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O Globo, 17/09/2004

Matéria sobre viagem à Inglaterra, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Maior viagem de eco

Após a bem sucedida passagem pela Jamaica, a Inglaterra era o destino lógico para a equipe do “Dub Echoes”, na verdade, uma dupla formada com o pesquisador e roteirista Chico “dub” Linhares. Num país apavorado com a possibilidade de um ataque terrorista e onde até as lixeiras do metrô foram substituídas por sacos plásticos transparentes, protestos pacifistas na porta do Parlamento não são o suficiente pra trazer o bem estar de volta. No “Verão da Psicodelia”, como foi apelidado pela revista Mixmag, os cogumelos alucinógenos aparecem como solução para escapar da realidade.

Desde que foi encontrada uma brecha na lei permitindo o cultivo e o comércio, os cogumelos estão por toda parte em Londres, vendidos livremente nas ruas e feiras como se fosse shitake. Os junkies de Brixton, praticamente uma atração turística da cidade, que se cuidem. Seus dias podem estar contados. Com os ingleses precisando desesperadamente relaxar, dub parecia mesmo o assunto perfeito.

O documentário pretende mostrar a importância do dub no desenvolvimento da música eletrônica e do hip hop. Para isso, depois de entrevistas com ícones do reggae dos anos 70, como o produtor Bunny Lee, o baterista Sly Dunbar e o cantor U-Roy, faltava falar com o outro lado da história, nomes atuais conscientes da influência dos experimentos jamaicanos nos seus trabalhos. Com o apoio da American Airlines, acreditando num projeto totalmente independente, e a ajuda de alguns amigos cedendo um cantinho na sala, mais rápido do que se possa dizer dubwise, a equipe cruzou o Atlântico em direção à ilha onde a libra corrói o bolso.

À caminho da Europa, uma passagem estratégica por Nova York e Los Angeles pra falar com três jamaicanos: os expatriados Scientist e Bullwackie e o visitante King Jammy. Scientist e Jammy foram aprendizes de ninguém menos que King Tubby. Além de entrevistas com Ticklah, produtor do “Dub Side of the Moon”, e Thievery Corporation, em Washington. E o caldo estava só começando a engrossar.

Logo na primeira entrevista na terra da rainha mãe, Mad Professor começou a turvar a água dizendo que, ao contrário do que se acredita, não há uma cena de dub e reggae na Inglaterra, o que existe são eventos isolados. A estranha afirmação, repetida algumas vezes por outros entrevistados, parecia querer se confirmar quando o festival Reggae in the Park foi cancelado. O motivo oficial foi a recente publicidade negativa em torno do reggae, tornando impossível encontrar um lugar disposto a correr o suposto risco de abrigar os shows de Sizzla, Gregory Isaacs, Freddie McGregor e Barrington Levy. Veio o final de semana e com ele o carnaval de Notting Hill, festança caribenha de dois dias que domina a cidade. Certamente deve ser uma questão de parâmetros, porque um lugar que tem uma festa dessas (sem falar nas muitas outras, nas lojas de disco especializadas, etc.) tem que ter uma cena forte.

Entre muitos trios elétricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É espantoso o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis e acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no início. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, pra curtir freqüências graves de engasgar. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente não é mole.

Em paralelo, em Liverpool, acontecia o Creamfields, evento que aterrisa no Brasil em novembro, só em São Paulo. Mesmo sendo um dos maiores festivais do mundo, a escalação desse ano estava mais caprichada que o normal: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco…), Deep Dish, decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos lá.

Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaço, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente, no auge da noite: Darren Emerson, Sasha e o Chemical Brothers. Tom Rowlands e Ed Simmons fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Sendo fã ou não da dupla, esqueça tudo que falaram de mal sobre a última passagem dos químicos por aqui e comece a juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) em outubro pra conferir de perto. Papo sério.

Em meio a tanta coisa, a lista de entrevistados continuava crescendo. Simon Ratcliffe (Basement Jaxx), Adam Freeland, Audio Bullys, Congo Natty, Dennis Bovell, Dr. Das (Asian Dub Foundation), Dreadzone, Glyn Bush (Rockers Hi Fi), Groove Corporation, Kode 9 (do coletivo Dubstep), LTJ Bukem, Roots Manuva. Impressionante o que dá pra se conseguir apenas enviando o e-mail certo para os lugares corretos. Some a isso duas palavrinhas mágicas, Brasil e dub, e de uma hora pra outra você pode estar tomando um chá na casa de alguns dos artistas mais arredios a entrevistas de que se tem notícia.

Londres não pára. Um final de semana qualquer na cidade pode guardar uma escalação de djs digna de um grande festival, transformar a sexta e o sábado em uma verdadeira peregrinação a procura da batida perfeita. Na quinta você está na Movement conferindo o Artificial Intelligence, Flight, Ill Logic & Raf e Addiction, na sexta está na Fabric, curtindo a festa de lançamento do “Two Culture Clash” (já resenhado aqui no RF) com boa parte dos produtores que participaram do projeto (Howie B, Jon Carter, Kid 606, Switch, General Degree) botando som enquanto na pista ao lado, Randall, High Contrast, Fabio e Grooverider se revezam nas batidas quebradas.

Falando em batidas quebradas, mas não as do drum and bass, o onipresente breakbeat é sem dúvidas o estilo da vez. No mesmo sábado, Barry Ashworth (do Dub Pistols) e Matt Cantor (do Freestylers) bagunçavam a Rythm Factory praticamente na mesma hora em que Adam “We want your soul” Freeland sacudia a Fabric. É preciso se virar em dois pra conseguir acompanhar tudo.

Após quase 30 entrevistas, as malas voltaram mais pesadas. Chicodub ganhou mais de 100 discos, fora a pilha de CDs recebidas ao longo do caminho, incluindo 3/4 do catálogo da Blood & Fire. Ossos do ofício.

Box 1

Bizarrices

- O gente boa Dennis Bovell interrompeu a entrevista duas vezes para vomitar. A culpa foi do presente dado por sua mãe na noite anterior: uma garrafa de rum de Barbados

- Já Congo Natty ficou bem à vontade; só de cueca e camiseta.

- Depois da gravação o figuraça Howie B fez um set particular. Destaque para as músicas do “Last Bingo em Paris”, seu projeto paralelo, lançado apenas na França.

- Simon Ratcliffe, do Basement Jaxx, vai para Hong Kong com seu sound system de reggae, o Hometown Hi Fi, nome em homenagem ao ss do King Tubby

- O Thievery Corporation está com estúdio novo. O lugar parece uma casa mal assombrada.

Box 2

No forno

- O próximo disco do Thievery Corporation sai em fevereiro de 2005. Entre as participações, Sister “Bam bam” Nancy, Perry Farrel e Flaming Lips.

- Dando seqüência a série “Dubplates from the Elephant House”, o G-Corp prepara o terceiro volume, dessa vez com uma banda ao vivo, a “The Mighty Three”

- O Asian Dub Foundation também vai entrar em estúdio. Cada integrante produziu faixas individualmente e agora as idéias vão ser filtradas. Dr. Das está numa onda breakbeat.

- O Audio Bullys começou a gravar o sucessor de “Ego War”. Ao que parece vai tender ainda mais pro hip hop.

- Gorillaz, Chemical Brothers e Roni Size também estão trancados finalizando os novos trabalhos.

Box 3

Ingla is a bitch

- Libra 6 x 1 Real

- no país da noitadas, o transporte público pára as 0h

- tanta coisa pra fazer que sempre se perde alguma boa

Box 4

God save the queen

- mais discos de reggae do que na Jamaica

- o povo prestativo não te deixa se perder

- tanta coisa pra fazer que é difícil se meter em roubada

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O Globo Online, 12/09/04

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Matéria sobre aapresentação de Clotaire K no Rio que escrevi para o Rio Fanzine Online (O Globo).

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Hip hop do Habibs

Bruno Natal (especial para o Rio Fanzine)

Nem deveria ser necessário dizer, mas nem só de bombas e petróleo vive o Oriente Médio. Seja por culpa do Iraque, do Arafat, do Osama ou do Irã, ultimamente o mundo árabe ocupa horas e horas, páginas e mais páginas dos noticiários pelo pior dos motivos: a guerra. Clotaire K, um francês filho de libaneses e apaixonado pela cultura que herdou dos pais, transformou em missão pessoal mostrar o que há além de tanta desgraça.

A ferramenta escolhida para passar essa mensagem não poderia ser mais certeira. Atração internacional do Hutúz Rap Festival, Clotaire fez do hip hop seu veículo. Trilha sonora da juventude mundial e uma das melhores plataformas para misturas sonoras, é através do rap que o compatriota do MC Solaar vai tentar passar sua mensagem no próximo dia 15, na apresentação na noite de encerramento do evento (MV Bill, Edd Wheeler, Viela e Suspeitos da Mira também tocam).

As muitas visitas ao Líbano e as andanças pelo EUA e Europa resultaram em “Lebanese”, uma boa fusão entre os ritmos e melodias da música árabe com o batidão do hip hop. O disco tem ainda a participação do Asian Dub Foundation e seus temperos indianos, devolvendo a canja de Clotaire no “Community Music” dos ingleses. Se a rapaziada vai entender alguma coisa, é uma outra história.

O que pode complicar é o fato das letras serem quase todas em árabe oufrancês. Tudo certo que muita gente provavelmente também não entenda patavina de inglês, no entanto, pode apostar que o número de pessoas que falem árabe presentes no Armazém 5 deverá ser bem próximo de zero.

Isso não deve ser problema, “música é uma linguagem universal”. Ditado um tanto cafona, é verdade, porém correto. O (bom) som da banda de Clotaire deverá ser suficiente. Ainda mais entre os amantes do hip hop, geralmente fissurados por técnicas de produção, timbres e traquitanas sonoras e para quem as bases são tão importantes quanto as letras. É sentar no tapete voador e embarcar na viagem. Só não esqueça de levar a sua esfiha.

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O Globo On Line, 03/09/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a sexta entrada.

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A capital inglesa é um carnaval

Londres é mesmo a capital da música. Somente em aqui é possível entrevistar, em menos de uma semana, Audio Bullys, Groove Corporation, Asian Dub Foundation, LTJ Bukem, Bigga Bush, Dreadzone, David Katz (autor de “People Funny Boy”, biografia oficial do Lee Perry, e tambem de “Solid Foundation”), conferir o Creamfields, o carnaval de Notting Hill e ainda deixar engatilhado bate-papos com pelo menos outros cinco grandes nomes da cena.

Bully é uma gíria inglesa pra encrenqueiro. Numa tradução grosseira, Audio Bullys pode ser entendido como “encrenqueiros do áudio”. No entanto, nada pode ser mais distante disso do que chegar na casa de um dos integrantes e receber uma xícara de chá para passar o tempo enquanto ele acaba de passar roupa ou pede licença para atender o telefone. Durante a entrevista que encerrou a semana passada, a dupla mostrou não sacar da história do dub, mas foi enfática em reconhecer a importância do gênero no som que eles produzem.

O final de semana foi pouco produtivo para o documentário por dois motivos. Primeiro porque segunda era feriado (Bank Holyday, um dos mais importantes daqui). Segundo porque estava rolando o Notting Hill Carnival, festança caribenha que dura dois dias e domina a cidade.

Entre muitos trios eletricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta da situação, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É impressionante o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis ou acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no comecinho do set. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, para curtir freqüências graves de deixar engasgado. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente nao é mole.

Um dia antes do inicio do Carnaval, foi a vez do Creamfields, em Liverpool. Um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, aterrisando no Brasil no final do ano (só em Sao Paulo), o line up desse ano estava tão caprichado que mesmo os organizadores não se cansavam de alardear que era um dos melhores da história do evento: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco…), Deep Dish decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos la.

Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaóo, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente no auge da noite: Darren Emerson, Sasha (o furão do último Skol Beats) e Chemical Brothers destruíram a galera. Sem poder ver os três, fiquei com o Chemical e, mesmo sem ter visto os outros dois, posso afirmar: foi a escolha certa. Tom e Ed fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Portanto, sendo fã ou não da dupla, é hora de juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) no final do ano e conferir de perto o que talvez seja o melhor show de música eletrônica da atualidade. Só isso.

Essa semana, até agora, já foram devidamente entrevistados o Dr. Das (baixista do Asian Dub Foundation), Richard Wittingham (cabeça da gravadora Different Drummer), o figuraça LTJ Bukem, Bigga Bush (Rockers Hi-Fi), Dreadzone e ainda teve visita ao estúdio do Groove Corporation, o Elephant House, com direito a dub mix ao vivo e o escambau. A viagem está acabando, mas a lista de entrevistados ainda não. Vem mais por aí.

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O Globo On Line, 31/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a quinta entrada.

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Ingla is a bitch

A principal preocupação antes de viajar pra Inglaterra era arrumar onde ficar. Tudo por aqui é caro demais. Acabei conseguindo ficar uns dias na casa de uns amigos da Chris Magnavita, ex-colega de MTV. Primeiro na casa do Marcelo, o cara que comanda a comunidade brazuca aqui em Londres através do seu restaurante, o Brasil by Kilo, que aos poucos vai se transformando num centro de cultura brasileira. O prédio de seis andares tem locadora de filmes nacionais, comidas típicas, internet cafe, serviço completo. Quando estão na área, Marky e Patife sempre dão as caras. Depois, foi a vez do Joao hospedar a equipe.

Logo no primeiro dia, três entrevistas foram feitas, começando pelo Mad Professor. O dubman deve pintar no Brasil ainda esse ano para promover sua versão psicodélica do disco “Tranquilo”, do “Marcelino de Lua”, como ele fala. Depois, Kode 9, do coletivo Dubstep, falou sobre as raízes jamaicanas do UK Garage.

Pra fechar, Steve Barrow, um dos chefões da Blood and Fire, principal selo de relançamentos de reggae. Barrow, autor de livros como a bíblia “Rough Guide to Reggae”, tambem é conhecido como o maior colecionador de compactos do estilo, guardando cerca de 9 mil bolachas, organizadas em ordem alfabética, em um dos quartos de sua casa.

No dia seguinte, foi a vez de conhecer o responsável pela Congo Natty, gravadora especializada em jungles rastas até não poder mais.Totalmente em harmonia com sua filosofia, o sujeito nos buscou na estação de trem vestindo um uniforme da Etiópia e falou bastante sobre as mensagens rastafaris das suas músicas e de como isso pode ajudar a empurrar os jovens pra bem longe de lixos pop. Durante a entrevista ele ficou só de cueca e camiseta. Surreal.

Os festivais de verão ainda não acabaram, esse final de semana ainda tem Reading Festival, Leeds, Creamfields e Notting Hill Carnival, o que significa dizer que praticamente todos os artistas do mundo estão ou estarão em Londres por esses dias. Foi durante o ensaio para o Reading que o Roots Manuva falou para o documentário. Talvez em nenhum outro som a fusão entre hip hop e dub feita pelo Roots Manuva saia tão bem e o assunto, claro, foi exatamente isso.

Já Howie B, produtor, entre outras coisas, de “Drum and bass stripped to the bone”, estrelando os riddim twins Sly & Robbie, falou da cena eletrônica como um todo. À vontade na propria casa, Howie defendeu a repetição da música eletrônica e ainda deu a receita ideal para transformar alguem num fissurado em dub: amarre-o pelado em um sofá, raspe todos os pêlos do seu corpo e depois jogue queijo parmesão em cima. Segundo ele, é batata, o sujeito vira dubhead na hora. O resto do papo gravitou nesse mesmo nível de insanidade, com muitas boas declarações.

Semana corrida, agora é visitar o Audio Bullys e David Katz, outro estudioso do assunto. E esses são só os primeiros dias.

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O Globo Online, 25/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a quarta entrada.

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Tentando, 1, 2, 3, tentando, 1, 2, 3…

LOS ANGELES – Se o principal motivo da ida a NY era entrevistar o King Jammy, falar com Hopeton Brown, o Scientist, era a razão para vir até a California. Exatamente como Jammy, Scientist também foi pupilo do King Tubby, o homem-dub. Principal nome do dub na Jamaica dos anos 80, seu trabalho mais conhecido é a série de discos temáticos (“Scientist encounters Pac Man”, “Scientist rids the world from the evil curse of the vampires” ou “Scientist meets the Space Invaders”) lancada pela gravadora inglesa Greensleeves.

Além do Scientist, havia outros nomes na lista de personagens em Los Angeles. Talvez, o fato dessas pessoas estarem fora da cidade possa ser encarado como sorte. Isso porque, de seis dias, três foram gastos em encontros com Hopeton. Diferente dos americanos ou europeus, os jamaicanos não enxergam entrevistas como oportunidade de divulgar seu trabalho e suas idéias. Para eles, isso é um negócio como outro qualquer. Isso tudo acontecendo e olha que o “Dub Echoes” até agora não tem nenhuma previsão de lançamento comercial.

Depois do primeiro encontro no camarim de um show de uma cantora que Scientist está produzindo, Triniti, em Santa Monica, ainda nos encontramos em outro show, dessa vez em Malibu, e novamente ele não deu a entrevista. Somente no terceiro encontro, num estúdio em North Hollywood (se você conhece LA, já deve ter percebido que a cada hora ele estava em extremos opostos da cidade), finalmente Scientist sentou para falar. Se não fosse a paciência sem limite do Alexandre Bier, que além de hospedar a equipe ainda deu zilhões de caronas, teria sido bem mais difícil ir a tantos lugares.

Estranhamente, no momento que a camera foi ligada a simpatia desapareceu e Hopeton encarnou um alter ego mandão, confuso e algumas vezes evasivo. Visivelmente nervoso, o dubmaster queria controlar tudo: o posicionamento da câmera, o enquadramento e até a forma que as questões deveriam ser apresentadas. Para ilustrar o nível de insanidade, vou tentar reproduzir parte do diálogo travado logo na primeira pergunta.

- O que é o dub e como isso começou?

- Bom, o dub… (silêncio). Qual foi a pergunta mesmo?

- O que é o dub e como isso começou?

- Não, isso não está bom. Pergunta assim “explique o que é um dub e como surgiu o dub?”

- Ok. Explique o que é um dub e como surgiu o dub?

- Isso é uma opinião pessoal, não uma verdade absoluta e eu não me sinto confortável para falar sobre isso. Próxima pergunta.

Quando acabou, ficou claro que essa tinha sido a entrevista mais difícil que eu já fiz. Depois, analisando melhor o que tinha acontecido, conclui que na verdade essa foi a primeira entrevista verdadeiramente difícil que eu já fiz. Mesmo assim, acredite ou não, o papo rendeu bons depoimentos para o documentário. Agora, a última e mais trabalhosa etapa: 15 dias em Londres para entrevistar mais de 20 pessoas.

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O Globo On Line, 20/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a terceira entrada.

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Os ladroes chiques de Washington

NOVA YORK – A busca pelos artistas de hip hop em Nova York fracassou. Quer dizer, fracassar não é bem a palavra, houve um desencontro. Quando os contatos do Grandmaster Flash, Kool Herc, DJ Spooky e Mos Def finalmente apareceram, já era hora de partir para Los Angeles. Nem por isso os dias em NY foram menos produtivos. Além dos jamaicanos Bullwackie e do King Jammy, foi hora de falar com nomes mais recentes do dub e do downtempo.

Após uma viagem de quatro horas até Washington DC, cheguei a sede da Eighteen Street Lounge (ESL), gravadora do Thievery Corporation. O estúdio da dupla fica no segundo andar de uma casa em estilo mal assombrado-chic. Rob Garza e Eric Hilton estavam finalizando o próximo disco do Thievery, que só sai em fevereiro e, pelo pouco que mostraram, promete compensar quem se decepcionou com “The richest man in Babylon”.

Por falar em “Richest man…”, está para sair um EP com oito remixes dessa música, só cacetada. Voltando ao trabalho novo, o disco trará participações tão inusitadas quanto Perry Farrel e Flaming Lips, alem de Sister Nancy, cantora de reggae que gravou a clássica “Bam bam”, favorita entre os djs do gênero no Rio.

Rob (com um visual Che Guevara, de barba, boina e cabelo grande) e Eric fizeram uma das melhores entrevistas até agora. Apesar do tempo curto, deram respostas certeiras e humildes, disseram até que não fazem nada de novo, apenas copiam e juntam referências soltas por aí.

Na mesma noite, de volta a NY, Victor Axelrod, o Ticklah, recebeu a equipe em seu estúdio, o porão da sua casa no Brooklyn. Foi Ticklah quem produziu o excelente “Dub side of the Moon”, versão chapada do (adivinha?) “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd, e tambem o “Hi Fidelity Dub Session presents Roots Combination”.

Totalmente ligado no reggae e dub dos anos 70 e 80, Ticklah não ouve muito os sons atuais. Quando recebeu o bilhete que Eric Hilton (fã do “Dub Side”) mandou, perguntou: “Thievery Corporation? Sim, já ouvi falar”. Sua entrevista foi bem por esse lado e rendeu bons depoimentos. Pra finalizar, ainda rolou uma dub session exclusiva, devidamente registrada.

Próxima parada, Los Angeles.

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O Globo On Line, 18/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a segunda entrada.

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Jamaica, de novo

O documentário começou na Jamaica e a impressão é de que, apesar de estar em NY, essa fase ainda não acabou. Primeiro porque por enquanto só falamos com jamaicanos. Depois, porque hoje fomos mesmo pra Jamaica.

A comunidade jamaicana no Queens, subúrbio de NY, é tão grande que uma de suas regiões é chamada de… Jamaica. Tal e qual uma Chinatown, na Kingston nova iorquina tem de tudo que tem na ilha: um centro de cultura jamaicana, comida, estúdios e lojas de discos.

Uma dessas lojas, a VP Records, foi o ponto de encontro com King Jammy. Conhecido como Prince Jammy no início da carreira, o produtor e engenheiro de som foi nada mais, nada menos do que aprendiz do King Tubby, maior nome da arte de transformar o reggae em uma viagem interplanetária.

A entrevista foi tão fria e impessoal quanto foi necessária. Mais preocupado em saber quanto dessa história poderia sobrar pra ele (ah, se ele soubesse…) do que se concentrar na entrevista, Jammy falou por parcos 15 minutos. Cronometrados.

Desde a ida à ilha, ja havia chamado a atenção como a questão de grana é importante na produção musical deles: é difícil separar uma coisa da outra. Muito disso se deve ao fato dos jamaicanos, desde os tempos da colonização inglesa, sentirem-se constantemente explorados.

Não interessa se sua intenção é destacar e divulgar a importância da música deles no que ouvimos hoje em dia. Eles sempre partem do princípio de que você vai ganhar dinheiro e não vai sobrar nada pra eles. O histórico mostra que os jamaicanos não estão muito longe da verdade, ainda assim, cada caso é um caso. Às vezes, pode valer a pena baixar a guarda.

A proxima missão é encontrar com um grande nome do hip hop pra falar da conexao rap/deejay.

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O Globo On Line, 15/08/04

Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a primeira entrada.

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Primeira parada: Nova York

NOVA YORK – Começou a volta ao mundo em busca do eco perdido. Depois de deixar as malas na casa do camarada Paulo Lima, que está hospedando a equipe mais duranga do planeta, que só conta com o apoio da American Airlines, fomos trabalhar imediatamente. Visitamos o estudio do Lloyd Barnes, mais conhecido como Bullwackie.

Dono da gravadora Wackies, e produtor de dubs clássicos dos anos 80, o jamaicano mora nos EUA desde 68 e testemunhou de perto acontecimentos musicais como o nascimento do hip hop.

A entrevista foi bem bacana e o senhor de 60 anos ainda resolveu dar brindes no final. Nada mais nada menos que 37 compactos (uma música de cada lado), sete discos de 10 polegadas (duas de cada lado), dois LPs (seis faixas em cada lado) e 16 CDs. Chicodub era só sorrisos. O mellhor é que foram dois de cada, ou seja, vai ter muito DJ ganhando presente na volta.

Sábado é dia de encontrar a lenda King Jammy na VP Records. Lenda mesmo, porque, apesar de tudo acertado anteriormente, parece que o cara agora quer levar algum pra falar. Veremos…

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O Globo, 16/07/04

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Matéria sobre o disco “Two Culture Clash” que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Rota de colisão

Imagine convidar alguns dos maiores nomes da música eletrônica mundial para passar alguns dias numa luxuosa mistura de estúdio e hotel na Jamaica, produzindo uma faixa com uma estrela local. Parece impossível? Pois foi exatamente assim que foi feito “Two Culture Clash” (Wall of Sound).
Entre os convidados para esses finais de semana musicais estavam Roni Size, Jon Carter, Soulchild, Cassius, Kid 606 e Jacques Lu Cont, todos muito bem recepcionados por Horace Andy, Big Youth, Barrington Levy, Patra, Ward 21, Tanya Stevens e outros.

No cardápio, uma combinação de estilos com uma receita bem simples: os produtores fazem a cama e os cantores deitam a falação. A escolha dos artistas jamaicanos ficou a cargo de Jon Baker, dono do estúdio Gee Jam, onde o disco foi gravado, enquanto Mark Jones ficou responsável pela seleção dos djs e produtores por Mark Jones. O resultado final desses encontros tanto pode ser considerado um dancehall mais pop do que o feito Jamaica, quanto uma dance music mais crua do que a feita na Europa. Tanto faz, o objetivo era esse mesmo, fundir as duas coisas e ressaltar a proximidade entre a música eletrônica e a musica jamaicana.

— A idéia era juntar duas culturas e músicas que, desde sempre, tem influenciado uma a outra. Desde os tempos do dub experimental e dos mestres do reggae às produções milionárias dos dias de hoje, dos sound systems à cultura do dj, música eletrônica e os sons da Jamaica sempre estiveram ligados. Esse era um disco que tinha que ser feito, pelo bem da história da música – explica Mark.

O queridinho da Madonna, Jacques Lu Cont é o único a assinar duas músicas, uma acompanhado apenas pelo General Degree (“… And dance”) e outra com Ce’Cile e o mesmo General Degree (“Na Na Na Na”). Mesmo assim, não é dele a melhor faixa do disco. Essa ficou por conta da parceria entre o cantor Barrington Levy e Soulchild, em “Backstabbing’”, um dancehall cheio de groove e com um refrão que não sai da cabeça. As quebradeiras “Knock Knock”, da dupla Spragga Benz/Roni Size, e “Enuff 4 you”, de Tanya Stevens/Prassay, também não ficam atrás e o encontro de Patra e Jon Carter também é bom. Decepção mesmo, só o resultado da parceria entre Horace Andy e Howie B, “Fly High”, que, apesar do nome, não alça vôo. Encerrando o disco, pra relaxar, um reggae solitário, “Save me”, produzido por Justin Robertson com vocais de Nadine Sutherland e Ernest Ranglin.

Com a arte do encarte feita pelo grafiteiro mais subversivo da Inglaterra, Bansky, o disquinho só sai em agosto. Enquanto isso, o site do projeto (www.twocultureclash.com), traz biografia atualizada de todos os participantes, além de vídeos e amostras de algumas músicas. Ah, você quer saber se tem previsão de lançamento no Brasil? Sim. Nenhuma.

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O Globo, 09/07/2004

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Matéria sobre viagem à Jamaica, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Improvisando na Jamaica

A Jamaica é um lugar imprevisível. A comunicação é dificultada pelo inglês de sotaque carregado e salpicado de patois . Qualquer tentativa de agendar compromissos é praticamente inútil. Negociar dinheiro, então, nem se fala: os táxis nem taxímetro têm. Ainda assim, essa confusa informalidade não significa que nada esteja acontecendo. Muito pelo contrário. A produção na ilha permanece tão grande e com tanto trabalho que ninguém consegue marcar nada com antecedência.

Dentro desse esquema caótico — na realidade, a essência do lugar — quando você menos espera é apresentado ao Lone Ranger numa loja de discos em downtown , esbarra com o Elephant Man no trânsito, troca uma idéia com o irmão do Tappa Zukie ou do Dennis Brown, descobre segredos como a reabertura do lendário estúdio Channel One (em novo endereço) ou passa a tarde na casa da viúva do King Tubby, vendo o álbum de fotos do funeral do homem que inventou o dub.

Os sound systems, apesar de poucos, ainda são as grandes atrações de Kingston. O Passa Passa, um dos melhores hoje em dia, transforma a Spanish Town Road (nas redondezas de Trenchtown e Tivoli Gardens, duas regiões barras-pesadas da cidade) num lugar aparentemente tranqüilo, com várias figuras sacolejando ao som da seleção musical caprichada de nu roots e dancehall.

O evento só começa a lotar às 3h e permanece cheio até depois do amanhecer. O segredo da rapaziada local pra agüentar tanto tempo são os seguintes combustíveis: cerveja quente, roots drink (bebida energética feita de raízes) e uns galhos verdes vendidos por ambulantes.

Engana-se quem pensa que a trilha dessas festas são clássicos do reggae dos anos 70. Quem vai pra Kingston esperando ouvir esse tipo de som tem grandes chances de voltar decepcionado. Até dá pra escutar um Bob Marley aqui e ali, principalmente quando eles percebem que tem gringo na parada, mas o som que toma conta da Jamaica ultimamente é outro.

Desde o começo dos anos 1990, o dancehall e o ragga dominam as rádios, lojas de disco e os sound systems da ilha. Os nomes mais falados são Bounty Killer, Vybz Kartel, Beenie Man e, claro, Sean Paul e Elephant Man. A exceção fica por conta do Sizzla. Eclético, o cantor lança tanto discos de dancehall quanto de roots, garantindo presença constante nas caixas de som em toda parte. Os selectors (na Jamaica, DJ é o que chamamos de MC) não tocam só uma música dele, tocam logo seis.

Pra experimentar um autêntico baile de dancehall, o Stone Love é a melhor pedida. A festa do principal sound system da cidade é repleta de jovens vestidos a caráter e dançando de maneira quase pornográfica. As músicas são notadamente mais comerciais e um tanto tensas, parte delas com uma sonoridade próxima demais do hip hop dos EUA. Um retrato fiel de boa parte da produção musical atual. Alguns selectors utilizam um Gameboy plugado na mesa em seus sets. Ligado no banco de sons de um cartucho como “Street fighter”, eles disparam sons de pistolas de raio laser, cabangs e outros ruídos. Só assim para disfarçar a troca frenética de discos; nenhum compacto chega a ficar dois minutos rodando.

Rae Town é outro sound system de rua que vale a visita. Focado nos clássicos das décadas de 60 e 70, atrai um público mais velho e sossegado que o Stone Love. É um dos poucos lugares onde dá pra escutar clássicos do Barrington Levy, Horace Andy e Delroy Wilson.

Na Jamaica, de acaso em acaso, de desencontro em desencontro, tudo vai fluindo. Resta fazer como os jamaicanos — submeter-se ao ritmo e dizer: “ no problem, man! ”

Box 1
Gorillaz
Até onde se sabe, o Gorillaz acabou depois do último show em Lisboa, em julho de 2002, certo? Só que não era isso o que estava se falando no estúdio Gee Jam, o preferido dos artistas internacionais que resolvem gravar na Jamaica e onde o Cidade Negra mixou seu novo disco. Situado em Port Antonio, no lado leste da ilha, e cercado de praias paradisíacas, o estúdio já serviu de palco para gravações do No Doubt e do próprio Gorillaz. Lá também foi produzido o ainda inédito “Two culture clash”, um encontro entre a dance music e o dancehall jamaicanos, com a participação de Roni Size, Howie B, Big Youth, Horace Andy e Junior Reid. O papo no Gee Jam era que Damon Albarn e sua trupe já têm datas reservadas no estúdio para gravar um novo disco.

Box 2
Surf Rastas
Seguindo a tradição jamaicana de produzir docudramas, como o clássico “Rockers”, o diretor Rick Elgood está fazendo “Surf rastas”. Elgood também dirigiu “One love” e “Dancehall queen”, este último um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema jamaicano.

Misturando realidade e ficção, “Surf rastas” pretende mostrar o desenvolvimento do esporte ainda incipiente no país, utilizando como cenário a viagem aos jogos mundiais no Equador dos três principais surfistas da equipe nacional: os irmãos Icah e Ini Wilmot e Luke Williams. Além disso, muitas cenas foram filmadas em Kingston e arredores.

Box 3

Não deixe de fazer na Jamaica:

- Comer ital food (o vegetariano rasta) e jerk chicken (um churrasco apimentado)

- Pirar vendo os locais dançando

- Tomar várias Red Stripe (a cerveja local)

- Entrar em qualquer birosca só pra ouvir o que está tocando

- Visitar pelo menos uma de suas praias

Evite fazer na Jamaica:

- Discutir preço (nem adianta tentar)

- Sair com alguém e não pagar as bebidas

- Dividir a bebida com alguém

- Sair à noite sem a companhia de um local

- Dirigir

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O Globo, 02/07/2004

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Resenha do show em homenagem a Coxsone Dodd, que escrevi direto da Jamaica para o Rio Fanzine (O Globo).

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Adeus a ‘Sir’ Coxsone

Bruno Natal – JAMAICA

Qualquer tentativa de resumir a carreira de Clement “Sir” Coxsone Dodd parecerá sempre incompleta. Falar que seu Studio One —- híbrido de estúdio, gravadora e distribuidora — foi um dos principais responsáveis por moldar a música jamaicana nas últimas décadas é pouco. Talvez, acrescentar que foi de lá que saiu “Simmer down” (primeira música do Bob Marley a atingir o topo das paradas de sucessos) e dizer que nomes como Lee Perry, Delroy Wilson e Dennis Brown também começaram por ali ajude a mostrar a dimensão do seu trabalho. Mas isso não é tudo.

A melhor maneira de contar sua trajetória é através da música. E foi exatamente isso que aconteceu no último sábado, no Mas Camp, em Kingston. Morto há menos de dois meses (quatro dias após uma cerimônia oficial que trocou o nome da Brentford Road, rua onde fica o estúdio, para Studio One Boulevard), Coxsone Dodd ganhou um tributo de respeito. Cerca de 30 artistas do seu elenco clássico — praticamente todos que ainda estão vivos, um verdadeiro dream team da velha-guarda jamaicana — reuniram-se para homenagear o saudoso produtor.

O show foi histórico, com as apresentações mostrando um pouco da evolução dos gêneros, indo do ska ao reggae, passeando pelo rocksteady, pelo r&b e pelo dub. O público era formado principalmente por gente que viveu a época, matando as saudades dos bons tempos. Isso porque os jovens na Jamaica só querem saber de uma coisa e de uma coisa apenas: dancehall.

Nem por isso a platéia era menos animada. Quando uma música agradava — e num show desses quase todas agradam — o pessoal apontava as mãos em forma de revólver para o alto, gritando “pou! pou! pou!”. Era a senha para o artista mandar a banda pull up e reiniciar a música, igualzinho ao que alguns DJs fazem hoje em dia.

Alguns dos culpados por esses rewinds acústicos foram Bunny Brown, Prince Jazzbo, Cornell Campbell e Errol Dunkley, com sua “You gonna need me”. As canções de Derrick Harriot tiveram os maiores coros e a dupla Roy & Enid, bem velhinhos, foi quem mais emocionou. Apesar de anunciado em alguns cartazes, Horace Andy não apareceu. No geral, uma noite antológica. Para deixar qualquer Buena Vista roxo de vergonha.

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O Globo, 14/05/2004

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Matéria sobre o primeiro livro do cartunista Allan Sieber que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Três vivas para a tosqueira

O que esperar de um cartunista que define o potencial público do seu primeiro grande lançamento da seguinte maneira:

— Acho que o livro é pra todas as pessoas de mau gosto que gostam do meu trabalho.

A idéia surgiu em 2003. Allan Sieber, que além de charges, produz animações como o clássico “Deus é pai” e mantém um site de cartuns (www.allansieber.com), percebeu que tinha um bom número de tiras. Então ele selecionou as melhores, montou um projeto e foi atrás de algumas editoras. A Conrad mordeu a isca e embarcou no projeto.

A edição de luxo vem numa caixa especial, acompanhada de comentários do cineasta Jorge Furtado, diretor e roteirista de “Houve uma vez dois verões” e “O homem que copiava”, de quem Allan é parceiro (são deles as animações em ambos os filmes).

O livro é uma compilação das melhores tiras “Preto no Branco”, originalmente publicadas online no site da Edições Tonto (www.tonto.com.br). Apesar de ser uma de suas principais características, o trabalho de Allan não é feito apenas de escatologias e outras perversões. Ele também traz reflexões e “Preto no branco” talvez seja sua criação onde isso é mais perceptível.

Auto-referencial ao extremo, a ponto de algumas vezes os quadrinhos contarem com a participação do alter-ego do autor, nada está ali gratuitamente. E voa farpa pra todo lado: religião, patrões, artistas, dificuldades financeiras, não sobra nada de pé. A acidez e o sarcasmo acabam servindo como uma forma de expressar seu inconformismo.

— O título se refere ao próprio visual da tira, preta e branca, além de passar uma idéia de colocar as coisas “às claras” — explica o autor.

Apesar de já ter lançado dois livros, “As piadas vagabundas do Steven” e “As últimas palavras”, ambos foram projetos mais modestos. — Desse tamanho, é o meu primeiro — admite Allan, para em seguida, bem ao seu estilo, falar de suas expectativas.

— Fico feliz que o livro tenha sido lançado por uma grande editora e tenha uma boa distribuição. Agora, se vai vender já é outro papo.

Calma, Allan, estamos do teu lado.

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O Globo, 16/04/2004

Matéria sobre disco tributo ao Faith No More de bandas brasileiras que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Tributo de fé ao “Fenemê”

Bruno Natal
Especial para o RIO FANZINE

Pode até não parecer, mas Jason (RJ), Lavajato (RJ), Senador Medinha (do Diego Medina, ex-Vídeo Hits, RS) e a baiana Pitty têm algo em comum: a admiração pelo Faith No More, uma das bandas mais influentes dos anos 90. Além deles, outras bandas participam de uma lista de discussão chamada “Bungle Weird” (referência ao Mr. Bungle, outro grupo do vocalista Mike Patton), dedicada ao conjunto. Foi lá que surgiu a idéia de lançar um tributo brasileiro ao quinteto californiano.

Depois que os organizadores decidiram abrir a participação no projeto também para bandas de fora da lista, o interesse foi tanto que o tributo acabou se transformando num disco duplo. Mas, embora o baixista do FNM, Billy Gould, apóie o projeto, os produtores não têm autorização oficial para o lançar o disco comercialmente.

Para evitar problemas com direitos autorais a opção foi distribuir as músicas virtualmente e de graça. Isso é que é amor. Apesar de estar disponível somente online, “Brazilian sabor” obedece ao formato padrão de um CD, com 74 minutos de duração e um encarte disponível para download.

O tributo é uma produção interestadual. Richarley Menescal, de Fortaleza, cuida do design e divide a produção com o Pablo Fernandez, de Florianópolis, enquanto Élcio Cruz, tomou conta da masterização das faixas em São Paulo. A comunicação entre eles é feita, claro, pela internet.

- Mesmo com essa distância e de algumas limitações óbvias, nos comunicamos diariamente e não tem sido complicado tomar a maioria das decisões necessárias – diz Richarley. – De qualquer forma, o “Brazilian sabor” seria um fracasso sem o apoio que tivemos dos músicos envolvidos, eles merecem esse crédito.

Depois de ter o lançamento adiado algumas vezes por problemas técnicos, o tributo finalmente está inteiro disponível no site do projeto (www.underweb.com.br/brsabor). Mantenha a fé.

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O Globo, 02/04/2004

Entrevista com o diretor de filmes de surfe Taylor Steele que fiz para o Rio Fanzine (O Globo).

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5 minutos

Os filmes de surfe do diretor Taylor Steele, além de terem revolucionado o gênero no anos 90, têm outra característica marcante: quase todos serviram como base de lançamento de bandas que dominaram a cena nos anos seguintes. Foi em filmes como Focus e Momentum que muita gente descobriu bandas como Sublime, Nofx, No Fun at All, Blink 182 e Ben Harper, entre outros.

De passagem pelo Brasil, onde rodou o episódio latino-americano da série “Drive Thru”, Taylor falou com exclusividade ao Rio Fanzine sobre seu papel de divulgador de talentos.

Seus filmes sempre lançaram bandas que depois estouraram no mundo todo. Como acontece isso?

Cada caso é um caso. Tem vezes que vou a um show, gosto da banda e peço para usar suas músicas nos vídeos. Foi assim com Sublime, Pennywise e Ben Harper, por exemplo. De vez em quando, artistas que estão se lançando me mandam material. Blink 182 e Jack Johnson fizeram isso.

As bandas liberam as músicas numa boa?

Nem sempre. Algumas bandas não ligam para filmes de surfe e preferem ganhar mais dinheiro licenciando músicas para comerciais de carros e grandes marcas, enquanto outras entendem o valor de colocar seu trabalho num produto direcionado para seu público alvo e fazem questão de participar.

Quais bandas já te deixaram na mão?

O Tool vetou uma música falando que não queria se associar a nenhum esporte e tempos depois a mesma canção serviu de trilha num vídeo de uma gigante do surfwear. No filme “Loose Change” editei uma seqüência inteira do Bruce Irons em cima de “Guerrilla Radio”, do Rage Against the Machine, e eles não liberaram o uso e eu tive que alterar tudo.

E teve uma briga com o Offspring também, né?

Eles falaram numa entrevista para revista Surfing que ter aparecido nos meus vídeos não fez a menor diferença na carreira deles. Não tenho a pretensão de achar que sou responsável por explosão de banda nenhuma, mas fiquei chateado com essa declaração.

Qual a importância da trilha num filme de surfe?

Total. Uma música é metade de uma cena, melhora o surfe até. E vice-versa. Depois de ouvir uma música num filme, parece que ela fica associada as imagens daquela seqüência.

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O Globo, 19/03/2004

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Matéria sobre a invasão brasileira à MTV americana que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Pitty recebe um ‘green card’ da MTV

Bruno Natal – Especial para o Rio Fanzine

O NU METAL da cantora Pitty encontrou espaço, quem diria, no mercado mais disputado do mundo: os EUA. O clipe de “Máscara” está em boa rotação na MTV U. A baianinha também aparece com destaque no site do canal (www.mtvu.com), além de estar listada, com link para assistir ao clipe, junto dos principais artistas no site principal da MTV (www.mtv.com).

Equivalente visual das rádios universitárias, o MTV U é um canal distribuído exclusivamente em faculdades americanas. A programação musical é menos comercial que a das irmãs MTV (programas) e MTV 2 (somente clipes) e é recheada de programas direcionados para os estudantes. Atualmente, o canal está presente em 720 universidades, atingindo potencialmente 5,5 milhões de jovens.

Pitty não está sozinha nessa. A MTV internacional solicitou à filial brasileira alguns clipes de rock e hip hop daqui para serem exibidos no programa “Studying abroad” (“Estudando fora”), dedicado a artistas estrangeiros. Foram enviados vários, entre eles Marcelo D2, Sabotage, Los Hermanos, MV Bill, Forgotten Boys, mas além de Pitty, apenas outras duas bandas emplacaram: Nação Zumbi, com “Blunt of Judah”, e os paulistanos do Lava, com “Igloo”.

Os integrantes do Lava, que cantam em inglês, nem acreditaram quando ficaram sabendo.

—- O mais bacana é que o clipe foi todo feito pela Silvana, nossa vocalista — conta a baixista Alê Briganti, que também toca na banda Pin Ups.

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O Globo, 05/03/2004

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Matéria sobre música feita com Gameboy que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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No jogo da música

Bruno Natal ESPECIAL PARA O RIO FANZINE

Transformar um Game Boy em um sintetizador e seqüenciador, fazendo do brinquedo uma fábrica de beats, sons, ruídos e experiências sonoras em 8 bits. Essa era a proposta do duo Monoaural, formado por Berna Ceppas e Kassin, ontem, na apresentação na Casa da Gávea.

Na mesa dos produtores, em vez de toca-discos, samplers e i-books, havia um teclado Micro Korg, dois pedais de delay e dois Game Boys plugados numa mesa de quatro canais. Cada um dos aparelhos estava rodando um cartucho diferente: Berna “jogava” Nanoloop e Kassin “brincava” de Little Sound DJ.

Utilizar o Game Boy para fazer música faz todo o sentido, afinal, todos blips, clics e tóins já estão lá dentro. O cartucho funciona como um jogo normal, mas ao invés de desenharem personagem e obstáculos na tela, exploram as possibilidades sonoras do vídeo game. O Little Sound DJ vem com samples de bateria, como o pancadão 808, favorita dos bailes funk.

A dupla descobriu a novidade, por caminhos diferentes, há mais de um ano. Depois, conversando, descobriram que estavam pesquisando a mesma coisa paralelamente. Apesar de Berna ter utilizado o aparelho ano passado no Rio Sesc Experimental, esse provavelmente foi o primeiro show totalmente feito com Game Boy no Brasil.

A apresentação, improvisada em cima de alguma poucas bases pré-gravadas, começou ensurdecedora. As batidas quebradas predominaram, numa espécie de colisão eletro-Miami bass. Uma das bases esbarrarou no house, enquanto algumas outras poderiam ajudar o funk carioca a dar (mais) um passo a frente ou servir de cama para o hip hop.

O experimentalismo deu lugar ao (nem tão) pop quando Kassin utilizou um vocoder enquanto fazia interferências oitentistas no teclado. Surtiu efeito. Teve um lá que não agüentou e foi dançar na frente da mesa. A pedrada foi a única que não foi feita de véspera. Composta por Kassin durante uma viagem, deve fazer parte de um disco só de Game Boy, “Artificial”, a ser lançado ainda este semestre pelo selo da dupla, o Ping Pong.

Os programas utilizados pelo Monoaural foram feitos por alemães, mas antes disso a própria Nintendo já havia produzido um jogo sonoro para o Game Boy. Foi um fracasso. Saiu de linha e hoje é item de colecionador. Os próprios Nanoloop e Little Sound DJ já se tornaram cult. O primeiro foi descontinuado e o segundo teve a produção suspensa, talvez porque estejam trabalhando em uma nova versão. O fato é que seus cartuchos estão custando absurdos 799 euros, dez vezes mais caro do que na época do lançamento.

Na rede dá pra achar emuladores de Game Boy e seus respectivos roms (como são chamadas as cópias digitais dos jogos), inclusive os desses sintetizadores, que rodam em qualquer PC. Pra quem quer tocar no próprio aparelho, o caminho é mais difícil. É necessário adquirir um aparelho como o Emerger, espécie de gravador de cartuchos virgens.

O Micro Music é uma boa fonte para se aprofundar no assunto. Lá dá inclusive para ouvir algumas produções feitas utilizando a traquitana. Gostou? Tenta a sorte.

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O Globo, 13/02/2004

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foto: Lucas Bori

Matéria sobre o Dibob que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Dibob pega uma onda diferente

Bruno Natal Especial para o Rio Fanzine

O Dibob tinha tudo para ser apenas mais uma bandinha de punk rock. Mas não é. O grupo se destaca das outras bandas porque foge completamente dos estereótipos do underground carioca. A atitude dos quatro moleques do Leblon está mais próxima dos surfistas da nova geração do que do perfil padrão dos músicos independentes. Por isso, fisgaram outro público e trouxeram para seus shows a turma da praia, normalmente ausente do circuito alternativo.

Em menos de dois anos, Dedeco (voz e guitarra), Gesta (baixo e voz), Miguel (guitarra) e Falcon (bateria) pularam dos saraus de colégio para apresentações lotadas no Ballroom e no Sérgio Porto.

— A banda é uma brincadeira que passou dos limites — explica, rindo, Miguel. — Nossa demo saiu do nosso círculo de amizade, caiu nas mãos de uma outra galera e, a partir daí, as coisas começaram a caminhar sozinhas.

No final de 2003, o Dibob foi abrir um show do Skank e do Titãs, em Aracaju. A banda chamou a atenção da BMG e acabou de gravar o disco de estréia, produzido por Marcelo Sussekind, que deve chegar às lojas em março.

A maior parte das letras é sobre relacionamentos, com uma pequena diferença: sai o tradicional “eu te amo e vou morrer se não tiver você” e entra “eram quatro da manhã, via duas de você / um é pouco, dois é bom, é assim que vai ser” (em “Se perde”). Os outros títulos dão uma boa idéia dos temas: “Pau mandado”, “1 x 0 eu” e “19 anos”.

Nos shows, é normal escutar 200, 300 pessoas gritando todas as letras. Guardadas as proporções, parece até uma banda grande.

— Falamos das coisas que nós vivemos. Noitadas, confusões com namoradas; todo mundo tem um pouco dessas coisas — diz Dedeco.

As influências vão dos ídolos Los Hermanos e NOFX, passando por Chico Buarque e Blink 182.

No entanto, eles não gostam de tocar música dos outros.

— A única que tocamos é uma versão do funk “Venha comigo”, do Nélio & Espiga, feita em cima da levada de “Girls just wanna have fun”, da Cindy Lauper — conta Gesta.

A banda vem tomando o tempo dos integrantes e tem ficado cada vez mais difícil para os quatro surfistas freqüentarem as direitas do Pontão ou a calçada em frente ao BB Lanches. A tendência é piorar, mas isso não importa, eles estão decididos a se dedicarem à banda.

Se até agora as coisas foram acontecendo meio sem querer, imagina querendo…

Bruno Natal é jornalista e faz o zine eletrônico URBe.

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O Globo Online, Fev/2002

Minha primeira colaboração para o Rio Fanzine, publicado somente na versão online.

Muito sério

Moby está se levando a sério, com tudo que isso traz de bom e de ruim. Na passagem da turnê de seu disco mais recente, “18”, por Madri, no último dia 25, tanto o lado positivo quanto o negativo desta seriedade ficaram claros.

Embora a formação no palco, com Moby tocando guitarra e uma banda de apoio completinha, possa dar outra impressão, de maneira geral as pessoas vão numa apresentação do Moby para dançar. A expectativa é muito mais de um show de música eletrônica do que de rock. Exatamente por isso, as pausas entre quase todas as músicas acabam atrapalhando, funcionando como um anticlímax. Fica a impressão de que está querendo valorizar além da conta cada música, em outras palavras, se levando a sério demais.

Logo após tocar o que talvez seja seu maior sucesso, “Porcelain” — na Espanha serve até de trilha para a vinheta de um canal local — Moby resolveu falar sério, e dessa vez a seriedade era justificada. Pedindo desculpas, em nome do povo dos Estados Unidos, pelas recentes atitudes do seu presidente, chamou George W. Bush de “un hombre muy estúpido”. A julgar pelas palmas, o público parece ter gostado bastante do discurso, mas fica difícil saber ao certo, já que espanhol tem mania de bater palma para tudo. Olé!

O repertório é baseado quase somente nos discos “Play” e “18”, incluindo as músicas mais calminhas, como “Sleep alone”. O show só embala mesmo na segunda metade. Os graves, até então meio tímidos, resolvem dizer presente, junto com as músicas mais conhecidas: “Honey”, “We are all made of stars”, “In this world”, em versão mais lenta, “Find my baby” e “Natural Blues”. Moby apresenta “Bodyrock” como a fusão das duas coisas que mais gosta, “punk rock e hip-hop”, para logo em seguida deixar a influência punk ainda mais óbvia com uma versão crua para a clássica Blitzkreig Bop, do Ramones (Hey, Ho! Let’s go!). Outra banda que também dá as caras é o Radiohead, com “Creep”, do primeiro disco da banda.

A verdade é que depois de duas horas, a seriedade toda compensa na produção do show; bem cuidado, com som bom e repertório para satisfazer qualquer fã. Só não dá para achar que virou rock star.

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