spears), “Just” (Radiohead), “Stop me” (The Smiths) e “God put a smile upon your face” (Coldplay).
O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.
O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.
A catarse provocada por “Valerie”, logicamente sem Amy Winehouse nos vocais, prova o contrário.
Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.

Racounteurs
Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de “projeto paralelo do guitarrista Jack White”. O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.
Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada boba, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.

Justice
O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.
Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.
Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de “Genesis”, prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.
O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, que durou uns 20 segundos, mais pra Poison do que pra Metallica.

Beck
Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, “Modern guilt” e alguns de suas melhores canções.
Entre “Loser”, “Devil’s haircut”, “New polution”, “Where it’s at”, o grande momento foi “Everybody’s got to learn sometime”, do The Korgis, que fez parte da trilha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.
Moído, restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.
São e salvo.
Dublime: Iration Steppas, Lee Perry & Adrian Sherwood e Pole
fotos e vídeo: URBe
A primeira edição da festa Dublime na Fabric trouxe uma escalação em sintonia com um certo documentário.
De Lee Perry a Pole, passando por Don Letts, Congo Natty, Kode 9 e alguns dos principais nomes do dubstep, do jungle e do UK Roots, o evento foi um passeio pela linha evolutiva do dub, do berço jamaicano a improvável vertente alemã.

Iration Steppas
Com três pistas rolando simultaneamente, o esquema era cruel: escolhia-se um nome pra conferir, perdia-se, no mínimo, outras duas coisas muito boas.
Embora não seja uma presença rara em Londres, sendo de Leeds, o Iration Steppas teve prioridade. Tocando na menor pista, com MCs exaltando o time e um grave de amassar o peito, a versão de “Welcome to Jamrock” já valeu o set.


Lee Perry & Adrian Sherwood
Don Letts fez um set pesado pacas, misturando digidubs com roots, transformando num presente o atraso para o início da apresentação do Lee Perry.
Em sua passsagem pelo Brasil, em 2007, acompanhado por uma banda que não era a sua usual, Lee Perry já fez mágica num pé só (o outro estava engessado), imagina acompanhado por Adrian Sherwood.
Além das bases e efeitos caprichados de Adrian, o grande barato da apresentação é que ela dura exatamente o tempo que Lee Perry leva para pintar um de seus quadros, no palco.
Misturando grafite com as pinceladas naïf, características da decoração do seu chamuscado estúdio, a Black Ark, Perry fala sem parar, entre improvisações e trechos de clássicos como “War inna Babylon”, “Curly locks”.
Perry é primeiramente um produtor, não um artista (embora tenha gravado várias músicas), então o ideal seria vê-lo mixando, coisa que ele já não faz mais.
O show é sim morno, mas isso pouco importa quando se está cara a cara com uma lenda da dimensão (dimensões?) de Lee Perry, com um pincel na mão, pintando os braços de quem os esticasse em sua direção.

Pole
Na outra pista, logo na sequência, o Pole tocou com um laptop, mixando e aplicando os efeitos ao vivo, através de uma mesa.
Resvalando no minimal house e mais dançante do que se poderia imaginar pelos discos, o alemão tem mesmo os dois pés no dub, por mais que diga em seu saite que é apenas uma influência.
Com os ouvidos zunindo de tanto grave, a parcela dubstep ficou pra depois.
–
A escalação completa da festa:
Pista 1 - ROOTS
Lee Perry Soundsystem & Adrian Sherwood (LIVE)
Dillinja (Valve Recordings)
Congo Natty aka Rebel MC (LIVE)
Caspa & Rusko (Dub Police), Loefah (DMZ/ Deep Medi)
Don Letts (Dub Cartel Sound System)
Souljazz Soundsystem
MCs Pokes, Warrior Queen & Rod Azlan
Pista 2: TEC
Pole (LIVE) (Scape/Mute)
Sleeparchive (LIVE)
Kode 9 (Hyperdub)
Scuba (Hotflush)
Pinch (Tectonic/Planet Mu)
Appleblim vs Peverlist (Skull Disco/Punch Drunk)
Downshifter (Skud/Hyponik)
MCs Flow Dan & Rogue Star
Pista 3 - POOM
Iration Steppas (Sub Dub)
Moody Boyz (Studio Rockers)
Antisocial (Deep Medi)
Blackdown & Dusk
Earl Gateshead (Trojan Sound System)
Jonny Trunk (Trunk Records)
Video do evento, feito com uma câmera fotográfica digital.
A tosqueira desse formato cada vez fica mais divertida.
Daqui uns anos vira estética.
vídeo: URBeTV
No sábado passado aconteceu, no Victoria Park, o festival gratuito Love Music Hate Racism Carnival, com a presença de Hard-Fi, The View, Get Cape.Wear Cape.Fly, Dennis Bovell, Don Letts, entre outros, coma presença de mais de 100 mil pessoas, segundo os organizadores.
O encerramento ficou com The Good, The Bad and The Queen. Foi uma escolha simbólica, pelo fato do baixista da banda, Paul Simonon, ter sido um dos integrantes do The Clash, atração principal do Rock Against Racism, no mesmo parque, 30 anos antes.
No RAR, o alvo das manifestações era a escalada ao poder do partido nazi-fascista National Front, que perseguia principalmente imigrantes e irlandeses. Passados 30 anos, a situação é parecida, mudam apenas os nomes.
Os atores principais agora são a British National Party (BNP) e os imigrantes dos países árabes (chamados, numa generalização, simplesmente de muçulmanos) e do leste europeu, principalmente os poloneses, recém-integrados a União Européia.
Num clima muito politizado, as atrações transcorreram, sem sustos, entre muitos discursos. O evento é uma maneira de sinalizar, tanto para sociedade, quanto para os imigrantes, que, apesar da forte propaganda, a maior parte dos britânicos não concorda com o pensamento da BNP.
Um pouco estranho, tem-se que dizer, um evento que prega a tolerância, trazer a palavra “odiar” em seu nome. Mesmo que seja odiar o racismo, porque odiar não pode ser bom. A palavra foi repetida diversas vezes durante o dia, nos discursos inflamados.
A recessão batendo a porta é o cenário perfeito para ascenção de partidos de extrema-direita. Os empregos começam a faltar e fica muito fácil convencer a populaçnao de que os imigrantes estão roubando o seu emprego, utilizando isso como de votos.
Por isso, apesar da aparente tranquilidade, foi um evento importante. Basta uma olhada na lavada que os Trabalhistas tomaram nas eleições locais britânicas dessa quinta.
A pior derrota eleitoral em 60 anos, fortaleceu os Conservadores (lembra da Tatcher?), sinaliza que, assustado (e infeliz com o Primeiro Ministro, Gordon Brown), o povo já está.
O encerramento foi com a versão dubstep do clássico do The Specials, “Ghost town”, com base do Kode 9 e vocais do Space ape. O tom perfeito.
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