OEsquema

Arquivo: rio fanzine

Rio Fanzine, 1986-2010


O último RF

Hoje foi publicada a última edição do Rio Fanzine. Agora, RF só no blogue do Globo On. Ainda não tive a moral de abrir o Rio Show e encarar a derradeira página.

Após 24 anos ininterruptos, a histórica coluna publicada por Carlos Albuquerque e Tom Leão no jornal o Globo (primeiro no Segundo Caderno, fundada sob supervisão de Ana Maria Bahiana, e nos últimos anos no caderno Rio Show) chega ao fim.

Foram nas páginas do RF que saíram as primeiras linhas sobre bandas que viriam a despontar, tanto no exterior quanto no Brasil. Los Hermanos, O Rappa, Planet Hemp (pra citar alguns nomes atuais) e tantos outros artistas tão importantes quanto, apenas sem o mesmo sucesso, tiveram na coluna uma janela para grande imprensa.

Quando o RF foi criado a internet era um sonho e que conseguir uma revista estrangeira era algo a se comemorar. A coluna foi por muito tempo uma das principais fontes de informação sobre o que se passava abaixo do radar pelo mundo, tendo sido fundamental para sedimentação da cultura alternativa não apenas no Rio, como no resto do país.

A decisão foi tomada de comum acordo pela dupla, por diversos motivos, o principal deles sendo “os novos tempos”. Hoje a realidade é outra. Fanzines tornaram-se blogues e a informação corre solta online, obrigando os grandes veículos, como o próprio Globo, a dar espaço em seus espaços nobres para o que antes era visto como “estranho”, “esquisito” ou “nichado”. A cultura alternativa cresceu e se estabeleceu. Isso é uma grande notícia.

É um final digno, sem melancolia. Acabou porque era hora. 24 anos é tempo pra chuchu. No país em que as bandas mais irrelevantes jamais terminam, essa postura por si só é admirável. Saber a hora de parar, como já mostraram Pelé ou Michael Jordan, é também sabedoria.


a capa da antologia de 18 anos

Pessoalmente, mesmo entendendo a decisão, a recebo com tristeza, amplificada por minhas tendências nostálgicas e saudosistas. Passei boa parte da adolescência esperando o jornal pra conhecer alguma coisa nova, que não poderia ler a respeito em outro lugar.

Apesar de ter publicado textos em veículos como Folha e Placar antes, foi ali que escrevi com mais frequência, de 2002 a 2010, para ser mais preciso. Sempre assinando acompanhado do link do URBe, essas participações abriram muitas portas. Em boa parte das viagens que fiz sempre procurava trazer uma pauta para o Rio Fanzine, que aos poucos virou também minha casa. É estranho ver fechar.

Como nunca trabalhei em redação, posso falar que o Rio Fanzine foi minha escola de jornalismo. Com o Tom e Calbuque aprendi muita coisa: a prestar atenção no que ninguém está prestando; que mais vale gastar meu tempo falando de coisas legais do que criticando porcarias; que textos sobre música não precisam ser cabeçudos ou enciclopédicos; a não cair em papinhos de assessorias de imprensa; a admirar e tratar com o mesmo respeito artistas em começo de carreira ou consagrados; a não se levar a sério demais; que deixar credencial de imprensa a mostra desnecessariamente é coisa de prego.

Hoje estou fazendo a coluna Transcultura, também no Segundo Caderno, editada pela dupla. É óbvia a influência do Rio Fanzine nesse caminho e disso eu tenho muito orgulho.

11 Comentários

O Globo, Abril/2010

Resenha do show do Flying Lotus no Coachella 2010 que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

Em 2009 Steven Ellison já era um produtor celebrado. Conhecido pelas
trilhas compostas para as vinhetas da faixa adulta do Cartoon Network,
a Adult Swin, o lançamento do segundo disco do seu Flying Lotus pela
gravadora Warp marcou sua entrada no primeiro time. As batidas
fragmentadas do espetacular “Los Angeles” apontou novos caminhos para
o hip hop, esticando tanto o conceito do que supostamente o gênero
deveria ser que para muitos puristas foi ousado demais. Mesmo assim,
no Coachella 2009 o Flying Lotus tocou numa das tendas extras, fora da
programação oficial, basicamente sonorizando a saída de pessoas
exaustas após um dia inteiro de shows. Uma injustiça e um desperdício.

Esse ano as coisas foram um bocado diferentes. Tocando num horário
importante e na menor tenda — e por isso uma das mais disputadas –
era hora de aproveitar o momento. Com um sorriso de orelha a orelha,
uma simpatia digna dos mais carismáticos MCs e um laptop, o FlyLo,
como é carinhosamente chamado pelos fãs, fez exatamente isso. A
apresentação entrou nas listas de melhores do festival de praticamente
todos que a assistiram.

A frente de um telão com projeções de imagens abstratas futuristas
misturadas a trechos de “Blade Runner”, as batidas eletrônicas e os
graves poderosos (com os dois pés no dub) de um hip hop experimental
iam tomando forma, camada a camada. Steven escolhe cuidadosamente a
ordem em que solta os elementos de cada faixa, priorizando os
contrapontos e entortando os ouvidos, antes de libertar a peça que une
todo o resto e dá forma ao groove .

Além de músicas próprias como “Parisian Goldfish”, FlyLo tocou seu
remix de “Idioteque” (Radiohead, dedicando a Thom Yorke, também
presente ao festival), utilizou trechos de “Machine Gun” (Portishead)
e mandou uma versão de “Avril 14″ (Aphex Twin), uma seleção que
ilustra tanto suas referências quanto sua diversidade sonora, ajudando
a compreender a facilidade com que transita entre o jazz, deep house e
o drum n bass, sem perder o foco no hip hop.

Ao vivo o clima soturno das produções é quebrado pelos largos sorrisos
e empolgação do produtor. Não por acaso, o palco foi invadido três
vezes, coisa rara no Coachella. Em uma delas uma menina simplesmente
parou ao seu lado e ficou observando tocar, refletindo bem o
sentimento do resto do público, em transe, hora assistindo
embasbacado, hora pulando sem parar. O terceiro disco do Flying Lotus,
“Cosmograma”, sai esse ano. Ao que tudo indica, essa saudável confusão
promete apenas se intensificar.

Comente

O Globo, Maio/2009

Nesse domingo tem cumbia digital no Rio, na festa Dancing Cheetah, a cargo do argentino El Remolon.

A matéria abaixo sobre cumbia digital foi escrita para o Rio Fanzine (O Globo).

Pra fechar a tampa, a assessoria de imprensa do sujeito mandou uns links de MP3 pra botar na roda:

Matias Aguayo – “Minimal” (El Remolón Remix)

El Remolón – “Veridis Quo” (Daft Punk reprise) vs De La Soul

Animal Collective – “My Girls” (El Remolón Cumbia Mix)

Alcides – “Violeta” (El Remolón Remix)

Vou perder porque estou em Londres, para festa de lançamento do DVD do “Dub Echoes”. Mas como queria conferir isso de perto…

——-

¡Tiempo de cumbia digital!

Existe uma barreira invisível separando o Brasil de nuestros hermanos quando o assunto é música. Embora a língua atrapalhe a comunicação, o maior obstáculo é o estigma de cafonice associado a letras cantadas em espanhol. Grande engano.

Embora o sucesso de Manu Chao (ou mesmo os fãs que Café Tacuba e Ozomatli colecionam no Brasil), ainda tem muita coisa pra passar por essa ponte. Felizmente, como tudo atualmente, as coisas começam a se misturar.

Não por acaso, essa ligação tem se reforçado através dos ritmos eletrônicos produzidos nas periferias. O produtor argentino El Remolon – que toca no domingo na festa Dancing Cheetah no 69 –  por exemplo, juntou duas das mais conhecidas batidas terceiro mundistas quando convidou a ex-vocalista dos funkeiros Bonde do Rolê, Marina, para cantar sobre uma base de cumbia digital na sua “Vem que tem”.

Cubia o quê? Explica aí, Remolon.

- A cumbia digital é uma mistura de sons e culturas, não tem uma característica única, com influências de minimal, hip hop, IDM, dancehall, dubstep, electro, dub e, claro, a cumbia tradicional. A palavra cumbia era praticamente proibida na cena eletrônica. Começou a mudar lentamente, há uns cinco anos, com produtores como Fauna e Marcelo Fabian tocando em eventos alternativos.

O preconceito com esse ritmo tradicional (nascido na Colômbia e hoje presente em diversos países latinos, cada um com sua leitura própria) era tanto que até El Remolon já olhou torto pro gênero popular.

–  Se escuta cumbia em toda parte da cidade, de maneira que sempre se é ao menos um “ouvinte passivo”. Quando me pediam pra tocar cumbia comercial, me recusava. Mas percebia que havia algo de interessante, hipnótico ali e passei a incorporar samples em minhas produções de electro, minimal e IDM pra ver no que dava.

Deu no som que está se espalhando pelo mundo. Foi nas favelas de Buenos Aires que surgiu a cumbia villera, versão eletrônica do gênero, capitaneada pelo Damas Grátis e Pibes Chorros. O catalisador dessa cena foi a festa do selo Zizek na capital argentina, fundado pelos argentinos Villa Diamante e Nim e pelo americano El G, o ZZK foi se expandindo até encontrar ecos no exterior, tendo se apresentado no badalado festival californiano Coachella desse ano.

O alemão radicado no chile Señor Coconut, sempre ligado, também embarcou, os holandeses Sonido del Príncipe e Dick el Demasiado também, assim como Toy Selectah, membro do grupo de hip hop Control Machete, responsável pelo primeiro hit a fazer barulho fora da cena, “Cumbia sobre el rio”, incluída na trilha do filme “Babel”.

Um dos DJs da Dancing Cheetah, junto com João Brasil e Pedro Seiler, Chicodub é um apaixonado pelas batidas latinas e um dos pioneiros no som por aqui. Ele define a cumbia digital como “super tropical, meio reggae, meio forró, meio lambada, meio tecnobrega, com sintetizadores irados e um grave poderoso”. Para ele, o incipiente fenômeno musical pode se tornar ainda maior que o baile funk que dominou a Europa.

- O momento é favorável para os gêneros latinos em geral e de outros lugares ditos periféricos. O mundo está mais aberto nesse sentido. A cumbia já é ouvida em toda a América Latina e evidentemente os latinos estão em todos os cantos do mundo, se você renova o gênero com um namoro super esperto com a eletrônica, as chances de emplacar ficam ainda maiores.

Enquanto a explosão não vem, El Remolon vem quente pra tocar no Rio.

- Toco com um laptop e um teclado, fazendo versões ao vivo do meu disco “Pibe Cosmo” e alguns remixes e mashups. A idéia é botar o pessoal pra bailar introduzindo o groove da cumbia. As relações musicais entre Argentina e Brasil sempre foram distantes demais para o meu gosto. O que estamos fazendo com a cumbia e os brasileiros com o baile funk abre uma porta de diálogo. Espero que as relações se estreitem.

Ojala. Quer dizer, tomara.

6 Comentários

O Globo, Março/2009

Matéria escrita para o Rio Fanzine, do jornal O Globo, sobre a trilha do seriado Mitchiko to Hatchin produzida por Kassin.

Kassin animado

Integrante e fundador da Orquestra Imperial e do Acabou la Tequila, produtor dos discos de nomes como Los Hermanos, Vanessa da Mata e Caetano Veloso, parte do trio +2 (com Domenico Lancelotti e Moreno Veloso) e a frente do projeto solo Artificial, Kassin encontrou tempo para se envolver em mais um projeto.

Dessa vez Kassin foi convidado para fazer a trilha sonora de uma série de animação japonesa. Dirigido por Sayo Yamamoto e produzida por Shinichiro Watanabe (diretor de Cowboy Bebop e de dois episódios da série Animatrix), Michiko to Hatchin se passa num pais latino fictício, com características que remetem diretamente ao Brasil, e conta a história de duas amigas em fuga (Michiko da prisão, Hatchin de uma violenta família adotiva).

- Estava com o +2 tocando no Japão e no final do show um dos produtores falou em português: “Equipe Fuji Television quer falar você”. Entraram dez japoneses de terno, me deram cartões e perguntaram se eu gostava de animação. Falei que sim , dali muito tempo passou , achei que não ia rolar mais. De repente chegou uma caixa enorme com desenhos dos personagens, roteiro e um menu de como deveria ser cada musica de cada episodio – Kassin fala sobre o convite.

A cultural nipônica não é novidade para Kassin. Casado com uma japonesa e com duas filhas nascidas lá, ele visita o Japão com freqüência. A produção trilha da série ocupou um ano meio, tempo no qual ele não fez outra coisa senão compor as 61 músicas do anime, 40 das quais serão lançadas em dois discos.

A trilha é variada e tem participações especiais de companheiros de Kassin em seus diversos projetos: Kassin e Gabriel Muzak cantando sertanejo, funk setentista, BNegão sambando e funkeando, carimbó, o sambista Wilson das Neves soltando vozeirão, disco music, além de Ritchie, Manu Valdez, Áurea Martins, Moreno e Thalma de freitas.

- Tentei dar variedade e vida a cada música, Como sabia que iria sair em disco, quis que as faixas funcionassem sozinhas mesmo, com início meio e fim. Pra isso os colaboradores foram muito importantes. Felipe Pinaud fez arranjos de metal. Fiz uma parte da trilha com uma banda que sempre sonhei reunir, com nove músicos tocando ao vivo como, uma trilha antiga. Os temas mais blackxploitation e os temas mais afro jazz brasileiros foram tocados por essa banda, ao vivo, tudo escrito – descreve Kassin.

Apesar da liberdade criativa, o trabalho foi bem detalhadamente encomendado.

- Watanabe fez esse menu da músicas de maneira cirúrgica, a direção dele foi brilhante. Ele me dizia que tipo de música queria, instrumentação, BPM , duração da trilha na cena, se deveria ter muitas partes ou não… Fiz a composição e a produção baseado nas sugestões dele – conta Kassin.

O primeiro disco já saiu no Japão e o segundo está programado para abril. Não há lançamento programado para o Brasil.

- Existem muitos fãs de anime no Brasil, acho que haveria mercado consumidor pra isso aqui .

Enquanto os discos não chegam por aqui, é possível escutar a trilha toda no YouTube. E obviamente, as musicas estão a dois cliques de distância no computador mais próximo.

Comente

O Globo, Julho/2008


foto: URBe

Resenha do show de Seun Kuti em Londres que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

Família Kuti

A frente do Egypt 80 no palco do festival Lovebox, em Londres, Seun Kuti prova que não é um mero aproveitador do legado de seu pai, o expoente maior do afrobeat, Fela Kuti.

Última banda de Fela antes da morte em 1997, 12 dos 16 do integrantes do atual Egypt 80 são veteranos das longas noitadas comandadas pelo pai no seu The Shrine, lendária casa de shows em Lagos, na Nigéria. É difícil imaginar que músicos desse nível aceitassem ser comandandos por qualquer um.

O caminho escolhido por Seun é mais próximo do pai e diferente do traçado pelo filho mais velho de Fela, seu meio-irmão Femi Kuti (que tocou na derradeira edição do Free Jazz Festival, em 2000), vez ou outra acusado de amaciar o afrobeat para ouvidos estrangeiros.

É uma encruzilhada e tanto: se a escolha é atualizar os camihos, é chamado de água com açucar, se a opção for dar continuidade, pode-se facilmente ser chamado de oportunista.

Felizmente, isso não está acontecendo com Seun, cujo disco de estréia “Seun Kuti & Fela’s Egypt 80″ está sendo bastante elogiado.

Além do quê, com a leva de afrobeat brotando nos EUA, através do Antibalas, Nomo, Amayo’s Fu-Arkist-Ra ou Ocote Soul Sounds, nada mais justo que o filho do homem também tenha direito a dar sua contribuição.

A relação musical de pai e filho no caso dos Kuti, é bem diferente, por exemplo, da dos Marley. Seun toca com a Egypt 80 desde os 8 anos (Femi também) e assim como o pai, foi para Inglaterra estudar música.

Ele tem carisma, energia e talento próprio de sobra, ainda que a semelhança física com Fela e o jeito de dançar possam criar uma atmosfera saudosista. Abrindo o show com uma música de seu pai, “em respeito”, como Seun mesmo disse, suas próprias músicas não ficam para trás.

As frases dos metais grudam na cabeça já na segunda volta, as levadas de guitarra, simples e funcionais fazem a cama para hipnose, enquanto o baixo e a percussão lá na frente vão empurrando o conjunto. A sonoridade solidifica-se na dança das duas vocalistas de apoio.

Seguindo os politizados passos do pai, letras falam do sofrimento africano e clamam por mudanças. “Quero fazer afrobeat para minha geração. Em vez de ‘levante e lute’, será ‘levante e pense’”, disse em entrevista ao jornal inglês The Independent.

É curioso como tanta gente gosta de música politizada, mas poucos gostam de política. Em vez de instigar a consciência, esse tipo de música faz o contrário; como se suprisse a necessidade diária de cada cidadão de se indignar. Como se ouvir um disco bastasse.

Comente

O Globo, Abril/2008

Resenha do show da volta do Portishead, em Londres, que escrevi para o Rio Fanzine, no jornal O Globo.

Terceiro

Desde que iniciou a turnê do atual disco, “Third”, no final do ano passado, o Portishead não havia ainda tocado em Londres. Fazia 11 anos desde o último show na cidade, então a expectativa era grande no Hammersmith Apollo.

Ao que parece, o trio de Bristol também estava ansioso com a apresentação. Como foi apontado no RF on line pelo Calbuque, após o show o guitarrista Adrian Utley escreveu: “A noite foi boa, as pessoas foram simpáticas e o som estava bom, mas é duro tocar suas músicas quando você consegue ouvir as pessoa batendo papo. Seria mais barato ir para um pub”.

Talvez o recado dado logo na abertura, com “Silence” e seu curioso sample em português, não tenha sido sutil demais, porém, comparado com o público de uma certa cidade, a platéia estava até bem quieta.

Um problema técnico nas primeiras músicas, fez a banda interromper o show logo após “Mysterons”. Acompanhados pelos cascudos Clive Deamer (bateria), Jim Barr (baixo e guitarra) e John Baggott (teclados), Geoff Barrow (produção, programação e toca-discos) e ela, Beth Gibbons (vocal), voltaram rapidamente para hipnotizar a massa de trintões saudosistas.

Vestidos todos de preto, ao vivo o Portishead pareceu menos dark do que nos discos (ou, no mínimo, menos pesado), talvez pela maior ênfase na guitarra e bateria do novo trabalho. As músicas do “Third”, que dividiu opiniões, se misturam com o repertório dos outros dois de maneira mais natural do que se poderia esperar numa primeira audição.

Agarrada ao microfone, e sem poder fumar (hoje em dia, na Inglaterra, é proibido fumar em lugares fechados e isso se extende ao palco), Gibbons não disse uma palavra ao público, comunicando-se através de sua interpretação sofrida.

Se o som é datado, certamente é num sentido positivo Talvez seja mais justo falar em uma sonoridade que marcou uma época, não o contrário.

Comente

DMZ, a principal festa de dubstep de Londres


fotos e vídeo: URBe
* Esse texto foi republicado na coluna Rio Fanzine, do jornal O Globo

A escada apontando para baixo logo na entrada da DMZ, bi-mestral e mais importante festa de dubstep , é sintomática do clima underground da cena.

Porém, com o dubstep ganhando mais e mais espaço, é natural que após entrar na The Mass, em Brixton, você tenha que subir quatro andares de uma escada em espiral. O efeito desorientador das paredes creme e circulares são apenas um aperitivo do que está por vir.


Rumo ao underground

Na fila para guardar o casaco, alguém pergunta “o que exatamente é dubstep?”, no que é respondido pela menina logo a sua frente com uma rima, tão enigmática quanto explicativa: “bass pace and space” (“graves, ritmo e espaço”).

Do lado de dentro, Mala (do Digital Mystikz) e Loefah, davam uma aula prática para cerca de 500 pessoas espremidas numa pista de dança escura, iluminada apenas de tabela pelas luzes do bar e por uma bola espelhada em algum lugar do teto.


Mala

As batidas lentas e quebradas na maior parte do tempo são encobertas por linhas de baixo monstruosas, que muitas vezes se transformam numa cortina de graves oscilantes. Não é exatamente a definição de um som dançante. No entanto, não é o que os urros da pista a cada rewind demonstram.

Toda vez que uma faixa arranca gritos de “pull up” assim que estoura, na melhor tradição jamaicana, a mão de uma dos diversos MCs e amigos amontoados na cabine — raramente a do próprio DJ — volta a música para o início, proporcionando outra gritaria e prolongando seu clímax.

Durante a noite, duas das faixas que mais geraram berros foram “Poison dart” (com vocais da The Warrior Queen) e “Skeng”, ambas do produtor The Bug, que assistia a tudo do bar, ao lado de Kode 9, outro expoente do dubstep (e que já esteve no Brasil).


Skream atacando

A estrela da noite, porém, é um rapaz de 21 anos que manda o próprios fã “tomar no cu” assim que assume os toca-discos, incomodado com assédio do sujeito que enfia um celular com alguma mensagem digitada na sua cara.

Quando Skream começou a tocar, as 2h45, a agitação foi tanta que começaram a jogar cerveja para o alto, molhando seus discos e fazendo com que o MC tivesse que pedir para as pessoas se acalmarem.

Autor de “Midnight request line”, até agora o maior sucesso do dubstep, transpondo as barreiras da própria cena, Skream realmente empurra as fronteiras do gênero. Seu set é mais dançante do que os dos seus parceiros, mesmo sem privilegiar as batidas ou perder a essência grave do som.

Skream mostra que sabe capitalzar a atenção que vem recebendo e, para isso, utiliza um dos mais velhos truques do livro dos DJs.

Remixes de músicas conhecidas não são ainda uma prática tão comum no dubsptep. Por isso, a versão em câmera lenta de “Not over yet”, dos queridinhos do Klaxons, é certeira e só pode render mais destaque para as produções de Skream, que já tem um disco lançado, “Skream!” (Tempa).

Checando o relógio várias vezes ao se aproximar do fim do set de uma hora (impressionante como a pontualidade britânica se manifesta até na cena alternativa), Skream olha para pista de dança pela primera vez.

Ri e bate palmas. Ele sabe que não tem pra ninguém.

Comente

O Globo, 16/03/2007

rockz_aovivo.jpg
foto: Michel Souza
(pescada do fotolog da banda)

Versão não-editada da matéria sobre o Rockz que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

O time do Rockz exige respeito. Formado por figuras conhecidas do cenário independente carioca, a banda tem Pedro Garcia (bateria; Cabeça, Planet Hemp), Nobru Pederneiras (guitarra; Cabeça, Lobão), Gabriel Muzak (guitarra; Funk Fuckers, Seletores de Frequência, carreira solo), Diogo Brandão (voz; Benflos) e Daniel Martins (baixo; Benflos). Com bagagens tão diferentes, é até difícil entender o que une os integrantes em torno do tal “novo rock”. Nobru explica.

— Eu e o Pedro queríamos fazer algo mais próximo do rock básico, dançante, como Rolling Stones, músicas que pudessem ser tocadas na pista. Isso não é novo, por isso as nossas influências não se baseiam apenas nesse tal “novo rock”. Esse rock é ‘novo’ por estar sendo feito por bandas novas, de agora, não pelo estilo.

Mais pesado do que as supostas matrizes da tríade Strokes-Franz Ferdinand-Bloc Party, a referência ao Queens of the Stone Age citada no MySpace não é gratuita. Preocupados apenas em fazer rock, a banda vai enfileirando boas músicas logo no primeiro EP, como “Colorbar” e “Reticências”.

Influenciados pela música eletrônica, de algum tempo pra cá, bandas de rock vem se aproximando das pistas de dança, isso não é novidade pra ninguém. Um dos primeiros estilos identificados com essa fusão foi o discopunk, de LCD Soundsystem e The Rapture.

Ano passado, uma leva de grupos se destacou fazendo músicas dançantes de maneira orgânica (ou seja, sem instrumentos eletrônicos), sacudindo as pistas de maneira anárquica, apoiados numa estética visual espalhafatosa. Com suas roupas coloridas e bastões que brilham no escuro, os ingleses do Klaxons são os expoentes desse movimento (muito por conta da versão do hino rave da década de 90, “The bouncer”, do Kicks Like a Mule).

O gênero foi batizado pela mídia de “new rave”, forçando uma semelhança com as raves pelo fato dessas bandas atuais se apresentarem em festas em galpões abandonados, normalmente ilegais e durarem a noite toda. Mesmo que os freqüentadores de uma cena não se identifiquem com a outra.

Creditado ao próprio Jamie Ryenolds, vocalista do Klaxons, o termo é frouxo o suficiente para abarcar grupos tão diferentes quanto Shitdisco, Hot Chip, Simian Mobile disco, DataRock e até os brasileiros do Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê. Não demorou muito e bandas por aqui também começam a ser rotuladas como “new rave”. Moptop, Cooper Cobras e Rockz são algumas delas.

— Parece discopunk, não muda muito, é rock dançante. Daqui a pouco até o Mr. Catra vai ser “new rave”. Uma vez, em turnê com o BNegão na Europa, inventamos, de brincadeira, um estilo pra falar nas entrevistas para nos dar bem. Criamos o “samba dub” e um tempo depois começou a aparecer por aí. Quando a banda é boa, não importa o que seja — desdenha Pedro Garcia.

Com “músicas suficientes para encher dois discos”, segundo Pedro, o próximo passo é o clipe de “Essa mulher”, a ser filmado na Fosfobox, com muitos efeitos especiais, pelo mesmo diretor de “Confesso que errei”, Eduardo Kurt. Escolados na cena alternativa, o Rockz aguarda o melhor momento para lançar um disco cheio.

— Existem as lonas culturais, as casas da Lapa, as boates da Zona Sul, o Sergio Porto, os festivais e os improvisos em geral. Não acredito em cena favorável, vai da disposição, paciência e da criatividade de cada banda. Vamos continuar tocando, independente de como estiver a cena —finaliza Nobru.

4 Comentários

O Globo, 13/10/2006

Mosaico%20Cooper%20Cobras.jpg

Matéria sobre o Cooper Cobras que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

——-

Cooper Cobras fora do ninho

Influenciados pela crueza de bandas como Stooges, MC5, Ramones, AC/DC, aproximando-se do presente (mas nem tanto) através dos riffs arrastados dos stoners Fu Manchu e Karma do Burn e dos exageros dos escandinavos Turbonegro e Backyard Babies, o Cooper Cobras vai encontrando seu caminho.

Contrariando a fagocitose musical vigente, em que a sonoridade de cada grupo é a resultado da combinação de três ou mais estilos, o som dos cariocas pode ser resumido em apenas uma frase.

— Fazemos rock ‘n‘ roll direto, sem misturar com nada — diz o guitarrista e vocalista Victor Lima.

A formação enxuta ajuda. Formado em 2005, o power trio é completado pelo baixista Menezes e pelo baterista Pedro Svensson. O atalho para a fama, mulheres, sucesso, quebradeiras de hotel e outros sonhos roqueiros, lógico, tem sido a internet.

A quantidade de música disponibilizada na rede atualmente, somada a pressa do público pra ver a fila andar, às vezes dificultam as coisas. Os cobras confiam que a pedrada “Até o fim do show” — uma das seis músicas do seu primeiro EP, independente — vá espatifar mais portas e janelas.

— A cada mês surge a melhor banda do momento. Se você está guiando sua produção artística pelo interesse do público e mercado pode até conseguir fazer uma música ou um disco de sucesso, mas não vai durar muito. Mas a verdade é que quem está fazendo isso não está fazendo algo honesto — crê Lima.

O Cooper Cobras não se vê sozinho na cena carioca.

— O cenário rock do Rio é complicado, as bandas passam muito perrengue e tem que abrir seu espaço na marra. Mas, no final, tudo acaba rolando. Nos identificamos com o Autoramas, Rockz, Hitlist, StripClub, Mustang— afirma Menezes.

Entre planos de tocar na Argentina e fazer uma turnê pelo Sul do Brasil, o Cooper Cobras ainda comemora o encontro virtual com um ídolo. Gary Rasmussen, ex-baixista o Up e do Sonic’s Rendezvous Band (que contava ainda com ex-integrantes do MC5, Stooges e The Rationals) encontrou o Cooper Cobras no MySpace e mandou um recado para banda.

— Isso nos deixou muito orgulhosos Somos fanáticos pela SRB, é uma das nossas mais fortes influências — continua Menezes. — Ele escreveu dizendo que nós lembrávamos muito o som que eles faziam e que ficava feliz em ver bandas como o Cooper Cobras seguindo o som que eles fizeram. Foi uma espécie de benção, sabe?

1 Comentário

O Globo, 28/07/2006

de leve niteroi rio.JPG

Materia sobre o novo disco do De Leve, “Manifesto 1/2 171″, que escrevi para o Rio Fanzine.

——-

De Leve, de novo.

Pancada. Uma atrás da outra, vindas de todos os lados. Essa foi a rotina do rapper De Leve após a alegria inicial que seguiu o lançamento de “O estilo foda-se” (Segundo Mundo), em 2004, quando foi o assunto da vez, apontado como sucesso certo.

A estréia oficial não atingiu o resultado esperado, De Leve se desentendeu com sua gravadora por conta do lançamento do disco do Quinto Andar e, pra fechar a tampa, em abril do ano passado, o lendário coletivo de Niterói encerrou as atividades. Sem falar na briga com o ex-parceiro Marechal, pouco antes do disco sair.

Dois anos depois, De Leve está mudado. Aos 24 anos, acredite, está amadurecendo. A procura da parada mal feita (como canta em “Cão fudido”), o rapper lança seu segundo disco, “Manifesto ½ 171” (independente e já baixado mais de 1.000 vezes em seu saite, www.deleve.com.br).

— Essas merdas, de repente, tinham que acontecer mesmo. Eu era muito novo, não tinha noção do que era sair na capa de um jornal. Aprendi muito. A gente só aprende fazendo.

No disco, De Leve conseguiu equilibrar os escrachos da sua carreira solo com o perfil mais consciente que apresentava no Quinto Andar. Em “México” ele brinca (“mulher, você quer um papo cabeça, liga pro Pedro Bial / não me formei na PUC, fugi da federal”), em “Diploma” dá um recado para os jornalistas e em “Pode queimar” faz uma justa homenagem aos nossos honrados homens públicos.

Como se pode perceber, o estilo continua o mesmo, voando estilhaço pra todo lado. De Leve não poupa ninguém. E essa é uma crítica recorrente a seu trabalho, de que é muito fácil chamar atenção espinafrando grandes nomes.

— Nesse disco nem falo tanto nominalmente, mas é mais fácil mesmo falar das pessoas, vão querer te ouvir. Mas acaba que tem muita gente querendo falar isso também e ninguém fala, sei lá porque.

Se ele aliviou a carga, certamente Marcelo D2 não vai concordar. O homem-fumaça é alvo constante, do título do disco (uma paródia com sua marca de roupas, a Manifesto 33 e 1/3) às letras.

— Conheço ele muito pouco, encontrei algumas vezes, mas não sou inimigo dele não. Só acho que tem umas paradas que pedem uma zoação. O D2 pode receber de dois jeitos: ou não vai dar a mínima ou vai ficar puto. Ou então pode achar graça também.

Vai ver não achou. No seu último disco, na faixa “That’s what I got”, D2 cita o “Pra bombar no seu estéreo”, música do De Leve, e canta: “é que vagabundo é foda / deixa eu ganhar o meu din / é pra bombar no seu estéreo / eu vou botando de leve / ri não, fala sério / que vem da selva essa febre”

— Não sei se ele tá querendo me zoar, que tá botando em mim de leve… Eu achei graça e fiquei felizão. O cara famosão no mundo inteiro, falando meu nome? Pra mim é uma honra.

Há tempos atrás, essa resposta era inimaginável. Hoje, no entanto, De Leve está de olho numa fatia maior do bolo musical.

— Não vou dizer pra você que eu não espero que minha música toque na rádio, essas viadagens do underground. Esse disco está mais animado, mais dançante, mais pop mesmo, de propósito. Não quero fazer música pra meia dúzia.

3 Comentários

O Globo, 21/07/06

TVOTR_Coachella 2006.jpg

Resenha do show do TV on the Radio no Coachella 2006, acompanhando matéria do Calbuque sobre o segundo disco da banda, que escrevi para o Rio Fanzine.

——-

TV e rádio ligados, ao mesmo tempo

Ser escalado para o festival Coachella, apesar da ótima visibilidade, não é garantia de público. Veja a tarefa ingrata do TV on the Radio, na edição desse ano, por exemplo.

Tocando na tenda Mojave, espremidos entre as apresentações do Clap Your Hands Say Yeah e do Ladytron, a banda ainda teve que disputar atenção com os shows do rapper Kanye West e do Sigur Rós, que arrastaram boa parte do público para o palco principal.

Além da concorrência, o TVOTR tinha outra barreira a vencer: o experimentalismo do seu próprio som. O resultado da mistura de rock, gospel, pós-punk e post rock, eletrônica, pop, blues e hip hop, às vezes na mesma música, não é o que se pode chamar exatamente de palatável.

Mesmo assim, puxados pelo sucesso (em pequena escala, é verdade) da climática ”Staring at the sun”, os nova-iorquinos provaram sua força e juntou bastante gente na tenda. Outras músicas do primeiro disco, “Desperate Youth, Blood Thirsty Babes”,, como “Ambulance” (faixa vocal que, ao vivo, ganha instrumentos de verdade), completaram o repertório.

Com data marcada pra tocar no Brasil no ano passado, o TVOTR acabou cancelando as datas. Uma pena. Agora que assinaram com a gigante Interscope para o lançamento de “Return to Cookie Mountain”, seu segundo disco — exatamente como também fez o Yeah Yeah Yeahs — a banda deve contar com uma distribuição e divulgação maior.

É torcer pra ser grande o suficiente pra trazer a banda até aqui.

1 Comentário

O Globo, 26/05/2006

Luke Jenner_MX.jpg
Luke Jenner
foto: URBe Fotos

Matéria que escrevi para o Rio Fanzine sobre os shows do Rapture e Kasabian no Nokia Trends, México.

—————————

Além dos 15 downloads de fama

No último final de semana, dois dos mais festejados nomes do novo rock, The Rapture e Kasabian, se apresentaram na primeira edição do festival Nokia Trends no México. O novato Art Brut também tocou e o mexicano No Somos Machos fez as honras da casa. A edição brasileira está prevista para o segundo semestre, ainda sem escalação confirmada.

Ocupados com a gravação de seus novos discos, o segundo de ambos, The Rapture e Kasabian andavam sumidos dos palcos e aproveitaram pra testar músicas que só serão lançadas oficialmente em setembro. Na internet, claro, sempre chega antes. “W.A.Y.U.H”, do Rapture, já está lá.

O segundo disco é sempre um momento crucial na carreira de um artista, principalmente quando vem após uma boa estréia. É a hora de confirmar o quanto foi talento e o quanto foi sorte e mostrar se tem fôlego pra construir uma carreira. A pressão do público, da crítica e até da própria banda é grande.

Mais do que isso, nesses tempos de MP3, o passado chega rápido e poucos grupos têm conseguido se manter em evidência até o tal segundo disco. Pode parecer lógico que o sucesso logo de cara ajude a banda, mas com a voracidade que o público consome música atualmente, perder o posto de novidade pode ser fatal.

Seja pela ânsia dos ouvintes, sedentos pela nova revelação da semana, seja pela pressa das próprias bandas, que algumas vezes queimam etapas e divulgam seu material antes mesmo de estar pronto, o fato é que, hoje, para muitos artistas a fama não dura mais que 15 downloads.

Talvez com essa preocupação, o Rapture tenha aguardado três anos para preparar o sucessor de “Echoes”. Ainda sem título, o disco foi produzido por Paul Epworth (Bloc Party) e Ewan Pearson e conta com Danger Mouse no comando da mesa em duas músicas.

O Rapture acredita que a exposição da estréia ajude.

— É difícil colocar seu nome na consciência das pessoas, esse é o maior desafio. Quando você faz isso, é questão de você ser bom ou não. Acho que nós somos bons e as pessoas já ouviram falar da gente, então agora podem decidir — conta Luke Jenner, vocalista da banda.

Mas será que não ser mais novidade ajuda ou atrapalha?

— É a nossa primeira vez nessa posição. É bom porque não tem mais “você é a banda do momento e eu não sei o que pensar porque todas essas pessoas antenadas gostam e eu não tenho certeza se gosto disso” — continua Luke.

O Kasabian não esperou tanto tempo para gravar “Empire”, novo disco que chegará às lojas dois anos após seu bem sucedido disco homônimo. Eles estão confiantes que toda atenção conseguida no começo jogará a favor.

— Os fãs vão ficar felizes, excitados e orgulhosos que a banda que eles disseram pra todo mundo que é boa não os decepcionou — diz o guitarrista Sergio Pizzorno.

Parte das primeiras gerações de grupos que tanto devem à rede sua divulgação mundial, o The Rapture e o Kasabian enfrentam o segundo estágio. A julgar pelas novas músicas mostradas no show no México, ambas as bandas parecem ter conseguido manter o nível dos trabalhos anteriores. É dar tempo ao tempo e descobrir se o público ainda vai ter interesse nesse vovôs precoces do rock.

Bruno Natal edita o URBe e viajou a convite da Nokia.

Comente

O Globo, 27/01/2006

iky_acme.jpg
Ilustração: Acme

Matéria sobre a Iky’x tape Vol. 1, 2004/2005, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

As 28 músicas estão estão pra jogo, de “Ralge daopacha”, com Chapadão cantando em TTK, dialeto originado no Catete (Tetecá, em que as sílabas das palavras são pronunciadas de trás pra frente) à “Cobra cega”, cantada por Gil.

————

O hip hop carioca está bem na fita
Bruno Natal especial para o Rio Fanzine

Gravar uma mixtape é a forma mais prática de divulgação para um DJ. As fitinhas são praticamente uma instituição no universo hip hop. Com o passar dos anos, não foi só a mídia que mudou — hoje, lógico, são distribuídas em CD ou MP3 — o conceito também se transformou.

Se antes continham uma seleção musical mixada pelo DJ que assinasse a fita, atualmente as mixtapes têm sido utilizadas para expor trabalhos inéditos, funcionando como uma coletânea de novos talentos.

A “Iky’x tape vol. 1, 2004/2005”, lançada no final de 2005 pelo produtor e MC Iky Castilho, é assim. Com uma parte gráfica bem cuidada, traz pepitas quase perdidas do Campo de Concentração, mistura de estúdio e casa onde o MC Aori, o DJ Babão (Inumanos) e Iky moraram juntos.

As 28 músicas são inéditas e foram produzidas por Iky, que usou programações feitas em MPC e samples de Originais do Samba e Egberto Gismonti:

— Produzi 23 bases, algumas em parceria com Mahal (filho de Luiz Melodia), Mr. Brake e Babão, mais duas do francês Damian Seth e dois instrumentais gringos.

A lista de participações é um verdadeiro “quem é quem” do hip hop carioca. Estão lá desde nomes conhecidos, como Aori e o DJ Babão, Shawlin e Tapechu (Quinto Andar), Kamau (Instituto), Max B.O. e Marechal, a rappers em ascensão, como Jovem Cerebral, Funk, Menor do Chapa, Chapadão, Bacon, Gil e Papo Reto. Todos sempre presentes na Batalha do Real ou na Liga dos MCs, eventos organizados pela rapaziada da Brutal Crew.

— Escolhi os MCs pela galera que costumava ir lá em casa e tentei fazer uma representação de várias áreas. O Chapadão é do Irajá, o Menor é do Turano, o Jovem Cerebral é da Mineira, o B.O. é de São Paulo. Lembrei do cara exatamente com a batida — fala Iky.

A mixtape é só o começo. Este ano ainda devem vir os discos solos de Shawlin, Marechal e outro projeto de Iky, o VR Swings. Enquanto isso, Aori participa do novo disco de D2:

— Gravamos um som irado — conta ele. — O Marechal tá junto nessa. Ainda não sei o nome oficial da música, mas ela fala do meu bairro, a Lapa, da nossa história. Está muito legal.

Enquanto nada disso acontece, a melhor maneira de conferir o som dessa rapaziada é ao vivo. Na semana que vem, a Liga dos MCs invade o Sérgio Porto, encerrando a programação do Humaitá pra Peixe.

— Vão ser os melhores colocados da Liga no ano passado, incluindo o campeão, MC Beleza. Vai ser bem diferente, porque geralmente nas batalhas os MCs não cantam, só disputam rimas. Nesse a galera vai cantar — explica Aori.

O negócio é cantar junto.

Comente

O Globo, 06/01/2006

arctic.gif

Matéria sobre o Arctic Monkeys que escrevi para o Rio Fanzine, n’O Globo.

———–

O Ártico está com a macaca

O ano mal começou e a banda de 2006 já despontou. Pode anotar este nome: Arctic Monkeys. A histeria mundial começa oficialmente no dia 30 de janeiro, quando será lançado “Whatever people say I am, that’s what I’m not” (Domino Records), primeiro disco do grupo. Entretanto, o Arctic Monkeys está chamando a atenção desde o início de 2005, através da troca de arquivos de MP3 e do lançamento de dois compactos, esgotados e disputados em sites de leilão, como o eBay.

Nesses tempos pós-Napster, a história já está ficando até manjada: bandinha desconhecida faz shows incendiários, oferece suas músicas na internet e estoura mundo afora. Não faz muito tempo e uma história parecida, guardadas as devidas proporções, aconteceu por aqui, quando os pernambucanos do Mombojó surgiram na cena.

A macacada do Ártico não foge muito desse roteiro. Formado por Alex Turner (guitarra e vocal), Jamie Cook (guitarra), Andy Nicholson (baixo) e Matt Helders (bateria) em Sheffield, Inglaterra, o Arctic Monkeys é mais que um fenômeno da internet. O componente principal, como não poderia deixar de ser, é a música.

Com média de idade de 19 anos, o grupo conquistou os fãs misturando pós-punk, ska, riffs pesados, quebras de andamento, bateria pulsante, baixo estalando e dinâmicas interessantes. Sem falar nas letras espertas, que falam de relacionamentos, noitadas e angústias de maneira tão simples que podem até soar bobas a princípio (e não é sempre assim?).

O rock dançante do Arctic Monkeys soa sujo, diferente, por exemplo, de bandas como o Kaiser Chiefs, para citar a rivalidade que está sendo provocada pela imprensa inglesa, saudosa da disputa Blur x Oasis.

No meio de 2005, por conta própria, o Arctic Monkeys lançou o EP “Five minutes with the Arctic Monkeys” e o CD demo “Beneath the boardwalk”, produzido pela própria banda. As músicas chamaram tanta atenção que garantiram uma apresentação no prestigiado Reading Festival. E o contrato com a Domino.

“I bet you look good on the dance floor”, primeiro compacto lançado depois de assinarem com a gravadora, foi bem além das expectativas mais otimistas. O disco estreou em primeiro lugar na parada inglesa, coisa que Franz Ferdinand e o ultrapop Coldplay até hoje não conseguiram fazer. O compacto já vendeu 150 mil cópias, nada mal para uma banda que começou dando seus discos em shows.

O repertório de “Whatever people say…”, estréia oficial do Arctic Monkeys, é uma seleção das músicas presentes na demo e nos compactos. Algumas mudaram de nome, como o segundo single a ser lançado, “When the sun goes down”, antes conhecida como “Scummy”.

A banda, especialmente o vocalista Alex Turner, parece avessa ao sucesso, gerando comparações com o Nirvana e as complicações de Kurt Cobain. É bom irem se acostumando. Quando o disco sair, a tendência é piorar.

12 Comentários

A batalha campal do reggae

Digitaldubs tocando.jpg
Digitaldubs
fotos: Jaqueline Felicíssimo
* Esse texto foi republicado no Rio Fanzine, do jornal O Globo

Ao contrário do que a maior parte das bandas de reggae iô iô que dominam a cena no Brasil faz parecer, a música jamaicana não é (apenas) paz e amor ou aquele ritmo pra ouvir na queda de uma cachoeira, cercado de amigos numa roda de violão.

Prova disso é que o Bukowski e a Casa da Matriz se tornaram campos de batalha quando as principais equipes de som dedicadas ao gênero no Rio, o Digitaldubs Sound System e o Urcasonica Sound System, se enfrentaram, terça e quarta passadas.

Calma, calma. Não houve pancadaria nem nada parecido, a camaradagem imperou nas duas noites. O que aconteceu foi o primeiro sound clash do Rio – talvez do Brasil – um acontecimento histórico.

Sound clashes são disputas entre equipes de som (os sound systems), uma tradição jamaicana que se espalhou pelo mundo e que só agora desembarca por aqui. Como nas batalhas de MCs, tradição do hip hop em que rappers competem para ver quem rima melhor, as equipes de som ficam frente a frente com um objetivo simples: descobrir quem tem a melhor seleção musical pra sacudir a pista. A decisão, claro, é do público.

O que muda são as armas. Ao invés de palavras, cacetadas de grave. Quer dizer, as palavras também fazem parte da disputa, através de músicas feitas especialmente para a competição, conhecidas como specials. As equipes de som convidam ou contratam um cantor/MC (geralmente um nome conhecido) para gravar faixas exclusivas exaltando a própria equipe ou, no caso dos clashes, atacar os rivais.

Os dois principais clashes atualmente são o World Cup Clash, que acontece anualmente em Nova York, e o UK Cup Clash, em Londres. Desafiando a lógica, as grandes sensações desses eventos não são sound systems jamaicanos, mesmo com o bom desempenho do Black Kat ou do Bass Odissey nessas competições. Quem tem levado tudo são os japoneses do Mighty Crown e o atual campeão mundial, o Sentinel, da Alemanha.

Alinhados com as novas sonoridades de reggae, tanto o Digitaldubs quanto o Urcasônica passam longe de discos manjados de Bob Marley. Claro que clássicos de produtores como Bunny Lee, King Tubby e Lee Perry têm espaço – e muito. Mas Sizzla, Burro Banton e Buju Banton, Capleton e Morgan Heritage e outros destaques do reggae contemporâneo também tem vez.

Felipe DB e Ivan Cozac, Urcasonica.jpg
Felipe DB e Ivan Cozac

O primeiro round foi na casa do Urcasônica, no Bukowski, na terça. Após um aquecimento de 30 minutos, cada equipe teve 15 minutos pra mostrar seu repertório e o Urcasônica levou.

No dia seguinte, o Digitaldubs recebeu o adversário na Casa da Matriz para o segundo round e dessa vez eles ganharam. O 1×1 no placar forçou o desempate, disputado imediatamente.

Lencinho, DJ da equipe Solzales Dub, cumpriu bem o papel de apresentador e juiz, explicando as regras, domando as torcidas organizadas que lotaram a Casa da Matriz e apurando os votos entre muitos gritos e braços levantados. Apesar do ineditismo do evento, o público entrou no clima e participou bastante.

No desempate, cada equipe tinha direito a tocar uma música de até 3 minutos, alternadamente. Ambas equipes foram preparadas para o combate. O Urcasônica mostrou seus specials com a participação do Manu Chao (“Resistência”) e a dobradinha Don Negrone e Mario Z em “Campeão”.

Digitaldubs escolhe.jpg
Qual vai ser a próxima?

O Digitaldubs tocou praticamente apenas faixas exclusivas e specials do seu sound system, contando com participações de respeito. Teve BNegão (num remix dubwise de “Prioridades”), Mr. Catra (“Lucro”), M7 (“Pretinho babylon”) Pato Banton (uma versão de “No worries”), Stranjah (“Soundclash part 2″, sobre o riddim “Ali Baba”), Sylvia Tella (versão de “Brothers unite”) e Jeru Banto, exaltando a equipe sobre outro riddim clássico, o “Stalag”.

Na última música, o Urcasônica cometeu um erro fatal. Em dúvida sobre qual seria a melhor música pra encerrar sua apresentação, Ivan Cozac, Bruno LT, Javier Posada e Felipe DB deixaram a pista quase dois minutos em silêncio e passaram mais 30 segundos pedindo barulho, restando apenas outros 30 segundos pra soltar o som.

Não deu. Vitória do Digitaldubs de MPC, Nelson Meirelles e Cristiano Dubmaster, os campeões do primeiro sound clash carioca. Falta agora um evento que reúna outros sound systems, como DubVersão (SP), Bumba Beat (SP) e Echo Sound System (SP), Confronto (Brasília), Solzales (RJ), Calminho (RJ) e Sensorial Sistema de Som (RJ).

DigitalUrca2.jpg
Na amizade

Na comemoração, o Digital soltou um special que dizia que “o Urcasônica já era!”. Será? Literalmente batalhando por seu espaço, o Urcasônica pediu revanche, dessa vez em campo neutro, o Digital aceitou. O bicho vai pegar.

3 Comentários

O Globo, 07/10/05

catatau.jpg

Matéria sobre o novo disco do Cidadão Instigado, “Cidadão Instigado e o método túfo de experiências que escrevi para sessão Rio Fanzine, do jornal O Globo.

Instigando o cidadão

Ao contrário do que se costuma dizer, o Cidadão Instigado não é uma banda de um homem só. O líder da banda, Fernando Catatau, faz questão de deixar claro.

— Não sei quem falou isso pela primeira vez, mas não é verdade. A banda sou eu, o Regis Damasceno, o Rian Batista, o Clayton Martim e sempre um convidado, por enquanto, o Marcelo Jeneci.

Parte desse mal entendido deve-se a exposição crescente que Catatau vem tendo pelas participações em discos e shows de artistas conhecidos. Como guitarrista, tocou com a Nação Zumbi (no próximo disco, “Futura”, e nos shows do Los Sebozos Postizos), Los Hermanos (toca em “Fez-se o mar”), DJ Dolores e Otto, entre outros.

Outra razão, mais forte até, é o fato de Catatau compor, produzir e arranjar as músicas da banda, como acontece no segundo disco, “Cidadão Instigado e o método tufo de experiências”.

Recheado de participações especiais, como da vocalista Isaar (do Comadre Fulozinha), Mauricio Takara (do Hurtmold) e Ganja Man (do Instituto), as músicas são climáticas (algumas chegando aos sete minutos) e misturam psicodelia, ritmos nordestinos, brega e batidas eletrônicas.

— Passei minha adolescência escutando Pink Floyd, Hendrix, Sabbath, Iron Maiden e quando ouvi Santana pela primeira vez, escolhi meu instrumento. Gosto muito de ouvir musica triste, musica feliz demais me da agonia. Gosto da fase 70 do Roberto Carlos, romântica, sou fã do Fernando Mendes, Marcio Greyck, da maioria das músicas lentas internacionais dos anos 80, Bee Gees… — lista Catatau.

O “método tufo” é um disco de letras estranhas, que falam de pintos de peito e de pobres de dentes de ouro. A interpretação é bem teatral, muitas vezes as letras são apenas recitadas ou faladas.

— Antes não me garantia muito em cantar e hoje já me arrisco mais. O legal é você tentar passar a sua verdade, por mais fuleira que ela seja. A música do Cidadão é baseada nas letras. Tento fazer uma trilha sonora para o que escrevo.

Seria esse o tal “método tufo de experiências”?

— Tufo, significa você fazer algo sem pensar demais. Duma vez. Quando você quis fazer, já estava pronto. Então o método são essas experiências vomitadas. Deu pra entender?

Comente

O Globo, 08/07/2005

nota_fiscal_ind.jpg

Matéria sobre a relação entre as bandas e os festivais independentes que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

————-

A conta é dos calouros

Bruno Natal Especial para o Rio Fanzine

Amúsica independente pode não ser o ingrediente principal, mas está no cardápio. Hoje é normal grandes festivais abrirem espaço para bandas novas. Ironicamente, justo esses artistas estão sentados na cabeceira e recebendo a conta.

Mais do que uma realidade, tocar de graça é uma necessidade para bandas independentes, principalmente no início. Festa de amigos, play, show de abertura, sarau, qualquer oportunidade de mostrar seu som vale.

Quando chega a chance de se apresentar num evento bem estruturado, no entanto, muitos descobrem que tocar de graça era lucro. Em boa parte dos festivais, mesmo os que contam com patrocínio, não existe cachê para os independentes. E quando acontecem em outros estados, geralmente as bandas têm que pagar as passagens do próprio bolso. Foi-se o tempo em que quem trabalhava de graça era só o relógio.

Uma das justificativas para isso seria o fato de que bandas independentes não atraem público suficiente pra bancar a produção de um evento caro. Por isso, boa parte do dinheiro é gasto na contratação de nomes conhecidos para garantir venda de ingressos e mídia.

Em junho, Nervoso recusou um convite, feito através da MTV, para tocar de graça no Vibezone. A Coca-Cola, organizadora do evento, informou por meio de sua assessoria de imprensa que as bandas que se apresentaram no palco principal receberam cachês, acrescentando que as rádios 89 (em São Paulo) e Cidade (no Rio) e a MTV selecionaram bandas através de concursos cujos prêmios seriam participar do evento, sem remuneração.

— Tenho uma boa relação com a MTV e sei que ainda não tenho um grande público, mas se tratava de um evento patrocinado por uma empresa gigante e me chamaram para tocar sem cachê — diz Nervoso.

O convite foi feito a Rodrigo Lariú, dono da midsummer madness, gravadora do Nervoso:

— Não recriminamos a MTV ou a Coca-Cola. Só não queremos fazer parte disso. Dizer que o espaço oferecido será bom para a banda não basta.

Entretanto, em maio, Nervoso aceitou tocar de graça em outro festival patrocinado, o TIM Mada, que acontece desde 1998 em Natal (RN). Dois pesos, duas medidas? Exato.

— Nesse caso, com exceção dos artistas que fecharam a noite, ninguém recebeu. Tivemos uma excelente exposição na mídia e convites para novos shows.

Jomardo Jonas, produtor do TIM Mada (que, além da operadora de celular, conta com o patrocínio de um fabricante de aparelhos telefônicos, de uma cervejaria e do Governo do Estado do Rio Grande no Norte, entre outros) ressalta que, apesar de não haver pagamento, as bandas, independentes ou consagradas, tocam no mesmo palco e contam com o mesmo suporte:

— Arcamos com estadia em hotel quatro estrelas, alimentação e transporte. O patrocínio ajuda a montar uma grande estrutura, mas não cobre todos os custos. Se nenhuma banda aceitasse tocar de graça não teríamos como fazer o evento.

Quem também viajou para Natal foi o The Feitos. O vocalista Ramon Ramon enxergou os gastos como um investimento:

— Jamais deixaria de tocar sabendo do retorno de mídia que o evento poderia me dar.

No caso dos festivais independentes, é fato corriqueiro os artistas pagarem suas passagens. O Moptop bancou sua ida até Goiânia para tocar no Bananada, um dos principais do calendário indie, em maio.

— Aceitamos pela importância do festival — conta Gabriel Marques, vocalista do Moptop.

Fabrício Nobre, da Monstro Discos, organizadora do Bananada, completa:

— O convite é feito oferecendo hospedagem, alimentação e translado. Desde o primeiro momento as condições ficam bem claras. Arriscamos na bilheteria e contamos com o apoio das bandas. É um ajudando o outro.

As bandas parecem encarar essa situação com naturalidade. Rafael Cosme, guitarrista do Ramirez, tocou no Mada em 2004 e gostou do resultado:

— Valeu a pena. Até hoje rende frutos. Acho que em todas as profissões, no começo, você aceita boas oportunidades, mesmo sem remuneração, pra conseguir seu espaço.

Ainda assim, Gabriel espera por mudanças:

— Uma solução poderia ser, ao menos, oferecer parte da bilheteria.

Fabrício aponta outra saída:

— É preciso que eventos que tenham uma proposta musical honesta recebam apoio. Surgiram vários Telefone Rock e Cerveja Music posando de independentes que não tem compromisso nem com cena, nem com banda. Só com grana.

Para Jomardo, não adiantaria enxugar a estrutura do Mada, que já contou com atrações internacionais, como The Walkmen, pois isso iria prejudicar todo mundo. Ele é prático:

— Quando tivermos um mercado independente forte, poderemos fazer festivais somente com nomes independentes, pagando passagens e cachês.

Enquanto isso não acontece, pior para as bandas que não têm como investir pesado e assim perdem boas oportunidades.

1 Comentário

O Globo Online, 12/05/05

quase famosos.jpg

Matéria sobre a viagem das bandas independentes para o prêmio Dynamite 2005 (Na estrada com os quase famosos) que escrevi para o Rio Fanzine Online (O Globo).

———–

Na estrada com os Quase Famosos

Bruno Natal (especial para o Rio fanzine)

Os Quase Famosos conversam durante a viagem Um ônibus, muitos instrumentos e horas e mais horas de viagem pelas estradas cumprindo a agenda de shows. Para muitos, esse é o estereótipo do dia-a-dia de uma banda. No entanto, para quem está começando, as coisas são diferentes. Um ônibus com todo conforto só pra sua banda, por exemplo, é um sonho distante.

A viagem do indicados cariocas ao Prêmio Claro de Música Independente para cerimônia de premiação serve pra ilustrar isso. Representantes de nada menos que 16 bandas — fora jornalistas e produtores ? embarcaram, juntos, na última terça-feira para um bate-e-volta até São Paulo para curtir a festa. Esse ônibus sim merecia o título “Quase famosos”.

O elenco reuniu boa parte do underground carioca; estrelando Hill Valleys, Ramirez, Carbona, Pic-nic, Stellabella, Martha V, Lasciva Lula, Nelson & Os Gonçalves, Leonardo Panço, Nervoso, Bnegão e os Seletores de Freqüência, Silvertape, Rogério Skylab, apresentando Moptop e com participação especial do Leela. Na equipe técnica estavam o produtor Sketch, Zé Felipe (Teatro Odisséia), Capitão Presença e Juca (Tarja Preta), Rodrigo Quik (Ruído Festival) e Renato Lima (Mosh!). A direção foi de Marcos Bragatto, editor da revista Dynamite, organizadora do prêmio.

Muito mais do que uma busca por troféus, fama e groupies ensandecidas, a viagem serviu para unir ainda mais as bandas, para quem nunca tinha se visto, se conhecer e para traçar novos planos de dominação mundial.

Como não podia deixar de ser, voaram farpas pra todos os lados: pra indústria do jabá, para diretores artísticos de gravadora que não sabem nem onde fica o Canecão, pra falta de boas casas e para o estranho hábito dos produtores de show de não pagar cachê. Mania, aliás, que anda piorando. Ultimamente, mesmo eventos com patrocínios gigantescos tem apelado para o velho truque do não-tem-verba-mas-a-exposição-é-boa. Preocupante. Até pro Zico, coitado, sobrou. O Galinho foi alvo de comparações absurdas com o Maradona.

Em São Paulo, a farra começou bem carioca. Logo de cara, Rogério Skylab faturou o troféu de melhor album de MPB e em seguida, Hill Valleys, Ramirez e Carbona fizeram uma apresentação tripla. Depois disso, as coisas esfriaram. No final das contas, o Rio conquistou quatro das 19 categorias. Black Alien (hip hop), a revista Outracoisa (veículo impresso) e seu dono, Lobão (personalidade 2004) completaram o placar.

Sem motivo aparente, lá pelas tantas o apresentador Supla deu um chilique no palco. Atirou o pedestal do microfone na platéia e começou a andar sobre o público, utilizando como degrau as cadeiras, as cabeças e as mãos das pessoas. Renato Lima, editor da revista Mosh!, fraturou um dos dedos da mão direita na “brincadeira”. Segundo Bragatto, o desenhista já falou com Supla e ele se comprometeu a cobrir os prejuízos.

Como era de se esperar, a apresentação foi cansativa. Normal. Prêmio que se preze tem que ser chato. O que vale é o encontro. Não é todo dia que se presencia alguns dos principais nomes da cena carioca cantando, aos berros, “Festa no apê” as 2h da manhã.

Comente

O Globo, 31/03/05

Mauritsstadt dub.jpg

Matéria sobre o disco Mauritsstadt dub que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

———

Uns dubs arretados

Bruno Natal Especial para o Rio Fanzine

Diz a lenda que um disco bom raramente desce bem de primeira. Inspirado no conceito do disco “Imaginary Cuba” (releituras ambient de músicas cubanas, assinado pelo produtor Bill Laswell), “Mauritsstadt dub” (Candeeiro Records) cumpre esse ditado ao descolar o dub do reggae e aplicar a técnica em ritmos nordestinos.

Disco duplo, no primeiro, o roots, estão as gravações originais de importantes nomes da música nordestina como Lia de Itamaracá, Naná Vasconcelos, Dona Cila do Côco e Seu Bezerra. No dub, cocos, emboladas e cirandas aparecem em versões aditivadas feitas por Pupillo, Fabrica, Instituto e Fred 04, entre outros.

Mais uma técnica do que um estilo propriamente dito, o dub não precisa — nem deve — ficar restrito aos ritmos da ilha enfumaçada. A psicodelia dos efeitos, os ecos ou a força dos graves podem ser utilizados em outros gêneros musicais.

Assim, lentamente, o dub vai se infiltrando na música brasileira, transformando-se e ganhando cara própria. Dos dubs pioneiros do disco “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, até hoje, a evolução foi grande. Prova disso são as produções de Bumba Beat, Digitaldubs e Echo SS, ou as incursões dos recifenses da Nação Zumbi e mundo livre S/A pela área.

Em recente entrevista ao “Vitrola Invisível”, programa on-line apresentado por Rodrigo Brandão (www.seloinstituto.com), Pupillo falou da ponte Pernambuco-Jamaica.

— Recife e Kingston, pelo menos no aspecto musical, têm situações parecidas. A luta para manter as heranças dos antepassados e ao mesmo tempo abraçar as novas oportunidades do universo da música pop. E a idéia do uso de baixa tecnologia, como ilustra a imagem da parabólica na lama.

Quem esperar dubs tradicionais, no estilo jamaicano, certamente irá se decepcionar. Algumas faixas têm mais pinta de remix do que de dub versions. De maneira geral, o disco tem muitos vocais e poucos ecos, delays ou mesmo linhas de baixo.

— No nosso caso, quisemos praticar o dubismo sobre a estrutura original, respeitando o roots do Mestre Salustiano — explica Brandão, que está presente no projeto com seu Mamelo Sound System. — O Pupillo pautou todos para fazerem dubs e cada um interpretou isso a seu modo, de acordo com seus repertórios e suas influências.

BRUNO NATAL é aquele que faz o zine URBe

Comente

O Globo, 22/03/2005

Moptop_2005.jpg

Matéria sobre o Moptop que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

———

O Moptop encara suas influências

Bruno Natal

Influência. Este é o termo utilizado quando surgem bandas gringas com referências escancaradas, como Bloc Party (The Cure), The Rapture (Gang of Four) ou White Stripes (Led Zeppelin), para ficar em exemplos recentes. Mas quando alguma banda brasileira faz a mesma coisa, o adjetivo predileto é cópia mesmo.

Formado há pouco mais de dois anos por Gabriel Marques (vocal e guitarra), Rodrigo Curi (guitarra), Daniel Campos (baixo) e Mario Mamede (bateria), o Moptop — que toca amanhã no sebo Baratos da Ribeiro — sofreu com isso.

Parece com Strokes? Com certeza. O timbre de voz do Gabriel lembra o Rodrigo Amarante? Ahã. E essas batidas eletrônicas? Meio Franz Ferdinand, né? Pois é. Mas isso é um problema? Não. Sobretudo porque o som do Moptop — nome do corte de cabelo eternizado pelos Beatles — tem personalidade, além de letras bacanas. Gabriel explica:

— Uma música como “O rock acabou” é influenciada por esses caras porque foi feita numa época em que eu estava escutando aquilo. A gente não quer fugir disso. Mas tem outras camadas: MPB, Beatles, um pouco de Los Hermanos.

Da primeira demo para a segunda, a diferença é grande. As músicas em inglês — que causaram confusão no site do Strokes, com fãs pensando que se tratava do novo disco dos americanos, o que fez até uma gravadora de lá tentar levar a banda para os EUA — amadureceram, ganharam letras em português e mostram que o Moptop começa a encontrar um caminho próprio. Talvez, a mão de um produtor (como o admirador da banda Chico Neves) ajude nesse processo.

Utilizando uma bateria programada mais por necessidade do que por estilo, a demo “Moonrock” foi gravada no quarto de Gabriel, além de algumas sessões no estúdio Nas Nuvens, cedidas por Liminha, outro entusiasta do Moptop, um dos grupos selecionados para abrir o show do Placebo no Rio, no próximo dia 29.

No site do grupo (www.moptop.com.br.) dá para baixar as músicas, assistir ao clipe de “O rock acabou” e até brincar de mixar uma faixa.

BRUNO NATAL faz o URBe e adora “Os Incríveis”

1 Comentário

O Globo, 04/03/2005

kassin e pianta.jpg

Matéria sobre a dupla Kassin e Pianta que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

———–

Duas guitarras ‘in love’

Bruno Natal Especial para o RF

Desde os tempos em que o Acabou La Tequila e o Graforreia Xilarmônica ainda eram os principais projetos, respectivamente, de Kassin e Carlo Pianta, eles pensam em gravar algo juntos. Ex-companheiros do selo Banguela, os dois grupos sempre se esbarravam em festivais pelo país. Na época da gravação do recém-desengavetado “Som da moda”, do ALT, estava prevista a participação dos gaúchos em “Melancólica”, que acabou nem entrando no disco.

O tempo passou, as bandas deixaram de ser o foco da dupla e cada um seguiu seu caminho. E justo agora, quando nem se encontram mais tanto, Kassin e Pianta conseguiram concretizar o projeto e gravar um disco, sem título ainda, que vai sair em breve, pelo selo independente Ping Pong.

A idéia partiu de Alex Werner, produtor do Los Hermanos, estreando atrás da mesa de som:

— Eles são os guitarristas que eu mais curto e eu queria ver os dois tocando juntos. Meu trabalho foi segurar a onda para não exagerarem nas texturas e nos overdubs . E também para garantir que fosse um disco só de guitarras mesmo. Eles já queriam cantar, tocar outros instrumentos…

A apresentação que fizeram na Casa da Gávea, dois dias antes da gravação, serviu como um ensaio geral. Logo na abertura, distorções, microfonias e o volume alto espantaram quem não tinha certeza do que estava fazendo ali.

— Nesse tipo de show sempre tem gente que vai embora. Por isso, poupamos o tempo deles, tocando as violentas no início — entrega Pianta.

Bossas, milongas sulistas e timbres 8 bits se misturam a temas jazzísticos como “Stormy weather” (Harold Arlen) e “Time of the season” (The Zombies), em versões experimentais. Utilizando um pedal de delay que grava loops uns sobre os outros, Kassin adiciona elementos e constrói a base para Pianta solar.

No final, o saldo foi positivo. Muito mais gente ficou do que foi embora.

— Não sei se eu compraria um disco desses, mas se tocasse no rádio eu pararia para ouvir — garante Kassin.

Bruno Natal gosta de batata com bacon e faz o zine URBe

Comente

O Globo, 11/02/2005

hektor_che.jpg

Matéria sobre o o robô grafiteiro que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Insatisfeito com o que considera uma “monocultura visual causada pelo uso das mesmas técnicas e dos mesmos programas de computador por designers do mundo todo”, o suíço Jürg Lehni decidiu criar uma ferramenta que tivesse uma estética própria e diferente. Algo que produzisse imagens únicas, mesmo quando feitas em série. Assim nasceu Hektor, o robô grafiteiro.

A máquina funciona como uma espécie de impressora. No entanto, diferentemente das irmãs, o robô não é tão preciso porque utiliza a tinta em spray, uma ferramenta desenvolvida para o homem. O mecanismo da máquina é composto por um suporte que dispara o spray, conectado a dois motores por meio de correias dentadas. Os motores são fixados nos cantos superiores da parede e a posição da lata é controlada pela alteração do comprimento das correias.

Esses movimentos são calculados por um computador que se comunica com a máquina através de um software desenvolvido pelo próprio Lehni. O programa lê arquivos digitais e define a trajetória que o Hektor deve seguir para reproduzir a figura na parede com o spray.

Os movimentos, apesar de precisos, não são totalmente controlados, e o efeito final varia de acordo com cada caso. Exatamente o que Lehni buscava.

— As imperfeições do spray e as diferentes superfícies fazem com que nunca se tenha total domínio da situação. O Hektor sempre nos surpreende — diz Uli Franke, engenheiro elétrico responsável pela parte mecânica da máquina.

Devido a essas sutilezas, Hektor rapidamente passou a ser visto como uma instalação de arte, motivando convites para performances em galerias na Suíça, na Alemanha e na Holanda. As imagens escolhidas pela dupla para serem reproduzidas pela máquina geralmente são aquelas impossíveis de ser feitas à mão. Baseadas em círculos perfeitos, tipografias e outras formas geométricas, elas geram um resultado ambíguo: um grafite de traço muito preciso para ter sido feito por um homem e imperfeito demais para ter sido realizado por uma máquina.

Embora o mundo das galerias seja sedutor, esse não foi o objetivo que inspirou a criação da máquina. Sem fugir do espírito grafiteiro, uma das maiores preocupações da dupla era que o equipamento fosse compacto e tivesse como ser alimentado de forma independente, possibilitando ataques a lugares remotos e experiências de campo. Porque, como se sabe, lugar de grafite é em algum muro na rua.

BRUNO NATAL faz o zine eletrônico URBe mas não é robô

Comente

O Globo Online, 03/12/2004

gregory_geral.jpg
foto: Carol Mariotto

Resenha do URBe, para o Rio Fanzine Online (O Globo).

———-

Gregory Isaacs no Brasil

Ganhar uma segunda chance, em qualquer coisa, é raro. Nesse quesito, no entanto, 2004 até agora tem sido generoso. Quem havia perdido as visitas anteriores de Massive Attack e Kraftwerk, teve outra oportunidade de conferir esses shows. Com o ano acabando, mais um nome fundamental dentro do seu gênero voltou ao Brasil: Gregory Isaacs.

Ao contrário dos dois primeiros, o Cool Ruler superou sua visita anterior. A medida que a turnê avançava, os comentários positivos sobre as apresentações de Gregory Isaacs pelo Brasil iam se acumulando. Recife, Salvador, São Paulo, por onde passava o rei do Lovers Rock (vertente romântica do ritmo jamaicano, o que lhe rendeu o apelido de Roberto Carlos do reggae por aqui) ia desfazendo a má impressão deixada na sua última passagem, quando ficou devendo uma atuação digna de sua história.

No entanto, 2004, o ano do repeteco, não ajudou os cariocas. O Rio ficou de fora de boa parte dos grande eventos que agitaram outros estados e com Gregory Isaacs não foi diferente. Para quem enxergou essa vinda como uma chance imperdível de ajustar as contas com o passado, restou ir para Juiz de Fora, em Minas Gerais, o mais perto que o jamaicano chegou do Rio.

O povo de Juiz de Fora, solícito e gente boa, compareceu ao Free Hits, mas não lotou o lugar. Antes do show começar, os DJs do Urcasônica (que abriu a noite, botando som antes do Grave!) ouviram até pedidos para tocar umas musiquinhas do Gregory. “Pra gente ir conhecendo”, explicou o rapaz.

Nem precisou. Acompanhado pela boa banda brasileira Leões de Israel, Isaacs entrou no palco depois das 3h da manhã e em três músicas todo mundo, conhecendo ou não, estava dançando. De terno branco, blusa preta e boné do NY Yankees, a voz saia limpinha, tal e qual nos discos.

A primeira foi “Number One” e depois o velhinho enfileirou hits como “My only lover”, “Front Door”, “Soon Forward”, “Slave Master”, a clássica “Night Nurse”, “Raggamuffin”, “Love is Overdue”, fora a citação a “People are you ready”, do Tappa Zukie. Repertório pra agradar qualquer um.

Conforme o transcorrer do show, Gregory foi ficando mais à vontade. Primeiro tirou o terno, depois abriu a blusa. Não demorou muito e já tava chamando uma menina pra subir no palco. A garota ficou cinco minutos lá em cima enquanto um amigo tentava tirar uma foto. No meio do show. Ninguém reclamou.

Se ele tivesse cantado uma música já teria valido a pena, só por ver uma lenda do reggae ao vivo. Foi bem mais do que isso. Quem perdeu, reze à Jah por uma terceira chance. Essas, porém, costumam ser bem mais difíceis.

Comente

O Globo, 15/10/2004

kleptones.jpg

Matéria sobre o disco de remixes do Queen feito pelo Kleptones que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

———

O hip hop subverte a ópera do Queen

Bruno Natal – Especial para O GLOBO

Logo na abertura, um locutor debocha: “essa gravação digital é um oferecimento da EMI, a maior empresa musical do mundo”. Na seqüência, a voz de Peter Jennings, apresentador da rede de TV norte-americana ABC, confirma: “é mais um pesadelo de direitos autorais para a indústria da música”. E é mesmo.

Dessa vez, o motivo da dor de cabeça é o Kleptones. Todas as bases do seu novo lançamento, “A night at the hip hopera”, foram feitas utilizando samples de músicas do Queen, misturadas a vocais de nomes conhecidos da música pop e do rap. Como o nome indica, o Kleptones (algo como “cleptomaníacos sonoros”) não é estreante no assunto. O Flaming Lips, entre outros, também já assistiu aos “robôs rosas” do seu disco transformarem-se em manos cibernéticos em “Yoshimi battles the hip hop robots”.

A lista de convidados de “A night at the hip hopera” é extensa: KRS-One, Afrika Bambaataa, Electric 6, Justin Timberlake, Grand Master Flash, Kelis, Dilated Peoples, Beastie Boys, Eminem, até Vanilla Ice e Iggy Pop se revezam no papel de Fred Mercury, além de diálogos retirados de filmes como “O grande Lebowski” e “Curtindo a vida adoidado”.

As músicas já sumiram da página do Kleptones (www.kleptones.com), provavelmente fugindo de processos, mas se espalharam pela rede e podem ser baixadas em sites-espelho, como o Waxi.org, por exemplo.

Pouco tempo depois do barulho causado pelo DJ Danger Mouse e seu “Grey album” (que sampleava os Beatles e Jay Z), a EMI, detentora dos direitos das músicas dos Beatles e do Queen, toma outro golpe. E justamente no mês em que uma corte dos EUA determinou que os artistas devem pagar por qualquer sample utilizado, o disco está circulando freneticamente na internet. Fina ironia.

Talvez fizesse bem aos executivos das grandes gravadoras escutar o recado da faixa que encerra o disco, “Question”, um manifesto contra as atuais leis de direito autoral. Utilizando “Who wants to live forever?” como base, a música é ao mesmo tempo uma pergunta e um alerta dos novos tempos. Está claro que o atual formato da indústria não vai viver para sempre.

BRUNO NATAL faz o zine eletrônico URBe e sabe das coisas

Comente

O Globo, 17/09/2004

Matéria sobre viagem à Inglaterra, para filmar o documentário “Dub Echoes”, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

Clique na imagem para ler.

Maior viagem de eco

Após a bem sucedida passagem pela Jamaica, a Inglaterra era o destino lógico para a equipe do “Dub Echoes”, na verdade, uma dupla formada com o pesquisador e roteirista Chico “dub” Linhares. Num país apavorado com a possibilidade de um ataque terrorista e onde até as lixeiras do metrô foram substituídas por sacos plásticos transparentes, protestos pacifistas na porta do Parlamento não são o suficiente pra trazer o bem estar de volta. No “Verão da Psicodelia”, como foi apelidado pela revista Mixmag, os cogumelos alucinógenos aparecem como solução para escapar da realidade.

Desde que foi encontrada uma brecha na lei permitindo o cultivo e o comércio, os cogumelos estão por toda parte em Londres, vendidos livremente nas ruas e feiras como se fosse shitake. Os junkies de Brixton, praticamente uma atração turística da cidade, que se cuidem. Seus dias podem estar contados. Com os ingleses precisando desesperadamente relaxar, dub parecia mesmo o assunto perfeito.

O documentário pretende mostrar a importância do dub no desenvolvimento da música eletrônica e do hip hop. Para isso, depois de entrevistas com ícones do reggae dos anos 70, como o produtor Bunny Lee, o baterista Sly Dunbar e o cantor U-Roy, faltava falar com o outro lado da história, nomes atuais conscientes da influência dos experimentos jamaicanos nos seus trabalhos. Com o apoio da American Airlines, acreditando num projeto totalmente independente, e a ajuda de alguns amigos cedendo um cantinho na sala, mais rápido do que se possa dizer dubwise, a equipe cruzou o Atlântico em direção à ilha onde a libra corrói o bolso.

À caminho da Europa, uma passagem estratégica por Nova York e Los Angeles pra falar com três jamaicanos: os expatriados Scientist e Bullwackie e o visitante King Jammy. Scientist e Jammy foram aprendizes de ninguém menos que King Tubby. Além de entrevistas com Ticklah, produtor do “Dub Side of the Moon”, e Thievery Corporation, em Washington. E o caldo estava só começando a engrossar.

Logo na primeira entrevista na terra da rainha mãe, Mad Professor começou a turvar a água dizendo que, ao contrário do que se acredita, não há uma cena de dub e reggae na Inglaterra, o que existe são eventos isolados. A estranha afirmação, repetida algumas vezes por outros entrevistados, parecia querer se confirmar quando o festival Reggae in the Park foi cancelado. O motivo oficial foi a recente publicidade negativa em torno do reggae, tornando impossível encontrar um lugar disposto a correr o suposto risco de abrigar os shows de Sizzla, Gregory Isaacs, Freddie McGregor e Barrington Levy. Veio o final de semana e com ele o carnaval de Notting Hill, festança caribenha de dois dias que domina a cidade. Certamente deve ser uma questão de parâmetros, porque um lugar que tem uma festa dessas (sem falar nas muitas outras, nas lojas de disco especializadas, etc.) tem que ter uma cena forte.

Entre muitos trios elétricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É espantoso o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis e acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no início. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, pra curtir freqüências graves de engasgar. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente não é mole.

Em paralelo, em Liverpool, acontecia o Creamfields, evento que aterrisa no Brasil em novembro, só em São Paulo. Mesmo sendo um dos maiores festivais do mundo, a escalação desse ano estava mais caprichada que o normal: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco…), Deep Dish, decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos lá.

Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaço, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente, no auge da noite: Darren Emerson, Sasha e o Chemical Brothers. Tom Rowlands e Ed Simmons fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Sendo fã ou não da dupla, esqueça tudo que falaram de mal sobre a última passagem dos químicos por aqui e comece a juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) em outubro pra conferir de perto. Papo sério.

Em meio a tanta coisa, a lista de entrevistados continuava crescendo. Simon Ratcliffe (Basement Jaxx), Adam Freeland, Audio Bullys, Congo Natty, Dennis Bovell, Dr. Das (Asian Dub Foundation), Dreadzone, Glyn Bush (Rockers Hi Fi), Groove Corporation, Kode 9 (do coletivo Dubstep), LTJ Bukem, Roots Manuva. Impressionante o que dá pra se conseguir apenas enviando o e-mail certo para os lugares corretos. Some a isso duas palavrinhas mágicas, Brasil e dub, e de uma hora pra outra você pode estar tomando um chá na casa de alguns dos artistas mais arredios a entrevistas de que se tem notícia.

Londres não pára. Um final de semana qualquer na cidade pode guardar uma escalação de djs digna de um grande festival, transformar a sexta e o sábado em uma verdadeira peregrinação a procura da batida perfeita. Na quinta você está na Movement conferindo o Artificial Intelligence, Flight, Ill Logic & Raf e Addiction, na sexta está na Fabric, curtindo a festa de lançamento do “Two Culture Clash” (já resenhado aqui no RF) com boa parte dos produtores que participaram do projeto (Howie B, Jon Carter, Kid 606, Switch, General Degree) botando som enquanto na pista ao lado, Randall, High Contrast, Fabio e Grooverider se revezam nas batidas quebradas.

Falando em batidas quebradas, mas não as do drum and bass, o onipresente breakbeat é sem dúvidas o estilo da vez. No mesmo sábado, Barry Ashworth (do Dub Pistols) e Matt Cantor (do Freestylers) bagunçavam a Rythm Factory praticamente na mesma hora em que Adam “We want your soul” Freeland sacudia a Fabric. É preciso se virar em dois pra conseguir acompanhar tudo.

Após quase 30 entrevistas, as malas voltaram mais pesadas. Chicodub ganhou mais de 100 discos, fora a pilha de CDs recebidas ao longo do caminho, incluindo 3/4 do catálogo da Blood & Fire. Ossos do ofício.

Box 1

Bizarrices

- O gente boa Dennis Bovell interrompeu a entrevista duas vezes para vomitar. A culpa foi do presente dado por sua mãe na noite anterior: uma garrafa de rum de Barbados

- Já Congo Natty ficou bem à vontade; só de cueca e camiseta.

- Depois da gravação o figuraça Howie B fez um set particular. Destaque para as músicas do “Last Bingo em Paris”, seu projeto paralelo, lançado apenas na França.

- Simon Ratcliffe, do Basement Jaxx, vai para Hong Kong com seu sound system de reggae, o Hometown Hi Fi, nome em homenagem ao ss do King Tubby

- O Thievery Corporation está com estúdio novo. O lugar parece uma casa mal assombrada.

Box 2

No forno

- O próximo disco do Thievery Corporation sai em fevereiro de 2005. Entre as participações, Sister “Bam bam” Nancy, Perry Farrel e Flaming Lips.

- Dando seqüência a série “Dubplates from the Elephant House”, o G-Corp prepara o terceiro volume, dessa vez com uma banda ao vivo, a “The Mighty Three”

- O Asian Dub Foundation também vai entrar em estúdio. Cada integrante produziu faixas individualmente e agora as idéias vão ser filtradas. Dr. Das está numa onda breakbeat.

- O Audio Bullys começou a gravar o sucessor de “Ego War”. Ao que parece vai tender ainda mais pro hip hop.

- Gorillaz, Chemical Brothers e Roni Size também estão trancados finalizando os novos trabalhos.

Box 3

Ingla is a bitch

- Libra 6 x 1 Real

- no país da noitadas, o transporte público pára as 0h

- tanta coisa pra fazer que sempre se perde alguma boa

Box 4

God save the queen

- mais discos de reggae do que na Jamaica

- o povo prestativo não te deixa se perder

- tanta coisa pra fazer que é difícil se meter em roubada

Comente
Página 1 de 212