31 de julho de 2009 às 10h16
Hoje tem
Confronto Sound System, em Brasília.
Se liga na pressão da festinha, ao ar livre, cheio de gente, numa edição de 2004…
Confronto Sound System, em Brasília.
Se liga na pressão da festinha, ao ar livre, cheio de gente, numa edição de 2004…
Trailer do documentário “Return of the Rub-a-Dub Style”, dedicado exclusivamente dos deejays jamaicanos.

A foto da capa é do amigo Felipe Continentino
Aproveitando o lançamento do DVD do “Dub Echoes” a Soul Jazz preparou também um disco inspirado no tema central do filme, “Dub Echoes, Sonic Excursions in Dub and Beyond: Jamaican Kings Meet Electronic Futurists in Dub Worldwide”.
A seleção tá sensacional, de King Tubby a Kode9, de Digitaldubs a Roots Manuva. O esperto subtítulo da coletânea, claro, faz referência ao clááááássico “King Tubbby meet Rockers Uptown”.
Dia 10 de maio tem a festa de lançamento, em Londres (a pré-venda já começou). Estarei lá.
Ao transformar o estúdio de gravação em um instrumento musical, o dub jamaicano abriu caminho para todo tipo de experimentos sônicos e acabou influenciando o nascimento da eletrônica ao hip-hop.
Através de entrevistas com mais de 40 nomes chave — tanto do universo reggae, quanto da eletrônica e do hip-hop — “Dub Echoes” fala do nascimento do dub, de como essa invenção ajudou a mudar a maneira como percebemos a música e como sua presença pode ser na música contemporânea.
Filmado na Jamaica, Inglaterra, EUA e Brasil, o documentário foi feito de maneira independente pela produtora Videograma, contando com o apoio da American Airlines, Mellin Videos, Mar Design, Lontra Music, 6D Estúdio, Dimáquina e Urban Images.
O filme teve lançamento mundial em DVD através do cultuado selo inglês Soul Jazz Records.
Para saber mais sobre o projeto visite o saite oficial e confira os diversos textos sobre o projeto publicados aqui no URBe.

O Easy Star’s All Stars mira alto. Responsável pelo excelente “Dub Side of the Moon” e o divertido “Radiodread” — versões dub do “Dark Side of the Moon” (Pink Floyd) e “Ok Computer” (Radiohead), respectivamente — o grupo agora vem no formato Easy Star’s Lonely Heart Dub Band.
É, entortaram o “Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band” e colocaram os Beatles inna dubwise style. A banda é a mesma, com a dupla Victor “Ticklah” Axelrod e Victor Rice a frente, mais participações de Michael Rose (Black Uhuru), Sugar Minott, Matisyahu, Frankie Paul, Max Romeo e The Mighty Diamonds.
O disco só sai dia 14 de abril e a primeira música já está na página oficial do projeto. Trata-se de “With A Little Help From My Friends”, com Luciano no vocal, acompanhada de uma dub version com daddy U-Roy, The Originator voando sobre a base.
The harder they come
The harder they fall
One and all
Oh, the harder they come
The harder they fall
Lá vem o Digitaldubs e suas pedradas. O EP “Youthsamba riddim” tem o DD fazendo o que sabe fazer melhor, que é misturar elementos brasileiros na equação do reggae, como cavaquinho e cuíca.
Lançado pelo selo do próprio grupo, o Muzamba, são quatro versões para riddim, duas com participação de vocalistas do Aswad:
1 – “Pirate’s Game”, com Earl Sixteen
2 – “Pirate’s Samba”, dub da versão acima
3 – “Your love is overdue”, com Brindsley Forde
4 – “Youthsamba dub”, o creme
A versão em vinil está chegando ao Brasil e estará a venda na lojinha do saite do grupo. Enquanto isso, já anda repercutindo lá fora.

Mashup. Jay Z. De novo. Não tô dizendo…
Dessa vez a parada é com reggae e chama-se “Jay Z at Studio One”.
Via Matias.
Uma turma de produtores se organizou sob o nome Canabits Records e lançou duas coletâneas de dub feito por brasileiros. Alguns dos nomes envolvidos são velhos conhecidos, como o Dubstalker (dos tempos da falecida lista de discussão do Yahoo! Groups dubbrasil) e o grande Buguinha Dub.
Como sempre acontece nesses casos, ficou faltando um monte de gente que passeia pela mesma praia — Digitaldubs, Echo Sound System, Confronto Sound System, Lucas Santtana, BNegão, a turma de Pernambuco. Legal ver tanta gente nova caindo dentro e notar como o dubstep se tornou uma influência monstruosa e incontornável na produção de dub nos anos 2000.
O ponto negativo disso é ver tanta gente indo para o mesmo lado, se aproximando dos ingleses, em vez de justamente usar as diferenças culturais e referenciais e retrabalhar o estilo com novas influências.
Tanto a “Pac-o-Mania Vol. 1″ quanto a “Vol. 2″ estão pra jogo no MySpace dos caras. Agora, nem tenta ouvir pelas caixinhas do computador porque é perda de tempo. Os graves pesadões demandam ao menos um bom par de fones de ouvido.
A mesma dica bateu aqui duas vezes, em formatos diferentes: um vídeo enviado pelo DJ Nado Leal e o link para baixar o disco, passado pelo Julio Adler.
Amp Fiddler, tecladista e ex-integrante do Parliament e Funkadelic (além de, dizem, ter apresentado a MPC para o produtor J-Dilla), convidou os riddim twins Sly & Robbie e juntos fizeram este Amp Fiddler + Sly & Robbie – “Inspiration information”.
A dupla de bateria e o baixo mais importante da história do reggae, e um dos principais duos do mundo, esteve tocando por aqui semana passada, embora pouca gente tenha ficado sabendo.
Vieram para participar de dois shows em Paraty, Rio, de gravação do DVD ao vivo da Vanessa da Mata (eles tocaram no disco, gravado na Jamaica e devidamente registrado em um documentário que filmei e dirigi).
Depois de lançado em volume único e evaporar do mercado, a série Deep Roots, produzida em 1982 pelo canal inglês Channel 4 e narrada pelo saudoso Mikey Dread, ressurge, dividida em três volumes.
Sente a pressão dessas imagens do King Jammy (então Price Jammy ainda) em ação, observado por Scientist enquanto Bunny Lee se arrebenta de dançar.
Dirigido por Emílio Domingos e Cavi Borges, da Cavídeo, e co-produzido pelo Digitaldubs, o curta “Pretinho Babylon” conta a história de um rástafari sobrevivendo na babilônia carioca.
Inspirado no clássico “Rockers”, estrelando Christiano “Talkmaster”, vulgo Dubmaster, e com participações especiais de Mr. Catra, BNegão, Jimmy Luv e trilha do DD, o filme tem o tom certo. Pra vc ter uma idéia, a parada é dublada!
Se alguém ainda não tinha percebido — meio difícil, em se tratando de um artista com um disco chamado “Dub come save me” — dessa vez a influência do reggae no trabalho do Roots Manuva está mais escancarada do que nunca.
“Again & again”, do disco recém-lançado “Slime & Reason”, foge das produções mais sombrias pela qual ele se tornou conhecido. Pra começar essa segunda numa boa.
Ouça um podcast com a participação de Rodney Smith aka Roots Manuva.

foto: Carol*
Ao montar o musical “The harder they come”, baseado no filme homônimo de 1972, dirigido por Perry Henzell, a companhia Theatre Royal Stratford East se lançou numa tarefa arriscada.
Além de ser celebrado como o primeiro filme a retratar fielmente a dura vida nos guetos jamaicanos, “The harder they come” não apenas catapultou a carreira de seu protagonista, Jimmy Cliff, como a trilha sonora é considerada a responsável por apresentar o reggae para o mundo de forma massiva — até o lançamento da coletânea “Legend”, do Bob Marley, em 1984, era o disco mais vendido das história do gênero.
Portanto, transpor para o palco em todos os detalhes a história de Ivanhoe Martin, saído do interior para Kingston, em busca de uma carreira no disputada indústria musical jamaicana, não podia ser fácil.
Com um excelente elenco de atores-cantores-dançarinos, uma banda cravada no meio do palco, um cenário minimalista red-gold-green e a boa escolha do protagonista, a transformação do ingênuo Ivanhoe no rude bwoy Rhyging em cena funciona perfeitamente.
Naturalmente, com uma enorme comunidade na Inglaterra, jamaicanos e descendentes ocupam cerca de metade dos lugares do teatro, rindo sem parar das histórias de casa, provavelmente lembrando de suas dificuldades pessoais, quando trocaram seu país pela Inglaterra.
No entanto, a saga de Ivanhoe é uma história universal. Fala diretamente a quem precisa ou já precisou correr muito atrás pra fazer as coisas acontecerem (ou seja, todo mundo), embora o final nem sempre seja feliz.
Não é o caso da própria peça ou da própria colônia jamaicana na Inglaterra. Em sua segunda temporada, agora no cultuado Barbican Centre, o musical é um sucesso de crítica e público.
A platéia inteira de pé e dançando ao final do espetáculo — num lugar onde é proibido se levantar durante um espetáculo, mesmo os de música — é um espelho disso.

Depois da pedrada “Dub side of the moon”, o Easy Star All Stars entorta o clássico “Ok computer”, do Radiohead. “Radiodread” conta, entre outros, com participações de Horace Andy, Morgan Heritage e Sugar Minott.
A data oficial de lançamento é dia 22 de agosto. Mas você pode baixar agora mesmo.
1. Airbag (featuring Horace Andy)
2. Paranoid Android (featuring Kirsty Rock)
3. Subterranean Homesick Alien (featuring Junior Jazz)
4. Exit Music (For A Film) (featuring Sugar Minott)
5. Let Down (featuring Toots & The Maytals)
6. Karma Police (featuring Citizen Cope)
7. Fitter Happier (featuring Menny More)
8. Electioneering (featuring Morgan Heritage)
9. Climbing Up The Walls (featuring Tamar-kali)
10. No Surprises (featuring The Meditations)
11. Lucky (featuring Frankie Paul)
12. The Tourist (featuring Israel Vibration – Skelly Vibe)
13. Exit Music (For A Dub)
14. An Airbag Saved My Dub

Digitaldubs
fotos: Jaqueline Felicíssimo
* Esse texto foi republicado no Rio Fanzine, do jornal O Globo
Ao contrário do que a maior parte das bandas de reggae iô iô que dominam a cena no Brasil faz parecer, a música jamaicana não é (apenas) paz e amor ou aquele ritmo pra ouvir na queda de uma cachoeira, cercado de amigos numa roda de violão.
Prova disso é que o Bukowski e a Casa da Matriz se tornaram campos de batalha quando as principais equipes de som dedicadas ao gênero no Rio, o Digitaldubs Sound System e o Urcasonica Sound System, se enfrentaram, terça e quarta passadas.
Calma, calma. Não houve pancadaria nem nada parecido, a camaradagem imperou nas duas noites. O que aconteceu foi o primeiro sound clash do Rio – talvez do Brasil – um acontecimento histórico.
Sound clashes são disputas entre equipes de som (os sound systems), uma tradição jamaicana que se espalhou pelo mundo e que só agora desembarca por aqui. Como nas batalhas de MCs, tradição do hip hop em que rappers competem para ver quem rima melhor, as equipes de som ficam frente a frente com um objetivo simples: descobrir quem tem a melhor seleção musical pra sacudir a pista. A decisão, claro, é do público.
O que muda são as armas. Ao invés de palavras, cacetadas de grave. Quer dizer, as palavras também fazem parte da disputa, através de músicas feitas especialmente para a competição, conhecidas como specials. As equipes de som convidam ou contratam um cantor/MC (geralmente um nome conhecido) para gravar faixas exclusivas exaltando a própria equipe ou, no caso dos clashes, atacar os rivais.
Os dois principais clashes atualmente são o World Cup Clash, que acontece anualmente em Nova York, e o UK Cup Clash, em Londres. Desafiando a lógica, as grandes sensações desses eventos não são sound systems jamaicanos, mesmo com o bom desempenho do Black Kat ou do Bass Odissey nessas competições. Quem tem levado tudo são os japoneses do Mighty Crown e o atual campeão mundial, o Sentinel, da Alemanha.
Alinhados com as novas sonoridades de reggae, tanto o Digitaldubs quanto o Urcasônica passam longe de discos manjados de Bob Marley. Claro que clássicos de produtores como Bunny Lee, King Tubby e Lee Perry têm espaço – e muito. Mas Sizzla, Burro Banton e Buju Banton, Capleton e Morgan Heritage e outros destaques do reggae contemporâneo também tem vez.

Felipe DB e Ivan Cozac
O primeiro round foi na casa do Urcasônica, no Bukowski, na terça. Após um aquecimento de 30 minutos, cada equipe teve 15 minutos pra mostrar seu repertório e o Urcasônica levou.
No dia seguinte, o Digitaldubs recebeu o adversário na Casa da Matriz para o segundo round e dessa vez eles ganharam. O 1×1 no placar forçou o desempate, disputado imediatamente.
Lencinho, DJ da equipe Solzales Dub, cumpriu bem o papel de apresentador e juiz, explicando as regras, domando as torcidas organizadas que lotaram a Casa da Matriz e apurando os votos entre muitos gritos e braços levantados. Apesar do ineditismo do evento, o público entrou no clima e participou bastante.
No desempate, cada equipe tinha direito a tocar uma música de até 3 minutos, alternadamente. Ambas equipes foram preparadas para o combate. O Urcasônica mostrou seus specials com a participação do Manu Chao (“Resistência”) e a dobradinha Don Negrone e Mario Z em “Campeão”.

Qual vai ser a próxima?
O Digitaldubs tocou praticamente apenas faixas exclusivas e specials do seu sound system, contando com participações de respeito. Teve BNegão (num remix dubwise de “Prioridades”), Mr. Catra (“Lucro”), M7 (“Pretinho babylon”) Pato Banton (uma versão de “No worries”), Stranjah (“Soundclash part 2″, sobre o riddim “Ali Baba”), Sylvia Tella (versão de “Brothers unite”) e Jeru Banto, exaltando a equipe sobre outro riddim clássico, o “Stalag”.
Na última música, o Urcasônica cometeu um erro fatal. Em dúvida sobre qual seria a melhor música pra encerrar sua apresentação, Ivan Cozac, Bruno LT, Javier Posada e Felipe DB deixaram a pista quase dois minutos em silêncio e passaram mais 30 segundos pedindo barulho, restando apenas outros 30 segundos pra soltar o som.
Não deu. Vitória do Digitaldubs de MPC, Nelson Meirelles e Cristiano Dubmaster, os campeões do primeiro sound clash carioca. Falta agora um evento que reúna outros sound systems, como DubVersão (SP), Bumba Beat (SP) e Echo Sound System (SP), Confronto (Brasília), Solzales (RJ), Calminho (RJ) e Sensorial Sistema de Som (RJ).

Na amizade
Na comemoração, o Digital soltou um special que dizia que “o Urcasônica já era!”. Será? Literalmente batalhando por seu espaço, o Urcasônica pediu revanche, dessa vez em campo neutro, o Digital aceitou. O bicho vai pegar.

“Radiodread”. Esse é o nome da nova experiência do Easy Star All Stars, a turma responsável pela versão dub do clássico do Pink Floyd “Dark side of the Moon”, o “Dub Side of the Moon”.
O disco em questão é o não menos clássico “Ok Computer”, dos ingleses do Radiohead. A versão reggae conta com participações de Horace Andy, Morgan Heritage, Frankie Paul, e Kirsty Rock e está programada pra sair só em setembro de 2006.
Michael G, produtor do disco (e co-produtor do “Dub side…” com Victor “Ticklah” Axelrod), falou no saite da gravadora Easy Star sobre “Ok computer” e da expectativa em torno de qual seria o sucessor de “Dub side…”:
“Conceitualmente e tematicamente nós sabíamos que o disco era um forte candidato, mas não tínhamos certeza se os arranjos iriam funcionar. Por um lado, ‘Ok computer’ possui melodias marcantes, dinâmica intensa e atmosferas viajantes, por outro, tem mudanças de tempo e de acordes e coisas que não são típicas do reggae. Quanto mais análisavamos, mais tínhamos certeza de que era um disco que tínhamos que fazer.”
Será uma longa espera.

Abaixo, o release que escrevi para o disco de estréia do Echo Sound System.
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Formado pelos produtores Pedro Dubstrong (DJ da Chocolate Crew e conhecido por suas mixtapes), Gustavo Sola e pelo o multi-instrumentista Gustavo Veiga (metade da dupla Veiga & Salazar), o Echo Sound System não é (mais) uma banda de reggae, nem é apenas um grupo de hip hop; é um coletivo de produção com raiz nas vertentes jamaicanas, mesclando diversas influências.
“Do centro de SP mandando ver pro mundo inteiro / freqüências e efeitos em estéreo brasileiro”, diz Jimmy Luv em “Todos um”.
O trio apresenta suas intenções logo no nome. Inspirado na cultura dos sound systems e ecoando diversos estilos da música jamaicana, o Echo Sound System utiliza a tecnologia para promover o reencontro do reggae e do rap, dois gêneros nada distantes (afinal, os rappers são descendentes diretos dos toasters jamaicanos). De quebra, mostra como são extensos os espectros tanto do hip hop, quanto da música produzida na ilha enfumaçada.
O disco de estréia, “Tempo vai dizer” (ST2 Records), mixado por Ganja Man e Tejo (Instituto), combina esses vários estilos. Vai do rocksteady de “Só d’eu ver(de)” ao dancehall de “Vampire”, passando pelo dub (“Supamind dub”), pelo reggae (“Pas tester”), pelo rub-a-dub (“I & I”) até o hip hop (“Punanny”). Além de Veiga, responsável pelo violão, baixo, teclados, flauta e escaleta, o baixista Gema e o saxofonista Andres Salazar também tocam no disco.
Conhecer os sound systems jamaicanos é fundamental para compreender a importância do reggae para música mundial. Desde os tempos do ska, nos anos 50, até o dancehall dos dias de hoje, todas as noites, em alguma esquina de Kingston, potentes aparelhagens de som são montadas para animar festanças gratuitas ao ar livre. Essas festas ambulantes são a mais respeitada forma de propagação musical na Jamaica, servindo de campo de testes para novas músicas e cantores.
Naturalmente, há um espírito competitivo entre os sound systems para ver quem sai na frente nos lançamentos. Não por acaso, foi um jamaicano, o DJ Kool Herc, quem primeiro botou caixas de som nas ruas do Bronx. Depois vieram Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa e o resto é história.
Apesar do respeito pelo passado, “Tempo vai dizer” não soa retrô. A produção caprichada atualiza as referências, misturando umas as outras, resultando num som original.
“Echo Sound System, raiz com futuro”, como é dito na faixa “Pas tester”.
Isso fica claro nas espertas programações de bateria, nos timbres diferenciados e nas ambiências viajantes. Outro diferencial é o bom uso de efeitos diretamente emprestados do dub (como delays, ecos e reverbs), sem nunca soar exagerados ou fora de propósito. Os efeitos estão em todo o disco e não apenas em faixas como “Bom filho” e “Kaya monkeys (safari dub)”, onde a influência de dubmasters como Scientist fica óbvia.
As batidas de hip hop são sustentadas por linhas de baixo (“Leão de asas”) ou por samples de bateria de reggae setentista (“Pas tester”). Os reggaes, por sua vez, seguem o caminho inverso, aceitando elementos do rap. Os MCs Funk Buia (Z’África Brasil), Jimmy Luv e Arcanjo (Enganjaduz) e o francês Pyroman (Assassins), se revezam nos vocais, variando entre o discurso social, o divertido e o espiritual.
“Todos um”, um hip hop com um pé no dancehall, que já havia sido lançada em um compacto de vinil, em 2004, conta com Funk Buia no microfone. “Só d’eu ver(de)” estava no lado b da mesma bolacha, prensada no clássico formato 7 polegadas dos lançamentos jamaicanos. Enquanto Arcanjo dá “um minuto pra explodir” na potente “Inna babylon”, Jimmy Luv despeja sinceridade na quebradeira de “Replay”.
Na Jamaica, é comum diversos cantores fazerem versões da mesma música, criando novas letras e melodias utilizando bases musicais idênticas, lá chamadas de riddim. Seguindo essa tradição, em “Original style” Pyroman canta sobre “Stalag”, riddim eternizado por “Bam bam”, na versão de Sister Nancy.
Além dos colaboradores regulares do Echo, o jamaicano General Smiley, integrante da dupla Michigan & Smiley (conhecida por hits do dancehall do começo dos anos 80, como “Diseases” e “Rub a dub style”), também está em “Tempo vai dizer”. Mesmo sem intenção, a mistura de línguas internacionalizou o som, o que pode abrir uma frente para o Echo Sound System no exterior.
General Smiley conheceu o Echo Sound System através da página do grupo no saite My Space (www.myspace.com/echosoundsystem) e fez toda sua participação à distância. Sua parceria, de rachar o coco, com Funk Buia em “Rookie rock” (produzida em conjunto com o suíço Romanowski, do coletivo Future Primitive Sounds), é um dos destaques do disco. Na edição especial em vinil, a música ganhou um remix do Turbo Trio, projeto paralelo de BNegão, Tejo e Alexandre Basa.
Após 21 faixas, “Tempo vai dizer” não cansa. “Favorite song” encerra o disco num astral tão bom que faz o ouvinte desejar que as vinhetas fossem músicas completas, só pra ter mais um gostinho. Ou então, que o CD fosse um vinil, pra poder virar o lado e continuar escutando.
De vez em quando, o Soulseek mostra todo o potencial do qual uma comunidade de troca de arquivos é capaz. Uma das funções mais interessantes do programa é poder conversar com outros usuários enquanto baixa suas músicas, trocar idéias, sugestões.
Foi num desses papos que cheguei no disco de estréia do inglês Rodney P. Indo atrás de mais um bootleg de hip hop com reggae, encontrei um usuário querendo baixar coisas brasileiras. Pra não fugir do tema, recomendei o Black Alien. Do lado de lá, veio a dica: “The future”.
Com o hip hop dominado por fórmulas e beirando a estagnação (no mainstream, é bom dizer), o título do disco de Rodney P é categórico. “The future”, ou “O futuro”, pula as obviedades e clichês e aponta novos caminhos. Levando o cruzamento hip hop/reggae as últimas consequências, as faixas são atochadas de referêncais jamaicanas.
Tal e qual Black Alien por aqui, Rodney P fez parte de um dos primeiros grupos de hip hop da Inglaterra, o London Posse, protagonizou muitas participações especiais (com Roots Manuva, Bjork, Brand New Heavies) e manteve diversos projetos paralelos (ele é apresentador do programa “Original Fever”, na Radio One inglesa). Por conta disso, demorou uma década pra lançar seu disco solo.
Em outubro de 2004 veio a pedrada. A demora foi justificada e serviu pra mostrar que quantidade não é sinônimo de qualidade. A atual velocidade com que músicas têm sido gravadas e distribuídas, todo mundo querendo sair na frente, algumas vezes pode atrapalhar o resultado final.
Em “The future”, samples de Black Uhuru (“The future”) e citações a Bob Marley (“Intro”) se misturam à nomes menos óbvios, como Junior Byles (“Fading”). Guitarras ecoando, pancadinhas no teclado e viradas de bateria parecendo cortadas diretamente de algum LP produzido por Bunny Lee nos anos 70 (“Trouble”) marcam ritmo junto à batidas de dancehall (“I don’t care”), servindo de base para Rodney largar a falação enquanto sacodem o ouvinte.
A abordagem dubwise da mixagem é escancarada no downtempo “Vibe” e na, realmente, matadora “Riddim Killa”. As linhas de baixo não amassam o peito como as do Roots Manuva, mas por que deveriam se o RM já faz isso tão bem? O caminho aqui é outro e a escolha dos produtores reflete isso. Estão nos créditos, além do próprio Rodney, Adrian Stone (Elephant Man), Dobie (Soul 2 Soul, Bjork) e outros.
Pode-se dizer que essa aproximação dos universos reggae e hip hop, potencializada pelo estouro do dancehall mundo afora, já vem tarde. Apesar do frescor, não é a invenção da roda, muito menos uma mistura absurda. Simplesmente não existiria rap — ao menos como o conhecemos hoje — se não fosse o reggae.
A cultura dos sound systems e dos toasters (djs que pegavam o microfone pra falar sobre as músicas e fazer comentários do seu cotidiano) foi levada para Nova York pelos imigrantes jamaicanos. Não por acaso, Kool Herc, criador do back-to-back, veio da Jamaica.
O “futuro” apresentado por Rodney P, portanto, tem um bocado de passado. Faz sentido. Ninguém chega à lugar algum se não souber de onde está vindo.

foto: Carol Mariotto
Resenha do URBe, para o Rio Fanzine Online (O Globo).
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Gregory Isaacs no Brasil
Ganhar uma segunda chance, em qualquer coisa, é raro. Nesse quesito, no entanto, 2004 até agora tem sido generoso. Quem havia perdido as visitas anteriores de Massive Attack e Kraftwerk, teve outra oportunidade de conferir esses shows. Com o ano acabando, mais um nome fundamental dentro do seu gênero voltou ao Brasil: Gregory Isaacs.
Ao contrário dos dois primeiros, o Cool Ruler superou sua visita anterior. A medida que a turnê avançava, os comentários positivos sobre as apresentações de Gregory Isaacs pelo Brasil iam se acumulando. Recife, Salvador, São Paulo, por onde passava o rei do Lovers Rock (vertente romântica do ritmo jamaicano, o que lhe rendeu o apelido de Roberto Carlos do reggae por aqui) ia desfazendo a má impressão deixada na sua última passagem, quando ficou devendo uma atuação digna de sua história.
No entanto, 2004, o ano do repeteco, não ajudou os cariocas. O Rio ficou de fora de boa parte dos grande eventos que agitaram outros estados e com Gregory Isaacs não foi diferente. Para quem enxergou essa vinda como uma chance imperdível de ajustar as contas com o passado, restou ir para Juiz de Fora, em Minas Gerais, o mais perto que o jamaicano chegou do Rio.
O povo de Juiz de Fora, solícito e gente boa, compareceu ao Free Hits, mas não lotou o lugar. Antes do show começar, os DJs do Urcasônica (que abriu a noite, botando som antes do Grave!) ouviram até pedidos para tocar umas musiquinhas do Gregory. “Pra gente ir conhecendo”, explicou o rapaz.
Nem precisou. Acompanhado pela boa banda brasileira Leões de Israel, Isaacs entrou no palco depois das 3h da manhã e em três músicas todo mundo, conhecendo ou não, estava dançando. De terno branco, blusa preta e boné do NY Yankees, a voz saia limpinha, tal e qual nos discos.
A primeira foi “Number One” e depois o velhinho enfileirou hits como “My only lover”, “Front Door”, “Soon Forward”, “Slave Master”, a clássica “Night Nurse”, “Raggamuffin”, “Love is Overdue”, fora a citação a “People are you ready”, do Tappa Zukie. Repertório pra agradar qualquer um.
Conforme o transcorrer do show, Gregory foi ficando mais à vontade. Primeiro tirou o terno, depois abriu a blusa. Não demorou muito e já tava chamando uma menina pra subir no palco. A garota ficou cinco minutos lá em cima enquanto um amigo tentava tirar uma foto. No meio do show. Ninguém reclamou.
Se ele tivesse cantado uma música já teria valido a pena, só por ver uma lenda do reggae ao vivo. Foi bem mais do que isso. Quem perdeu, reze à Jah por uma terceira chance. Essas, porém, costumam ser bem mais difíceis.
Encerrando a mini-temporada do Digital Dubs na Matriz, ontem foi a vez do Quinto Andar fazer sua participação. Ao invés da tradicional trupe, o grupo se apresentou em versão reduzida; apenas Shawlin, De Leve, o trompetista Pedro e o DJ Castro.
Antes e depois do show, Nelson Meirelles e MPC mandaram ver num set com músicas como “Happiness”, do Black Uhuru (em versão produzida por Gussie P.), “Baby I love you so”, do Jacob Miller e “Liberation dub”, do Groove Corporation. O DJ Castro também botou som antes de tocar com o Quinto Andar, abrindo o set com a bambástica “Bam bam”, da Sister Nancy.
A exemplo do Echo SS, o destaque do show foi mesmo o instrumental. Até porque na Matriz o som na ajuda e, quem não conhecia as letras de “Largado” ou “Babilônia Teima”, continuou sem conhecer. As bases estão bem chapadas, com graves pesadões escancarado as sutis inclinações jamaicanas do grupo, principalmente em direção ao nu roots e ao dancehall. Em algumas músicas, as bases eram de discos de reggae mesmo, como o riddim “Stalag” (o mesmo de “Bam Bam”).
A pista balançou a noite inteira, o que leva a pergunta: quando teremos uma noite semanal dedicada aos ritmos jamaicanos na cidade!? Tá cheio de dj bacana pra tocar e — a julgar pela quantidade de gente presente nos eventos da maratona regueira dessa semana — tem público também.
O Quinto Andar promete disco para outubro, dizem por aí que sai pela OutraCoisa, do Lobão. Segundo De Leve, no repertório estão incluídos dois funk, dois raggas e até um dub. Deve vir coisa boa.
Posted by bnatal at 04:54 PM | Comments
Easy Star All-Stars – “Dub side of the moon”
No aniversário de 30 anos o clássico Dark side of the moon ganha esta versão inusitada. O título, Dub side of the moon, é auto-explicativo: trata-se da versão dub do mais importante disco do Pink Floyd. O pai da idéia é o coletivo nova-iorquino Easy Star All-Stars, liderados pelos produtores Michael G e Victor “Ticklah” Axelrod, um dos mais celebrados nomes do reggae contemporâneo.
O dub é o reggae em psicodelia máxima. Nascido na Jamaica dos anos 70, das mentes de gênios como Lee Perry e King Tubby, é caracterizado principalmente pela ênfase no baixo e bateria, aliado a muitos ecos e efeitos de estúdio. O dub foi primeiramente utilizado como recurso para produzir os lados “B” dos compactos, versões alternativas das músicas lançadas na época. Acabou crescendo e se tornou praticamente um gênero musical independente. Antes restrito a um clube de admiradores, como produtores e músicos, atualmente é a forma de música jamaicana mais difundida, seja na sua forma mais pura, seja através de experimentações, principalmente com a música eletrônica.
Portanto, não é de se estranhar que os caminhos do dub e do Pink Floyd tenham se cruzado. Ambos possuem elementos ultra-psicodélicos, desenvolvidos em estúdios cada vez mais modernos e cheios de recursos. No entanto, Dub side of the moon não se trata de um simples remix das versões originais em roupagem reggae. Todas as músicas foram regravadas em estúdio. A regravação foi autorizada pelos autores originais, incluindo Roger Watters, na época principal compositor da banda. Embora cada um deles tenha recebido uma cópia do disco, ainda não se tem notícia do que eles acharam do resultado final. Uma curiosidade é que o baixista do Easy Star All-Stars, Victor Rice, é figura fácil no Brasil e, além de arranhar um português, tem até um apartamento em São Paulo.
As participações especiais vão desde o tradicional trio The Meditations, em Eclipse, à Gary “Nesta” Pine, vocalista do The Wailers, em Money, passando por figuras menos conhecidas por aqui, como Dr. Israel e Sluggy Ranks. Money, aliás, é um dos melhores momentos do disco. Aqui, o conhecido ruído de caixa registradora que abre a música é substituído pelo borbulhar de um bong, o acender de um isqueiro e o som de alguém tossindo, após uma forte baforada adivinhem de quê.
Time também não fica atrás e é responsável pelo primeiro grande momento reggae do disco. É nessa música que você provavelmente vai dizer pela primeira vez: “mas o que esses caras estão fazendo?!”, frase que com certeza se repetirá ao longo do disco. Obedecendo a ordem original do disco, antes disso tem Speak to me e Breathe, que por serem curtas não permitem um mergulho mais pronfundo no ritmo jamaicano, e On the run, numa versão drum ‘n’ bass neurótica.
Ao longo das nove músicas, Dub Side of the Moon é fiel ao original. O cuidado foi tanto que se procurou manter idêntico o tempo e a levada das músicas, ainda que em outro ritmo. Mantiveram-se as primorosas passagens de uma faixa para outra, cuidadosamente elaboradas pelo engenheiro de som de Dark Side of the Moon, Alan Parsons. O disco flui ininterruptamente, exatamente como há 30 anos atrás. Uma prova desse grau de cuidado é o fato de ser possível fazer a falada sincronia entre o disco e o filme O Mágico de Oz, com instruções no encarte e tudo.
Para completar, mantendo a tradição do dub, o disco encerra com quatro músicas de bônus com títulos pra lá de interessantes. São versões das versões, feitas com mais liberdade e menor preocupação em seguir à risca os originais. Dub ao quadrado, portanto. Time version substitui os vocais por uma melódica, espécie de escaleta, celebrizada no mundo do reggae por Augustus Pablo, que faz valer o disco. Fechando o disco vêm, Great dub in the sky, versão para Great gig in the sky, Step it pon the rastaman scene e Any dub you like, versão de Any colour you like.
O disco saiu nos Estados Unidos em fevereiro e ainda não tem previsão de ser lançado no Brasil. Algumas lojas de discos importados têm cópias, se preço não for um problema. Enquanto Dub side of the moon não sai por aqui, dá para matar a curiosidade no site da gravadora, www.easystar.com, que disponibilizou quatro músicas: Money, Great gig in the sky, Us and them e o bônus Step it pon the rastaman scene. Tanto os fãs de reggae quanto os de rock podem escutar sem susto. É material de primeira.
O outro lado da lua: Projeto recria o álbum do Pink Floyd em versão dub
BRUNO NATAL
Especial para FOLHA
Alguém já disse que não se deve mexer nos clássicos. Porém, no aniversário de 30 anos de lançamento, o disco mais famoso do Pink Floyd, “Dark Side of the Moon”, ganhou uma releitura. “Dub Side of the Moon” é sua versão reggae -dub, para ser mais exato. O responsável pela versão é um coletivo de músicos de Nova York, o Easy Star All-Stars, e o resultado dessa idéia que, de tão simples parece boba, é surpreendente.
Não se trata de uma remixagem das composições originais. As músicas foram inteiramente regravadas em estúdio para ganhar suas versões no ritmo jamaicano. O disco – produzido num período de dois anos por Michael Goldwasser e Victor “Ticklah” Axelrod, tido atualmente como um dos grandes nomes do dub e do reggae – conta com diversas participações especiais, destacando-se a do vocalista do The Wailers, Gary “Nesta” Pine, e a do trio The Meditations, em “Money” e “Eclipse” respectivamente. Em entrevista por e-mail, Victor Rice, baixista do Easy Star All-Stars, conta que a principal dificuldade da regravação foi conseguir manter o tempo exatamente igual ao original.
“O reggae é uma música muito particular. Foi doloroso encontrar a pegada certa para cada música sem perder nem alterar o tempo. Mas valeu a pena. É possível até mesmo escutar “Dub Side of the Moon” assistindo a “O Mágico de Oz” “, diz, referindo-se à suposta sincronia com o filme, do qual “Dark Side of the Moon” seria uma trilha sonora alternativa.
Os membros originais do Pink Floyd, incluindo Roger Waters, não interferiram na gravação. “A única participação do Pink Floyd foi também a mais importante: ter dado sinal verde para a regravação”, conta Rice.
No entanto, embora todos os membros tenham recebido cópias do disco, não se sabe ainda se eles gostaram do resultado. Por aqui, Nelson Meirelles, produtor de bandas como Cidade Negra e O Rappa, considera que a fusão de Pink Floyd com reggae tem tudo a ver. “Sempre achei que o Pink Floyd tinha o DNA do reggae por vários motivos: pela economia de notas, pela proeminência das linhas de baixo e pelos efeitos de estúdio”, afirma.
Na verdade, essa não é a primeira vez que os caminhos do rock psicodélico e do reggae se cruzam. O Grateful Dead já ganhou versões de seus clássicos em “Fire on the Mountain – Reggae Celebrates The Grateful Dead”, volumes 1 e 2, discos de 1996 e de1997, com participações de Steel Pulse, Gregory Isaacs e Michael Rose, entre outros.
Victor Rice completa: “Escolher uma música ou disco para ganhar uma versão dub é, na verdade, uma atitude de respeito. Não há como melhorar “Dark Side of the Moon”, só é possível celebrá-lo”.
No exterior, o disco saiu em 18/2 e, por enquanto, não tem previsão de lançamento no Brasil. Mas a gravadora disponibilizou três músicas no site www.easystar.com: “Money”, “Great Gig in the Sky” e “Us and Them”.
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Documentarista, jornalista, carioca, boto som mas não sou DJ e provavelmente passo tempo demais online.
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