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Arquivo: rolling stone

Decapitator promove caça ao tesouro em NY

Passeando por NY, após degolar o Daft Punk o Decapitator lançou um desafio: existem cópias da revista Rolling Stone com a Shakira sem cabeça na capa escondidas na sessão de revistas da livraria Barnes & Noble da Union Square. Se alguém achar, avisa.

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As 100 maiores músicas brasileiras (segundo a Rolling Stone)

Fui convidado pela Rolling Stone para participar da votação que elegeu as 100 Maiores Músicas Brasileiras.

Era pra cada um escolher suas 20. Eis as minhas, em ordem alfabética. E nunca definitiva, é óbvio ;)

“A Palo Seco” – Fagner (Belchior)

“Alegria, Alegria” – Caetano Veloso

“Aquarela do Brasil” – Ary Barroso

“Asa Branca” – Luiz Gonzaga

“A minha menina” – Mutantes

“Caminhando” – Geraldo Vandré

“Construção” – Chico Buarque

“Corra e olhe o céu” – Cartola

“Rios, Pontes e Overdrives” – Chico Science & Nação Zumbi

“Chega de Saudade” – João Gilberto

“Detalhes” – Roberto Carlos

“Domingo no Parque” – Gilberto Gil

“Luar do Sertão” – Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco

“Ouro de Tolo” – Raul Seixas

“Os alquimistas estão chegando” – Jorge Ben

“Minha Alma” – O Rappa

“Nanã” – Moacyr Santos

“Rap da Felicidade” (Cidinho e Doca)

“Samba do Avião” – Tom & Vinicius

“Sossego” – Tim Maia

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Rolling Stone, Fevereiro/2009

Matéria sobre o relançamento de “Vôo de coração, grande clássico do Ritchie, que escrevi para Rolling Stone.

Menino veneno

Para comemorar os 25 anos de lançamento de “Vôo de coração”, Ritchie preparou uma edição especial do seu primeiro disco, que inclui o hit “Menina veneno” e que vendeu aproximadamente 1 milhão e meio de cópias (“no ano do lançamento, mais do que Roberto Carlos”, diz Ritchie). Em sua casa, no Rio, o inglês fala sobre os anos 80, parceiros musicais que se tornaram gigantes da música brasileira e sobre vender mais do que Roberto Carlos.

O que esse relançamento tem de especial?

Ritchie – É a versão definitiva, porque conseguimos recuperar um pouco da pressão do LP que estava perdido nas versões anteriores. Não é simplesmente um relançamento de gravadora. Foi um projeto meu, do Lee Martinez e do Carlos Eduardo Andrade (respectivamente, produtor executivo e produtor musical do disco), foi o primeiro trabalho de todos nós. É um presente para os fãs, não estou querendo reviver as vendas. Ficou comprovado que se pode fazer uma edição de luxo, com encarte caprichado e músicas bônus, por um preço popular. Com isso, os fãs talvez pensem duas vezes antes de baixar na internet.

Nomes que viriam a se tornar nomes conhecidos – como Lulu Santos, Lobão e Liminha – tocaram do disco. Sendo estrangeiro, como você conheceu essa turma?

Naquela época éramos todos principiantes, nossa revolução foi trazer o rock para o ouvido dos brasileiros. Lulu e Lobão viram um show meu em 1974, em São Paulo, de uma banda que tive, o chamada Scaladácida, depois formamos o Vímana juntos. Conheci o Liminha e os Mutantes em um estúdio em Londres, em 1972 e acabei vindo ao Brasil para visitá-los. Depois ele foi meu aluno de inglês.

Você foi um dos pioneiros do uso de sintetizadores no rock brasileiro, o que se tornou uma marca da sonoridade dos anos 80.

Eu ouvia muito Depeche Mode, Duran Duran e o (tecladista) Lauro Salazar trouxe essa informação com ele da Alemanha. As guitarras entraram para dar um apoio. Esse é o aspecto mais datado do disco.  Hoje em dia minha banda tem duas guitarras e um teclado.

Os anos 80, aliás, voltaram com tudo.

O Edgar Scandurra disse que “os anos 80 são os anos 60 dos anos 2000”. Os anos 80 já refletiam a sonoridade dos anos 60, as canções de três minutos, a fórmula do pop. Naquela época, tanto quem tinha quatro, cinco anos, quanto quem tinha 80, ligavam o Chacrinha e viam a gente. Isso criou um carimbo no inconsciente coletivo muito forte. Se há um motivo da durabilidade dos anos 80, acho que é um pouco por isso. Todas as classes sociais assistiam e isso é uma coisa que foi elitizada quando a música migrou dos programas de auditório para as TVs por assinatura. O gari, o médico, crianças e velhos assistiam um leque de talentos, da música brega ao mais experimental. O pop perdeu uma veia popular que foi uma grande pena. Não sei se foi uma manobra política intencional das gravadoras para redistribuir os gêneros musicais mais ampla, porque o rock, contra tudo e contra todos, estava tomando conta de tudo.

O que você acha de ser chamado de ser visto como artista de um só sucesso?

Só nesse disco cinco músicas foram para o primeiro lugar, então de cinco sucessos, pelo menos! (risos). Mas eu entendendo o que significa isso, porque “Menina veneno” foi maior que tudo isso.

Aproveitando a oportunidade, a pergunta inescapável: o que é o “abajur cor de carne”, da letra de “Menina veneno”?

Sabia! Eu tinha um abajur meio rosado e quando a luz atravessava, parecia umas veias. Diz o Bernardo (Vilhena, letrista da musica) que não era esse, mas um outro abajur. Nós fizemos essa musica dentro do meu quarto, em São Conrado, . Mas não é carne, de bife não, era cor de pele. A idéia era algo sensual, mas tem gente que pensa num bife.

O Caetano já falou que achava que a letra era sobre heroína! O Bob Dylan já falou que quem sabe o significado das letras é o ouvinte. Não gosto muito de definir os significados.

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Rolling Stone, Janeiro/2009


Matéria sobre o produtor Deeplick que escrevi para Rolling Stone.

Versão brasileira Deeplick

Atualmente a presença de uma música no primeiro lugar nas paradas de sucesso pode significar um aumento de vendas muito maior das cópias piratas do que das originais, mas em todo caso a corrida pelo topo continua. E nessa busca alucinada pelo número um, o DJ e produtor Deeplick surge como um possível atalho.

As façanhas do currículo incluem emplacar no topo das paradas remixes de músicas de Vanessa da Mata, Marisa Monte, Seu Jorge, Danni Carlos e Tihuana, além de colocar Skank, Jorge Vercilo, Jota Quest e Marcelo D2 nas dez mais.

“Quando aparece alguém querendo um remix pra virar primeiro lugar, não faço”, apressa-se em explicar o produtor. De qualquer forma, não tem faltado gente disposta a desembolsar de 4 a 7 mil reais na tentativa, como as mais de 100 produções assinadas por Deeplick comprovam.

Aos 31 anos, o faro para o sucesso foi apurado na noite. “Trabalhei em rádios e como DJ a vida inteira. Gosto de fazer som para o público, acho que o DJ tem que agradar e fazer as pessoas felizes”.

Numa relação simbiótica, Deeplick apresenta o caminho até as rádios, acesso, enquanto o peso do nome desses artistas abrem portas que o produtor talvez não atravessasse sozinho. “Aos poucos estou conseguindo tirar o preconceito dos artistas em relação ao remix. A reação deles é sempre positiva”.

Com sonoridade comercial, esses remixes são feitos para agradar o grande público, não os puristas da musica eletrônica. “Admiro Fatboy Slim, Moby, Chemical Brothers, Daft Punk, um alternativo inteligente, sem preconceitos, por isso foram tão longe. Gosto do eletro barulhento, freqüento e toco nessa cena, então acho que faço parte disso também”, conta ele, que já remixou, oficialmente, White Stripes, Lily Allen e Nego Moçambique.

Com o trabalho crescendo, Deeplick vai experimentando outras funções. “Esse lance me levou a produzir músicas originais de alguns artistas, como Marcelo Mira e Gabriel O Pensador. Estou buscando isso cada vez mais”

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Rolling Stone, Setembro/2008


foto: proline00

Uma análise da cobertura da imprensa britânica dos passos da Amy Winehouse, escrita para acompanhar a matéria de capa sobre a cantora. Não tenho certeza se acabou não sendo publicada.

Procura-se Amy

Seja bem vindo ao fabuloso mundo das celebridades inglesas. Conheça Lilly Allen, a jovem beberrona que não está nem aí pra nada. Divirta-se com as constantes trocas de namorado (quase sempre músicos) da ex- super modelo Kate Moss. Ferva de raiva com Heather Mills, a interesseira ex-mulher de Paul McCartney. E, finalmente, acompanhe as agruras da cantora e viciada Amy Winehouse e seu companheiro de aventuras, o garoto problema Pete Doherty.

Isso é um bom resumo do clima de circo de horrores montado pela imprensa que cobre as notícias – melhor dizendo, fofocas – do mundo do entretenimento em Londres. Mais do que noticiar, os jornais locais – ou um segmento específico deles, os tablóides – exercem um papel de entretenimento, parecido com o das novelas no Brasil.

A cada dia, a tarefa é entregar novos desdobramentos das principais histórias aos leitores, como se fossem capítulos, com uma nova revelação a cada dia e um gancho para o seguinte. Não é difícil imaginar que, nesse cenário, vários fatos sejam extrapolados (quando não, tirados de contexto), na obrigação de alimentar esse ciclo.

É curioso o fato de que em diversos cursos de jornalismo da Inglaterra, os estudantes tenham aula de como escrever roteiros de ficção. Basta ler os jornais para constatar o uso da técnica no forte uso da estrutura narrativa na forma de relatar as notícias.

Mesmo nos jornais considerados sérios, esse tipo de estrutura também é utilizado. O caso da menina Madeleine McCann é um bom exemplo. Dia após dia, as novidades (e providenciais enchimentos de lingüiça) eram liberadas a conta-gotas, prendendo a atenção dos leitores.

No jornalismo de celebridades essa estratégia é potencializada. O palco principal desse universo são os jornais gratuitos distribuídos nas entradas do metrô, todas as manhãs e tardes, um dos principais passatempos para as longas viagens.

No reino de faz de contas das celebridades, o trabalho dos artistas (ou dos poucos que realmente são artistas) pouco importa. Não interessa a música, ninguém está nem aí para o filme. Cada um deles entra no jogo – por vontade própria ou não – para desempenhar um papel pré-estabelecido.

Para Amy, coube o da jovem talentosa e drogada. Afinal, todo elenco pop que se preza, precisa ter sua diva do rock aprisionada no inferno dos tóxicos. Se isso corresponde fielmente a realidade é difícil dizer. As notícias e fotos, cuidadosamente escolhidas para parecerem o mais bizarras possível, não deixam espaço para interpretações. Cabe a Amy seguir o roteiro escrito para ela.

Seus discos estão entre os mais vendidos e suas músicas entre as mais executadas nas rádios. No entanto, pouco se lê a respeito do seu trabalho. As resenhas dos shows são um análise de seu comportamento, suas performances são medidas por seu nível de sobriedade.

A desgraça de Amy Winehouse não são seus vícios. O problema maior são os milhões de pessoas que acompanham os seus passos, secretamente desejando sua morte para saciar a curiosidade de saber o final da história.

Encurralada, Amy entrega o que dela esperam: escândalos atrás de escândalos, quem sabe imaginando que consiga aplacar o desejo insaciável por mais detalhes da sua vida.

Uma pobre coitada? De maneira nenhuma. Atitudes irresponsáveis e um estilo de vida explosivo, cedo ou tarde costumam cobrar seu preço. Triste é ver uma pessoa ser explorada dessa forma, em vez de socorrida de uma tragédia anunciada. Porém, o público pagou o ingresso, é natural que espere um espetáculo.

O maior problema da Amy talvez seja, simplesmente esse: ter um problema.

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Rolling Stone – Setembro/2008 (gongada)

Resenha do disco “Ritmo, Ritual e Responsa” do Charlie Brown Jr que escrevi sob encomenda da Rolling Stone e que acabou não publicada.

Charlie Brown Jr.
2 ESTRELAS e meia
“Ritmo, Ritual e Responsa”
EMI

Coisa de cinema

Nos quase dez anos que separam a estréia “Transpiração contínua prolongada” e “Ritmo, ritual e responsa”, nono disco do Charlie Brown Jr., muita coisa mudou para banda.

No início, a mistura de rock, funk-metal, hip-hop e reggae do CBJR, apesar de soar como uma versão aguáda de uma combinação imaginária entre o Rage Against the Machine, Beastie Boys e Red Hot Chilli Peppers, se destacou simplesmente por soar diferente do que as bandas de rock da época estavam fazendo.

Não demorou muito e a molecada se identificou com a banda, sobretudo os skatistas, já que o esporte é citado em quase todas as letras. A banda, porém, teve curto fôlego criativo. A cada disco novo – praticamente um lançamento por ano – as letras e riffs pareciam reciclagem de trabalhos anteriores, tornando tanto o  discurso quanto as músicas repetitivas. A predileção por um exagero no número de canções em cada disco, chegando a mais de 20 faixas em alguns deles, também colaborou para canseira.

Independente disso, o Charlie Brown Jr. se fixou como um dos principais nomes do pop-rock nacional, com música na abertura do seriado “Malhação”, da TV Globo, estrelando campanha publicitária e com singles sempre bem colocados nos Top 10 das rádios. Tanto sucesso pode ter causado acomodação.

Sinal disso é a entrada tardia do grupo no mundo digital. O site oficial do grupo foi criado há menos de dois anos. Ou seja, o CBJR, que já não cresceu no ambiente da internet, chegou bastante atrasado aos tais “novos tempos”. Enquanto papava mosca, outros nomes com Fresno e NX Zero (que têm diferenças, mas são essencialmente iguais quando se fala do universo radiofônico) construíam seu público, com ares de novidade, tomando o espaço do Charlie Brown Jr.

Some a isso o custo da antipatia gerada pela super exposição e por atitudes do vocalista e líder da banda, Chorão, como a agressão ao músico Marcelo Camelo (do Los Hermanos). O entra e sai de integrantes, fez a banda parecer uma empresa aos olhos dos fãs, onde os músicos são meros funcionários. O resultado dessa equação é um público difuso, superficial, formado basicamente por ouvintes de rádio. A banda perdeu o contato com a garotada e ficou sem referencial.

É nesse contexto que chega as prateleiras “Ritmo, ritual e responsa”, trilha sonora do longa (ainda inédito) “O magnata”, estréia de Chorão no cinema, como roteirista. Estrelado por Paulo Vilhena, o filme conta a história de uma estrela do rock, imatura e encrenqueira (levando alguns a falar em auto-biografia).

Ao contrário dos videoclipes, por se tratar da trilha de um filme, as músicas desse disco tem a obrigação de servir as imagens. Isso deve ter levado a banda a experimentar, ainda que timidamente, novas opções para a combinação hardcore-ska-reggae-rap característica do Charlie Brown Jr.

Produzido por Chorão e pelo guitarrista Thiago Castanho, “Ritmo, ritual e responsa” se apóia em participações especiais para encontrar esses caminhos. São muitos convidados: ForFun (“O universo a nosso favor”), Sacramento MCs (“Vivendo a vida numa louca viagem”), João Gordo (“Vida de magnata”) e Marcão, do Lobotomia (“Que espécie de vermes são vocês”), entre outros.

A toada baile funk do vocal de MV Bill em “Sem medo da escuridão” chama atenção, mas são as batidas eletrônicas do DJ Zyz em “Nua, linda, inigualável” e “Panormal” que realmente causarão estranhamento nos fãs do CBJR. A mistura de rock com trance, no pior estilo Tiësto, é um desastre.

Há também quatro faixas instrumentais, entre elas um funk setentista, “Liberdade e tudo”, novamente destoando do repertório da banda, dessa vez positivamente. As 23 faixas passam durante cerca de uma hora e vinte minutos de lições de moral das letras, tornando o disco longo demais.

Tecnicamente, não há como dizer que é ruim. É bem gravado e a banda é competente, tornando perfeitamente compreensível seu sucesso entre os adolescentes. O que causa estranhamento é a distância entre as mensagens pregadas nas letras e a postura dos integrantes. Mas isso também pode ser mera ficção.

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Rolling Stone, Julho/2008


foto: URBe Fotos

Resenha do show do Coldplay na Brixton Academy, em Londres, que escrevi sob encomenda da Rolling Stone.

Coldplay
Brixton Academy – Londres – 16 de junho
2 estrelas e meia
Viva la repetición

O Coldplay não decepciona seu público. A cada disco da banda, os fãs – mesmo os de ocasião, que conhecem apenas uma ou duas canções – podem ter certeza que as músicas serão, como sempre, umas iguais as outras. O show não é diferente.

Mesmo contando com Brian Eno na produção, o que se ouviu na apresentação gratuita de lançamento da turnê de seu quarto disco, “Viva la vida or death and all his friends”, foi mais do mesmo: baladas melosas, refrões grudentos e, sim, boas melodias. O que, diga-se, não é lá tarefa muito fácil, apesar da monotonia.

No bis, a banda surgiu no balcão do segundo andar para transformar “Yellow” numa serenata cafona, antes de voltarem mais uma vez para o palco (ao som de um remix de “Speed of sound”) para fechar com “Fix you”, “Lover in Japan” e uma chuva de papel picado em formato de borboleta.

Se também vai cair dinheiro do céu como sua gravadora espera, é uma outra história.

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Rolling Stone, Abril/2007

Resenha do disco do Brasov, que escrevi para alguma edição da Rolling Stone Brasil, em abril, talvez.

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Brasov
4 estrelas
“Uma noite em Tuktoyaktuk”
Dubas

Skatalites de churrascaria

Enquanto o nome da banda homenageia um condado romeno de tradições ciganas, o título do disco “Uma noite em Tuktoyaktuk” fala de uma cidade canadense onde brilham o sol-da-meia noite e a aurora boreal. É um fator lúdico bem particular, que traduz o universo do Brasov.

Imerso numa atmosfera kitsch, o Brasov ousa misturar música brasileira (guitarrada, samba), latina (cumbia, salsa) e cigana em temas instrumentais, pieguices em espanhol, órgãos de banda de restaurante, andamentos de aceleração repentinas e, ainda assim, dar certo.

Em 2002 o Brasov pendurou os uniformes de porteiro e tocas de natação que usava em suas apresentações e resolveu dar um tempo. Nesse mesmo surgiu a Orquestra Imperial, com a qual, depois do retorno, o grupo tem sido insistentemente comparado.

A volta em 2006, com o lançamento do disco, confirma o preço a se pagar pelo ineditismo. Antes, com um circuito independente bem menos estruturado, a banda não conseguiu o espaço que merecia. Hoje, encontra pares na cena, como a Orquestra Imperial e Móveis Coloniais de Acaju.

A referência brega é o que liga músicas de nomes esquisitos, como “Melô do sacudo”, “Bongo furioso” e “Alzira, Por Que Não Possui It Please?”, emendada em “Dorogoj Dlinnoju” e a citação ao tema dos jurados do Show de Calouros, do Silvio Santos.

Após o final do disco, uma faixa escondida comprime em 20 minutos todo o repertório, numa espécie de audição dinâmica. Após outro silêncio, um versão letrada de “Homem objeto” fecha o baile.

É tempo o suficiente para decidir com qual das oito opções de capa você vai embalar a bolacha. O Brasov não tem mesmo uma cara só.

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Rolling Stone, Setembro/2007

Resenha do disco da Mula Manca & Fabulosa Figura que escrevi para para a Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, segue o texto.
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Mula Manca & a Fabulosa Figura
3 estrelas
“Amor & Pastel”
Independente

Sem mancar

Em seu segundo disco, “Amor & pastel”, a Mula Manca abandona as misturas de literatura e música e, principalmente, a Triste Figura. Em seu lugar, entra em cena a Fabulosa Figura, trazendo consigo uma mistura brega-forró-samba-rock.

Com as contas resolvidas (o disco foi realizado com um patrocínio da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), “Amor & Pastel” pode ser baixado integralmente no site da banda.

Se a tendência para os sambas em marcha lenta dos recifenses pode ser conseqüência das apresentações com o seu projeto de versões de Chico Buarque, o Seu Chico, interessante mesmo é notar os caminhos sonoros da “nova geração” se cruzando.

Os conterrâneos do Mombojó — e seu grupo paralelo dedicado as canções do Rei Roberto, o Del Rey — podem ser identificados como referência, mesmo que indireta, embora o Mula Manca seja mais acústico e menos psicodélico. O alagoano-catarina Wado também é lembrado.

O Recife se faz presente de maneira (ainda mais) forte, através das participações de músicos de bandas como Mundo Livre S/A, Parafusa, Suvaca di Prata e Eddie, em letras de temática fechada. Segundo o próprio quarteto, as músicas falam sobre o processo de separação de um casal.

Rompimentos amorosos realmente costumam ser boa fonte de inspiração. A despedida da Triste Figura deve ter sido dolorida. Agora é esperar a Fabulosa partir.

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Rolling Stone, Outubro/2007

Fui convidado para votar e resenhar algumas bolachas para lista dos 100 maiores discos da música brasileira, publicada na Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

De brinde, a minha lista completa, sempre mutante.

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Os 20 (em nenhuma ordem específica):

“A tábua de esmeralda”, Jorge Ben

“Coisas”, Moacir Santos

“Da lama ao caos”, Chico Sciense & Nação Zumbi

“Bloco do eu sozinho”, Los Hermanos

“Nadadenovo”, Mombojó

“Disfarça e chora”, Cartola

“Lado B, Lado A”, O Rappa

“Ando meio Desligado”, Mutantes

“A bad Donato”, João Donato

“Prelude”, Deodato

“Racional”, Tim Maia

“Os afrosambas”, Baden Powell e Vinícius de Moraes

“Chega de saudade”, João Gilberto

“Construção”, Chico Buarque

“Estudando o Samba”, Tom Zé

“Transa”, Caetano Veloso

“A dança da solidão”, Paulinho da Viola

“Roberto Carlos (1970)”, Roberto Carlos

“Funk Brasil”, DJ Marlboro

“Edison Machado é samba novo”, Edison Machado

“Transa”

Caetano Veloso
1972 – Phillips

Gravado em Londres em 1971 e lançado no Brasil em 1972, “Transa” foi o terceiro e último disco gravado por Caetano Veloso no exílio e o primeiro a sair após seu retorno ao país (desconsiderando “Barra 69″, que saiu antes, mas foi gravado ao vivo com Gilberto Gil, antes dos compositores irem “passear” na Inglaterra, à convite da ditadura). Se pode-se dizer que algo de bom pode ser extraído de um exílio, o encontro de um tropicalista com uma cultura extrangeira, in loco, é um bom exemplo. Intercalando letras em inglês (cinco no total) com versos do poeta Gregorio de Mattos (“Triste Bahia”) e um samba de Monsueto de Arnaldo Passos (“Mora na filosofia”), “Transa” é auto-biográfico até o osso. Fala sobre estar sozinho e longe de casa (“You don’t know me”) e de como incorporar o choque cultural, como a citação ao reggae na Portobello Road, em “Nine out of ten”, que Caetano já afirmou ser a primeira gravação brasileira a citar os compassos do ritmo caribenho. Talvez pela distância, pela falta de olhares vigilantes, Caetano nunca tenha sido tão Caetano.

“Da Lama ao Caos”

Chico Science & Nação Zumbi
1994 – Chaos (Sony)

1994 foi um ano de renovação musical intensa, um momento chave para música brasileira. E o principal fato dessa renovação foi o lançamento do disco “Da lama ao caos”. Reza a lenda que a gravadora contratou Chico Science & Nação Zumbi no escuro, pensando ter encontrado, em Recife, uma resposta para o fenômeno de vendas do axé É o Tchan!, colocando no mapa não apenas uma das mais criativas bandas do país, mas boa parte da cena de Pernambuco, o Mangue Bit e seu manifesto. A mistura de maracatu, rock, hip-hop, dub e música eletrônica era tão inovadora e abrangente que continua repercutindo até hoje.

“A Bad Donato”

João Donato
1970 – Blue Thumb Records (EUA)

Morando nos EUA, Donato ganhou carta branca da gravadora para fazer o disco que quisesse, com direito a uma boa verba para adquirir equipamentos,. Decidiu então fazer experimentos com sintetizadores e pianos elétricos. Montou uma banda assustadora (incluindo Dom Um Romão, Emil Richards, Bud Shank e integrantes da orquestra de Stan Kenton), convidou o arranjador Eumir Deodato e gravou “A bad Donato”. Declaradamente influenciado por James Brown e Jimi Hendrix, o disco (tido como um marco do jazz fusion) faz uma fusão genial do funk com música brasileira.

“Bloco Do Eu Sozinho”

Los Hermanos
2001 – Abril Music

Após uma exposição nacional massiva e massificante, provacada pelo hit Anna Júlia, o Los Hermanos surpreendeu sua gravadora, a imprensa e, principalmente, seus fãs com a mudança de direção proposta pelo “Bloco do eu sozinho”. Em vez de seguir a fórmula do sucesso, que implorava por outra anna-qualquer-coisa, a sonoridade ska-hardcore-pop do primeiro disco deu lugar a andamentos quebrados, melodias intrincadas e letras reflexivas. Como num recomeço, voltaram a tocar em lugares pequenos e renovaram de seu público, que se cristalizaria no terceiro disco e tomaria proporções messiânicas no quarto. O culto começou aqui.

“Ando Meio Desligado”

Os Mutantes
Polydor – 1970

Não é tarefa fácil competir com discos como “Jardim Elétrico” ou o homônimo “Os Mutantes”, porém faixas como “Desculpe babe” e “Ando meio desligado” – talvez o maior clássico da banda – pesam a favor. Admirado no exterior por nomes como Beck, David Byrne e Kurt Cobain, o disco tem arranjos de Rogério Duprat e marca o distanciamento dos Mutantes do movimento tropicalista, aproximando-se mais do rock e da psicodelia, embora seja praticamente impossível definir um estilo, tamanha é a variaçao temática das canções. Você nunca mais verá seu refrigerador da mesma maneira.

“Quem é Quem”

João Donato
1973 – Odeon

O time reunido em “Quem é quem” por João Donato é forte, como quase sempre é em seus discos. Dori Caymmi e Laércio de Freitas assinas arranjos e Marcos Valle é o assistente de produção, enquanto o baixista Bebeto, o percussionista Naná Vasconcelos e outros músicos acompanham o pianista no estúdio. Donato finalmente se permite cantar, inaugurando um estilo inconfundível. Lançado um ano depois do retorno de Donato ao Brasil, após mais de uma década nos EUA, o disco é um reencontro do pianista com o samba-jazz, envenenado e entortado por seus experimentos elétricos no exterior.

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Rolling Stone, Julho/2007

Matéria sobre o astro João Brasil e resenha do último show do Los Hermanos que escrevi para a Rolling Stone Brasil 10.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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foto: Lucas Bori
João Brasil e Seus 8 Hits

“Tipo de mulher predominante no mundo. Banida das capas de revistas, é a anti-heroína, o mal necessário. Elas sempre te divertem”.

Essa é a definição de baranga no dicionário do carioca João Brasil. “Baranga”, a música, foi lançada ano passado. Com o refrão hilário “Baranga / Cheia de marra / Cintura de ovo / Pega quem quiser / Mas tem que chegar”, transformou-se num sucesso na internet e aos poucos vai ganhando o mundo real.

“Fiz ‘Baranga’ e a turma foi gostando. A música foi parar em sites e blogs e começou a crescer. Depois fiz ‘Supercool’ e as pessoas pediram mais. ‘Mamãe virei capitalista’, com participação do De Leve, veio nessa leva”, explica o hitmaker.

A rede tem tido papel importante também na formatação de João Brasil como artista. Seu estilo musical foi definido por um fã, através de um comentário no YouTube, como ”Nova Guarda”. O complemento do nome artístico, João Brasil e Seus 8 Hits, também foi pescado do recado de um admirador no MySpace.

Os temas das letras são variados, tratados sempre com ironia, seja descrevendo os antenados (“Supercool”), paixonites por prostitutas (“Elisa”), fanfarronices (“Cobrinha fanfarrona”) ou bebedeiras (“O carnaval acabou com o meu fígado”). Sem falar nas brochadas (“Pau molão”). Todas, diz João, autobiográficas. “Quero fazer as pessoas rirem, se divertirem. Algo animado, pra relaxar. Acho que falta humor e mais músicas alegres, como o funk”.

As produções simples, misturando timbres eletrônicos do começo da década de 90 com batidas de funk e levadas de soul, soam calculadamente toscas, a atmosfera kitch servindo à perfeição as letras e as melodias grudentas.

Produtor de mashups, dono do estúdio Lontra, no Rio, com um diploma de publicidade e outro da prestigiada faculdade norte-americana Berklee College of Music pendurados na parede, João às vezes é cobrado por um material mais elaborado. Ele discorda.

“Faço minhas músicas de maneira séria. As pessoas imaginam Berklee como um antro de jazz, que o cara tem que sair de lá um virtuoso. Não é assim. Tem gente que vai lá pra aprender a fazer música pop, rock, eletrônica. Estudei várias linguagens, técnicas e instrumentos. Foi bom para ter a liberdade de ser auto-suficiente”.

Suas músicas chamaram a atenção de veículos como O Globo e ele já tocou ao vivo no cultuado programa de rádio de Maurício Valladares, Ronca Ronca. A aproximação com o grande público veio quando “Baranga” foi adotada como hino da campanha “faça uma encalhada feliz”, do programa “Mucho macho”, apresentado por Marcos Mion na MTV.

“Na primeira vez, o Mion anunciou a música dizendo que havia sido enviada por mim, só que eu não sabia de nada. Só depois, um garoto me escreveu contando que tinha sido ele quem tinha mandado falando que era eu!”, conta João.

Outro sucesso, “Mônica Waldvogel”, feita em homenagem a jornalista, foi elogiada pela própria musa inspiradora. “Ela me escreveu um e-mail falando que adorou e dizendo que ‘ia acabar ficando famosa’. Agora só falta tocar no ‘Saia Justa’! (risos)”.

Os planos para o futuro incluem participar dos festivais do circuito independente e enfrentar os roqueiros armado apenas com seu teclado e laptop. “Vou na cara e na coragem. Só estou conseguindo agradar ao público porque estou agradando a mim mesmo”, conclui Brasil.

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Samba a dois

Los Hermanos
Fundição progresso – Rio de Janeiro – 07, 08 e 09 de junho
5 estrelas

Do lado de fora da Fundição Progresso, os bares permaneceram vazios durante as três noites. A tradicional social, tão característica das noitadas cariocas, foi substituída por uma apreensão.

Ao invés de beber e conversar, o público preferiu aguardar o início das apresentações de pé, encarando um palco vazio das 22h até pouco depois da meia-noite, como se o Los Hermanos pudesse entrar a qualquer momento. Ansiosos, os fãs chegaram a vaiar a demora.

A tensão no ar, misto da tristeza de alguns, com a esperança de outros da separação não durar muito, era quebrada por um urro monstruoso, assim que as luzes de serviço se apagavam. O volume da gritaria, já bastante alto, crescia ainda mais quando a banda finalmente entrava em cena. Como se fosse a última vez.

Quando no dia 23 de abril, as vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto disco, o Los Hermanos anunciou através do seu saite que entraria em um “recesso por tempo indeterminado”, pegou seus fervorosos admiradores de surpresa.

Sem saber se os dois shows divulgados no mesmo comunicado (que logo se tornaram três, tamanha a velocidade com que os ingressos se esgotaram) seriam a última chance de ver o quarteto na formação clássica, o evento foi tratado por fãs e imprensa como uma despedida oficial. Mesmo com os integrantes da banda declarando que o plano não seja esse.

Apesar da péssima acústica, a Fundição, na Lapa foi o único palco no Rio capaz de obedecer a dois critérios: ter feito parte da história da banda e capacidade de comportar um público estimado em cinco mil pessoas por noite. Foi ali que o Los Hermanos fez um dos seus shows mais importantes, no festival SuperDemo, em 1998, antes da crucial apresentação no Abril Pro Rock, que os revelaria para o Brasil.

O desespero dos seguidores dava lugar à alegria quando (de terno, gravata e sapato, como o pastor de um culto) Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante (de blazer branco), Bruno Medida e Rodrigo Barba pisavam o palco.

Era hora de aproveitar a chance de jogar mais uma vez serpentina e confetes para o alto durante “Todo carnaval tem seu fim”, de gritar “vai!” no final de “A flor” e de berrar cada palavra das letras. E foi isso que o público fez, em três noites em que foram maiores que a banda.

A platéia era o palco e o palco era a platéia. Emocionados, os hermanos riam e saudavam os fãs com “vocês são foda!” (Camelo) e “não dá pra se acostumar com isso não” (Amarante), além de comentar sobre as diversas bandeiras de outros estados, das pessoas que viajaram especialmente para esse encontro.

Embora a ênfase tenha sido nos três trabalhos posteriores, combinando o repertório dos três shows, mais da metade das músicas do primeiro disco foram tocadas, uma raridade. A supostamente renegada “Anna Julia” foi tocada todas as noites, recebida com a mesma empolgação dos outros sucessos do grupo.

Foram três shows históricos, de celebração da banda com seu público. Independente de a banda ter ou não acabado, seria até besteira falar do aspecto musical numa situação dessas. Mesmo porque, as canções, abafadas pelos gritos da torcida, eram praticamente inaudíveis.

Nessas três noites, nada disso importava. O lance era entre eles dois. O Los Hermanos e seus fãs.

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Rolling Stone, Julho/2007 (?)


foto: CamilaCamomila

Texto escrito para Rolling Stone sobre o show de despedida do Los Hermanos, para acompanhar a resenha dos três últimos shows.. Por falta de espaço acabou sendo publicada apenas a resenha, se não me engano.



Na contra-mão

A biografia do Los Hermanos é repleta de marcos e rupturas. O “recesso por tempo indeterminado” é somente mais uma dessas decisões quixotescas (ou românticas ou polêmicas) que parecem acompanhar a trajetória da banda.

Criada num período de mudanças e transições na indústria fonográfica, do sucesso nas rádios à internet, o Los Hermanos se destacou nas duas realidades.

Uma das últimas bandas a estourar via fitas-demo, em cassetes (hoje extintas, substituídas por CD-Rs e MP3), o Los Hermanos também protagonizou o primeiro grande vazamento de músicas de um artista brasileiro na internet, quando os ensaios do que viria a ser “Ventura” caíram na rede sob o nome “Bonança”, título do disco à época.

O quarteto sempre andou na contramão. Esse é um dos principais motivos da banda colecionar tantos seguidores, encantados com a postura independente, quanto desafetos, enfezados com a rebeldia calculada. Fazia tempo que um grupo não despertava sentimentos tão díspares e intensos no público.

Dispostos a construir uma carreira, optaram pelo caminho mais difícil. “Anna Julia”, sucesso responsável pelas 350 mil cópias vendidas do primeiro disco, foi sacada do repertório dos shows, numa escolha até hoje mal interpretada como renegar a música.

Arriscaram-se novamente no segundo disco, o cultuado “Bloco do eu sozinho”. De sonoridade pouco comercial e sem o apoio da gravadora na divulgação por considerá-lo “difícil”, “Bloco…” reconstruiu e catalisou o atual fiel público da banda.

Durante dez anos, as escolhas se provaram corretas. Se nunca mais atingiram a vendagem da estréia (marca raramente obtida no mercado de lá pra cá), ganharam respeito. Tudo isso enquanto compunham canções de letras de fácil identificação e arranjos originais, aproximando o rock e a mofada MPB.

O terceiro disco, “Ventura”, mais palatável, expandiu a base de fãs, levando o Los Hermanos, entre outras coisas, a ser atração principal num dos palcos da primeira edição do Tim Festival, com os norte-americanos do Lambchop fazendo o show de abertura, prática pouco comum no Brasil. O contemplativo “4”, outra guinada artística, recebido com ressalvas pela crítica, vendeu mais que o antecessor.

Agora a história se repete. As vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto trabalho, contrariando as expectativas, o Los Hermanos desiste de cumprir a cartilha mercadológica que pede um disco de carreira a cada dois anos, puxa o freio de mão e pára pra repensar a carreira.

Os motivos da decisão ficaram somente entre os integrantes e seu círculo de amigos, embora a pausa anunciada, com shows especiais de despedida, possa soar contraditória. Para os fãs, restou a surpresa.

O quarteto, já pouco afeito a aparições na imprensa, coerentemente calou-se, deixando muita gente sem entender nada. A pergunta mais repetida nos últimos meses foi: o Los Hermanos acabou de vez? A resposta oficial é “não”.

Como os integrantes da banda, fora uma ou outra declaração frisando que “recesso é recesso”, se esquivaram de se aprofundar no assunto, criou-se margem para especulações, quase todas de cunho negativo. “Recesso é eufemismo para o fim”, “deixaram a janela propositalmente aberta para voltar com um Acústico”, “Camelo e Amarante brigaram, por isso não querem falar”, “crise criativa”.

Alheios às adivinhações, os integrantes seguem caminhos separados. Em se tratando de Los Hermanos, qualquer previsão é furada.

Para Rodrigo Amarante, o futuro começou dois dias depois, na estréia da temporada de lançamento do primeiro disco da banda de baile da qual faz parte, a Orquestra Imperial. Fala-se ainda em uma participação no disco de Devendra Banhart. Gravado como compositor por Maria Rita e produtor do disco do seu tio, o ex-Tamba Trio Bebeto Castilho, pouco antes dos shows de despedida Marcelo Camelo participou da gravação Acústico MTV de Sandy & Junior.

O baterista Rodrigo Barba entrou em turnê com a banda de hardcore carioca Jason, além de tocar com o Latuya, enquanto o tecladista Bruno Medina segue escrevendo em seu blogue. O tempo dirá se as músicas da banda serão tratadas como “Anna Julia” em eventuais carreiras solo dos quatro músicos.

Se não é o fim da banda, é o final da primeira fase. Com tanta gente tentando chegar lá, o Los Hermanos resolve parar. No último show, Barba vestia uma blusa do Autoramas, o que remete a renovação. Talvez, esse refluxo gere espaço para outras bandas, com potencial para agradar o mesmo público. De Mombojó e Moptop, aos ex-Acabou la Tequila Nervoso & os Calmantes, Kassin e seu projeto +2, passando por Móveis Coloniais de Acaju, Wado, Cidadão Instigado e Lucas Santtana. Herdeiros não faltam.

Longevidade nunca esteve diretamente ligada a qualidade musical, a história está cheia de exemplos pra comprovar. Ser grande também é saber a hora de se sair de cena. Seja um gesto calculado ou uma decisão sincera. Depende de quem está interpretando.

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Rolling Stone, dezembro 2006

Resenhas do festival Hutuz e do novo disco d’A Filial que escrevi para o terceiro número da Rolling Stone Brasil. Com a edição fora das bancas, reproduzo os textos aqui.

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A Filial
“Quem menos tem é quem mais oferece” (Dubas Música)
cotação: três estrelas e meia

Todo mundo junto

Num Rio de Janeiro cada vez mais retraído, onde um tiro lhe aguarda em cada esquina (ou ao menos como parte da imprensa e das autoridades querem fazer parecer), o discurso d’A Filial faz o caminho inverso. Fala de sair na rua, de encontros e de aceitar o outro como único caminho possível pra sairmos do caos atual — e não apenas na Cidade Maravilhosa.

Dispensando o uso de samples, tão caros à cultura hip hop, com exceção de alguns scratches e batidas eletrônicas, os sons do disco foram feitos do zero. Tocado pela própria banda — formada por Edu Lopes (vocal), DJ Castro (do extinto Quinto Andar, Black Alien), Rodrigo Pacato (percussão), Ben Lamar (trompete) e Flavio Prazeres (sax e cavaquinho) — mostra uma boa evolução em relação ao EP “A Filial”, de 2002.

O hippie-hop acústico do quinteto mistura rap, samba, soul, funk, faixas instrumentais (“Prelúdio”, “Charme e sedução”) e abre espaço para convidados como BNegão (ex-companheiro de Edu no Funk Fuckers) em “Verso versátil” e De Leve, em “Be the world”.

Quando as coisas parecem estar ficando cabeça demais, o verão carioca se faz presente na guitarra funkeada de “Gosto tanto”, no bumbo reto de “Dança” e no sambinha “Linda”. Afinal, um pouco de alegria sempre facilita o encontro.

Premiação do hip hop agita o Rio

Organizado pela Central Única das Favelas (Cufa) e realizado ininterruptamente desde o ano 2000 no Rio de Janeiro, o Hutúz chegou a sua 7ª edição, firmando o evento como o principal encontro do hip-hop brasileiro.

Além dos shows, o Hutúz envolve uma premiação aos melhores do ano, apresentações dos quatro elementos (DJ, MC, break e grafite), mostra de cinema, seminários, oficinas e campeonato de basquete de rua.

A edição 2006 teve como tema o esporte e trouxe vários artistas latinos, como o argentino Emanero, o chileno Sammy Houston e o uruguaio Contra las Cuerdas. O rapper e ator americano Mos Def (no país para filmar cenas do documentário que está produzindo, “4 real”) fez duas participações especiais, apresentando duas músicas na festa de premiação e como convidado no show do MV Bill, dois dias depois.

Entre os premiados estão Facção Central (melhor grupo e melhor álbum, por “O espetáculo do circo dos horrores”), Dia dos Pais (melhor música, por “Inquérito”), Atitude Feminina (revelação), Graphis (grafite), New Crew (break), Erick 12 (produtor) e Inumanos (clipe).

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