Radiohead, “Fog”
(lado b do single de “Knives out”, do álbum “Amnesiac” em 2001)
Los Hermanos, “O velho e o moço”
(do disco “Ventura”, de 2003)
O Pedro mandou um e-mail, falando de como essas duas músicas se parecem. Parece mesmo.

Semana que vem sai o “Surf Adventures 2″. Dizem que o filme está bem bom, mas só pela trilha já vai valer a ida ao cinema. A produção musical é do Pedro Seiler, com colaboração dos editores do filme, Julio Adler e Sergio Mekler. Sente a lista:
1. “Maggot brain” – Funkadelic
2. “Quilombo groove” – CSNZ
3. “Trance” – A Roda
4. “Scarlet begônias” – Greatful dead
5. “Deixe-se acreditar” – Mombojó
6. “Forró esferográfico” – Cabruêra
7. “A Flor” – Los Hermanos
8. “Angelita” – Pata de elefante
9. “Jingo” – Santana
10. “Tinindo trincando” – Novos Baianos
11. “Música política para Maradona cantar” – Hurtmold
12. “Office boy” – Bonde do rolê
13. “Fucking long time” – Burnt Friedman
14. “Meu Maracatu pesa uma tonelada” – Nação Zumbi
15. “Meu Mar” – Erasmo Carlos
16. “Maracatu atômico” – Jorge Mautner
17. “Suzuka” – Chelpa Ferro
18. “In memory of Elizabeth Reed” – Allman Brothers
19. “Awô dub” – Lucas Santana
20. “Bat macumba” – Mutantes
21. “Miniatura Chelpa” – Chelpa Ferro
22. “Meiufiu” – Moraes Moreira
23. “Carimbó” – Do Amor
24. “A espuma” – DJ Dolores
25. “If you want me stay” – Sly and Family Stone
26. “Os urubus só pensam em te comer” – Cidadão Instigado
27. “Theme from Konono” – The Ex
28. “Three little birds” – Bob Marley

Radiohead
fotos e vídeos: URBe
Os deuses da músicas ouviram nossas preces e operaram um milagre na Apoteose. O show do Radiohead teve um som perfeito, como nunca se viu naquele lugar. O que um bom técnico de som não é capaz de fazer…
Thom Yorke não passou, segundo algumas fontes, duas horas fazendo aquecimento vocal em vão. Era indispensável que fosse assim para que as delicadas músicas do excelente “In rainbow” que ocupam boa parte do repertório soassem tão boas quanto aparecem no disco.
Infelizmente, o show perfeito em todos aspectos técnicos (a parte gringa da equação) contrasta com a produção capenga a que estamos acostumados (a parte brasileira).
Filas quilométricas para o banheiro, a impossibilidade de pegar bebidas com tranquilidade e a truculência dos seguranças justificam a percepção do público médio (aquele que se precisa conquistar para vender 35 mil ingressos) de que o programa é uma furada.
Ouvir um “vai se fuder” e outros poemas durante um show que custou a bagatela de R$200 (x2) só por ter perguntado se o armário iria ficar mesmo parado na minha frente bloqueando a visão não é uma furada, é um total desrespeito mesmo. Se a produção se interessar — o que eu duvido — anotei o número da camiseta do sujeito.
Los Hermanos, “Todo carnaval tem seu fim”
vídeo: marceloguy (enquanto o do URBe não sobe)
Segunda atração mais esperada da noite, ou a principal para muitos dos que enfrentaram a fila desde cedo para garantir um lugar no gargarejo, o Los Hermanos fez seu primeiro show em dois anos para uma Apoteose ainda vazia.
Contratados a peso de outro, a missão dos Los Hermanos era esgotar os ingressos que teimavam em não sair das bilheterias. Falharam duas vezes: as entradas não esgotaram e o aguardado show foi frio, com a banda desentrosada no palco, mesmo com muitos fãs fazendo o tradicional coral.
A única novidade foi “Cher Antoine”, tocada ao vivo pela primeira vez. De resto, foi abaixo da expectativa (que, sim, eram altas demais), com o show sendo muito prejudicado pela má qualidade de som.
Kraftwerk, “Aero Dynamik”
Espremido entre duas bandas cultuadas como poucas, a reação ao público Kraftwerk era a incógnita da noite. A música eletrônica totalmente sintética foi bem recebida pela turma mais acostumada as guitarras.
A apresentação tem toda a elegância, eficiência e simplicidade que se espera dos alemães. Tem quem diga que a cada turnê o show cai um pouquinho, devido a substituição dos teclados por laptops e, provavelmente, pelo fato de cada vez menos integrantes originais façam parte do grupo, restando apenas um.
Seja como for, toda vez que se assiste ao Kraftwerk o embasbacamento é o mesmo. É como se eles tivessem apertado e girado todos os botões de sintetizadores possíveis e imagináveis antes de todo o mundo.
Você escuta “Trans Europe Express” e pensa “pô, parece baile funk”, ouve “Tour de France” e se questiona como o povo do trance conseguiu estragar e desgastar tantos timbres bonitos, olha pro telão e vê de onde o Daft Punk ou Etienne de Crecy tiraram algumas de suas idéias.
O show curto incluiu as músicas mais conhecidas, como “Radioactivity”, “Autobahn” e “Musique non stop”. Faltou mesmo “Pocket calculator”.
O Kraftwerk serve como matriz para boa parte do que se ouve em música eletrônica hoje, sem soar velho ou antiquado, como se mesmo depois de gravadas essas músicas continuassem sempre a olhar pra frente.
No intervalo antes do início do show do Radiohead, Maurício Valladares fez o que pode ter sido o set de dub com mais ouvintes da história dessa cidade. Certamente Jonny Greenwood, guitarrista/tecladista do Radiohead e conhecido dubhead, aprovou a seleção.
Radiohead, “Idioteque”
O Radiohead entrou em cena com apenas 10 minutos de atraso em relação ao horário divulgado, garantindo uma noite tranquila para todos que dali ainda teriam que voltar para casa. Thom Yorke já chegou apresentando o Radiohead em português.
Nos dias anteriores ao show comentou-se bastante sobre o show no México que, pelo que se sabe, deixou a banda impressionada. Como bom brasileiro, logo pareceu que o troço iria se tornar uma espécie de competição, para decidir o público mais quente.
Logo na abertura, com “15 step”, com a Apoteose bem mais cheia, deu pra perceber que o público era respeitoso com a banda. Cantou-se todas a músicas, mas não aos berros. Bateu-se palmas, mas sem estalar alto as mãos. Os desatentos conversaram durante as baladas (ah, mas como não…), porém menos do que se esperava.
A relação beirava a cerimônia, ainda que os integrantes do Radiohead chamassem o público, como não é do costume deles. Era como se depois de tanta espera, todos quisessem guardar aquelas notas na memória e os próprios gritos fossem um obstáculo. As excessões foram os coros mais fortes em “Karma Police”, “No Surprises” e “Paranoid Android”.
Talvez o Radiohead tenha estranhado a calma da platéia, talvez tenham ficado mesmo decepcionados com o público carioca, conhecido pela empolgação. Sendo esse o caso, provavelmente eles jamais saberão o quanto esse pequeno cuidado dos fãs fala da admiração pela banda.
Radiohead: o telão
Foi uma beleza poder ouvir em detalhes as experimentações de Johnny Greenwood quando se afasta da guitarra e vai mexer nos pedais e nos teclados. As interferências de rádios locais que ele sintoniza durante o começo de “National Anthem” deixaram muita gente sem entender de onde vinha tanto português.
Já tendo visto outros dois shows do Radiohead ano passado, dessa vez resolvi me afastar do palco na parte final, para poder apreciar o cenário de longe. Bom, por isso e porque as costas já estava pedindo arrego mesmo.
Os telões laterais e do fundo do palco mostram a banda de tantas posições que daqui a pouco vai faltar ângulo pra filmar de maneira diferentes. Saturando cores ou fazendo meias fusões, os efeitos aplicados nas imagens são sempre simples e extremamente funcionais. Porque bom gosto, como se sabe, não vem instalado no seu Mac.
Visto de longe, do alto da arquibancada, o cenário ganhava uma moldura bem carioca. A direita brilhava o Cristo Redentor e a esquerda o Morro da Coroa, com seu luminoso “Coroa paz” saudando a platéia. Pena que a banda não teve essa visão, pois diz tanto da cidade.
Dessa distância, os efeitos luminosos do palco ganham outros contornos, assumindo formas imperceptíveis de muito perto. Conversando com Mateus Araújo, ele levantou a hipótese de que durante “Everything in it’s right place” um texto fica correndo pelo palco, em letras gigantescas. Conhecendo a banda, faria sentido. Fica aí mais um enigma para ser desvendado.
Como um presente para platéia, uma demonstração de carinho, o Radiohead encerrou o show com “Creep”, seu primeiro grande sucesso e música que eles raramente tocam.
Foram 25 músicas no total, ainda assim ficou faltando coisa. “Fake plastic trees” e “High and dry” para os fãs de novela, e “Climbing up the walls”, tocada na passagem de som.
“Bom pra caralho”, como disse a banda em bom português ao final do show. Foi mesmo.
–
As músicas:
“15 step”
“Airbag”
“There There”
“All I Need”
“Karma Police”
“Nude”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“The National Anthem”
“The Gloaming”
“Faust Arp”
“No Surprises”
“Jigsaw Falling Into Place”
“Idioteque”
“I Might Be Wrong”
“Street Spirit (Fade Out)”
“Bodysnatchers”
“How To Disappear Completely”
Bis
“Videotape”
“Paranoid Android”
“House of Cards”
“Just”
“Everything In It’s Right Place”
Tris
“You And Whose Army?”
“Reckoner”
“Creep”
* Dá pra assistir boa parte da apresentaçãona página do cybertechno, um doido que tranformou em regra pessoal filmar na íntegra e colocar no YouTube todos os shows que vai (nesse ficaram faltando algumas).
Little Joy, “The next time around”
(em 00:40, no meio da tela, Camelo cantando)
vídeo e fotos: URBe
Mais uma sexta-feira, mais uma ida a Lapa. Como ia dizendo outro dia, o bairro anda a um zilhão por hora. Dessa vez a atração principal da noite era o Circo Voador, onde tocou o Little Joy, “projeto paralelo de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (The Strokes)”, aparente sobrenome da banda.
É o típico evento que no Rio vira um programa, a famosa boa da noite. Na platéia, tinha de tudo; de indies conhecedores de cada integrante aos perdidos; de quem só ouviu falar do LJ a gente gritando “gostoso” para Amarante. É, os fãs do Los Hermanos não são mole não.
Em muitos aspectos a histeria e empolgação do show realmente lembrou as apresentações dos barbudos. Sem falar que músicas como “Keep me in mind” (uma variação acelerada de “O Vento”?) bem poderiam ter saído do repertório do LH.
Na festinha após o show, o baixista gente boa Todd Dahlhoff (Dead Trees e parte do projeto paralelo de outro Strokes, Albert Hammond Jr.) contou que a banda estava preparada para isso, pois Fabrizio já havia alertado que o galego (apelido de Amarante entre o LJ) era grande no Brasil.

Atenção para o horário do início do show. No Circo. Inacreditável!
O que não foi nada, nada comum, foi o respeito aos horários marcado para os shows (ALELUIA!). As 23h30 o Cidadão Instigado já encerrava sua apresentação para os poucos que acreditaram e chegaram na hora. Precisamente as 00h27, o Little Joy pisava o palco, numa cena quase impossível de acreditar em se tratando de Rio ou de Circo Voador.
Antes disso, no momento vergonha alheia da noite, um rapaz anunciou ao microfone que um DVD estaria sendo gravado, quem não concordasse em aparecer que fosse “lá para atrás”, fechando com um constrangedor “é Little Joy no bagulhôu!”. Foi merecidamente vaiado.
Muita gente perdeu o show, basicamente por três motivos. Uns bobeaream e ficaram sem ingresso; outros chegaram atrasado por conta do trânsito infernal na Lapa e arredores (embora alguns culpassem a pontualidade, o que não deixa de ser irônico); e o pior caso: gente que comprou ingresso, chegou a tempo mas não conseguiu ver o show por conta da indesculpável super lotação da casa. Uma mancada e tanto, numa noite de acertos.
Feliz, depois de tanto tempo sem tocar no Brasil, Amarante estava visivelmente contente e não cansava de agradecer, cumprimentar rostos conhecidos na platéia e dizer como era bom estar de volta em casa.
No entanto, era Fabrizio Moretti, aparentemente doidaralhaço, quem ganhava os holofotes. Com algumas frases desconexas, danças bizarras e declarações populistas como “quem está muito feliz? Eu estou muito feliz, sabe porquê? Por causa de vocês!”, divertiu o público.


Sergio Mendes vs Noah Georgeson (foto: Carlie Armstrong)
O resto da banda estava mais na deles. O guitarrista (e produtor do disco) Noah Georgeson chamava mais atenção pela semelhança física com Sergio Mendes, apontada por João Brasil (perguntado, Noah disse que nunca tinha escutado isso antes, sabe-se lá como), e a vocalista Binki Shapiro, apagadinha, protagonizou os momentos fofos. O baterista Matt Romano se destacava pela técnica e pela precisão monstruosa.
Brand new Anna Julia?
A arquibancada estava cheia de amigos de Amarante. O parceiro Camelo, o produtor Kassin, dois terços do Do Amor, Pedro e Jonas Sá, Nina Becker e Vanessa da Mata cantarolavam as músicas. Nesse contexto brazuca, a música com maior potencial de hit do Little Joy, “Brand new start”, ganhou uma nova perspectiva.
Não tinha notado o quanto a pegada, as referências e até a estrutura da canção do Amarante — apesar do andamento bem mais lento e arranjo suave — se assemelha ao grande sucesso do LH, “Anna Júlia”, de Camelo. O “uô uô uôu” que encerra uma e o “oh, no” que fecha a outra escancaram as semelhanças.
Assim como o disco, o show foi bem curto. Tirando uma versão bem apropriada de “This time tomorrow”, do Kinks (”música que todos nós gostamos muito, explicou Amarante), outra de “Walking back to hapiness”, da Helen Shapiro, e uma música nova do LJ, nada foi acrescentado.
Moretti puxa o coro do público: “Último romance” (Los Hermanos)
Show encerrado, até então não havia tocado nenhuma música do Los Hermanos. Isso até Fabrizio ir ao microfone e começar a cantar “Último romance”, iniciando um coro gigantesco, que um encabulado Amarante acertadamente decidiu apenas ouvir e não acompanhar. Fabrizio ria sem parar.
Com esse final, é de se imaginar que o show do Circo tenha sido o ápice da turnê. Os intengrantes disseram que Porto Alegre e Belo Horizonte também foram memoráveis. Apenas São Paulo decepcionou, pela recepção muito fria.
Como suas atividades em seus projetos principais demanda muito tempo dos integrantes (Fabrizio entra em estúdio com o Stokes no mesmo dia que chega de volta aos EUA), a gravação de um DVD na penúltimo data da extensa turnê ( que se encerrará em Recife e viu a banda atravessar os EUA e passear pela Europa tocando em pequenos clubes) dava pinta de final de festa.
O baixista, Todd, afirmou que não é nada disso. A banda continua e tem até músicas suficientes para um segundo disco, que deve vir logo, logo.
Enquanto o disco não vem e a banda não define seus destino, resta a internet. Menos de 12 horas depois, o show estava inteiro no YouTube, filmados de diversos ângulos. Só que ao vivo, é claro, é muito melhor.

foto: Caroline Bittencourt
Segundo a MTV, a produção do Just a Fest confirmou oficialmente o Los Hermanos e Vanguart na escalação do festival, além, claro, de Radiohead e Kraftwerk.
O tecladista da banda, Bruno Medina, também confirmou a notícia em seu blogue.
Eu não te disse? ;)

foto: Caroline Bittencourt
Os R$ 120 R$ 240 cobrados pelo ingresso do Radiohead vão se tornando cada vez mais em conta. Primeiro foi a adição do Kraftwerk ao evento. Agora chega a notícia de que o Los Hermanos também tocará no festival Just a Fest.
Ouvi falar disso a primeira vez ainda em dezembro, mas a fonte (pra lá de segura) pediu sigilo. Essa semana o assunto surgiu outra vez, através de outra pessoa, porém de maneira um pouco torta e achei melhor deixar quieto. Hoje recebi um telefonema contando a “novidade”, de uma terceira fonte, dessa vez sem restrições sobre divulgar a notícia.
Somadas as três fontes, a retomada do Los Hermanos (porque a banda nunca acabou) só não acontece em março se der alguma creca. Ainda restam ingressos para o show do Rio. Corra.
Após muitos dias de chuva, nesse domingo um mormaço pintou no final de tarde carioca, logo no primeiro dia do verão. Não era muita coisa, apenas o suficiente para um passeio de bicicleta pela orla, ainda com o corpo dolorido da gripe e da febre do dia anterior.
No sábado, ainda de cama, li a boa entrevista de Rodrigo Amarante para Trip, pescada no Matias, em que o ex-Hermano fala sobre diversos assuntos com sinceridade, o que não é lá muito comum em sua relação com a imprensa.
Por conta disso lembrei do disco do Little Joy e finalmente consegui escutá-lo de ponta a ponta, sem interrupções. O cenário da pedalada, com nuvens cruzando o céu e o vento ameaçando acabar com a brincadeira a qualquer hora, fizeram as canções crescerem e clarearem, inlclusive para outros ambientes.
A melancolia presente no disco foi ressaltadas pelo contexto, pelas imagens ao redor, complementando as músicas e destacando as influências dos anos 50, 60 e 70 e das próprias melodias do Los Hermanos e timbres lo-fi do Strokes.
Pena que cada vez dá menos tempo de ouvir os discos com a calma que merecem. Nessa, um monte de coisa bacana passa batida.
Pelo o que ouvi dizer informalmente, teve gente que presenciou a conversa e achou que esse papo de volta do Los Hermanos com disco novo no ano que vem não passa de uma tiração de onda do Amarante com alguns fãs mais empolgados.
A estréia solo de Marcelo Camelo, “Sou”, sai no dia 08 de setembro, com 10 das 14 faixas caindo oficialmente na rede no dia 28 do mesmo mês.
Chegando a hora do lançamento, cacos do disco começam a pipocar aqui e ali.
No bacana MPB Player (o nome é contraditório, mas contradição as vezes é bom), blogue editado por Leo Lichote e Rodrigo Pinto, apareceram a capa (um poema concreto de Rodrigo Linares) e a primeira música, “Doce solidão”, que já havia circulado em formato demo, num vídeo no YouTube, assim como a instrumental “Téo e a gaivota”.
Dias recheados de notícias do Los Hermanos e seus integrantes.
A página do Little Joy, projeto do Hermano Rodrigo Amarante com o baterista do The Strokes, Fabrizio Moretti, está no ar, mas ainda não tem nenhuma música.
Para saber mais sobre os destinos dos hermanos, confira a lista do Sobremusica.
Pra simplificar, transcrevo o informativo enviado pela assessoria do grupo:
“No próximo dia 28 de agosto, vai ao ar, às 22h15m, “Multishow Registro - Los Hermanos”, novo lançamento do canal, que exibe o show antológico do LH gravado, no ano passado, na Fundição Progresso (RJ). No dia seguinte, chegam às lojas o CD e o DVD “Los Hermanos na Fundição Progresso - 09 de Junho de 2007″ pela SonyBMG. O CD foi produzido pela própria banda e traz 14 músicas. O DVD foi dirigido por Nilson Primitivo e contém a íntegra do show do dia 09 (26 músicas) e, como extras, cinco músicas gravadas no dia 08 de junho.”
edição e imagens: Felipe Continentino
O primeiro semestre foi repleto de shows improváveis. A lista de desejos ficou bem mais curta, com direito a muitos brindes.
O maestro Eumir Deodato finalmente voltou a tocar no Brasil, apresentação devidamente captada para um DVD (com os amigos Felipe Continentino, Eduardo Hunter e Rafael Mellin). Sempre tive certeza que um dia fosse ver o Lee Perry, acabei entrevistando a lenda para o “Dub Echoes”. Até o Rage Against ressurgiu diante dos meus olhos.
Em compensação, teve a surpresa mesmo do recesso dos Los Hermanos. A resenha dos shows de despedida ficou para Rolling Stone. Como escrever duas seria demais, fica o vídeo com trechos de várias músicas da derradeira noite.
E o ano ainda está na metade.

foto: CamilaCamomila
Texto escrito para Rolling Stone sobre o show de despedida do Los Hermanos, para acompanhar a resenha dos três últimos shows.. Por falta de espaço acabou sendo publicada apenas a resenha, se não me engano.
–
Na contra-mão
A biografia do Los Hermanos é repleta de marcos e rupturas. O “recesso por tempo indeterminado” é somente mais uma dessas decisões quixotescas (ou românticas ou polêmicas) que parecem acompanhar a trajetória da banda.
Criada num período de mudanças e transições na indústria fonográfica, do sucesso nas rádios à internet, o Los Hermanos se destacou nas duas realidades.
Uma das últimas bandas a estourar via fitas-demo, em cassetes (hoje extintas, substituídas por CD-Rs e MP3), o Los Hermanos também protagonizou o primeiro grande vazamento de músicas de um artista brasileiro na internet, quando os ensaios do que viria a ser “Ventura” caíram na rede sob o nome “Bonança”, título do disco à época.
O quarteto sempre andou na contramão. Esse é um dos principais motivos da banda colecionar tantos seguidores, encantados com a postura independente, quanto desafetos, enfezados com a rebeldia calculada. Fazia tempo que um grupo não despertava sentimentos tão díspares e intensos no público.
Dispostos a construir uma carreira, optaram pelo caminho mais difícil. “Anna Julia”, sucesso responsável pelas 350 mil cópias vendidas do primeiro disco, foi sacada do repertório dos shows, numa escolha até hoje mal interpretada como renegar a música.
Arriscaram-se novamente no segundo disco, o cultuado “Bloco do eu sozinho”. De sonoridade pouco comercial e sem o apoio da gravadora na divulgação por considerá-lo “difícil”, “Bloco…” reconstruiu e catalisou o atual fiel público da banda.
Durante dez anos, as escolhas se provaram corretas. Se nunca mais atingiram a vendagem da estréia (marca raramente obtida no mercado de lá pra cá), ganharam respeito. Tudo isso enquanto compunham canções de letras de fácil identificação e arranjos originais, aproximando o rock e a mofada MPB.
O terceiro disco, “Ventura”, mais palatável, expandiu a base de fãs, levando o Los Hermanos, entre outras coisas, a ser atração principal num dos palcos da primeira edição do Tim Festival, com os norte-americanos do Lambchop fazendo o show de abertura, prática pouco comum no Brasil. O contemplativo “4”, outra guinada artística, recebido com ressalvas pela crítica, vendeu mais que o antecessor.
Agora a história se repete. As vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto trabalho, contrariando as expectativas, o Los Hermanos desiste de cumprir a cartilha mercadológica que pede um disco de carreira a cada dois anos, puxa o freio de mão e pára pra repensar a carreira.
Os motivos da decisão ficaram somente entre os integrantes e seu círculo de amigos, embora a pausa anunciada, com shows especiais de despedida, possa soar contraditória. Para os fãs, restou a surpresa.
O quarteto, já pouco afeito a aparições na imprensa, coerentemente calou-se, deixando muita gente sem entender nada. A pergunta mais repetida nos últimos meses foi: o Los Hermanos acabou de vez? A resposta oficial é “não”.
Como os integrantes da banda, fora uma ou outra declaração frisando que “recesso é recesso”, se esquivaram de se aprofundar no assunto, criou-se margem para especulações, quase todas de cunho negativo. “Recesso é eufemismo para o fim”, “deixaram a janela propositalmente aberta para voltar com um Acústico”, “Camelo e Amarante brigaram, por isso não querem falar”, “crise criativa”.
Alheios às adivinhações, os integrantes seguem caminhos separados. Em se tratando de Los Hermanos, qualquer previsão é furada.
Para Rodrigo Amarante, o futuro começou dois dias depois, na estréia da temporada de lançamento do primeiro disco da banda de baile da qual faz parte, a Orquestra Imperial. Fala-se ainda em uma participação no disco de Devendra Banhart. Gravado como compositor por Maria Rita e produtor do disco do seu tio, o ex-Tamba Trio Bebeto Castilho, pouco antes dos shows de despedida Marcelo Camelo participou da gravação Acústico MTV de Sandy & Junior.
O baterista Rodrigo Barba entrou em turnê com a banda de hardcore carioca Jason, além de tocar com o Latuya, enquanto o tecladista Bruno Medina segue escrevendo em seu blogue. O tempo dirá se as músicas da banda serão tratadas como “Anna Julia” em eventuais carreiras solo dos quatro músicos.
Se não é o fim da banda, é o final da primeira fase. Com tanta gente tentando chegar lá, o Los Hermanos resolve parar. No último show, Barba vestia uma blusa do Autoramas, o que remete a renovação. Talvez, esse refluxo gere espaço para outras bandas, com potencial para agradar o mesmo público. De Mombojó e Moptop, aos ex-Acabou la Tequila Nervoso & os Calmantes, Kassin e seu projeto +2, passando por Móveis Coloniais de Acaju, Wado, Cidadão Instigado e Lucas Santtana. Herdeiros não faltam.
Longevidade nunca esteve diretamente ligada a qualidade musical, a história está cheia de exemplos pra comprovar. Ser grande também é saber a hora de se sair de cena. Seja um gesto calculado ou uma decisão sincera. Depende de quem está interpretando.

fotos: Alex Werner
O novo disco do Los Hermanos, “4″, dividiu opiniões. Tem quem ame, tem quem odeie, lembrando o tipo de reação que o “Bloco do Eu Sozinho” despertou quando foi lançado, desagradando, principalmente, os fãs iniciais e os que embarcaram na onda “Anna Julia”.
Já disseram que “4″ não parece coisa do Los Hermanos. Entretanto, só eles quatro podem dizer o que soa e o que não soa como Los Hermanos. Como no que foi publicado até agora na imprensa eles não falaram muito sobre isso, o URBe foi ao estúdio Monoaural conversar com Kassin, para compreender melhor as intenções da banda. E Kassin fala.
Produtor de “4″ e do “Ventura”, baixista no “Bloco”, influência declarada por Marcelo Camelo para formação do Los Hermanos e amigo pessoal da banda, Kassin revela a existência de um arquivo de gravações inéditas do grupo, espinafra matérias apressadas e conta histórias de bastidor da produção do novo disco.
–
A passagem do disco de estréia para “Bloco do Eu Sozinho” foi um choque. Ao mesmo tempo em que espantou fãs do início da banda, fez sucesso de crítica e entre os chamados “formadores de opinião”, pavimentando o caminho para o disco seguinte, “Ventura”.
Esse, por sua vez, parece uma catalisação dos conceitos apresentados no “Bloco”, tornando-o mais fácil de compreender e ajudando a fixar o nome do Los Hermanos entre os grandes do rock brasileiro. Como produtor da metade dos discos da banda, para você, como “4” se encaixa no resto da discografia?
Como uma nova quebra. E é até o que eu gosto mais do disco, de ser uma quebra e não uma afirmação da idéia anterior. O que eu gosto bastante nesse disco é isso. Concordo com essa evolução que você apresentou. Essa quebra é principalmente de composição. Porque, mesmo a coisa de arregimentação das músicas é bastante relacionada a composição, então, não adianta empurrar certas coisas para determinadas composições porque não tem como.
Acho que a safra de composição que eles tinham no primeiro disco é diferente da do “Bloco”, da do “Ventura” e do “4”. Mas acho que existem semelhanças entre o “Bloco”, o “Ventura e entre o “4” também, existe um certo tipo de composição que é primo. Como em “Pois é”, por exemplo, poderia estar nos outros discos essa música. Existem certas intersessões, mas o que eu admiro é ter menos essas intersessões do que no “Ventura”. Embora eu goste dos dois, gosto de todos na verdade, gosto muito do primeiro também. Embora eu prefira as demos, são muito boas.
O que foi conversado entre você e a banda? Como foi seu primeiro papo com eles sobre esse disco?
Para falar sobre o esse disco especificamente, a gente teve um almoço no meio de 2004. O Marcelo falou que tinha 30 músicas prontas e o Ruivo [Rodrigo Amarante] falou que não tinha nenhuma. O Marcelo falou que tava querendo fazer um disco, naquela época, que fosse mais tocado pela banda, que tivesse mais coisas de improvisação. Ele estava querendo fazer uma coisa solta e livre e a idéia de um disco totalmente ao vivo, dentro do estúdio, com tudo valendo. A idéia era a gente ensaiar pra caralho, todo mundo, eu no baixo ou guitarra, e na hora de tocar, tocar na reta. Todo mundo junto, se olhando, como se fosse um show.
Passou duas semanas daquele almoço e o Marcelo falou, “cara, estou fazendo umas músicas novas que estou achando boas e elas não tem a ver com isso que a gente estava fazendo antes”. Ele rejeitou algumas das músicas que ele tinha e chegou nesse conceito das músicas dele. São bem mais plácidas, né. Elas não têm compromisso com o ritmo, a melodia vai e não volta… São músicas complexas, um pouco sinfônicas até. E o Ruivo começou a aparecer com essas músicas do disco também e, com o jeito que ele tocava, no violão e voz, já diziam um pouco de como os arranjos deveriam ser, no caso dos dois.
O Marcelo já tinha aquele negócio que era bem espaçado, com os tempos relaxados. Ouvindo aquilo, com todo mundo da banda, todo mundo já meio imaginou como aquilo poderia ser e já se viu que não seria um disco muito de rock, como não é, tem três músicas um pouco mais… Foi uma conseqüência da safra de composições que veio e todos naquele momento concordaram que essa composições serviriam para essa quebra, entendeu, mais que a safra passada.
Depois desse processo que o Marcelo falou que tinha novas músicas, o Rodrigo já apareceu com várias. A última música que entrou no disco foi “Condicional” e foi a última música que apareceu dessa safra. Ela entrou exatamente no penúltimo dia de ensaio para começar a gravar. Ali, já no final, com o disco fechado. Ele tinha umas outras músicas que a gente ensaiou e não entraram, o Marcelo também.
Não chegou nem a gravar essas?
Não. A gente decidiu que só gravaria o que fosse usar, o que foi ótimo, deu o mínimo de confusão. No disco anterior, algumas músicas a gente ficou deixando, deixando pra tirar e no final não tirava. Então dessa vez se optou por gravar só o que fosse usar.
Então existem sobras do “Ventura” gravadas?
Existem sobras, acho, de todos os discos. Eles fazem muita música, né. Desse disco também existe, tem uma que sobrou.
Música boa, poderia estar no disco?
Poderia, mas dentro do disco, não por qualidade, mas conceitualmente não faria sentido. Uma música do Marcelo muito boa. Ela mudou de nome algumas vezes, mas a gente chamava de “Perceber”, que era como começava a primeira estrofe.
A gente fez dois arranjos, gravamos de três jeitos diferentes. Um com a banda, outra com eu e o Bruno fazendo sapateado…
Como assim? Gravando o chão?
É sério! A gente fazendo umas batidas de sapateado. Gravação ridícula, cara! Eu e o Bruno suando pra caralho, “pô, difícil essa merda!” (risos). A gente gravou dobrando, pra dar aquela sensação de que era uma porrada de gente sapateando. Depois fizemos uma versão com percussões. Esses três arranjos foram gravados.
Em termos de som, o que se queria atingir com “4″? Quais eram as referências?
Não tinha muita referência, nunca teve, cara. Inclusive, saiu um negócio num jornal falando de Wilco e eu achei isso muito louco, porque ninguém tinha ouvido Wilco até bem no final [das gravações]. Quando saiu aquele disco com o ovo na capa [“A ghost is born”] eu ouvi esse disco com o Ruivo e eu lembro exatamente quando, por isso achei engraçado esse comentário. Foi um dia que a gente saiu pra comer e o Ruivo me mostrou o disco no carro, no dia que a gente tava passando o mix pra fita, o disco [do Los Hermanos] já tinha terminado. Achei engraçado terem falado que isso era uma referência, porque ninguém tinha ouvido aquilo até então.
Isso foi coisa do José Flávio [Jr., colaborador da Folha de S.Paulo], né, fazendo merda. Pronto, falei, falei, tava aqui ó! Achei que ele foi meio bundão naquela matéria lá. Posso falar porque eu já falei pra ele. Ele não tinha ouvido o disco e estava falando sobre um negócio partindo de opiniões de pessoas que ouviram vagamente, porque ninguém tinha ouvido. Só a gente e o Daniel [Carvalho, engenheiro de som], no estúdio.

Se não tinham referências explícitas, como era a conversa com a banda?
O Marcelo queria um clima que o resto das coisas fosse uma paisagem, que o resto da banda não imprimisse tanto. A idéia de fazer um disco calmo. O disco é bem calmo, né? Mesmo as músicas um pouco mais agressivas, é um agressivo calmo.
O Barba falava que queria um som de bateria tal e aí me explicava. Ele usava um tipo de pele que meio mata o som, então a gente conversou sobre isso, testou umas outras peles. Ele queria que os tons cantassem mais, tudo tem nota. Acho que a parada passa menos por referências, passa mais por aí.
O Bruno queria ter Rhodes, piano acústico numa, ele tinha a idéia bem dele. O Bruno é incrível gravando, ele tem a idéia dele muito precisa. Dos quatro ele é o que tem o foco maior na gravação. Ele já vem com o som pronto, mexo muito pouco na parada dele. Até tem jogo, mas a concepção tá ali já.
O Marcelo e o Rodrigo também, pedem uns sons de guitarra. O Marcelo até trocou de guitarra, gravou quase tudo com uma semi-acústica. Ele comprou uma Hofner, indicada pelo Catatau [guitarrista do Cidadão Instigado, que participa do disco].
E o baixo, quem é que define?
O Ruivo tem um baixo que é muito legal, semi-acústico também, do Rio Grande do Sul, chama Sonelli. Com três captadores, um baixo esquisitão. Teve uma parada engraçada. Eles me mostraram as músicas e eu viajei, pra fora, com a Orquestra ou com o +2, não lembro. Entrei numa loja e vi um jogo de cordas de nylon, pretas, pra botar em baixo, e pensei “isso tem a ver com o disco do Los Hermanos”, comprei as cordas e esqueci disso, passou um tempão. Ficou aqui guardada um tempão, passaram-se meses. Quando o Ruivo chegou, com o baixo, na hora do ensaio, eu falei das cordas. Daí eu olhei e ele tinha as mesmas cordas no baixo dele! A gente pensou a mesma coisa!
Tu acabou gostando do disco ou não? Não curtiu não?
É… estou no meio do caminho. Sinceramente, se fosse outra banda, eu já tinha parado de ouvir, tinha desistido. Mas como é uma banda que eu respeito, ainda estou tentando entender o que está acontecendo, pra onde está indo. Fiquei mais perdido do que qualquer coisa, o que talvez seja bom. Achei as letras muito herméticas também, difíceis de se relacionar.
No “Bloco do Eu Sozinho”, se você ver as matérias que saíram na época – e a gente leu algumas até – elas são do mesmo jeito, ninguém fala nada do disco. Ficou todo mundo com o pé atrás, sem entender.
A parada das letras é um pouco mais hermética mesmo. Mas tem uma parada musical, que se você for julgar esteticamente, no primeiro, no segundo e no terceiro discos, não é que seja um clichê, mas existe um modo de compor que ele é repetido. Acho que isso é o normal de compositores. Se você pegar caras que tem uma carreira extensa, com coisas diferentes, tipo Jorge Ben, Caetano ou Gil, existe uma certa maneira, como se fosse um Gestalt da pessoa, que aquilo raramente se quebra. E acho que isso é o que acontece nesse disco: aquilo se quebra. Tem uma parada do Marcelo realmente estar fazendo um tipo de composição que ele nunca fez, e o Rodrigo também.
É o que eu gosto nesse disco, esse é o ponto que eu acho legal. Quando me mostraram as músicas eu pensei “pô, maneiro, isso nem parece eles”. Dentro do disco, ele parece dois discos, um lado e um outro lado. Isso é uma parada do disco que eu gosto, dele ter essa riqueza. Eu acho uma riqueza, não acho uma fraqueza, me dá uma sensação de “do caralho!”.
A mudança é interessante. Foi muito legal o que aconteceu do primeiro disco pro segundo e do segundo para o terceiro. Depois de ter encontrado um caminho mais pop no “Ventura”, cristalizando os conceitos do “Bloco”, se eles se repetissem teria sido muito chato. Teria virado uma fórmula.
Acho que na verdade, o “4” é mais “Bloco” do que “Ventura”.
Então essa quebra de formato do “4” em relação ao “Ventura” pode ser um desenho de algo que virá mais bem resolvido no próximo disco?
Não tem como prever como o cara vai compor, nem ele tem. Acho inclusive que essa quebra não é planejada por eles. Aconteceu de, num determinado momento, o Ruivo ter aquelas músicas e o Marcelo aquelas e esse conjunto ter se formado.

Sendo que músicas do Marcelo estão mais diferentes do que se conhecia dele do que as do Amarante estão em relação as suas, comparando em paralelo.
É, exatamente. Eu acho isso também.
Dessa vez, o processo de pré-produção pareceu mais solto, com a banda dando continuidade a agenda de shows, sem tanto isolamento. Acompanhando pelo saite, pareceu que vocês não estavam tão imersos no processo quanto das outras vezes. Qual foi a diferença dessa estada do sítio em relação as outras vezes?
Da outra vez a banda sumiu porque já estava no final da turnê mesmo, já não tinha tantos shows. Dessa vez tinha um monte de show pra fazer, mas eles estavam falando que tinham que gravar um disco. Então, no primeiro momento do disco, não teve show, no primeiro mês e meio eles sumiram mesmo. No sítio já tinha shows, ensaiava durante a semana e descia pra fazer tocar no final de semana. Da outra vez também foi assim.
Esse sítio de agora era melhor que o anterior. O outro era mais gelado e tinha menos coisa pra fazer na casa. Dessa vez era em Araras, que já era mais perto do que o outro, tinha pingue-pongue, totó, piscina, então tinha mais recreação que no outro. O lugar era bem mais relaxado.
De cara, a principal diferença é que os metais parecem mais mansos. O Marcelo Camelo tem escutado, literalmente, muitas “Coisas” do Moacir Santos. Essa mudança passa por aí?
Acho que não, porque não parece com os arranjos dele. O arranjo de metais que tem em “Horizonte distante” parece bastante com Los Hermanos, o de “Dois barcos” é que não. A gente começou a ouvir esse disco na época do “Ventura”, fomos pro sítio uma vez ouvindo “Coisas”.
As quebras de andamento também deram uma acalmada, né?
As músicas eram mais lentas, não tinha nem jeito de fazer quebras de andamento.
A estética das músicas do Camelo e do Amarante parecem mais distantes do que nunca. Isso foi uma questão na produção do disco? Como você resolveu isso, em termos de unidade na produção?
Isso foi uma questão pra mim. Isso pra mim sempre foi o maior problema, parecia ter dois discos diferentes. Ouvindo em casa o disco saiu melhor do que eu pensava, achei que ouvindo você não tem a sensação, quando muda de música, que a produção ficou aquém para uma ou outra. Para o produtor essa é a parte difícil.
Quando você tem um disco com faixas tão distintas, a gravação muda muito. Se você tem uma banda de rock tocando rock o tempo inteiro, é muito mais fácil você gravar e mixar um disco coeso e bom. Porque quando você tem uma música com uma pegada muito leve e outra com os caras enfiando a porrada, muda como eu armo o estúdio, como monto a bateria, muda a afinação, os microfones, as distâncias dos microfones…
Quando você mixa um disco, o plano da voz é uma parte importante, o volume que aquilo vai estar. Ter dois cantores já é uma questão pra isso. Se você tem dois cantores, você tem que ter a o som da voz de um, o som da voz de outro e aquilo que dá a impressão geral do disco, a banda entra dentro daquilo. Só que quando você tem uma música de rock, as vozes são mais baixas, porque você tem uma banda. Porque se não soa como se tivesse meio magro, sabe, você vai tirando som da banda pra aumentar a voz. E eu passava de música rock pra uma música totalmente violão e voz e quase nada, e um vibrafone… Isso pra produção é um momento que é difícil de ter coesão.
Como você solucionou isso?
Quebrando muito a cabeça. Tiveram coisas que eu evitei, durante a produção, desde os ensaios. Por exemplo, evitei, dentro das próprias músicas, ter dinâmicas muito acentuadas porque acho que isso acentuaria mais no disco inteiro, se fosse mais esquizofrênico de dinâmica. Como o “Ventura” é um pouco mais, as músicas t}em muito sobe e desce, mas quase tudo tem o som parecido. Nesse, como as músicas eram tão diferentes, eu achava que isso poderia ser um problema. Tentei aliviar um pouco nos arranjos mesmo.
Também tem a parada de não ter tantas distâncias nas freqüências do disco todo. Não ter músicas com mais grave ou mais agudos do que outras. Por exemplo, do baixo ser agudo numa música e na outra ser extremamente grave. O som das guitarras nunca tinha um som realmente estragado, pesado e podre, pra dar unidade pelo menos nisso no disco. Os agudos sempre têm um certo padrão para não ter um super agudo ou um super médio atacando e depois numa outra música não ter.

Algumas músicas remetem a outras bandas do círculo de amizade de vocês. “Paquetá” parece tirada do repertório da Orquestra Imperial, “O vento” lembra o tema do programa Ensaio Geral, do próprio LH, “Condicional” tem algo de Moreno Veloso. Isso pode ser conseqüência de todos esses nomes terem sua participação, ou na produção ou como integrante?
Acho que “Condicional” remeteria mais a “Cara estranho” do que ao Moreno, é a mesma escala. “Paquetá” tem um toque de Orquestra sim. A gente é um grupo de amigos, acho que isso é completamente normal, mas eu não concordei com a sua pergunta. Concordo com o que você está falando, mas não coma a sua pergunta, porque eu não achei essas semelhanças especificamente. Mas quando você está num grupo amigos, que tocam juntos, se vêem e ouvem música juntos, isso é completamente natural. Poderia até existir bem mais nesse disco do que existe. Dessas, talvez, acho que só “Paquetá” lembre realmente a Orquestra, bastante. Acho isso normal, saudável. Uma troca boa.
Existe o risco desses artistas transitarem numa intersessão, ficando todos muito parecidos entre si? Não seria o caso de se variar um pouco as parcerias?
Acho isso impossível de acontecer. No caso do +2 [grupo mutante formado por Kassin, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti], por exemplo, trocando então de foco. A gente tem o projeto de fazer três discos, Moreno+2, Domenico+2 e Kassin+2. Os dois primeiros já são totalmente diferentes entre si. Isso não é uma coisa só pensada. Cada pessoa tem suas características de talentos, né, o que você pode fazer quando está em determinada função e suas limitações. Tem um certo tipo de coisa que eu vou fazer bem se estiver naquela posição e, sei lá, se eu estivesse indo pra bateria eu faria de outro jeito. Então esse grupo de pessoas, mudando a função, já delimita diferenças. Mesmo que você esteja pensando de um certo jeito, é impossível o meu disco ser parecido com o do Moreno, porque eu não vou cantar daquele jeito.
No caso deles [Los Hermanos], acho que eles têm uma unidade de banda e que isso permanece. Por mais que tenham influência de um, aquela influência de um — por exemplo, no caso da Orquestra influenciando o Ruivo — aquilo nunca vai ser totalmente passado para os outros, por mais que ele queira, porque são grupos diferentes. É impossível. Aquela música especificamente não soa Orquestra, não tem os metais… É uma música totalmente Los Hermanos em termos de letra. O jeito de pensar é outro, é o Bruno tocando piano, é o Barba tocando bateria.
E em termos de técnicas de gravação, desses artistas utilizarem o mesmo estúdio [o Monoaural], não pode gerar essas semelhanças entre os trabalhos?
Acho que não. Pensa nos discos que saem daqui, tem um jeito com Gameboy [do projeto Artificial], tem os do +2, tem o “Ventura” e o “4”, que são completamente diferentes de som. Acho difícil disso acontecer em qualquer disco, em qualquer grupo. Mesmo que um cara faça umas canções muito parecidas umas com as outras, ele foi gravar em outro lugar, outro dia… Já é outro dia.
Por mais que “Paquetá” pudesse caber na Orquestra, talvez outras músicas do Ruivo também poderiam caber, e vice-versa. É óbvio que cada um pode tocar suas coisas, mas a partir do momento que cada um toca, aquilo imprime de um jeito que é diferente. Por exemplo, Ramones é mole de tocar, não é? Qualquer imbecil toca Ramones. Aí você vê qualquer imbecil tocando Ramones e não é a mesma coisa. Fica uma merda, porque não são aqueles caras, é outro lance. O Raimundos tocando Ramones é o Raimundos tocando Ramones. Raimundos é uma banda do caralho, adora Ramones, daí o nome, só que quando eles tocam Ramones eles são os Raimundos e você ouve isso.

Isso é algo que pode acontecer, um produtor colocar demais a sua cara numa produção?
Existe esse tipo de produção, de fazer aquele som, aquela parada. Mas isso é mais uma limitação. O que eu acho de produção, quando eu acho maneiro, é quando você tem um disco e você fala “pô, o que eu vou fazer com esse disco agora?” e aí você pensa como vai ser aquela parada. Você planeja como vai ser o som daquela porra ali, como aquilo ali deve soar. Isso que eu acho que é a parada, pensar cada disco.
Outra coisa é que o produtor é um cara que fica num mundo muito melhor do que o do artista. O artista leva uma vida, que pra mim parece ruim, mas pra muitas pessoas pode parecer um glamour, mas é um cara pega um avião por dia. Ele passa a semana inteira numa cidade diferente a cada dia, que ele não conhece, que geralmente é no interior de não sei aonde, que pode ser um lugar legal, pode ser um lugar que não tenha nada. Acorda de manhã pega um ônibus, fica no hotel, vai pra passagem de som, volta pro hotel, faz o show, dorme seis horas, pega o primeiro vôo no outro dia. Ele vive uma parada que é foda, sacou.
Pra mim, que tenho uma vida que eu acho ótima, saio de casa, venho pro trabalho, cada dia faço uma coisa diferente, eu acho que cada disco o máximo que o produtor consegue tirar do artista pra aquilo que está sendo gravado seja verdade, o que o cara realmente acredita, é isso é que faz a parada ficar boa. Porque é ele que vai fazer essas viagens que depois eu não vou fazer. Nesse momento agora, o Marcelo deve estar no interior de São Paulo, não sei aonde, hipoteticamente. O cara deve estar fazendo uma viagem de ônibus, cada dia uma cidade, essas paradas assim. Eu tô aqui, tranqüilo, batendo papo contigo, vou subir pro estúdio e fazer um pouco Os Gardenais [banda de Minas que Kassin está produzindo, nenhuma relação com o portal que hospeda o URBe], vou dormir na minha própria cama… É uma vida diferente, por isso, por mais que o produtor interfira, o disco é do artista, porque ele é que vai lá ralar. O meu trabalho acaba quando o disco lança, o dele se estende por mais dois anos.
© OESQUEMA/ 2008 | Reprodução permitida após consulta | Os textos desta página nem sempre são revisados | Créditos