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Lançamento: Maga Bo, “Quilombo do Futuro” (2012) [Transcultura #81]

Quando o Joca escreveu perguntando o que achava de lançar o disco novo do Maga Bo aqui no URBe respondi “vamos nessa!”. Armamos uma entrevista para minha coluna no Globo, com um link pra pré-audição no Soundcloud (abaixo), antes do dia oficial do lançamento: hoje.

É só baixar na página do Maga Bo no Facebook e ouvir as viagens do produtor americano pelos ritmos afro-brasileiros, repleto de participações especiais, de Yuka a Funkero, de BNegão a Buguinha Dub. Parada quente.

Segue então a íntegra do texto, sem cortes, que escrevi semana passada na coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo, baseado na entrevista com Maga Bo e que explica bastante o disco.

Maga Bo faz experimentações com ritmos afro-brasileiros
“Quilombo do Futuro” já pode ser ouvido na internet

por Bruno Natal

A história é a clássica, repetidas diversas vezes: gringo visita o Brasil, se apaixona por alguma cidade e decide nunca mais voltar. Foi o que aconteceu com Maga Bo, em 1999, quando trocou os EUA pelo Rio de Janeiro e se jogou nos sons do país. Foi aqui que o músico e técnico de som se tornou um produtor e DJ respeitado, é tido com um dos maiores conhecedores da batidas produzidas de maneira independente mundo afora, tendo passado por mais de 40 países em suas pesquisas, do Marrocos, Índia e Etiópia ao Senegal, Zanzibar e África do Sul.

Adaptado e considerando-se um local – “toda minha carreira internacional foi construída em cima dessa base que criei aqui no Rio”, diz- Maga Bo sente-se suficientemente a vontade no Brasil para fazer um disco inteiro, “Quilombo do Futuro”, de experimentações eletrônicas com os ritmos afro-brasileiros. O disco só sai no dia 22 (para ser baixado de graça no fb.com/magabodj), porém Maga Bo disponibilizou, com exclusividade para Transcultura, o disco todo para audição no Soundcloud.

- Para ter um conhecimento profundo de música, é preciso estudar, pesquisar, treinar – ninguém nasce sabendo sambar. Acredito que a minha visão dos ritmos afro-brasileiros é diferente porque conheço bem do ponto de vista local, mas ao mesmo tempo sempre tive essa visão de fora ao mesmo tempo. Sou capoeirista e lembro dos treinos ao som de um som portátil e de como o CD pulava com frequência. Fquei inventando batidas na minha cabeça em cima desse ritmo maluco que foi gerado aleatoriamente, tudo ragga, jungle… Essa idéia virou uma música com o BNegão. Essas viagens que fazem parte do meu dia a dia – explica Maga Bo.

Pela participações no disco, Maga Bo já está mesmo enturmado. Além de BNegão, estão lá Biguli, Funkero, Buguinha Dub, Yuka e alguns outros. Para ele, conhecer os músicos foi muito fácil, difícil mesmo é conquistar o público.

- Como faço em qualquer lugar do mundo, procurei pessoas fazendo música que gosto, admiro, respeito, me apresentei e mostrei o meu trabalho. Os músicos foram muito abertos, mas o público, não. Sempre procurei pessoas trabalhando com música de DNA africano, jamaicano, do hip hop, dub, ragga… Assim encontrei o MC Marechal, ele me apresentou pro BNegão, que me apresentou pro Marcos Suzano. Encontrei o Marcelinho da Lua, fui pra primeira festa do Digitaldubs quando o amplificador queimou e estragou a festa. Fui fazer um programa de rádio na casa do Yuka com o transmissor portátil dele e fomos ficando amigos e gravando juntos, agora estamos fazendo um disco. Conheci o João Hermeto e começamos gravar na casa dele, fui frequentando as escolas de samba tocando tamborim e o Junior da Mangueira me convidou pra ensaiar com a bateria, tocando nos blocos. Me apresentei pro Buguinha Dub, queria conhecer esse maluco fazendo barulho com os efeito de guitarra em cima da mesa de som nos shows da Nação Zumbi…

O processo de pesquisa e produção do disco se mistura com essas histórias de amizade criadas na cidade.

- No caso das músicas com os caras da Baiana System, conheci o disco deles e fui pra Salvador especificamente pra conhecer eles e as gravações são os resultados disso. Ouvi a música que a Rosângela Macedo canta no disco do Kiko Dinucci na casa de um amigo e pirei. Tenho planos de gravar mais com todas essas pessoas.

Outro artista que participou do disco foi Speed Freaks, rapper morto em 2010.

- Era um amigo de muito tempo. Era um maluco beleza. Gostei muito dele. Não acho que seja a ultima gravação dele – ele sempre gravava muita coisa, batida, letra, gravação, mixagem, até o clipe, tudo num dia só. Ele me sacaneava muito porque sou mais certinho na minha maneira de trabalhar, gosto de dar mais tempo pro processo. Mas, bom, ele era o SPEED freaks…

Parte do disco foi financiada via crowdfunding. Produzindo, compondo, gravando e mixando sozinho (sem falar no agendamento das apresentações, divulgação, site, produção das viagens…), Maga Bo convidou um time poderoso para remixar as faixas do “Quilombo do Futuro”. Frikstailers, Stereotyp, Uproot Andy, El Remolón são dos nomes que entortaram as faixas.

- Quando toco em outros países, toco com essa galera, que é um som mais internacional. Frequentemente recEbo convites pra tocar em festas de música brasileira (hoje recebi um convite pra tocar na festa do Sergio Mendes na Holanda), mas geralmente recuso. As festas lá fora costuma vir com uma visão do Brasil como país exótico, do futebol, samba e mulher, não tenho a menor vontade de contribuir ou participar nisso. A música é grande demais pra ser limitada a uma coisa só. Como que você vai contar a história de baile funk sem falar do funk americano ou Miami bass, por exemplo? A música pode ser uma coisa que junta as pessoas.

Essa diversidade o levou a tocar em alguns dos festivais e lançar músicas por alguns dos selos mais bacanas do mundo. Rótulos prontos para o seu som não faltam: transnational bass, bass globalizado, tropical bass, global ghettotech… Nenhum deles consegue de fato definir a mistura de coco, maculelê, samba, jongo e capoeira filtrados pelo ragga, dub, hip hop, kuduro, grime e dubstep. Maga Bo só não acredita em divisões de sonoridades baseadas em condições sociais.

- São músicas feito com computador por pessoas. É a manifestação de músicas folclóricas num ambiente moderno. É um novo tipo de música folclorica. Não falo que toco “música do gueto”, acho separatista e colonialista definir música assim. Não é uma critério que signifique muito pra mim. Quer dizer algo como “música do outro”. A Lia de Itamaracá falava “essa música não é minha, essa música é nossa”. Acredito na mesma coisa, o trabalho desse disco pode ser meu, mas esse som não é meu, é nosso.

Com tentáculos esplhados por todo planeta, difícil mesmo é a correria pra viver da própria música, dando voltas ao mundo pra tocar. A volta pra casa é o que motiva as andanças.

- É um desafio! Tenho vivido só de música nesses últimos anos, o que significa que passo uma grande parte do meu tempo fora de casa, em turnê pra pagar as contas. Mas também faço outros trabalhos, sou técnico de som direto, tenho feito muitos documentários em lugares interessantes, muitas vezes aproveitando pra dar uma esticada sozinho pra fazer música. Hoje em dia a prioridade é a música. Faço uma turnê na Europa em julho, EUA em agosto, India em outubro, Europa d de novo em novembro, sempre voltando pra casa no meio tempo. No arpoador.

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Transcultura 80: O fator diversão // Phoenix

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O fator diversão
É pra ouvir música ou pra zoar?
por Bruno Natal

Não é incomum no Rio shows e festas muito bons terem um público aquém do que a atração merece. Qualidade musical e sucesso comercial não andam sempre juntos. Não é um problema exclusivo dessa cidade, acontece também em São Paulo e em festivais badalados pelo mundo, como por exemplo, o Coachella.

Nas seis edições do festival que fui, sempre encontro um grande amigo que mora em Los Angeles e não perde um. Suas motivações são bem diferentes das minhas. Enquanto vou atrás de bandas que dificilmente vão tocar por aqui e conhecer outras tantas, passando o dia inteiro debaixo do sol vendo shows, ele, bem menos ligado em música independente, vai pra encontrar os amigos na área VIP (que é paga) e assistir a atração principal, como Coldplay, The Killers, Red Hot Chilli Peppers ou Dr. Dre.

Não é só ele. O grosso do público do festival não está atrás de música, está atrás de diversão, seja na área VIP, no show principal ou na tenda Sahara, onde tocam alguns dos DJs mais populares(cos) do planeta e é o epicentro da parte noturna do evento. Somente na última edição consegui tirá-lo da zona de conforto e levá-lo para ver os shows. O resultado? Nas palavras dele: “not fun”, não foi divertido.

Para meu amigo, o mais legal foi a oportunidade de passar o dia colocando o papo em dia, não as atrações. “Not fun”… Fez pensar. Algumas das bandas mais bacanas da atualidade, uma penca de gente que adoraria estar assistindo aquilo tudo e ele achando um tanto sacal. Por que?

Pra começar, vejamos as definições de duas palavras relevantes a discussão, frequentemente tidas como sinônimos, só pra ilustrar.

“Fun”segundo o Dictionary.com:

fun (fn)
n.
1. A source of enjoyment, amusement, or pleasure. [Fonte de satisfação, diversão ou prazer]
2. Enjoyment; amusement. [Deleite; divertimento/distração]
3. Playful, often noisy, activity. [Atividade brincalhona, normalmente barulhenta]

“Diversão”, definido no Aurélio:

diversão (sf.)
Entretenimento, distração.

Perceba uma diferença, sútil, porém importante entre as definições das palavras em inglês e português: enquanto em português fala-se em “distração”, em inglês aponta-se para uma “atividade brincalhona, normalmente barulhenta”. Se esse é o sentido de “fun” que meu amigo buscava, está bem além de uma “distração”, está mais próximo de outro termo, bastante utilizado no Brasil.

“Zoar”, de acordo com Dicionário Informal:

1. zoar
bagunçar, se divertir [sic], brincar, debochar, atrapalhar, tirar, tinir, trincar, zunir

Zoar, eis a chave do sucesso. Muita gente sai de casa e não está afim de pensar ainda mais, quer simplesmente… zoar. O Funny or Die listou os sete tipos de frequentadores do Coachella e, mesmo de brincadeira, dá uma dimensão dessa ideia: um sétimo dos frequentadores está lá para ouvir música, o resto vai atrás de farra.

Grande parte das bandas mais interessantes musicalmente não tem mesmo o fator “fun”, ao menos não nesses termos, em sua essência. Por esse ponto de vista, meu amigo está certíssimo. Radiohead, com todo seu aparato visual, não é “fun”, Bon Iver também não. Swedish House Mafia, David Guetta e M83 são.

Vivemos a era da hiper-estimulação: diversas abas abertas; vídeos e músicas tocando ao mesmo tempo; mashups; “Os Vingadores” (já tido como um dos melhores registros cinematrográficos de super-heróis da história) misturando diversos personagens numa mesma história; Skrillex, um dos principais nomes da ascendente música eletrônica atual, embola e entrega diversos aspectos de outros gênerosao vivo ou numa só faixa (que de tão frenéticas, estouram “pra trás”, desacelerando o BPM e diminuindo a quantidade de elementos, como que para descansar o ouvinte – chapar é o novo êxtase).

Nesse contexto, não é de se surpreender que a sutileza vá perdendo espaço. As coisas mudam – ou sempre foi assim. Imaginar que um evento de música vá se sustentar simplesmente com introspecção e cabecismos é ingenuidade. O que leva qualquer festival pra frente é o “fun”. As pessoas querem zoar e não há nada de errado com isso.

Tchequirau

A página do Phoenix exibe apenas uma arte, com uma palavra: Thermidor (11° no calendário da Revolução Francesa). Antes do lançamento do “Wolfgang Amadeus Phoenix” foi a mesma coisa, o nome do disco ficou na página por um bom tempo. O blogue da banda diz que estão gravando o sucessor em Nova York. Dever vir novidade por aí logo, logo.

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Transcultura #079: Apartamento 302 // Bill Plympton

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Visitas íntimas
O fotógrafo Jorge Bispo leva para web mulheres clicadas em seu apartamento

por Bruno Natal

De acordo com o ideário do cinema, da literatura e das revistas (as pornôs, principalmente), o fotógrafo tem a vida que muito marmanjo pediu a Deus: passa os dias em lugares paradisíacos, cercado de belas mulheres e assistentes, dispostos a atender a seus pedidos e fazer seus caprichos. Se é assim na rua, imagina em casa.

Na cabeça de muitos, o que a casa do fotógrafo não tem em termos de estrutura para o trabalho, tem em intimidade, aconchego, proximidade. É o cenário perfeito para as fantasias mais mirabolantes.A realidade, é claro, não é assim. E essa ideia está tão perto da verdade quanto alguém postando no Instagram está de ser um fotógrafo profissional — não é impossível, só é pouco provável.

Pois existe um certo apartamento 302, em algum lugar do Rio, em que algo próximo disso acontece. Nem precisa saber em que bairro fica. Qualquer um pode visitar o apartamento302.tumblr.com, mantido pelo fotógrafo Jorge Bispo, e ver algumas de suas visitas bem, hmmm, à vontade. O projeto deve virar livro e exposição.

— Isso surgiu um pouco de receber amigos artistas e sempre fazer um clique. Fiz três capas de disco na minha casa, por exemplo. E isso misturado à fantasia do fotógrafo, que recebe mulheres em sua casa ou no estúdio, deu nesse trabalho — ele explica. — O Tumblr foi a ferramenta mais adequada pra fazer uma espécie de “trabalho em progresso”, para as pessoas poderem ir acompanhando as mulheres que vêm me visitar.

O espírito é de “passa lá em casa”, mas as sessões são quase sempre agendadas, mesmo que de um dia para o outro. Os curiosos é que aparecem sem avisar no Tumblr pra ver as anônimas que posam para Bispo.

— Fotografei algumas atrizes aqui em casa que são conhecidas, mas sempre tive dúvidas sobre isso. Esse é um trabalho com anônimas. Só coloco o primeiro nome da mulher por isso. Quero fazer um livro de formato pequeno, simples, e uma exposição com fotos e vídeos. Mas, para mim, o trabalho é esse processo, o durante, com o público acompanhando. Vou postando as meninas na ordem em que elas comparecem ao apartamento.

Como é de se imaginar, aumentou o número de amigos querendo dar uma passada na casa do fotógrafo. Além de catálogos de moda, capas de disco e clipes, Bispo já fotografou capas de revistas como “Playboy”, “Trip” e “Sexy”. O nu feminino não é novidade.

— Todo fotógrafo, em algum momento, clica nus. Seja namorada ou amiga. Tenho também uma relação profissional com o nu, mas o projeto do apartamento 302 é diferente. É um híbrido entre retrato e fotografia de nu.

Recentemente, houve uma polêmica com o controverso fotógrafo Terry Richardson, conhecido pelas fotos publicitárias e trabalhos pessoais soft porn. Uma das modelos retratadas escreveu um artigo dizendo ter se sentido coagida por Terry, que abusaria do seu poder e prestígio para conseguir o que quer de modelos iniciantes.

— Meu limite quem determina é a modelo. Sugiro, peço, negocio, mas é ela que bate o martelo. Bom senso e bom gosto deveriam ditar isso — diz Bispo.

Atualmente Bispo está preparando um livro de retratos de personagens da cena cultural, a ser lançado pela editora Ouro em Azul. São fotos feitas nos últimos 14 anos durante intervalos de trabalhos, sobras de estúdio e sessões especiais para o livro — várias delas inéditas, de David Lynch a Michel Gondry, de Chico Buarque a Criolo, de David Byrne a Milton Nascimento. A experiência de autopublicação numa plataforma digital, no entanto, tem sido proveitosa.

— É bastante diferente. Tem mais retorno e me sinto parceiro do público, pressionado pela expectativa deles. Perde a distância que deixa você um pouco inatingível. Sinto que posso ser influenciado pelo espectador, que deixa de ser espectador e vira agente ativo do trabalho. Eu me sinto um pouco Lygia Clark, que nos anos 1970 trocou artista por propositora como nome de sua função.

Tchequirau

Bill Plympton, responsável por alguns dos desenhos animados mais psicodélicos da história, fez sua versão para abertura do Simpsons, uma viagem sobre a reprimida relação de amor entre Hommer e seu sofá.

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Transcultura #078: De volta pro futuro no Coachella 2012 // Caine’s Arcade

Meu texto da semana passada para coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Futurologia no Coachella
Festival reapresentaou atrações em seu segundo final de semana
por Bruno Natal

Nessa sexta começa o segundo final de semana do festival Coachella, na California. Tudo igualzinho a semana passada: as mesmas atrações, tocando nos mesmo horários, com a diferença de que o efeito surpresa se perdeu. O clima “De volta para o futuro” vem desde semana passada, seja através do retorno de bandas como At The Drive In e Mazzy Star, seja através da ressurreição do rapper Tupac Shakur emformato holográfico. Com isso, o exercício de futurologia que seria tentar prever os caminhos de um festival com quase 150 atrações, torna-se quase certeiro.

Neon Indian exagerará no lo-fi e mostrará um som mais gasto do que estiloso; o GIRLS manterá a fama de ruim de palco mesmo com o discão “Father, Son, Holy Spirit” como base; o Arctic Monkeys vai mais uma vez provar que não é mais um grupo de moleques; Frank Ocean vai arrastar uma multidão para a menor tenda do festival e contará com o apoio do Bad Bad Not Good e participação do Tyler The Creator; a Mazzy Star fará um showzão, mesmo enfadada; o Atari Teenage Riot sangrará ouvidos e o M83 se mostrará mais pop do que se pensava.

A Azealia Banks não fará uso de nem metade do tempo de palco que tem direito; o tUnE-yArDs não segurará a onda num palco maior; o Andrew Bird vai mostrar um folk sem muitas inovações além do seu violino; Noel Galagher apelará para uma música do Oasis pra conquistar o público; o The Shins vai fazer um show de dar sono ao mesmo tempo que a Feist, com 18 músicos no palco, fará uma das melhores apresentações do festival; o Flying Lotus tirará onda acompanhado de baixo e bateria; o SBTRKT sentirá a necessidade de provar que não é assim tão radiofônico e carregará a mão das versões das próprias músicas; o ASAP Rocky fará uma zorra no palco com mais de 10 amigos e o Radiohead atrasará um pouco pra mostrar que simplesmente re-arranjou as luzes do palco da turnê do “In Rainbows” para essa do “King of Limbs”.

O Metronomy fará do gramado uma pista de dança sob um sol de rachar; Seun Kuti encantará os gringos com a banda do pai; o Real Estate fará um show certinho, embora mais para os fãs; Beats Antique orientalizará o hip hop e o araabMUZIK mostrará com quantas MPCs se faz um performance; o Thundercat vai se embrenhar por uma masturbação jazzística; o The Weeknd vai cometer um assassinato em massa das canções da sua ótima mixtape; Justice e Girl Talk mostrarão mais do mesmo, sem que isso seja algo ruim, e espremerão o Beirut contra o Calvin Harris, tornando impossível ouvir qualquer coisa; o At The Drive In ensurdecerá quem tiver fugido do açucar da Florence & The Machine, enquanto DJ Shadow e Modeselektor sofrerão para competir com Dr. Dre & Snoop Dogg.  E no encerramento, quando Makaveli surgir digitalmente diante dos olhos incrédulos do público, o mesmo sentimento fantasmagórico tomará conta da platéia, mais assustada do que empolgada com o artíficio.

A única coisa que não deve se repetir é o tempo, com a inédita chuva no deserto dando lugar a tradicional solaca, queimando os corpos, enquanto a música frita o coco. Ao ponto, por favor.

Tchequirau

Apaixonado por fliperamas, Caine construiu versões elaboradas dos jogos utilizando pedaços de papelão, na garagem da loja do pai, em Los Angeles. O documentário “Caine’s Arcade” conta essa história e reserva uma grande surpresa no final.

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Transcultura #077: Guia Coachella 2012 // Figure

Meu texto de hoje da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A farra do deserto
Dez atrações menos disputadas que podem surpreender no Coachella

por Bruno Natal

Esse ano o Coachella vem em dose dupla: os três dias de shows que acontecem de hoje a domingo, se repetem no final de semana seguinte, de 20 a 22 de abril, dando chance de se assistir quase tudo do festival. Com a pressão de lotar duas vezes o campo de polo no deserto, esse ano a escalação tendeu mais para o pop. Além das atrações principais Black Keys (surpreendente escolha), Radiohead e Snoop Dogg & Dr. Dre, das voltas do At The Drive In e Mazzy Star e shows do The Rapture, Miike Snow, Justice, Feist, Explosions in the Sky, Flying Lotus e até Jimmy Cliff, quem se organizar direito poderá também conferir algumas atrações menos disputadas – e de onde, muitas vezes, vem os melhores momentos.

Real Estate – Formada em Nova Jersey e com um som ancorado no baixo marcado pela guitarra melódica de Matthew Mondanile (Ducktails), o Real Estate está, com seu segundo disco, “Days”, começando a experimentar algum sucesso. É um guitar pop que induz ao transe. Os melhores momentos são os intrumentais, algo que deve crescer ao vivo.

Ouça: “Out Of Tune”

SBTRKT – O produtor mascarado fez o que muita gente tentou e não conseguiu: pegou elementos do dubstep, rearranjou e construiu uma versão pop radiofônica do gênero (adicionando r&b, Miami bass, drum n bass), sem que isso signifique farofada. Repetir ao vivo produção caprichada, sem os cantores convidados é o grande desafio. Pelo que se fala até aqui, no entanto, segura ao vivo.

Ouça: “Something Goes Right”

Frank Ocean – De volta com toda força, o r&b tem sido umas das influência mais recorrentes na produção eletrônica contemporânea. Parte do polêmico coletivo de hip hop Odd Future, Frank Ocean simplificou e faz o “básico”, r&b tradicional sobre bases modernas. Sua mixtape “Nostalgia, Ultra” chamou atenção da crítica e do público, que aguarda o lançamento seu disco de estreia ainda esse ano.

Ouça: “Thinking About You”

The Weeknd – O canadense Abel Tesfaye botou seu nome no mapa há um ano, quando o disco “House of Ballons”, do seu projeto The Weeknd, caiu no gosto dos blogues e se espalou pela rede. Ao longo de 2011 vieram mais dois, “Thursday” e “Echoes of Silence”, firmando o nome do produtor como uma das novas caras, adivinha, do r&b contemporâneo, ainda que seja uma versão mais sombria e eletrônica do gênero.

Ouça: “The Party & The Afterparty”

A$AP Rocky – Rapper de Nova York em ascensão, sua mixtape cantando sobre maconha e o dia-a-dia no Harlem sobre bases chapadsa, rapidamente despertou o interesse de uma grande gravadora que, dizem, firmou um contrato milionário para garantir o lançamento do seu primeiro disco. Uma discussão online com integrantes do Odd Future, com quem é bastante comparado, e a pancadaria com o público durante seu show do SXSW só fizeram aumentar sua fama.

Ouça: “Purple Swag”

GIRLS – De um primeiro disco que voava a meia altura para vencer o desafio do segundo disco com sobras, o Girls deu uma das maiores reviravoltas da cena independente recente. Mesmo que o primeiro disco não fosse ruim, certamente não indicava o colosso que viria em seguida. Respaldado pelas críticas positivas e sucesso das músicas de “Father, Son, Holy Ghost”, Christopher Owens e Chet White retornam ao festival em condições bem diferentes: passando de mais uma novidade da vez, para uma banda que muita gente quer ver.

Ouça: “Vomit”

Lissie – Com um EP produzido por Bill Reynolds (Band of Horses), o hit “Whem I’m Alone” no primeiro disco e o sucesso de versões de “Bad Romance” (Lady Gaga) e “Go On Your Way” (Fleetwood Mac) logo na sequência, Lissie se firmou como um dos principais nomes femininos no cenário folk – ou pop folk.

Ouça: “When I’m Alone”

M83 – O descendente de franceses e espanhóis Anthony Gonzales faz shoegaze tirando a ênfase das guitarras e colocando nas camadas de sintetizadores e efeitos. A banda não é nova, o disco duplo “Hurry Up, We’re Dreaming”, que trouxe notoriedade e prêmios para o M83 é o sexto da carreira. A música “Midnight City” pode ser considerada com responsável pela virada na sorte da banda.

Ouça: “Midnight City”

Neon Indian – Assim como o parceiro Com Truise, o som do mexicano radicado nos EUA Alan Polomo pode ser enquadrado no synthpop e no chillwave, fortemente influenciado pelos anos 80 embora suas músicas soem sujas demais para o primeiro caso e barulhentas demais para o segundo. Ainda assim, seu disco “Era Extraña” traz ao menos uma música com potencial de hit, “Polish Girl”.

Ouça: “Polish Girl”

Andrew Bird – Seja com o folk, indie, rock ou misturando todos esses, Andrew Bird tem nas letras seu forte. Seu sexto disco, “Break It Yourself”, saiu esse ano e o show de Andrew pode propiciar a trilha pra um belo pôr-do-sol.

Ouça: “Lazy Projector”

Tchequirau

Desenvolvida pela Propellerhead, responsáveis pelo programa de edição de música Reason, o aplicativo Figure transforma programar uma música eletrônica num jogo, possibilitando, para o bem e para o mal, qualquer um criar uma base eletrônica .

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Transcultura #076: Apps de imagem // Leo Uzai

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Em fones e redes sociais, a imagem além do Instagram
por Bruno Natal

Passando dos 27 milhões de usuários somente no iPhone, com um ano e meio de vida o Instagram continua sua trajetória ascendente. Na semana que o aplicativo finalmente chegou a plataforma Android, prometendo ampliar – e muito – sua base de usuários, é uma boa hora para falar de alguns aplicativos de fotografia e imagem que andam enfeitando os celulares e as redes sociais.

Decim8 – “O filme está morto”, assim o Decim8 se apresenta. Dizendo-se na contra-mão das dezenas de aplicativos emulando estéticas fotográficas do passado, a onda desse são os efeitos digitais.

Highlight – Não tem nada a ver com foto, mas vai deixar muita gente preferindo ser flagrado num clique a usar esse aplicativo. Apontado no último festival SXSW como o próximo destaque das redes sociais, o Highlight torna realidade um dos piores pesadelos dos críticos ao excesso de exposição no mundo digital: com o programa ligado, através de geolocalização, ele te informa os amigos que estão por perto e até interesses em comum com estranhos ao redor.

Picle – Uma ideia muito boba as vezes pode tornar-se uma grande sacada e esse é o caso do Picle. Além de tirar fotos e organizar em álbums por assunto, programa grava alguns segundos de áudio, adicionando uma outra dimensão aos registros do dia-a-dia

Postagram – Fotos digitais são muito divertidas, porém não dá pra comparar receber um email com uma imagem com a sensação de cartão postal enviado pelo correio. Juntando os dois mundos, por 1 dólar o Postagram envia uma versão impressa da foto que você escolher para um endereço físico.

Draw Something – Com mais de 35 milhoes de usuários, é atualmente o aplicativo mais baixado na App Store. Trata-se de um jogo: você desenha algo, compartilha com seus amigos e eles tem que adivinhar do que se trata. Bobo que só, mas pegou.

Ugly Meter – We você se acha “feipa”, esse aplicativo é para você. Através de uma análise detalhada dos seus dados biométricos (ahã…), chega-se a um resultado de feiura, num índice de 0 a 10, em que quanto mais alta for a nota, mais feia é a pessoa. Uma arma pra pilhar amigos.

PicFrame – Publicar fotos em tantos aplicativos envolve escolhas. Você não pode sair compartilhando todas os registros, sob o risco de perder seguidores pela malice, no entanto, as vezes, uma história precisa de mais de uma imagem para ser contada. É onde entra o PicFrame, aplicativo que permite montar mosaicos de até seis fotos, resolvendo a questão. Seus amigos agradecerão.

Action Movie FX – Desenvolvido pela Bad Robot Interactive, do J.J. Abrams (criador da série “Lost”), o aplicativo ficou ainda mais famosos após o filho do diretor do documentário da polêmica campanha “Kony 2012″ aparecer no filme brincando com os efeitos especiais da ferramenta, onde você filma uma cena e pode aplicar efeitos de explosão sobre a imagem. Besteirada sem fim.

Cinemagr.am e Kinotopic – Apesar do Facebook continuar não autorizando suas publicações, GIFs animados são um dos grandes sucessos da rede. De olho nesse filão, esses dois aplicativos (já comentados aqui na Transcultura) permitem criar animações em cima de imagens captadas com o celular .Dá um certo trabalho para montar os loops, selecionando áreas que permanecerão estáticas e áreas animadas, só que quando dá o certo o resultado é viciante.

Tchequirau

Radicado em São Paulo e longe dos muros cariocas, Leonardo Uzai começou a dialogar com si mesmo pela tela do computador. O resultado ele vem publicando na série “Diálogos”, com retratos de situações explicadas em títulos como “discussões internas” e “convefsas paralelas”.

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Transcultura #075: Beach House // Rocket Juice & The Moon

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Melancolia na casa de praia
por Bruno Natal

Uma casa na praia num vibrante dia de verão não é exatamente a imagem que vem a cabeça ao escutar o dream pop do Beach House. Substitua um dia ensolarado por um final de tarde tendendo ao nublado na costa de Baltimore e o cenário começa a se aproximar mais da atmosfera melancólica proposta por Victoria Legrand e Alex Scally. O quarto disco, “Bloom”, com lançamento previsto para maio pela gravadora Sub Pop, é também o mais aguardado da dupla.

Isso porque “Teen Dream”, o disco anterior, foi um marco na carreira da dupla. Os teclado e vocal de Victoria, a guitarra de Alex e a programação de bateria eletrônica finalmente aproximou-se de um público maior, fazendo a carreira da banda crescer e levando-os a tocar em alguns dos principais festivais do mundo. Victoria ainda colaborou com Grizzly Bear (na trilha de “Crepúsculo”) e participou de uma faixa no mais recente disco do Air. Como numa boa estreia (ainda que fosse o terceiro disco), o sucessor certamente colocaria uma pressão na banda.

Como não podia deixar de ser, as músicas de “Bloom” já circulam pela rede antes da estreia oficial. Novamente produzido por Chris Coady (TV On The Radio, Yeah Yeah Yeahs), “Bloom” mostra que o Beach House conseguiu, ao menos, manter o mesmo nível do anterior, ainda que tenha cedido um pouco no lado sonhador e feito mais concessões pop

O som continua atmosférico, com texturas etéreas e psicodélicas servindo de base para o doce vocal de Victoria e o fraseado da guitarra de Alex. Está menos enfumaçado e, até onde o Beach House se permite – e mais pra cima. Ou talvez seja tudo questão do ambiente. Se já é primavera no hemisfério norte quando “Bloom” começa a dar suas primeiras voltas, é outono daqui que melhor se encaixa nessa casa de praia.

Tchequirau

E lá vem mais um projeto do Damon Albarn, do Blur, dessa vez com Flea (Red Hot Chilli Peppers) e Tony Allen (lendário baterista do Fela Kuti, a caminho do Brasil), com participações do Hypnotic Brass Ensemble e Erykah Badu: Rocket Juice & The Moon  (página criada por fãs). Pode ir sem susto que é quente.

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Transcultura #074: Grimes // Nossa alegria

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O pop nublado do Grimes
por Bruno Natal

Em fevereiro passado, uma das músicas do Grimes, “Vanessa”, foi um assunto bastante comentado na grande mídia dos EUA. O que poderia ser um fato desejável para uma artista em início de carreira, aconteceu de uma maneira torta. A menção a música na imprensa tinha um motivo sinistro: o clipe foi uma das últimas coisas publicadas no perfil do Facebook do adolescente de 16 anos que abriu fogo nos colegas de escola em Ohio, matando três deles e ferindo gravemente outros dois.

Definitivamente, não era o tipo de atenção que a canadense Claire Boucher, 24, esperava logo após lançar o seu terceiro disco, “Visions”, o primeiro por um selo relevante, o 4AD (casa do Bon Iver, Atlas Sound, Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Tune-Yards e outros). Por sorte, apesar do som sombrio, as ligação não durou muito (vai ver porque muitas reportagens inverteram a ordem, referindo-se a música “Grimes”, da Vanessa).

Conterrânea do rapper Drake e do r&b do novo milênio do The Weeknd, o som do Grimes é repleto de referências bem embaralhadas; ao mesmo tempo identificáveis e diluídas. A atmosfera robótica do som sublinha a ligação com a ficção científica, desde o primeiro disco, “Geide Primes”, cujo títulos das músicas foram inspirados no clássico literário sci-fi “Duna”, de Frank Herbert. Apesar da relação estreita com a rede, no segundo disco, Halfaxa”, traz músicas com nomes gráficos difíceis de procurar no Google, como “∆∆∆∆Rasik∆∆∆∆”, “≈Ω≈Ω≈Ω≈Ω≈Ω≈Ω≈Ω≈Ω≈” ou “World ♡ Princess”.

As camadas de vozes sobrepostas com efeitos, as batidas ásperas lo-fi, sintetizadores oitentistas, desenham uma artista que está mais próxima da Suécia, via Lykke Li, Fever Ray, Little Dragon e Robyn, do que dos EUA de Zola Jesus e Nite Jewel ou a Inglaterra da La Roux, terras geralmente mais férteis para o synthpop. A página do Grimes no site da gravadora vai longe e lista “Enya, TLC e Aphex Twin, enquanto pega emprestado de gêneros como New Jack Swing, IDM, New Age, K-pop, Industrial e glitch”.

Some a isso a nostalgia embaçada do chillwave e witch house. Um som frio e introspectivo que ainda assim faz bater o pé. Não é exatamente surpreendente e inovador, só que tem onda. E isso as vezes é o bastante.

Tchequirau

Esses dias o vídeo da semana, quiça do ano, foi um daqueles que despretensiosos, que a primeira vista não parecem nada demais, até que conquista nossa mente, nosso coração, a noooossa alegriiiia.

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Transcultura #073: Lone. // Bicicletas

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo. O Lone vinha tocar no Rio, mas acabou cancelando a turnê brasileira toda por motivo de doença. Uma pena. Fica o texto.

As conexões de Lone
Diversas variações da eletrônica se unem no som do emergente DJ britânico

por Bruno Natal

As referências utilizadas para descrever a sonoridade de Lone — um dos expoentes da cena house e garage britânica, integrante do selo R&S (o mesmo de James Blake) — vão de Flying Lotus e Joy Orbison a Boards of Canada, 808 State e J Dilla. Uma percepção comum do resultado dessa mistura é que o som produzido por Matt Cutler — nome de batismo de Lone, consegue fazer a ponte entre dois universos às vezes distantes na música eletrônica: a pista de dança e os fones de ouvido no sofá. Conheça o som do DJ britânico.

— No meu tempo livre prefiro ouvir música mais calmas, pois passo muito tempo em clubes e é o do que menos quero me lembrar quando estou em casa — explica Lone, por e-mail. — Sou influenciado por tudo, para ser sincero, embora hoje em dia esteja sendo mais influenciado pela minha própria música. Cada faixa que produzo desencadeia uma próxima ideia, então tenho me fechado para todas as outras músicas quando estou trabalhando nas minhas próprias coisas.

O traço comum das ecléticas produções de Lone são as percussões e batidas, sobrepondo-se ao uso de sintetizadores (e, mesmo eles, são picotados e surgem percussivos), podendo ir do chillwave de “Birds don’t fly this high” ao house de “Dolphin”, utilizando o lo-fi, com seus ruídos, ambientes e filtros como elemento de criação.

— Nunca ouvi chillwave. Quanto ao lo-fi, desde que as ideias por trás da música sejam boas, não importa se a gravação é perfeita e brilhante ou tosca e lo-fi. O que me move são as ideias e emoções — diz ele.

Parte da atual cena urbana inglesa, em que o dubstep tomou diferentes caminhos, apontando novas direções, Lone está animado com o momento musical de lá.

— É empolgante, porque tem muita coisa acontecendo. Nunca fui muito fã de dubstep, mas gosto do caminho que ele vem tomando — afirma Lone. — Não vejo muito sentido em cenas que limitam o artista com um monte de regras. É sempre mais interessante quando as pessoas começam a incorporar qualquer tipo de som que queiram.

Apesar de apontar para a frente, Lone também olha bastante para trás no seu trabalho. Recentemente, o escritor Simon Reynolds apontou em seu mais recente livro, “Retromania”, uma compulsão por citar o passado nas produções contemporâneas, algo bastante presente na música de Lone, com ecos de acid house e hip-hop.

— Muitos produtores que eram bem novos para ter experimentado essas músicas quando elas estavam sendo produzidas estão descobrindo discos de house e techno dessa era — conta ele. — É completamente natural reverenciar o passado, e é uma boa maneira de descobrir novos caminhos para sua própria música.

Tchequirau

Indignada com a publicidade que considera ostensiva nas bicicletas compartilhadas do Rio, a usuária Mirna Ferraz organizou um protesto pacífico: um bicicletaço, domingo passado, a bordo das laranjinhas, com o logo do patrocinador coberto por desenhos de coração.

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Transcultura #072: Brother Culture // Mahmundi

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

MC Brother Culture faz miniturnê pelo Brasil
por Bruno Natal

Durante o carnaval houve o Festival Rio Sound System, reunindo, na Pedra do Leme, Interferência SS (Rio), Yellow P (SP), Wladimir Gasper (o brasileiro Pedro Bernardes) e Maga Bo (EUA), sedimentando a cultura sound system no Rio. É prova de que as equipes de som de reggae vêm conquistando espaço e conseguindo até mesmo ampliar a abrangência das atrações envolvidas, apresentando músicos mais influenciados pelos sons da Jamaica do que propriamente produzindo reggae (caso de Maga Bo e Wladimir).

Sound system de reggae pioneiro no Rio, além das próprias festas, o Digitaldubs é um dos principais nomes por trás desse levante, sempre trazendo ícones do reggae para tocar no Brasil e ajudando a divulgar a cultura por aqui. Foi assim com Mad Professor, Zion Train, Twilight Dub Circus, Ranking Joe, Earl Sixteen… A lista é grande e de respeito, o suficiente pra saber que normalmente é coisa muito boa. Semana que vem, por exemplo, o coletivo traz o MC Brother Culture para uma miniturnê pelo Brasil, passando por Rio (dia 10), São Paulo, Salvador e Macaé.

Na ativa desde 1982, Brother Culture fez seu nome no Jah Revelation Muzic, sound system oficial das 12 Tribos de Israel (uma vertente do rastafarianismo) em Londres, tendo feito turnês por mais de 50 países e dividido o microfone com seu ídolo, Brigadier Jerry. Sua voz pode ser ouvida em produções de Adrian Sherwood, Mungo’s Hi Fi, Manasseh e também participando ao vivo no Trojan SS e Roots Garden SS.
Fora do universo reggae (mas nem tanto assim), participou com “Thunder” do mais recente disco do Prodigy, “Invaders must die”. Brother Culture é só sorrisos quando o assunto é Brasil. Além do trabalho com o Digitaldubs, já gravou o disco “Chillin in Brasil”, em São Paulo, com produção do Dubversão Sistema de Som.

Tchequirau

Técnica de áudio do Circo Voador, Marcela Vale foi atrás de influências oitentistas (Sempre Livre, Metro, Rádio Táxi, Marina) e se lançou como Mahmundi. Por enquanto há apenas uma música, “Desaguar”, produzida por ela própria em parceria com Lucio Souza, o SILVA.

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Transcultura #071: Mickey Moonlight // “Garoto Nacional”

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A volta da maciota: gravadora Ed Bangers suaviza estilo
por Bruno Natal

Dono da francesa Ed Banger Records, Pedro Winter ainda era mais conhecido no meio musical como empresário do Daft Punk quando sua gravadora tornou-se referência após a explosão mundial do maximalismo do Justice, apoiado pelos visuais do So-Me. A dupla de robôs ficou para trás e logo outros nomes do selo (Mr. Oizo, SebastiAn, Uffie) começaram a ganhar destaque. Sem atingir o mesmo êxito comercial da cruz espacial, a Ed Banger se viu refém do próprio estilo que impôs ao universo da eletrônica. O segundo disco do Justice até tentou ser diferente, trocando o metal pelo hard rock, porém, ainda assim, sem se distanciar tanto do que já vinham fazendo. Era hora de mudanças.

Aos poucos o perfil está se suavizando, o som do Breakbot é um bom exemplo disso. Para surpresa de muitos, até o produtor de techo/deep house Laurent Garnier, um dos críticos mais ferrenhos da Ed Banger no auge do maximalismo, lançará um EP pela gravadora. Essa nova fase está sedimentada com o disco do Mickey Moonlight, lançado no final de 2011, sem muito alarde.

Em “The Time Axis Manipulation Corporation” o produtor inglês Mike Brit fez um disco conceitual, sem estar preso a estilos (tem house, disco, baladinhas). Com BPMs preguiçosos, o que mais interessa são as texturas e ambiências. Entre caixas filtradas, influência dos anos 90, do chillwave e vinhetas sobre viagens interplanetárias, são as timbragens contemporâneas que ajudam a atualizar o som.

Música mais voltada para pista, “Close To Everything” tem participação de George Lewis Jr (Twin Shadow), a lentinha “We’ll Meet Again” conta com Maria Gasolina (ex-Bonde do Rolê) nos vocais e é irmã gêmea de “I’ve Been Thinking”, do Handsome Boy Modeling School (cantada pela Cat Power) e “Buckaroo Banzai” faz pensar em Kraftwerk. Uma das melhores músicas do disco, é impossível não pensar em Daft Punk ao escutar “Diamonds in the Mind of Talula”.

A citacão ao o Daft Punk não é totalmente aleatória. Thomas Bangalter e o Guy-Manuel de Homem-Christo andam se reunindo com Nile Rodgers, do clássico grupo de disco music Chic, para o que podem ser sessões do novo disco da dupla, sem lançar uma bolacha de inéditas desde 2005. Quando o disco finalmente chegar, do jeito que vai, pode sublinhar e confirmar justamente Ed Banger está tentando apontar: a maciota está voltando.

Tchequirau

Primeiro lançamento audio-visual do seu novo selo, o carioca Penetra Records, Strausz viu o clipe da sua “Garoto Nacional”, dirigido por Julio Secchin, ir parar no badalado site BoingBoing e causar polêmica entre os puristas do anime no Japão. E a música ainda é boa.

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Transcultura #070: Bass // Sun Araw

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A coisa tá grave, viva o grave!
por Bruno Natal

A explosão comercial do dubstep foi um dos fatos mais inesperados da história da música eletrônica. Poucos previram que os graves cavernosos e a atmosfera sombria das batidas quebradas de bpm lento, tocado em festas soturnas no sul e leste de Londres, poderiam chegar ao grande público.

Vampirando o estilo com seu pastiche, ressaltando o que há de pior (como as torrentes de wooble bass, um grave modulado, distorcido e oscilante), Skrillex atingiu o status de super DJ, saiu na capa da Billboard e passou a régua no dubstep. Skrillex, no entanto, apenas cristaliza o fim de um processo longo de pasteurização do gênero, uma metamorfose que se deu aos poucos, com elemento do dubstep sendo emprestados e misturado a outras correntes musicais.

O fato da produção de seus elementos “essenciais” serem ensinados em tutoriais no YouTube era um indicativo de que havia virado uma fórmula, o que é o fim para relevância de qualquer gênero. Era preciso fazer uma curva. O que poderia ser uma má notícia se gerando algo positivo, incentivando mudanças de direção por produtores mais preocupados com os sons que saem das caixas do que o tilintar das caixas registradoras.

Desde os idos de 2007 produtores fiéis aos conceitos independentes do dubstep, como Burial e Kode 9 (dono do essencial selo Hyperdub), buscaram fugir da mesmice para qual tudo sem encaminhou, inaugurando o que que ficou conhecido como pós-dubstep, re-aproximando o estilo do clima experimental de onde surgiu. Essa fase 2 criou o ambiente para nomes como James Blake ou sua versão mais radifônica, Jamie Woon, despontarem, trazendo outros elementos para equação, notoriamente o R&B, outro gênero que sofreu com a comercialização, esse nos anos 90.

O principal legado do dubstep e, principalmente, sua viabilidade comercial, foi bem além dos novos gêneros que surgiram a partir dessa problemática (UK Funky, o próprio pós-dubstep): sua ascensão deu coragem para produtores colocarem o grave novamente no centro das atenções. No atual estado de DavidGuetização da música eletrônica, com sirenes por toda parte e o agudo tomando conta até onde menos se espera (o show de horrores proporcionado pelo Major Lazer é um exemplo), isso por si só é um alento. Mais grave é sempre um alegria, mesmo em música ruim. O grave é o alho sônico, deixa qualquer coisa melhor.

Conversando com o pesquisador Chico Dub, curador do festival Novas Frequências, ele observou: o grave se tornou o denominador comum da música urbana contemporânea. Seja em artistas tendendo ao r&b (The Weeknd), hip hop (A$AP Rocky), ao house (Lone), techno (Martyn), breakbeat (Mosca), drum n bass (Joy Orbison), 2-Step e Garage (Redinho, Julio Bashmore) ou até mesmo a um pós-pós-dubstep de olho no grande público (SBTRKT).

A impossibilidade de rotular cada um dessas misturas (uma prateleira para cada artista iria ficar complicado…) fez surgir mais um gênero, a bass music, um guarda chuva pra lá de bobo, por ser demasiadamente abrangente. Atendendo essa demanda, dois selos despontam: o escocês Numbers (por onde até Kieran “Four Tet” Hebden e o Modeselektor andam ciscando), nascido a partir de uma festa, e o inglês Night Slugs.

A coisa tá grave. E isso é ótimo.

Tchequirau

Muito influenciado pelo dub, ano passado o Sun Araw (que recentemente esteve no Rio para participar do festival Novas Frequências) foi a Jamaica atrás do The Congos, do clássico “Heart of the Congos”, produzido por Lee Perry e tido em algumas listas como o melhor disco da história do reggae, para produzirem material juntos. Enquanto o disco não vem, tem um vídeo mostrando um pouco da viagem.

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Transcultura #068: Daniel Ferro // Frank Ocean

A íntegra do perfil do Daniel Ferro que escrevi para “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Olho na câmera e pé na estrada
por Bruno Natal

Seguir sua banda favorita em turnê é um dos maiores desejos de qualquer grande fã. Músico, Daniel Ferro inverteu os papéis, pegou uma câmera e transformou as viagens em trabalho e hoje já registrou os bastidores de algumas dos maiores nomes do rock brasileiro, grande parte dirigindo e filmando o programa Rock Estrada, exibido pelo canal Multishow.

- O mais legal é ver o quadro geral e entender o que é ter uma banda na estrada no Brasil. Essa semana o produtor de uma banda grande tuitou pra mim que “viver de música é legal, o melhor emprego do mundo, mas a correria e os percalços são iguais pra todos, legal você mostrar isso”. Fiquei contente de ler isso, afinal o assunto é universal, por mais diferente que sejam, todas bandas passam sempre pelos mesmos problemas com empresários, rádios, gravadoras, brigas entre integrantes… No final, sempre vale a pena – explica Daniel.

O começo – como todo bom começo – foi por acaso. Baterista do Emoponto entre 1998 e 2006, começou filmando a própria banda.

- Fizemos uma turnê de 100 shows pelo Brasil e comprei uma câmera pra registrar esse giro. Aprendi a editar e fiz um video-diário da turnê, que foi uma faixa interativa do disco. Quando a banda decidiu dar um tempo, decidi trabalhar definitivamente com direção e edição de vídeo, fazendo trabalhos para as bandas que tinha mais contato, como Fresno e NxZero.

Em 2009 Daniel teve a chance de filmar e dirigir o piloto do Rock Estrada e acabou se especializando no assunto por afinidade. Em três temporadas, já acompanhou mais de 30 bandas (Titãs, RPM, Pitty, Ratos de Porão, Raimundos, Autoramas, Strike), em mais de 98 cidades do Brasil e do exterior, além de DVDs de artistas tão diversos quanto Luan Santana, Jota Quest e Dead Fish.

- Tem uma frase bastante usada que diz “uma vez que você passa perrengue na estrada, vira brother pra sempre”. Pra ter essa abertura, é preciso que a banda confie em você e vice-versa. Por ter sido músico também e já ter passado por várias situações parecidas, talvez entenda também um pouco do que é estar na estrada e tentar viver de música nesse país. Pra viver assim tem que gostar mesmo do que faz, porque não é fácil. Você se alimenta mal, dorme pouco, não tem finais de semana e ganha pouco – analisa Daniel.

Mais do que a fama, carisma, sinceridade e espontaneidade são os principais critério de escolha de quem participa do programa. Afinal, não adianta nada filmar uma banda por horas se eles não tiverem o que mostrar. Nessas andanças, Daniel viu muita coisa e passou por situações inusitadas, como ter que andar curvado por dias no ônibus de turnê do Sepultura, cujo teto era bem baixo. O encontro com o ídolo Rodolfo Abrantes, ex-vocalista do Raimundos, hoje evangélico, foi marcante.

- Depois de passar três dias filmando o Rodolfo, me despedi e prometi que tentaria editar o programa sem distorcer a verdade e as palavras dele, afinal muita coisa que vi sobre ele na mídia parecia tendencioso. Ele agradeceu, me abraçou e ainda abraçado começou a orar por mim, pedindo que meus caminhos se iluminassem para essa “missão”. No meio disso me peguei pensando que ali, na minha frente, estava meu ídolo de adolescência, de quem tinha visto mais de 25 shows nos anos 90, passado perrengue, tomado porrada, cantado mil palavrões e me espelhado para ter uma banda também, estava ali, orando por mim. Passou muita coisa pela minha cabeça e vi que a vida é uma coisa muito doida. Mas pelo lado positivo.

Na lista de desejos de Daniel, ainda falta uma banda.

- Por ter estudado na faculdade com eles, ter acompanhado bem do início, ter visto, entre dezenas de outros, o primeiro show no Empório, no Rio, e conhecer bem a banda, gostaria muito de filmar o Los Hermanos Quem sabe?

Os barbudos estão de volta e muita gente gostaria de assistir um registro íntimista deles. No Twitter, tem muita gente pedindo pra conferir o rolé do Michel Teló pela Europa. Pode não ser rock, mas é estrada.

Tchequirau

A mixtape “Nostalgia, Ultra” do integrante R&B do Odd Future, Frank Ocean, continua rodando macia. As músicas são na verdade o disco que a gravadora botou na geladeira e “caiu” na rede.

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Transcultura #067: Novas Frequências // Grooveshark, Rdio

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Em outras frequências
por Bruno Natal

O festival Novas Frequências já acabou e continua ecoando por aqui. Com uma proposta bastante ousada, o evento reuniu alguns dos principais nomes da nova música eletrônica experimental em cinco noites: Com Truise, Sun Araw, Murcof, Andy Stott e os brasileiros Pazes e Psilosamples, uma escalação difícil de se ver até em festivais no exterior, como o próprio Com Truise comentou.

A entortada nos ouvidos foi tamanha que não tem como torcer para o repeteco ano que vem. E metendo o bedelho onde não foi chamado, ficam cinco dicas de nomes que fariam bonito no festival. Bom, isso hoje, né. Até lá aparece muito mais coisa.

Ducktails

Lançado pelo comentado selo Not Not Fun, Ducktails é o projeto solo do guitarrista do Real Estate, Matt Mondanile. Nele, se afasta um pouco do chillwave e envereda por canções assobiáveis, mantendo os aspectos que caracterizam o pop hipnagógico, como sons filtrados, gastos, sugerindo o passado não muito distante das fitas demo.

Peaking Lights

Também afiliado ao selo Not Not Fun, os californianos do Peaking Lights descrevem seu som como “dub pop psicodélico”. Então já sabe o que vem: graves pesados, efeitos e chapação filtrada pelo lo-fi. O disco “936″ tem pintado em listas de melhores do ano e a versão com remixes traz reconstruções de nomes como Adrian Sherwood, DaM-FunK, patten e outros.

Washed Out

Uma das grandes estrelas do chillwave, ao lado do Toro Y Moi, Ernest Greene foi surpreendido pelo sucesso das próprias canções, feitas no quarto de casa e disponiblizadas online. “Feel It All Around” é a trilha de abertura do seriado “Portlandia”, aumentando ainda mais o alcance de suas músicas contemplativas, para ouvir esticado na praia ou olhando pras árvores.

Emeralds

Um dos integrantes da banda, o guitarrista Mark McGuire, estava originalmente escalado para o Nova Frequências com o seu projeto solo, mas acabou cancelando sua vinda. O Emeralds não tem planos para lançar um segundo disco, mas se viessem seria uma boa oportunidade para McGuire também se apresentar.

Chet Faker

Só pra manter uma atração com trocadilho no nome, sai Com Truise, entra Chet Faker (já falamos dele aqui na coluna, assim como do Eltron John). O australiano classifica sua música como “future beat, downtempo, post-dusbstep, sex”. Pra entender, tem o atalho dos remixes: ele já produziu versões estranhíssimas de “Nude” (Radiohead) e “No Diggity” (Blackstreet).

Tchequirau

Enquanto o Spotify, melhor serviço de assinatura de música por streaming, não desembarca por aqui, temos os gratuitos Grooveshark, seguindo forte (com visual melhorado) e a versão brasileira do Rdio.

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Transcultura # 066: Anna-Anna // “Adress Is Approximate”

Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”,que publico todas as sextas no jornal O Globo:

As muitas faces de Anna-Anna
Artista plástica e designer, a brasileira Manuela Leal investe em projeto musical que já foi notícia no Guardian e na i-D
por Bruno Natal

De volta ao Rio após alguns anos em Nova York, a artista plástica e designer Manuela Leal, 32, não tem vergonha. Pra divulgar o seu projeto musical Anna-Anna, ela não pensa duas vezes antes de contactar os veículos de imprensa que ela lê e acredita estarem alinhados com a sua sonoridade. Foi assim que ela conseguiu espaço na badalada coluna “New band of the day” (Banda nova do dia), do jornal inglês Guardian, e na cultuada revista de cultura pop i-D. Foi assim que ela chegou até a Transcultura também. O resultado de suas práticas atestam velocidade com que conteúdo trafega hoje em dia.

- Hoje qualquer um é uma gravadora independente. Amava capas de discos e achei uma boa idéia realmente fazer música para a entidade e  identidade visual que estava criando, tinha um sonho de “gravar um disco”. Coloquei na rede e uma semana depois mandei pros blogues da vida e recebi a resposta do Guardian.  Os ingleses realmente são abertos e procuram músicas mais experimentais. Depois recebi um email da BBC, e um email da i-D. É claro que eu não fui mandando cegamente, já lia as colunas obsessivamente e conhecia o perfil – explica Manuela, detalhando um processo muitas vezes ignorado por quem quer divulgar algo.

Os sons fantasmagóricos, espaciais e sem batidas do Anna-Anna surpreendem, principalmente por se tratar do seu primeiro projeto musical. Atuando como artista plástica e designer no mundo corporativo, Manuela estudou moda e belas artes na Parsons e fez mestrado em Yale, antes de decidir voltar ao Brasil para conhecer melhor o país onde nasceu, já que não havia morado por aqui depois de adulta – e para retomar a música, que estudou na adolescência.

- Usar o seu próprio nome tem um ar assim de verdade naturalesca que é o oposto do que procuro.  Prefiro a ideia da ficção, onde tudo é possível, onde se pode construir um mundo a parte.  A ideia de que a gente é o que a gente escolhe, não o que se nasce.  Sabia que escreveria em inglês e sabia que com o nome que tenho seria enquadrada no ângulo “cantora latina”, com a  expectativa de uma sonoridade específica. Anna-Anna é um nome comum  e neutro que funciona em qualquer idioma.  É o nome duplo, o nome da Anna Magnani, é qualquer uma e todas ao mesmo tempo – fala Manuela.

As influências citadas  vão de pós-punk, Nick Cave, Scott Walker, Lee Hazlewood a Serge Gainsbourg e Nico. As produções abusam de efeitos como eco e delay. Instrumentos tradicionais não tem vez e Manuela produz no computador, utilizando sintetizadores e o programa Ableton Live. Tudo a serviço das letras.

- Comecei obcecada por letras.  Queria escrever sobre esses eventos sobrenaturais, um mundo onde tudo é possível, super-poderes, viagem ao tempo, coisas assim. Gravei os vocais e fui fazendo o resto em volta disso.  Batidas não foram a prioridade, mas no momento estou incorporando-as.  Com tudo isso, me apaixonei pelo Clams Casino e essa coisa mais psicodélica que está rolando com as produções de hip-hop, tipo ASAP Rocky.

O Anna-Anna é tão novo que ainda não se apresentou ao vivo. Antes disso, Manuela pretende gravar mais coisas e elaborar uma maneira de integrar seus trabalhos de arte visual e suas virtudes poliglotas com o resto do projeto.

- Estou gravando, em inglês,  o equivalente a um LP e vou lançar no primeiro trimestre de 2012; Vou escrever também em português, um disco sobre o país que me alimentou no “exílio”, um oásis de ficção, o “Brasil” de um passado congelado que carreguei comigo enquanto morei fora.  E, finalmente, um faixa em francês, uma carta a Paul Valéry e Baudelaire sobre o estado da vida de espírito, hoje.

Ao que parece, a volta ao Brasil foi inspiradora. Manuela concorda.

- Sempre quis voltar, mas é recomeçar quase do zero, retomando antigos sonhos. Voltei em março de 2010, não sei  dimensionar ainda exatamente o campo de trabalho aqui (risos). Acho que tenho campo maior para esse tipo de  trabalho no exterior, onde tenho tido mais respostas e onde estou planejando fazer shows em 2012.

Tchequirau

Projeto pessoal do diretor Tom Jenkins (não é publicidade, segundo a produtora), o curta “Adress Is Approximate” mostra um robô de brinquedo fazendo uma viagem de carro a partir da mesa de escritório através do Google Street View. Belezura.

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Transcultura # 065: Pipo Perogaro, Bixiga 70 // Julio Bashmore


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Retomando a coluna depois de uma breve pausa, meu texto da sexta passada da “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Intercessões:  Pipo Pegoraro e Bixiga 70
por Bruno Natal

Envolvido com música desde cedo, trabalhando em estúdios e compondo, Pipo Perogaro fez tudo sozinho em seu primeiro disco, gravando todos os instrumentos. Trabalho solo levado ao pé da letra,”Intro” teve pouca repercussão. No segundo disco, optou por outra estética, buscando uma sonoridade coletiva, tendo como referência Gilberto Gil, Itamar Assumpção e – muito importante, você já saberá porque – Fela Kuti. Co-produzido por Bruno Morais (músico paulista do bom “A Vontade Superstar”), o segundo disco, “Taxi Imã” teve o efeito que o primeiro disco não teve: colocou o groove-bossa-afro-dub do Pipo no mapa.

Para além das composições e da produção, muito do apelo do disco está nos instrumentais. Sem saber, Pipo montou um grupo tão bom que pouco depois das gravações esse músicos formaram uma das bandas mais comentadas de 2011, o Bixiga 70, dedicado ao afrobeat (olha a presença do Fela Kuti aí).

- Eu já tocava com Marcelo Dworecki, Décio7, Cris Scabello (baixo, bateria e guitarra, respectivamente) e Daniel a mais ou menos um ano e meio antes das gravações. Quando começamos a pré-produzir o disco, eu e Bruno começamos a pensar nas pessoas que poderiam expressar o som que gostaríamos para as canções. Então, foi espontâneo que a banda “matriz” continuasse e outros músicos que admirávamos, como o Maurício Fleury, Cuca Teixeira, entre outros que hoje formam o Bixiga 70, chegassem para fazer o disco – explica Pipo.

O tecladista do Bixiga 70, Mauricio Fleury, complementa.

- A partir das composições do Pipo, começamos a conversar sobre as influências que transpareciam no trabalho, música latina, africana, brasileira, psicodelia anos 70. O diálogo seguiu após o fim das gravações. Foi quando surgiu o primeiro tema que fiz inspirado nessas conversas, “Grito de Paz”, que já apontava pra essas influências. Convidei o Décio 7 pra gravar baterias e percussão na gravação dessa faixa e ele teve o estalo: “temos que montar uma banda pra tocar esses sons”

A intercessão entre músicos de uma mesma cidade ou circuito em diferentes projetos dá a ideia de uma cena em andamento. Para Pipo, isso é mera consequência das trocas entre os artistas.

- Todos precisamos muito uns dos outros para estabelecer nossas movimentações, aprimorar idéias e para haver um amadurecimento dos trabalhos. Creio ser a troca a grande “moeda” que possuímos. Na maioria das vezes faço a mesa de som dos shows do Bixiga e o Cris, guitarrista, deles, também faz nos meus shows.

Mauricio complementa, destacando que o que importa é criar um contexto para um som instrumental, dançante para o qual ainda não tem referências diretas.

- Estamos num momento muito bom de troca entre os músicos de São Paulo e de fora e é muito legal ver como estamos conectando diferentes estilos. A cada combinação diferente de músicos, uma nova situação vai surgir. É um processo caleidoscópico, que se transforma a cada movimento.

O afrobeat tem surgido como influência forte em algumas novas bandas, tendo inspirado a criação inclusive de projetos dedicados exclusivamente ao som nigeriano, como a Abayomy Afrobeat Orquestra e o Afrika Gumbe, no Rio.

- O nosso interesse não é tocar só afrobeat, menos ainda de maneira ‘tradicional’, o que nós fazemos é seguir o hibridismo inerente ao afrobeat, a fusão de ritmos tradicionais com instrumentos elétricos e a linguagem ocidental do jazz, da música latina, etc. O afrobeat já vem sendo trabalhado de forma subliminar na música brasileira há muitos e muitos anos, no disco Refavela de Gilberto Gil ou no movimento pernambucano manguebit dos anos 90. Nos útimos anos aparece também no trabalho de artistas como Céu, Kiko Dinucci e Criolo. A poliritmia africana está muito presente no Brasil, acaba sendo natural para os artistas aliar essas influências às que nós já temos por aqui – avalia Mauricio.

Pipo concorda e amplia a zona de influência.

- Nessa caldeira musical trasbordante que nosso país possui, grandes mestres, maestros da composição que nos mostram caminhos lindos de percurso e paisagem para desfrutar a atenção à música, não consigo ficar pacato ao ouvir uma música de Gilberto Gil, Pedro Luís, Dorival Caymmi ou Luiz Gonzaga. É nessas pinturas musicais multi dimensionais que humildemente tento caminhar e apreciar a paisagem.

Tchequirau

Nascido e criado em Bristol, na Inglaterra, terra do Massive Attack e de uma cena de graves pesadíssima, o produtor Julio Bashmore faz house filtrado por influências de 2step e UK garage e funky.

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Transcultura # 063: SILVA // Wado

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O doce embalo do SILVA
por Bruno Natal

Esses dias, um EP surgiu na rede e logo chamou atenção. Entitulado apenas “SILVA”, assim mesmo, com tudo em maiúsculas, o link se espalhou pelas redes sociais e a notícia estava dada: tem um artista novo na praça. O nome por trás das faixas é o capixaba Lúcio Souza, 23, terminando a faculdade de violino. As referências eruditas param por aí. As sonoridade mais próximas do lo-fi feito por bandas como Youth Lagoon, Toro Y Moi e El Guincho, música contemplativa, de batidas eletrônicas discretas, pra espreguiçar, e letras em português remetendo a Los Hermanos e Moreno Veloso.

Latest tracks by SILVΑ

- Inicialmente queria um som seco e orgânico, mas aos poucos fui descobrindo um movimento eletrônico com vocal que me agradou bastante. Estava ouvindo o que está rolando na música de vários lugares e quis contextualizar minha música, fazer um som que escapasse um pouco do que eu estava acostumado a ouvir em português. Nessa era da internet não é muito fácil citar todas as influências. Ultimamente tenho ouvido muito os lançamentos da Hemlock, sou fã do Kanye West, gosto de El Guincho, Andrew Bird, gosto da Céu. Gosto de ouvir tantas coisas que não conseguiria apontar uma raíz – explica o Lúcio.

Produzido pelo amigo Lucas Paiva, o disco levou 5 meses pra ficar pronto e todos os instrumentos foram gravados pelo próprio Lúcio, tirando algumas participações. A masterização foi feita por Matt Colton, responsável pelo disco do James Blake.

- Gravei com os instrumentos que tinha em casa: violino, piano, piano elétrico, guitarra, surdo, caixa, sintetizador. O Paiva criou um dos riffs de “Cansei” e em “Acidental”, criou vários elementos e aquele clima embaçado da música. Também convidei um trompetista para gravar as linhas de sopro de “12 de maio”. O EP foi gravado em três lugares diferentes, no Visom, na minha casa e no Costa Brava (casa do Paiva, que co-produziu e mixou o trabalho). Eu toquei o que podia, o Paiva tocou uns synths e só. Eu e o Paiva já gostávamos do trabalho do Matt Colton com o Sandwell District, Frozen Border, Horizontal Ground e alguns trabalhos da cena eletrônica da Europa. O Matt trabalha muito bem com o grave e a intenção era fazer o disco soar assim – lista.

Antes desse projeto, Lúcio já havia tido outras bandas, claro. A experiência mais marcante foi como músico nas ruas da Irlanda, em 2009.

- Cheguei em Dublin no auge da crise econômica e aquele foi o trabalho que apareceu e me sustentou. As pessoas de lá conheciam a banda que tocava na Grafton Street todos os dias. Depois vieram os pubs e os festivais de música independente que acontecem por lá. Acho que isso mudou bastante a minha cabeça musical, antes eu nem pensava em usar meu violino no meu som. A banda tocava uma mistura de blues, r&b, disco e cada um era de um país diferente.

A experiência de gravar sozinho foi produtiva, porém Lúcio está montando uma banda para poder levar o SILVA para os palcos e finalmente interagir com parceiros musicais.

- Fazer sozinho é bem solitário, mas foi a forma que arrumei de fazer o som que me vinha à cabeça. Não consegui achar pessoas próximas a mim que estivessem dispostas a gastar tempo com as músicas. Meus amigos da faculdade são daqueles que lêem partituras como ninguém, mas não conseguem criar um riff de guitarra sequer. Também tenho amigos que tocam muito bem seus instrumentos, mas não têm paciência de investir na idéia. Para fazer todos os arranjos do disco no palco, teria que chamar pelo menos umas seis pessoas. Quero fechar com quatro, mudar alguma coisa ou outra e deixar tudo bem verdadeiro. Estou tentando preencher os vazios com pessoas que tenho conhecido ao longo do caminho.

Tchequirau

Nasceu o disco do Wado. “Samba 808″ passa muito bem, tem dez músicas e participações de Marcelo Camelo, Curumin, entre outros, e pode ser visitado (e adotado) em wado.com.br

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Transcultura # 062: Pazes // PressPausePlay

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Paz da música eletrônica
Estudante Lucas Febraro mistura influências variadas para fazer colagens etéreas e espaciais
por Bruno Natal

Estudante da Universidade de Brasília, Lucas Febraro é um cara da paz. Gostava de tocar guitarra e MPB, era fã de Martinho da Vila e Paulinho da Viola, até conhecer a música eletrônica, interessar-se por hip-hop e compor com sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas e no computador. Depois disso o sujeito nunca mais foi o mesmo. Tudo mudou. Ou quase tudo. Mesmo chafurdado no temido mundo da música eletrônica, Lucas continuou na paz.

Limbo by Pazes

Tanto é que seu projeto se chama simplesmente “Pazes”. As colagens são etéreas e espaciais, soando como um Flying Lotus dopado. Bom exemplo é a releitura que fez de “Do sétimo andar”, do Los Hermanos. Da original, apenas o vocal de Rodrigo Amarante resistiu, envolto em camadas de teclado, empurradas por um bumbo pulsando de maneira irregular, sem batidas, apenas um contratempo aparecendo aqui e ali. A melancolia da música saltou uns sete andares.

Sétimo Andar by Pazes

- Os vocais em “Do sétimo andar” tiveram algo de Toro Y Moi como inspiração, mas qualquer semelhança fora isso não é intencional. Minhas influências mais fortes são a beat scene de Los Angeles, do Flying Lotus, Teebs, Jeremiah Jae e Matthewdavid, e o dubstep do Burial, James Blake e Blue Daisy – diz ele. – Ando ouvindo também discos muito interessantes de percussão de umbanda e de órgão dos anos 1950 e 60, tipo André Penazzi.

Lucas jogou “Do sétimo andar” e outras faixas on-line e acabou lançando um EP pela Exponential Records, gravadora fundada e gerida pelo Ernest Gonzales, do Mexican With Guns. Após entrar em contato com eles em 2010, em fevereiro deste ano saiu “Pazes, The Southpaw EP”. No mesmo mês da estreia, Lucas se inscreveu na disputada Red Bull Music Academy – evento itinerante que reúne, a cada ano, 30 instrumentistas, DJ, produtores e outros profissionais da música, para oficinas, palestras e apresentações – e foi selecionado para o encontro deste ano, em Madri, de 23 de outubro a 25 de novembro.

- Pretendo lançar outro EP ou LP em breve, antes ou logo após a academia, acho que já amadureci muito musicalmente desde o EP na Exponential e que ele não serve mais de base pra mostrar onde estou. Estou prestes a começar a me apresentar ao vivo, estou me preparando pra tocar en Madri, onde, além das oficinas e atividades, vou me apresentar à noite – fala o produtor.

Com tantas referências estrangeiras, Lucas diz não encontrar muitos pares na cena brasileira, embora admire alguns artistas.

- Nunca ouvi nada muito parecido com o que eu faço no Brasil, os artistas de música eletrônica aqui tendem a ser muito influenciados por gêneros como house, jungle, drum’n'bass, coisas que eu nem sei distinguir muito bem em sonoridade. Ou então fazem coisas tipo electrobossa, principalmente os mais >ita

Tchequirau

“Press pause play”, documentário sobre a revolução digital, o consequente impulso criativo e os efeitos dessa democratização da cultura, cujos trechos pipocaram na rede ao longo do ano, já pode ser visto na íntegra na página do filme.

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Transcultura # 061: Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina, Labrador, Boss in Drama

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O rock numa batida diferente
Uma nova geração de bandas começa a surgir no Rio, fazendo sons pouco convencionais
por Bruno Natal

Depois de uma longa seca e de muitas bandas no mesmo formato “rock”, novos nomes começam a surgir no Rio. Fazendo sons pouco convencionais, grupos como Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina e Labrador vão dando uma clareada no horizonte, trazendo referências pouco presentes por aqui e, principalmente, experimentando. Em comum entre elas, mesmo com as diferenças de sonoridade, está a busca por um novo caminho. Tem sons diferentes vindos do Rio.


doo doo doo

Citando como influência tUnE-YarDs, Toro y Moi, Sany Pitbull, Radiohead e Youssou N’Dour, o doo doo doo ecoa trip hop, White Stripes, Nirvana, Zero, chillwave e pagode numa mesma faixa, caso da boa “Maré Exquizita”. Por volta dos 30 anos, os integrantes vem de outras bandas (Cabaret Cru, Bloco Cru, Aquaria, Sala do Sino).

- O Alberto Kury é maestro, com formação academica da pesada e escolado no heavy metal, o Pablo Lisboa puxa pro popular e progressivo, até que o Marcelo Renovato, também guitarrista e geek, descolou uma MPC e completou o grupo. Começamos a ensaiar em meados de 2010. Piramos no pedal de loop da Merril Garbus, compramos um, rearranjamos algumas musicas que o Dudu estava compondo numa vibe meio fim de festa – explica o Eduardo Guedes.


Dorgas

Com amplo acesso a rede, e mais recentemente também a equipamentos, as referências se ampliaram. É o caso da molecada do Dorgas, próxims do oitentismo lo-fi do chillwave. Formada em 2009 depois de todos fracassarem em bandas de rock (“nenhum de nós teve potencial pra isso”, diz um dos integrantes) e com integrantes na faixa dos 20 anos. Soar diferente não é a preocupação principal.

- Nossa “proposta” é ser uma banda de “garotos jovens com instrumentação simples” com um som que não soe que nem um soco na cara, nem como uma versão cartunesca de algo lá de fora e nem como alguma espécie de regionalismo barato. Gosto mais de Smokey Robinson e Marvin Gaye, além de clássicos da house como DJ Sprinkles e Theo Parrish. Eduardo Verdeja curte John Scofield e Steely Dan, o Cassius prefire Joni Mitchell e Lucas Lacs fica feliz ouvindo Tony Allen. Mas todos nós podemos considerar Stevie Wonder como deus supremo – fala Gabriel Guerra.

Para Eduardo Guedes, do doo doo doo, a influência estrangeira é determinante. Com mais gente fazendo música, aumenta também a busca por sons diferentes, o que pode explicar as preferências estéticsa de parte da atual safra de bandas.

- Pode ser uma tentativa de expansão de timbres e climas sonoros, uma tentativa de fugir de uma onda retrô e olhar mais pra frente. A canção nunca vai morrer, esse elemento “voz acompanhada”, isso é recorrente, mesmo nos sons mais malucos. Os anseios mudam, a música também. Vem novos instrumentos, novas possibilidades, novos afetos – diz ele.

O ponto sobre o fim da canção e a continuidade da “voz acompanhada”, assunto recorrente nas discussões sobre o futuro da música, é relevante quando se fala dessas bandas. Em português, inglês ou línguas inventadas, os vocais soam sempre saturados, filtrados, tornando difícil a compreensão das letras. Isso quando não são totalmente nonsense. Os vocais servem mais como um elemento sonoro do que como mensagem.

- Vocais em segundo plano faz com que a pessoa que escuta a música preste atenção na dimensão dela. Quando estão no primeiro plano, acaba ofuscando outros elementos, porque a música trabalha em função da voz. Queríamos que a voz esteja em função da música, até porque nós geralmente compomos o instrumental antes da linha melódica. Pra mim, faz muito mais sentido um garoto de 18 anos escrever uma letra como a nossa do que dizer “quero transar com você” ou “eu te amo” direto, de uma vez – explica Guerra, do Dorgas.

O doo doo doo pensa de maneira semelhante:

- Damos muita importância para as letras, mesmo embaladas nos reverbs e nos delays, elas são a própria musica, estão em total sintonia com os timbres e as levadas. Talvez seja uma coisa mais fragmentada, irracional, de sentidos e sensações. A coerência aprisiona em algum sentido os sentidos. Mas isso não quer dizer uma ausência de discurso. E nem tudo é tão abstrato. Tem baião, tem funk carioca. Tem paisagem também. Nebulosas, mas tem – diz Guedes.


Labrador

Formado por uma turma entre 17 e 19 anos e juntos desde 2006, o Labrador segue por um caminho viajante, dizendo-se influenciados por Gilberto Gil, Beach Boys, The Strokes, Animal Collective e Beatles, além de fãs dos cariocas Marcelo Camelo e R. Sigma.

- Começamos a fazer letras ou poesia porque fazíamos música, e não o contrário. Então, o propósito fonético das palavras acaba sendo mais importante do que o significado, na maioria das vezes. É uma idéia absurda se pensar que tudo d interessante e criativo já foi (ou será) feito no mundo da musica. As possibilidades crescem a cada momento. Hoje retro é a psicodelia – Antonio Pedro Ferraz, ex-integrante aqui da Transcultura.

Internet, equipamentos, influências… Parece fácil fazer um som doidão nos tempos atuais, principalmente agora que eles vão se tornando regra. Certo? Gabriel, do Dorgas, discorda.

- É muito facil ser “esquisito e viajante” com os recursos oferecidos atualmente, mas eu não creio que as pessoas que tenham sido influenciadas por bandas precursoras desses dois adjetivos tenha um pingo de talento que elas tem. O que é fazer som esquisito e viajante, botar reverb, delay e outros efeitos no máximo, esquecer a dinâmica de uma canção e se achar o novo Animal Collective? Pra isso não precisa ter talento, basta o sujeito baixar alguns plug-ins ou comprar alguns pedalzinhos de efeitos mixuruca. Nunca esquecemos de que estamos escrevendo uma canção, com uma boa melodia, um bom gancho e um balanço legal, e não uma parede de efeitos etérea e inócua.


Sobre a Máquina

Esses artistas não estão sozinhos na cena do Rio. Os integrantes do doo doo doo citam Mary Fê e João Brasil, os do Dorgas falam do Chinese Cookie Poets e Sobre a Máquina, que por sua vez cita Terrorims in Tundra. Formado em 2009 com integrantes entre 23 e 26 anos, o Sobre a Máquina se inspira no caos urbano para criar paisagens instrumentais incorporando elementos sonoros como obras, freadas de carro, buzinas, multidões, barcos e todo tipo de ruído que é abafado pelos fones de ouvido.

- Ainda em 1975, Miles Davis disse que o jazz morreu. O rock também morreu e não sabemos porque ver problemas nisso. Na nossa concepção tudo possui um ciclo e o que era chamado de rock hoje em dia é outra coisa. Ver bandas como Radiohead e Nine Inch Nails quebrando certos paradigmas e ainda assim atingindo o “grande público” certamente contribui para o surgimento dessas bandas com propostas diferentes – define Cadu T, do Sobre a Máquina.

Como em qualquer outro caso, encontrar público é uma questão central. Com propostas radicais, esse trabalho pode ficar mais complicado, algo que não chega a incomodar ou balizar as decisões criativas das bandas.

- Quisemos experimentar e nos expressar, só isso. É sentimento. Como usamos uma MPC e não temos bateria, somos quase portáteis. Acho que encontraremos um público, as respostas tem sido boas – Eduardo Guedes, do doo doo doo.

Para Cadu T, a falta de espaço para divulgar, tanto na mídia quando nas casas de show, dificulta o trabalho. – A impressão é de que as pessoas criam barreiras ao que é novo e preferem o caminho mais fácil – diz. Cassius, do Dorgas, contemporiza.

- Como ninguém ganha um centavo pra fazer música hoje em dia, abre-se espaço para as pessoas fazerem o que querem. Com a quantidade de música solta por aí, acaba abrindo a mente das pessoas e acaba facilitando uma banda com um som realmente esquisito conseguir público. Por outro lado, toda semana surgem milhões de novos artistas, gerando preguiça e desatenção com o novo. Caminho tem e sempre terá, mas não sei se tem folêgo para andar muito tempo nele.

São tempos confusos. Natural que a música reflita isso.

Tchequirau

Primeiro disco do Boss In Drama, “Pure Gold” está disponível na página do curitibano. Para escutar o lado A basta um “curtir” no Facebook, para o Lado B uma tuitada garante a audição.

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Transcultura # 060: Moluscontos, “Crave You”

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O estranho universo de Molusconto
por Bruno Natal

Nas palavras do próprio criador, a definição é a seguinte: “contos mirabolantes, surreais e ilógicos, um grande apanhado de situações bizarras transferidas para um micro cosmos de sexo, drogas e diversão. O universo dos vinte e poucos anos”. Inicialmente um blog feito para aliviar o estresse do dia a dia do ex-publicitário Ulisses Oliveira, as histórias absurdas do Moluscontos ganharam visibilidade quando passaram a ser contadas em formato áudio visual.

- Fui desanimando do blog escrito porque me sentia meio solitário ali, com aquelas histórias. Percebi uma certa “preguiça” na maioria das pessoas para leitura. Foi quando resolvi gravar os vídeos. Entrei em contato com uma galera para me ajudar, queria fazer dramaturgia com os contos. Como ninguém retornou, vesti a máscara e resolvi contar histórias para uma câmera – conta Ulisses. – Audiovisual seduz, a pessoa se projeta com mais facilidade nas situações através desse formato. Não é mais fácil produzir vídeo. Tenho muito trabalho de edição, toma um tempo danado.

A produção é simples, focada no Molusco, um sujeito vestindo uma máscara de lucha libre, que conta os causos mais insólitos direto para câmera, num carioquês repleto de gírias e tiradas engraçadas, embalado por uma trilha sonora caprichada. Títulos como “Ninfetaminas”, “Malditos arquitetos” e “A dura” dão ideia do conteúdo.

Somados, os 15 contos gravados até hoje totalizam 700 mil visualizações. É um número alto, especialmente considerando-se que alguns deles chegam a ter 24 minutos, não é fácil segurar alguém na rede por tanto tempo.

- Produzo tudo sozinho. Convido amigos pra participar, mas eles nunca tem tempo. Tento manter o ritmo de um vídeo a cada 20 dias, mas como Moluscontos ainda é no amor, acabo priorizando que me dá retorno, por isso, às vezes demora um mês, 40 dias para sair um conto novo. Tenho muita história ainda pra gravar. Gostaria de lançar um Moluscontos por semana. Mas para isso, seria necessário viver disso – explica Ulisses.

Apesar de focado em histórias de jovens, o autor tem 38 anos.

- Meu público vai de 18 a 40 anos, recebo emails do mundo todo, de brasileiros que se divertem com os vídeos. Achei que fosse esbarrar com alguns conservadores xiitas, mas nem rolou. Fico feliz, pois vejo que agrada à maioria que assiste. Os contos são retalhos do que vivo e vejo no mundo, adaptado ao meu micromundo, sem amarras ou censuras. São doses de descaralhamento com uma pitada de bom senso.

Fica a dúvida: se a identidade não é secreta, pra quê a máscara?

- Porque sou tímido – explica ele. – A máscara é uma forma de me preservar. É comum as pessoas confundirem autor e personagem. Vira e mexe estou em reuniões importantes. Achei prudente a máscara, que acabou virando uma marca. Futuramente terei uma exclusiva do Molusco.

Tchequirau

Esses dias “Crave You” do Flight Facilities ressurgiu aleatoriamente no iPod, depois num blogue e no aplicativo do Hype Machine, do nada. Como é boa essa música: (e ainda tem o mashup do Aeroplane dessa música com com Friendly Fires)

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Transcultura # 059: The Rapture, George Harrison doc

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

As novas ondas surfadas pelo Rapture
Após cinco anos sem gravar, o grupo The Rapture está de volta com o disco “In the grace of your love”
por Bruno Natal

“Navegar, navegar pra longe, sem nunca olhar pra trás”. O verso da música que abre “In The Grace Of Your Love”, terceiro disco do The Rapture, “Sail Away”, descreve o que aconteceu com a banda fez nos últimos anos: sumiu, sem olhar pra trás. Durante o sumiço, o baixista e vocalista Mattie Safer saiu e houve rumores de que seria o fim.

Cinco anos após o lançamento de “Pieces of the People We Love”, no mesmo ano que James Murphy decidiu tirar o LCD Soundsystem de cena, um das principais bandas lançadas pelo seu selo DFA, o The Rapture está de volta – e de volta também ao selo, com o qual rompeu após o primeiro disco, “Echoes”.

Muita coisa mudou de lá pra cá, foi bastante tempo. Agora um trio, com Luke Jenner assumindo os vocais sozinho, o The Rapture mudou também. O disco-punk sujo do primeiro disco e o groove do segundo dão lugar a uma sonoridade mais orgânica, menos editada, mais espacial. Aos 36 anos, Jenner está mais contemplativo, tanto nas letras quanto na sonoridade.

Produzido por Philippe Zdar (integrante do Cassius e também produtor de discos do Phoenix) e com lançamento marcado para 6 de setembro,  “In The Grace Of Your Love”  já está na rede, em diversos formatos. O lançamento do disco num show no último dia 16 no Brooklyn, casa da banda, foi seguida de uma transmissão de vídeo direto dos escritórios da DFA, conhecida como White Out Sessions, em que as músicas foram tocadas a partir do vinil teste do disco, impossibilitando a extração de MP3 de qualidade. Mesmo assim, logo eles surgiram.

Pode ser difícil identificar traços do The Rapture de 2006 em “Roller Coaster” e “Blue Bird”, porém o balanço conhecido da banda dá as caras na primeira música a ser lançada, “How Deep Is Your Love” e também “Never Die Again”. Na faixa título, com o vocal enxarcado de reverb enquanto Jenner repete a frase “In The Grace Of Your Love” tal qual um pastor, nota-se o que ele se esforça para cantar mais e gritar menos. Numa banda que se tornou conhecida muito mais pela atitude do que pelo refinamento técnico (basta ouvir “House of Jealous Lover”), é uma grande mudança.

Fugindo a qualquer parâmetro proposto pela banda, até mesmo nesse disco, a excelente balada “It Takes Time To Be a Man” encerra o disco. Recado dado: para virar homem, leva tempo. Adaptando-se a passagem dos anos, é por esses mares que o The Rapture andou navegando.

Tchequirau

Caçula dos Beatles, George Harrison foi retratado em um documentário por Martin Scorcese. Essa semana surgiu o trailer de “George Harrison: Living In The Material World”.

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Transcultura # 058: Strausz, La Bombación, Windoodles

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O toque leve de uma geração
Novos nas pistas, Diogo Strausz e Bruno Queiroz debatem a cena
por Bruno Natal

Faz algum tempo que a cena de DJs do Rio está se renovando. Novos nomes surgindo e alguns já se estabelecendo. Diferente das gerações anteriores, a turma que está chegando cresceu com a facilidade de ter as ferramenta de produção a mão. O trabalho de produtor vai surgindo com naturalidade, como conseqüência e também necessidade de tocar exatamente o que querem. Parece pouca coisa e até óbvio, porém esse diferencial pode ser o elemento que faltava para renovação da produção da música eletrônica, há um tempo andando em círculos.

Dois desses nomes bateram um papo por email sobre seus respectivos trabalhos. Diogo Strausz, produtor da ópera rock “Zombies Are Making Love” e guitarrasta da banda R. Sigma e Bruno Queiroz, do La Bombación, focado na mistura de referências latinas, africanas e grooves com elementos eletrônicos, trocaram uma idéia sobre a cena, com toda leveza de quem está chegando. Que venha mais gente nova mostrando trabalho.

Diogo Strausz entrevista Bruno Queiroz, do La Bombación:


Bruno Queiroz

DIOGO – Você produz pensando na pista, em casa, no ipod, ou não pensa em nada disso?

BRUNO - Não penso, mas depois eu acabo reparando onde cada música funciona melhor. Tem algumas que não uso no meu set, mas vi outros DJs tocando e até as que se revelam ótimas para caminhar.

Quais recursos e elementos você insere na sua produção para que o ouvinte “viaje” para o lugar desejado?

Samples de mensagens de chat e celular (risos). Quando começo a produzir, já estou inspirado por esse lugar, eu deixo acontecer naturalmente.

Como produtor, você acredita que referências em excesso ajudam ou atrapalham?

Prefiro quando as músicas têm vida própria. Trabalho em duas etapas, começo várias idéias, depois busco uma dessas e desenvolvo.

Como você se posiciona em relação à guerra dos direitos autorais na internet?

Essa briga vêm de empresas que visam o lucro de uma forma antiquada. É necessário rever radicalmente essas leis e modelos de negócio.

O que acha de movimentos como No Wack DJs, de valorização dos DJs “de verdade”?

Para alguns o foco é a técnica, para outros é a misancene ou até o descompromisso. Vejo mérito criar uma identidade, e a partir dela encontrar o seu público.

O que te motivou começar e qual é a que te mantém?

Comecei a gravar ideias cedo, com 15 anos. Me inspirava ouvindo Aphex Twin e imaginando uma música eletrônica menos 4×4. Ser DJ e produtor não é uma ciência exata, estou sempre aprendendo algo novo e isto me motiva.

Aonde foi o lugar com o melhor equipamento de som em que você tocou no Rio?

Dos clubes alternativos, lembro que a Boate 69 tinha o equipamento de som que mais gostava.

Bruno Queiroz, do La Bombación, entrevista Diogo Strausz:


Diogo Strausz

BRUNO – O que veio primeiro, ser DJ ou produtor?

DIOGO – Me levo a sério como DJ desde que comecei a produzir, por dificilmente achar faixas que consigam imprimir o clima que quero nas pistas. As vezes fico imaginando uma música durante a discotecagem que não existe, então a solução é produzi-la.

Nas produções você busca uma linha ou se inspira no momento?

Quando a produção é um remix, tento fazer com que o direcionamento seja o mais oposto da original possível, para que a música saia da sua zona de conforto. Nas faixas originais tento apenas transpor alguma ideia que passou o dia cutucando a minha cabeça.

Qual a diferença entre discotecar e apresentar faixas suas ao vivo?

No live é como se eu pudesse falar com as minhas palavras, como DJ, com as palavra de outras pessoas.

Como você via a cena no Rio de Janeiro quando começou e como vê agora?

Quando comecei a atuar como produtor de festas, achava a cena sem apelo nenhum, agora acho a cena apelativa demais.

Além de DJ, produtor, você também produz festas e faz parte uma banda, tem mais alguma coisa?

Além dessas atividades, gosto de me aventurar de vez enquando no mercado financeiro. É inclusive um ótimo momento para pesquisar músicas, fiz minha última mixtape quase inteira com faixas que achei enquanto aplicava na bolsa.

Pretende focar em algum desse interesses?

A multiplicidade é fundamental, todas as atividades se complementam e geram benefícios umas para as outras.

Tchequirau

O Windoodles reúne desenhos feitos sobre vidros de janelas, integrando as criações com a vista do lado de fora. Viagem total.

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Transcultura # 057: Totoma, Neon Indian

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O funk da fotógrafa
Exposição de Daniela Dacorso, que começa hoje, revela um mergulho no universo dos bailes
por Bruno Natal


M.I.A. e Deize Tigrona na Cidade de Deus
foto: Dani Dacorso

Há mais de dez anos a fotógrafa Daniela Dacorso vem documentando a cena funk no Rio. O marco zero dos registros foi uma reportagem para uma revista alemã no final dos anos 1990, acompanhando Mr. Catra num baile na Rocinha. Com a lente embaçada de suor, sacudida pelo batidão e seduzida pela dança, ela decidiu que queria continuar.

- O universo das favelas e dos subúrbios cariocas já me atrai por si só. A construção do espaço, da imagem e do corpo. O baile é uma explosão, várias cenas que acontecem ao mesmo tempo, em um milésimo de segundo – conta a fotógrafa.

Algumas dessas imagens coletadas na última década estão na exposição “Totoma! – Imagens do funk carioca”, em cartaz no Sesc Tijuca de hoje até 30 de setembro. Não é a primeira vez que as fotos de Daniela enfeitam as paredes de uma galeria.

- Minha exposição anterior, em 2009, no Ateliê da Imagem, era mais focada no corpo, no tesão. Agora, o olhar é mais amplo. Tem menos sexualidade e mais cultura – explica Daniela. – Tem retratos de vários personagens do funk e uma homenagem a Lacraia. Tem fotos da década de 1990, em uma incursão que fiz no baile do Chapéu Mangueira, na época da “Dança da bundinha”. A montagem dos soundsystems virou uma montagem visual, cujas células são fotos desse processo. E tem um políptico do “Passinho do menor da favela”, formado por vários frames de vídeos caseiros que a molecada posta no YouTube, o palco da grande batalha virtual do passinho.

Apesar da recente aceitação (“A hora em que a Deize Tigrona pisou no palco do Tim Festival e a plateia foi abaixo foi um momento de virada”, diz Daniela – N.E. a virada começou três anos antes, em 2003, com o set do DJ Marlboro no mesmo festival), falar em funk continua arrepiando os cabelos de muita gente.

- O preconceito diminuiu, mas as pessoas ainda são cautelosas sobre o assunto. O funk era mais underground, mais restrito às comunidades e aos subúrbios. Não frequentava festa de classe média, não era hypado. Era música de marginal – diz.

Mais para a frente, Daniela tem planos de organizar um livro com as fotos desses mais de dez anos de funk.

- Essa exposição está sendo uma ótima oportunidade de mexer no meu acervo, resgatar fotos que estavam esperando por um segundo olhar – afirma a fotógrafa. – E vejo várias épocas ali representadas, como numa linha do tempo.

Tchequirau

Vender disco não é tarefa fácil. Por isso, o novo do Neon Indian vem com um mimo e tanto: quem fizer a pré-compra do pacote especial de “Era Extraña”, por 50 dólares, leva além do CD, um vinil, um pôster autografado, uma camiseta e um mini-sintetizador analógico.

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Transcultura # 056: Little Roy, Best Coast

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Little Roy faz pequena homenagem ao Nirvana
por Bruno Natal

Se existe uma certeza no universo da música, é que a Jamaica nunca decepciona. No aniversário de 20 anos de lançamento de “Nevermind”, o veterano do rock steady Little Roy (não confundir com U-Roy) preparou uma homenagem: um disco com dez clássicos do Nirvana em versão reggae. O resultado é similar ao obtido em projetos da gravadora Easy Star, como “Dub side of the moon”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Dub Band” e “Radiodread”, releituras que respeitam as duas frentes, o rock e o reggae.

Além dos vocais do Little Roy – figurinha fácil no Studio One nos anos 1960 e 70, tendo trabalhado também com Lee Perry – o disco conta com o guitarrista Junior Marvin, dos Wailers. As músicas escolhidas foram “Dive”, “Come as you are”, “Sliver”, ”Heart-shaped box”, “Very ape”, ”Polly”, “On a plain”, “About a girl”, “Son of a gun” e “Lithium”.

Gravado com equipamentos analógicos, em fita, “Battle For Seattle”, ideia do produtor Prince Fatty, será lançado em setembro pela Ark Recordings, selo de um ex-agente do Nirvana, Russel Warby. A foto da capa foi feita por Charles Peterson, mesmo fotógrafo do primeiro disco do Nirvana, “Bleach”.

Já existem duas apresentações ao vivo marcadas, nos festivais de Reading e Leeds, este mês, na Inglaterra. No texto de divulgação do projeto, Little Roy fala sobre as dificuldades com as letras.
“As letras ficavam muito escondidas no meio da música. Para mim soava como se ele estivesse se lamentando. Você tem que ouvir profundamente para sacar. A melodia sempre estava lá. Então enxerguei a chance de trazer as letras para o primeiro plano para as pessoas realmente escutarem o que Kurt falava.”

Tchequirau

A atriz Drew Barrymore dirigiu o clipe novo do Best Coast. Com a participação da Chloë Moretz, do filme “Kick Ass”, narra a triste história de um amor entre integrantes de gangues rivais.

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Transcultura # 055: Dorgas, Faria & Mori, Pélico, indie deals

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Três artistas, três novas histórias pra contar
Conheça as bandas Pélico, Dorgas e Faria & Mori
por Bruno Natal

A indústria do disco pode definhar, a disputa por atenção pode ficar mais difícil na infinita discoteca on-line, e ainda assim haverá gente querendo montar uma banda. Com o sonho de riqueza e fama cada vez menos provável, abrem-se as portas da criatividade e da experimentação. Assim, todo dia pinta um artista novo que vale a atenção, entortando o samba, o rock ou o que seja. Sem a preocupação de falar com muita gente, os papos ficam mais interessantes. Não por acaso, Pélico e Faria & Mori, de São Paulo, e Dorgas, do Rio, citam suas cidades como influência. Todo mundo tem uma história para contar.

Dorgas:

O que são Dorgas?

Dorgas - É a gente. Somos quatro garotos do Rio que se juntam para fazer música, e o que sai é o esforço coletivo de nossas cabeças.

Defina como quiser, pra quem nunca ouviu o som ficar curioso.

Trilha sonora de filme pornô, música para fazer amor sem camisinha, e acima de tudo, É CLIMA.

Quem são os pares do Dorgas?

Não pensamos em pares, pensamos em amigos. O pessoal do Inverness e do Holger, de São Paulo, são os nossos mais próximos. E tem toda essa galera boa aqui do Rio e do resto do Brasil, e todas aquelas bandas que já se foram e que nos inspiram. Acho que é aí que nos encaixamos, no meio de nossos amigos.

Vocês pretendem viver de música?

Comercial é um conceito variável. Cada época tem a sua noção de comercialidade, e não é tão simples e direto dizer qual é. Acho que cada banda tem o seu público. Não pretendemos viver de música, mas com certeza gostaríamos.

Se qualquer coisa fosse possível, qual seria o projeto mais ambicioso do Dorgas?

Tocar no Madison Square Garden junto com o Stevie Wonder.

Pélico:

Pélico por Pélico.

Pélico – Paulistano da Zona Leste, filho de uma costureira e um contador. Mas fiquem tranquilos, não vou levantar aquela bandeira da origem pobre, infância cheia de privações, adolescência incompreendida e um suposto futuro de glória.

Onde você estava, porque só agora um disco?

Estava por aí me divertindo, ouvindo causos, discutindo filosofia de balcão e cantando uns versos. Então resolvi parar e gravar um disco. Em 2008 “O Último Dia De Um Homem Sem Juízo” saiu, quem quiser pode baixar. Agora um novo disco, “Que Isso Fique Entre Nós”. Novas quadras, novas melodias e um pouco mais de amores mal resolvidos.

Qual a novidade?

Nunca pensei que pudesse me expor de tal forma como faço nesse novo disco. Confesso, perdi o medo do ridículo e fiz 16 confissões em cinquenta e dois minutos.

Quem é sua banda e de que maneira eles participam e influenciam o resultado final do disco?

Minha banda é: no baixo Jesus Sanchez (Los Pirata), na guitarra Régis Damasceno (Cidadão Instigado), na bateria Richard Ribeiro (SP Underground) e na sanfona e piano elétrico Tony Berchmans. Quando posso, tenho o auxílio luxuoso de uma tuba, fagote, clarinete, trombone e trompete. A influencia é total. Meus discos seriam bem sem graça sem a contribuição deles. Especificamente neste novo disco, o maestro Bruno Bonaventure foi primoroso nos arranjos de sopros e violino.

No texto de divulgação escrito pela Tulipa, a cantora define sua amplitude de vozes como uma esquizofrenia. Que papo é esse?

A Tulipa entendeu minha história. Não dá pra cantar o amor de salto alto.

Onde o Pélico se encaixa?

Eu me encaixo onde há canção. Divido meus passos com Rafael Castro & Os Monumentais, Bazar Pamplona, Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Lulina, Apanhador Só, Marcelo Jeneci, Juliano Gauche, Trupe Chá de Boldo e o poeta Paulo César de Carvalho.

Faria & Mori:

O que é o Faria & Mori?

Faria& Mori – É um projeto independente de rock alternativo cantado em português, liderado por mim, André Faria.

Onde você estava esse tempo todo, porque só agora um disco?

Numa sala de reunião, tentando me convencer que conseguiria viver sem tocar. Fiquei 10 anos sem compor, fazendo apenas participações/gravações em bandas de amigos, tipo Tchucbandionis (Recohead), Labo e Burt (projeto punk junto com o baterista Daniel Setti). Mas a música foi mais forte do que eu. Uma quarta-feira, larguei tudo, parcelei uma passagem, fui até Nova York, na Rivington Guitars, comprei um violão Martin 76, voltei na sexta-feira já escrevendo no avião. Compus e toquei o disco em 6 meses, junto com alguns amigos.

Qual foi o resultado?

Faria & Mori são de São Paulo, sua maior influência, e acreditam na língua portuguesa. Acreditam que é sim possível fazer rock nacional sem soar brega, morno ou datado. Acreditam em uma música orgânica e autoral, acreditam e investem em distorção, texturas e pegada. Faria & Mori adoram Yo La Tengo, Sonic Youth, Sebadoh e Tom Jobim. Acreditam que a beleza está nos olhos de quem vê, e nos ouvidos de quem ouve. E amam São Paulo.

Qual sua ocupação e como a música se encaixa nisso?

Eu não sou músico profissional, mas toco desde os 12 anos de idade. Toquei com muita gente em São Paulo. Atualmente trabalho em uma agência de propaganda. E muito dos filmes publicitários que eu crio, eu mesmo faço a trilha.

Quem são os contemporâneos do Faria & Mori?

Gosto e acredito no som do Fábio Goes. É um dos poucos caras que dão a cara para bater, com coragem, talento, postura e sensibilidade. Hoje existe uma invasão de fofura nas bandas/projetos de rock-pop nacional. Aqui no Faria & Mori a gente tenta fazer algo diferente, um pouco mais coerente com a nossa realidade. Aqui em São Paulo não vejo ninguém feliz, fofo ou de bem com a vida. Vejo as pessoas mais introspectivas, reclusas, ou simplesmente conformadas. Outro dia um cara puxou uma arma e ameaçou me matar no trânsito. Não tem como ser muito fofo.

Tchequirau

Sob o nome “Indie Music Deals”, está rolando uma promoção violenta de discos na Amazon. O melhor é que pra divulgar os descontos, tem várias coletâneas pra baixar de graça, com músicas do Yeasayer, Beady Eye, TV on The Radio, Nortec Collective, Ariel Pink, El Perro Del Mar, Memory Tapes, Light Pollution, Toro Y Moi, Dan Deacon… Puro garimpo digital.

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