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Arquivo: rap

A camiseta do Cara de Cavalo

O grande Cara de Cavalo, um dos poucos MCs que consegue ser amigo do De Leve e do D2 ao mesmo tempo, finalmente começa a ter o reconhecimento que merece com o lançamento dessa bela série de camisetas.

Quando esse disco sair, derruba a cena. “Bala Benta” já nasce clássica.

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Entrevista – Emicida

Em “Vai Ser Rimando”, música presente em sua mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, o Emicida fala:

“Minhas rimas tão na rua
Por enquanto é o seguinte
Se não chegou até você
É porque não é pra você ser ouvinte”

Isso está a ponto de mudar. Aos 24 anos, indicado em três categorias ao VMB 09 (Aposta, Rap e Videoclipe do Ano), Leandro Roque de Oliveira, quadrinista nas horas vagas, morador do Tucuruvi e “cria da Zona Norte” de São Paulo (“já morei na Vila Zilda , Fontalis, Cachoeira e Furnas”), começa a ver suas rimas chegarem a cada vez mais gente.

As letras do Emicida seguem o mesmo farol. Seja falando de amor, amizade, rap ou problema sociais, o lema “a rua é nóiz“, repetido diversas vezes em suas músicas, funciona como uma espécie de mantra.

Isso sem descuidar do apuro técnico, como fala em outro trecho de “Vai Ser Rimando”, espécie de carta de intenções:

“Curto as produça caseira
Não as de qualquer jeito
Não sei porque assimilaram
O underground ao mal feito”

Num papo por e-mail, Emicida dá uma geral na carreira, cita influências, fala da cena hip hop e, entre a penca de nomes citados, oferece uma porta de entrada ao rap atual.

URBe - Como você descobriu o rap e como entrou numa de virar rapper?

Emicida – Eu descobri o rap nos bailinhos de quebrada, nas festas de garagem da Vila Zilda, nas quermesses… Foi lá meu primeiro contato com a coisa, sem saber nem que tinha esse nome, eu só curtia a parada. Na época rolava bastante miami bass ainda, tipo “Sally The Girl” e aquela miami zimbabwe, mesclado a essas tinha MC Pepeu, “Nomes de Menina”.

No fim dos anos 80 e começo dos 90 eu tinha entre cinco e seis anos, meus pais ajudavam na organização de um dos bailes da quebrada, os equipamentos ficavam todos em casa, meu interesse surgiu daí mesmo. No primeiro momento foi uma fascinação inexplicável, depois uma longa fase de aprendizado e estudo até botar a cara pra bater memo e dizer eu sou um MC, quando eu percebi tava rimando já. Costumo dizer pros caras que rima boa é igual coisa errada, você só percebe que fez depois de fazer (risos).

URBe – Que tipo de som você escuta (além de rap)? Quais são suas influências?

Emicida – Ouço samba, um pouco de jazz. Mas pra mim samba é foda, melhor música do mundo, se eu soubesse cantar mesmo seria sambista. Costumo ouvir tudo, hoje em dia principalmente, mas a quantidade de samba que escuto realmente é muito maior do que todos os outros gêneros juntos.


foto: ariel martini

URBe – Quem fez as bases da sua mixtape? Qual sua participação nessa parte, você produz?

Emicida – Vários irmãos, desde Marechal até Projeto Nave, Felipe Vassão, Bruno Pompeo, Léo Cunha, Dario, DJ Nyack e DJ Nato PK, vários monstros, fora as coisas tocadas que deram outra cara pra várias faixas.

Minha participação na produça é bem pouca, prefiro pegar pronto as coisas. Antes eu queria fazer tudo, igual todo mundo quer fazer e acaba fazendo tudo mais ou menos, hoje eu me concentro em fazer minhas rimas.

Claro que as vezes me arrisco a fazer um beat ou outro, mas nada que eu saia por aí distribuindo cartão, escrito beat maker em baixo do meu nome. Mostro pros caras, pra alguém que realmente entenda. Se não tiver saído muito ruim, gravo em cima, assino e digo que eu fiz…(risos).

Hoje foco mesmo nas minhas rimas, tem quem faça bases boas, não preciso me preocupar. Conheço os melhores, são meus amigos, então quando eles precisam de uma rima boa me ligam por que eu sou centrado nesse negócio de rima. Quando preciso de uma base boa faço o mesmo, porque sei que eles são tão focados quanto eu nessa parada de instrumental.


foto: divulgação

URBe – Como é o esquema de gravação? Como você faz suas bases?

Emicida - Antes eu trabalhava em um estúdio grande, com uma estrutura legal, era estagiário lá. Quando ninguém tava usando as salas eu fazia minhas coisas. Depois saí, fiquei um tempo sem gravar, aprendendo a escrever, por que nem só de freestyle vive o homem.

Meu foco maior sempre foi na escrita, entrei nesse lance de freeestyle e me tornei meio fanático por isso. Não que eu queira deixar de ser, mas eu amo escrever uma letra, terminar ela é uma sensação muito foda, melhor que qualquer coisa.

Mas enfim, saí desse estúdio e acabei conhecendo outros estúdios, gravando com outras pessoas, mas hoje, como trabalho bastante com o Felipe Vassão, com o Tixamen e o Bruno Pompeo na Maria Fumaça e na Loud Produções, a gente sempre grava junto e não pretendo mudar isso. Eles tem o estúdio, equipamento bom, conhecimento e eu tenho as rimas, fecha certinho. Os caras me conhecem, eu conheço eles, não tem aquele lance de entrar no estúdio gravar e sair com aquela puta frieza do tipo “tamo trabalhando aqui de saco cheio, depois de você vem mais cinco bandas, então grava rápido”.

Não faço as bases, pego com os beat makers que me cercam. Raramente faço alguma coisa, quando faço levo pro Bruno Pompeo, que é o mais paciente comigo, e ele me ajuda a consertar as coisas. Se bem que nem tivemos que consertar tanta coisa assim das últimas vezes, prova de que estou evoluindo, e ele apara as arestas pra mim, aí fica tudo perfeito.

Se tiver que gravar algo a gente grava, se tiver que compor a gente compõe, se tiver que jogar fora e dizer que tá uma merda também… (risos).

URBe – Imagino que agora esteja ficando mais fácil, com gente interessada em te levar pro estúdio, mas como era no começo? Qual a estrutura você tinha pra gravar?

Emicida – No começo mesmo, nos primórdios, eu tinha um teclado da Casio, um duplo deck, um mic de karaokê e um saco de lixo de 20 litros cheio de fita K7. Ficava madrugadas inteiras fazendo minhas tapes, uma atrás da outra, vários raps.

Não dava pra loopar, então eu tocava (mesmo sem saber) quatro, cinco minutos de uma mesma célula ritmica e cantava em cima, gravava com o mic de karaokê e ia pirando. Quando acabava o último take já não dava mais pra ouvir os seis primeiros (risos). Era só a chiadeira , os cachorros latindo, barulho da TV na sala e pra mim aquilo era mágico.

Saí de lá pra ir pra um estúdio com C-12, pré-amplificador Antony DeMaria Labs, mesa com vários canais, caixas Genelec, etc, coisa fina. Aí foi foda, porque eu tinha a essência das gambiarras, a capacidade de improvisação de quem não tem estrutura e os equipamento igual ao de qualquer pop star aí (risos). Resultou na qualidade da “Triunfo”. E posteriormente de toda a mixtape.


a capa da mixtape

URBe – É tudo sampleado ou tem som original? Como são gravados os originais?

Emicida – Tem bastante sampler, mas também tem bastante coisa original. Em sua maioria os instrumentos são tocados pelo Bruno, pela proximidade memo e pelo lance de captar as idéias sem que eu tenha que ficar gesticulando como se fosse mudo, ele entende pra onde quero levar a música aí a gente faz. Mas tem coisa do Fióti também, violão, cavaco, percussa, do Franja, na mixtape tá tudo misturado, tem música de todo jeito.

URBe – Você gosta de samplear bastante funk 70 e r&b. O que mais você acha legal samplear?

Emicida – Não tenho um gênero predileto pra samplear, escolho pelo momento, pela coisa que determinada frase ou célula me faz sentir. O que aquelas notas me dizerem vai dizer se elas vão ser sampleadas ou não.

URBe – O que você acha das bases eletrônicas, como as que tem tomado conta das paradas de sucesso nos EUA?

Emicida – Quando bem feito acho bom. Mas cansa rápido…

URBe – E o que você pensa do tipo de rap que faz sucesso hoje em dia, de Lil Wayne, Soulja Boy, T-Pain, Black Eyed Peas, etc? Fale da sonoridade e do discurso separadamente.

Emicida – Gosto de Lil Wayne, ele é foda mano. Soulja Boy eu não conheço, ouvi uma musica só e não gostei, achei chato pra caralho, repetitivo, vazio. A música em si as vezes é boa mano, eu gosto mesmo, tipo “A Milli”, a introdução do disco do T-Pain é foda, aquela “Welcome to 3 Ringz”. Os caras sabem fazer música boa, mas existe um mercado que eles obedecem, compreendo e respeito isso.

Quanto ao discurso, ainda não vi, quando ver terei prazer em falar sobre ele. É sempre a mema merda, “eu tenho grana, como todas as putas, as pessoas querem ser iguais a mim porque sou rico”. As vezes isso mostra como o espírito das pessoas é pequeno. Esses caras foram vítimas de um sistema no passado que os discriminou por não terem essas coisas e a maneira que eles respondem hoje é essa.

Acho triste, acho que somos mais, e no Brasil tem um pessoal indo na mesma onda Mas enfim, vejo nas idéias dos caras um medo, uma fraqueza de espirito. É aquilo que o Edy Rock falou, marginal tem estilo, ninguém consegue imitar.

Isso que os caras louvam hoje é estética. Em vinte minutos na galeria você se veste igual ao 50 cent, mas tomar nove tiros e guentá o B.O. é otros 500. Acho que o que vai fazer o rap se solidificar mesmo no Brasil é a essência do rap marginal, o que tem estilo e ninguém consegue imitar.


Emicida vs Gil, na final da Liga dos MCs 2006

URBe – Você passou pelas batalhas de MC do Rio. Como veio parar por aqui?Já tinha visto algo parecido em SP? Qual importância teve isso na sua carreira?

Emicida – Passei e trouxe o caneco (risos). Em 2006 eu ja tinha ganhado tudo em São Paulo, tava arregaçando e o Pedro, do Pentágono me disse que tinha um contato na Brutal Crew que podia me envolver na liga e no Hutuz. Disse pra ele que, se rolasse, eu daria metade de tudo que ganhasse pra ele, pegamos um avião e fomos para o Rio.

Hoje vejo como fui marrento, fiz planos com o prêmio antes de me inscrever até, mas fazer o quê? É isso memo. Foi extremamente importante pra mim esse lance po que deu uma visibilidade monstra dentro dessa parada de freestyle. Hoje quem faz freestyle no Brasil sabe quem é o Emicida graças a Liga dos MCs.

URBe – Você acha que existe uma troca entre as cenas de SP e do Rio? As vezes parece que as duas cenas não se misturam muito.

Emicida – Existe quando há interesse em trocar informações e crescer junto. Marechal é um paulistano honorário, embora ele não saiba (risos). E eu me considero um cidadão do Rio de Janeiro quando estou lá, tenho bons amigos, amo o Rio. Prefiro São Paulo, obviamente, mas amo o Rio de Janeiro. Esse problema da cena não se misturar só fica exposto quando o caso é entre o Rio e SP, porque é o Sudeste.

Mas aos meus olhos, nesse momento em que vivemos, o rap em si está desligado de suas extremidades. Tá todo mundo no twitter e as calçadas vazias. Pra mim poderia haver um diálogo melhor entre todas as regiões, tento criar isso, mas é dificil pra caralho.

Vou para os lugares e tem cara que quer puxar meu saco porque sou de São Paulo e ele quer tentar vir fazer um show aqui. Como se vir e fazer um show fosse fazer a vida dele mudar… Vai ter que cobrar uns 500 mil de cachê, só se for.

E tem cara que torce o nariz e me estranha como se eu tivesse afastado as regiões ou como se os habitantes do Sudeste tivessem colocado uma cerca ao redor do rap, quando o que define sua posição dentro disso é trabalho: você vive essa porra? Vai colher frutos. Você se dá 20% pro rap, o rap vai te devolver 20% tambem. E nem é só no Rap é na vida, tudo é uma coisa só.

O melhor exemplo é o dos caras do Costa a Costa, lá no Ceará, que estão fazendo um barulho lá em cima e assustando uns inseguros pelo Brasil todo (risos). Os caras de Curitiba tambem tão bem organizados, tem uma cena bem intensa rolando com Cabes, Dario, Savave, Nel Sentimentum. Algumas das melhores batidas dos últimos anos sairam de lá, o disco do Kamau e do D2, tudo tem um pézinho lá no Sul…


“Essa é pra você, Primo”

URBe – Você acha que a chuva de gírias de São Paulo que você usa ajuda ou atrapalha? Como o sotaque fica nisso tudo?

Emicida – Acho que soa natural pra mim, assim como as gírias de gaúcho são naturais pros gaúchos. Embora vá parecer o cúmulo do egocentrismo, eu escrevo rap pra mim e pros meus, e acredite, eles são muitos, espalhados por cantos onde até Deus duvida.

O sotaque não atrapalha quando você canta com o coração. Os norte americanos são o maior exemplo disso, 90% das pessoas que cantam “I Feel Good” junto com James Brown não fazem idéia do que ele está dizendo. O sentimento é como uma língua universal e o rap é uma ótima janela pra se passar sentimento.

URBe – Qual foi o seu ponto da virada? O que e como aconteceu do seu nome surgir fora de SP?

Emicida – A Liga dos MCs foi um deles, o YouTube foi outro responsável, junto as câmeras digitais que ajudaram a propagar cada sessão de rima na calçada que eu fiz.

Acho que eu ainda não surgi, tem muita gente que não me conhece ainda. O que acontece é que o espaço dado pra música que eu faço é escasso, quando alguém como eu se destaca em outros meios é porque a coisa tá começando a ficar doida.

Mas minha meta é bem mais ambiciosa do que três indicações ao VMB. Eu ainda nem lancei um disco oficial man, isso ainda vai muito longe. Esse ponto de virada que você disse ainda esta por vir.


Kamau e Emicida
foto: leo.eloy

URBe – O rap brasileiro já tem estrada o suficiente para se falar que os temas sociais são o assunto preferido. Você acha que chega um ponto que isso se torna repetitivo? Afinal, infelzmente a situação não mudou muito. Como manter os temas relevantes depois que o choque inicial já passou?

Emicida – Com certeza, enche o saco vagabundo chorando no seu ouvido, por isso eu não choro. A minha realidade é outra, sou correria, tenho o que fazer, a situação não mudou, mas o momento sim. Você deve ser atual, num me vem escrever rap como se estivessemos nos anos 80, muito tá a mema merda, mas muita coisa melhorou também.

A parada é que falar de dor da ibope, mas cansa. Vários irmãos que amavam rap cansaram dele porque miséria traz tristeza e vice-versa. Eu peguei uma nota suja de sangue no troco de almoço ontem, isso é chocar hoje com um assunto de anos.

Cada um tem sua maneira de ver o mundo, o problema são os que tentam sugar até o fim uma fórmula que deu certo. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser daqui a dez anos: um dia você vai se cansar…

URBe – Quais opçõs de caminho em termos de tema? Do que mais se pode falar?

Emicida – Ah, existem mil temas, quem escreve com o coração ja viu isso há tempos. Odeio me parafrasear, mas eu digo na mixtape “os bico pensa se fala de rua ou de festa? e eu só escrevo”. Quem vive isso só escreve, o resto tá se perguntando do que o rap deve falar no século 21.

URBe – Você fala bastante da cena alternativa ser uma fase, não um destino final, que quer fazer sucesso. Como fazer para atingir o grande público, como já fizeram Gabriel O Pensador e Marcelo D2? Porque nenhum rapper de São Paulo, onde a cena é bem forte, conseguiu isso ainda?

Emicida – Trabalhar sério, ter foco, sem se emocionar. Como assim nenhum rapper de São Paulo conseguiu isso? Até onde eu sei Racionais MCs é daqui e até minha sobrinha que nasceu no começo do ano canta… Isso é ser rua.


foto: zoeirahiphop

URBe – E quem está vindo aí? Quais nomes na nova geração com potencial pra estourar?

Emicida – Rashid tá se preparando pra chegar direitinho. Rincon Sapiência tem o maior potencial dessa geração, comercialmente falando mesmo, capacidade pra ganhar dinheiro, ele é um monstro.

URBe – A pergunta é batida, mas é sempre legal saber como cada músico enxerga a situação. O que você acha da troca de músicas na internet?

Emicida – Da hora, troquem as minhas. Hoje não dá mais pra ficar de ranhetice em cima disso, já é e ninguém perguntou pras gravadoras se podia. Agora corre atrás pra ficar na frente de novo, porque a molecada ja tá a milhão, baixando tudo que sai e espalhando na rede.

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Ritmo e Poesia

Emicida declama poesia.

Dica do Gaspar nos comentários do texto sobre o rapper.

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Chegando atrasado 05: Emicida

Mesmo  já tendo tido uma passagem vencedora pelas Batalhas de MC aqui no Rio, o rapper Emicida (ou E.M.I.C.I.D.A. – Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte) tinha passado batido pelo URBe.

Com seu nome circulando ainda mais após ser indicado ao VMB 2009 na categoria de Rap, a mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, com capa feita a mão e vendida a R$2 nos shows, tornou-se facilmente encontrável online.

Bases e rimas no talo, Emicida está fazendo algo bem complicado: transformando gírias paulistas que são motivo de zoação  em outros Estados (zoação é paulistês?) em algo legal (como utilizar o “memo” no lugar de “mesmo”, adeus aos plurais, etc), distanciando-as do imaginário “maloqueiro” e facilitando a assimilação do sotaque.

Outro detalhe que parece óbvio, porém não tão óbvio ao ponto de ter se tornado regra obrigatória no hip hop nacional, é a boa dicção, tornando as letras comprensíveis de primeira. A quantidade de rapper com boa letra que fica pelo caminho por não saber se fazer entender é grande.

Os Racionais passaram longe de fazer essa ponte. O Kamau tinha potencial para isso mas não é tão pop quanto o Emicida,o Sabotage morreu antes da hora. O elemento pop é sempre um facilitador, vide dois dos maiores sucessos comerciais do hip hop nacional, Marcelo D2 e Gabriel O Pensador, terem também um sotaque carioca pesado.

Isso aqui não é mais um capítulo da eternamente boba disputa Rio x SP. Não canso de repetir que acho isso ridículo, embora seja dolorido ver minha própria cidade perder importância e os shows rarearem.

O fato é que São Paulo vem dominando o país há mais de uma década, não apenas economicamente como manda a tradição, mas também culturalmente, uma vez que uma coisa anda atrelada a outra.

O Emicida aprendeu a lição com seus antecessores e vai construindo uma alternativa interessante.

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turnTABLE

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Hip hop, auto-tune e futurismo Y2K


Jay-Z, “Death Of Autotune”

Existe um elemento comum entre todos os hits recentes do hip pop de T-Pain, Kanye West, Akon, Lil Wayne, Snoop Dogg ou Black Eyed Peas: o auto-tune, ferramenta digital para fazer pequenos ajustes e afinar vocais após gravados, auxiliando cantores a cravar todas as notas desejadas (platificando o processo, segundo alguns).

A sonoridade robótica produzida pelo uso “indevido” do auto-tune como um efeito de distorção tomou conta do hip hop. Há tempos não se via um elemento sozinho — seja instrumento, equipamento ou técnica de gravação — se tornar tão central nos estúdios.


T-Pain feat. Jamie Foxx, “Blame It (On The Alcohol)”

O auto-tune está em toda parte. Tem tutoriais no YouTube sobre como usar o efeito, tem app para iPhone, é motivo de piadas e mais piadas e foi matéria na New Yorker e na Time.


T-Pain vs. Vocoder, no Funny or Die

Marqueteiro que só ele, mesmo chegando atrasado na farra do auto-tune, Kanye West tentou puxar para si o título de desbravador da ferramenta, tendo gravado o disco “808 & Heartbreak” inteiramente com o efeito e fazendo bastante propaganda disso.


Kanye West, “Heartless”

Antes disso, Kanye já havia sampleado “Harder, Better, Faster, Stronger”, do Daft Punk, para servir de base para “Stronger”, reverenciando os franceses que vem usando tanto o vocoder quanto o auto-tune há muito tempo, de “Around The World” à “One More Time” à “Technologic”.

Antes disso, em 1998, dois anos depois da invenção do auto-tune, Cher fez muita gente querer rasgar os ouvidos com a sua “Believe”. Em 2005, Akon causou reação semelhante com “Mr. Lonely”. Expoente máximo do plugin, T-Pain diz que faz uso do autotune desde 2003.

Dentro do hip hop “tradicional” o uso de vozes robóticas não é inédita. Sem ir muito longe, basta ouvir os Beastie Boys em “Intergalactic”. A diferença é que o efeito utilizado, e já bem conhecido, é criado através do vocoder, um sintetizador que filtra a voz e altera as notas quando tocado enquanto se canta.

Como se vê, pode ser a moda da vez, mas está longe de ser novidade.


Afrika Bambaataa, “Planet Rock”

Até pouco mais de duas décadas atrás, “ano 2000″ era sinônimo de um tempo ainda distante, avançado tecnologicamente, onde robôs seriam parte integrante do cenário. A temática inspirou cineastas, escritores e, claro, músicos, todos buscando adiantar como seria esse futuro.

Em 1982, tentando imaginar como soaria algo feito duas décadas adiante, com a seminal “Planet Rock” Afrika Bambaataa desenhou o futuro da música, juntamente com o retro-futurismo do Kraftwerk e músicas como “Trans Europe Express”.

Passados tantos anos, esse modelo sobreviveu a vários outros que sumiram no tempo, justamente por ter vingado – as batidas, o uso do vocoder, os graves… estão todos aí.


Ciara feat. Chamillionaire, “Get up”

“Get up”, da Ciara (de 2006, produzida por Jazze Pha), junta várias referências de artistas que tentaram prever o som do presente em que vivemos, o tal anos 2000 — batidas de Bambaataa, teclados gelados do Kraftwerk, falsetes de Michael Jackson, citações jamaicanas a “Ring the alarm” (Tenor Saw). É um bom exemplo de como, ao tentar adiantar o futuro, esses artistas terminaram por determinar como ele seria.

O efeito robótico é até parecido, mas existe bastante diferença entre o uso do vocoder e o auto-tune. O segundo tem um resultado muito mais alucinado e eletrônico. Usado no talo, provoca uma oscilação brusca entre as notas, tão rápida que seria impossível ser executada por um humano.

O baile funk, sempre sedento por novidades tecnológicas ainda não fez uso do auto-tune (ou pelo menos nenhum hit surgiu ainda – no tecnobrega já tá rolando, lembrou JB nos comentários). João Brasil arranhou o assunto em “Cobrinha Fanfarrona”, mas utilizando o vocoder, não o auto-tune. Não vai demorar muito para a ferramentaganhar mais algum uso não previsto.


Black Eyed Peas, “Boom Boom Pow”

Essa proeminência da ferramenta vem alimentando a velha discussão sobre os caminhos do hip hop após ter se transformado no principal estilo musical em termos comerciais nos EUA.

Enquanto Nas declarou a morte do gênero em “Hip Hop Is Dead”, Ice-T protagonizou uma áspera (e constrangedora) troca de ofensas online com o menino Soulja Boy Tell’em por conta do sucesso de “Crank That”.

É o triunfo da estética seca e mais lenta do crunk e do hip hop produzido no sul dos EUA, onde a influência do Miami Bass continua gigantesca — e de onde vem boa parte dos produtores e rappers de maior sucesso hoje em dia, de Outkast a Lil Wayne.

O sempre esperto Jay-Z, só pra destoar, declarou a morte do auto-tune na música que acabou de lançar para promover o próximo disco (produzido por, veja só, Kanye). Ele não está sozinho na guerra contra o novo hip hop.

As coisas mudaram — sempre mudam — e certamente a eletrônica foi adicionada aos tradicionais quatro elementos (DJ, rap, b-boy e grafite). Se hoje o que se produz pode ser considerado hip hop ou não é uma discussão tão boba quanto interminável.

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Inumanos e MJ

O Inumanos (que anda sumido…) fez uma homenagem a Michael Jackson. Produzida pelo DJ Matins, como sugere o título, “Querido Michael” é uma carta do MC Aori para o rei do pop.


Inumanos“Querido Michael”

Via Trabalho Sujo.

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Babel

Rap em 30 idiomas. Uma linguagem universal.

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Deejay

Trailer do documentário “Return of the Rub-a-Dub Style”, dedicado exclusivamente dos deejays jamaicanos.

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“Nar mulere eu que mando, aprendi isso com o Wando”


De Leve + Speed, “O Q Q Ela Quer”

Fazendo várias músicas juntos atualmente, De Leve e Speed misturam duas escolas do rap fluminense. De Leve traz o escracho, sua marca desde os tempos do Quinto Andar, Speed vem com o funk e as rimas sagazes conhecidas desdes os tempos da emblemática dupla formada com Black Alien.

Com sample de “Rap do Magalhães” sobre uma base desacelerada do Gorillaz,  a dupla avisa: “Mando Nar Mulere”.

Niterói vai ficar pequeno.

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Mos Black


Mos Def, “Casa Bey”

Apresentado a Banda Black Rio por MV Bill em sua última passagem pelo Brasil, Mos Def voltou pra casa, deu uma entortada na base de “Casa Forte” (do clááááássico disco “Maria Fumaça”) e o resultado é “Casa Bey”.

O Mos Def tropical se arrisca até a cantar e a sonoridade o aproxima mais do Will.I.Am do que do parceiro Talib Kwelli. Boa combinação.

A faixa pode ser baixada de graça no Rcrd.Lbl.


“Casa Forte”, Banda Black Rio

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Hip hop infantil

Alguns dos principais rappers soltam o verbo sobre temas musicais infantis:


Mario vs Busta Rhymes (Super Serious)


Thomas the Tank feat. Snoop Dogg


Thomas vs 50 Cent

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Éle á pê á

A Lapa tem muitas facetas. Enquanto o documentário “Sistema Lapa de Samba”, do Bruno Maia, ainda está sendo produzido, Cavi Borges e Emílio Domingos soltam “L.A.P.A”, um filme sobre o bairro e o rap carioca.

Esse saite anda meio estranho. Tinha certeza que já tinha escrito sobre esse filme, assim como sobre o “JCVD”, mas não encontrei nada nos arquivos. No mundo virtual as coisas somem do nada, e as pessoas confiam em guardar tudo em HDs. Sei não…

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Hip hop das antigas

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Hip hop em crise


Dr. Dre e sua “Still DRE”: escrita por… Jay-Z?

A autenticidade do hip-hop contemporâneo entra em discussão quando um mundaréu de letras pessoais é escrita por terceiros e os computadores são acusados de deixar os produtores preguiçosos e poucos criativos.

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Rolling Stone, dezembro 2006

Resenhas do festival Hutuz e do novo disco d’A Filial que escrevi para o terceiro número da Rolling Stone Brasil. Com a edição fora das bancas, reproduzo os textos aqui.

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A Filial
“Quem menos tem é quem mais oferece” (Dubas Música)
cotação: três estrelas e meia

Todo mundo junto

Num Rio de Janeiro cada vez mais retraído, onde um tiro lhe aguarda em cada esquina (ou ao menos como parte da imprensa e das autoridades querem fazer parecer), o discurso d’A Filial faz o caminho inverso. Fala de sair na rua, de encontros e de aceitar o outro como único caminho possível pra sairmos do caos atual — e não apenas na Cidade Maravilhosa.

Dispensando o uso de samples, tão caros à cultura hip hop, com exceção de alguns scratches e batidas eletrônicas, os sons do disco foram feitos do zero. Tocado pela própria banda — formada por Edu Lopes (vocal), DJ Castro (do extinto Quinto Andar, Black Alien), Rodrigo Pacato (percussão), Ben Lamar (trompete) e Flavio Prazeres (sax e cavaquinho) — mostra uma boa evolução em relação ao EP “A Filial”, de 2002.

O hippie-hop acústico do quinteto mistura rap, samba, soul, funk, faixas instrumentais (“Prelúdio”, “Charme e sedução”) e abre espaço para convidados como BNegão (ex-companheiro de Edu no Funk Fuckers) em “Verso versátil” e De Leve, em “Be the world”.

Quando as coisas parecem estar ficando cabeça demais, o verão carioca se faz presente na guitarra funkeada de “Gosto tanto”, no bumbo reto de “Dança” e no sambinha “Linda”. Afinal, um pouco de alegria sempre facilita o encontro.

Premiação do hip hop agita o Rio

Organizado pela Central Única das Favelas (Cufa) e realizado ininterruptamente desde o ano 2000 no Rio de Janeiro, o Hutúz chegou a sua 7ª edição, firmando o evento como o principal encontro do hip-hop brasileiro.

Além dos shows, o Hutúz envolve uma premiação aos melhores do ano, apresentações dos quatro elementos (DJ, MC, break e grafite), mostra de cinema, seminários, oficinas e campeonato de basquete de rua.

A edição 2006 teve como tema o esporte e trouxe vários artistas latinos, como o argentino Emanero, o chileno Sammy Houston e o uruguaio Contra las Cuerdas. O rapper e ator americano Mos Def (no país para filmar cenas do documentário que está produzindo, “4 real”) fez duas participações especiais, apresentando duas músicas na festa de premiação e como convidado no show do MV Bill, dois dias depois.

Entre os premiados estão Facção Central (melhor grupo e melhor álbum, por “O espetáculo do circo dos horrores”), Dia dos Pais (melhor música, por “Inquérito”), Atitude Feminina (revelação), Graphis (grafite), New Crew (break), Erick 12 (produtor) e Inumanos (clipe).

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URB, dezembro 2006

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Aproveitando o sucesso gigantesco lá fora da versão de “Mas que nada”, do disco “Timeless” de Sergio Mendes, produzido por Will.I.Am, escrevi uma matéria (3 páginas) sobre a mistura de samba e hip-hop que rolam por aqui para edição de dezembro da revista americana URB.

Rappin’ Hood, Instituto, Mario Caldato, Leandro Sapucahy e, claro, Marcelo D2, estão na matéria. Assim que a revista estiver fora das bancas, reproduzo o texto aqui.

Paths Crossed :: Samba has always been a voice of the Brazilian people. When it meets rap, these artists make it shout
By Bruno Natal
03/29/07 :: URB 142

There’s more to the summer hit “MAS Que Nada,” taken from Timeless (Brazilian Bossa Nova pianist Sergio Mendes’s album, produced by Black Eyed Peas’ Will.I.Am) than the average listener would know. The explosive samba-rap track is just the visible tip of something that has been going on in Brazil for quite some time now.

Although, at first, samba and rap might seem far away-not only geographically-the two genres share a lot. Both are types of black music and both were also born in the poorest parts of town in their mother countries. While rap was created in the ghettos of New York, samba (in its better-known form) arose in the beginning of the 20th century from African rhythms in the favelas, as Rio de Janeiro’s slums are known worldwide. That’s the very same place where baile funk, the most recent case of Brazilian sounds going international, comes from.

This background plays a crucial role in the mix- ture that has come, some 100 years down the line. Even though it later evolved into many sub-genres, including sophisticated styles like bossa nova, samba has always had a tradition of speaking about social issues. And that’s where the two styles make contact.

Rio-born rapper Marcelo D2 (who makes guest appearances on Timeless), one of the most prominent artists and certainly the most popular to blend the two musical styles in Brazil, explains that “as it spread throughout the world, rap became the ghetto music of every place it reached. You can learn about Paris or S„o Paulo by listening to the rap made there. Samba is also like that. Getting the two of them together is the key to achieve an original form of Brazilian rap.”

Another big name in the game, Rappin Hood, hails from S„o Paulo and agrees. “I’m a fan of roots samba, Martinho da Vila, Fundo de Quintal, Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro. I like samba with political contents.” D2 proceeds, “Apart from Rappin Hood and I, not many people are doing this in Brazil. Xis and KL Jay have a killer track, ‘A Fuga,’ where they sampled a classic Originais do Samba song. If you make a top five of samba-influenced rap music, this one will be there.”

These two might be the most famous samba-hop rappers, but they are not alone. Samba has always been a major influence on every music style in Brazil and it isn’t different with rap. Names like the late Sabotage or Z’África Brasil have also made attempts in this area, produced by S„o Paulo’s Instituto crew.

Part of Instituto, one of the most respected beat-making crews in the country, Tejo Damascendo thinks, “Any mix of rhythms ends up bringing some- thing new. In this case, it adds a Brazilian flavor to hip-hop while revitalizing samba as well.

“Since I released my first solo record, in ’98, I aim my music at samba. I was tired of the samba and rock mixture I had in my first band, Planet Hemp. When I discovered this mixture, it refreshed my life.” Marcelo D2 adds, “One thing I’ve learned from samba is to value the melody. Just like funk gave rap the ‘same beat’ principle, samba can give melody, the most important thing.”

Funny enough, it was an American-produced tune that first brought Marcelo’s attention to the possibilities of mixing samba and rap. “It was in Pharcyde’s ‘Otha Fish,’ produced by J Dilla. The first time I felt this in my own sound was during the mix of a song called ‘O Bicho T· Pegando,’ from Planet Hemp’s second album, produced by Mario Caldato. We talked about it non-stop and on that day I decided to make a record just with hip-hop beats and samba percussion.”

Marcelo D2′s long-time partner, Caldato, is behind it all. Born in Brazil (before moving to the U.S. during his childhood), not only has he produced two of Marcelo’s solo albums-A Procura da Batida Perfeita (In Search of the Perfect Beat) and Meu Samba È Assim (My Samba Is Like This)-plus the best track on his debut, Eu Tiro È Onda (slang loosely translated as “I’m the Man”), “Batucada”-he also produced today’s samba diva Marisa Monte’s most recent one.

Even under so much samba influence, Marcelo has no doubts about his job title. “I’m a rapper, but it seems that, nowadays, rap is going through some strange paths. To say that you’re a rapper means you do the same thing 50 Cent does. That’s not what I’m like. I’m more like Mos Def or KRS One.”

Respectfully, Rappin Hood goes further. “How could I come up to legends such Arlindo Cruz or Zeca Pagodinho and tell them I’m a sambista? They are the ones that dominate this art.”

“I think hip-hop is an open door to many different cultures. Samba and bossa are a perfect and natural blend that works great, just like jazz with bossa nova and samba,” Caldato observes. It’s true. The influence works the other way around and hip-hop culture is also influencing samba.

“Samba lyrics became somewhat unrefined and loose through the ’90s. The mixture with rap can help improve the quality, encouraging writers to go about political issues,” according to Leandro Sapucahy, a samba singer-producer who released his first album as an artist this year. “I made a samba record with rap influences. What I sing about is not what you usually hear in samba nowadays. Instead of romantic lyrics, I decided to talk about rougher subjects.”

The rappers believe that one thing complements the other. For D2, “What was lacking in samba [today], what rap is appropriating from it, is that samba has always been the voice of the people. During the ’90s, a commercial-oriented type of samba called pagode came up and roots artists disappeared and those who wanted true music embraced rap. Hip-hop attitude can help samba give a step forward and communicate with the kids again.” As for Rappin Hood, “The evolution of samba will come from samba itself. What rap does is bring back the challenging aspects of the lyrics, talking about the favelas.”

The international attention hip-hop and samba gained with “Mas Que Nada” divide the opinions. Rappin Hood is cynical. “This has happened before, with bossa nova. The foreigners come here, discover a new flavor and take it. The true inventors deserve recognition, too, not just those who are part of the industry. I’m not against it; it helps to popularize the style. What’s wrong is to only talk about those who have major labels’ money behind them.”

More optimistic, Marcelo D2 sees this in a natural way. “Will.I.Am has been doing this for quite some time now; Black Eyed Peas’ first album has Jorge Ben’s samples. In a way, his success was good for me. When I go to play abroad now, people have more respect, because they know where I’m coming from. His song is playing like crazy. . .I heard it in a taxi in Finland!”

Confident in the power of samba, Tejo sees the bright side in all this. “Because it exists longer, it helps rap more than the opposite, bringing melody, swing and, most of all, joy-something rare in hip-hop. On the other hand, rap brings a new audience to samba, especially those who only listen to foreign artists and [who] now perceive, through this mixture, that there is a lot of good stuff in Brazilian music, too.”

Marcelo has a story to illustrate this. “I see kids that you never guess would like samba, singing in my concerts, having fun. Today’s youth is more inclined toward rap than samba, so this mixture can help get them interested in samba. The other day, an eight-year-old kid told me at the airport that he started listening to Jo„o Nogueira’s music because he heard me talking about it so much. I thought this was great!”

Hopefully, this cycle will continue and the information exchange will move on. There’s only one thing that can come out of this: more good music.

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Apagou

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O Quinto Andar acabou. A notícia foi dada pelo integrante De Leve em seu blog.

O fim do grupo de Niterói era, de certa maneira, previsível, natural até. O primeiro a descer para o térreo foi o MC Marechal, que se juntou a trupe de Marcelo D2 e prepara (faz tempo…) um disco próprio. De Leve também já tinha dado umas voltinhas de elevador, pra lançar seu disco solo “O estilo foda-se” (Segundo Mundo).

Na comunidade do Quinto Andar no Orkut, as explicações são conflitantes. Enquanto o MC Shawlin diz que “só o De Leve saiu, mas ele levou o nome junto porque ele era o último fundador do bagulho” (os fundadores, na verdade, foram o DJ Castro e Marechal), Castro explica:

“(…)Há algum tempo, muito depois da saída do Marechal, por motivos que não vêm ao caso, começamos a ter problemas de relacionamento interno no grupo (paradas normais quando um monte de macho fica muito tempo junto, nada muito sério), que com o tempo estava influenciando no clima do trabalho. O De Leve, por conta disso, me falou que queria sair do grupo e, depois de pesar os prós e contras, achei que era hora de dissolver o coletivo, antes de se descaracterizar, da galera brigar de vez ou pior, virar um emprego burocrático. Todos concordaram (…)”.

O grupo foi um dos primeiros fenômenos musicais da internet brasileira, conquistando fãs através da distribuição de MP3, como o clássico “A lenda”. Ano passado, o Quinto Andar lançou seu único disco oficial, “Piratão” (Tomba Records).

Como no caso do Planet Hemp e seus integrantes (BNegão, Black Alien e D2), o fim do Quinto Andar deve resultar em diversas carreiras solo interessantes. Shawlin e De Leve já estão com os seus prontos, Lumbriga herdou as bases que seriam do segundo disco do Quinto. As vezes, menos é mais.

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Mamelo rmx

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O Mamelo Sound System, sob o comando de Rodrigo “Audiolandro” Brandão, chamou alguns amigos para remixar seu segundo disco, “Urbália”.

O resultado é Operação: Parcel ou Remixália, disco com versões alternativas riscadas por Hurtmold, Tejo (Instituto), Parteum e Basa, entre outros. Parece bom.

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Ecos Jamaicanos

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Abaixo, o release que escrevi para o disco de estréia do Echo Sound System.

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Formado pelos produtores Pedro Dubstrong (DJ da Chocolate Crew e conhecido por suas mixtapes), Gustavo Sola e pelo o multi-instrumentista Gustavo Veiga (metade da dupla Veiga & Salazar), o Echo Sound System não é (mais) uma banda de reggae, nem é apenas um grupo de hip hop; é um coletivo de produção com raiz nas vertentes jamaicanas, mesclando diversas influências.

“Do centro de SP mandando ver pro mundo inteiro / freqüências e efeitos em estéreo brasileiro”, diz Jimmy Luv em “Todos um”.

O trio apresenta suas intenções logo no nome. Inspirado na cultura dos sound systems e ecoando diversos estilos da música jamaicana, o Echo Sound System utiliza a tecnologia para promover o reencontro do reggae e do rap, dois gêneros nada distantes (afinal, os rappers são descendentes diretos dos toasters jamaicanos). De quebra, mostra como são extensos os espectros tanto do hip hop, quanto da música produzida na ilha enfumaçada.

O disco de estréia, “Tempo vai dizer” (ST2 Records), mixado por Ganja Man e Tejo (Instituto), combina esses vários estilos. Vai do rocksteady de “Só d’eu ver(de)” ao dancehall de “Vampire”, passando pelo dub (“Supamind dub”), pelo reggae (“Pas tester”), pelo rub-a-dub (“I & I”) até o hip hop (“Punanny”). Além de Veiga, responsável pelo violão, baixo, teclados, flauta e escaleta, o baixista Gema e o saxofonista Andres Salazar também tocam no disco.

Conhecer os sound systems jamaicanos é fundamental para compreender a importância do reggae para música mundial. Desde os tempos do ska, nos anos 50, até o dancehall dos dias de hoje, todas as noites, em alguma esquina de Kingston, potentes aparelhagens de som são montadas para animar festanças gratuitas ao ar livre. Essas festas ambulantes são a mais respeitada forma de propagação musical na Jamaica, servindo de campo de testes para novas músicas e cantores.

Naturalmente, há um espírito competitivo entre os sound systems para ver quem sai na frente nos lançamentos. Não por acaso, foi um jamaicano, o DJ Kool Herc, quem primeiro botou caixas de som nas ruas do Bronx. Depois vieram Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa e o resto é história.

Apesar do respeito pelo passado, “Tempo vai dizer” não soa retrô. A produção caprichada atualiza as referências, misturando umas as outras, resultando num som original.

“Echo Sound System, raiz com futuro”, como é dito na faixa “Pas tester”.

Isso fica claro nas espertas programações de bateria, nos timbres diferenciados e nas ambiências viajantes. Outro diferencial é o bom uso de efeitos diretamente emprestados do dub (como delays, ecos e reverbs), sem nunca soar exagerados ou fora de propósito. Os efeitos estão em todo o disco e não apenas em faixas como “Bom filho” e “Kaya monkeys (safari dub)”, onde a influência de dubmasters como Scientist fica óbvia.

As batidas de hip hop são sustentadas por linhas de baixo (“Leão de asas”) ou por samples de bateria de reggae setentista (“Pas tester”). Os reggaes, por sua vez, seguem o caminho inverso, aceitando elementos do rap. Os MCs Funk Buia (Z’África Brasil), Jimmy Luv e Arcanjo (Enganjaduz) e o francês Pyroman (Assassins), se revezam nos vocais, variando entre o discurso social, o divertido e o espiritual.
“Todos um”, um hip hop com um pé no dancehall, que já havia sido lançada em um compacto de vinil, em 2004, conta com Funk Buia no microfone. “Só d’eu ver(de)” estava no lado b da mesma bolacha, prensada no clássico formato 7 polegadas dos lançamentos jamaicanos. Enquanto Arcanjo dá “um minuto pra explodir” na potente “Inna babylon”, Jimmy Luv despeja sinceridade na quebradeira de “Replay”.

Na Jamaica, é comum diversos cantores fazerem versões da mesma música, criando novas letras e melodias utilizando bases musicais idênticas, lá chamadas de riddim. Seguindo essa tradição, em “Original style” Pyroman canta sobre “Stalag”, riddim eternizado por “Bam bam”, na versão de Sister Nancy.

Além dos colaboradores regulares do Echo, o jamaicano General Smiley, integrante da dupla Michigan & Smiley (conhecida por hits do dancehall do começo dos anos 80, como “Diseases” e “Rub a dub style”), também está em “Tempo vai dizer”. Mesmo sem intenção, a mistura de línguas internacionalizou o som, o que pode abrir uma frente para o Echo Sound System no exterior.

General Smiley conheceu o Echo Sound System através da página do grupo no saite My Space (www.myspace.com/echosoundsystem) e fez toda sua participação à distância. Sua parceria, de rachar o coco, com Funk Buia em “Rookie rock” (produzida em conjunto com o suíço Romanowski, do coletivo Future Primitive Sounds), é um dos destaques do disco. Na edição especial em vinil, a música ganhou um remix do Turbo Trio, projeto paralelo de BNegão, Tejo e Alexandre Basa.

Após 21 faixas, “Tempo vai dizer” não cansa. “Favorite song” encerra o disco num astral tão bom que faz o ouvinte desejar que as vinhetas fossem músicas completas, só pra ter mais um gostinho. Ou então, que o CD fosse um vinil, pra poder virar o lado e continuar escutando.

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Futuro do pretérito

De vez em quando, o Soulseek mostra todo o potencial do qual uma comunidade de troca de arquivos é capaz. Uma das funções mais interessantes do programa é poder conversar com outros usuários enquanto baixa suas músicas, trocar idéias, sugestões.

Foi num desses papos que cheguei no disco de estréia do inglês Rodney P. Indo atrás de mais um bootleg de hip hop com reggae, encontrei um usuário querendo baixar coisas brasileiras. Pra não fugir do tema, recomendei o Black Alien. Do lado de lá, veio a dica: “The future”.

Com o hip hop dominado por fórmulas e beirando a estagnação (no mainstream, é bom dizer), o título do disco de Rodney P é categórico. “The future”, ou “O futuro”, pula as obviedades e clichês e aponta novos caminhos. Levando o cruzamento hip hop/reggae as últimas consequências, as faixas são atochadas de referêncais jamaicanas.

Tal e qual Black Alien por aqui, Rodney P fez parte de um dos primeiros grupos de hip hop da Inglaterra, o London Posse, protagonizou muitas participações especiais (com Roots Manuva, Bjork, Brand New Heavies) e manteve diversos projetos paralelos (ele é apresentador do programa “Original Fever”, na Radio One inglesa). Por conta disso, demorou uma década pra lançar seu disco solo.

Em outubro de 2004 veio a pedrada. A demora foi justificada e serviu pra mostrar que quantidade não é sinônimo de qualidade. A atual velocidade com que músicas têm sido gravadas e distribuídas, todo mundo querendo sair na frente, algumas vezes pode atrapalhar o resultado final.

Em “The future”, samples de Black Uhuru (“The future”) e citações a Bob Marley (“Intro”) se misturam à nomes menos óbvios, como Junior Byles (“Fading”). Guitarras ecoando, pancadinhas no teclado e viradas de bateria parecendo cortadas diretamente de algum LP produzido por Bunny Lee nos anos 70 (“Trouble”) marcam ritmo junto à batidas de dancehall (“I don’t care”), servindo de base para Rodney largar a falação enquanto sacodem o ouvinte.

A abordagem dubwise da mixagem é escancarada no downtempo “Vibe” e na, realmente, matadora “Riddim Killa”. As linhas de baixo não amassam o peito como as do Roots Manuva, mas por que deveriam se o RM já faz isso tão bem? O caminho aqui é outro e a escolha dos produtores reflete isso. Estão nos créditos, além do próprio Rodney, Adrian Stone (Elephant Man), Dobie (Soul 2 Soul, Bjork) e outros.

Pode-se dizer que essa aproximação dos universos reggae e hip hop, potencializada pelo estouro do dancehall mundo afora, já vem tarde. Apesar do frescor, não é a invenção da roda, muito menos uma mistura absurda. Simplesmente não existiria rap — ao menos como o conhecemos hoje — se não fosse o reggae.

A cultura dos sound systems e dos toasters (djs que pegavam o microfone pra falar sobre as músicas e fazer comentários do seu cotidiano) foi levada para Nova York pelos imigrantes jamaicanos. Não por acaso, Kool Herc, criador do back-to-back, veio da Jamaica.

O “futuro” apresentado por Rodney P, portanto, tem um bocado de passado. Faz sentido. Ninguém chega à lugar algum se não souber de onde está vindo.

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hip hop x dub

Encerrando a mini-temporada do Digital Dubs na Matriz, ontem foi a vez do Quinto Andar fazer sua participação. Ao invés da tradicional trupe, o grupo se apresentou em versão reduzida; apenas Shawlin, De Leve, o trompetista Pedro e o DJ Castro.

Antes e depois do show, Nelson Meirelles e MPC mandaram ver num set com músicas como “Happiness”, do Black Uhuru (em versão produzida por Gussie P.), “Baby I love you so”, do Jacob Miller e “Liberation dub”, do Groove Corporation. O DJ Castro também botou som antes de tocar com o Quinto Andar, abrindo o set com a bambástica “Bam bam”, da Sister Nancy.

A exemplo do Echo SS, o destaque do show foi mesmo o instrumental. Até porque na Matriz o som na ajuda e, quem não conhecia as letras de “Largado” ou “Babilônia Teima”, continuou sem conhecer. As bases estão bem chapadas, com graves pesadões escancarado as sutis inclinações jamaicanas do grupo, principalmente em direção ao nu roots e ao dancehall. Em algumas músicas, as bases eram de discos de reggae mesmo, como o riddim “Stalag” (o mesmo de “Bam Bam”).

A pista balançou a noite inteira, o que leva a pergunta: quando teremos uma noite semanal dedicada aos ritmos jamaicanos na cidade!? Tá cheio de dj bacana pra tocar e — a julgar pela quantidade de gente presente nos eventos da maratona regueira dessa semana — tem público também.

O Quinto Andar promete disco para outubro, dizem por aí que sai pela OutraCoisa, do Lobão. Segundo De Leve, no repertório estão incluídos dois funk, dois raggas e até um dub. Deve vir coisa boa.
Posted by bnatal at 04:54 PM | Comments

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