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A apoteose do Criolo

“A pirataria é  a nova rádio”. Prova das recentes palavras de Neil Young foi o Circo Voador superlotado (não “suuuper lotado”, de legal, lotado além da conta mesmo), com mais de 3 mil pessoas se espremendo para ver o Criolo em sua segunda passagem pelo Rio com “Nó na Orelha”, um dos melhores discos de 2011, distribuído gratuitamente em sua página. Quando o trabalho é bem feito, o grátis vai longe.

O carnaval ainda não chegou e Criolo já teve sua apoteose. O que se viu no Circo no sábado foi único. Não apenas por se tratar de um artista de São Paulo sendo aclamado no Rio, tendo seu nome urrado (é notório o quanto carioca implica muito mais com paulista do que vice-versa) ou todas as letras cantadas pelo público. Principalmente pela velocidade com que isso aconteceu.

Díficil dizer que a platéia era formada por amantes do rap, assim como não se pode dizer que era apenas a pleiboisada indo na onda. Estava lá a “atitude hip hop”, com a platéia batendo a mão no ar e cantando alto a citação a “Rap é Compromisso” (Sabotage). Estava lá também a atitude carioca, com muita gente alheia ao show e tomando uma cervejinha e batendo papo fora da lona. Tinha de tudo. É impossível determinar um perfil de público, o que ao mesmo tempo explica e torna mais difícil entender o fenômeno Criolo.

Tratado como um novo artista estreando, Criolo, há muito tempo na estrada, explodiu com seu segundo disco. Misturando rap, mpb, afrobeat e reggae, citações de Chico Buarque e uma penca de aparicões em listas de destaques do ano, “acusações” de ser gay (seja lá o que isso signifique…), o paulistano entrou em uma trajetória fulminante. É possível fazer um paralelo com a ascensão do Seu Jorge: as durezas do passado, a revelação tardia, a faceta crooner, um repertório que tanto pode ser visto como “eclético” quanto “atirando pra todo lado”.

Mesmo que o rap hoje seja mais uma influência do que uma constante no show, Criolo não se esconde . Político, disse que ninguém ali era burro e exibiu um cartaz onde se lia “os mortos de Pinheirinho nao me deixam comer”, em alusão ao protesto de greve de fome sendo feito por Pedro Rios em frente a sede da TV Globo.

Para alguém que estava há duas décadas tentando cavar seu espaço, não resta dúvida que o que o que catapultou Criolo para o sucesso foi a nova embalagem musical. Produzido por Ganjaman (que já havia chegado perto disso com Sabotage, morto precocemente), o disco acertou em cheio o público que mirou: suingueiro, pra cima, com uma banda de baile (herança das homenagens aos discos “Racional 1 &2″ feitas pelo Instituto) impecável. Só o naipe de metais já vale o show.

O fenômeno Criolo é uma soma de tantos fatores (qualidade discurso e musical, livre circulação de mp3, a grande imprensa ter abraçado – sim, ainda faz muita diferença quando se fala de um público do tamanho do que estava no Circo – o momento sócio-econômico brasileiro – a história de vida dele ajuda a vender o “produto”, etc) que tentar encontrar o motivo principal do sucesso é um exercício inútil. Muito melhor é  simplesmente aproveitar, já que poucas vezes esses sucessos vem aliados a um som de alto nível.

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A volta do Mayer Hawthorne

Primeiro artista a participar duas vezes do Queremos! – por merecimento, já que sua primeira passagem pelo Rio foi um sucesso – Mayer Hawthorne voltou ao Circo Voador  e provou que a visita foi proveitosa: um público muito maior e conhecendo melhor as músicas saudou o soulman branquelo de Detroit. A festa foi longe, até altas horas da madrugada, com os DJ sets do Nepal e do próprio Mayer.  Belezura de noite.

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Rapture + Breakbot no Circo Voador: O arrebatamento

tem muitas fotos no I Hate Flash

Mesmo com muita chuva, cerca de 1.200 pessoas foram até o Circo Voador conferir o The Rapture. Em tocar no Rio desde 2003, muita coisa aconteceu de lá pra cá: a banda gravou mais um disco, um dos integrantes saiu, o grupo quase acabou e ressurgiu ano passado com o ótimo “In The Grace of Your Love”.

O tempo passou e isso ficou claro; tanto na atitude mais contida dos integrantes no palco quanto na evolução sonora, menos punk e mais bem acabada. Ganha-se de um lado, perde-se do outro, menos explosão em troca de músicas mais elaboradas. Porém é sempre melhor ver uma banda que não se repete do que eternos pastiches dela mesma.

Fez falta um clique para o baterista, perdendo o tempo diversas vezes, pra trás, quase sempre nas mudanças de desenho, tornando as músicas mais lentas do que o normal. Num som como o do The Rapture, em que bumbo e caixa empurram todo o resto, isso faz bastante diferença. Não prejudicou nem ninguém ligou. O público abraçou o repertório e levou a banda no colo até o fim do show.

Foi curto, faltaram “Sister Saviour” e “It Takes Time To Be a Man”. Do lado de fora, a chuva apertou e pressionou a platéia pra dentro da lona, dando mais pressão e garantindo que ninguém iria embora tão cedo. A noite seguiu com uma discotecagem de duas horas do Breakbot.

O francês  segurou a onda e a pista pegou até quase 4 da manhã. No final, um aparição surpresa do Mayer Hawthorne, aproveitando para anunciar seu show na semana que vem ali mesmo no Circo. Você que é feito de açúcar e ficou em casa perdeu uma noitada e tanto.

Compra um guarda-chuva, só pra se garantir para as próximas.

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Disse o Cícero

Assim que entrou em cena, Cícero se deparou com problemas no seu violão elétrico. Sem graça, pediu desculpas, disse que tinha acabado de passar o som e que tudo ia dar certo.  O público do teatro Solar de Botafogo, abarrotado em pleno recesso não-oficial de final de ano, com gente sentada pelas escadas, nem ligou. Eram todos fãs e estavam na mão do compositor.

Quando comentou sobre o coro de uma música em que a plateia participou (após insistentes pedidos do cantor), disse que em Belo Horizonte não tinha sido atendido e tinha ficado até sem graça. Um rapaz gritou “é mentira! eu estava lá!”. Desde que lançou o clipe de “Tempo de Pipa” em junho, uma viagem neo-hippie pelo bondinho de Santa Teresa, Cícero vem conquistando seguidores – de verdade, não no Twitter.

Lançado de maneira independente e disponibilizado gratuitamente em sua página, o disco “Canções de Apartamento” foi se espalhando e levando Cícero a tocar pelo Brasil, entrando em listas de melhores do ano de blogues (“não que isso seja importante”, disse após contar para o público sobre esse fato), começando a construir uma carreira. Conferir o burburinho foi o motivo da ida ao show.

Cícero gosta do palco. Pode ser somente uma empolgação inicial, fato é que a quantidade de trejeitos e gracinhas para plateia (como roer as unhas ao microfone apenas para ser repreendido por uma fã mais entusiasmada) beiram a afetação. O que pode atrapalhar ou ajudar, depende do público que ele estiver mirando.

Em certo momento, Cícero brincou com participação da plateia, dizendo que estava se sentindo a Maria Gadu. No ponto em que está, a comparação faz sentido, mais até do que as apontadas similaridades com Los Hermanos e Rodrigo Amarante. As boas letras estão prontinhas para as massas; “Ensaio Sobre Ela” é só botar pra tocar na novela.

Musicalmente, no entanto, tudo ainda soa bastante derivativo (Radiohead, LH): toda música inicia bossa, explode indie e fecha bruscamente, num formato repetitivo. Faria bem um despreendimento estético, experimentar mais. Caminho tem e a interessante versão de “You Don’t Know Me”, feita em cima de “João e o Pé de Feijão”, (ah, se Caetano vê…) mostra isso.

Antes do final, Cícero agradeceu aos fãs pela divulgação no Facebook e na internet (nessa ordem) e num discurso altruísta, convocou o público a ajudar mais artistas a aparecer publicando músicas de novos nomes em seus perfis, dividindo a própria audiência sem nem saber com quem.

Entre as canções o compositor sentia-se obrigado a se comunicar com o público, repetindo o agradecimento por todos estarem ali, emcerrando o papo com um “não tenho mais o que dizer”. Engano dele.

Ainda no começo da jornada, Cícero já tem um número relevante de fãs dispostos a ouvi-lo. Só isso deveria ser motivo para sentir-se seguro para arriscar mais e explorar o próprio talento. Em tempos de carreiras relâmpago, em que artistas se descobrem e amadurecem na frente do público, não dá para esperar muito tempo pra isso.

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Chegando atrasado 14: Tame Impala, “Innerspeaker” – o melhor disco de 2010

Hora de começar as listas de melhores do ano. Antes de entrar em 2011, é preciso fazer um ajuste a lista de melhores discos internacionais de 2010 aqui do URBe.

2010 deve ter sido o ano mais complicado de se elaborar uma lista de melhores do ano (a de melhores discos nacionais de 2010 nem se fala…). Olhando em retrospecto, mudaria a colocação de alguns, descartaria outros que não sobreviveram nem até 2011 e, principalmente, incluiria essa maravilha abaixo no topo da lista:

A estreia dos australianos do Tame Impala (após dois EPs) não apenas deveria ter encabeçado a lista de 2010, como entrou na lista de discos favoritos da vida, pra levar pra ilha deserta, essa besteirada toda. “Innerspeaker” é um clássico contemporâneo, uma jóia de disco, onde guitarras, teclados e efeitos fluem em psicodelia, um mergulho numa realidade paralela e profunda, como sugere a capa do disco, uma imagem lisérgica do Leif Podhajsk (que também fez a capa do disco de remixes do Peaking Lights, do Sun Araw, da Lykke Li…).

Estou enrolando pra escrever essa resenha e fazer esse adendo desde abril, depois de assistir o Tame Impala no Coachella e realmente ter escutado as músicas com atenção (nada supera o ao vivo).

Do chuvisco que abre o disco em “It’s Not Meant To Be” e suas mudanças de andamento chapados ao fade out de “I Don’t Really Mind”; do tecladinho que abre a derreteção de “Alter Ego”, “Solitude Is Bliss” (o mais próximo de um hit no disco) ao avanço ininterrupto de “Why Won’t You  Make Up Your Mind?” (explicitado no remix do Erol Alkan); da viagem instrumental “Jeremy’s Storm” as guitarras arrastadas de “Desire Be Go”, o Tame Impala passa influências setentistas (Led Zeppellin, Floyd, Beatles, Cream, King Crimson) por um filtro stoner noventista.

A sonoridade, propositalmente lo-fi, tem também bastante influência da música eletrônica (a banda remixa e é remixada bastante) na construção dos arranjos, no uso dos efeitos, na pegada da bateria. Poderia ser apenas retrô, poderia ser apenas indie ou experimental. É tudo isso junto.

E tem as letras:

Well it’s true, yes
but you wont’t get far
telling me that you are
all you’re meant to be
when the one from my dream
is sitting right next to me
and I don’t know what to do

Oh, alter ego

Som, letras, capa, é um pacote completo. Disco nota 10 pra ouvir por muito e muito tempo.

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Murcof e a performance na música eletrônica

Um apresentação memorável deve se destacar em dois quesitos (ao menos): o musical, óbvio, e a performance. Ontem, Murcof sobrou na primeira parte na sua apresentação no Novas Frequências. Construções ambiente com arranjos de cordas sinteizadas, cortes, batidas tortas, é um recital de um homem só.

É aí que vem o problema. Por se tratar de apenas uma pessoa sentada de frente para o computador, a performance simplesmente não existe. É um problema recorrente quando se fala em apresentações de música eletrônica, uma reclamação que vem desde quando se começou a colocar os DJs em cima do palco, amplificado na era da música de laptop.

É como se estivesse ouvindo um disco em grupo – o que em parte é o desejo de Murcof, que queria ter se apresentado totalmente no escuro, sem aparecer. A sensibilidade ao montar os arranjos ao vivo, controlando os efeitos, entrada e saídas de cada canal, num fluxo contínuo de sons é perceptível. O que faz falta mesmo para quem assiste é ter algo para acompanhar, uma vez que é um show, não uma audição.

Talvez um telão com uma câmera mostrando o que se passa na tela (quem nunca colou vendo guitarristas ao vivo?) e o uso dos periféricos talvez enriquecesse a experiência Talvez não, apenas tirasse o foco da música, dos sons. E era com isso, e somente com isso, que Murcof estava preocupado. Essa parte ele entregou, com louvor.

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Sun Araw no Rio

A sensação após o show do Sun Araw, ontem abrindo o festival Novas Frequências, foi atordoante. A chapação proporcionada por camadas e mais camadas de guitarras e sintetizadores, batidas programadas da MPC, ecos, delays e efeitos de pedal, fizeram alguns dormir. Outros, mais insistentes, mergulharam nessa maçaroca sonora, em busca do grave, lá no meio, pulsando calmamente, amassando o cérebro, como um prêmio pela aventura.

Liderado pro Cameron Stallones, sósia magrelo sósia do Anthony Kiedis (RHCP), o trio reconstrói as músicas gravadas solitariamente pelo texano em seu quarto em Los Angeles. Psicodelia e repetição são palavra de ordem, loops de linhas de teclado e de guitarra induzindo ao transe, linhas de baixo vindas do dub. A ligação coma  Jamaica é forte, recentemente Cameron foi a Jamaica gravar com o The Congos.

Perto do final do show, um dos cabos da shahi baaja ( instrumento indiano tocado por um dos músicos, googlei essa, óbvio) deu o famoso Maucon (mau contato) e saiu de cena. O acontecimento evidenciou que a dinâmica constante, deixando o som um tanto reto, poderia variar mais. Soou bem sem o instrumento, poderia variar mais.

O problema foi também responsável pelo “momento extintor de incêndio no museu” da noite. Ninguém teria percebido que se tratava de um defeito se o músico não tivesse apontado. O ruído causado pelo cabo era totalmente compatível com a sonoridade lo-fi do Sun Araw. Numa banda tão experimental, faltou incorporar o imprevisto.

Nada que tenha prejudicado a apresentação, uma das grandes surpresas do ano. Nem passava pela cabeça ver o Sun Araw ao vivo, muito menos no Rio.

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A melhor resenha de câmera de todos os tempos

Dica do @fcontinentino.

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Corta. Cola. Deleta.


foto: URBe Fotos

O título é só pra não perder a piada, um exagero – e as mais de 1.500 pessoas alucinadas com o show no Circo Voador ontem certamente discordam. Fui disposto a gostar, pra mim é que não dá, mesmo. Esse Cut Copy é chato pra dedéu. Timbragens bregas,  ”estilo Songify” como ouvi dizer por lá. Só gosto deles remixados. Por outra pessoa.

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Wado, “Samba 808″ (2011)

Demorou mas chegou. Ontem a noite Wado soltou  “Samba 808″, seu sexto disco. No Twitter, antes de fazer comentários sobre cada música, o compositor anunciou o lançamento como um parto. A ilustração do rescém-nascido da capa seria então uma espécie de metalinguagem, dupla (tripla, considerando “Feto”, música do primeiro trabalho): nasceu não apenas o disco, como, cinco bolachas depois, nasce também o Wado. Ou um Wado, por precaução, já que o catarina radicado em Alagoas segue se reinventando.

Lançado exclusivamente em formato digital, não há previsão de lançamento físico. O CD é mesmo dispensável, um vinil iria bem. Seja como for, é uma atitude interessante. Sem gravadora, selo, nada. É o disco e a internet, a “cultura MP3″, como explicou Wado no texto de apresentação.

Em “Samba 808″, os sambas, funks e as chapações ensolaradas da tríade “Manifesto da Arte Periférica”, “Cinema Auditivo” e “A Farsa do Samba Nublado”, sempre enfeitados por efeitos eletrônicos e camadas de sintetizadores, encontram as batidas terceiro mundistas do “Terceiro Mundo Festivo” e a diáspora negra cantada em “Atlântico Negro”, quando Wado inverteu a ordem dos fatores e a programação ganhou destaque.

Equilibrando-se entre essas duas variações – eletrônica ao fundo ou a frente – “Samba 808″ encontra, desde o título, a mistura exata. É um disco catalisador de ideias musicais espalhadas pelos outros trabalhos. Aqui, como de costume, as referências são absorvidas, filtradas e devolvidas de maneira sutil, onde as timbragens são mais importantes do que emular batidas.

Num disco carregando “samba” no nome, “Não Para Não”, re-interpretação chapada do funk “Elas Estão Descontroladas”, demonstra até onde se estica o conceito de “versão” de Wado – fará Tom Zé feliz. O sopro de inovação chega longe. Um dos destaques do disco, “Com a Ponta dos Dedos” coloca Marcelo Camelo sobre uma base eletrônica (primeira vez?) – e traz de brinde uma Mallu não-creditada.

Ao que parece, Wado chegou e cansou de esperar. E se gente suficiente não escuta suas composições pelo caminho usual, ele está disposto a encontrar algum atalho. Das dez músicas, sete tem alguma participação especial. A lista pode abrir portas físicas e janelas virtuais para Wado em diferentes públicos: além de Camelo; Zeca Baleiro, Chico César, Curumin, Fabio Góes, Fernando Anittelli, André Abujamra e Alvinho Lancellotti também participam.

Tomara. Disco após disco, Wado continua não recebendo a atenção que merece. Já é hora disso mudar, de vez.

Ouça todas as músicas:

O próprio Wado escreveu o texto de apresentação do “Samba 808″ e comentou cada faixa no twitter:

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Tudo rosa: Ariel Pink e Pains no Circo Voador


Ariel Pink
fotos: URBe Fotos (via Instagram)

“Esse Ariel Pink é maluco”. Essa deve ter sido a frase mais repetida na noite de sexta por quem viu o sujeito no palco do Circo Voador a frente da sua banda de apoio, o Haunted Graffiti. Líder da banda e tido com um dos precursores da onda lo-fi, Ariel vive no seu próprio mundo. Diz que não ouve música e que pouco se importa em ser referência.

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Sharon Jones (se) sacode (n)o Rio

Por conta do meu desconhecimento da carreira da Sharon Jones além das músicas mais óbvias, passei quase uma hora tentando encontrar o título da que filmei no show de ontem, no Casa Grande, parte do BMW Jazz Festival. Googlei vários pedaços da letra + “Sharon Jones” e nada. Desisti e upei sem nome mesmo.

A música parece mesmo inédita, até agora ninguém cravou o nome. O exercício serviu pra comprovar uma constatação óbvia durante a apresentação: conhecer previamente o repertório de Sharon Jones é indiferente para aproveitar o show. Honrando a tradição do soul, é um hit atrás do outro. Não tem música ruim.

Acompanhada pelo Dap-Kings e pelas Dap-ettes, a mulher é um foguete no palco. Um James Brown de saias (faço ideia de quantas vezes essa comparação já deve ter sido feita), tira a galera pra dançar, olha no olho do público, dança, se sacode, conta histórias e canta demais.

Tradicionalistas, os Dap-Kings restringem os instrumentos e métodos de gravação aqueles disponíveis até a metade dos anos 70. Não por acaso, a sonoridade é retrô da banda é a favorita do produtor Mark Ronson, que utilizou o grupo em diversas faixas do disco “Back To Black” Amy Winehouse.

O som tradicionalmente muito baixo do teatro Casa Grande atrapalhou, mas não chegou a comprometer. Principalmente porque logo no início a marcação dos assentos foi para o espaço e quem quisesse podia sentar nas escadas, bem próximo do palco, ouvindo os sopros e a voz da Sharon Jones praticamente sem microfonação.

No bis, uma justa homenagem a James Brown, tocando “It’s A Man’s World”. Sempre bom relembrar o Godfather. Pra quem viu os dois shows, fica a certeza de que Amy tem muito chão pela frente ainda.

Antes da cantora, o baixista Marcus Miller comandou uma formação de teclado, bateria, clarinete e sax na execução de temas de “Tutu”, disco de Miles Davis que compôs e produziu.

Tenho uma certa preguiça para virutoses inacabáveis. É como assistir um cara bom de embaixadinha, é legal mas aquilo não é jogar bola. Mesmo moendo o instrumento, os melhores momentos é quando Marcus joga pro time. Ainda que a timbragem Seinfeld do baixo e oitentistas do sintetizador ameaçassem botar tudo a perder.

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Camelomania no Circo Voador

Cercado de samambaias no palco, com um som impecável e muito bem acompanhado pelo Hurtmold e por um naipe de metais, Marcelo Camelo subiu ao palco do Circo Voador para o lançamento do seu segundo disco, “Toque Dela”. A noite prometia.

O show começou pouco depois da meia-noite e pouca gente estava no Circo para a abertura do Me & The Plant (também perdi…). Surpreendentemente, ao menos para mim, os ingressos não estavam esgotados.

Em seu novo disco, Camelo também está mais solto, dando mais espaço para guitarra, escancarando mais suas próprias influências, um disco mais pra cima que o anterior “Sou”.

Com algum tempo de estrada juntos, Hurtmold e Camelo construíram uma sonoridade juntos, mesmo que no segundo disco o compositor tenha decidido tocar todos os instrumentos em algumas faixas. É muito bacana ver o encontro dos dois artistas de escolas diferentes, a mistura dos estilos. A escolha do septeto paulistano como banda de apoio é das coisas mais interessantes da carreira solo do Camelo. Com um time desses, metade do show está garantido.

Casa cheia sem estar abarrotada, bandão, som tinindo pro lançamento de um bom disco. Tudo certo para uma noite e tanto. Faltava saber a reação do público.

Sem fugir do clichê, a reação foi hermânica. Não chegou a histeria de outros tempos, embora tenha passado perto em alguns momentos. Marcelo chegou a presentear a plateia com as plantas do cenário. Roberto Carlos distribui rosas, Camelo distribui samambaias.

É muito legal a reação calorosa do público, sem dúvida. Para o artista deve ser ainda mais especial. Em “Doce Solidão”, sozinho, Camelo sequer abriu a boca até mais da metade da música, quando o Hurtmold voltou ao palco.

Ele gosta, incentiva, se diverte com a gritaria. É muito legal mesmo. Agora… Em todas as músicas, sinceramente, enche o saco. Você sai de casa, quer ouvir o show e só dá coro desafinado no ouvido. Por mais que a catarse seja divertida e sincera, aos poucos vai cansando

Paritcularmente, preferiria não ouvir nenhuma música do Los Hermanos no show do Camelo. A quantidade que é tocada, três, quatro, é um exagero. Tira o foco do show. Virou regra. As músicas são dele, claro, mas se é carreira solo, é carreira solo. Podia deixar isso pra depois.

O artista no palco, vivo, aos 30 e poucos anos e uma estranha nostalgia do presente toma conta. É um troço doido, o público impaciente, querendo ouvir as músicas nem tão antigas, quase como que aturando o disco novo para chegar até elas. Essa preguiça de encarar o novo que estrangula a cena no Brasil.

Isso tudo no show de lançamento de um disco novo. Um showzaço, diga-se. Teria sido bem melhor se tivesse dado pra ouvir a interpretação do artista. A do público eu mesmo faço em casa.

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Jamie Lidell encontra seu público no Circo Voador

Baladas R&B, levadas soul e experimentações eletrônicas. Apresentando seu amplo repertório de possibilidades sonoras, Jamie Lidell foi a forra do show para 50 pessoas no Tim Fest 2005, quando foi escalado de última hora na vaga do Autechre. Com cerca de 900 pessoas na platéia, responsáveis pela realização do show via Queremos, dessa vez Lidell fez a festa.

Ao contrário da primeira vez, quanto tocou sozinho com suas traquitanas eletrônicas e capa dourada, Lidell veio acompanhado por uma banda enxuta: um baterista e um tecladista (fazendo também as linhas de baixo no sintetizador).

Sem camisa, dançando e fazendo duetos com Lidell, o tecladista ajudou a quebrar o protocolo, divertindo o público. Abrindo com músicas menos convencionais, o cantor anunciou a virada do show logo após a fantástica versão ao vivo de “Completely Exposed”, partindo para o hit “Another Day”, cantado em coro pela plateia.

Boa praça, super tranquilo, viajando com uma equipe reduzida e sua namorada, antes do show Jamie explicou que não tinha muito interesse em releituras papel carbono do soul, preferia incluir suas influências, de Prince e música eletrônica a J-Dilla. Os muitos momentos que essas muitas referências se cruzam são de fato os melhores.

O show oscilou um pouco nos momentos solo de Jamie, que não foi ajudado pelo tamanho do lugar, e o público aproveitou pra conversar. As atenções voltaram para o palco perto do encerramento, com “Multiply”. A noite terminou alto astral e mais uma vez, quem apostou tanto na vinda do artista quanto em conferir o som ao vivo, viu um ótimo show. Pena que tanta gente ainda espere tanto antes de experimentar (nem tão) novos sons.

O público está sendo construído e, por outro lado, é muito legal perceber a quantidade de pessoas que já se dispõe a sair de cada pra ver um show totalmente no escuro. Se você foi uma delas, sorte sua.

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Um Miami Horror outonal


fotos: Fernando Schlaepfer

Um dos expoentes da inexistente cena de synth pop da Austrália (os integrantes da banda ridicularizaram esse conceito, dizendo que só existem mesmo os nomes que todos conhecem: eles, Cut Copy, Bag Raiders, Midnight Juggernauts, Presets, Van She e Empire of the Sun), o Miami Horror veio ao Rio através da mobilização do público via Queremos.

Sentindo o peso do tamanho da casa, ou apenas o cansaço da farra em Porto Alegre e São Paulo, a Miami ensolarada do nome da banda não deu as caras no Circo Voador. Não chegou a nublar, foi algo próximo de uma tarde de outono: nem muito quente, nem muito frio. Na medida.

O vocalista e guitarrista faz o trabalho de palco, se esforçando, subindo nas caixas, pulando pelo palco. Sozinho não dá. Fica faltando pressão do resto banda (o líder, Ben Plant, parecia que ia dormir) para empurrar as músicas de BPM baixo do disco de estreia, “Illumination.” O som, mal passado (médio sobrando, grave faltando), principalmente na primeira metade, atrapalhou.

Com os hits guardados para o final (“Sometimes”, “I Look To You” e “Holidays”) e o som mais acertado, a segunda metade foi bem melhor. Quando o show pegou, acabou.

A culpa não é toda do Miami Horror. Trata-se de uma banda pequena, em início de carreira, fazendo um show do outro lado do mundo. Com a internet (zzzzz…) isso vai se tornando cada vez mais comum, as vezes as bandas são colhidas antes de estar maduras. Essa é a realidade atual e entendendo isso, é divertido observar o processo.

Como a apresentação foi curta, 50 minutos, os gente boas voltaram e tocaram uma versão de “You Can Call Me Al” (Paul Simon). Quem não foi, perdeu uma noite divertida (como ficou gente para ouvir os sets do Ajax e Yugo – Nado Leal tocou antes do show).Quem pagou para banda vir, dançou e cantou, fazendo valer o investimento. Era pra eles que o Miami Horror estava tocando.

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Seu Jorge sem Jorge, as Almaz da Nação e o pop

Bater pênalti parece mole, mas além de também ser gol, precisa de técnica. Com o projeto de versões Almaz, Seu Jorge dá mostras (mais uma vez) do quanto ele domina o que faz, não apenas nos aspectos artísticos. Sabe identificar os desejos do seu público antes mesmo dele próprio e não tem pudor nenhum em entregar o que a galera quer. O Circo Voador com 3 mil pessoas no sábado comprova.

Ruim seria um resultado impossível. Além da presença do próprio Seu Jorge, ao se fazer acompanhar por Lucio Maia, Dengue, Pupillo e Da Lua – a Nação Zumbi quase inteira, com direito a um salve a Du Peixe pelo empréstimo – até “Atirei O Pau No Gato” soaria sensacional. Ao vivo, a banda dá um banho no disco.

Como um Mark Ronson da Zona Sul carioca, o repertório cuidadosamente escolhido equilibra o cool e o popular, canções manjadas ou alternativas, dependendo a quem se pergunta: Kraftwerk (“The Model”), Tim Maia (“Cristina”), Michael Jackson (“Rock With You”), Roy Ayers (“Everybody Loves The Sunshine”), Jorge Ben (“Errare Humanus Est”), etc.

A grande sacada é justamente oferecer sons que fazem a “massa” se sentir “por dentro” ao reconhecê-las, ao mesmo tempo que são aprovadas pelos “entendidos”. O sucesso da Orquestra Imperial ou do Los Sebosos Postizos passa pelo mesmo caminho. A tal “cultura do DJ” também é isso aí.

A seleção eclética do Almaz é espelho de um artista que fagocita tudo que o interessa – a pose do Fela, a pegada do Gil, o apelo do Michael, o suinge do Ben – e devolve um resultado essencialmente pop. O objetivo é tão claro, desde os tempos do Farofa Carioca, que espanta a patrulha em cima do Seu Jorge.

A constante cobrança para que tome caminhos mais “cabeça” (e tomes aspas hoje, hein) muitas vezes vem de pessoas que reverenciam os mesmos ídolos pop de quem Seu Jorge pega emprestado. Esperar qualquer outra coisa é ignorar a trajetória do artista que promete lançar um disco de “Músicas Para Churrasco Vol. 1″ ao mesmo tempo que diz que vai tocar com Roy Ayers no próximo festival Back2Black, ficou conhecido mundialmente no cinema, põe o Akon pra sambar no Jools Holland, o Alexandre Pires para sambalançar ou arrasa, com Ana Carolina, a música de Damien Rice (essa também não era difícil).

As críticas vem mesmo quando Seu Jorge busca o tal cabecismo, a sua maneira, tentando “educar” o “grande público” com um projeto como Almaz. Perto do final do show, após introduzir a banda e antes de emendar em “Mas Que Nada” (Jorge Ben), ele se apresenta: “eu sou Jorge Mario da Silva, de Belford Roxo para todo o planeta, geral!”.

Seu Jorge está pouco se importando com quem o critica. Faz bem ele. Ninguém é obrigado a ouvir o que ele toca.

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LCD no Rio: O início do fim


vídeo: Daniel Ferro
fotos: Esper, Schlaepfer (I Hate Flash) Ramon Moreira

Abrindo a útlima turnê brasileira do LCD Soundsystem, o show do Rio foi também o primeiro desde que James Murphy anunciou que a banda vai acabar em abril, com um show de despedida no Madison Square Garden. O início do fim.

Quando soube os detalhes da mobilização que trouxe a banda ao Rio, via Queremos, pouco antes do show, James Murphy pirou. Fez questão de agradecer o público no palco, topou gravar o vídeo, liberou a filmagem de algumas músicas e todo o resto que só acontece quando o artista está muito a vontade.

Mesmo com a importância da banda e da noite, vai saber porque o Vivo Rio encheu, mas não abarrotou, para assistir o adeus do LCD. Foram quase 2 mil pessoas, mas ainda assim deveria ter tido muito mais gente.

Quem foi viu um show pra lá de especial. Enxuto, sim, foram 14 músicas e nenhum bis, sem cumprir as prometidas 2h15 de duração, porém ainda assim, muito especial. Até o som, sempre um problema por conta da acústica da casa, estava bom, embora estivesse baixo para evitar as conhecidas reverberações assassinas do local.

O show começou com as mais calmas e foi crescendo, de “Dance Yrself Clean” a “Home”, replicando o que acontece individualmente nas próprias músicas do LCD, sempre ladeira acima, até terminar numa guinada para baixo, com a balada deprê “NY I Love You”.

A banda saiu do palco e não voltou mais, mesmo com a gritaria do público. Ninguém entendeu nada e, quando a banda foi tentar voltar pra atender os pedidos, o palco já estava  desmontado.

Com o show terminado, o simpático James Murphy explicou o “não bis”, dizendo que realmente não tinha mais nada ensaiado pra tocar (se a volta tivesse dado certo, teria sido pra um improviso), porque para ele, esse tipo de bis armado, em que se guarda algumas músicas pra tocar depois de sair do palco, não fazia sentido.

Enquanto preparava um café expresso na sua máquina portátil, continuou a explicação, falando que o bis era um bom exemplo pra ilustrar a decisão pelo fim do LCD. Segundo ele, o objetivo nunca foi se tornar uma banda grande e, nesse momento, o LCD estaria a um passo inevitável disso se continuasse. A obrigação de um bis falso é o que acontece quando se fica grande demais.

Murphy ainda falou da matemática por trás da decisão, explicando que da decisão de fazer um novo disco até o final da respectiva turnê, estamos falando de dois ou três anos. Aos 41 anos, Murphy disse que quer fazer planos a curto prazo, de 3 ou 4 meses, e de que precisa de tempo para, entre outras coisas, poder ser pai.

Difícil contra-argumentar. Se antes mesmo de um hipotético quarto disco o pensamento já é esse, melhor mesmo nem começar. Além do que, banda boa termina, preferencialmente no auge. E depois volta. O que não vale é ficar se arrastando no palco, repetindo velhas formas. Uma banda influente como LCD não mereceria isso.

Focando no seu selo, o DFA Records, Murphy falou sobre uma festa fixa anual por essas bandas. Não seria nada mal. Como se pode ver, até falando em descansar, o líder do LCD pensa em novos projetos. O LCD pode parar, porém ele dificilmente vai conseguir ficar quieto. Pode esperar.


Dois set lists diferentes, o que valeu foi o fora de foco, acima na foto

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A portada do Two Door Cinema Club no Circo

Domingo de sol no Rio, show cedo, de uma banda que não toca no rádio e o Circo Voador abarrotado para assistir o Two Door Cinema Club.

Como o Mayer Hawthorne dias atrás, os integrantes da banda saíram do palco muito amarradões com a recepção calorosa. E bota calor nisso, o povo estava derretendo dentro da tenda, pulando sem parar nesse calor de verão que (ainda bem) não acaba.

Como tem apenas um disco, o trio, acompanhado de um baterista, esticou a apresentação com uma música inédita e uma cover de “Last Nite”, no segundo bis (o bom e velho tris, que está virando tradição nos shows realizados através do Queremos).

Focado na pista de dança, o 2DCC não complica a receita: bateria disco, linhas de baixo grooveadas, o vocalista, segurando bem a onda, prepara camadas sonoras em vez de acordes, servindo de cama para as frases da guitarra solo. Ao público, restou apenas a tarefa de quicar ao som de “I Can Talk”, “Something Good Can Work” e “Undercover Martyn”, numa suadeira feliz que só vendo.

Pra melhorar a noite, com o apoio do Multishow, da Cantão esucesso de público, todos os 236 empolgados que apostaram no show e fizeram acontecer, assistiram o show de graça.


“Obrigado, Cariocas Empolgados!”

O Ramon registrou três músicas e algumas imagens de bastidor da banda, jantando no Nova Capela, e o Bragatto tem o repertório do show. Se você não foi, pode ver o que perdeu.

Quinta-feira tem Vampire Weekend, de novo no Circo. No ritmo que vai, é quase certeza de tris. Não vai dar mole de perder.

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Mayer Hawthorne encanta o Rio


História do Homem-Aranha + “Maybe So, Maybe No” + “Gangsta Love”

Nem as previsões mais otimistas poderiam prever o show antológico de Mayer Hawthorne no Circo Voador, na sexta. O próprio Mayer cravou no Twitter, logo após a apresentação, na legenda da foto que tirou do público: “Best.Show.Ever!#RIO”

Trazido ao Rio por 120 cariocas empolgados, com o apoio do Multishow e da Cantão, via Queremos, o soulman branquelo não decepcionou. Nem quem compareceu, gerando uma arrecadação gigante de doações (uma pessoa apareceu com uma caminhonete com 500 quilos de alimentos!).

Mayer enfileirou as músicas do seu disco de estreia, “A Strange Arrangent”, e para sublinhar as suas referências, versões de “Beautiful” e “Gangsta Love” (ambas do Snoop Dogg, a segunda inserida em “Maybe So, Maybe No”), “What a Fool Believes” (Doobie Brothers) e “Work To Do” (Isley Brothers).

Mesmo sem um naipe de metais ao vivo (disparados através de sampler), a The County, sua banda, é uma grosseria sem tamanho, emendando uma música na outra praticamente sem parar. A pegada hip hop da bateria ajuda a dar uma sonoridade contemporânea para um som de tantas influências sessentistas e setentistas (ainda que os bateristas de hip hop sejam influenciados pelos samples desses mesmos discos, completando o ciclo).

Ao longo do show o cantor conversou bastante com o público (como sobre ter sido confundido com Tobey “Homem-Aranha” Maguire no aeroporto de Floripa), e depois passou bastante tempo atendendo os fãs, assinando o poster do show ou tirando fotos, feliz da vida com a noitada espetacular no único show completo de sua passagem pelo Brasil.

O público também saiu contente, com um sorriso de orelha a orelha, feliz por ter ajudado o show acontecer. É impressionante como esse fator empurra o astral da noite lá pra cima, a atmosfera é muito boa.


Mayer Hawthorne (e Tim Maia, presente do Nepal)
foto: Lucas Bori

Antes e depois do show o DJ Nepal fez um set de soul caprichado. Atualmente, a impressão que dá é que Nepal tem um set bom pra qualquer situação. Se soltarem o cara num batizado ele vai tocar só coisa classe.

Foi uma bela abertura para o verão do Queremos, que trará ainda Two Door Cinema Club (30 de janeiro), Vampire Weekend (03 de fevereiro) e LCD Soundsystem (17 de fevereiro) ao Rio.

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Amy Winehouse, cercada de gente e sozinha no palco

Para alguns, o sofrimento de Amy Winehouse tomou a frente da música e em sua passagem pelo Brasil não foi diferente. Marcas criaram promoções em cima da desgraça, uma simples perda de equilíbrio no palco virou notícia e os “fãs” celebravam os goles na caneca misteriosa (sempre seguidos de um forte golpe com a cabeça para trás) durante o show. Amy tranformou-se num personagem de si mesma e seu sofrimento é o maior espetáculo.

Para quem realmente gosta de música, é de se lamentar assistir tanto talento se desmanchando. Não bastasse o teto de zinco e a estrutura de metal e concreto fazendo o som ricochetear, durante todo o show Amy enfrentou um inimigo maior na última terça (e em toda turnê): seus próprios demônios. Durante quase todo show ela abraça a si mesma, num esforço enorme para executar seu trabalho.

A expressão triste, o olhar perdido, o esforço para lembrar as letras, a despreocupação com o péssimo uso que fazia do microfone, a vontade de sair do palco a todo instante indicam que, apesar de estar lá em carne e osso, Amy não estava presente de alma. Para um artista de soul, isso é a morte.

A ótima banda segurou a onda, os vocais de apoio fazendo a cama para que Amy pudesse, na maior parte do tempo, fazer vocalizes e arremedos de letras, enquanto olhava entediada, enfadada para pista VIP (não é curioso que os ingressos milionários tenham surgido justo quando a classe C começa a ter algum crescimento econômico?).

A voz ainda está lá, o timbre inconfundível, lindo, quase intacto, sem potência. A cabeça de Amy estava a milhares de quilômetros dali. Dadas as circunstâncias, até que o show não foi terrível. Foi apenas triste.

Antes da diva, a performática Janelle Monáe mostrou que é muito boa de fantasias, de pintar quadros enquanto canta (se lançasse laranjas ela faria malabares) e de referências, porém, muito prejudicada pela péssima acústica da HSBC Arena e pelo blá blá blá de quem paga R$ 700 para conversar em frente ao palco, foi muita presepada para pouco som.

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Marcelo Jeneci e a intersessão (ao vivo no Rio)

Mais que o lançamento do disco no Rio (o melhor nacional de 2010 aqui no URBe), o show de Marcelo Jeneci no Teatro Casa Grande foi um grande encontro.

Primeiro porque reuniu boa parte do time que gravou a bolacha, incluindo o arranjador Arthur Verocai para reger as cordas e metais. É sempre uma oportunidade rara ver um disco ser executado como foi gravado.

Em segundo, principalmente, porque ao tocar para uma casa lotada, mesmo sendo ainda um artista desconhecido, juntando alguns nomes dos grandes nomes do presente da música brasileira, fisicamente ou através das influências escancaradas, sinaliza algo que está acontecendo há muito tempo: chegou a vez mesmo da nova geração de compositores.

Carismático, Jeneci transformou o show numa experiência melhor que o disco. O acordeonista tem um extenso currículo de participações de bandas de outros artistas e sua estreia mistura ideias vindas de todas elas.

Os parceiros (Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes) são forte influências, assim como Roberto Carlos, Guilherme Arantes (esses citados nominalmente), Sufjan Stevens, Rita Lee, Beirut, rock progressivo, clichês oitentistas de refrão chiclete ou slide guitars, e até Arcade Fire reverberam por toda parte, mesmo que não seja consciente ou que Jeneci sequer conheça algum deles.

Esse balaio de referências ainda tem que ser propriamente absorvido, ainda saltam demais nos arranjos em alguns momentos, mesmo que o denominador comum seja o próprio Jeneci. Com o tempo, certamente seu filtro ficará mais apertado e o som terá ainda mais a sua cara.

Nada disso atrapalha simplesmente porque as composições são excelentes. Boas letras, bons caminhos melódicas e uma sinceridade conquistadora. Quanto mais ele topar as próprias ideias, melhor vai ficar.

Em uma música inédita, sozinho ao piano, Jeneci explicou ter dado como pronto apenas com o refrão porque achava que não tinha mais o que dizer. O haikai musical começa com “a chuva é a vontade do céu de tocar o mar” entra em loop e vai hipnotizando. Um achado. E esse é só dele.


Jeneci & Camelo

Feliz da vida, Jeneci recebeu o que declara ser sua maior influência, Marcelo Camelo, para um dueto de duas músicas da carreira solo e uma do Los Hermanos. Todo suado, Jeneci ainda brincou que tinha que aprender com Camelo, que apareceu de bermuda.

As melhores participações, até porque estavam integradas no repertório do disco e do show, foram a da cantora Tulipa. A química entre os dois é gigante e a inédita “Dia a Dia, Lado a Lado” foi o destaque do show.

Restam 9 vagas na lista dos 10 melhores shows de 2011. E o ano nem embalou.

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Deodato de volta ao Rio


“Skyscrappers”

O arranjador chegou a ficar 15 anos sem tocar no Brasil. Semana passada esteve no Rio para mais um show imperdível, dessa vez “apenas” três anos após as suas últimas apresentações por aqui.

O repertório do show foi feito em conjunto com os curadores/produtores do evento, Batman Zavarese e Chicodub, deixando bem ao gosto dos fãs. Foi uma formação diferente das outras duas utilizadas por aqui (com a Jazz Sinfônica em São Paulo, com um trio no Rio) – e melhor.

O show esquentou muito nesse formato. No Teatro Casas Grande ganhou o calor que faltou nas duas apresentações na Sala Cecília Meirelles em 2007. Ao trio foi adicionado uma guitarra, percussão e um naipe de metais. Os dois últimos itens fizeram toda diferença.

Convidado para ilustrar o show, o designer Breno Pineschi criou um telão utilizando a técnica conhecida como map projection (português, por favor), criando um telão em profunididade e auxiliando muito a viajem psicodélica de Deodato.

Foi uma noite totalmente fora do usual, felizmente de casa cheia. Vamos ver se o Deodato encolhe ainda mais os períodos de ausência por aqui.

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Of Montreal @ Seattle

O Planeta Terra está chegando e o Of Montreal vem aí. Nosso correspondente em Seattle, Rodrigo, viu o show há duas semanas e conta como foi:

Voltei do show do Of Montreal, no Paramount, que é um lugar fenomenal, mas o som tava UM LIXO, os caras passaram o show inteiro saindo na porrada com os microfones e guitarras.

Agora, tirando o som, a empolgação e doidera dos caras é fora do padrão, rolou desde uma simples chuva de penas até o vocalista enrabando uma mulher vestida de porca. Crowd surfing do guitarrista foram dois, e eu perdi a conta do dos coreógrafos (ou sei lá o nome de quem fica dançando igual, fantasiado no palco).

Fora isso uma cena inédita na minha história de shows:  guitarrista desce no meio da platéia e ajoelha, e com isso toda a comissão da frente da platía ajoelha junto! No fim todos pulam juntos quando a batida recomeça.

O bis foi um aburdo, com eles abrindo com “Thriller”, emendando “Wanna Be Starting Something”, do Michael Jackson.

Foi bom o show? Foi. Entrará pra história? Não. Culpa do som =(

ahhh e eu PS gigante: conhece a Janelle Monáe? Ela fez o show de abertura, canta pacas num som meio funk/soul com um sintetizador forte no fundo. Juro que teve uma hora que me senti assistindo uma coisa meio Jackson5 com Outkast.

Falta menos de uma semana para o show no Brasil.

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A calma e a elegância do Air no Rio


Air, “Be a Bee”

Vestidos de roupa social branca da cabeça aos pés, comedidos e cercados de teclados e sintetizadores (Wurlitzer, Moog, Korg…  ajustados entre cada música por um roadie de chapéu de mineiro chileno) cuidadosamente posicionados, um telão minimalista, a pose do palco… A elegância do Air beira a breguice.

É um risco milimetricamente calculado para resultar kitsch, fazendo brotar o adjetivo favorito para descrever a banda: chique. A estratégia (do grego strategía, do latim estrategia… divago) funciona, sem falhas. O ótimo show no Circo Voador ontem não deixa dúvidas.

No palco os franceses Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel recebem a companhia de um baterista (que também dispara as programações) e enquanto Jean divide-se entre pilhas de teclado, Nicolas se reveza entre o baixo e o violão.

Essa troca de instrumentos feita por Nicolas é o divisor, definindo as duas principais atmosferas do show, hora ensolarada e animada, hora encharcada de um peso lento, chapado.

Ao vivo a influência do Kraftwerk salta mais do que nos discos. A eletrônica gelada, os grooves retos, ainda que aquecidos pelo baixo ou entortados pelas teclas, serve como um filtro, por onde passa todo o resto: psicodelia floydiana, texturas kraut, transes trip hop, meditações dub e até mesmo l’amour da chanson francesa.

Nos momentos em que o violão toma frente, o Air poderia reivindicar para si o surrado título de Nu-Folk. Porque a mistura de eletrônica e sintetizadores com harmonias vocais e levadas de violão sim deveria ser chamada de novo folk. Essa nova leva de pseudos Bob Dylan é, no máximo, Folk-Again.

É quando a coisa pesa que ficam ais interessante. A construção de texturas, empurradas por linhas de baixo, permitem improvisos, solos de Moog (precisos, técnicos, porém viajantes) e mais liberdade para sair do programado.

O som estava bem tirado demais e o Circo, lotado, se esbaldou. Só faltou o rodízio de churrasco.

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Bomba Estéreo taca fuego

Quem esteve no Teatro Rival na última quinta-feira e viu o show do o Bomba Estéreo, promovido pela Dancing Cheetah, tem certeza de que quem perdeu, perdeu feio. Um dos principais grupos da cena latina de música pop, com os dois pés nas nas sonoridades terceiro-mundistas, os colombianos mostraram porque são um dos nomes mais comentados da “cena latino-americana” (uma generalização perigosa).

Ligado no 440 volts, a vocalista Liliana Saumet toma conta do palco com uma segurança que Lily Allen ou M.I.A. (a colombiana fica em algum lugar entre as duas) apenas sonham. Cuspindo letras agressivas enquanto faz charminho, a menina desembesta e toma a frente da banda, que começou como um projeto solo de Simón Meíja.

Fazendo jus ao termo “cumbia psicodélica” com o qual definem a própria música, a banda faz bom uso de efeitos e do poder dos graves, sem deixá-los alterar totalmente a essência das influências folclóricas/tradicionais colombianas, as frases de guitarra sempre lembrando a nossa guitarrada.

Foi a segunda vez que o Bomba Estéro tocou no Brasil (estiveram aqui dois anos atrás no RecBeat, em Recife). Mesmo com passagens elogiadas por festivais como SXSW, Summer Stage (NY), Sónar (Barcelona), Roskilde (Dinamarca) e Lovebox (Londres), a barreira das letras em espanhol ainda parece sólida por aqui.

É uma pena a casa não ter ficado lotada. Mas o público vai crescendo. Se houver terceira vez, não perca. Tem poucas banda voltadas para pista como o Bomba Estéreo.

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