
Cat Power (URBe Fotos)
Não sobra muito espaço para falar de um show que a própria cantora encerrou com repetidos pedidos de desculpas, distribuindo rosas para platéia. Com uma postura estranha no palco, fugindo dos holofotes e se escondendo pelos cantos, Cat Power não explicou porque sua voz não estava saindo com a força que se esperava.
A banda é OK, sem nenhum destaque (o baterista, talvez), embora tenha sido muito prejudicada pela acústica medonha do HSBC Arena. Trata-se de um ginásio, sem a menor estrutura para um show de música. O baixista viajou até o Rio a toa, pois do seu instrumento nada se ouvia.
Mesmo com tantos problemas, difícil imaginar que o show pudesse ter sido muito melhor. O repertório só de versões (como o último disco da cantora), de baladas de arranjos e estruturas repetitivas, poderia ter funcionado num lugar mais intimista, ou mesmo no Circo Voador. Vai ver, por lá decolava.
Um mês antes da festa, olhando a escalação fechada, bateu uma paranóia de esse ano ter misturado coisa demais. O pop do Boss in Drama com o terror do Apavoramento, os agitados Os Ritmos Digitais e o show calmo do LETTUCE.
Sem falar que o Cine Glória é tão novo que as pessoas mal sabem onde fica. Ou não desconfiam que embaixo da cabeça do Getúlio, na antiga praça do Russel existe um espaço subterrâneo, com cinema e bar. Pra muita gente a ilustração da filipeta (feita pela Arterial) só deve ter feito sentido uma vez lá.
Porém bastou lembrar que é justamente a mistura o sistema nervoso central do URBe. “Tem regra não, lesque”, diria o poeta. É um saite sobre qualquer coisa que seja interessante, e disso a festa estava abarrotada.
E exatametne por isso a festa deu muito certo, sem dúvidas a melhor edição até aqui. Mais de 500 pessoas passaram pela festa e, com a casa lotada, as três horas da manhã ainda havia uma fila gigante de pessoas aguardando, no esquema sai-um-entra-um.
Foi uma pena ver tantos amigos e colaboradores ficarem de fora. Quem esteve do lado de dentro viu uma bela festa.

A instalação da L’Phant
Se tudo deu certo no final, o começo foi caótico. Um festival de lambanças quase botou tudo a perder. A passagem de som estava marcada para as 21h, mas as 21h40 ainda havia uma sessão rolando no cinema, o que atrasou tudo.
Fosse só esse o problema, tudo bem. O lance foi que as três listas de equipamento solicitadas pela atração enviada com antecedência para produção da Matriz (responsável pela casa) foram solenemente ignoradas. Faltando uma hora pra hora marcada pra festa começar, não tinha sub-woofer ou mesmo cabos para ligar os equipamentos na casa!
Por sorte, se ninguém trabalha no escritório, a galera do pesado deu um gás absurdo e conseguimos colocar tudo em pé, minimizando o atraso para 40 minutos — o que é pésssimo e pelo o qual peço desculpas.
Fica o MUITO obrigado ao Pedro Seiler (que esse ano produziu a festa comigo), João Brasil emprestando equipamentos, a Ana e ao Leandro (da Matriz), ao Flavio (chamado na última hora pra resolver galhos), a rapaziada que montou o som e aos funcionários do CIne Glória. Vocês salvaram a festa.
E chega de pitanga que eu prometi que só escreveria um parágrafo sobre isso e já passei da conta.

Projeção da L’Phante na nuca do Getúlio
Montada na entrada, do lado de fora, a exposição da L’Phante pode ser visitada até por aqueles que não conseguiram entrar na festa. Antonio Bokel e Peu Mello montaram uma instalação, composta por um casinha de madeira repleta de trabalhos de novos artistas e uma projeção de fotos.
O espaço fez sucesso e ficou cheio a noite toda. Enquanto em Londres a equipe de remoção de pichações tem aula para reconhecer um Banksy e não fazer besteira, por aqui a Guarda Municipal não entendeu o espírito da coisa e ameaçou remover o “barraco” algumas vezes. Conquistar o respeito e entendimento dos trabalhos de novos artistas é um dos principais objetivos da L’Phante.
A casinha é um aperitivo do que vem por aí. O saite está no ar, a revista impressa é o próximo passo, finalizando com uma galeria para poder expor os trabalhos de maneira permanente.
Lettuce
Marcado para as 23h, o show do LETTUCE começou pouco depois da meia-noite. A princípio o horário preocupou, pois as músicas da banda são calmas e a apresentação no cinema, com o público assistindo sentado. Pra mim, depois de tanta confusão, foi até bom dar uma parada pra respirar.
A carismática Letícia Novaes e parceiro e namorado Lucas Vasconcellos, acompanhados por uma boa banda, resolveram a questão. A decoração com luzes e as trocas de olhares e carícias dos dois no palco foram dando o clima.

LETTUCE
O LETTUCE é uma declaração de amor do casal feita em cima de um palco. Performática, Letícia levou a platéia no bico, lendo seus poemas, interagindo com o divertido telão, apagando as luzes e atuando em frente a uma luz negra.
Deu gosto ver a Letícia tão a vontade . Seus muitos projetos anteriores não refletiam sua criatividade com exatidão. Tentando fazer letras de uma maneira formal, as loucuras escritas e postadas em seu fotolog continuavam melhor que as bandas. Essa equação começa a ser solucionada com o LETTUCE.
Os Ritmos Digitais
Acabado o show, o trio responsável pela festa Os Ritmos Digitais abriu a pista e imediatamente o lugar começou a sacudir. Variando entre 20 e 22 anos, os rapazes tem feito os sets mais bacana que tenho escutado pelo Rio em bastante tempo.
Sem se prender a nenhum gênero, tocam de baile funk a disco music, de remixes da vez a clássicos da música eletrônica — o que não exclusividade deles. O diferencial aqui, como em tudo que presta, é o bom gosto e a capacidade de contextualizar as músicas sem que fique parecendo um balaio de gato.

Milos, Salim e Yugo: Os Ritmos Digitais
É característica dessa geração, que já cresceu na internet. Tem gente que chama de geração DDA, prefiro ver como pessoas que tem capacidade de enxergar em 360 graus. Gente boas demais, Millos Kaiser, Rafael Salim e Yugo são a ponta de uma turma que inclui cineastas, fotógrafos e designers. Todos começando, sim, mas bastante promissores.
Com a pista do jeito que ia, deu trabalho tirar os três dos toca-discos. Vinda de longe, a atração seguinte estava seca pra tocar e já montava os equipamentos.
Boss in Drama
O paranaense Péricles Martins vem chamando atenção com suas produções pop há algum tempo. Recentemente foi citado por Justin Timberlake em seu blogue, com direito até a vídeo do hit “My Favourite Song”. O momento é do Boss in Drama.

Boss in Drama: a pista pega fogo
Péricles já havia tocado por aqui duas vezes, ambas no Dama de Ferro, uma como DJ e outra com o rascunho do seu projeto ao vivo. Essa foi a primeira apresentação oficial do Boss in Drama no Rio e, como pedia a ocasião, ele veio com tudo.
Além do laptop e dos controladores Midi, Péricles canta ao vivo, toca baixo e o também o zaralho, jogando confete, spray de espuma, estourando serpentinas, acendendo velas faíscantes e passando boa parte do set dançando no meio da pista.
O som funkeado, dançante e pop agradou em cheio, sobretudo as meninas, soltando as cinturinhas. Devido as mudanças de horário, coube a mim a ingrata tarefa de tocar em seguida.
O aniversário do URBe tem um elemento mágico, que faz com que tudo dê certo. Como tenho tocado mais com os parceiros da CALZONE na própria festa ou em eventos com dois ou três deles junto, fazia tempo que não tocava tanto tempo.
Ando meio cansado desses sets de revezamento, porque não dá tempo de evoluir muito. Dessa vez, com tempo, lembrei inclusive que sei mixar. Há bastante tempo não saia das carrapetas tão satisfeito. Como em uma hora ninguém veio pedir nenhuma música, imagino que a pista se agradou também.
Apavoramento Sound System
O gran finale da noite ficou por conta do Apavoramento Sound System, parceiros de longa data e sempre presentes nas celebrações do saite. Integrantes do ASS já tocaram com seus diversos projetos paralelos em várias festas.
Dessa vez eles vieram com o projeto oficial, o live mais aterrorizante do planeta. Só faltou o DJ Nepal, tocando em outra festa, mas fora ele, o ASS veio com tudo: dançarinas, MC, telão, o kit completo.

Blunt e John Woo aka Juan Wooles
Infelizmente, o ASS foi o mais prejudicado com os problemas de produção da festa. Tocando dentro do cinema sem um PA de apoio decente, o som não saiu com a pressão de costume, e também não estava sendo reproduzido na pista de dança.
Isso atrapalhou um pouco o começo da apresentação, mas rapidamente as pessoas perceberam que era pra entrar na sala e o baile começou.
Foi uma espécie de ensaio aberto do novo show do grupo. De dentro da cabine de projeção, John Woo e Blunt comandavam o telão e os graves, enquanto no palco o MC Neurose e as dançarinas faziam a frente, interagindo com a platéia.
O set foi curto (e encurtado pelos próprios), então logo depois a festa foi entregue novametne aos Ritmos Digitias. As 4 e blau eles começaram tudo outra vez, enchendo a pista e dando continuidade a festa, que foi até, veja só que emblemático, as 6h.

Isabel entrevista Woo
Pra quem perdeu, há ainda uma chance de ao menos ver como foi. A equipe do programa “Bastidores” do Multishow, apresentado pela Isabel Wilker, passou por lá pra fazer uma matéria, entrevistando os artistas e contando um pouco da história da festa. Quando for ao ar eu aviso.
Do lado de cá, em meio a correria e diversão, tirei poucas fotos e, obedecendo ao ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”, mais uma vez não produzi um vídeo decente da festa. Seis festas, sei lá quantas atrações e pouquíssimos registros oficiais. Péssima visão comercial…
Tudo certo, o intuito não é mesmo esse. Quem estava lá curtiu, vai lembrar e contar para os amigos. Como sabemos, o que vale é o boca-a-boca. E ano que vem tem mais.
Depois de uma descansada da maratona (avião-três dias de Coachella-avião), a resenha da terceira visita ao festival mais alto astral da paróquia aparece aqui.
Paul McCartney, Late of The Pier, Lykke Li, Beirut, TV on the Radio, Friendly Fires, Mexican Institute of Sound, Fleet Foxes, YYY, Franz Ferdinand, M.I.A., The Orb, N.A.S.A., Surkin, Gang Gang Dance… Que beleza!
Enquanto isso, coloquei algumas fotos no Flickr do URBe, confere lá.
Copa Jam Band recebe Kassin
fotos e vídeo: URBeTV e URBe Fotos
Samba jazz, Copacabana, um hotel glamuroso… Os bons tempos estão de volta.
Na última quarta-feira, tarde da noite no BB Lanches, o baixista Alberto Continentino contava que estava vindo do Bar do Copa, novo bar do hotel Copacabana Palace, onde está tocando duas vezes por semana com a Copa Jam Band, completa por Marco Tommaso (piano), Widor Santiago (sax) e Renato Massa (bateria).
O programa sensacional tem apenas um porém: os proibitivos R$ 120 cobrados de entrada (sem direito a nenhuma bebida). Inviável.
Apesar disso, alguns detalhes da história daquela noite contados por Alberto aguçaram a busca por uma entrada para esse universo paralelo, ao mesmo tempo tão perto e tão distante.
Toda semana a Copa Jam Band recebe convidados. Na primeira semana foi Thalma de Freitas e naquela noite havia sido Kassin, com repeteco no dia seguinte. Nas próximas semanas participam Domenico Lancelotti e Moreno Veloso. É o +2 parcelado.
Alberto contou que Kassin tinha aparecido na beca, de gel e cabelo pro lado, sapato branco, blusa de botão e calça, fazendo papel de crooner e tocando guitarra. Só a descrição da cena dava vontade de rir. Além da sonzeira prometida, a temporada dava pinta de se tornar histórica.
Na noite seguinte, resolvido o empecilho da entrada, tudo se repetiu. O Bar do Copa, com seus espelhos e jaulas, cumpre tudo que se espera de um bar de hotel. O público misturava amigos dos músicos, hóspedes batucando fora do tempo nas mesinhas e membros da equipe do Kiss com companhias locais (enquanto Gene Simmons jantava na pérgula, do lado de fora).
A noite é dividida em dois atos, com um intervalo de uma hora entre eles. Em ambos o quarteto inicia os trabalhos tocando standards em levada samba jazz. Passado tantos anos desde a revolução do Beco das Garrafas, hoje isso soa “tradicional”.
O repeterório cumpre o papel de oferecer o que muitos visitante buscam — e raramente encontram — quando vem ao Brasil, como um turista em Cuba procurando o som do Buena Vista Social Club ou roots reggae em Kingston.
Ainda assim, há algo no ar, como se o Copa Jam Band buscasse quebrar a sisudez relacionada a bossa nova, ao samba jazz e a toda essa linhagem musical, por vezes levada a sério demais, canonizada de uma maneira talvez não planejada pelos próprios músicos protagonistas.
A maneira encontrada para realizar essa quebra foi a escolha dos convidados, apostando que eles não fariam cerimônia e ajudariam a descontrair o ambiente.
Assim que foi chamado, Kassin ligou sua guitarra, incluindo alguns pedais e foi emendando a sua “Esquecido”, “Meio Desligado” (Mutantes) e uma inédita, um bolero sobre a falta de potássio.
No final, convidou Thalma de Freitas pra cantar “Tranquilo” e mais uma inédita, parceria dela com João Donato, chamada “Enquanto a gente namora”.
Comportado e comedido, Kassin terminou sua apresentação sob aplausos timídos, como pedia a situação. Por uns instantes o bar voltou ao volume normal, após a jam ter se tranformado num show.
Rapidamente um DJ entrou em ação, pra garantir que o bar não esvaziasse. Tascou “Finally” (its happening to me…), da CeCe Peniston, e a noite continuou.
O que quer que tenha ocorrido a partir dali ninguém sabe, ninguém viu. O que acontece em Copacabana, morre em Copacabana.

Radiohead
fotos e vídeos: URBe
Os deuses da músicas ouviram nossas preces e operaram um milagre na Apoteose. O show do Radiohead teve um som perfeito, como nunca se viu naquele lugar. O que um bom técnico de som não é capaz de fazer…
Thom Yorke não passou, segundo algumas fontes, duas horas fazendo aquecimento vocal em vão. Era indispensável que fosse assim para que as delicadas músicas do excelente “In rainbow” que ocupam boa parte do repertório soassem tão boas quanto aparecem no disco.
Infelizmente, o show perfeito em todos aspectos técnicos (a parte gringa da equação) contrasta com a produção capenga a que estamos acostumados (a parte brasileira).
Filas quilométricas para o banheiro, a impossibilidade de pegar bebidas com tranquilidade e a truculência dos seguranças justificam a percepção do público médio (aquele que se precisa conquistar para vender 35 mil ingressos) de que o programa é uma furada.
Ouvir um “vai se fuder” e outros poemas durante um show que custou a bagatela de R$200 (x2) só por ter perguntado se o armário iria ficar mesmo parado na minha frente bloqueando a visão não é uma furada, é um total desrespeito mesmo. Se a produção se interessar — o que eu duvido — anotei o número da camiseta do sujeito.
Los Hermanos, “Todo carnaval tem seu fim”
vídeo: marceloguy (enquanto o do URBe não sobe)
Segunda atração mais esperada da noite, ou a principal para muitos dos que enfrentaram a fila desde cedo para garantir um lugar no gargarejo, o Los Hermanos fez seu primeiro show em dois anos para uma Apoteose ainda vazia.
Contratados a peso de outro, a missão dos Los Hermanos era esgotar os ingressos que teimavam em não sair das bilheterias. Falharam duas vezes: as entradas não esgotaram e o aguardado show foi frio, com a banda desentrosada no palco, mesmo com muitos fãs fazendo o tradicional coral.
A única novidade foi “Cher Antoine”, tocada ao vivo pela primeira vez. De resto, foi abaixo da expectativa (que, sim, eram altas demais), com o show sendo muito prejudicado pela má qualidade de som.
Kraftwerk, “Aero Dynamik”
Espremido entre duas bandas cultuadas como poucas, a reação ao público Kraftwerk era a incógnita da noite. A música eletrônica totalmente sintética foi bem recebida pela turma mais acostumada as guitarras.
A apresentação tem toda a elegância, eficiência e simplicidade que se espera dos alemães. Tem quem diga que a cada turnê o show cai um pouquinho, devido a substituição dos teclados por laptops e, provavelmente, pelo fato de cada vez menos integrantes originais façam parte do grupo, restando apenas um.
Seja como for, toda vez que se assiste ao Kraftwerk o embasbacamento é o mesmo. É como se eles tivessem apertado e girado todos os botões de sintetizadores possíveis e imagináveis antes de todo o mundo.
Você escuta “Trans Europe Express” e pensa “pô, parece baile funk”, ouve “Tour de France” e se questiona como o povo do trance conseguiu estragar e desgastar tantos timbres bonitos, olha pro telão e vê de onde o Daft Punk ou Etienne de Crecy tiraram algumas de suas idéias.
O show curto incluiu as músicas mais conhecidas, como “Radioactivity”, “Autobahn” e “Musique non stop”. Faltou mesmo “Pocket calculator”.
O Kraftwerk serve como matriz para boa parte do que se ouve em música eletrônica hoje, sem soar velho ou antiquado, como se mesmo depois de gravadas essas músicas continuassem sempre a olhar pra frente.
No intervalo antes do início do show do Radiohead, Maurício Valladares fez o que pode ter sido o set de dub com mais ouvintes da história dessa cidade. Certamente Jonny Greenwood, guitarrista/tecladista do Radiohead e conhecido dubhead, aprovou a seleção.
Radiohead, “Idioteque”
O Radiohead entrou em cena com apenas 10 minutos de atraso em relação ao horário divulgado, garantindo uma noite tranquila para todos que dali ainda teriam que voltar para casa. Thom Yorke já chegou apresentando o Radiohead em português.
Nos dias anteriores ao show comentou-se bastante sobre o show no México que, pelo que se sabe, deixou a banda impressionada. Como bom brasileiro, logo pareceu que o troço iria se tornar uma espécie de competição, para decidir o público mais quente.
Logo na abertura, com “15 step”, com a Apoteose bem mais cheia, deu pra perceber que o público era respeitoso com a banda. Cantou-se todas a músicas, mas não aos berros. Bateu-se palmas, mas sem estalar alto as mãos. Os desatentos conversaram durante as baladas (ah, mas como não…), porém menos do que se esperava.
A relação beirava a cerimônia, ainda que os integrantes do Radiohead chamassem o público, como não é do costume deles. Era como se depois de tanta espera, todos quisessem guardar aquelas notas na memória e os próprios gritos fossem um obstáculo. As excessões foram os coros mais fortes em “Karma Police”, “No Surprises” e “Paranoid Android”.
Talvez o Radiohead tenha estranhado a calma da platéia, talvez tenham ficado mesmo decepcionados com o público carioca, conhecido pela empolgação. Sendo esse o caso, provavelmente eles jamais saberão o quanto esse pequeno cuidado dos fãs fala da admiração pela banda.
Radiohead: o telão
Foi uma beleza poder ouvir em detalhes as experimentações de Johnny Greenwood quando se afasta da guitarra e vai mexer nos pedais e nos teclados. As interferências de rádios locais que ele sintoniza durante o começo de “National Anthem” deixaram muita gente sem entender de onde vinha tanto português.
Já tendo visto outros dois shows do Radiohead ano passado, dessa vez resolvi me afastar do palco na parte final, para poder apreciar o cenário de longe. Bom, por isso e porque as costas já estava pedindo arrego mesmo.
Os telões laterais e do fundo do palco mostram a banda de tantas posições que daqui a pouco vai faltar ângulo pra filmar de maneira diferentes. Saturando cores ou fazendo meias fusões, os efeitos aplicados nas imagens são sempre simples e extremamente funcionais. Porque bom gosto, como se sabe, não vem instalado no seu Mac.
Visto de longe, do alto da arquibancada, o cenário ganhava uma moldura bem carioca. A direita brilhava o Cristo Redentor e a esquerda o Morro da Coroa, com seu luminoso “Coroa paz” saudando a platéia. Pena que a banda não teve essa visão, pois diz tanto da cidade.
Dessa distância, os efeitos luminosos do palco ganham outros contornos, assumindo formas imperceptíveis de muito perto. Conversando com Mateus Araújo, ele levantou a hipótese de que durante “Everything in it’s right place” um texto fica correndo pelo palco, em letras gigantescas. Conhecendo a banda, faria sentido. Fica aí mais um enigma para ser desvendado.
Como um presente para platéia, uma demonstração de carinho, o Radiohead encerrou o show com “Creep”, seu primeiro grande sucesso e música que eles raramente tocam.
Foram 25 músicas no total, ainda assim ficou faltando coisa. “Fake plastic trees” e “High and dry” para os fãs de novela, e “Climbing up the walls”, tocada na passagem de som.
“Bom pra caralho”, como disse a banda em bom português ao final do show. Foi mesmo.
–
As músicas:
“15 step”
“Airbag”
“There There”
“All I Need”
“Karma Police”
“Nude”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“The National Anthem”
“The Gloaming”
“Faust Arp”
“No Surprises”
“Jigsaw Falling Into Place”
“Idioteque”
“I Might Be Wrong”
“Street Spirit (Fade Out)”
“Bodysnatchers”
“How To Disappear Completely”
Bis
“Videotape”
“Paranoid Android”
“House of Cards”
“Just”
“Everything In It’s Right Place”
Tris
“You And Whose Army?”
“Reckoner”
“Creep”
* Dá pra assistir boa parte da apresentaçãona página do cybertechno, um doido que tranformou em regra pessoal filmar na íntegra e colocar no YouTube todos os shows que vai (nesse ficaram faltando algumas).








fotos: Bruno Natal/URBe Fotos
Do politicamente incorreto a homenagem, o escracho é a única regra das fantasias dos blocos de carnaval, grande termômetro de popularidade de nomes e assuntos em evidência.
No Cordão do Boi Tatá, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e Amy Winehouse eram onipresentes, além da Paula Oliveira, Padre Adelir Antônio, o Coringa de Heath Ledger e da pirataria.
Tem mais Carnaval Pop no URBe Fotos.
Little Joy, “The next time around”
(em 00:40, no meio da tela, Camelo cantando)
vídeo e fotos: URBe
Mais uma sexta-feira, mais uma ida a Lapa. Como ia dizendo outro dia, o bairro anda a um zilhão por hora. Dessa vez a atração principal da noite era o Circo Voador, onde tocou o Little Joy, “projeto paralelo de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (The Strokes)”, aparente sobrenome da banda.
É o típico evento que no Rio vira um programa, a famosa boa da noite. Na platéia, tinha de tudo; de indies conhecedores de cada integrante aos perdidos; de quem só ouviu falar do LJ a gente gritando “gostoso” para Amarante. É, os fãs do Los Hermanos não são mole não.
Em muitos aspectos a histeria e empolgação do show realmente lembrou as apresentações dos barbudos. Sem falar que músicas como “Keep me in mind” (uma variação acelerada de “O Vento”?) bem poderiam ter saído do repertório do LH.
Na festinha após o show, o baixista gente boa Todd Dahlhoff (Dead Trees e parte do projeto paralelo de outro Strokes, Albert Hammond Jr.) contou que a banda estava preparada para isso, pois Fabrizio já havia alertado que o galego (apelido de Amarante entre o LJ) era grande no Brasil.

Atenção para o horário do início do show. No Circo. Inacreditável!
O que não foi nada, nada comum, foi o respeito aos horários marcado para os shows (ALELUIA!). As 23h30 o Cidadão Instigado já encerrava sua apresentação para os poucos que acreditaram e chegaram na hora. Precisamente as 00h27, o Little Joy pisava o palco, numa cena quase impossível de acreditar em se tratando de Rio ou de Circo Voador.
Antes disso, no momento vergonha alheia da noite, um rapaz anunciou ao microfone que um DVD estaria sendo gravado, quem não concordasse em aparecer que fosse “lá para atrás”, fechando com um constrangedor “é Little Joy no bagulhôu!”. Foi merecidamente vaiado.
Muita gente perdeu o show, basicamente por três motivos. Uns bobeaream e ficaram sem ingresso; outros chegaram atrasado por conta do trânsito infernal na Lapa e arredores (embora alguns culpassem a pontualidade, o que não deixa de ser irônico); e o pior caso: gente que comprou ingresso, chegou a tempo mas não conseguiu ver o show por conta da indesculpável super lotação da casa. Uma mancada e tanto, numa noite de acertos.
Feliz, depois de tanto tempo sem tocar no Brasil, Amarante estava visivelmente contente e não cansava de agradecer, cumprimentar rostos conhecidos na platéia e dizer como era bom estar de volta em casa.
No entanto, era Fabrizio Moretti, aparentemente doidaralhaço, quem ganhava os holofotes. Com algumas frases desconexas, danças bizarras e declarações populistas como “quem está muito feliz? Eu estou muito feliz, sabe porquê? Por causa de vocês!”, divertiu o público.


Sergio Mendes vs Noah Georgeson (foto: Carlie Armstrong)
O resto da banda estava mais na deles. O guitarrista (e produtor do disco) Noah Georgeson chamava mais atenção pela semelhança física com Sergio Mendes, apontada por João Brasil (perguntado, Noah disse que nunca tinha escutado isso antes, sabe-se lá como), e a vocalista Binki Shapiro, apagadinha, protagonizou os momentos fofos. O baterista Matt Romano se destacava pela técnica e pela precisão monstruosa.
Brand new Anna Julia?
A arquibancada estava cheia de amigos de Amarante. O parceiro Camelo, o produtor Kassin, dois terços do Do Amor, Pedro e Jonas Sá, Nina Becker e Vanessa da Mata cantarolavam as músicas. Nesse contexto brazuca, a música com maior potencial de hit do Little Joy, “Brand new start”, ganhou uma nova perspectiva.
Não tinha notado o quanto a pegada, as referências e até a estrutura da canção do Amarante — apesar do andamento bem mais lento e arranjo suave — se assemelha ao grande sucesso do LH, “Anna Júlia”, de Camelo. O “uô uô uôu” que encerra uma e o “oh, no” que fecha a outra escancaram as semelhanças.
Assim como o disco, o show foi bem curto. Tirando uma versão bem apropriada de “This time tomorrow”, do Kinks (”música que todos nós gostamos muito, explicou Amarante), outra de “Walking back to hapiness”, da Helen Shapiro, e uma música nova do LJ, nada foi acrescentado.
Moretti puxa o coro do público: “Último romance” (Los Hermanos)
Show encerrado, até então não havia tocado nenhuma música do Los Hermanos. Isso até Fabrizio ir ao microfone e começar a cantar “Último romance”, iniciando um coro gigantesco, que um encabulado Amarante acertadamente decidiu apenas ouvir e não acompanhar. Fabrizio ria sem parar.
Com esse final, é de se imaginar que o show do Circo tenha sido o ápice da turnê. Os intengrantes disseram que Porto Alegre e Belo Horizonte também foram memoráveis. Apenas São Paulo decepcionou, pela recepção muito fria.
Como suas atividades em seus projetos principais demanda muito tempo dos integrantes (Fabrizio entra em estúdio com o Stokes no mesmo dia que chega de volta aos EUA), a gravação de um DVD na penúltimo data da extensa turnê ( que se encerrará em Recife e viu a banda atravessar os EUA e passear pela Europa tocando em pequenos clubes) dava pinta de final de festa.
O baixista, Todd, afirmou que não é nada disso. A banda continua e tem até músicas suficientes para um segundo disco, que deve vir logo, logo.
Enquanto o disco não vem e a banda não define seus destino, resta a internet. Menos de 12 horas depois, o show estava inteiro no YouTube, filmados de diversos ângulos. Só que ao vivo, é claro, é muito melhor.
Enquanto isralelenses e palestinos travam uma luta sangrenta, a tal Terra Prometida está esquecida, enchendo uma caçamba de entulho numa esquina de Ipanema.

fotos: URBe Fotos (no celular)
Nesse verão, ir à praia no Leblon é como desembarcar no meio de campanha de marketing. Salpicada de guarda-sóis amarelos, a areia parece um grande loteamento da cervejaria que presenteou os barraqueiros com material para alugarem aos banhistas.
Não bastasse começarem a berrar, oferecendo barracas desde quando você ainda está no calçadão, agora os vendedores simplesmentes cravejam a areia com os guarda-sóis desde cedo, de modo que não importa o local que você escolha para sentar, estará quase sempre próximo demais das barracas.
O mais irônico é o slogan escolhido pelos publicitários para enfeitar as barracas: “Praia S.A.”.
“Podia ser pior”, disse o Roto para o Esfarrapado. “Ao menos não tem o nome da empresa escrito, é só o logo”. Ahã. Viva a vida carioca, caótica e sem regulamentação. Ouvi dizer, inclusive, que a prática é ilegal (alguém confirma?).
Enquanto isso, em São Paulo (em SÃO PAULO!) a publicidade nas ruas continua proibida.

Curumin
foto: URBe Fotos (no celular)
Que diferença dois anos podem fazer na carreira de um sujeito. Pode ser pouco, porém nesse meio tempo o trabalho do Curumin deu um belo salto.
Numa das últimas vezes que esteve por aqui, no HPP de 2007, ainda a bordo do seu regular e único disco “Achados e perdidos”, o paulistano era um ex-baterista em seu primeiro trabalho como homem de frente. As referências samba-rock eram escancaradas demais e, apesar de bem feito, faltava personalidade.
Veio 2008 e Curumin lançou um dos melhores discos do ano. Ao filtrar melhor suas influências, “Japan pop show” acerta onde errou na estréia. O que antes era uma coleção de referências bem marcadas — seja samba-rock, afrobeat, dub — misturou-se com classe, começando a formar uma sonoridade própria, resultado da colisão disso tudo.
Faltava o bom e velho teste do palco. Disco bom é uma coisa, agora disco bom que melhora ao vivo é oooutro papo. Coisa que pouca gente dá conta de fazer. Curumin, novamente, se renovou também nesse sentido.
Ao reduzir sua banda ao mínimo — agora um trio, formado por ele na bateria/vocal/MPC, um baixista/MPC e mais uma pessoa operando somente uma MPC — Curumin transformou também o seu som.
Hoje em dia, quando artista nenhum pode depender da venda de discos para sobreviver, o sujeito tem que fazer shows. Muitos shows. Para conseguir fazer muitos shows num país grande como o Brasil, ajuda muito ter uma banda enxuta.
Além das praticidades econômicas, o novo formato revela também outras facetas do trabalho do Curumin, como a queda para o lado eletrônico, utilizado de uma maneira diferenciada, aproximando seu trabalho do parceiro Lucas Santtana (artistas que sempre colaboram entre si).
Dessa maneira, enquanto a parte rítmica (baixo e bateria) surgem ao vivo, todo os outros elementos das canções (violões, teclados, vocais de apoio, efeitos, etc) se fazem presente via recortes e colagens. Muito além de simplesmente soltar bases pré-gravadas, o que se ouve é uma reinterpretação do que foi gravado para o disco.
Curumin com sua nova formação, numa gravação em estúdio para
um programa de TV e, portanto, um pouquinho sem graça
“Vem menina” emenda em “Turn your lights down low” (Bob Marley), uma versão de “Como é grande o meu amor por você” (Roberto Carlos) quase traz o Cinematéque abaixo, “Japanpopshow” vem inna dancehall style e “Kyoto” vira um hip hop pesadão.
Sem saber o quanto o assunto funk divide opiniões no Rio, Curumin apostou que a pegada Miami de “Caixa preta” iria pegar no Rio e achou graça quando o público riu do seu sotaque (”vocês tiram onda de tudo”, disse).
É verdade, carioca tira onda de tudo, frequentemente até do que não deve. São resquícios de quando isso aqui tinha mais relevância cultural e o sotaque local (não apenas o falado, mas o modo de vida) dominava o cenário.
Aos poucos vai se aprendendo a receber o que vem de fora um pouco melhor, para absorver, reinterpretar e — arrá! — dominar a cena novamente (delírios de grandeza…).
A favor da carioquice, enquanto Jorge Ben pode cantar sobre o Mengo e ser aplaudido em qualquer lugar do Brasil, quando Curumin puxou um Corinthians foi logo vaiado. Os risos voltaram ao som de “Magrela Fever” e “Compacto”, música que é o hit que “Vem menina” prometia ser.
Com apenas dois discos, Curumin vai se transformando em Cacique.
E foi só o primeiro show de 2009. Esse ano promete.
LADO A
Friendly Fires - “Paris”
Ladyhawke - “Paris is burning”
The Teenagers - “Streets of Paris”
Last Shadow Puppets (feat. Alison Mos)- “Paris summer”
Camp - “In Paris with you”
Lupe Fiasco (feat. Pharrell, Q-Tip, Sarah Green) - “Paris” (Tokyo remix)
Europe in Colour -“Last flight to Paris”
Firekites - “Paris”
LADO B
Cats in Paris - “Foxes”
Ladyhawke - “Paris s’enflamme”
Groove Armada - “Paris”
Friendly Fires - “Paris” (Aeroplane Remix Feat. Au Revoir Simone)
Ladyhawke - “Paris is burning” (Cut Copy remix)
Mylo - “Paris Four Hundred” (Etienne De Crécy remix) (link direto: http://tinyurl.com/5lcl6z)
MSTRKRFT - “Paris” (idem: http://tinyurl.com/5744p6)
Do Globo On, sobre Kanye West no TIM:
Acreditou na tal banda quem quis. Com aquele som, só podia ser base pré-gravada ou, no máximo, um DJ.

Sonny Rollins
fotinho fora de foco, feita lááá de longe
URBe Fotos
Para muito além da música, é impressionante como um evento cultural (como o Tim Fest) pode falar tanto de uma cidade (como o Rio) e do estado das coisas.
Um dos dias mais estranhos desse último ano em Londres foi quando descobri, por acaso e apenas no dia seguinte, que havia ocorrido uma etapa do Red Bull Air Race na cidade. No dia do evento, circulei bastante e não notei nada de diferente. Nenhum tumulto, nada de confusão. A corrida só aconteceu para quem esteve interessado em acompanhar.
Quando esse evento (ou outro do mesmo tamanho, ou até menor) acontece no Rio, a cidade pára. Não interessa se você não se importa com corrida de aviões, você está fadado a passar o domingo preso em engarrafamentos e outras alegrias do gênero.
O motivo é muito claro, tem a ver com a carência (não só) do Rio por grandes eventos minimamente bem produzidos — além, óbvio, da infra-estrutura precária. Lembrei dessa história ontem, durante o show do Sonny Rollins.
É essa carência que desperta a quantidade gigante de reclamações em relação ao evento, da produção a escalação. São tão raras as chances de se ver algo interessante que faz disparar o nível de exigência quando elas aparecem, no que em outras circunstâncias deveria ser apenas um show.
Se isso explica os ânimos exaltados em relação ao Tim Fest 2008, não justifica erros como o PA magrelo, sem graves e estalando, os atrasos e o desrespeito com as leis.
Uma das principais reclamações é em relação ao preço dos ingressos, absurdos de caro, ainda mais se comparados com os 100 reais cobrados pelo Planeta Terra pra ver todos os shows da escalação oferecida por eles.
A julgar pelos comentários que se ouvia antes do show, Sonny Rollins deve ser um dos maiores nomes da música no Brasil. A quantidade de vezes que eu ouvi “cara, não perderia esse show por nada, ele é incrível” (o adjetivo da vez, incrível, normalmente é dito com uma expressão meio blasé) faz pensar porque o show do sujeito não é uma data oficial do calendário do Rio.
Carioca é um bicho esquisito. Qual o problema de dizer que estava indo lá atrás da lenda, para conhecer mesmo? Acredito até que essa é uma das funções do evento, divulgar e criar público para a boa música. Não sou entendido em jazz (o que eu conheço um pouco mais e gosto é o samba-jazz brasileiro) e não vejo problema em admitir que se ouvi três músicas do Rollins na vida, foi muito.
O show foi OK, muito prejudicado pela tradicional má qualidade de som (fritando sem parar), por uma iluminação multi-colorida mais apropriada ao Cirque du Soléil e, principalmente, pelo tamanho do lugar. Será sempre um mistério incompreesível porque investem tanto dinheiro em cenografia em vez de equipamentos (e técnicos!) de som de qualidade, num evento de MÚSICA.
Certamente a intenção ao colocar o Sonny Rollins no maior dos palcos foi a melhor possível. Acontece que um show de jazz não cabe num lugar daqueles. Como alguém comentou, “jazz não combina com PA”. Ainda mais com os BPM lentos das músicas tocadas. Perdido, lá no fundo da tenda, entre o vai e vêm das pesssoas, a reação involuntária era a dispersão.
Nas mesas em volta a fumaça subia, sem pudor, apesar do aviso de “proibido fumar” e de uma lei em vigor no Estado. Perguntei ao segurança a respeito disso e a conversa foi curiosa.
Segundo ele, a “orientação era pra não incomodar quem estivesse fumando”. Ué, mas não é uma lei? “Pra você ver…”. Num momento em que se fala tanto em mudanças, é assustador ouvir um troço desses. Mudanças, sim. Lá no quintal dos outros, né.
Na Casa da Matriz, onde a fiscalização está batendo forte, contam que a orientação aos seguranças é bem outra. Na marca do pênalti pra perder a licença, a Casa está cumprindo a lei bonitinho. Como no exterior, além da educação, é a pena que faz a lei ser seguida. A produção do Tim Fest talvez não esteja preocupada com a fiscalização.
Como ia dizendo, um simples evento de música pode falar muito de uma cidade e sua sociedade. Vai vendo.
Semana passada o Decapitator atacou de uma maneira diferente. Em vez de alterar um anúncio existente nas ruas de Londres, o sujeito colou uma impressão holográfica na entrada do pub Foundry, um dos mais bacanas de Old Street.
Umas das três cópias existentes da peça, mostrando o Decapitator em ação sobre uma propaganda da Chandon, vai a leilão na Phillips de Pury, no dia 18 de outubro.
Além de estar sendo feita através de uma das mais respeitadas casas de leilões do mercado, a venda acontece numa das semanas mais importantes do ano, exatamente antes do início da Frieze Art Fair, tida como uma das principais feiras de arte contemporânea do mundo.
Estima-se que “Be fabulous” saia por algo ente 4 e 6 mil libras, mais de 20 mil reais.
A facilidade de acesso a coisas relacionadas a documentário, seja o simples fato de vários deles simplesmente entrarem em cartaz, DVDs, oficinas, festivais ou as sessões especiais organizadas pela BFI, ICA ou Curzon. Sem falar que, no caso meu documentário, “Dub Echoes”, ajudou muito estar por aqui esse tempo para fazerem as coisas acontecerem.
Câmera digital, mp3 player, laptop, celular, bicicleta, tênis… você não apenas pode sair tranquilamente de casa com qualquer uma dessas coisa (ou mais de uma), como também pode utilizar livremente em público sem medo de ficar sem.
Caro, barato, rápido, demorado, ao ar livre, fechado, italiano, francês, japonês, vietnamita, brasileiro, tem de todo jeito e pra todos os gostos. Uma vida só é pouco tempo pra visitar metade das opções de restaurantes da cidade. Ir duas vezes no mesmo já é algo raro.
Acupuntura com uma chinesa que praticamente não fala inglês, um falafel direto das mãos de um sujeito do Oriente Médio, um sound system tocado por jamaicanos, comida indiana, cerveja vietnamita ou até mesmo uma feijoada brasileira. O multiculturalismo é o que dá a graça de Londres, um bom laboratório do que seria um mundo um pouco mais tolerante.
URBe TV: Casiokids, entrevista (legendada) + “Togen hule” ao vivo
Esse Casiokids foi uma das melhores coisas que vi esse ano. Em termos de música eletrônica ao vivo, fica lado a lado com o Soulwax. É muito bom ver um show em vez de assistir um sujeito no laptop.
Bati o olho num EP independente deles na na Rough Trade um tempo atrás, achei o nome curioso, mas não comprei na hora. Quando voltei, já tinha acabado. Procurando por links no Rapidshare, Zshare, Hype Machine e Google não achei anda. Sei lá como esses caras fizeram pra esconder as músicas deles on line hoje em dia.
Casiokids - “Fot i hose”
Nem vale a pena tentar definir o som do Casiokids. Tem referências bem diversas, de música africana a eletrônica maximalista. A galera no palco e a quantidade de teclados lembra o Hot Chip; a pegada alucinada de pista o Soulwax; os ruídos eletrônicos o Late of the Pier; o teatro de sombras, as cabeças de papel machê e o monstro vermelho que invade a platéia, o Flaming Lips.
A música da vídeo entrevista que abre o texto é “Togens hule”, mais calminha, logo na abertura do show. O encerramento foi com o coice “Fot i hose”, clica aí em cima e sente a pressão. A verdade é que estava querendo tanto ver esse show que filmei logo a primeira música pra ficar quicando o resto da noite.
Casiokids - “Gront lys i alle ledd”
Casiokids - “Togens hule”
Dirigir, principalmente numa cidade grande, deve estar no Top 3 de piores programas inventados pelo homem. No Rio ou em São Paulo então, nem se fala. Numa cidade onde o transporte público funciona de maneira exemplar, o carro (particular ou táxi) deixa de ser algo essencial.
O lado ruim é que a maior parte dos ônibus e o metrô param de operar por volta de meia-noite, então isso acaba funcionando como uma forma de controle social, um toque de recolher mal disfarçado.
Mesmo com os transtornos e chateações causados pelas restrições dos horários de funcionamento, poder circular pela cidade sem a dor-de-cabeça dos carros ainda é um sonho distante num certo lugar.

Borough Market, o mais conhecido

Broadway Market, um dos muitos escondidos pela cidade
fotos: URBe Fotos
Em poucos lugares do mundo você pode almoçar um sanduíche de chorizo espanhol, adoçar a boca com uma baclava turca e arrematar com um açaí brasileiro ou um suco de acerola (pra matar as saudades), enquanto passeia por barracas de queijos franceses, salsichões alemães, falafel árabes e caldos africanos. Tudo preparado com produtos originais, por pessoas desses países.
Nos mercados de comida de Londres, dos mais conhecidos, como o gigantesco Borough Market, aos menores e mais escondidos, isso é quase uma regra.
Não é tão barato quanto uma ida a feira, é um programa como, sei lá, ir ao cinema, mas vale cada centavo. Porque comer é bom demais.
Segunda, feriado em Londres, foi um dia estranho.
Começou com a organização confusa do Notting Hill Carnival, praticamente impedindo a circulação das pessoas pelas áreas que interessavam, e continuou com um quase-confronto com Tricky (irritado por ter que dividir uma mesa num restaurante em que não há outra maneira de sentar, sendo que foi ele quem chegou depois).
Já de madrugada, enquanto Andrew VanWyngarden, do MGMT, circulava pelas redondezas como se estivesse vestido para um show, uma das festas mais comentadas de Londres, a Durrr estava começando.
Surgida após o fim da Trash, a qual muitos creditam o “renascimento” do rock e o “fim” da ditadura eletrônica nos clubes, ambas foram concebidas por Erol Alkan, dessa vez um pouco mais distante, sem ocupar o posto de residente dos embalos de segunda a noite na The End.
Misturando os tais “novos sons” com pepitas da antiguidade, aparentemente foram absolvidas pela passagem do tempo, toca um pouco de tudo.
Na pista 1, o convidado da noite, Boys Noize, mostrava um techno com influências de electro, retão, sem melodias, pálido em comparação as seus remixes distorcidos. Apesar de misturar os mesmos dois estilos, não teve um pingo da elegância do eletechno de sua conterrânea, Ellen Allien.
Na pista 2, “Electric feel” (MGMT) e “Sensual seduction” (Snoop Dogg) revezavam-se a “Papa don’t preach” (Madonna) a “Buffalo stance” (Neneh Cherry), algumas das músicas em versões remixadas, com graves lá em cima e batidas quebradas e secas.
A Durrr é a única festa que acontece na The End que tem um código de vestimenta, apesar de nunca ser esclarecido exatamente que código é esse. Com isso, muita gente é barrada na porta, perguntando, um tanto humilhados, “o que está errado comigo?”.
Por algum motivo, a festa não pega. Parte da culpa é do público, posudo e preocupado demais em chocar, fantasiados de assaltei-o-armário-da-minha-avó. A outra parte pode ser creditada a produção da festa e da boate.
Na entrada, uma menina levou um belo esporro por ter ousado pagar a entrada de 6 libras em moedas (a caixa argumentava que não podia perder tempo contando moeda, pois queria dançar).
Na pista de dança, duas meninas tomaram uma chamada do segurança ao dar um pulinho para se abraçarem quando se encontraram. Na área de descanso, quem tirar um cochilo é acordado com uma faixo de luz na cara.
Nesse clima, realmente é difícil qualquer festa empolgar Pode ter sido só essa noite, mas que foi estranho, foi.

Cat & Mutton, em London Fields
URBe Fotos
Diferente dos bares e botecos brasileiros, os pubs londrinos não costumam ter garçons, servem cerveja quase quente (as vezes sem gás) e a decoração lembra mais a de um café. Alguns deles oferecem shows de bandas que eventualmente estouram.
A bebedeira exagerada é um dos grandes problemas sociais ingleses e a rapaziada realmente pega pesado. Mesmo assim, existem algumas pérolas que parecem distante disso tudo. Cat & Mutton, Jaguar Shoes, Hoxton Grill (em Hackney) e The Old Bank of England e Ye Olde Cheshire Cheese (no centro) são visitas imperdíveis.
Não interessa se é num lugar fechado, ao ar livre, numa casa bacana ou mesmo de graça numa loja de discos: a qualidade de som nos shows é uma coisa impressionante.
O cuidado se justifica, afinal trata-se “só” do aspecto técnico e de produção mais importante de uma apresentação de música.
Depois de um ano de som sempre limpinho, bem definido e equalizado, dá arrepios só de pensar em voltar a encarar as tradicionais massarocas sonoras do Brasil, mesmo em eventos com grandes patrocínios, que supostamente teriam dinheiro pra fazer diferente.
Inicialmente, os concertos do Stockhausen Day no Royal Albert Hall, parte do BBC Proms, estavam programados como comemorações de 80 anos do compositor alemão.
Após sua inesperada morte, em 2007, os concertos tornaram-se um tributo ao pai da música eletroacústica, um dos mais polêmicos compositores do século 20. Sua obra é tão complexa e experimental, que são as raras as chances de ouvir suas peças tocadas da maneira que foram concebidas, ou mesmo próximo disso.
No dia 02 de agosto, a sinfônica da BBC, com três orquestras tocando simultaneamente, executou duas partes de “Klang” (peça dividida em 24 partes, uma pra cada hora do dia”, “Klang, 13ª hora” (pela primeira vez no Reino Unido) e “Klang, 5ª hora” (pela primeira vez no mundo), além de “Gruppen” e “Kontakte eletrônica “Cosmic Pulses” e da eletrônica “Cosmic pulses”.
Bela homenagem para o mestre, que será novamente homenageado em Londres, em novembro, num festival no South Bank Centre.
URBe TV: Seun Kuti & Egypt 80
fotos: URBe Fotos
Talvez antes mesmo do aspecto musical, o Lovebox, festival de dois dias organizado pelos integrantes do Groove Armada, se destaca pela comida. Reunindo algumas das melhores barracas do Borough Market, quase vira uma tarde gastronômica.
No domingo, os shows de Sebastien Tellier (divertido como sempre), Roni Size (fora de lugar e com o som sem pressão), Buraka Som Sistema (sacudindo a gringalhada), Operator Please (tocando numa cabana tosca), Goldfrapp (fraquinha e brega que só ela), Flaming Lips (também com som ruim), equilibraram a equação.
Quem fez a diferença mesmo foi Seun Kuti, filho mais novo do criador do afrobeat, Fela Kuti.
A frente do Egypt 80 desde a morte de Fela em 1997, nessa que foi sua última banda, Seun Kuti prova que não é um mero herdeiro aproveitador.
12 dos 16 integrantes são veteranos das longas noitadas comandadas pelo pai no The Shrine, sua própria casa de shows — diários! — em Lagos, na Nigéria. É difícil imaginar que músicos desse nível aceitassem ser comandandos por qualquer um.
O caminho escolhido por Seun é mais próximo do pai e diferente do traçado pelo filho mais velho de Fela, seu meio-irmão Femi Kuti (que tocou na derradeira edição do Free Jazz Festival, em 2000), vez ou outra acusado de amaciar o afrobeat para ouvidos estrangeiros.
É uma encruzilhada sem solução aparente: se a escolha é atualizar os camihos, é chamado de água com açucar, se a opção for dar continuidade, pode-se facilmente ser chamado de oportunista.
Felizmente, isso não está acontecendo com Seun, cujo disco de estréia
“Seun Kuti & Fela’s Egypt 80″ está sendo bastante elogiado.
Além do quê, com a leva de afrobeat brotando nos EUA, através do Antibalas, Nomo, Amayo’s Fu-Arkist-Ra ou Ocote Soul Sounds, nada mais justo que o filho do homem também tenha direito a dar sua contribuição.
Durante o show, lembrei da Nação Zumbi e de como seria injusto se não tivessem tido a chance de continuar sem Chico, um direito muito bem exercido por eles. Teríamos perdido uma bela banda e um dos melhores shows brasileiros.
A relação musical de pai e filho no caso dos Kuti, é bem diferente, por exemplo, da dos Marley. Seun toca com a Egypt 80 desde os 8 anos (Femi também) e assim como o pai, foi para Inglaterra estudar música.
Ele tem carisma, energia e talento próprio de sobra, ainda que a semelhança física com Fela (menor que a de Femi) e o jeito de dançar possam criar uma atmosfera saudosista.
Fela Kuti, no Shrine, no documentário,
obrigatório, “Music is a weapon”.
Abrindo o show com uma música de seu pai, “em respeito”, como Seun mesmo disse, suas próprias músicas não ficam para trás.
As frases dos metais grudam na cabeça já na segunda volta, as levadas de guitarra, simples e funcionais fazem a cama para hipnose, enquanto o baixo e a percussão lá na frente vão empurrando o conjunto. A sonoridade solidifica-se na dança das duas vocalistas de apoio.
Se tem um lugar no Brasil onde seria interessante ver esse show acontecer, seria Salvador, talvez fora do carnaval. Seria curioso ver as reações, do público e da banda. Lucas Santtana, dê um alô sobre o assunto.
Seguindo os politizados passos do pai, letras falam do sofrimento africano e clamam por mudanças. “Quero fazer afrobeat para minha geração. Em vez de ‘levante e lute’, será ‘levante e pense’”, disse em entrevista ao Independent.
É curioso como tanta gente gosta de música politizada, mas poucos gostam de política. Em vez de instigar a consciência, esse tipo de música faz o contrário; como se suprisse a necessidade diária de cada cidadão de se indignar. Como se ouvir um disco bastasse.
Seun Kuti segue lutando para que a música continue sendo uma arma.
URBe TV: The Mars Volta
URBe Fotos
Até você entrar em sintonia com a aparente esquizofrenia que está acontecendo no palco, o show do The Mars Volta é um bocado assustador. Alto, agressivo e confuso.
Não é fácil de digerir a massa sonora, misturando a velocidade do speed metal com divisões de jazz, vocais de Robert Plant com trejeitos de Mick Jagger, ruídos industriais com feedbacks de guitarra, camadas de teclado perfuradas por saxofone, percussão e improvisos quilométricos.
Já haviam dito que Roundhouse, local do show, era uma das melhroes, se não a melhor, casa de Londres. E de fato, é.
Construído dentro de um antigo moinho, o espaço circular (por isso o nome, Roundhouse) oferece uma visão de 180° do palco, possibilitando assistir o show de ângulos normalmente reservados para quem está com uma credencial no peito.
Pena que a programação é muito irregular. Com a demolição do Astoria definida, quem sabe alguns shows não acabam indo parar lá.
Passados alguns minutos, um transe coletivo toma conta da platéia. A sonoridade, quase anti-social, não deixa espaço pra respirar. Uma experiência tão intensa que as pessoas quase não se movem.
Liderados pelo guitarrista Omar Alfredo Rodríguez-Lopez e pelo vocalista Cedric Bixler-Zavala, o septeto pode ir do Hurtmold ao Justice, via rock progressivo, em meio acorde.
Quando a apresentação termina, a banda sai do palco sem dizer uma palavra, como no resto do show. Se o recado era de que se tratava de uma das bandas mais originais em atividade, nem precisava falar nada mesmo.

URBe TV (com excessão do Radiohead) e
URBe Fotos (inclusive as fora de foco)
Como dito anteriormente, todos os caminhos apontavam para Bélgica. O que pode ter faltado foi placas sinalizando melhor as intempéries.
Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:
Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.
Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar — afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.
O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.
Dia 1 - onde os urubús tem asa

Uniforme
Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso — e sem o nome de nenhuma mega corporação intrometida no logo do evento — é um mistério.
Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.
Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.
Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.
A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.
E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Já na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.
Vampire Weekend, “A-Punk”
No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial do quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.
O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem intervalos. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.
Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina.
Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com “C” maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.
Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume.
Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.
Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com “Orange crush” e fechando com “Man on the moon”.
Soulwax, “Robot rock” + “Phantom Pt. II”
De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.
Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro), sob o nome Soulwax Nite Versions ênfase é na eletrônica, tocando seus remixes ao vivo.
Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.
Emendando “Gravity’s rainbow” (Klaxons), “NY Excuse” (deles mesmo, explodindo a tenda), “Robot Rock” (Daft Punk) e “Phantom Pt. II” (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).
Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal.
A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.
Dia 2 - lá vem o sol

Jay-Z
Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda.
No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.
Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.
Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: “99 problems”, “Crazy in love” (Beyoncé), “Umbrella” (Rihanna) e a música da estação, “American boy” (Estelle).
A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.
No palco principal (eita, vai-e-vem…), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem está tão longe assim ainda.
Hot Chip, “Ready for the floor”
A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.
Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.
O show deu uma crescida em “Over and over” e na ótima “Ready for the floor”, ficando curioso na versão de “Nothing compares 2 U”, do Prince, imortalizada por Sinead O’Connor.

Digitalism
Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.
Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do que é o “DJ Ibiza”.
Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a “tendenssa” atual, nem todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. O Digitalism certamente funciona melhor de olhos bem fechados.
Dia 3 - dobradinha histórica

MGMT
Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.
A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.
É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si — o que deveria ser uma boa coisa — a turma impaciente do hype debanda.
O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só “mandar um dance”.
O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.
O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e… Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.
Show bom bagarái. Vamos ver como será recebido no Brasil.
O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal.
No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.
Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa.
Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, “On call”, e lançando um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.

Sigur Rós
Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas.
É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.
Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de “Woman in me”, um musicão) e, hoje, assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.
Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.
Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral.
Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca para aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.
Radiohead, “Climb up the walls”
Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.
A grande “falta de sorte” foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.
A inclusão de “Paranoid android” fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) “In rainbows” foi tocado quase integralmente e “Climb up the walls” surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.
Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que ocasionou um espreme-espreme raro por essas bandas.
Na tentativa de evitar o tumulto no final da apresentação, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.
Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando “Everything in it’s right place”, antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.
Dia 4 - arrancada final

Hercules & Love Affair
Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.
O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.

Mark Ronson
Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos.
A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm… contemporâneo.
Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.
Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre “Toxic” (Britney Spears), “Just” (Radiohead), “Stop me” (The Smiths) e “God put a smile upon your face” (Coldplay).
O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.
O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.
A catarse provocada por “Valerie”, logicamente sem Amy Winehouse nos vocais, prova o contrário.
Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.

Racounteurs
Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de “projeto paralelo do guitarrista Jack White”. O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.
Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada boba, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.

Justice
O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.
Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.
Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de “Genesis”, prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.
O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, que durou uns 20 segundos, mais pra Poison do que pra Metallica.

Beck
Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, “Modern guilt” e alguns de suas melhores canções.
Entre “Loser”, “Devil’s haircut”, “New polution”, “Where it’s at”, o grande momento foi “Everybody’s got to learn sometime”, do The Korgis, que fez parte da trilha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.
Moído, restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.
São e salvo.
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