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“Nós somos o Explosões no Céu”

Os texanos do Explosions In The Sky e sua parede sonora de três guitarras, perfurada por um baixo e uma bateria (e que suadeira deve ser passar o som daquela bateria pra soar no meio de camadas e mais camadas de distorção), chaparam o Circo Voador ontem a noite.

Fazendo lembrar o transe causado pelo Mogwai ano passado, o EITS é um pouco mais manso e menos ensurdecedor. O som não tão alto (mesmo assim bastante alto) e arranjos de guitarras mais melódicos suavizam a experiência. As quase mil pessoas presentes foram abduzidas, levadas numa viagem instrumental em que se respeitaram o silêncio das músicas como raramente se vê.

Com as músicas perfeitamente emendadas uma nas outras, o EITS saudou o público na entrada e na saída do palco, sem bis. Uma cacetada só na moleira e o serviço estava feito.

Uma volta (atrasada) pelo Back2Black

 

 

Duas semanas atrás teve o Back2Black e a resenha ficou pendurada. Dos três dias, estive em dois pra conferir Missy Elliott e Santigold, aproveitando pra ver  as belas costuras africanas da banda da malinesa Fatoumata Diawara, Sany Pitbull & Gerson King Combo e Emicida.

No palco menor, numa noite Sany Pitbull recebeu Gerson King Combo, numa mistura que não flui tão bem, atrapalhada por um MC que destoava um tanto da proposta. Na outra, Emicida tocou acompanhado por uma banda, o que eleva em muitos níveis qualquer apresentação de rap.

Ainda assim, como em quase todo show de rap, com DJ ou com banda, as letras são incompreensíveis por quem já não as conhece. Junto com a péssima dicção de boa parte dos rappers (aliada a toadas exageradamente rápidas para fazer caber tantas frases – “escrever é a arte de cortar palavras”, disse o poeta Drummond), a dificuldade de se entender o que está sendo dito dificulta demais a experiência. Mesmo com boa dicção e ritmo, Emicida não escapa desse problema ao vivo.

Mesmo que apenas seu carisma mova qualquer pista, Missy Elliott animou com seus hits mas não convenceu. Acompanhada de uma enorme equipe de dançarinos, um DJ e trocando de roupa a cada duas músicas, o que Missy menos fez foi cantar. Foi uma base pré-gravada e dublagem de vocal atrás do outro, o que esfriou bastante a experiência. Impossível deixar de notar que Missy Elliott não desperta as  mesmas polêmicas que Tati Quebra Barraco, ainda que a grande diferença entre elas (além das batidas do Timbaland) seja o patrocínio da Adidas da gringa. O discurso pussy power é o mesmo, inclusive na quantidade de palavrões e letras “pornográficas”.

Quem fez valer o festival foi Santigold. Escolada, Santi não é nenhuma garota e já sabe exatamente o que precisa fazer para acertar seu público. Com mais músicas conhecidas do que a memória imediatamente acusa, Santi não tem o mesmo carisma e desenvoltura de uma Missy Elliott, porém o timbre inconfundível da voz, androginia reciclada da Grace Jones, suas dançarinas robóticas.

O mais importante é mesmo a produção musical. Sempre cercada de bons produtores, Santigold tem um bom repertório de sacolejos a disposição . Com uma banda com um pé no reggae e outro no synthpop, uma mão no pós-punk e outra no new wave, Santi ofereceu algo irrecusável: groove. Sempre infalível.

Mahmundi ao vivo

Sexta passada teve a estreia da Mahmundi, na Comuna. O lugar não coopera, tanto a acústica quanto (principalmente) os equipamentos embolam o som e prejudica a apresentação, emulando sem querer a estética lo-fi de algumas de suas músicas. Ainda assim, considerando que era um primeiro show e é pra ser rampeiro mesmo, a graça é assistir decolar.

E a pegada pop pode mesmo ir longe, basta acertar detalhes e encontrar o público, essa grande tarefa. Os arranjos funcionam ao vivo, a banda capitaneada por Lucas Silva Paiva, produtor do SILVA (que se chama Lúcio, ê confusão…), parceiro de Mahmundi nas letras e na fé em Cristo, segura a onda. Falta agora estrada e melhores condições técnicas. É impressionante como quase nenhuma banda tem seu próprio técnico de PA, esse integrante invisível, crucial para o bom andamento das coisas.

Entre referências de Rita Lee, Friendly Fires, Marina, Keane e outros citados pela Mahmundi em entrevistas, o que pega mesmo é o gospel. Ouça a letra de “Desaguar” com atenção e o papo de ”boa nova”, “mão do redentor” e fica claro. Ela está preparando seu culto, começando devagarinho, num lugar pequeno e cercada de amigos. Faz bem ela.

Los Hermanos, mais uma vez


Camisetas piratas vendidas na porta

Não faço ideia de quantos shows do Los Hermanos já assisti, nem pela tag da banda aqui no URBe dá pra ter muita noção. Dos pequeninos na PUC e Ballroom, ao Rival vazio no dia que a cidade foi “fechada” por traficantes; de vários no Canecão com abertura de bandas independentes, ao de número 500 no Circo Voador, de 8 mil pessoas no Metropolitan, a série de shows de despedida na Fundição Progresso. Mesmo assim – ou por isso mesmo – conferir um dos shows comemorativos dos 15 anos da banda era obrigatório.

Deixei para a última noite da temporada e, pelo que ouvi, dei sorte. Houve show em que o som simplesmente parou de funcionar por problemas no gerador, então, comparado a isso, o tradicional bololô sonoro da Fundição, somado aos berros dos fãs, era cristalino.

Não faço a menor ideia de como solucionar a equação, visto que seriam necessário duas semanas cheias no Circo Voador (capacidade de 3 mil pessoas) para atender a quantidade de público recebida pela Fundição nas seis noites (capacidade de 7 mil pessoas), ou então encarar o Vivo Rio, que também pena com questões de acústica, mas que os hermanos e os hermaníacos mereciam um som melhor, ah, mereciam.

O cheiro de naftalina que poderia tomar conta do ambiente, ainda mais considerando-se que as carreiras individuais do Camelo e do Amarante seguem firmes, foi dissipado tão logo os primeiros acordes soaram. Em muitos aspectos, foi como se tempo algum houvesse passado.

Para os que acompanham a banda desde o começo, foi como ver um show antigo. Para os milhares de jovens que nunca tinham visto o Los Hermanos ao vivo, teve gosto de presente. Ao contrário do que indicavam os últimos shows esporádicos desde a despedida  dos palcos pré-hiato, o grupo continua afiado, tão catárticos quanto antes da pausa.

Passado algum tempo, as músicas de todos os discos, por mais que sejam diferentes, se misturam de maneira mais coesa. Os fãs do primeiro disco  (teve até a um dia renegada “Anna Julia”) pogam, a turma cult canta junto com o “Bloco do Eu Sozinho, a massa vem junto no bem sucedido comercialmente “Ventura” e até a placidez do “4″ hoje empolga tanto quanto as músicas dos anteriores.

Alguns anos depois, nem dá pra saber se as cobradas músicas novas do Los Hermanos são necessárias, ou mesmo se fariam sentido. Pode ser que seja isso mesmo, os quatro discos, congelados no tempo, podendo ser revisitados eventualmente, quando convir, enquanto os integrantes tocam suas vidas em separado. Só o tempo dirá.

Após o sucesso de uma impressionante turnê de 24 datas, uma aula de produção e promoção, com média de público de 5 mil pessoas (e meia-entrada a R$ 80, faça as contas), todas as opções estão abertas. Conhecendo a banda, só eles decidirão o que fazer – e isso, quando quiserem.


As músicas, na foto do Ramon Moreira

Siba no Rio

O Joca esteve lá e conta como foi:

“Finalmente os cariocas puderam ver o novo show do músico Siba, que já mostrou o excelente repertório de “Avante” em várias cidades brasileiras. O Oi Futuro Ipanema lotado se segurou nas cadeiras durante a terceira atração do Levada, festival que ocupa o espaço até outubro. O ótimo guitarrista Siba apresentou uma formação enxuta, com bateria, teclado e tuba (estes últimos fazendo o papel do baixo) e tocou nove das dez músicas do álbum, de um total de 14 – as outras foram de seus trabalhos anteriores com a Fulôresta (“Alados”) e com Mestre Ambrósio (“Mestre Guia”). Destaque para “Bagaceira”, tocada duas vezes, e “Brisa”, ambas de “Avante”, seu disco mais acessível. Sem muitas fusões com ritmos nordestinos, apenas referências em meio a um bom pop rock, o repertório ganhou força com improvisações instrumentais, alongando os temas. Siba prometeu voltar para um novo show, onde “caibam todos e tocaremos até o público começar a ir embora” – disse ele. Vamos ver se ele cumpre a promessa.”

E nesse final de semana ainda teve Curumin e Arnaldo Antunes.

Mogwai (ou James Blake de cabeça pra baixo)


foto: Filipe Marques

O SHOW DO MOGWAI FOI UMA EXPERIÊNCIA TRANSCENDENTAL, UMA ELEVAÇÃO ESPIRITUAL CAUSADA PELA ENTREGA AOS TRANSES PROPOSTOS PELOS ESCOCESES. OS QUE PRESENCIARAM O MASSACRE ESTÃO ASSIM HOJE, FALANDO ALTO A BEÇA, COM OS OUVIDOS AINDA ZUNINDO DE ONTEM.

Dois dias depois do James Blake embasbacar os presentes com um show repleto de silêncios e ambiências, onde os “shhhh” quase viraram parte dos arranjos em determinados momentos, o Mogwai fez o extremo oposto no Circo Voador: amassou a moleira de mais de 700 pessoas com uma parede sonora ensurdecedora, fazendo a tenda tremer.

Mogwai
foto: Joca Vidal

Dez anos depois da histórica apresentação no Armazém do Cais do Porto, onde rebocos do teto caiam devido a pressão sonora, a banda voltou a cidade. O que para ouvidos fechados pode simplesmente soar como uma maçaroca sonora, é repleta de detalhes e sutilezas, reveladas pela excelente mixagem do técnico de som da banda.

O volume espantoso não é mera tiração de onda adolescente, é fundamental para que as melodias produzidas pelo Mogwai, enterradas em densas camadas de guitarra, consigam escapar e brilhar. O que se vê no palco é um exercício de domesticação de guitarras em fúria.

Quando conseguem acalmar o som (algo que, de maneira geral, vem mesmo acontecendo nos últimos discos), um desavisado pode se deixar enganar e cair nas armadilhas das dinâmicas poderosas da banda. Correndo o sério risco de cair pra trás de susto, o ouvinte acredita no teclado na frente, esquecendo-se que a qualquer momento as guitarras explodiram novamente. Um engano e tanto.

As músicas:


foto: Joca Vidal

Transcultura #078: De volta pro futuro no Coachella 2012 // Caine’s Arcade

Meu texto da semana passada para coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Futurologia no Coachella
Festival reapresentaou atrações em seu segundo final de semana
por Bruno Natal

Nessa sexta começa o segundo final de semana do festival Coachella, na California. Tudo igualzinho a semana passada: as mesmas atrações, tocando nos mesmo horários, com a diferença de que o efeito surpresa se perdeu. O clima “De volta para o futuro” vem desde semana passada, seja através do retorno de bandas como At The Drive In e Mazzy Star, seja através da ressurreição do rapper Tupac Shakur emformato holográfico. Com isso, o exercício de futurologia que seria tentar prever os caminhos de um festival com quase 150 atrações, torna-se quase certeiro.

Neon Indian exagerará no lo-fi e mostrará um som mais gasto do que estiloso; o GIRLS manterá a fama de ruim de palco mesmo com o discão “Father, Son, Holy Spirit” como base; o Arctic Monkeys vai mais uma vez provar que não é mais um grupo de moleques; Frank Ocean vai arrastar uma multidão para a menor tenda do festival e contará com o apoio do Bad Bad Not Good e participação do Tyler The Creator; a Mazzy Star fará um showzão, mesmo enfadada; o Atari Teenage Riot sangrará ouvidos e o M83 se mostrará mais pop do que se pensava.

A Azealia Banks não fará uso de nem metade do tempo de palco que tem direito; o tUnE-yArDs não segurará a onda num palco maior; o Andrew Bird vai mostrar um folk sem muitas inovações além do seu violino; Noel Galagher apelará para uma música do Oasis pra conquistar o público; o The Shins vai fazer um show de dar sono ao mesmo tempo que a Feist, com 18 músicos no palco, fará uma das melhores apresentações do festival; o Flying Lotus tirará onda acompanhado de baixo e bateria; o SBTRKT sentirá a necessidade de provar que não é assim tão radiofônico e carregará a mão das versões das próprias músicas; o ASAP Rocky fará uma zorra no palco com mais de 10 amigos e o Radiohead atrasará um pouco pra mostrar que simplesmente re-arranjou as luzes do palco da turnê do “In Rainbows” para essa do “King of Limbs”.

O Metronomy fará do gramado uma pista de dança sob um sol de rachar; Seun Kuti encantará os gringos com a banda do pai; o Real Estate fará um show certinho, embora mais para os fãs; Beats Antique orientalizará o hip hop e o araabMUZIK mostrará com quantas MPCs se faz um performance; o Thundercat vai se embrenhar por uma masturbação jazzística; o The Weeknd vai cometer um assassinato em massa das canções da sua ótima mixtape; Justice e Girl Talk mostrarão mais do mesmo, sem que isso seja algo ruim, e espremerão o Beirut contra o Calvin Harris, tornando impossível ouvir qualquer coisa; o At The Drive In ensurdecerá quem tiver fugido do açucar da Florence & The Machine, enquanto DJ Shadow e Modeselektor sofrerão para competir com Dr. Dre & Snoop Dogg.  E no encerramento, quando Makaveli surgir digitalmente diante dos olhos incrédulos do público, o mesmo sentimento fantasmagórico tomará conta da platéia, mais assustada do que empolgada com o artíficio.

A única coisa que não deve se repetir é o tempo, com a inédita chuva no deserto dando lugar a tradicional solaca, queimando os corpos, enquanto a música frita o coco. Ao ponto, por favor.

Tchequirau

Apaixonado por fliperamas, Caine construiu versões elaboradas dos jogos utilizando pedaços de papelão, na garagem da loja do pai, em Los Angeles. O documentário “Caine’s Arcade” conta essa história e reserva uma grande surpresa no final.

Coachella 2012: um festival de pessoas, sol e música


fotos: URBe (via Instagram)

Cada Coachella é uma história diferente e por isso é um dos festivais mais legais de se cobrir. Mais do que o ano da entressafra, o Coachella 2012 será lembrado como o ano do frio, da chuva, o Coldchella. Pela primeira vez (até onde pesquisei) choveu e o frio de 10 graus desnorteou um evento pautado, primordialmente, pelo sol. E ficou bastante claro esse ano o quanto o sol é fundamental para o festival.

Espécie de termômetro da música pop independente contemporânea (OK, ficou parecendo estatística do Zagallo: “nunca perdi pra país com a letra Z e que joga com listras vermelhas verticais”), goste ou não, através das suas escalações, apresentações e até horários, entende-se um pouco do momento pelo qual passa o cenário musical.

A ascensão do festival e o interesse em participar de medalhões como Madonna e o empenho em impressionar do Daft Punk e sua pirâmide em 2006, a expansão de dois para três dias de shows em 2007; a consolidação como rito de passagem e afirmação para bandas visto em 2009; o gigantismo atingido em 2010, quando todas as bandas agora graduadas juntaram-se na mesma escalação e aumentou-se o número de ingressos disponíveis; a correção de rumo em 2011. Cada edição tem as suas peculiaridades (as intros de cada uma das resenhas apontadas dão uma analisada melhor em cada assunto).

A julgar pelo que se viu em 2012 (e se verá novamente nesse final de semana, quando pela primeira vez o Coachella terá um segundo final de semana, espelhando as atrações do primeiro) o momento atual é de entressafra. A escalação trouxe as tradicionais reuniões de bandas extintas (At The Drive In, Mazzy Star), nomes grandes pra chamar público (Dr. Dre & Snoop, Radiohead) e muitas, mas muitas bandas novatas.

O que não se vê, ao menos não em números expressivos, são aquelas bandas recém-estouradas, equilbrando-se entre um público médio, quase chegando no grande. Não faz sentido escalar novamente a última leva a conseguir fazer essa transição de pequeno para médio porte (MGMT, Hot Chip, Vampire Weekend, 2ManyDJs/Soulwax, Chromeo, etc), porém, não há novos postulantes a esse posto. Com isso, foram muitas apostas, algumas das quais podem voltar ao festival em outras condições.

Isso não deixa de ser totalmente alinhado como espírito do Coachella, mesmo que hoje ele tenha se tornado muito maior. É muito bom que não haja um desespero pelo sucesso (mesmo porque, hoje os ingressos esgotam antes da divulgacão da escalação) e se repeite o tempo das coisas. Mérito da curadoria. O fato de a atração mais comentada ter sido um holograma diz muito sobre isso.

Resta ao público garimpar, é esse interesse que move o festival. Ainda que em alguns casos o hype do mundo real seja mais rápido que o da rede, fazendo com que shows fiquem abarrotados no início e, de repente, esvazie, com as pessoas indo buscar outras coisas, num universo de mais de 140 atrações o que predomina é um público aberto ao novo, mesmo que para alguns isso dure apenas três dias.

Isso faz toda diferença do ponto de vista prático. Sem um público interessado cena nenhuma, de nada, se sustenta (sim, estou falando sobre o Queremos!de maneira enviezada).


Nuvens, vento, gorros… (foto do @rhermann)

Dia 1
Breakbot, Givers, James, Neon Indian, GIRLS, Arctic Monkeys, Pulp, Frank Ocean, Mazzy Star e M83

Dividido entre ver as novas instalações e correr atrás de alguma das boas atrações que ficam salpicadas no horário em que o campo de polo ainda está vazio, a entrada é sempre um momento confuso. Enquanto Breakbot fazia um set bem parecido com o que fez no Rio, tocando depois do Mayer Hawthorne The Rapture no Circo Voador (e sem banda, como era esperado), o Givers fazia um show sub-qualquer bandeca de rock. Restou passar pelo palco principal pra pegar um pouco do rapper Kendrick Lamar. Tarde demais; só deu tempo de ouvir o ele se despedindo e aturar a velharia do James enquanto almoçava.

As coisas começaram frias, no amplo sentido da palavra. Os shows não impressionavam e o frio ia piorando conforme o dia passava. Logo a previsão de 30% de chances de chuva se confirmaria, sem muita intensidade, só que as gotinhas estavam geladas que só vendo. Muita gente não levou a metereologia  sério e a cena de meninas de roupa curta se encolhendo tornaram-se tão comuns quanto as alienígenas jaquetas de couro circulando pelo gramado.


GIRLS

No palco menor, o Neon Indian levou o lo-fi a extremos, mostrando um show mais sujo do que gasto pelo tempo. Mesmo com três sintetizadores, guitarra e bateria, o som saia fraco e abafado, sem empolgar a boa quantidade de gente assistindo. Melhorou um pouco nas duas últimas,  os “hits” falando de uma garota polonesa e num verão caloteiro,  ”Polish Girl” e “Deadbeat Summer”. Bem apropriado.

Tudo prometia melhorar com o GIRLS, mostrando as músicas do excelente “Father, Son, Holy Ghost”, um salto de qualidade tremendo da banda. Só que… O que quer que tenham aprendido no estúdio, não chegou ao palco. Sem nenhum carisma, Christopher Owens teve sua voz e violão encobertos por um baixo rachando e até pelas boas cantoras de apoio. Não foi terrível, porém não chega perto do disco.


Arctic Monkeys

No palco principal, o Arctic Monkeys mostrava como é que se faz. É impressionante o quanto a banda se converteu de um bando de moleques em um grupo de rock com cancha de palco. A única vez que havia visto a macacada ao vivo foi naquele mesmo palco, em 2007, quando estavam lançando o segundo disco, ainda desconhecidos nos EUA e fazendo brincadeiras com a situação.

Com quatro discos nas costas, projetos paralelos e sabe-se lá quantas horas de palo, Alex Turner sente-se a vontade como front man. Isso é bom e ruim. Se por um lado o domínio de palco propicia um espetáculo mais controlado, é justamente esse controle que tira um pouco do frescor juvenil que foi uma parte tão importante no estouro da banda. O tempo passa, é incontrolável. O volume das guitarras não, pelo contrário, e poderiam estar um pouquinho mais altas.

O Pulp deu sequência inglesa, com um show bem produzido, cenário grandioso e Jarvis Cocker inspirado. Vista uma música e os fãs enlouquecendo, voei para conferir o Frank Ocean. Integrante mais velho do coletivo de hip hop angelino Odd Future, Frank se debruça sobre o r&b, cantando sobre relacionamentos, não sobre escatologias como os rappers do grupo.


Frank Ocean

A Gobi, menor das tendas, transbordava e foi difícil abrir caminho. Ao conseguir avistar o palco, deu pra identificar o BadBadNotGood como seus músicos de apoio, o que subiu bastante o nível (eles ainda tocaram toda as noites no acampamento).

O trio de baixo, bateria e piano canadense já vinha ciscando pela área, fazendo versões jazzísticas das músicas do Odd Future, então foi até uma junção lógica – no show a formação era guitarra, baixo, bateria e MPC/teclado (até onde deu pra ver, a ausência de uma câmera cobrindo o lado direito do palco no vídeo com a íntegra do show não ajuda a identificar).

Ao Frank Ocean restou fazer o que sabe, cantar. Bem a vontade frente a multidão, ele perdeu bastante tempo reclamando do som. O público não viu tanto problema, as meninas soltando gritinhos sem parar. Quando acabou, Mazzy Star já estava no palco menor fazia dez minutos.


Mazzy Star

A luz azul que preenchia o espaço durante quase todo o show escondia uma Hope Sandoval emburrada, quieta, sem que ela dissesse o motivo (olhando bastante para mesa de monitor, a qualidade do som devia ser a razão). O folk blues chapado, de linhas de órgão doorianas e slides viajantes, atraiu pouca gente – o frio certamente não ajudou.

Uma pena, pois o show foi bastante bom (dá pra assistir todo no YT). Mesmo eles tendo “se livrado” de “Fade Into You” lá pela metade, era um show pra ter encantado se as condições tivessem sido melhores.

A caminho do M83, o extremo oposto acontecia em uma das tendas, onde o Atari Teenage Riot rasgava os ouvidos dos poucos que se encorajaram a encarar a bagaceira. Surpresa mesmo viria a seguir.


M83

Contrariando todos os prognóstico de um show indie e cabeçudo de shoegaze eletrônico, o  show do M83 é totalmente pop (assista completo no Daily Motion). Com luzes frenéticas e ênfase nas programações eletrônicas e na própria bateria (por vezes 4×4) em quase todas as músicas, a tenda lotada quicou sem parar enquanto Anthony Gonzales se deliciava, sem cansar de agradecer e fazer menção ao fato de estar sendo tão diferente de quando tocou no festival, em 2005.

A saída de um dos fundadores, o sucesso de “Hurry Up, We’re Dreaming”, o M83 está mesmo vivendo um recomeço. É como se fosse outra banda, nascida pra fazer sucesso. Não é exatamente meu tipo de som, principalmente os gritos de “mãos pra cima” ou nos momentos em que soa como se o Miike Snow (com quem guardam semelhanças, o que é bom) tocasse as músicas do Arcade Fire (o que seria ruim) Gostos a parte, é um showzão- e bombaria por aqui. Dispensável mesmo só o solo de sax no final de “Midnight City”.

Falando em Miike Snow, no dia seguinte eles tocaram e receberam a Lykke Li, assista a partir do minuto 29.  De volta a sexta, a atração seguinte seria o The Horrors. O frio venceu e esse ficou pra depois, encerrando a noite mais cedo.


Galocha? (foto do @rhermann)

Dia 2
Big Pink, Jaques Lu Cont, tUnE-yArDs, Andrew Bird, Noel Gallagher’s High Flying Birds, The Shins, Feist, Flying Lotus, SBTRKT, ASAP Rocky e Radiohead

O otimismo sobre uma melhora das condições climáticas se realizou apenas parcialmente: o frio continuou, mas pelo menos não choveu, o que já ajudou bastante. O sol até ameaçou aparecer algumas vezes.

Tendo perdido os shows do Destroyer e da Azealia Banks (essa tendo utilizado metade do tempo de palco que tinha), ambos muito cedo, o dia começou com o Big Pink, aturado somente tempo suficiente para Jaques Lu Cont começar seu set na tenda Sahara.


Jaques Lu Cont

Nome por trás do Les Rythmes Digitales e produtor do “Confessions On a Dancefloor”, da Madonna, Jaque Lu Cont é o pseudônimo mais utilizado pelo inglês Stuart Price (um trocadilho anglo-franco significando algo como Jack O Cuzão), talvez seu trabalho mais consistente. Agradando a atual demanda por sons rave 90, a primeira metade do set foi bem comercial, téquinêra pesada (e ainda sim bom, sim é possível), encerrada com um explosão de fumaça ao som de “Also Sprach Zarathustra”, para marcar a transição para um som mais com a sua cara.

E essa cara é um groove borrachudo, sirenes de synth, camadas de melodia se cruzando, a bateria 909 estourando no peito, em remixes de “Harder Better Faster Stronger” (Daft Punk), “Blue Monday” (New Order) e “Mr. Brightside” (The Killers, de quem também produziu o terceiro disco). Mesmo com o dia claro, a pista pegou e pegou bem.


Andrew Bird

Numa mudança brusca, o tUnE-yArDs pegou um palco grande demais para o seu som. O som etéreo, de tempos e divisões estranhas e melodias tortas, lembrando bastante o Dirty Projectors , não consegue cativar uma multidão. A atmosfera experimental e hippie provavelmente ganha muito se vista, por exemplo, num centro cultural ou na sala de casa de um dos integrantes. Andrew Bird entrou na sequência e fez um show correto com seu folk e violino, sem empolgar muito.

No almoço deu para ouvir Noel Gallagher apelar para “Don’t Look Back In Anger”, do Oasis, pra conquistar o público. Mesmo sem nenhum hit desse calibre no repertório, quem não precisou de muitos truques pra fazer um dos shows do festival foi a Feist. 19 pessoas no palco, som perfeito, o máximo da apelação foi uma piada dizendo que uma de suas músicas era sobra de estúdio do “The Chronic”, clássico do Dr. Dre, estrela maior do Coachella esse ano. Bem classudo.


Flying Lotus

Embicando para o final, vei uma sequência na tenda pequena, começando pelo trecho final da apresentação do Flying Lotus, dessa vez acompanhado por baixo e bateria, tão bom quanto sempre nos toca-discos.

Logo depois entrou o SBTRKT. Acompanhado apenas pelo cantor Sampha, o produtor Aaron Jerome reconstrói as músicas, tornando-as muito mais peadas e minimalista (show todo no DM).


SBTRKT

Passando uma lixa na produção detalhada do disco, tirando todo polimento pop, “Never Never” vira um dubstep dark, “Something Goes Right” não repete as programações, o sintetizador some e surge reta e seca. “Wildfire”, na versão com Drake e cantada por Yukimi Nagano (do Little Dragon), que deveria ser a mais adaptada devido a ausência dos intérpretes, é praticamente tocada como é gravada, antes de um final em que é toda entortada.

O ponto fraco é a decisão de Aaron de tocar bateria ao vivo (ele e Sampha dividem os sintetizadores). O que poderia ser um adendo interessante pro show acaba limitando as execuções pelo simples fato dele ser um baterista regular, porém incapaz de repetir as programações originais na munheca. Com isso, todo o show acaba sendo mais linear e perdendo dinâmica. A discussão se um artista novo deve ou não alterar tanto suas músicas quando tem apena um lançamento é secundária. Afinal, cada artista sabe de si.


Um integrante do ASAP Rocky vai pra galera

Certo de que o Radiohead não entraria em cena no horário marcado, fiquei para ver um pouco do ASAP Rocky. Acompanhado por 11 amigos no palco, pulando e dançando sem parar, alguns fazendo raps ou se jogando na plateia, do pouco que deu tempo de conferir, pareceu energético, embora rapidamente se torne monótono com a presença de apenas um DJ em cena.


Radiohead

Atração principal da noite, o Radiohead fez um show basicamente focado no “The King of Limbs” e no “In Rainbow”, com algumas concessões. No geral, foi um repertório mais lento e o cansaço de um dia inteiro de shows, somado ao frio, congelou o público.

A amigos, o guitarrista Ed disse que foi um dos piores shows do Radiohead em muito, muito tempo. Foi um certo alívio saber disso, aliviando um pouco a culpa de ter saído um pouco antes do fim (não aprendo…) para evitar o engarrafamento da saída do estacionamento.


O sol! O Sol!

Dia 3
Metronomy, SeunKuti & Egypt 80, Real Estate, Beats Antique, araabMUZIK, The Weeknd, Justice, At The Drive In, Dr. Dre & Snoop Dogg


Josh Homme é fã do Metronomy

Eis que no derradeiro dia o sol apareceu, mudando COMPLETAMENTE a atmosfera do festival. O dia começou bem, com o Metronomy fritando o coco no palco menor, transformando o gramado numa pista de dança. Josh Homme (Queens of the Stone Age) foi tietar a banda nos bastidores após o show e foram embora juntos.


Santigold

Finalmente deu para aproveitar o calor e curtir o visual do deserto largado no chão, ao som do Seun Kuti e a lendária Egypt 80. A melhora no clima aumentou a pilha, então deu pra correr descalço e ver um pedaço da Santigold, grande, dominando o palco principal bem cheio.

De lá, para o Real Estate. Longe de ser algo elaborado, é na simplicidade que eles se dão bem (show inteiro aqui – e que beleza é não ter que subir essa quantidade de vídeos no  YT!).


Real Estate

O indie preguiçoso se destaca pela guitarra enxarcada de Matthew Mondaline (também do Ducktails) e pelas longas incursões instrumentais, apoiadas em camadas de teclado (o pai do tecladista mora no Rio e trabalha n Bloomberg, ele contou depois). De ruim, a demora entre as música para afinação dos instrumentos, atrapalhando a fluidez. Uma belezura de show que teria ido muito bem no por do sol.


Thundercat

Produzido por Flying Lotus, o Thundercat fez um show de jazz funk chato enquanto na tenda ao lado, a Mojave, o Beats Antique orientalizava o hip hop através do balkan beats, com banda e dançarinas exóticas, antes do araabMUZIK destroçar os sonhos de qualquer um que toque ou queira tocar uma MPC.


araabMUZIK

O prodígio americado descendente de guatemaltecos e dominicanos arregaça não uma ou duas, mas três MPC,  numa velocidade e destreza assutadoras. Isso sem perder de foco o pequeno detalhe de fazer um som bom, algo que poderia ser relegado a segundo plano, encoberto pela performance, construindo batidas e melodias e samples de Damian Marley. No palco principal, o The Hives se esgoelava.

Com finalmente um sol para se por, a melhor escolha de banda para esse horário de ouro do festival flopou desastrosamente (veja você mesmo). Reunindo o maior público visto no palco menor, com muita gente sabendo as letras de cor e sendo celebrado com gritos histéricos dignos de ídolos adolescentes, o The Weeknd não correspondeu.


The Weeknd

Com uma voz pequena e sem alcance nenhuma, Abel Tesfaye mais geme do que canta. Ele não se aperta e bota banca, com atitude de postar, como se não fosse um sub D’Angelo ou Justin Timberlake e não percebesse que está mais próximo de um participante do American Idol do que de qualquer um dos citados.

A banda – ou os arranjos – não ajudam, soando vazia naquela imensidão a céu aberto. Uma grande decepção, considerando as boas mixtapes, no nível da causada pelo The xx, naquele mesmo lugar e horário. Agora, como dito lá em cima, pode ser questão de tempo, estrada, experiência mesmo. O The Weeknd ainda é pequeno.

Contrariando o que vinha sendo comentado, o Justice não se apresentou com uma banda e mostrou praticamente o mesmo show do disco passado, adicionando apenas luzes aos amplificadores cenográficos e as música novas de sonoridade parecida (já que o disco é mais hard rock do que metal), como “Orion”. A banda entrou bastante atrasada e fez um set bem curto num espaço já limitado de tempo. Muito pouco para o palco principal, mesmo sendo muito bom.

Espremido entre a catarse causada pelo Girl Talk no palco menor e o poperô do Calvin Harris (com Rihanna como convidada) na Sahara, o Beirut se esforçou pra conseguir se fazer ouvir na Gobi. Tarefa ingrata para eles e para os muitos que lotaram a tenda na esperança de ver o show.

No palco principal o At The Drive In fez seu retorno, enquanto a Florence and The Machine agradava a mulherada no menor. Nada disso importava, a essa altura o campo de polo já estava a espera de Dr. Dre, Snoop Dogg e sua turma.


Dr. Dre & Snoop Dogg e todo o resto

Como num especial de TV, Dr. Dre fez as vezes de anfitrião, falando bem mais que Snoop, enquanto recebia seus convidados (já sabe: clique e assista o show todo). Passeando quase cronologicamente por alguns dos sucessos que produziu, recebeu Kurupt, Warren G, homenageou Nate Dogg (morto recentemente), ouviu Snoop puxar “Jump Around” do House of Pain e cantar “Young, Wild and Free” com Wiz Khalifa e então o caldo começou realmente a engrossar.

Confirmando os boatos, 50 Cent e depois Eminem também participaram, transformando a noite num encontro de medalhões do hip hop, faltando apenas Jay Z, Lil Wayne e Kanye West pra fechar o primeiro time (mas eles não tinham nada a ver com aquilo). O que aconteceu entre essa duas apresentações foi o que se tornou o assunto mais comentado do Coachella, possivelmente não apenas dessa edição.

Durante o dia já rolava um falatório sobre a participação virtual do Tupac, o próprio holograma (papo que você vem escutando falar aqui no URBe pelo menos desde 2006) sendo citado. Não deu outra. E mesmo sem ser exatamente uma surpresa, causou espanto no sentido estrito da palavra. Mais do que uma comoção ou celebração, a visão de Tupac no palco, gritando “qualé Coachellaaaa”, deixou o clima meio sombrio. Era mais como ver um espírito do que o artista. Embora o objetivo não pareça ter sido esse, funcionou, afinal, o rapper foi assassinado há 16 anos.

No final, mesmo com a chuva e escalação “tímida” (e bota aspas nisso!), foi uma das edições que mais repercutiu. Curioso pra saber qual vai ser a história ano que vem.

Obs 1 – Para assistir: Tem alguns links para vídeos com os shows inteiros no texto. Uma busca no Google por “nome da banda” + Coachella + full entrega os resultados. Muitos dos vídeos estão marcados como “privados”, para não serem tirado do ar pelo YouTube, então uma busca no próprio YT não acusa. Tem muitos no DailyMotion também.

Obs 2 – This is an extensive Coachella ’12 Weekend 1 review written in Portuguese, here’s an automatic translated English version (through Google Translator)

Começou Chorare

Ano passado Moraes Moreira mostrou no Instituto Moreira Salles, acompanhado pelo Filho David Moraes, uma versão voz e violão do disco “Acabou Chorare”, do Novos Baianos, como parte de uma série de apresentações de discos clássicos produzida pelo (assista o show inteiro no blogue do IMS). Muita gente ficou de fora do pequeno teatro, era claro que tinha mais público.

Em 2012 o disco completa 40 anos e, mostrando que a brincadeira pode render, Moraes Moreira apresentou novamente o álbum no Studio RJ, dessa vez com uma banda, formada por, além do filho, Cesinha (bateria), Augusto Albuquerque (baixo) e Marcos Moletta (bandolim). O show cresceu e casa estava em clima de sarau, com o público cantando tudo.

Quem viu, deu sorte, já que o Studio RJ também é pequeno para o tamanho da importância e influência do disco. Nesse ritmo, logo o show vai pintar em casas maiores. Faltam ainda Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Dadi, Galvão, Paulinho Boca de Cantor… Bom, falta todo mundo. E tem muita gente querendo ver a banda inteira reunida.

Pazes e Psilosamples e o Brasil no Novas Frequências

A noite de encerramento do Novas Frequências não estava programada para acontecer exatamente como aconteceu. A atração inicialmente divulgada era o guitarrista Mark McGuire (do Emeralds), que cancelou sua vinda, em cima do laço. Ainda que tenha feito bastante falta (era o que mais queria ver), a solução encontrada acabou por enriquecer o festival, adicionando atrações brasileiras – Pazes e Psilosamples – numa programação que antes só trazia nomes internacionais.

Infelizmente, atrações brasileiras não causam o mesmo frenesi no público (porque sempre dá pra ver depois? Vai saber…) e o domingo foi também a noite com menos procura por ingressos. Estava cheio, porém não houve a disputa por entradas que se viu nas outras datas. É uma pena. Quem não foi, perdeu a chance de conferir ao vivo dois caras que não, não dá pra ver depois tão facilmente assim, porque raramente passam por aqui.

O brasiliense Pazes, por exemplo, nunca tinha se apresentado no Rio. O moleque quebrou tudo. Seguindo a linha sonora da beat scene angelina, capitaneada por Flying Lotus (e seu hip hop instrumental e viajandaço), Pazes esgarça o espaço artificialmente através de reverbs e delays (como no pós-dubstep dos ingleses Burial e James Blake) e esquenta as coisas com uma estética lo-fi, com camadas de “sons naturais” criadas – atenção para o paradoxo – no computador.

Apresentando-se com um laptop, controladores e um microfone, Lucas Febraro reconstruiu ao vivo suas produções, como a versão de “Sétimo Andar”, do Los Hermanos. Bastante derivativo do que tem sido feito mundo afora, sim. Porém, hoje “o mundo” está (é?) em rede, e fronteiras geográficas fazem cada vez menos sentido. Pazes está alinhado com o que está sendo feito no exterior, sem deixar nada a dever.

O mineiro Psilosamples, por sua vez, faz música eletrônica sampleando elementos da música brasileira, drum n bass com tamborins, 2×4 com sanfona. Criativo e original, porém sem o apuro técnico demonstrado pelo Pazes. Agora que já se encontraram no palco, quem sabe um não influencia o outro.