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Rock Werchter ’08: Festa no interior


URBe TV (com excessão do Radiohead) e
URBe Fotos (inclusive as fora de foco)

Como dito anteriormente, todos os caminhos apontavam para Bélgica. O que pode ter faltado foi placas sinalizando melhor as intempéries.

Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:

Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.

Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar — afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.

O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.

Dia 1onde os urubús tem asa


Uniforme

Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso — e sem o nome de nenhuma mega corporação intrometida no logo do evento — é um mistério.

Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.

Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.

Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.

A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.

E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Já na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.


Vampire Weekend, “A-Punk”

No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial do quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.

O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem intervalos. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.

Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina.

Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com “C” maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.

Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume. Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.

Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com “Orange crush” e fechando com “Man on the moon”.


Soulwax, “Robot rock” + “Phantom Pt. II”

De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.

Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro), sob o nome Soulwax Nite Versions ênfase é na eletrônica, tocando seus remixes ao vivo. Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.

Emendando “Gravity’s rainbow” (Klaxons), “NY Excuse” (deles mesmo, explodindo a tenda), “Robot Rock” (Daft Punk) e “Phantom Pt. II” (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).

Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal. A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.

Dia 2lá vem o sol


Jay-Z

Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda. No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.

Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.

Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: “99 problems”, “Crazy in love” (Beyoncé), “Umbrella” (Rihanna) e a música da estação, “American boy” (Estelle).

A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.

No palco principal (eita, vai-e-vem…), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem está tão longe assim ainda.


Hot Chip, “Ready for the floor”

A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.

Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.

O show deu uma crescida em “Over and over” e na ótima “Ready for the floor”, ficando curioso na versão de “Nothing compares 2 U”, do Prince, imortalizada por Sinead O’Connor.


Digitalism

Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.

Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do que é o “DJ Ibiza”.

Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a “tendenssa” atual, nem todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. O Digitalism certamente funciona melhor de olhos bem fechados.

Dia 3dobradinha histórica


MGMT

Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.

A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.

É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si — o que deveria ser uma boa coisa — a turma impaciente do hype debanda.

O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só “mandar um dance”. O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.

O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e… Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.

Show bom bagarái. Vamos ver como será recebido no Brasil.

O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal. No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.

Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa. Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, “On call”, e lançando um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.


Sigur Rós

Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas. É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.

Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de “Woman in me”, um musicão) e, hoje, assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.

Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.

Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral. Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca para aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.


Radiohead, “Climb up the walls”

Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.

A grande “falta de sorte” foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.

A inclusão de “Paranoid android” fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) “In rainbows” foi tocado quase integralmente e “Climb up the walls” surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.

Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que ocasionou um espreme-espreme raro por essas bandas. Na tentativa de evitar o tumulto no final da apresentação, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.

Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando “Everything in it’s right place”, antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.

Dia 4arrancada final


Hercules & Love Affair

Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.

O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.


Mark Ronson

Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos. A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm… contemporâneo.

Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.

Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre “Toxic” (Britney Spears), “Just” (Radiohead), “Stop me” (The Smiths) e “God put a smile upon your face” (Coldplay).

O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.

O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.

A catarse provocada por “Valerie”, logicamente sem Amy Winehouse nos vocais, prova o contrário.

Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.


Racounteurs

Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de “projeto paralelo do guitarrista Jack White”. O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.

Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada boba, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.


Justice

O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.

Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.

Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de “Genesis”, prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.

O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, que durou uns 20 segundos, mais pra Poison do que pra Metallica.


Beck

Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, “Modern guilt” e alguns de suas melhores canções.

Entre “Loser”, “Devil’s haircut”, “New polution”, “Where it’s at”, o grande momento foi “Everybody’s got to learn sometime”, do The Korgis, que fez parte da trilha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.

Moído, restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.

São e salvo.