29 de janeiro de 2012 às 20h55
Na despedida dos palcos, Rita Lee enfrenta a polícia
É, parece que vamos precisar de um outro último show, porque a saideira não pode ser nesse baixo astral que rolou em Aracaju não.
É, parece que vamos precisar de um outro último show, porque a saideira não pode ser nesse baixo astral que rolou em Aracaju não.
Isso foi ano passado, no Jefferson Memorial, um dos principais monumentos a liberdade dos EUA – e de repente um remake de “Footlose” não parece tanta viagem assim.
Como diria o funk, “ah, que isso, a polícia está descontrolada!”, em São Paulo, em Teresina e em toda parte.
“Sou polícia!”
Um policial tenta esculhambar guardas municipais em Novo Hamburgo. O caminho é longo demais…
“Everyone from all sides of London meet up at the heart of London (central) OXFORD CIRCUS!!, Bare SHOPS are gonna get smashed up so come get some (free stuff!!!) fuck the feds we will send them back with OUR riot! >:O Dead the ends and colour war for now so if you see a brother… SALUT! if you see a fed… SHOOT!”
Os tumultos em Londres, iniciados após a morte pela polícia de um rapaz armado, espalharam-se para além de Tottenham, estão fortes em Hackney (onde morei), Lewisham (ao lado de onde estudei) e Peckham.
Liderados por adolescente de baixa renda, chamados hoodies por andarem sempre com casacos de gorro escondendo o rosto, os eventos são reflexo do corte de verba para os centros comunitários para jovens, decisão equivocada e que deixa lições para todos, inclusive no Brasil.
A mídia foi rápida em atribuir a velocidade com que os tumultos se espalharam a redes sociais (deve haver um botão com essa frase pronta nos teclados das redações), citando bastante Twitter e Facebook. Acontece que enquanto a polícia monitorava as redes, dessa vez esses não foram os canais principais.
Com baixo custo em relação ao iPhone, o BlackBerry, aparelho utilizado por 37% dos jovens londrinos, tem sido a ferramenta mais utilizada para comunicação. Além da rede de mensagens instantâneas gratuita conhecida como BBM (BlackBerry Messenger), pesa a impossibilidade de serem traceados em tempo real pelas autoridades.
Ano passado estudantes protestaram nas ruas, esse ano esquentou ainda mais. As coisas andam mesmo borbulhando na Inglaterra. E a crise está só começando.
Enquanto o pau canta no Rio e o Governador “estuda reação organizada aos ataques de bandidos a motoristas”, algumas pessoas discutem como solucionar a questão a longo prazo. Ainda bem.

Bilheteria do Flamengo, venda tumultuada de ingressos
Impossível comprar entradas para o jogo com o Grêmio:
- As pessoas que conseguiram, ficaram, em média, NOVE horas na fila.
- A fila especial foi fechada devido a quantidade de cambalachos rolando, de aluguel de idosos a crianças pulando de colo em colo. E os que estavam lá legitimamente entubaram.
- Policiais cometem abuso de poder, furando fila porque “estava trabalhando desde as 7h e tinham direito”.
- Os seguranças do clube não davam nenhuma informação para quem estava esperando sobre que tipo de ingressos continuavam disponíveis.
- Avante, Copa 2014 e Olímpiadas 2016!

foto: Fernando Quevedo/O Globo
A confusão se houve ou não houve um arrastão no túnel Zuzu Angel, quarta-feira, prossegue, diz o jornal O Globo:
Nada, absolutamente nada é simples no Rio de Janeiro hoje em dia.

frame da reportagem da Globo.com
Horas depois do tumulto, a notícia: o arrastão no túnel Zuzu Angel nunca houve. Foi tudo um grande mal entendido.
A pergunta é: e faz diferença?
Lembra aquela velha questão: se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém está lá para ouvir, há barulho?
De certa maneira é ainda pior ver a que ponto a paranóia coletiva chegou.

foto tirada com celular, vídeo do caos a caminho
São 21h25 e há dez minutos vi uma cena que nunca vou esquecer: o Rio de Janeiro de quatro.
Estava voltando da produtora, em São Conrado, de carona com o Lins, quando notamos que o trânsito no sentido contrário, para Barra, estava interrompido. Entre as duas galerias do túnel Zuzu Angel, na parte a céu aberto, começamos a ver policiais a pé e carros abandonado pontuando a pista.
Os sinais eram claros, um arrastão tinha acabado de acontecer. Por questão de minutos — e muita sorte — não estávamos no local errado, na hora errada.
Dentro do túnel a cena era desoladora. Entre os carros abandonados, alguns de porta aberta, estilhaços de para-choques fruto das batidas de motoristas tentando fugir de ré. Com o túnel fechado, um engarrafamento gigantesco dá um nó na cidade nesse momento.
A sensação foi a de atravessar um set de filmagem de um desses filmes catástrofes, com a diferença de que era real. Em meio ao caos um funcionário da Cet-Rio anunciava que o túnel estava liberado e chamava os motoristas para retornar aos carros para que o trânsito possa voltar a fluir.
Na saída do túnel, os mostradores eletrônicos intercalavam informes do trânsito com a mensagem “Olimpíadas 2016. Rio, cidade candidata”.
É inacreditável a cegueira que toma conta desse lugar.
A brutalidade com que a polícia londrina combateu as manifestacões durante o encontro do G20 na cidade gerou protestos e agora ganha contornos trágicos com o surgimento de um vídeo comprometedor.
As imagens mostram Ian Tomlinson, morto na confusão e apontado como baderneiro, afastando-se tranquilamente, alheio ao tumulto, e ainda assim sendo violentamente atacado por policiais, minutos antes da sua morte.
Por aqui, gente chocada aponta que lá também ocorre violência policial. Como se pode ver, é claro que sim. A diferença é que lá não vai acabar em pizza (principalmente pela vítima não ser um estrangeiro, como o brasileiro Jean Charles).
A possibilidade de se filmar uma cena dessas no Rio, sem ter que se esconder e voltar vivo pra casa pra contar — e divulgar — a história é uma outra grande diferença.
Recebi essas fotos de uma amiga. Foi assim que ela encontrou seu carro na terça de manhã em Copacabana, de onde ela saiu na segunda a noite de táxi, fugindo do tiroteio entre polícia e traficantes na ladeira dos Tabajaras.
Que cidade legal, que situação razoável você voltar para buscar seu carro, no dia seguinte a um gigante enxame de bezouro sem asas ter te expulsado do trabalho, e encontrá-lo crivado de balas.
Pior é ter que ficar alegre com a “sorte” de não ter ninguém dentro.
URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”,
filmado com uma câmera fotográfica digital
doc e fotos: Bruno Natal
A notícia de que o tráfico havia sido expulso da comunidade pela polícia era tão boa que só vendo para crer. Aos pés do Santa Marta, o plano inicial sofreu uma pequena modificação.
A idéia era simplesmente chegar e subir as ladeiras, sem pedir autorização a ninguém, exatamente como se faz transitando entre bairros no asfalto da cidade.
Dado o tamanho da novidade, não custava nada avaliar a situação falando com os policiais na viatura estacionada na subida da ladeira:
- E aí, é só meter o pé mesmo?
- Pode subir, tá na boa. Acabou de subir um monte de jornalistas com o comandante do 2o Batalhão, pelo bondinho.
- Então não tem bandido na área mesmo?
- Olha, subindo pelo bondinho tá tranquilo. Mas deve ter vagabundo escondido na mata ainda.

As iniciais do Comando Vermelho num muro: cicatrizes recentes
O bondinho é um plano inclinado que funciona como um elevador para os moradores da favela mais íngrime do Rio, onde vários repórteres aguardavam para ser levados ao topo do morro pela secretária de educação e pelo comandante da polícia.
A perspectiva de uma visita guiada oficial era desanimadora. Nada podia estar mais distante do objetivo original de simplesmente visitar a favela como quem vai a qualquer outro bairro da cidade. Sem falar na fila de mais de meia-hora pra subir no bondinho.
A grande revolução que pode ser promovida por uma comunidade sem tráfico é justamente possibilitar o encontro de duas realidades cada vez mais distantes.
O Rio de Janeiro precisa se tornar uma cidade só, sem separações, para se reerguer e reestruturar. O que isso pode trazer de bom é a livre circulação de pessoas e idéias.

Pierre Azevedo e dois de seus alunos de percussão
Decidi subir a pé e logo conheci o Pierre Azevedo, diretor da ONG Atitude Social. Baixista e ex-morador da comunidade, ele dá aulas de percussão para criançada na Casa de Cultura Dedé.
Tendo Pierre como guia (mas não uma escolta, pois realmente o morro estava calmo) para não me perder pelas vielas e chegar até o topo, rapidamente comecei a conversar com alguns moradores.
Por ingenuidade, não esperava o tipo de reação e as resposta que ouvi quando comecei a perguntar sobre as primeiras impressões da ocupação policial e a saída do tráfico.
Não ouvi ninguém reclamar da partida dos traficantes, porém a maior parte das pessoas, além da incredulidade, não acredita muito que isso irá durar. Mais do que isso, estão realmente incomodadas com o choque de regras.
Durante o passeio, ouvi diversas reclamações: que haverá horários para as coisas funcionarem e regras a serem seguidas, as bebedeiras agora vão ser vigiadas, que estouraram a central clandestina de tv a cabo, de que as novas casas e a urbanização impedem as criações de animais e hortas em chácaras… E de como tudo isso altera o ambiente da comunidade como eles a conhecem.
É natural que seja assim. A experiência dessas pessoas com a presença do Estado é, em grande parte, negativa. Além disso, por mais paradoxal que possa soar, existe uma liberdade proporcionada pela ausência do Estado que é difícil de perder.
A frase de um morador, em resposta ao meu argumento de que as melhorias sociais e urbanísticas certamente viram acompanhadas de responsabilidades e deveres, resume bem a questão: “eu não fui criado assim”.
Esse é o ponto central de qualquer projeto que pretenda integrar as favelas ao resto da cidade. Coisa que parecem lógicas e normais no asfalto, são totalmente alienígenas na favela.
Assim como a noção de comunidade desses lugares dá um banho no resto da sociedade, onde vizinhos de porta num mesmo prédio mal se cumprimentam, o que dirá se ajudarem.
Há, claro, também muita desconfiança em relação as reais intenções de um projeto desses.
Da maneira que são hoje, as favelas são em maior parte ocupações ilegais, sem escrituras. Portanto, mesmo algumas delas (as da Zona Sul) estando situadas em áreas nobres, a área não pode ser negociada.
Numa região sem mais um palmo de área livre pra construir, pode ser que estejam preparando o terreno para especulação imobiliária.
Estrutura-se o local e entrega-se as escrituras de posse, para depois deixar o poder aquisitivo falar mais alto, comprar essas propriedades e transformá-las em grandes (e caros) condomínios.
Não é nem um pouco improvável, o condomínio Selva de Pedra, no Leblon, surgiu de maneira até mais agressiva, através de incêndios.
O trabalho nessas comunidades é muito mais difícil do que parece e levanta discussões complexas. Expulsar o tráfico é só o início.
Como disse José Mário, presidente da Associação de Moradores do Santa Marta, estamos entrando num túnel escuro, sem saber o que está do outro lado. Tomara que seja a luz.
URBeTV: o curta-documentário “Santa Marta, o túnel escuro”
doc e fotos: Bruno Natal
Devido aos problemas para subir o vídeo no YouTube e publicar junto com o texto, resolvi fazer um post separado só com o mini-doc “Santa Marta e o túnel escuro”, para os assinantes do RSS receberem o aviso.
Um carro de polícia desenvolvido por policiais. É um Batmóvel saído do GTA.
Imagina aplicar esse conceito por aqui… As propostas incluíriam uma máquina de Visa Electron embutida, pra facilitar o silviço.

foto: GettyImages/AFP
Atualmente, estão presos em Bangu 8 os seguintes elementos: o delegado e ex-deputado estadual Álvaro Lins, o ex-chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallak, os deputados Natalino Guimarães, o vereador Jerônimo Guimarães, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola e alguns policiais civis e federais.
É um bom sinal dos novos tempos, é preciso ressaltar. Um micro-cosmo das mudanças pelo qual o Brasil está passando, começando a finalmente a amadurecer, para poder crescer. Um Brasil para o futuro.
Porém, Brasil é Brasil. Eis que surgem restos de lagosta na quentinha do Cacciola, fora do dia de visitas, indicando que o preso privilegiado tem recebido mordomias, o que é ilegal.
Belo retrato do Brasil. Do atual, é claro.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo. Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.
Documentarista, jornalista, carioca, boto som mas não sou DJ e provavelmente passo tempo demais online.
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falaurbe [@] gmail.com
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