Formado por McCert, Rany Money, Maomé (campeão da Liga dos MCs), Batoré e Papatinho, o ConeCrewDiretoria (que nome espetacular) representa a nova geração do hip hop da Lapa.
Via @joaobrasil > De Leve.
Seguindo na luta, Edu Lopes, DJ Castro e cia põe na roda o novo disco d’A Filial, “$ 1,99″, onde ressucitaram “Só Quero Achá-la”, do primeiro EP do grupo.
Lançado primeiro nos EUA e só agora por aqui, numa estratégia um tanto sem sentido, primeiro vai ficar disponível gratuitamente online e só depois irá para as lojas. Seria mais lógico tratar logo de arrumar shows e lá vender os discos.
Via Gizmodo.


O grande Cara de Cavalo, um dos poucos MCs que consegue ser amigo do De Leve e do D2 ao mesmo tempo, finalmente começa a ter o reconhecimento que merece com o lançamento dessa bela série de camisetas.
Quando esse disco sair, derruba a cena. “Bala Benta” já nasce clássica.
Em “Vai Ser Rimando”, música presente em sua mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, o Emicida fala:
“Minhas rimas tão na rua
Por enquanto é o seguinte
Se não chegou até você
É porque não é pra você ser ouvinte”
Isso está a ponto de mudar. Aos 24 anos, indicado em três categorias ao VMB 09 (Aposta, Rap e Videoclipe do Ano), Leandro Roque de Oliveira, quadrinista nas horas vagas, morador do Tucuruvi e “cria da Zona Norte” de São Paulo (”já morei na Vila Zilda , Fontalis, Cachoeira e Furnas”), começa a ver suas rimas chegarem a cada vez mais gente.
As letras do Emicida seguem o mesmo farol. Seja falando de amor, amizade, rap ou problema sociais, o lema “a rua é nóiz“, repetido diversas vezes em suas músicas, funciona como uma espécie de mantra.
Isso em descuidar do apuro tecnico, como fala em outro trecho de “Vai Ser Rimando”, espécie de carta de intenções:
“Curto as produça caseira
Não as de qualquer jeito
Não sei porque assimilaram
O underground ao mal feito”
Num papo por e-mail, Emicida dá uma geral na carreira, cita influências, fala da cena hip hop e, entre a penca de nomes citados, oferece uma porta de entrada ao rap atual.
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URBe - Como você descobriu o rap e como entrou numa de virar rapper?
Emicida - Eu descobri o rap nos bailinhos de quebrada, nas festas de garagem da Vila Zilda, nas quermesses… Foi lá meu primeiro contato com a coisa, sem saber nem que tinha esse nome, eu só curtia a parada. Na época rolava bastante miami bass ainda, tipo “Sally The Girl” e aquela miami zimbabwe, mesclado a essas tinha MC Pepeu, “Nomes de Menina”.
No fim dos anos 80 e começo dos 90 eu tinha entre cinco e seis anos, meus pais ajudavam na organização de um dos bailes da quebrada, os equipamentos ficavam todos em casa, meu interesse surgiu daí mesmo. No primeiro momento foi uma fascinação inexplicável, depois uma longa fase de aprendizado e estudo até botar a cara pra bater memo e dizer eu sou um MC, quando eu percebi tava rimando já. Costumo dizer pros caras que rima boa é igual coisa errada, você só percebe que fez depois de fazer (risos).
URBe - Que tipo de som você escuta (além de rap)? Quais são suas influências?
Emicida - Ouço samba, um pouco de jazz. Mas pra mim samba é foda, melhor música do mundo, se eu soubesse cantar mesmo seria sambista. Costumo ouvir tudo, hoje em dia principalmente, mas a quantidade de samba que escuto realmente é muito maior do que todos os outros gêneros juntos.

foto: ariel martini
URBe - Quem fez as bases da sua mixtape? Qual sua participação nessa parte, você produz?
Emicida - Vários irmãos, desde Marechal até Projeto Nave, Felipe Vassão, Bruno Pompeo, Léo Cunha, Dario, DJ Nyack e DJ Nato PK, vários monstros, fora as coisas tocadas que deram outra cara pra várias faixas.
Minha participação na produça é bem pouca, prefiro pegar pronto as coisas. Antes eu queria fazer tudo, igual todo mundo quer fazer e acaba fazendo tudo mais ou menos, hoje eu me concentro em fazer minhas rimas.
Claro que as vezes me arrisco a fazer um beat ou outro, mas nada que eu saia por aí distribuindo cartão, escrito beat maker em baixo do meu nome. Mostro pros caras, pra alguém que realmente entenda. Se não tiver saído muito ruim, gravo em cima, assino e digo que eu fiz…(risos).
Hoje foco mesmo nas minhas rimas, tem quem faça bases boas, não preciso me preocupar. Conheço os melhores, são meus amigos, então quando eles precisam de uma rima boa me ligam por que eu sou centrado nesse negócio de rima. Quando preciso de uma base boa faço o mesmo, porque sei que eles são tão focados quanto eu nessa parada de instrumental.

foto: divulgação
URBe - Como é o esquema de gravação? Como você faz suas bases?
Emicida - Antes eu trabalhava em um estúdio grande, com uma estrutura legal, era estagiário lá. Quando ninguém tava usando as salas eu fazia minhas coisas. Depois saí, fiquei um tempo sem gravar, aprendendo a escrever, por que nem só de freestyle vive o homem.
Meu foco maior sempre foi na escrita, entrei nesse lance de freeestyle e me tornei meio fanático por isso. Não que eu queira deixar de ser, mas eu amo escrever uma letra, terminar ela é uma sensação muito foda, melhor que qualquer coisa.
Mas enfim, saí desse estúdio e acabei conhecendo outros estúdios, gravando com outras pessoas, mas hoje, como trabalho bastante com o Felipe Vassão, com o Tixamen e o Bruno Pompeo na Maria Fumaça e na Loud Produções, a gente sempre grava junto e não pretendo mudar isso. Eles tem o estúdio, equipamento bom, conhecimento e eu tenho as rimas, fecha certinho. Os caras me conhecem, eu conheço eles, não tem aquele lance de entrar no estúdio gravar e sair com aquela puta frieza do tipo “tamo trabalhando aqui de saco cheio, depois de você vem mais cinco bandas, então grava rápido”.
Não faço as bases, pego com os beat makers que me cercam. Raramente faço alguma coisa, quando faço levo pro Bruno Pompeo, que é o mais paciente comigo, e ele me ajuda a consertar as coisas. Se bem que nem tivemos que consertar tanta coisa assim das últimas vezes, prova de que estou evoluindo, e ele apara as arestas pra mim, aí fica tudo perfeito.
Se tiver que gravar algo a gente grava, se tiver que compor a gente compõe, se tiver que jogar fora e dizer que tá uma merda também… (risos).
URBe - Imagino que agora esteja ficando mais fácil, com gente interessada em te levar pro estúdio, mas como era no começo? Qual a estrutura você tinha pra gravar?
Emicida - No começo mesmo, nos primórdios, eu tinha um teclado da Casio, um duplo deck, um mic de karaokê e um saco de lixo de 20 litros cheio de fita K7. Ficava madrugadas inteiras fazendo minhas tapes, uma atrás da outra, vários raps.
Não dava pra loopar, então eu tocava (mesmo sem saber) quatro, cinco minutos de uma mesma célula ritmica e cantava em cima, gravava com o mic de karaokê e ia pirando. Quando acabava o último take já não dava mais pra ouvir os seis primeiros (risos). Era só a chiadeira , os cachorros latindo, barulho da TV na sala e pra mim aquilo era mágico.
Saí de lá pra ir pra um estúdio com C-12, pré-amplificador Antony DeMaria Labs, mesa com vários canais, caixas Genelec, etc, coisa fina. Aí foi foda, porque eu tinha a essência das gambiarras, a capacidade de improvisação de quem não tem estrutura e os equipamento igual ao de qualquer pop star aí (risos). Resultou na qualidade da “Triunfo”. E posteriormente de toda a mixtape.

a capa da mixtape
URBe - É tudo sampleado ou tem som original? Como são gravados os originais?
Emicida - Tem bastante sampler, mas também tem bastante coisa original. Em sua maioria os instrumentos são tocados pelo Bruno, pela proximidade memo e pelo lance de captar as idéias sem que eu tenha que ficar gesticulando como se fosse mudo, ele entende pra onde quero levar a música aí a gente faz. Mas tem coisa do Fióti também, violão, cavaco, percussa, do Franja, na mixtape tá tudo misturado, tem música de todo jeito.
URBe - Você gosta de samplear bastante funk 70 e r&b. O que mais você acha legal samplear?
Emicida - Não tenho um gênero predileto pra samplear, escolho pelo momento, pela coisa que determinada frase ou célula me faz sentir. O que aquelas notas me dizerem vai dizer se elas vão ser sampleadas ou não.
URBe - O que você acha das bases eletrônicas, como as que tem tomado conta das paradas de sucesso nos EUA?
Emicida - Quando bem feito acho bom. Mas cansa rápido…
URBe - E o que você pensa do tipo de rap que faz sucesso hoje em dia, de Lil Wayne, Soulja Boy, T-Pain, Black Eyed Peas, etc? Fale da sonoridade e do discurso separadamente.
Emicida - Gosto de Lil Wayne, ele é foda mano. Soulja Boy eu não conheço, ouvi uma musica só e não gostei, achei chato pra caralho, repetitivo, vazio. A música em si as vezes é boa mano, eu gosto mesmo, tipo “A Milli”, a introdução do disco do T-Pain é foda, aquela “Welcome to 3 Ringz”. Os caras sabem fazer música boa, mas existe um mercado que eles obedecem, compreendo e respeito isso.
Quanto ao discurso, ainda não vi, quando ver terei prazer em falar sobre ele. É sempre a mema merda, “eu tenho grana, como todas as putas, as pessoas querem ser iguais a mim porque sou rico”. As vezes isso mostra como o espírito das pessoas é pequeno. Esses caras foram vítimas de um sistema no passado que os discriminou por não terem essas coisas e a maneira que eles respondem hoje é essa.
Acho triste, acho que somos mais, e no Brasil tem um pessoal indo na mesma onda Mas enfim, vejo nas idéias dos caras um medo, uma fraqueza de espirito. É aquilo que o Edy Rock falou, marginal tem estilo, ninguém consegue imitar.
Isso que os caras louvam hoje é estética. Em vinte minutos na galeria você se veste igual ao 50 cent, mas tomar nove tiros e guentá o B.O. é otros 500. Acho que o que vai fazer o rap se solidificar mesmo no Brasil é a essência do rap marginal, o que tem estilo e ninguém consegue imitar.
Emicida vs Gil, na final da Liga dos MCs 2006
URBe - Você passou pelas batalhas de MC do Rio. Como veio parar por aqui?Já tinha visto algo parecido em SP? Qual importância teve isso na sua carreira?
Emicida - Passei e trouxe o caneco (risos). Em 2006 eu ja tinha ganhado tudo em São Paulo, tava arregaçando e o Pedro, do Pentágono me disse que tinha um contato na Brutal Crew que podia me envolver na liga e no Hutuz. Disse pra ele que, se rolasse, eu daria metade de tudo que ganhasse pra ele, pegamos um avião e fomos para o Rio.
Hoje vejo como fui marrento, fiz planos com o prêmio antes de me inscrever até, mas fazer o quê? É isso memo. Foi extremamente importante pra mim esse lance po que deu uma visibilidade monstra dentro dessa parada de freestyle. Hoje quem faz freestyle no Brasil sabe quem é o Emicida graças a Liga dos MCs.
URBe - Você acha que existe uma troca entre as cenas de SP e do Rio? As vezes parece que as duas cenas não se misturam muito.
Emicida - Existe quando há interesse em trocar informações e crescer junto. Marechal é um paulistano honorário, embora ele não saiba (risos). E eu me considero um cidadão do Rio de Janeiro quando estou lá, tenho bons amigos, amo o Rio. Prefiro São Paulo, obviamente, mas amo o Rio de Janeiro. Esse problema da cena não se misturar só fica exposto quando o caso é entre o Rio e SP, porque é o Sudeste.
Mas aos meus olhos, nesse momento em que vivemos, o rap em si está desligado de suas extremidades. Tá todo mundo no twitter e as calçadas vazias. Pra mim poderia haver um diálogo melhor entre todas as regiões, tento criar isso, mas é dificil pra caralho.
Vou para os lugares e tem cara que quer puxar meu saco porque sou de São Paulo e ele quer tentar vir fazer um show aqui. Como se vir e fazer um show fosse fazer a vida dele mudar… Vai ter que cobrar uns 500 mil de cachê, só se for.
E tem cara que torce o nariz e me estranha como se eu tivesse afastado as regiões ou como se os habitantes do Sudeste tivessem colocado uma cerca ao redor do rap, quando o que define sua posição dentro disso é trabalho: você vive essa porra? Vai colher frutos. Você se dá 20% pro rap, o rap vai te devolver 20% tambem. E nem é só no Rap é na vida, tudo é uma coisa só.
O melhor exemplo é o dos caras do Costa a Costa, lá no Ceará, que estão fazendo um barulho lá em cima e assustando uns inseguros pelo Brasil todo (risos). Os caras de Curitiba tambem tão bem organizados, tem uma cena bem intensa rolando com Cabes, Dario, Savave, Nel Sentimentum. Algumas das melhores batidas dos últimos anos sairam de lá, o disco do Kamau e do D2, tudo tem um pézinho lá no Sul…
“Essa é pra você, Primo”
URBe - Você acha que a chuva de gírias de São Paulo que você usa ajuda ou atrapalha? Como o sotaque fica nisso tudo?
Emicida - Acho que soa natural pra mim, assim como as gírias de gaúcho são naturais pros gaúchos. Embora vá parecer o cúmulo do egocentrismo, eu escrevo rap pra mim e pros meus, e acredite, eles são muitos, espalhados por cantos onde até Deus duvida.
O sotaque não atrapalha quando você canta com o coração. Os norte americanos são o maior exemplo disso, 90% das pessoas que cantam “I Feel Good” junto com James Brown não fazem idéia do que ele está dizendo. O sentimento é como uma língua universal e o rap é uma ótima janela pra se passar sentimento.
URBe - Qual foi o seu ponto da virada? O que e como aconteceu do seu nome surgir fora de SP?
Emicida - A Liga dos MCs foi um deles, o YouTube foi outro responsável, junto as câmeras digitais que ajudaram a propagar cada sessão de rima na calçada que eu fiz.
Acho que eu ainda não surgi, tem muita gente que não me conhece ainda. O que acontece é que o espaço dado pra música que eu faço é escasso, quando alguém como eu se destaca em outros meios é porque a coisa tá começando a ficar doida.
Mas minha meta é bem mais ambiciosa do que três indicações ao VMB. Eu ainda nem lancei um disco oficial man, isso ainda vai muito longe. Esse ponto de virada que você disse ainda esta por vir.

Kamau e Emicida
foto: leo.eloy
URBe - O rap brasileiro já tem estrada o suficiente para se falar que os temas sociais são o assunto preferido. Você acha que chega um ponto que isso se torna repetitivo? Afinal, infelzmente a situação não mudou muito. Como manter os temas relevantes depois que o choque inicial já passou?
Emicida - Com certeza, enche o saco vagabundo chorando no seu ouvido, por isso eu não choro. A minha realidade é outra, sou correria, tenho o que fazer, a situação não mudou, mas o momento sim. Você deve ser atual, num me vem escrever rap como se estivessemos nos anos 80, muito tá a mema merda, mas muita coisa melhorou também.
A parada é que falar de dor da ibope, mas cansa. Vários irmãos que amavam rap cansaram dele porque miséria traz tristeza e vice-versa. Eu peguei uma nota suja de sangue no troco de almoço ontem, isso é chocar hoje com um assunto de anos.
Cada um tem sua maneira de ver o mundo, o problema são os que tentam sugar até o fim uma fórmula que deu certo. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui a dez anos: um dia você vai se cansar…
URBe - Quais opçõs de caminho em termos de tema? Do que mais se pode falar?
Emicida - Ah, existem mil temas, quem escreve com o coração ja viu isso há tempos. Odeio me parafrasear, mas eu digo na mixtape “os bico pensa se fala de rua ou de festa? e eu só escrevo”. Quem vive isso só escreve, o resto tá se perguntando do que o rap deve falar no século 21.
URBe - Você fala bastante da cena alternativa ser uma fase, não um destino final, que quer fazer sucesso. Como fazer para atingir o grande público, como já fizeram Gabriel O Pensador e Marcelo D2? Porque nenhum rapper de São Paulo, onde a cena é bem forte, conseguiu isso ainda?
Emicida - Trabalhar sério, ter foco, sem se emocionar. Como assim nenhum rapper de São Paulo conseguiu isso? Até onde eu sei Racionais MCs é daqui e até minha sobrinha que nasceu no começo do ano canta… Isso é ser rua.

foto: zoeirahiphop
URBe - E quem está vindo aí? Quais nomes na nova geração com potencial pra estourar?
Emicida - Rashid tá se preparando pra chegar direitinho. Rincon Sapiência tem o maior potencial dessa geração, comercialmente falando mesmo, capacidade pra ganhar dinheiro, ele é um monstro.
URBe - A pergunta é batida, mas é sempre legal saber como cada músico enxerga a situação. O que você acha da troca de músicas na internet?
Emicida - Da hora, troquem as minhas. Hoje não dá mais pra ficar de ranhetice em cima disso, já é e ninguém perguntou pras gravadoras se podia. Agora corre atrás pra ficar na frente de novo, porque a molecada ja tá a milhão, baixando tudo que sai e espalhando na rede.
Emicida declama poesia.
Dica do Gaspar nos comentários do texto sobre o rapper.
Mesmo já tendo tido uma passagem vencedora pelas Batalhas de MC aqui no Rio, o rapper Emicida (ou E.M.I.C.I.D.A. - Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte) tinha passado batido pelo URBe.
Com seu nome circulando ainda mais após ser indicado ao VMB 2009 na categoria de Rap, a mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, com capa feita a mão e vendida a R$2 nos shows, tornou-se facilmente encontrável online.
Bases e rimas no talo, Emicida está fazendo algo bem complicado: transformando gírias paulistas que são motivo de zoação em outros Estados (zoação é paulistês?) em algo legal (como utilizar o “memo” no lugar de “mesmo”, adeus aos plurais, etc), distanciando-as do imaginário “maloqueiro” e facilitando a assimilação do sotaque.
Outro detalhe que parece óbvio, porém não tão óbvio ao ponto de ter se tornado regra obrigatória no hip hop nacional, é a boa dicção, tornando as letras comprensíveis de primeira. A quantidade de rapper com boa letra que fica pelo caminho por não saber se fazer entender é grande.
Os Racionais passaram longe de fazer essa ponte. O Kamau tinha potencial para isso mas não é tão pop quanto o Emicida,o Sabotage morreu antes da hora. O elemento pop é sempre um facilitador, vide dois dos maiores sucessos comerciais do hip hop nacional, Marcelo D2 e Gabriel O Pensador, terem também um sotaque carioca pesado.
Isso aqui não é mais um capítulo da eternamente boba disputa Rio x SP. Não canso de repetir que acho isso ridículo, embora seja dolorido ver minha própria cidade perder importância e os shows rarearem.
O fato é que São Paulo vem dominando o país há mais de uma década, não apenas economicamente como manda a tradição, mas também culturalmente, uma vez que uma coisa anda atrelada a outra.
O Emicida aprendeu a lição com seus antecessores e vai construindo uma alternativa interessante.
Jay-Z, “Death Of Autotune”
Existe um elemento comum entre todos os hits recentes do hip pop de T-Pain, Kanye West, Akon, Lil Wayne, Snoop Dogg ou Black Eyed Peas: o auto-tune, ferramenta digital para fazer pequenos ajustes e afinar vocais após gravados, auxiliando cantores a cravar todas as notas desejadas (platificando o processo, segundo alguns).
A sonoridade robótica produzida pelo uso “indevido” do auto-tune como um efeito de distorção tomou conta do hip hop. Há tempos não se via um elemento sozinho — seja instrumento, equipamento ou técnica de gravação — se tornar tão central nos estúdios.
T-Pain feat. Jamie Foxx, “Blame It (On The Alcohol)”
O auto-tune está em toda parte. Tem tutoriais no YouTube sobre como usar o efeito, tem app para iPhone, é motivo de piadas e mais piadas e foi matéria na New Yorker e na Time.
T-Pain vs. Vocoder, no Funny or Die
Marqueteiro que só ele, mesmo chegando atrasado na farra do auto-tune, Kanye West tentou puxar para si o título de desbravador da ferramenta, tendo gravado o disco “808 & Heartbreak” inteiramente com o efeito e fazendo bastante propaganda disso.
Kanye West, “Heartless”
Antes disso, Kanye já havia sampleado “Harder, Better, Faster, Stronger”, do Daft Punk, para servir de base para “Stronger”, reverenciando os franceses que vem usando tanto o vocoder quanto o auto-tune há muito tempo, de “Around The World” à “One More Time” à “Technologic”.
Antes disso, em 1998, dois anos depois da invenção do auto-tune, Cher fez muita gente querer rasgar os ouvidos com a sua “Believe”. Em 2005, Akon causou reação semelhante com “Mr. Lonely”. Expoente máximo do plugin, T-Pain diz que faz uso do autotune desde 2003.
Dentro do hip hop “tradicional” o uso de vozes robóticas não é inédita. Sem ir muito longe, basta ouvir os Beastie Boys em “Intergalactic”. A diferença é que o efeito utilizado, e já bem conhecido, é criado através do vocoder, um sintetizador que filtra a voz e altera as notas quando tocado enquanto se canta.
Como se vê, pode ser a moda da vez, mas está longe de ser novidade.
Afrika Bambaataa, “Planet Rock”
Até pouco mais de duas décadas atrás, “ano 2000″ era sinônimo de um tempo ainda distante, avançado tecnologicamente, onde robôs seriam parte integrante do cenário. A temática inspirou cineastas, escritores e, claro, músicos, todos buscando adiantar como seria esse futuro.
Em 1982, tentando imaginar como soaria algo feito duas décadas adiante, com a seminal “Planet Rock” Afrika Bambaataa desenhou o futuro da música, juntamente com o retro-futurismo do Kraftwerk e músicas como “Trans Europe Express”.
Passados tantos anos, esse modelo sobreviveu a vários outros que sumiram no tempo, justamente por ter vingado - as batidas, o uso do vocoder, os graves… estão todos aí.
Ciara feat. Chamillionaire, “Get up”
“Get up”, da Ciara (de 2006, produzida por Jazze Pha), junta várias referências de artistas que tentaram prever o som do presente em que vivemos, o tal anos 2000 — batidas de Bambaataa, teclados gelados do Kraftwerk, falsetes de Michael Jackson, citações jamaicanas a “Ring the alarm” (Tenor Saw). É um bom exemplo de como, ao tentar adiantar o futuro, esses artistas terminaram por determinar como ele seria.
O efeito robótico é até parecido, mas existe bastante diferença entre o uso do vocoder e o auto-tune. O segundo tem um resultado muito mais alucinado e eletrônico. Usado no talo, provoca uma oscilação brusca entre as notas, tão rápida que seria impossível ser executada por um humano.
O baile funk, sempre sedento por novidades tecnológicas ainda não fez uso do auto-tune (ou pelo menos nenhum hit surgiu ainda - no tecnobrega já tá rolando, lembrou JB nos comentários). João Brasil arranhou o assunto em “Cobrinha Fanfarrona”, mas utilizando o vocoder, não o auto-tune. Não vai demorar muito para a ferramentaganhar mais algum uso não previsto.
Black Eyed Peas, “Boom Boom Pow”
Essa proeminência da ferramenta vem alimentando a velha discussão sobre os caminhos do hip hop após ter se transformado no principal estilo musical em termos comerciais nos EUA.
Enquanto Nas declarou a morte do gênero em “Hip Hop Is Dead”, Ice-T protagonizou uma áspera (e constrangedora) troca de ofensas online com o menino Soulja Boy Tell’em por conta do sucesso de “Crank That”.
É o triunfo da estética seca e mais lenta do crunk e do hip hop produzido no sul dos EUA, onde a influência do Miami Bass continua gigantesca — e de onde vem boa parte dos produtores e rappers de maior sucesso hoje em dia, de Outkast a Lil Wayne.
O sempre esperto Jay-Z, só pra destoar, declarou a morte do auto-tune na música que acabou de lançar para promover o próximo disco (produzido por, veja só, Kanye). Ele não está sozinho na guerra contra o novo hip hop.
As coisas mudaram — sempre mudam — e certamente a eletrônica foi adicionada aos tradicionais quatro elementos (DJ, rap, b-boy e grafite). Se hoje o que se produz pode ser considerado hip hop ou não é uma discussão tão boba quanto interminável.
O Inumanos (que anda sumido…) fez uma homenagem a Michael Jackson. Produzida pelo DJ Matins, como sugere o título, “Querido Michael” é uma carta do MC Aori para o rei do pop.
Via Trabalho Sujo.
Rap em 30 idiomas. Uma linguagem universal.
Trailer do documentário “Return of the Rub-a-Dub Style”, dedicado exclusivamente dos deejays jamaicanos.
De Leve + Speed, “O Q Q Ela Quer”
Fazendo várias músicas juntos atualmente, De Leve e Speed misturam duas escolas do rap fluminense. De Leve traz o escracho, sua marca desde os tempos do Quinto Andar, Speed vem com o funk e as rimas sagazes conhecidas desdes os tempos da emblemática dupla formada com Black Alien.
Com sample de “Rap do Magalhães” sobre uma base desacelerada do Gorillaz, a dupla avisa: “Mando Nar Mulere”.
Niterói vai ficar pequeno.
Mos Def, “Casa Bey”
Apresentado a Banda Black Rio por MV Bill em sua última passagem pelo Brasil, Mos Def voltou pra casa, deu uma entortada na base de “Casa Forte” (do clááááássico disco “Maria Fumaça”) e o resultado é “Casa Bey”.
O Mos Def tropical se arrisca até a cantar e a sonoridade o aproxima mais do Will.I.Am do que do parceiro Talib Kwelli. Boa combinação.
A faixa pode ser baixada de graça no Rcrd.Lbl.
“Casa Forte”, Banda Black Rio
Alguns dos principais rappers soltam o verbo sobre temas musicais infantis:
Mario vs Busta Rhymes (Super Serious)
Thomas the Tank feat. Snoop Dogg
Thomas vs 50 Cent
A Lapa tem muitas facetas. Enquanto o documentário “Sistema Lapa de Samba”, do Bruno Maia, ainda está sendo produzido, Cavi Borges e Emílio Domingos soltam “L.A.P.A”, um filme sobre o bairro e o rap carioca.
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Esse saite anda meio estranho. Tinha certeza que já tinha escrito sobre esse filme, assim como sobre o “JCVD”, mas não encontrei nada nos arquivos. No mundo virtual as coisas somem do nada, e as pessoas confiam em guardar tudo em HDs. Sei não…
Dr. Dre e sua “Still DRE”: escrita por… Jay-Z?
A autenticidade do hip-hop contemporâneo entra em discussão quando um mundaréu de letras pessoais é escrita por terceiros e os computadores são acusados de deixar os produtores preguiçosos e poucos criativos.
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